Arquivo de maio, 2006
31/05/2006 - 18:41
O americano Paul Auster ganhou o prêmio espanhol de âmbito internacional Príncipe de Asturias das Letras, no valor de 50 mil euros (quase R$ 150 mil), que ano passado ficou com Nélida Piñon. Chegaram com Auster à final o também americano Philip Roth e o israelense Amos Oz. Notícia completa do site da Fundação Príncipe de Asturias aqui.
Tomara que o prêmio ajude a dar fôlego novo ao escritor do Brooklyn. Não estou entre os que gostam de esnobá-lo – uma espécie de esporte intelectual da moda nos últimos anos – porque conservo vivo na memória o prazer que tive em minha fase “austeriana”, quando enfileirei avidamente títulos como “Trilogia de Nova York”, “Leviatã”, “Palácio da Lua” e “A invenção da solidão”. Mas reconheço que nos últimos anos o lado mais chato e autocomplacente do autor, que nunca esteve inteiramente ausente de sua obra, vem levando a melhor.
Talvez significativamente, a notícia do prêmio encontrou Auster em Portugal, às voltas não com literatura mas com a filmagem de seu segundo longa-metragem como diretor, chamado The inner life of Martin Frost. O primeiro filme, “Lulu na ponte”, lembra seus piores livros: pose demais para pouca substância.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts
Tags:
31/05/2006 - 14:53
Acho que me senti capaz de compreender a animosidade e o ódio que um fiel do Islã pode ter pelo nosso sistema. Ninguém está tentando ver as coisas por esse ponto de vista. Suponho que eu esteja arriscando o pescoço de várias maneiras, mas talvez seja para isso que existem escritores.
Às vezes eu penso: “Por que fiz isso?”. Estou cavucando um assunto que pode ser muito doloroso para algumas pessoas. Mas quando essas sombras me cruzavam a mente, eu dizia: “Eles não podem exigir um retrato mais simpático e, em certo sentido, mais amoroso de um terrorista”.
John Updike, 74 anos, um dos principais escritores americanos vivos, fala de seu novo romance, que sai por lá na semana que vem, em entrevista a Charles McGrath no “New York Times” de hoje (cadastro gratuito). O nome do livro é Terrorist.
A polêmica, como se vê, é garantida – uma polêmica mais política do que literária, certamente, e no meio da confusão pouca gente deve reparar que o ritmo de thriller é uma novidade surpreendente na carreira do autor. “Terrorista” conta a história de um rapaz de 18 anos, Ahmad, filho de uma americana riponga e de um estudante egípcio de intercâmbio que há muito sumiu do quadro. Ahmad vira terrorista e ganha a missão de explodir um túnel.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts
Tags:
30/05/2006 - 16:44
Nosso livro realiza um impulso difuso nos romances em geral, que em grandes obras do século 20 se torna uma espécie de marca fundamental: a vocação para a totalidade. Toda vez que pensamos nele, devemos pensar também no ‘Ulisses’, de Joyce; no ‘Em Busca do Tempo Perdido’, de Proust; no ‘Berlim Alexanderplatz’, de Alfred Döblin; no ‘Doutor Fausto’, de Thomas Mann; no ‘Quer Pasticciaccio Brutto de Via Merulana’, de Carlo Emilio Gadda; em algum romance de Faulkner; no ‘Século das Luzes’, de Alejo Carpentier, e em poucos outros mais. São obras que tentam dar uma súmula da experiência humana.
O trecho acima é tirado do longo artigo que o crítico Davi Arrigucci Jr. escreveu para o magistral caderno especial Grande Sertão: Veredas – 50 anos, publicado sábado passado pelo “Estadão”. Quem puder ter acesso à versão de papel não deve titubear: só lá podem ser lidos os textos de Antonio Candido (escrito em 1956 e avaliando com precisão, em cima do laço, a grandeza da obra), Walnice Nogueira Galvão, Willi Bolle e Mario Sergio Conti, entre outros (ou na versão digital do jornal, para quem for assinante). Aperitivo: com acesso livre no site, além do artigo de Arrigucci, estão os de Daniel Piza e Wilson Martins, este reavaliando o juízo negativo que fez do livro na época do lançamento.
