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“Então me digam que metáfora do solitário, pungente,
imaginoso ofício de escrever pode, nesta vida cachorra,
superar o velho ‘manutigium’?” CECILIO GIOVENAZZI

15/03/2010 - 13:35

Wilson Martins: concordando em discordar

Eu quase nunca concordava com o crítico Wilson Martins. Ao longo de muitos anos, talvez se contem nos dedos de uma mão as ocasiões em que terminei de ler uma resenha sua sem ter com ela alguma divergência grave, um ou mais pontos em que nossos credos estéticos pareciam água e óleo. O que demorei mais a descobrir foi que, por baixo de toda aquela discussão, havia uma concordância maior, um pacto sem a qual ela, a discussão, cairia no vazio. Martins ousava falar da literatura de dentro, seu pensamento era inteiramente feito de literatura. Ele não partia do livro para chegar a outro lugar, nem vinha de outro lugar para abordar o livro. Morava ali, e quando saía era para inspecionar a relação do livro com… outros livros. Avesso a sistemas, a “verdades” importadas de campos fora das letras, arriscava o pescoço a cada resenha. É o que torna sua “História da Inteligência Brasileira” tão caótica e tão interessante: o pulso de vida real. A literatura para Martins nunca era sintoma, era o que importava, como deve mesmo ser, se você tem a pretensão de se declarar crítico literário. Quando o relativismo cultural começou a tentar nos convencer – e como a universidade embarcou! – de que a qualidade literária é pura ideologia, pura balela, sobrou pouca gente para manter a chama acesa. Wilson Martins foi um desses. Foi quando seu famoso conservadorismo adquiriu uma certa aura de vanguarda. E eu descobri que pouco importava se, contando nos dedos, eu quase nunca concordava com ele.

Artiguete escrito para a edição de março do jornal “Rascunho”, que dedica três páginas ao necrológio do crítico Wilson Martins. Miguel Sanches Neto e Rodrigo Gurgel assinam textos longos. Outros depoimentos curtos foram escritos por Luiz Antonio de Assis Brasil, Alcir Pécora e André Seffrin.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria Tags:
13/03/2010 - 17:11

Curiosidades etimológicas: Chiste

O leitor Alexandre Telles pergunta pela origem da palavra “chiste”, que quer dizer gracejo, dito espirituoso, piada curta. Segundo o Houaiss, o termo foi importado do espanhol chiste, forma regressiva do verbo chistar. O curioso é que a formação de chistar parece ser onomatopaica, ou seja, imitativa do som – não é gratuita, portanto, a semelhança sonora de “chiste” com a interjeição “psit”. Chistar é, na origem, “falar em voz baixa, sussurrar gracejos”. Embora tenha nascido ao pé do ouvido, o chiste já não guarda esse caráter de cochicho – “cochicho” que também é uma onomatopéia.

Publicado no NoMínimo em 28/11/2006.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é... Tags:
12/03/2010 - 16:31

E-book: e se não for nada disso, hein?

Nada como um espírito-de-porco ou advogado do diabo para nos fazer pensar com mais lucidez quando todo mundo fica histérico. Levi Asher, do Literary Kicks (via blog de livros da “New Yorker”), ousa insinuar que o rei está nu:

Muitos observadores esperam que o mercado de livros eletrônicos acompanhe a velocidade do mercado de música, que se tornou subitamente digital no início dos anos 2000 e que hoje, provavelmente, guarda uma relação de 95% a 5% entre digital e analógico (uma diferença enorme para os 50% a 50% que eu prevejo para os livros dentro de vinte anos). Tornou-se lugar-comum dizer que o e-book será tão popular quanto o MP3, mas o MP3 solucionou alguns problemas reais, ao contrário do que faz o e-book. A equação sensorial/física de ouvir música é na verdade muito diferente da de ler. Um aparelho de MP3 desaparece quando você ouve música. Um livro não desaparece – nem no reino digital nem no impresso. Você olha para ele. Faz diferença que tamanho ele tem, de que cor é, se é duro ou mole, se é frágil, se marca a página em que você está. Ao ler um livro, todas essas considerações afetam seu prazer, de uma forma que a presença de um aparelho de MP3 em seu bolso não afeta. Portanto, a comparação com o mercado de música não chega a se sustentar.

