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“O fato é que o valor intrínseco do livro, peça ou
qualquer outra coisa que o autor esteja tentando vender
é o último e menos importante fator da transação. É provável
que não haja outro ramo da indústria em que seja tão tênue
a relação entre lucro e valor real, ou em que a pura sorte
tenha papel tão destacado.” GEORGE BERNARD SHAW

Arquivo de junho, 2006

30/06/2006 - 15:30

Começos inesquecíveis: Charles Dickens

Aquele foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos; aquela foi a idade da sabedoria, foi a idade da insensatez, foi a época da crença, foi a época da descrença, foi a estação da Luz, a estação das Trevas, a primavera da esperança, o inverno do desespero; tínhamos tudo diante de nós, tínhamos nada diante de nós, íamos todos direto para o Paraíso, íamos todos direto no sentido contrário (…)

Eis o melhor dos começos, o pior dos começos: o começo de “Um conto de duas cidades”, lançado em 1859 por Charles Dickens (Nova Cultural, 2002, tradução de Sandra Luzia Couto).

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
29/06/2006 - 17:20

Conselho aos ‘leterados’

Porque muitos que são leterados não sabem treladar bem de latim em linguagem, pensei escrever estes avisamentos para ello necessários.

Primeiro, conhecer bem a sentença do que há de tornar, e poê-la enteiramente, não mudando, acrescentando, nem minguando alguma cousa do que está escrito. O segundo, que não ponha palavra latinadas nem doutra linguagem, mas todo seja em nosso linguagem escrito, mais achegadamente ao geral bom costume de nosso falar que se pode fazer. O terceiro, que sempre se ponham palavras que sejam dereita linguagem, respondentes ao latim, não mudando umas por outras, assi que onde el disser per latim “escorregar”, não ponha “afastar”, e assi em outras semelhantes, entendo que tanto monta uma cousa como a outra; porque grande deferença faz pera se bem entender, serem estas palavras propriamente escritas.

Em homenagem à seleção treinada por Felipão, que encara neste sábado a Inglaterra, vai aí um fragmento delicioso – e cheio de verdade, é só prestar atenção – do “Leal Conselheiro”, clássico do português medieval escrito por um rei de verdade, D. Duarte (1391-1430), que carrega pela história afora o simpático epíteto de “primeiro filósofo da saudade”. O fragmento foi colhido no livro “Era Medieval”, de Segismundo Spina, primeiro dos cinco volumes da coleção “Presença da Literatura Portuguesa”, lançado em 1961 e cuja 11a edição acaba de sair pela Difel (288 páginas, R$ 39). Para quem tem com nossa língua uma relação amorosa, é papa fina.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
28/06/2006 - 17:13

Autor pernambucano se defende

Reproduzo abaixo a mensagem que acabo de receber de Fernando Monteiro, escritor pernambucano citado semana passada aqui no Todoprosa, na nota “É claro que nossos netos vão rir”, por conta da apresentação interneticamente tosca de um folhetim de sua autoria no site do jornal paranaense “Rascunho”. A mensagem repete em linhas gerais os argumentos de um dos editores do jornal, Luís Henrique Pellanda, já publicados aqui: o trabalho em questão foi concebido para publicação em papel, o site é só um subproduto disso – traduzindo, ninguém está ligando para o que vai ao ar no “Rascunho” digital e eu não deveria ligar também. O que, na minha opinião, é confissão de culpa e não atenuante. De novidade, a mensagem do autor do folhetim traz uma crítica genérica e um tanto difusa ao próprio meio eletrônico e aos “debates” (aspas de Monteiro) que ele propicia. Pois é em benefício do debate (sem aspas) que a mensagem de Fernando Monteiro vai aqui na íntegra, sem edição, o que dificilmente ocorreria no espaço contado da imprensa de papel. E também porque, no fim das contas, suas palavras ajudam a entender por que seu folhetim, mesmo tendo caído na rede, se recusa tão obstinadamente a ser tratado como peixe.