Melhor do que isso, só ler o próprio romance de Guimarães Rosa, que, para quem gosta de listas, tem vaga cativa em qualquer uma que se faça das cinco maiores obras-primas brasileiras de todos os tempos.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts
Tags:
29/05/2006 - 20:00
O romancista Milton Hatoum, autor dos ótimos “Dois irmãos” e “Cinzas do Norte”, abre amanhã, terça-feira, às 18h30, no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro, um ciclo de debates chamado Laboratório do Escritor, dedicado a discutir os bastidores da criação literária. Concebido pelas jornalistas Cristiane Costa e Valéria Lamego, que atuarão como entrevistadoras, o evento apresentará um autor por mês. Depois de Hatoum vão passar pelo CCBB, nesta ordem, Luiz Alfredo Garcia-Roza, Silviano Santiago, Luiz Vilela, João Ubaldo Ribeiro e Lygia Bojunga. A entrada é franca, com distribuição de senhas. Abaixo, Cristiane, autora de “Pena de aluguel – Escritores jornalistas no Brasil” (Companhia das Letras), explica a idéia.
Por que pôr escritores para falar do seu processo de criação se os bastidores de um livro, com todo aquele escreve-rasga-reescreve, costumam ser um ambiente meio tedioso?
– Em quase toda palestra de escritor a que já assisti, as pessoas acabam perguntando sobre esses assuntos, como uma idéia surge, como um personagem é desenvolvido. A curiosidade é muito grande, mas em geral isso acaba perdido no meio de outros temas e discussões. E achamos que, no final das contas, talvez seja o que mais interessa aos fãs de um autor: saber como ele consegue fazer o que faz. No Laboratório, vamos orientar todas as perguntas para isso, num formato de talk show.
O leitor comum está interessado nisso? Ou o público-alvo é a legião de aspirantes a escritor?
– A gente acha que o leitor comum está interessado, e muito. Principalmente o fã verdadeiro, aquele que é fiel, fascinado por um determinado autor. Isso até orientou a nossa seleção de nomes: todos os escalados para falar são escritores que têm um público cativo e apaixonado. Mas é claro que interessa muito a quem escreve também.
Houve algum autor convidado que tenha recusado, por medo ou talvez pudor de tratar dos segredos da escrita na frente de todo mundo?
– Ninguém recusou. Acho que os escritores até preferem esse formato, porque assim não precisam preparar uma palestra, podem deixar que o tom de conversa prevaleça. A idéia é que, ano que vem, a série seja estendida a todos os CCBBs.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Três perguntas para...
Tags:
29/05/2006 - 17:13
A lista dos autores que estarão em Parati de 9 a 13 de agosto está fechada. Ainda não há data marcada para a divulgação oficial, mas os últimos nomes, além daqueles que já estavam confirmados (Jonathan Safran Foer, Nicole Krauss, Benjamin Zephaniah, Uzodinma Iweala, Mourid Barghouti e Maria Valéria Rezende), andam vazando por todos os lados. Nem sempre as informações batem.
Sábado, a “Folha de S.Paulo” divulgou uma lista (só para assinantes do jornal ou do UOL) com acertos e erros. Os principais acertos: Adélia Prado, o argentino Ricardo Piglia e os americanos Lilian Ross, jornalista, e Edmund White, ficcionista e crítico. Os maiores erros: não confirmar a presença da americana Toni Morrison, único Nobel e principal estrela da festa, que “O Globo” havia noticiado com um tiro na mosca (nota abaixo); e confirmar equivocadamente o nigeriano Chinua Achebe, que de fato foi convidado para compor uma mesa de literatura africana com o também nobelizado Wole Soyinka – mas nenhum dos dois fechou.
Ausente das especulações até o momento, também virá a Parati o francês Olivier Rolin, que terá seu romance “Tigre de papel” lançado em breve pela Cosac Naify. Já o supercrítico americano Harold Bloom esteve muito perto de vir – não fisicamente, pois não pode viajar, mas via satélite para uma videoconferência que, infelizmente, o alto custo inviabilizou.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts
Tags:
29/05/2006 - 00:01
O gênio americano Edgar Allan Poe inventou praticamente sozinho a literatura de mistério e um bom pedaço da ficção científica, além de ter se tornado pai e mãe do gênero policial ao criar um detetive voltado para a pura dedução, Dupin, que torna Sherlock Holmes pouco mais que um discípulo esforçado.
