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“Então me digam que metáfora do solitário, pungente,
imaginoso ofício de escrever pode, nesta vida cachorra,
superar o velho ‘manutigium’?” CECILIO GIOVENAZZI

10/03/2010 - 11:58

Post-mortem

Imperdível: no blog de Paulo Roberto Pires, o escritor holandês Cees Nooteboom procura, no cemitério São João Batista, o túmulo do escritor brasileiro Machado de Assis. “Quem?” Tarefa imperdoavelmente difícil.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria Tags:
10/03/2010 - 10:51

Convocação geral

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria Tags:
08/03/2010 - 18:29

McEwan faz comédia com o aquecimento global

Um livro novo do inglês Ian McEwan é sempre algo a ser aguardado com certa ansiedade. Afinal, estamos falando do sujeito que escreveu “Reparação”, que é sem dúvida um dos grandes romances deste início de século – ou o maior deles, dependendo da facilidade com que alguém se deixa levar pelos superlativos, mas dá no mesmo.

O novo livro de McEwan se chama “Solar” e vai ser lançado no Reino Unido no próximo dia 18. Mantendo o movimento pendular entre o romance de época e o romance agudamente contemporâneo de sua carreira recente – “Reparação” (passado), “Sábado” (presente), “Na praia” (passado) – o livro tem como tema central a mudança climática. McEwan fez uma viagem ao Ártico como parte do trabalho de pesquisa e criou um protagonista, o físico Michael Beard, que é vencedor do Nobel e tem idéias sofisticadas sobre a salvação do planeta por meio da “fotossíntese artificial”.

Mas o mais notável não é isso. Em entrevista ao jornal “Guardian” (em inglês, acesso gratuito), o autor – que pela crueldade de suas tramas ganhou de seus conterrâneos o apelido de Ian Macabro – confirma os rumores de que “Solar” é uma comédia:

“Na verdade, eu acho os romances que estão dispostos a ser engraçados o tempo todo bastante opressivos”, explica ele. “Mas a comédia num sentido mais geral, sim. Ela lhe permite arredondar as quinas do realismo. Você consegue ser mais ágil, tocar o barco ligeiramente mais depressa na trama, ser um pouquinho menos sóbrio no julgamento do que pode acontecer.”

Talvez, levando-se em conta o tema, essa seja apenas uma forma de ser ainda mais macabro.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria Tags:
06/03/2010 - 15:57

Curiosidades etimológicas: Gringo

Gringo é um termo de conotações pejorativas que os mexicanos, no século XIX, tornaram praticamente sinônimo de americano. Nem sempre foi assim. “Gringo” é uma variação do espanhol griego, “grego”, e surgiu na Espanha – consta que primeiro em Málaga, depois em Madri – para designar de forma jocosa qualquer estrangeiro que falasse “enrolado”, especialmente os irlandeses. Vê-se entre nós a permanência da idéia do grego como algaravia na expressão “falar grego”, que significa “expressar-se de forma ininteligível”. Um provérbio latino medieval está na origem de tudo isso: Graecum est; non potest legi, ou seja – “É grego; não se consegue ler”.

A origem espanhola da palavra está registrada no Diccionario Castellano, de P. Esteban de Terreros y Pando, publicado em 1787. Muitas décadas, portanto, antes da guerra entre México e EUA (1846-1848) em que “gringo” se firmou no Novo Mundo. Segundo o Merriam-Webster, o verbete de 1787 desmente uma lenda etimológica de ampla circulação, a de que o termo teria nascido de uma canção escocesa tradicional que os soldados americanos cantavam na guerra contra os vizinhos do Sul, “Green Grow the Rashes, O!”. Isso teria levado os mexicanos, interpretando ao seu modo as duas primeiras palavras do verso de abertura, a apelidá-los “gringos”. Mais uma daquelas histórias bonitinhas e sem fundamento que fazem a glória dos livretos de divulgação etimológica.

Publicado no “NoMínimo” em 21/11/2006.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é... Tags:
05/03/2010 - 14:24

A chegada do ‘Sabático’ desafia a maré

A reforma gráfica e editorial que o jornal “O Estado de S. Paulo” estreará no próximo dia 14 inclui uma novidade de grande relevância para o meio ambiente literário, especialmente num clima global em que os suplementos de livros da grande imprensa só fazem encolher ou morrer: um caderno dedicado à literatura – aos sábados, naturalmente – chamado Sabático. Está certo que o nome soa pernóstico, mas, antes mesmo de ver o produto, vale dizer: boa, Estadão!