A maior prova de que não haverá uma migração em massa para os livros digitais é que ela ainda não aconteceu. Já faz algum tempo que o Kindle está por aí, mas seu sucesso tem sido extremamente modesto comparado ao do iPod. Eu quase nunca vejo um na rua, ou um Nook, ou alguém lendo por prazer num smartphone. Talvez o iPad tome o mundo de assalto, mas duvido. Nunca antes na história humana houve tantos seminários e debates sobre uma revolução que provavelmente jamais ocorrerá.

Se eu concordo? Em linhas gerais, sim. Não abro mão do meu Kindle, mas quem acompanha o blog sabe que eu nunca engoli as previsões de que os livros de papel vão virar fumaça do dia para a noite: o meio a meio entre digital e analógico que Asher prevê para daqui a vinte anos me parece uma aposta mais sensata. Sem deixar de ser só uma aposta, claro. Se a esta altura uma pessoa lhe disser que sabe direitinho o que vai acontecer nesse mercado, pode rir na cara dela.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria Tags:
11/03/2010 - 14:39

‘Fome de realidade’: oba, uma polêmica!

O livro Reality hunger, a manifesto (“Fome de realidade, um manifesto”), do escritor e ex-romancista americano David Shields, saiu há apenas duas semanas nos EUA e já está provocando – tanto na internet quanto na imprensa tradicional – um dos debates estéticos mais quentes dos últimos anos. Sua intenção nunca foi outra, claro.

O livro é uma coleção de seis centenas de aforismos e micro-ensaios (muitos assumidamente chupados de terceiros) que se revela, mesmo à mais diagonal das leituras, um ataque frontal à imaginação e à ficção em geral – que corresponderiam a uma sensibilidade passadista, destituída de vida. Ao mesmo tempo, faz uma defesa fervorosa do ensaio, da reportagem, da livre apropriação de idéias (que muitos chamam de plágio), do memorialismo que toma liberdades criativas com seu material, dos reality shows e do hip hop – estes sim, segundo o autor, gêneros e formatos afinados com o ar de nossos tempos. Que, como se sabe, está mais para vendaval.

Por atingir seu objetivo de criar polêmica, palmas para Shields. Convenhamos que a polêmica mora no horizonte de qualquer manifesto, o gênero mais fácil e previsível para se chegar a ela, mas palmas mesmo assim. (Até um manifesto despretensioso como o do “Grupo Silvestre”, que andou circulando há duas semanas na blogosfera brasileira, fez sua cota de barulho.)

Contudo, por atingir tal objetivo jogando no centro da roda um saco de gatos em que alguns dos bichanos trocam unhadas no olho (não chega a ficar muito claro, por exemplo, por que a liberdade ficcional é aplaudida nos memorialistas e condenada nos romancistas), Shields abre o flanco para acusações de que, no fundo, está menos preocupado em discutir questões reais do que em – bem, o verbo é aparecer.

Por seu próprio formato, Reality hunger é cheio de afirmações em que o entusiasmo busca abolir a necessidade de argumentação. Algumas são francamente absurdas. Em sua defesa da primazia estética do tosco e do “não-artístico”, que associa de forma direta e meio ingênua à “autenticidade”, Shields lança a seguinte pergunta retórica: “O que, no último meio século, foi mais influente do que o filme em Super-8 do assassinato de Kennedy feito por Abraham Zapruder?” Hã? Devemos responder em ordem alfabética ou cronológica?

Isso não significa que o livro não tenha suas espertezas. Para começar, toca em nervos que estão realmente expostos no corpanzil envelhecido e um tanto sedentário da literatura e das artes em geral. Sim, a ficção vem há décadas perdendo relevância cultural, ponto. O que fazer disso é que são elas. Arejar a literatura na contaminação com outros discursos, inclusive o do jornalismo e o do ensaio, é um caminho que Sebald, Cercas e outros já apontaram há algum tempo – só não viu quem não quis. No entanto, chutar o cachorro que se supõe moribundo tem seus riscos: ele pode morder. Shields despreza o romance num momento histórico em que séries como “Harry Potter” e “Crepúsculo” batem recordes de popularidade. Obviamente, best-sellers desse tipo ficam fora de seu raciocínio por não serem “arte”. Tudo bem, mas os reality shows, que entram com tremenda fanfarra em seu raciocínio, por acaso serão?

