Arquivo de julho, 2006
31/07/2006 - 17:05
O ponto coroa a realização do pensamento, proporciona a ilusão de um término, possui uma certa altivez que nasce, como em Napoleão, do seu tamanho diminuto.
Alberto Manguel, escritor argentino naturalizado canadense – que os leitores brasileiros conhecem de “Uma história da leitura”, da Companhia das Letras, entre outros títulos –, publicou neste fim de semana no Babelia, suplemento literário do jornal espanhol “El Pais”, uma pequena e saborosa crônica sobre a mais simples e genial das convenções tipográficas, uma criação do Renascimento sem a qual a leitura como a conhecemos não existiria: o ponto. Conta Manguel que os mais estranhos métodos de indicar o fim das frases foram experimentados ao longo da história, com efeitos confusos para o leitor, até que…
…en 1566, as coisas mudaram. Aldo Manuzio, o Jovem, neto do grande impressor veneziano a quem devemos a invenção do livro de bolso, definiu o ponto em seu manual de pontuação, o Interpungendi ratio. Num latim claro e inequívoco, Manuzio descreveu pela primeira vez seu papel e seu aspecto. Pensou que estava preparando um manual para tipógrafos; não podia saber que outorgava a nós, futuros leitores, os dons do sentido e da música.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts
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31/07/2006 - 00:01
Me chame de Ismael e eu não atenderei. Meu nome é Estevão, ou coisa parecida. Como todos os homens, sou oitenta por cento água salgada, mas já desisti de puxar destas profundezas qualquer grande besta simbólica. Como a própria baleia, vivo de pequenos peixes da superfície, que pouco significam mas alimentam. Você talvez tenha visto alguns dos meus livros nas bancas. Todo homem, depois dos quarenta, abdica das suas fomes, salvo a que o mantém vivo. São aqueles livros mal impressos em papel jornal, com capas coloridas em que uma mulher com grandes peitos de fora está sempre prestes a sofrer uma desgraça. Escrevo um livro por mês, com vários pseudônimos americanos, embora meu herói – não sei se você notou – sempre se chame Conrad. Conrad James. Herman Conrad. Um ex-marinheiro de poucas palavras. Um peixe pequeno, mas mais de uma cidade foi salva da catástrofe pela sua ação decisiva entre as páginas 90 e 95. Tenho uma fórmula: a grande trepada por volta da página 40, o encontro final com o vilão, e o desenlace, a partir da página 90. Sobrevivo. Nunca mais vi o mar.
O início de “O jardim do diabo” (L&PM, 1988) não é marcante apenas pela deliciosa prosa metalingüística que brinca com a literatura policial descartável enquanto acena para autores respeitáveis como Melville e Conrad – tudo sem perder o foco da tensão narrativa. É histórico também porque congela o momento em que Luis Fernando Verissimo, já então consagrado como cronista e cartunista, estréia no romance. Não foi propriamente uma estréia espontânea: a MPM Propaganda lhe encomendou uma narrativa longa para dar de presente de fim de ano a seus melhores clientes. Só mais tarde “O jardim do diabo” chegaria às livrarias, sem, porém, jamais atingir a popularidade de outros trabalhos do autor. O que é meio estranho. Os dois romances seguintes de Verissimo – “O clube dos anjos” e “Borges e os orangotangos eternos” – são divertidos, mas “O jardim do diabo” é melhor. Até hoje gosto de revisitá-lo de vez em quando, o que basta para desmentir a tese de que todo homem abdica de suas fomes depois dos quarenta.
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30/07/2006 - 00:01
Esta podia estar no blog do Ryff, mas vamos lá: a milionária indústria de picaretagem que gira em torno de “O código da Vinci”, de Dan Brown, acaba de pôr na rua seu produto mais bizarro. A escritora americana Kathleen McGowan publicou um tijolo de 464 páginas chamado The expected one (“O aguardado” ou coisa assim), sobre Jesus, Madalena e aquela conversa toda que vocês já conhecem. A novidade é que o livro, um romanção em que se mesclam ficção e “pesquisa”, tem como protagonista uma escritora que se descobre descendente direta… de Cristo. Consta que McGowan deixa no ar sem muita sutileza que a herdeira é ela.