Será mais um sinal de que a imprensa que depende de celulose está menos moribunda do que tanta gente, principalmente gente que nunca arranjou emprego numa redação, anda apregoando alegremente nos últimos anos? É o que argumenta o escritor americano – e fundador da editora independente McSweeney’s – Dave Eggers, em defesa de seu recém-lançado jornal-de-um-número-só (mas a coisa mais linda do mundo) San Francisco Panorama.

“Há um monte de coisas que a imprensa de papel pode fazer como ninguém e que a internet não pode”, diz Eggers com a autoridade de quem praticamente nasceu no ambiente digital, na equipe da revista eletrônica Salon.com. “As duas formas deveriam coexistir, em vez dessa situação de soma zero em que parecemos empacados hoje.”

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria Tags:
03/03/2010 - 17:11

‘Sobrescritos’, o filme. Filme?! É, filme

Em primeiríssima mão, divido com os leitores do Todoprosa o teaser internético do meu livro “Sobrescritos ” (Arquipélago Editorial), nas livrarias semana que vem. A obra é de Leon Vilhena, jovem e talentoso profissional da animação carioca, que tem a Globosat entre seus clientes. O áudio vem a ser uma leitura minha, em versão ligeiramente editada, do conto que encerra o livro, chamado “Virtual”. Quem gostar e quiser espalhar não precisa pedir autorização.

Lembrando: o lançamento carioca de “Sobrescritos” será na Travessa de Ipanema, na próxima quarta-feira. O gaúcho, na Palavraria, dia 22 de março. Deve rolar um sarau paulistano também, mas sobre este dou notícias mais à frente.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria Tags:
02/03/2010 - 10:16

Tezza: ‘Nossa literatura não existe fora do Brasil’

Cristovão Tezza fará amanhã – o que, com o fuso horário, significa daqui a algumas horas – uma palestra na Austrália, como convidado do Festival de Artes de Adelaide, onde foi parar a bordo do sucesso de seu romance “O filho eterno”. Por email, entre uma Foster’s e outra, o escritor catarinense achou tempo para uma conversa sobre suas experiências nesta fronteira que, de tão pouco explorada, é quase selvagem: a da verdadeira projeção internacional de um livro brasileiro de “ficção literária”. Resumo de sua impressão geral: “A literatura brasileira não existe fora do Brasil. Ponto. Ninguém conhece absolutamente nada daqui, à exceção de meia dúzia de professores universitários”.

1. A que países “O filho eterno” já o levou e onde você sentiu maior receptividade?

– “O filho eterno” já me levou a Portugal, França, Espanha (Barcelona; a tradução foi em catalão!) e, agora, Austrália. O livro saiu também na Holanda e na Itália. Ainda não tenho uma idéia completa da recepção, mas o livro está indo muito bem na França, onde teve boa recepção crítica e ganhou o prêmio anual da Associação Francesa de Psiquiatria, que contempla obras literárias com temas que se relacionam com a área; e na Holanda, também com boa crítica e com boas vendas.

2. Paulo Coelho à parte, temos daqui a impressão de que o mundo não parece interessado na literatura brasileira, e até autores búlgaros gozam de mais boa vontade. Confere? O que os estrangeiros que você encontrou conhecem do que se faz aqui?

– Esse é um fato inescapável: a literatura brasileira não existe fora do Brasil. Ponto. Ninguém conhece absolutamente nada daqui, à exceção de meia dúzia de professores universitários envolvidos em departamentos de literatura brasileira e portuguesa, para consumo escolar e acadêmico, sempre mínimo. Aqui na Austrália levei um certo susto, porque sou praticamente o único autor do Festival de Adelaide (que, além de teatro, dança, música e outras artes inclui uma Semana do Escritor, para a qual fui convidado) de um país em que não se fala a língua inglesa. Conversando com John Coetzee, ele disse que ficou surpreendido com a total “autonomia” da arte brasileira em geral – o que eu entendi como um certo “autismo brasileiro”, uma arte que parece que não tem relação com nada.

3. E o próximo livro, como fica nessa roda-viva? Você é o tipo de escritor que consegue escrever em aeroportos e quartos de hotel?

– Essa é a primeira semana em que não sou mais professor da universidade. Pedi demissão. Quero viver uma vida tranquila agora, ler e escrever com prazer, fazer as coisas mais devagar. Jamais escrevi literatura em hotel – não consigo. Meu novo romance já está praticamente pronto; consegui tirar dois meses de férias, em dezembro e janeiro, para terminá-lo. Deve sair em outubro pela Record.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Três perguntas para... Tags:
01/03/2010 - 11:56

Adeus a Mindlin, apoio a Denise

A melhor forma de homenagear o bibliófilo José Mindlin, que morreu ontem aos 95 anos, é com livros. Como os desta lista “de e sobre Mindlin” que o site O Livreiro publica.