Tudo bem, mas será que isso nos autoriza a imaginar que Poe concebeu o estranho enredo de sua própria morte, de modo a deixar um último mistério – insolúvel – para a posteridade? Ou essa idéia não passa de romantismo, fruto da inclinação que nós, leitores, temos por borrar as fronteiras entre vida e obra dos autores que admiramos?
O fato é que Poe foi visto gozando de boa saúde em Baltimore, em 1849, até sumir de circulação. Passou cinco dias desaparecido, e sobre o que fez nesse tempo nada se conseguiu apurar. Quando finalmente o descobriram num hotelzinho-taberna chamado Ryan’s, estava de cama, em estado lastimável, e morreu logo depois. Tinha 40 anos. Charles Baudelaire, seu fã, nunca duvidou de suicídio. Será? A história está no livro The Poe’s shadow (“A sombra de Poe”), de Matthew Pearl, que acaba de sair na Inglaterra, e do qual o Telegraph publica um trecho (acesso livre, em inglês).
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts
Tags:
28/05/2006 - 00:01
O jornalista Roberto Pompeu de Toledo, colunista que há anos toma conta da última página da revista “Veja”, é dono de um dos textos mais literários – no bom sentido – da imprensa brasileira. Era talvez inevitável que acabasse experimentando o romance, como faz agora com “Leda “ (Objetiva, 160 páginas, R$ 27,90). O livro, que conta a estranha relação entre um escritor famoso e seu biógrafo, tem um subtítulo saboroso: “Relato romanesco em 13 capítulos e epílogo, contendo uma versão condensada de ‘A Busca Vã da Imperfeição’”. A seguir, o trecho que abre o romance:
Chapéu… Sim, havia um chapéu, de fino feltro negro, elegante chapéu de proteger da friagem e do sol mas também de impor respeito, e os olhares em volta eram de admiração e reverência, quando não enamorados e suspirosos, ou… Não, não tão elegante, na verdade um chapéu pobre e roto, chapéu-coco à Carlitos, divertido, com que se brincava e ria, pondo e tirando, pondo e tirando, mas… eis que da última vez que pousa na cabeça ele começa a apertar, assim machuca, assim não é bom, tenta-se tirá-lo, e agora ele não sai… tenta-se de novo, puxa-se daqui e dali, experimenta-se um golpe mais forte, um arranco súbito, um tranco… Nada, não sai, grudou como cola, está firme como cal no muro, fixo como o pescoço do outro lado da cabeça, e o pior é que aperta e comprime, não é mais objeto de diversão e de prazeres, é instrumento de flagelo, tanto mais impiedoso quanto, num puxão mais forte, desesperada tentativa de fazê-lo ceder, ouve-se um rangido, como de porta mal azeitada, mas não é porta, é o rangido da pele que começa a rasgar, a pele querendo vir junto, o horror entre todos horroroso de um escalpo, o perigo de um destampamento, do desgarre de um cocoruto mais apegado ao chapéu que ao resto da cabeça, e a ameaça medonha de ficarem os miolos a descoberto. Horror, horror… Acordou. Sobressalto, suor, coração batendo forte. Aos poucos foi voltando a si. Alívio.
Era a primeira noite de Adolfo Lemoleme na Casa dos Quatro Ventos, e sem dúvida o cansaço da viagem, mais a estranheza de dormir num lugar diferente, contribuíram para o sonho mau. Ele olhou em volta, procurando na penumbra certificar-se da posição que ocupava em relação ao espaço pouco familiar do quarto em que se hospedava. Foi quando… De novo o ruído de um rangido de porta – mas desta vez era a porta mesmo, que se movia lentamente. Que está acontecendo comigo? Que está acontecendo neste lugar? A claridade que vinha do corredor era pouca, mas suficiente para discernir um vulto de homem, “Ber…”, balbuciou Lemoleme, mas não teve tempo de completar a palavra. A porta se fechou. Leia mais »
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Primeira mão
Tags:
27/05/2006 - 00:01
Nós já sabíamos que (Paulo) Coelho é popular. Suas histórias de busca espiritual venderam tanto no mundo inteiro que os números que costumam ser citados nos jornais (70, 80, 90 milhões?) fazem pouca diferença. Sua tradução é facilitada pelo uso rudimentar, ao modo das parábolas, que Coelho faz da linguagem. Mas mesmo ele e seus editores e divulgadores parecem ter sido apanhados de surpresa pelo entusiasmo despertado nas estepes.