A melhor parte dessa história é que o livro de Shields tem provocado reações fortes – contra e a favor – de meio mundo: só acabar com o entorpecimento crítico que caracteriza nossa época já o justifica. Jonatham Lethem louva-o num blurb de primeira página para a edição da Knopf com os adjetivos “sublime, excitante, furioso, visionário”. Zadie Smith escreveu uma refutação enfática antes mesmo do lançamento. O acadêmico de literatura Rob Nixon previu, no prestigioso “Chronicle Review”, que Reality hunger se tornará “o livro ao qual artistas de todos os meios vão se voltar em busca de inspiração, apoio ou altercação, em sua luta para se reinventar contra o vento frontal de nossa época”.

Mas a manifestação que, por afinidade, eu elejo para citar com mais fôlego, a de Laura Miller na Salon.com, toma caminho bem diferente:

Shields poderia ter simplesmente anunciado que perdeu todo o interesse em ler ou escrever ficção, e que fica ofendido pelo fato de alguns escritores que conhece não respeitarem inteiramente sua escolha. Talvez conseguisse fazer com tal material um bom artigo numa revista de literatura. Mas um manifesto – ah, isso sim é pensar grande, com drama e conflito para encorpar a receita! Dizer que você não consegue mais se entusiasmar com romances é realidade, mas proclamar do alto dos telhados que o romance morreu – aí já é showbiz. (…) Porque ao escrever um manifesto você está, afinal, contando uma história e escalando-se no papel de herói. Trata-se de uma história rigorosamente tão familiar e tradicional quanto o enredo do mais convencional dos romances populares: revolucionário visionário luta pelo progresso desafiando corajosamente a velha guarda. É uma narrativa antiquada, sem dúvida alguma – bem, vamos falar sério, na verdade é bastante brega. Mas ainda rola.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria Tags:
10/03/2010 - 11:58

Post-mortem

Imperdível: no blog de Paulo Roberto Pires, o escritor holandês Cees Nooteboom procura, no cemitério São João Batista, o túmulo do escritor brasileiro Machado de Assis. “Quem?” Tarefa imperdoavelmente difícil.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria Tags:
10/03/2010 - 10:51

Convocação geral

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria Tags:
08/03/2010 - 18:29

McEwan faz comédia com o aquecimento global

Um livro novo do inglês Ian McEwan é sempre algo a ser aguardado com certa ansiedade. Afinal, estamos falando do sujeito que escreveu “Reparação”, que é sem dúvida um dos grandes romances deste início de século – ou o maior deles, dependendo da facilidade com que alguém se deixa levar pelos superlativos, mas dá no mesmo.

O novo livro de McEwan se chama “Solar” e vai ser lançado no Reino Unido no próximo dia 18. Mantendo o movimento pendular entre o romance de época e o romance agudamente contemporâneo de sua carreira recente – “Reparação” (passado), “Sábado” (presente), “Na praia” (passado) – o livro tem como tema central a mudança climática. McEwan fez uma viagem ao Ártico como parte do trabalho de pesquisa e criou um protagonista, o físico Michael Beard, que é vencedor do Nobel e tem idéias sofisticadas sobre a salvação do planeta por meio da “fotossíntese artificial”.

Mas o mais notável não é isso. Em entrevista ao jornal “Guardian” (em inglês, acesso gratuito), o autor – que pela crueldade de suas tramas ganhou de seus conterrâneos o apelido de Ian Macabro – confirma os rumores de que “Solar” é uma comédia:

“Na verdade, eu acho os romances que estão dispostos a ser engraçados o tempo todo bastante opressivos”, explica ele. “Mas a comédia num sentido mais geral, sim. Ela lhe permite arredondar as quinas do realismo. Você consegue ser mais ágil, tocar o barco ligeiramente mais depressa na trama, ser um pouquinho menos sóbrio no julgamento do que pode acontecer.”