Certamente não é com a disputa açodada pela vaga que ele deixa na Academia Brasileira de Letras – iniciada ontem mesmo, segundo o colunista Ancelmo Gois, e tendo Fernando Henrique Cardoso e Ziraldo em posições de aparente favoritismo.

*

Está rolando, por iniciativa de quatro tradutores de primeira linha, um abaixo-assinado de apoio a Denise Bottmann naquela briga contra a editora Landmark, que tanto repercutiu aqui na semana passada. Eu já assinei.

E para misturar os dois assuntos, bibliofilia e tradução, vale resgatar, com o gancho do aguardadíssimo filme de Tim Burton, este artigo de Gabriel Perissé sobre os brasileiros que se lançaram à difícil tarefa de traduzir os dois livros de “Alice”, de Lewis Carroll – entre eles, numa “adaptação” de 1931, Monteiro Lobato.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria Tags:
27/02/2010 - 00:03

Curiosidades etimológicas: Presepada

Sempre me intrigou que o presépio, singela representação do nascimento de Jesus Cristo numa estrebaria, tenha tido na língua brasileira filhotes pejorativos como “presepada” (palhaçada) e “presepeiro” (fanfarrão). Vinda do latim praesepium, que quer dizer apenas curral, cercado onde se guardam animais, a palavra “presépio” existe no português desde o século XIV, com sentido exclusivamente religioso.

Quem passa mais perto de uma explicação é o etimologista Silveira Bueno. Depois de afirmar que a tradição do presépio foi iniciada por São Francisco de Assis, ele registra no verbete “presepista”, sinônimo menos comum de presepeiro, que a palavra se aplica tanto a quem monta presépios quanto aos “farsantes que tomavam parte nos autos de Natal”. Isso joga uma luz nova sobre uma das acepções de “presepada” no Houaiss: “espetáculo ridículo”. A péssima qualidade dos atores dos presépios vivos, seus prováveis maneirismos, para não mencionar a cenografia e os figurinos toscos – tudo isso pode ter criado as condições para o nascimento de “presepada”.

Publicado no “Nomínimo” em 22/12/2006.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é... Tags:
25/02/2010 - 10:57

Aumenta que isso aí é Monteiro Lobato!

Você já ouviu a voz de Monteiro Lobato? Eu nunca tinha ouvido até a Isabel Pinheiro, todoprosista de longa data, me enviar o link dessa entrevista ao “radiologista” (a piada é lobatiana) Murilo Antunes Alves, da Rádio Record, em 1948. O grande escritor tinha 66 anos, idade avançada para a época, e logo sofreria um derrame fatal.

Atenção: se você ainda não ouviu isso, a visita é obrigatória. A entrevista tem outras duas partes, que podem ser acessadas aqui e aqui.

Mais do que da voz propriamente dita – meio anasalada e pelo menos uma oitava acima do que suas sobrancelhas me faziam supor – o prazer maior vem da “voz” de Lobato, o tom mordaz em que expressa suas opiniões desiludidas e politicamente incorretas. “Todas as nossas experiências têm fracassado, não há razão para acreditar (no Brasil)… Só os céticos absolutos acertam”. Tudo, porém, sem perder a ternura e a auto-ironia jamais. “É isso o que pensa o velho Lobato com a sua longa experiência acumulada”, sorri.

Do prazer interiorano de comer formiga torrada – que tem “um cheirinho que eu não digo do que é, para não escandalizar o público” – à conjuntura internacional do pós-guerra – “o que está faltando ao mundo, para o restabelecimento da paz, é apenas isso: bomba atômica para todos” – Lobato deixava claro que, àquela altura da vida, estava se lixando para o que pudessem pensar os fariseus. A única exceção: a recusa em emitir juízos sobre política nacional. No mais, julgava-se um grande e vivido intelectual público exercendo o direito de remar contra as marés. E era exatamente isso.

Veja-se seu conselho a um jovem escritor hipotético: “Crescer e aparecer. Se ele não tiver qualidades boas, fracassará, e com muita justiça”. Afinal, para ele, o mercado editorial era auto-regulável: “Se o livro não se vende, é porque não presta”. Daí sua resposta à velha questão do que mais o satisfazia em seu legado: “De todas as minhas obras, a que mais me agrada é a que me dá mais dinheiro: ‘(Reinações de) Narizinho’, que já vendeu mais de 100 mil exemplares”.