Prezado Sérgio Rodrigues:

somente hoje um “internauta” que costuma conferir os “posts” de NOMINIMO chamou a minha atenção para o que, digamos, foi debatido, no seu TODOPROSA, em torno do romance (O Inglês do Cemitério dos Ingleses) que o jornal RASCUNHO, de Curitiba, vem publicando, em capítulos, desde meados do ano passado. E tal “debate”, para mim, apenas veio corroborar a impressão de que o tornar-se uma verdadeira Babel de vozes desencontradas (e apressadas) pode ser mesmo uma das virtualidades da Internet – na qual se fala de tudo, muitas vezes de forma intempestiva e equivocada.

No caso do nosso romance, ficou parecendo que o texto foi escrito para ser lido num micro e não numa velha folha impressa, onde os olhos podem descansar, e que pode ser riscada, sublinhada, dobrada para entrar no bolso ralado de uma calça jeans e também rasgada para se tocar fogo e acender uma fogueira de São João, dessas que vão se apagando, de ano para ano, nos arrabaldes.

Talvez a própria literatura seja (ou tenha se tornado, muito recentemente) também uma pira de fogo, cada vez mais morta, longe da página que não precisa de “se acessar” da maneira como se faz com os babélicos blogs da Web pupulante de vozes como a ilha de “Lost”.

Seja como for, escrevi “O Inglês do Cemitério dos Ingleses” em PAPEL (ainda), e para ser lido no mesmo – talvez usado, cedo ou tarde, por algum mendigo, na sua higiene (?). O que estava, aliás, de certo modo previsto, ao começarmos a publicação (em julho de 2005), SEM capítulo nenhum arquivado “online” até que alguns leitores, com o passar dos meses, solicitaram justamente isso: a chance de ler os capítulos perdidos, por um ou outro motivo.

Foi simplesmente isso que levou Rogério Pereira e Luis Henrique Pellanda – editores do RASCUNHO – a “linkar” (é esse o feio verbo?) as partes publicadas, pudendas ou não…

Por essa boa intenção, estiveram ambos pagando caro, no TODOPROSA -juntamente com o autor do livro -, como se fossemos “colegiais” (segundo um dos “debatedores”) etc.

Por essas e outras, é que a Internet parece herdeira de Chacrinha: veio mais para confundir, parece, do que para explicar.

No “Velho Guerreiro”, isso poderia ser uma qualidade. No NOMINIMO, todo prosa, isso se tornou, neste caso, um defeito de informação equivocada – me permita lamentar, com todo respeito e admiração.

Grato pela divulgação,

Fernando Monteiro

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
28/06/2006 - 16:07

Assim comeu Zaratustra

As pinturas religiosas do século XIV foram as primeiras a retratar cenas de danação em que pessoas acima do peso vagavam pelo Inferno, condenadas a saladas e iogurte. Os espanhóis eram particularmente cruéis, e durante a Inquisição um homem podia ser condenado à morte por rechear um abacate com siri.

Nenhum filósofo chegou perto de resolver o problema da culpa e do peso até que Descartes dividiu mente e corpo em dois, para que o corpo pudesse se empanturrar enquanto a mente pensava: “Quem se importa, esse não sou eu”. A grande questão filosófica continua sendo: se a vida não tem sentido, o que fazer a respeito da sopa de letrinhas?

Deu para reconhecer o estilo? O trecho foi retirado de um livro inédito de um dos maiores filósofos da história, o “Livro de dieta de Friedrich Nietzsche”, cujo manuscrito foi descoberto recentemente em Heidelberg por Woody Allen – ou pelo menos é esse o ponto de partida da crônica de humor filosófico (em inglês) que ele publica no último número da “New Yorker”.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
27/06/2006 - 11:05

Plebiscito não torna Macondo uma cidade real

A cidade natal do colombiano Gabriel García Márquez, a pequena Aracataca, que ele pôs no mapa, não quis sair de casa para lhe retribuir o favor: num plebiscito realizado domingo passado, uma alta taxa de abstenção – leia-se indiferença – impediu que o nome da cidade fosse trocado para Aracataca-Macondo, em referência à localidade fictícia onde se passa a trama da obra-prima de García Márquez, “Cem anos de solidão”. Dos 22 mil eleitores da cidade, apenas 3.600 apareceram para votar, abaixo da metade do mínimo necessário. Notícia completa, em inglês, aqui.