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29/07/2006 - 00:01
O Primeira mão de hoje é diferente: traz trecho de um livro ainda não publicado no Brasil. Everyman, o último lançamento do americano Philip Roth (Houghton Mifflin Company, 184 páginas, US$ 16,32 na Amazon.com – a tradução é minha), é simplesmente a novela mais crua que já li sobre envelhecimento e morte. Por suas páginas sopra um vento frio, e sopra tão forte que me afetou o juízo e me fez ceder a este clichê. O título – tirado de um auto medieval sobre a visita da Morte a Everyman – sugere que Roth vai fazer de seu protagonista sem nome o Homem Comum, o cidadão médio. Parece ter sido essa a intenção, mas não é bem o que ocorre. O everyman aqui é por demais americano, urbano, agnóstico, sexualmente atraente e habituado aos confortos da classe média alta – enfim, um personagem de Roth – para se qualificar como homem universal. O fato de seu plano de saúde de primeira qualidade fazer inveja a 99% da população da Terra, porém, não tira pungência da meticulosa descrição dos problemas médicos em fila que vão roubando do personagem, naco por naco, a sua vida. Que essa vida já não fazia muito sentido antes do que Roth chama de “massacre” fica cada vez mais claro à medida que as páginas avançam, o que contribui para deixar aquele vento mais frio ainda. Everyman é um livro estranho. Assimétrico, insatisfatório, inconclusivo, quase que se pode dizer inacabado, parece querer espelhar a própria trajetória humana entre nascimento e morte. E de certa forma consegue.
No trecho abaixo o protagonista, aposentado como diretor de arte de uma grande agência de publicidade, começou a dar aulas de pintura para gente da sua idade a fim de matar o tempo e está às voltas com uma aluna que, sofrendo de dores agudas na coluna vertebral, deixa o ateliê e, a convite dele, vai se deitar em sua cama.
– Você pode continuar deitada aqui se quiser – ele disse para Millicent Kramer depois que ela bebeu um pouco de água.
– Não posso ficar deitada aqui o tempo todo! – ela choramingou. – Simplesmente não posso mais! Eu era tão ágil, tão ativa… Sendo mulher do Gerald, eu tinha que ser. Íamos a todos os lugares. Eu me sentia tão livre. Fomos à China, percorremos a África inteira. Agora eu não posso nem pegar o ônibus para Nova York, a menos que esteja entupida de analgésicos. E eu não sou boa com os analgésicos, eles me deixam completamente amalucada. E mesmo assim, quando eu chego lá, a dor já voltou. Ah, eu lamento tudo isso. Lamento terrivelmente. Todo mundo aqui tem suas provações. Não há nada de especial na minha história e lamento jogar esse peso nas suas costas. Você provavelmente tem sua própria história.
– Uma compressa ajudaria?
– Sabe o que ajudaria? – ela disse. – O som daquela voz que desapareceu. O som do homem excepcional que eu amei. Acho que eu agüentaria tudo isso se ele estivesse aqui. Mas sem ele eu não consigo. Nunca o vi fraquejar uma vez sequer na vida, até que veio o câncer e o esmagou. Não sou o Gerald. Ele concentrava todas as suas forças e encarava, concentrava todo o seu ser e encarava o que precisasse ser feito. Mas eu não consigo. Não consigo mais agüentar a dor. Ela supera tudo. Às vezes parece que não vou suportar nem mais uma hora. Eu digo a mim mesma para ignorar, que não importa tanto. Digo para mim mesma: “Não leve em conta. É um fantasma. É um aborrecimento, nada mais que isso. Não lhe reconheça o poder. Não coopere com ela. Não morda a isca. Não corresponda. Lute. Enfrente na marra. Ou você está no controle ou ela é que está: a escolha é sua!” Eu repito isso para mim mesma um milhão de vezes por dia, como se fosse o Gerald falando, e aí, de repente, a dor fica tão horrível que eu tenho de me deitar no chão no meio do supermercado e todas as palavras perdem o sentido. Ah, eu lamento, de verdade. Detesto lágrimas.
– Todos detestamos – ele respondeu – mas choramos do mesmo jeito. Leia mais »
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Primeira mão
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28/07/2006 - 10:43
Se o Todoprosa falasse de poesia, seria o caso de me declarar surpreso e decepcionado com o dogmatismo exposto pelo escritor e agitador cultural paulistano Nelson de Oliveira em artigo para o jornal curitibano “Rascunho”. Oliveira não deixa escolha aos poetas aspirantes: exige que eles…
…inventem sua própria métrica, evitem o verso de medida fixa, fujam da rima. O poema regularmente metrificado e rimado pertence ao passado glorioso. Hoje seu ritmo mecânico e engessado (cafona até à medula) só faz sentido na música popular e no canto lírico de baixa qualidade. Pensando bem, nem mesmo aí. A literatura não deve ser tratada como passatempo de burocratas afetados e pedantes.