Talvez, levando-se em conta o tema, essa seja apenas uma forma de ser ainda mais macabro.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria Tags:
06/03/2010 - 15:57

Curiosidades etimológicas: Gringo

Gringo é um termo de conotações pejorativas que os mexicanos, no século XIX, tornaram praticamente sinônimo de americano. Nem sempre foi assim. “Gringo” é uma variação do espanhol griego, “grego”, e surgiu na Espanha – consta que primeiro em Málaga, depois em Madri – para designar de forma jocosa qualquer estrangeiro que falasse “enrolado”, especialmente os irlandeses. Vê-se entre nós a permanência da idéia do grego como algaravia na expressão “falar grego”, que significa “expressar-se de forma ininteligível”. Um provérbio latino medieval está na origem de tudo isso: Graecum est; non potest legi, ou seja – “É grego; não se consegue ler”.

A origem espanhola da palavra está registrada no Diccionario Castellano, de P. Esteban de Terreros y Pando, publicado em 1787. Muitas décadas, portanto, antes da guerra entre México e EUA (1846-1848) em que “gringo” se firmou no Novo Mundo. Segundo o Merriam-Webster, o verbete de 1787 desmente uma lenda etimológica de ampla circulação, a de que o termo teria nascido de uma canção escocesa tradicional que os soldados americanos cantavam na guerra contra os vizinhos do Sul, “Green Grow the Rashes, O!”. Isso teria levado os mexicanos, interpretando ao seu modo as duas primeiras palavras do verso de abertura, a apelidá-los “gringos”. Mais uma daquelas histórias bonitinhas e sem fundamento que fazem a glória dos livretos de divulgação etimológica.

Publicado no “NoMínimo” em 21/11/2006.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é... Tags:
05/03/2010 - 14:24

A chegada do ‘Sabático’ desafia a maré

A reforma gráfica e editorial que o jornal “O Estado de S. Paulo” estreará no próximo dia 14 inclui uma novidade de grande relevância para o meio ambiente literário, especialmente num clima global em que os suplementos de livros da grande imprensa só fazem encolher ou morrer: um caderno dedicado à literatura – aos sábados, naturalmente – chamado Sabático. Está certo que o nome soa pernóstico, mas, antes mesmo de ver o produto, vale dizer: boa, Estadão!

Será mais um sinal de que a imprensa que depende de celulose está menos moribunda do que tanta gente, principalmente gente que nunca arranjou emprego numa redação, anda apregoando alegremente nos últimos anos? É o que argumenta o escritor americano – e fundador da editora independente McSweeney’s – Dave Eggers, em defesa de seu recém-lançado jornal-de-um-número-só (mas a coisa mais linda do mundo) San Francisco Panorama.

“Há um monte de coisas que a imprensa de papel pode fazer como ninguém e que a internet não pode”, diz Eggers com a autoridade de quem praticamente nasceu no ambiente digital, na equipe da revista eletrônica Salon.com. “As duas formas deveriam coexistir, em vez dessa situação de soma zero em que parecemos empacados hoje.”

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria Tags:
03/03/2010 - 17:11

‘Sobrescritos’, o filme. Filme?! É, filme

Em primeiríssima mão, divido com os leitores do Todoprosa o teaser internético do meu livro “Sobrescritos ” (Arquipélago Editorial), nas livrarias semana que vem. A obra é de Leon Vilhena, jovem e talentoso profissional da animação carioca, que tem a Globosat entre seus clientes. O áudio vem a ser uma leitura minha, em versão ligeiramente editada, do conto que encerra o livro, chamado “Virtual”. Quem gostar e quiser espalhar não precisa pedir autorização.