Moral da história? Talvez esta: o brilho da literatura, por mais forte que seja, costuma perder quando confrontado com o sol a pino da vida mundana. Ou ainda: a cidade está ressentida porque faz duas décadas que o escritor não a visita. Ou não, nada disso: rebatizar o lugar como Aracataca-Macondo era uma idéia de jerico mesmo.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
26/06/2006 - 14:04

Literatura brasileira com merchandising

“Fui dar em Budapeste graças a um pouso imprevisto, quando voava de Istambul a Frankfurt, com conexão para o Rio, mas a impecável companhia aérea, além de não ter culpa pelo transtorno, ainda nos hospedou em um hotel de primeira qualidade no aeroporto aquela noite – grande Lufthansa.”

***

“– Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvores no quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mocidade. Mas só comecei a acertar mesmo quando troquei o velho trabuco por esta Taurus aqui, arma de grande maravilha. O senhor espie. Ahã.”

***

“Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar…
Viu uma lua no céu
Viu outra lua no mar.

O doutor que a atendeu
Não tardou a receitar
Óc’los da Ótica Fiel
Pra vista dupla acabar.”

***

“Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria. Se os tivesse, não hesitaria em escolher o conforto e a segurança da Maternidade Nossa Senhora do Bom Parto, que tem convênio com todos os planos de saúde.”

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sobrescritos Tags:
26/06/2006 - 00:01

Nossos comerciais, por favor

O product placement, mais conhecido no Brasil como merchandising, é tão comum no cinema e na televisão quanto atrizes siliconadas. Parece que já passamos da fase de debater a ética da coisa, que de alguma forma se naturalizou: afinal, o personagem tem que tomar uma cerveja naquela cena, não tem? Está no roteiro. Então por que não fazer da cerveja uma Bohemia e descolar uma grana que – naturalmente – será reinvestida em prol da qualidade artística do produto final? Hein, hein? (Um espírito-de-porco pode argumentar que, uma vez começado esse jogo, é inevitável que mais e mais personagens virem enxugadores de cerveja, mesmo que sejam atletas de ponta em véspera de Olimpíada, mas ninguém vai lhe dar ouvidos.)

Na literatura é diferente: a jogada ainda provoca escândalo, como se viu depois que dois autores americanos de livros juvenis, Sean Stewart e Jordan Weisman, admitiram ter reescrito as frases em que mencionavam o batom e outros produtos de maquiagem usados por uma personagem num livro recém-lançado, Cathy’s book, para encaixar as marcas registradas da grife Cover Girl. Imoral? Onde vamos parar?

A escritora Jane Smiley publicou no “Los Angeles Times” um artigo em que troca de saída esse enfoque chocado por um cinismo curioso: se a divulgação que a empresa ofereceu em troca da pequena propaganda fez a tiragem inicial do livro de Stewart e Weisman saltar de 30 mil para 100 mil exemplares, qual é o problema?

O pragmatismo de Jane Smiley é menos vendido do que parece à primeira vista. Ela acaba concluindo que recusaria o product placement, mas por um critério estético – por medo de que ele lhe entulhasse a prosa. Antes disso, lembra que não é de hoje que autores de ficção mencionam marcas registradas, quase sempre para dar às suas obras uma certa pulsação de vida real. Ilustra o argumento com um trecho de “Em busca do tempo perdido” em que Albertine fala da água mineral de Vichy: “Quando a servimos, sobe do fundo do copo uma nuvem branca que se dissolve e desaparece se não a bebermos imediatamente”.

Isto a articulista não diz, mas digo eu: a diferença é que Marcel Proust não decidiu escrever sobre a Vichy por dinheiro, mas por um critério exclusivamente artístico. Ou seja, foi o que lhe deu na telha. Por outro lado, os autores americanos em questão nunca quiseram ser Proust – seu trabalho já era comercial muito antes de enfiarem reclames no meio do texto. Aguardo ansiosamente os próximos capítulos.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
25/06/2006 - 00:01

Goleadores de letra

Seleção brasileira de autores que escreveram sobre futebol, escalada pelo craque botafoguense Sérgio Augusto para o Portal Literal:

Paulo Barreto; Coelho Neto, José Lins do Rego, Octávio de Farias e Vinicius de Moraes; Paulo Mendes Campos, Nelson Rodrigues e Décio Almeida Prado; Mario Filho, Edilberto Coutinho e Luis Fernando Verissimo.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
24/06/2006 - 00:01

Ronaldo Monte: ‘Memória do fogo’