Se o Todoprosa falasse de poesia – mas não fala, não fala –, eu diria que, obviamente, metro fixo e rima são apenas recursos, não têm valor intrínseco para o bem ou para o mal. Vetá-los é tão absurdo quanto declará-los obrigatórios. Principalmente num momento em que, tendo sido tratados com um certo desprezo pelos bem-pensantes por décadas, eles oferecem enorme potencial para o drible na expectativa do leitor, para a obtenção do efeito que não se espera – função básica de qualquer boa literatura, pois não?
O artigo é desalentador porque, pelo menos nesse terreno, pensei que já estivesse estabelecido de uma vez por todas o valor de princípio constitucional do “é proibido proibir” que o jovem Caetano Veloso foi buscar no Maio de 68 parisiense. E que lhe valeu uma vaia consagradora no III Festival Internacional da Canção, em setembro daquele ano, rebatida com um discurso inflamado e genial contra a “juventude que vai sempre, sempre, matar amanhã o velhote inimigo que morreu ontem”.
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27/07/2006 - 18:04
Virou caso de polícia a filmagem, em Londres, do longa-metragem “Brick Lane”, baseado no livro homônimo da princesa do multiculturalismo inglês Monica Ali (leia aqui nota publicada no Todoprosa sobre o último livro da autora). A comunidade bengalesa que Monica Ali retrata no livro – e à qual ela pertence – está revoltada com o que alega ser um retrato preconceituoso e estereotipado de sua gente.
Os protestos ganharam tal vulto que a produtora cancelou as filmagens em locações na região bengalesa de Londres, seguindo o conselho da polícia. Não bastou. Está prevista para domingo uma passeata em que exemplares do livro serão queimados. “Ela tem direito à liberdade de expressão, nós temos o direito de queimar livros”, declarou Abdus Salique, líder de uma certa “Campanha contra o filme Brick Lane de Monica Ali”. O movimento reúne centenas de pessoas e foi lançado oficialmente ontem, segundo reportagem (em inglês) do “Guardian”.
Uma manifestação de trogloditismo? Claro que é. Mas é comovente também. Quer dizer que a ficção, tratada como uma excentricidade cada vez mais irrelevante em termos sociais, ainda é capaz de provocar toda essa mobilização em algum lugar do mundo? Bom saber que o papel não está restrito a cartuns dinamarqueses.
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27/07/2006 - 15:41
O best seller de Dan Brown, cuja tradução já teve oito edições no Irã, não pode mais ser republicado no país. Os exemplares existentes continuarão à venda – presume-se que devidamente inflacionados. O governo se decidiu pelo veto depois de uma campanha de líderes cristãos iranianos. Curiosamente, os cristãos são gatos pingados no país: cerca de 100 mil contra 69 milhões de muçulmanos.
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26/07/2006 - 17:13
Não é segredo para ninguém que o grande Vladimir Nabokov (veja nota abaixo sobre “Lolita”) foi um estudioso de borboletas tão sério que chegou a batizar uma nova espécie e sugerir que preferia a lepidopterologia à literatura. Mas ninguém tinha levado tão longe a relação entre as duas maiores paixões do escritor russo (o xadrez vinha em terceiro lugar) quanto o biólogo e nabokovólogo Dmitry Sokolenko.
Sokolenko organizou em São Petersburgo, cidade natal do autor de “Ada”, a exposição “O código Nabokov”. Trata-se de uma série de grandes painéis com imagens superampliadas da anatomia das borboletas ao lado de fragmentos da obra do escritor – leia a reportagem do “New York Times”, em inglês, mediante cadastro gratuito.
O efeito talvez não seja dos mais feios, mas as ambições de Sokolenko vão além do decorativo. Ele espera provar que o Nabokov escritor deve muito ao Nabokov cientista: “Acho que sua atenção meticulosa aos detalhes (como escritor) só pode ter vindo de sua profissão, daquilo que ele estava fazendo na entomologia”.