John Mullan escreveu no Guardian (em inglês, acesso livre), sem disfarçar o queixo caído, sobre a inacreditável recepção que as mais remotas cidadezinhas da Sibéria estão proporcionando ao escritor brasileiro, cercado por uma multidão sempre que desce de seus dois vagões particulares no expresso Transiberiano – modo de viajar que Mullan compara ao de um “monarca do século XIX”. A imagem procede: Paulo Coelho viaja com uma equipe numerosa que inclui dois chefs internacionais, embora só se refira à aventura como “peregrinação”.
Sei não, mas a imprensa brasileira parece ter engolido uma mosca gigante.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts
Tags:
26/05/2006 - 14:10
Eu sei que livros (assim como filmes) sobre cachorros sempre tiveram um cantinho seguro no mercado, mas a lista de mais vendidos do “New York Times” (mediante cadastro gratuito) sugere que a cinofilia literária está atingindo uma espécie de apoteose.
Em primeiro lugar na lista de não-ficção está Marley & Me, do jornalista John Grogan, que conta a história da atribulada – mas no fim das contas inspiradora e terna, é claro – convivência de sua família com Marley, um labrador neurótico e hiperativo.
Na terceira posição da lista de auto(?)-ajuda surge Cesar’s way (“O jeito de Cesar”), em que o apresentador de um programa televisivo de sucesso chamado Dog whisperer (”Sussurrador canino”, aquele que sussurra com cachorros), Cesar Millan, dá lições sobre a psicologia dos totós.
Talvez não seja exagero imaginar que a tendência chegará ao ponto de invadir a ficção e nos brindar com novelinhas bitch lit estreladas por poodles cor-de-rosa. Eu seria leitor garantido de um romance policial ultraviolento sobre um serial killer da raça pitbull.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts
Tags:
25/05/2006 - 18:40
Resumindo a fúria dos luandinistas militantes que deixaram comentários na nota ali embaixo, sobre a recusa do Prêmio Camões pelo grande escritor angolano: também não entenderam nada, coitados.
Não deviam se amofinar tanto. Ninguém entendeu.
Curioso é pensarem que o direito – cristalino, sem dúvida – que Luandino Vieira tem de esnobar um prêmio de prestígio anula o do resto da humanidade de achar que, sem uma explicação razoável, a extravagância fica com cheiro de desfeita, e só. Não digo que seja sua intenção, digo que parece.
Uma boa explicação seria, no mínimo, sinal de respeito a José Saramago, Jorge Amado, Pepetela, Miguel Torga, João Cabral de Melo Neto e Sophia de Mello Breyner Andresen, entre outros autores que já ganharam – e aceitaram, onde já se viu – o principal prêmio da literatura em língua portuguesa.
Ah, sim: servia uma explicação “pessoal, íntima”, como a que Jean-Paul Sartre apresentou ao recusar o Nobel de Literatura de 1964: “Um escritor deve se recusar a ser transformado em instituição”.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts
Tags:
25/05/2006 - 16:43
Eis aqui uma lição de texto criativo.
Primeira regra: Não usem ponto-e-vírgulas. São travestis hermafroditas que não representam absolutamente nada. Tudo o que fazem é mostrar que você esteve na universidade.
Percebo que alguns de vocês têm problemas para decidir se estou brincando ou não. Por isso, a partir de agora, vou lhes dizer quando estiver brincando.
Por exemplo, ingressem na Guarda Nacional ou nos Fuzileiros Navais e ensinem a democracia. Estou brincando.
Estamos para ser atacados pela al-Qaeda. Acenem bandeiras, se as tiverem. Isto sempre parece afugentá-los. Estou brincando.
Se querem realmente magoar seus pais e não têm coragem de se tornar gays, o mínimo que podem fazer é entrar para as artes. Não estou brincando.
O livro “Um homem sem pátria” (Record, tradução de Roberto Muggiati, 160 páginas, R$ 34,90), coletânea de artigos e crônicas lançada nos EUA ano passado, mostra que o humor extravagante e o verbo afiado de Kurt Vonnegut continuam sendo páreo para Philip Marlowe – mas este era um personagem fictício. E olha que o homem está com 84 anos.