“Memória do fogo” (Objetiva, 128 páginas, R$ 27,90), de Ronaldo Monte, é o terceiro título da coleção Fora dos Eixos, que já lançou “O vôo da guará vermelha”, de Maria Valéria Rezende, e “Voláteis”, de Paulo Scott. A coleção pretende, nas palavras escolhidas pela editora, “buscar a qualidade literária fora do eixo Rio/São Paulo”. O ponto de partida é lá um tanto questionável: as idéias de centro e periferia andam embaralhadas pela internet, e a velha convicção de que existe um mundão de talento inexplorado fora do “eixo” anda cada vez mais parecida com um mito. Mesmo assim o resultado da coleção tem sido mais que animador. “Memória do fogo” não é um livro fácil. Regionalista e intimista ao mesmo tempo, tem uma prosa de alta densidade poética dentro da qual a narrativa avança com lentidão de sonho. Vale a pena embarcar na viagem porque Ronaldo Monte, nascido em 1947, psicanalista alagoano radicado em João Pessoa, tem voz própria e um admirável domínio da linguagem. Qualidades incomuns dentro ou fora dos eixos.

Foi então que viu pela primeira vez o que nunca queria ter visto. Via as pessoas por dentro. Não as suas carnes, não as suas tripas, não seus esqueletos, nem o azul das veias carregadas do vermelho de seu sangue. Via o que não sabia dizer. Não era bem uma luz, nem parecia uma cor, lembrava a visão de um som, o granulado de um cheiro. Era mais uma impressão, como se a marca da alma do outro fizesse uma marca na sua própria alma. E esse não saber dizer era o que mais o agoniava.

O povo fez uma roda em volta dele. Todo mundo parava para ver o menino de olhos arregalados, olhando assustado para cada rosto, com o que via por trás de cada rosto. Que é que está vendo, menino, me olhando desse jeito? Estou vendo uma mancha escura no lugar do seu coração. A senhora deve ter muita raiva de alguém. Deve ser de algum homem que lhe deixou. O povo começou a rir. Todo mundo sabia que aquela mulher tinha sido deixada há muito tempo por um noivo que foi embora com outra. A mulher teve raiva e saiu apressada, amaldiçoando o menino. O menino é adivinho, o menino é adivinho, a notícia se espalhou de ponta a ponta da rua. A roda aumentou, o círculo em volta dele ficou mais apertado. Sua respiração foi ficando mais difícil. Para não morrer sufocado, começou a olhar para cada pessoa e a dizer, com a voz engrolada, não mais o que via, e sim o que sentia na cara e no corpo dos outros. O senhor roubou seu irmão, esse aqui deu na cara da mãe, essa aqui se perdeu com o patrão, esse outro não pensa em mulher, essa outra matou um anjinho… E as pessoas adivinhadas saíam correndo e dizendo nomes feios com o menino. As pessoas desconfiadas do que poderiam ouvir cuidaram de sair dali antes que a verdade de dentro lhes fosse atirada na cara, na frente dos outros. Leia mais »

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Primeira mão Tags:
23/06/2006 - 13:53

Começos inesquecíveis: Dashiell Hammett

O maxilar de Spade era largo e ossudo, seu queixo era um V muito pronunciado, abaixo do V mais suave formado pela boca. As narinas se arqueavam para trás para formar um outro V, menor. Os olhos amarelo-cinzentos eram horizontais. O tema do V era retomado pelas sobrancelhas um tanto peludas que se erguiam a partir de duas rugas gêmeas acima do nariz adunco, e o cabelo castanho-claro tombava – de suas têmporas altas e retas – em uma ponta, por cima da testa. De modo bem ameno, ele parecia um satã louro.

Disse para Effie Perine:

– O que é, meu bem?

O início de “O falcão maltês” (Companhia das Letras, tradução de Rubens Figueiredo, 2001), obra-prima lançada em 1930 por Dashiell Hammett (1894-1961) e fortíssimo concorrente ao título de maior romance policial da história, marca o momento – não desprovido de choque – em que a descrição da literatura realista encontra o grafismo econômico dos gibis.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
22/06/2006 - 18:47

Cem anos de polêmica: o Brasil lê ou não?

Nos primeiros anos do século XX, escritores de grande importância no cenário intelectual do Rio de Janeiro deram vez a uma discussão que até hoje parece merecer nossa curiosidade. Com grande interesse, eles tentavam responder à seguinte questão: era o Brasil um país de leitores?