Lembrando: o lançamento carioca de “Sobrescritos” será na Travessa de Ipanema, na próxima quarta-feira. O gaúcho, na Palavraria, dia 22 de março. Deve rolar um sarau paulistano também, mas sobre este dou notícias mais à frente.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria Tags:
02/03/2010 - 10:16

Tezza: ‘Nossa literatura não existe fora do Brasil’

Cristovão Tezza fará amanhã – o que, com o fuso horário, significa daqui a algumas horas – uma palestra na Austrália, como convidado do Festival de Artes de Adelaide, onde foi parar a bordo do sucesso de seu romance “O filho eterno”. Por email, entre uma Foster’s e outra, o escritor catarinense achou tempo para uma conversa sobre suas experiências nesta fronteira que, de tão pouco explorada, é quase selvagem: a da verdadeira projeção internacional de um livro brasileiro de “ficção literária”. Resumo de sua impressão geral: “A literatura brasileira não existe fora do Brasil. Ponto. Ninguém conhece absolutamente nada daqui, à exceção de meia dúzia de professores universitários”.

1. A que países “O filho eterno” já o levou e onde você sentiu maior receptividade?

– “O filho eterno” já me levou a Portugal, França, Espanha (Barcelona; a tradução foi em catalão!) e, agora, Austrália. O livro saiu também na Holanda e na Itália. Ainda não tenho uma idéia completa da recepção, mas o livro está indo muito bem na França, onde teve boa recepção crítica e ganhou o prêmio anual da Associação Francesa de Psiquiatria, que contempla obras literárias com temas que se relacionam com a área; e na Holanda, também com boa crítica e com boas vendas.

2. Paulo Coelho à parte, temos daqui a impressão de que o mundo não parece interessado na literatura brasileira, e até autores búlgaros gozam de mais boa vontade. Confere? O que os estrangeiros que você encontrou conhecem do que se faz aqui?

– Esse é um fato inescapável: a literatura brasileira não existe fora do Brasil. Ponto. Ninguém conhece absolutamente nada daqui, à exceção de meia dúzia de professores universitários envolvidos em departamentos de literatura brasileira e portuguesa, para consumo escolar e acadêmico, sempre mínimo. Aqui na Austrália levei um certo susto, porque sou praticamente o único autor do Festival de Adelaide (que, além de teatro, dança, música e outras artes inclui uma Semana do Escritor, para a qual fui convidado) de um país em que não se fala a língua inglesa. Conversando com John Coetzee, ele disse que ficou surpreendido com a total “autonomia” da arte brasileira em geral – o que eu entendi como um certo “autismo brasileiro”, uma arte que parece que não tem relação com nada.

3. E o próximo livro, como fica nessa roda-viva? Você é o tipo de escritor que consegue escrever em aeroportos e quartos de hotel?

– Essa é a primeira semana em que não sou mais professor da universidade. Pedi demissão. Quero viver uma vida tranquila agora, ler e escrever com prazer, fazer as coisas mais devagar. Jamais escrevi literatura em hotel – não consigo. Meu novo romance já está praticamente pronto; consegui tirar dois meses de férias, em dezembro e janeiro, para terminá-lo. Deve sair em outubro pela Record.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Três perguntas para... Tags:
01/03/2010 - 11:56

Adeus a Mindlin, apoio a Denise

A melhor forma de homenagear o bibliófilo José Mindlin, que morreu ontem aos 95 anos, é com livros. Como os desta lista “de e sobre Mindlin” que o site O Livreiro publica.

Certamente não é com a disputa açodada pela vaga que ele deixa na Academia Brasileira de Letras – iniciada ontem mesmo, segundo o colunista Ancelmo Gois, e tendo Fernando Henrique Cardoso e Ziraldo em posições de aparente favoritismo.

*

Está rolando, por iniciativa de quatro tradutores de primeira linha, um abaixo-assinado de apoio a Denise Bottmann naquela briga contra a editora Landmark, que tanto repercutiu aqui na semana passada. Eu já assinei.