O sarcasmo só se suaviza quando ele fala, enlevado, do prazer de escrever para crianças. Mas também aí aparece um travo amargo: “Eu perdi tempo escrevendo para gente grande, que é uma coisa que não vale a pena”.

Já no fim da entrevista, o anfitrião radiofônico lhe perguntou qual era, àquela altura da vida, seu maior desejo. “Meu maior desejo neste momento seria ver este locutor pelas costas.” Foi prontamente atendido. José Bento Renato Monteiro Lobato, grande figura, morreu poucos dias depois.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria Tags:
23/02/2010 - 10:38

Editora processa blogueira: pode plagiar esta notícia

A tradutora e blogueira Denise Bottmann, do site Não Gosto de Plágio, precisa de ajuda. Caçadora mais ou menos solitária de picaretas editoriais, está sendo processada pela editora Landmark, que pede ao juiz indenização mais a retirada de seu blog do ar – informa Alessandro Martins, do blog Livros e Afins. Tudo por ter denunciado que a tradução de “Persuasão”, de Jane Austen, lançada pela Landmark com a assinatura de um de seus proprietários, Fábio Cyrino, seria praticamente um xerox de uma antiga – e fraca – tradução portuguesa da lavra de Isabel Sequeira, até em seus numerosos erros. A blogueira Raquel Sallaberry, do Jane Austen em Português, também está sendo processada pela editora.

Caso a denúncia seja mesmo na mosca, como os exemplos citados em seu blog indicam (tem até uma mesma gralha cômica, “átrio” virando “trio” em ambos os textos), Denise terá exposto mais uma vez o golpe de requentar traduções sem pagamento de direitos, bandeira de subdesenvolvimento cultural que infelizmente está longe de ser novidade no Brasil. Se você também não gosta de plágio, ajude a espalhar a notícia.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria Tags:
22/02/2010 - 15:06

‘Sobrescritos’: orelha, orelhas

sobrescritos capaNão, o livro de papel não morre tão cedo, e a prova disso é que está nascendo mais um. Com o bicho na gráfica e o lançamento carioca marcado para a noite de 10 de março, uma quarta-feira, na Travessa de Ipanema, tenho o prazer de adiantar aqui o texto da orelha de “Sobrescritos” (Arquipélago Editorial), assinado por Arthur Dapieve:

As pessoas coçaram atrás da orelha. Depois, porém, as pessoas coçaram atrás da orelha de novo. Por fim, as pessoas ficaram com o lado de trás da orelha inteiramente escalavrado. Quando os primeiros Sobrescritos apareceram, enigmáticos, na coluna Todoprosa, de Sérgio Rodrigues, no bom e velho site NoMínimo, as pessoas suspeitaram que eram minicontos à clef, dispostos a esculhambar de vez o mundo das letras. Quem seria o “escritor de barba espessa e fama rala?”, alarmaram-se alguns. E o inesquecível Lúcio Nareba, “lenda da blogosfera literária nacional”, quem haveria de ser?, sussurraram outros.

Felizmente, houve também quem percebesse de cara que todas essas figuraças, incluindo Demóstenes Bastião, o que escrevia em preto e branco, ou o latinista Cecilio Giovenazzi, “o maior memorialista do onanismo no Ocidente”, habitavam era a interseção entre a capacidade de observação e o talento para fabular de Sérgio, crítico-romancista. Daí elas tanto incomodarem quando permanecerem na memória bem após o log off, caso do primeiro texto da coletânea, no qual a blogueira reencena Love Story com o estruturalista.

Hoje, portanto, quando a sempre prestigiosa Todoprosa é navegável via iG, mais pessoas já leem os Sobrescritos como as delicadas peças de ironia, bibliofilia e alguma tristeza que eles de fato são. Embora algumas das pessoas, por via das dúvidas, carreguem sempre um band-aid para o lado de trás da orelha no bolso da frente das calças.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria Tags:
20/02/2010 - 14:05

Curiosidades etimológicas: Ianque

Yankees, go home! Hoje usada indiscriminadamente, e muitas vezes com sentido negativo, como sinônimo de nativo dos EUA, yankee é, curiosamente, uma das palavras mais misteriosas da língua inglesa. Ninguém sabe de onde veio, embora ao longo da história não tenham faltado teses etimológicas – algumas cômicas.