O famoso cronista João do Rio, que costumava flanar pelas ruas da capital federal em busca de temas cotidianos e ao mesmo tempo provocantes para suas colunas nos jornais, dizia, ao observar o intenso movimento das livrarias e o número cada vez maior de mercadores ambulantes de livros, que o Brasil, de fato, lia.

Inconformado com a análise do colega, Olavo Bilac, poeta, cronista e um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, discordava veementemente. Usando como prova os dados censitários que denunciavam o alto índice de analfabetismo em todo o país e a constante queixa de romancistas eminentes que mal conseguiam esgotar a primeira edição de suas obras, Bilac deixava clara sua opinião: o Brasil não lia, pela “razão única e terrível de não saber ler”.

Assim começa o bom livrinho “O livro e a leitura no Brasil” (Jorge Zahar Editor, 76 páginas, R$ 22), da cientista social Alessandra El Far, lançamento da coleção Descobrindo o Brasil – que tem a proposta de apresentar temas complexos a leitores leigos em linguagem acessível.

É triste constatar que, um século depois da polêmica de Olavo Bilac e João do Rio, os números absolutos da discussão são muito maiores, mas a alma não mudou uma vírgula.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
22/06/2006 - 15:12

O ‘Rascunho’ se defende

Um dos editores do jornal literário “Rascunho”, Luís Henrique Pellanda, me envia uma mensagem cordial para defender a publicação – sem a menor pinta, digamos, internética – do folhetim de Fernando Monteiro, que critiquei na nota abaixo. “O projeto que nos foi apresentado pelo Fernando não era o de um romance online, mas o de um folhetim a ser publicado em papel”, explica Pellanda. “A publicação do material no site do jornal é uma conseqüência do que é publicado mensalmente no ‘Rascunho’, e serve como registro e consulta aos leitores que perderam capítulos anteriores. Ou seja, o Fernando não buscava desenvolver, para este projeto, uma linguagem específica para a sua publicação na internet.”

Muito bem. Imaginei mesmo que fosse o caso, sendo o “Rascunho” eletrônico um mero espelho do jornal de papel, mas vale usar o clichezão – caiu na rede, é peixe. A crítica continua de pé e pode até ser reforçada, estendendo-se à internet brasileira como um todo: com exceções raras, ainda nem chegamos à fase de tentar tornar a rede algo mais do que um depósito de textos. Temos cabeça de papel.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
21/06/2006 - 19:27

É claro que nossos netos vão rir

Quem gostou da solução encontrada pela Slate para publicar um romance online (nota abaixo) pode achar instrutivo conferir um exemplo de como não fazer isso, acessando o livro que o escritor Fernando Monteiro tem soltado em capítulos no “Rascunho”, o jornal literário paranaense.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
21/06/2006 - 15:49

Romance online na Slate: nossos netos vão rir?

Vai chegando ao fim a publicação, pela revista eletrônica Slate, do folhetim (a palavra se refere à publicação em série, não ao estilo) The Unbinding, de Walter Kirn, que estreou em março. Kirn é um autor com alguma estrada, embora pouco conhecido no Brasil, e merece uma visita – é grátis.

Não tanto pelo romance em si, ambientado num futuro próximo e montado como uma colagem de e-mails e trechos de diários eletrônicos, entre outros fragmentos. Confesso que não me interessou terrivelmente. Mas o modo como é apresentado, sim. Absolutamente legível, com navegação fácil entre os capítulos, possibilidade de escolher a cor do fundo entre preto e branco e outras boas sacadas.

A própria Slate – que é suspeita, claro – anuncia a iniciativa como a mais significativa desde que Stephen King “testou o meio no ano 2000, publicando um romance online chamado The Plant”. Não deu muito certo, como se sabe, mas isso teria ocorrido porque “os leitores foram prejudicados pelo acesso discado. Mas a supremacia da banda larga e o crescente conforto com a leitura online tornam possível a publicação de um romance como The Unbinding”, conclui a Slate.

Eu sei que estamos engatinhando nessa área. É muito provável que nossos netos riam disso tudo. Mas o fato de o melhor caminho para o romance online ainda ser desconhecido não significa que ele não exista.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
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