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“É muito difícil pensar em ’ser escritor’ quando se nasce num país em
que ninguém lê: os pobres porque não sabem ou porque não possuem
meios para adquirir conhecimentos, e os ricos porque não sentem
vontade. Numa sociedade assim, querer ser escritor não é optar por
uma profissão, mas por um ato de loucura.” MARIO VARGAS LLOSA

31/07/2006 - 17:05

O ponto a que chegamos

O ponto coroa a realização do pensamento, proporciona a ilusão de um término, possui uma certa altivez que nasce, como em Napoleão, do seu tamanho diminuto.

Alberto Manguel, escritor argentino naturalizado canadense – que os leitores brasileiros conhecem de “Uma história da leitura”, da Companhia das Letras, entre outros títulos –, publicou neste fim de semana no Babelia, suplemento literário do jornal espanhol “El Pais”, uma pequena e saborosa crônica sobre a mais simples e genial das convenções tipográficas, uma criação do Renascimento sem a qual a leitura como a conhecemos não existiria: o ponto. Conta Manguel que os mais estranhos métodos de indicar o fim das frases foram experimentados ao longo da história, com efeitos confusos para o leitor, até que…

…en 1566, as coisas mudaram. Aldo Manuzio, o Jovem, neto do grande impressor veneziano a quem devemos a invenção do livro de bolso, definiu o ponto em seu manual de pontuação, o Interpungendi ratio. Num latim claro e inequívoco, Manuzio descreveu pela primeira vez seu papel e seu aspecto. Pensou que estava preparando um manual para tipógrafos; não podia saber que outorgava a nós, futuros leitores, os dons do sentido e da música.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:

5 comentários para “O ponto a que chegamos”

  1. Raquel disse:

    São histórias lindas!
    Talvez você, Sérgio Rodrigues, já conheça mas indico assim mesmo o livro Aldo Manuzio, Editor. Tipógrafo. Livreiro de Enric Satué da editora Ateliê Editorial (o número 4 da coleção Artes do Livro).

  2. Karla Lima disse:

    Em 1999, o New York Times publicou algumas revistas (penso que foram tres, mas nao estou certa) para apontar e celebrar as maiores conquistas humanas do primeiro milenio. Na primeira ediçao, alem desta (a melhor pontuaçao, Alberto Manguel), ha outras cronicas tambem muito interessantes: a melhor ideia (Richard Powers), o melhor jogo (Paul Auster), o melhor julgamento (Scott Turow), o melhor conceito (Wole Soyinka), a melhor invençao (Oliver Sacks), o melhor achado (Umberto Eco) e muitos outros. Assunto para uma materia futura, talvez?

  3. João Paulo disse:

    Acho irrelevante e ponto.

  4. Antivan Mendes disse:

    Quando li Saramago pela primeira vez, fiquei um pouco atordoado. Ele parece não gostar muito do ponto final, prefere a vírgula, não usa travessões. Os períodos longos e a freqüente ausência de pontos finais nos livros desse escritor português mostram que tais convenções tipográficas são de fato convenções. Mas que ajudam, ajudam.

  5. Karla Lima disse:

    Joao Paulo, seu comentario eh apenas um trocadilho bem-humorado, certo? Imagine como a ausencia de pontuaçao dificultava a compreensao dos textos… “Os senadores condenam eu nao discordo” significa “Os senadores condenam? Eu nao discordo.” ou significa “Os senadores condenam? Eu nao! Discordo!”? Maravilhas da pontuaçao…

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