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25/07/2006 - 09:43
O bom blog de assuntos culturais do jornal inglês “The Guardian”, chamado Culture Vulture, está pedindo aos seus leitores sugestões de escritores brasileiros – de preferência traduzidos para o inglês, mas não necessariamente. Faz parte de uma seção fixa que eles têm, World Literature Tour, que se limita a pôr um país em foco e deixar o resto por conta dos comentaristas (que precisam ser cadastrados, mas o registro é gratuito). A nota do Brasil entrou no ar ontem e até agora as sugestões andam meio pobres. As melhores não conseguiram ir além de obviedades como Machado de Assis e Clarice Lispector, tal e coisa. Fica aqui a convocação: eu sei que os leitores do Todoprosa podem mostrar àqueles ingleses que nós somos mais do que um país bonito e muito, muito esculhambado. Ou não somos?
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24/07/2006 - 16:29
O fato é que, sob a aparente paz e ordem encontradas em tantos países da América Latina, uma corrente de inconformismo vai atingindo níveis cada vez mais profundos. Exatamente como nos nossos romances e nas nossas peças – e é isso que confere a elas sua atual vitalidade, reconhecida pelo mundo –, também entre as massas a estagnação do subdesenvolvimento está começando a ser desafiada. Os que pensam e os que sofrem estão confluindo para um mesmo caminho. Não há hoje praticamente nenhum romance na América Latina que não pregue a revolta. Em nossos países, romances suaves e etéreos não iriam mesmo convencer nenhum leitor.
É estranho ler “Censura e outros problemas dos escritores latino-americanos” (José Olympio Editora, tradução de Cláudio Figueiredo, 98 páginas, R$ 20), tradução de três conferências de Antonio Callado (1917-1997) escritas em inglês e proferidas em universidades britânicas em fevereiro e março de 1974. Além da coragem do escritor, militante do Partido Comunista, de tocar naqueles temas com a ditadura militar brasileira esbanjando força – ainda estávamos no governo Medici –, o que mais chama a atenção do leitor de hoje é o envelhecimento implacável desses textos.
Não se trata, obviamente, de dizer que os problemas dos países latino-americanos foram resolvidos. Se as ditaduras andam um tanto fora de moda, sabemos que em muitos casos as tragédias se agravaram. O que soa datado em primeiro lugar é o prisma de Callado, “político” num sentido mecanicista. Aquilo que o leva a considerar, por exemplo, um livro menor de Julio Cortázar (“Livro de Manuel”) a obra “mais importante” do escritor argentino apenas por ter guerrilheiros como personagens e um seqüestro político como tema.
Não é só. Envelheceu também tudo o que a lente “revolucionária” de Callado focaliza. Quer dizer que nós, latino-americanos, temos uma vitalidade literária que o mundo reconhece? Era modismo, passou. E em nosso continente os que “pensam” e os que “sofrem” estão confluindo para um mesmo caminho? Era otimismo, feneceu. Todos os nossos romances pregam a revolta porque livros suaves e etéreos não iriam mesmo convencer nenhum leitor? Talvez se possa dizer que ocorre o contrário. E o que seria, aliás, um romance que “prega a revolta”? Será que Callado levaria sua visão da literatura como subproduto da política ao extremo de ser hoje um fã de Ferréz?
Publicadas agora pela primeira vez, pode-se até especular se, permanecendo inéditas, essas três conferências não prestariam melhor serviço a Antonio Callado – um romancista eminentemente político, mas nada ingênuo ou simplista. Não duvido, mas nesse caso perderíamos um curioso documento de época.
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24/07/2006 - 00:01
Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo. Li. Ta.
Pela manhã ela era Lô, não mais que Lô, com seu metro e quarenta e sete de altura e calçando uma única meia soquete. Era Lola ao vestir os jeans desbotados. Era Dolly na escola. Era Dolores sobre a linha pontilhada. Mas em meus braços sempre foi Lolita.
De uma família aristocrática que deixou a Rússia fugindo da Revolução de 1917, Vladimir Nabokov (1899-1977) se mudou para os Estados Unidos em 1940, depois de passar por Berlim e Paris. Já então um escritor maduro – e finíssimo – em sua língua materna, embora pouco conhecido do grande público, dedicou-se tanto a dominar literariamente o inglês que em 1955 lançou nada menos que “Lolita” (Companhia das Letras, 1994, tradução de Jorio Dauster). O escandaloso teor sexual do romance sobre o amor de um homem maduro por uma adolescente transformou Nabokov num estouro comercial. Talvez mais escandaloso que o tema, porém, seja um russo ter se tornado um dos maiores estilistas da história da língua inglesa – feito que, segundo as últimas medições, está fora do alcance de 99,98% dos bons escritores em seu idioma de berço. O famoso início de “Lolita” é uma boa amostra disso.