E para misturar os dois assuntos, bibliofilia e tradução, vale resgatar, com o gancho do aguardadíssimo filme de Tim Burton, este artigo de Gabriel Perissé sobre os brasileiros que se lançaram à difícil tarefa de traduzir os dois livros de “Alice”, de Lewis Carroll – entre eles, numa “adaptação” de 1931, Monteiro Lobato.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria Tags:
27/02/2010 - 00:03

Curiosidades etimológicas: Presepada

Sempre me intrigou que o presépio, singela representação do nascimento de Jesus Cristo numa estrebaria, tenha tido na língua brasileira filhotes pejorativos como “presepada” (palhaçada) e “presepeiro” (fanfarrão). Vinda do latim praesepium, que quer dizer apenas curral, cercado onde se guardam animais, a palavra “presépio” existe no português desde o século XIV, com sentido exclusivamente religioso.

Quem passa mais perto de uma explicação é o etimologista Silveira Bueno. Depois de afirmar que a tradição do presépio foi iniciada por São Francisco de Assis, ele registra no verbete “presepista”, sinônimo menos comum de presepeiro, que a palavra se aplica tanto a quem monta presépios quanto aos “farsantes que tomavam parte nos autos de Natal”. Isso joga uma luz nova sobre uma das acepções de “presepada” no Houaiss: “espetáculo ridículo”. A péssima qualidade dos atores dos presépios vivos, seus prováveis maneirismos, para não mencionar a cenografia e os figurinos toscos – tudo isso pode ter criado as condições para o nascimento de “presepada”.

Publicado no “Nomínimo” em 22/12/2006.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é... Tags:
25/02/2010 - 10:57

Aumenta que isso aí é Monteiro Lobato!

Você já ouviu a voz de Monteiro Lobato? Eu nunca tinha ouvido até a Isabel Pinheiro, todoprosista de longa data, me enviar o link dessa entrevista ao “radiologista” (a piada é lobatiana) Murilo Antunes Alves, da Rádio Record, em 1948. O grande escritor tinha 66 anos, idade avançada para a época, e logo sofreria um derrame fatal.

Atenção: se você ainda não ouviu isso, a visita é obrigatória. A entrevista tem outras duas partes, que podem ser acessadas aqui e aqui.

Mais do que da voz propriamente dita – meio anasalada e pelo menos uma oitava acima do que suas sobrancelhas me faziam supor – o prazer maior vem da “voz” de Lobato, o tom mordaz em que expressa suas opiniões desiludidas e politicamente incorretas. “Todas as nossas experiências têm fracassado, não há razão para acreditar (no Brasil)… Só os céticos absolutos acertam”. Tudo, porém, sem perder a ternura e a auto-ironia jamais. “É isso o que pensa o velho Lobato com a sua longa experiência acumulada”, sorri.

Do prazer interiorano de comer formiga torrada – que tem “um cheirinho que eu não digo do que é, para não escandalizar o público” – à conjuntura internacional do pós-guerra – “o que está faltando ao mundo, para o restabelecimento da paz, é apenas isso: bomba atômica para todos” – Lobato deixava claro que, àquela altura da vida, estava se lixando para o que pudessem pensar os fariseus. A única exceção: a recusa em emitir juízos sobre política nacional. No mais, julgava-se um grande e vivido intelectual público exercendo o direito de remar contra as marés. E era exatamente isso.

Veja-se seu conselho a um jovem escritor hipotético: “Crescer e aparecer. Se ele não tiver qualidades boas, fracassará, e com muita justiça”. Afinal, para ele, o mercado editorial era auto-regulável: “Se o livro não se vende, é porque não presta”. Daí sua resposta à velha questão do que mais o satisfazia em seu legado: “De todas as minhas obras, a que mais me agrada é a que me dá mais dinheiro: ‘(Reinações de) Narizinho’, que já vendeu mais de 100 mil exemplares”.

O sarcasmo só se suaviza quando ele fala, enlevado, do prazer de escrever para crianças. Mas também aí aparece um travo amargo: “Eu perdi tempo escrevendo para gente grande, que é uma coisa que não vale a pena”.

Já no fim da entrevista, o anfitrião radiofônico lhe perguntou qual era, àquela altura da vida, seu maior desejo. “Meu maior desejo neste momento seria ver este locutor pelas costas.” Foi prontamente atendido. José Bento Renato Monteiro Lobato, grande figura, morreu poucos dias depois.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria Tags:
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