Autor de pelo menos uma obra-prima incontornável da ficção americana no século XX, “Matadouro 5” (hoje mais fácil de encontrar por aqui numa edição de bolso da L&PM), Vonnegut sempre ajuda a arejar o ambiente.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts
Tags:
24/05/2006 - 16:59
O escritor angolano José Luandino Vieira, 71 anos, recusou o Prêmio Camões, o maior da língua portuguesa, no valor de 100 mil euros (quase R$ 300 mil), informou hoje o Ministério da Cultura de Portugal. Luandino alegou “razões pessoais, íntimas”, o que é esquisito. Se a recusa fosse uma atitude política contra a ex-metrópole, seria uma coisa – e não surpreenderia ninguém que conhece a obra ou a vida do angolano, que foi preso pelo regime salazarista e passou oito anos num campo de concentração. Nesse caso, o gesto viria acompanhado de um belo discurso. Mas enjeitar uma grana dessas na moita, alegando razões íntimas, em vez de, digamos, aceitar o prêmio e doá-lo a alguma instituição séria de seu país miserável, é mais difícil de entender.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts
Tags:
24/05/2006 - 16:38
Embora avessa aos salamaleques da glória oficial, Clarice Lispector não recusaria a homenagem dos vereadores do Rio de Janeiro (veja nota abaixo). A opinião é da escritora Vilma Arêas, professora de literatura da Unicamp. Vilma é autora do livro de crítica “Clarice Lispector na ponta dos dedos” (Companhia das Letras, 192 páginas, R$ 35), lançado na Flip do ano passado, que teve a autora de “A paixão segundo G.H” como homenageada.
Clarice teria ficado feliz com o título de cidadã carioca honorária?
– Ela não ficava à vontade nessas ocasiões porque não gostava muito de falar em público, agradecer as homenagens e prêmios que recebia. Mas acho que gostaria do título, porque gostava muito do Rio. Mesmo sendo uma homenagem mais política do que literária, não acredito que recusasse.
Como anda a cotação de Clarice entre os novos leitores? E entre os escritores, existe alguém que seja claramente influenciado por ela?
– As novas gerações continuam lendo Clarice e, o que chama mais a atenção, estão representando muito os textos dela também. No circuito universitário de teatro, vi recentemente adaptações de “Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres” e “A hora da estrela”. Esta, principalmente, era muito boa, com a Macabéa transformada em personagem coletivo. Quanto a escritores influenciados por ela, não vejo nenhum. É um estilo difícil, muito particular, como o de João Guimarães Rosa e mesmo o de João Antonio. Difícil seguir esses caminhos.
Se um jovem de 14 anos que nunca leu Clarice a procurasse para pedir uma dica de entrada na obra dela, que título você recomendaria? E qual o aconselharia a evitar?
– Eu acho que ele poderia começar pelos contos do “Laços de família”. Entre os romances, talvez “A hora da estrela” pudesse ser uma porta de entrada, por que não? Mas há livros dela que são realmente muito difíceis. “Uma aprendizagem” é um livro complicado, e um garoto que resolvesse começar por “A maçã no escuro” certamente acharia a Clarice impossível de ler.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Três perguntas para...
Tags:
24/05/2006 - 11:58
O grande filme “Capote”, que tem como uma de suas melhores subtramas a relação complexa dos dois, ajudou a reavivar o interesse por algumas velhas questões. E se Truman Capote for o verdadeiro autor de “O sol é para todos” (To kill a mockingbird), de sua amiga Harper Lee? Ou num caminho inverso – e se a participação de Harper Lee em “A sangue frio” (In cold blood) tiver sido maior do que seu vaidoso autor era capaz de admitir?
Aparentemente, nem uma coisa nem outra. Mas não admira que rumores como esses tenham ganhado corpo diante da absurda improbabilidade que Truman Capote e Harper Lee representavam: a de dois amigos interioranos de infância, vizinhos, que na adolescância dividiam a mesma máquina de escrever, se tornarem, cada um na sua praia, clássicos indiscutíveis da literatura americana. E para deixar tudo mais estranho – ele, absurdamente afeminado, sendo o negativo dela.
Essas e outras histórias estão na boa resenha (em inglês) de Thomas Mallon na última “The New Yorker”, sobre uma nova biografia de Harper Lee, Mockingbird, de Charles J. Shields.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts
Tags:
Voltar ao topo