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23/07/2006 - 00:01
Um livro novo – inédito – de James Bond, o agente 007 criado pelo inglês Ian Fleming? Pois é. A empresa que controla a obra do escritor morto em 1964, a Ian Fleming Publications Ltd., anunciou ter encomendado a um autor “muito famoso e altamente respeitado” um novo livro de Bond, para ser lançado em 2008, quando será comemorado o centenário do nascimento de Fleming. Notícia completa, em inglês, aqui.
Se Robert Ludlum pode continuar literariamente vivo depois de morto (veja aqui como ele consegue), por que Fleming não poderia?
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22/07/2006 - 00:01
Não se pode dizer que o americano Jonathan Safran Foer não seja corajoso. Incensado pela crítica ao estrear no romance em 2002, aos 25 anos, com um relato pouco ortodoxo em torno do Holocausto chamado “Tudo se ilumina” (Rocco, tradução de Paulo Reis e Sérgio Moraes Rego, 368 páginas, R$ 48), Foer – que virá à Flip – construiu seu segundo livro ao redor de mais um grande trauma coletivo. Desta vez, porém, a ferida está bem mais perto de casa, tanto no tempo quanto no espaço – daí se falar em coragem, embora não falte quem fale também em oportunismo. Inevitável. “Extremamente alto & incrivelmente perto” (Rocco, tradução de Daniel Galera, 392 páginas, R$ 47) é conduzido pela narração de um menino brilhante de 9 anos, Oskar, que sofre com a perda de seu pai no ataque terrorista ao World Trade Center. A prosa inventiva de Foer, recheada – e não raro, convenhamos, entulhada – de jogos de linguagem, às vezes parece pesada demais para a criança que a enuncia, mas nem sempre. No fragmento abaixo, Oskar soa absolutamente convincente enquanto ouve as mensagens que seu pai deixou na secretária eletrônica na manhã do atentado.
Uma infinidade de tempo depois, saí da cama e fui para o armário onde guardava o telefone. Não o havia retirado dali desde o pior dos dias. Era simplesmente impossível.
Passo muito tempo pensando naqueles quatro minutos e meio entre eu chegar em casa e o Pai ligar. Stan passou a mão no meu rosto, coisa que ele nunca tinha feito. Peguei o elevador pela última vez. Abri a porta do apartamento, larguei minha mochila e tirei meus sapatos como se tudo estivesse uma maravilha, porque não sabia que na verdade tudo estava horrível, e como poderia saber? Fiz carinho no Buckminster para mostrar que amava ele. Fui ao telefone checar as mensagens e escutei uma depois da outra.
Mensagem um: 8h52 da manhã.
Mensagem dois: 9h12 da manhã.
Mensagem três: 9h31 da manhã.
Mensagem quatro: 9h46 da manhã.
Mensagem cinco: 10h04 da manhã.
Pensei em ligar pra Mãe. Pensei em pegar meu walkie-talkie e entrar em contato com a Vó. Voltei para a primeira mensagem e escutei todas elas de novo. Olhei para o meu relógio. Eram 10h22:21. Pensei em fugir e nunca mais falar com ninguém. Pensei em me esconder debaixo da cama. Pensei em correr até o centro da cidade para ver se havia um jeito de eu mesmo resgatá-lo. E aí o telefone tocou. Olhei para o meu relógio. Eram 10h22:27. Leia mais »
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Primeira mão
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21/07/2006 - 16:48
O próximo livro do americano Thomas Pynchon se chama Against the day (“Contra o dia”), tem mais de 900 páginas e será publicado no dia 5 de dezembro pela Penguin. Excitante? Não falta quem ache. Considerado um dos maiores escritores vivos por muita gente – e um dos mais ilegíveis por outro tanto –, não se pode negar que o americano Thomas Pynchon, de 69 anos, conseguiu se tornar uma lenda pop com sua decisão de, como J.D. Salinger, jamais se deixar fotografar ou dar entrevistas. Autor de romances caudalosos marcados por uma profusão de personagens, situações e registros de linguagem, além de uma lógica interna toda própria, Pynchon não publica um livro novo desde “Mason e Dixon”, de 1997 (aqui lançado em 2004 pela Companhia das Letras, com tradução de Paulo Henriques Britto).
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts
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