Acredita-se que, de início, yankee (que aportuguesamos com a grafia “ianque”) era um termo usado pejorativamente pelos holandeses de Nova York para designar os habitantes de Connecticut. Em seguida, os colonizadores britânicos o adotaram como sinônimo de qualquer colono americano. Em sinal de desafio, mais tarde foi o pessoal da terra que reivindicou orgulhosamente o nome, num percurso semelhante ao cumprido pela palavra “brasileiro”, que de início também tinha conotações depreciativas. Hoje, os dicionários nos informam que o sentido mais restrito de “ianque” é habitante da Nova Inglaterra, na região Nordeste dos EUA, que inclui entre outros o referido estado de Connecticut. Na Guerra de Secessão, porém, ianques eram todos os nortistas – que venceram. Isso significa que, numa das acepções restritas da palavra, o texano Bush não era exatamente um deles. Mas faz tempo que qualquer americano é chamado de ianque. Confuso? Ainda não vimos nada.

Segundo o Merriam-Webster etimológico, em que foi baseado o parágrafo acima, já se acreditou que yankee viesse do apelido de um fazendeiro de Massachusetts, Yankee Hastings, famoso por usar constantemente a palavra como expressão de contentamento; da palavra Cherokee eankke, “covarde”, que, verificou-se depois, nunca existiu na língua Cherokee; de uma tentativa dos índios de pronunciar English; das gírias britânicas yankie, “mulher decidida”, e jank, “merda”; e até do persa (!) janghe, “cavalo veloz”. Há muitas outras teses, a mais respeitável delas envolvendo um pirata holandês chamado Yankey, ou melhor, Jan Kees, que se pode traduzir como João Queijo. Mas chega. Essa breve lista basta para deixar claro que estamos diante de uma tremenda confusão.

Publicado no “NoMínimo” em 7/3/2007.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é... Tags:
19/02/2010 - 15:45

Não confie nesses caras

Algo estranho aconteceu com os narradores não confiáveis em meados do século 20: eles se tornaram um pouco mais confiavelmente não confiáveis, e muito mais vis. Em fins do século 19 eles tendiam a ser pouco dignos de crédito por estarem escondendo alguma coisa sobre si mesmos ou não conseguirem enxergar a verdade, em geral devido a algum tipo de fraqueza psicológica. No entanto, à medida que o modernismo caminhou para o pós-modernismo e todos nos tornamos muito mais cínicos, esperava-se que os narradores em sua maioria fossem complicados. A falta de confiabilidade tornou-se inseparavelmente ligada à maldade – para não falar na duplicidade, no delírio e até na loucura. Naturalmente, o alargamento dos parâmetros também tornou os narradores não confiáveis muito mais divertidos, com o humor compensando com frequência seu lado negro. O desafio era tornar esses traiçoeiros narradores em primeira pessoa ao mesmo tempo intrigantes e divertidos.

O escritor Henry Sutton faz no “Guardian” uma boa reflexão (em inglês) sobre o clássico tema do narrador não confiável, além de apresentar uma também interessante lista pessoal dos dez principais livros da língua inglesa cuja prosa é conduzida por um deles: “Lolita”, “A volta do parafuso”, “O apanhador no campo de centeio”, “Psicopata americano”, “As aventuras de Huckleberry Finn”, “Grana” (de Martin Amis) e outros – nada muito novo.

O narrador não confiável, como se sabe, é aquele que, dos bastidores, o autor deixa mais ou menos claro não gozar de sua confiança, e portanto não merecer também a do leitor. É tipicamente um personagem que, envolvido na história que conta, narra em primeira pessoa (embora a terceira pessoa não onisciente também possa ser usada) uma versão parcial, interessada e às vezes flagrantemente delirante. Já ouvi o argumento de que todo e qualquer narrador é por definição não confiável, uma vez que nenhum discurso dá conta da “realidade”. Isso me parece um sofisma bobo. O fato de eu não acreditar numa única palavra de um livro não torna seu narrador necessariamente não confiável – não no sentido que a teoria da literatura dá ao termo. O recurso se caracteriza pela exploração consciente e quase sempre irônica da distância entre autor e narrador, e pelo o fato de dois ou mais níveis de significação transcorrerem simultaneamente. Em outras palavras, é preciso confiar no autor para desconfiar do narrador.

Na literatura brasileira, o exemplo imbatível do gênero é o Bentinho de “Dom Casmurro”, tão convencido de ter sido traído por Capitu que enganou uma ou duas – talvez mais – gerações de críticos, além de fazer o mesmo até hoje com leitores desavisados. Lendo o decálogo de Sutton, porém, fiquei interessado em ampliar os exemplos para montar um similar nacional. Sugestões, moçada?

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria Tags:
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