
Um elevador e duzentos e tantos degraus depois, vista do topo da basílica de São Pedro… Nosso hotel fica ao lado esquerdo, atrás do castelo de Santo Angelo (a construção arredondada, lembra daquele filme com o Tom Hanks?). Centro histórico do lado direito do rio
(aviso ao navegante: se quiser pular a introdução ‘onde ficar’, os dois restauras estão lááá na segunda metade do texto. e veja também: no iG Comida, uma parada na região gastronômica do Lascio-Roma).
Então, passei uma semana em Roma. O hotel fica na Via Cicerone, num bairro chamado Prati. Está colado ao Vaticano, mais ou menos perto do badalado Trastevere e a uma ponte (Cavour, Santo Angelo ou mais precisamente Umberto I) da muvuquinha clássica do centro histórico. Uma caminhada leve, de quinze minutos, leva até à brasileiríssima Piazza Navona.
Fiquei muito bem assim. Foi a segunda vez no mesmo hotel, o Isa. É bem caro, mas muito adequado ao que eu precisava no momento em termos de café da manhã (quase insuperável), bom serviço (o Fabio, da recepção, é o tipo zelador querido do coração. Confie) e excelente localização para andar com segurança dia e noite. Nas minhas contas, eu gastaria a metade se alugasse um apartamento charmoso no centro e vivesse assim me fingindo de romana por uns dias. Mas não dava para fazer isso desta vez.
Alora, a coisa começa com frios, pães, frutas (ah, o doce melão…), granola envolvida em panna (uma mistura linda e indecisa de creme de leite/iogurte, encorpada e gostosa)… e ela, claro, minha estrela, a espremuta de laranja — não peça jamais suco de laranja. Na maioria dos lugares da Itália, se pedir suco vai ganhar uma bebida aguada com jeitão de ‘restôdontè’. Espremuta é o único jeito de beber a fruta fresca espremida na hora.
Capuccino, ovo cozido, omelete, chocolate? Tem o que você quiser, o que não tiver em geral arranjam. Para terminar, dá para bebericar espumante arriscando um providencial dolce far niente.
Essa prima colazione generosa ocorre no terraço com vista para os telhados alheios. Não tem arranha-céu aqui, digo, lá, então dá para ver o que todo mundo faz “em cima”. São antenas (muitas), roupas penduradas, escritórios improvisados, nadas… Ao fundo disso tudo, dez minutinhos a pé e ao alcance dos olhos, o objeto principal e que provoca disputa por uma mesa na varanda: a cúpula da basílica de São Pedro.
Pensa nisso: banho de sol de outono, tomando um bom café da manhã e planejando seu dia em Roma… será que vou subir os duzentos e tantos degraus da basílica hoje? A vista, pelo menos, compensa.
…
Como à noite eu sempre estava destruída por muita caminhada durante o dia, precisava de opções confiáveis para jantar perto “de casa”. Mesmo se você não for geminiano indeciso, poucas coisas são mais difíceis do que escolher com segurança um restaurante em uma cidade como Roma a não ser que:
1. você não precise economizar euros e possa se jogar no Gambero Rosso, uma espécie de Michelin da Itália. Daí os grandes críticos locais decidem. São só os mais bem classificados. Um, dois, três forchetti? Quantas bicchieri seu bolso vai encarar hoje? Resolva ali onde vai comer ou qual reserva terá de cavar
2. você tenha amigos romanos ou residentes, com dicas pessoais e insuperáveis. Chico Buarque morou lá. Que tal? Faz tempo, mas… Liga pra ele!
3. você tenha um repertório de muitas visitas e possa já montar o seu Gambero Rosso particular
Nenhuma das três alternativas se aplicava a essa minha terceira visita à Roma. Todas as vezes em que estive aqui/lá fiz o que é do jogo. Andei muito, comi sanduíche de mortadela na rua, pizza em pedaços (o que eles chamam de pizza, ah, esses italianos) ou parei com fome diante de algum rabisco de fórmula turística: 10 euros por uma rotonda clássica, um copo de vinho e uma salada ou ainda espaguete alla matriciana, uma carne e um vinho.
Como todo mundo, tive boas e más experiências assim, na tentativa e erro. É bom.
…

Carbonara: especialidade romana servida com toucinho, ovo e pecorino. Lascas de parmesão também
Desta vez, no entanto, como disse, eu precisava de porto seguro no jantar. Sobretudo porque estou alimentando, dentro da minha barriga, uma outra pessoa. A lombriga (que na verdade não existia e eu usava como desculpa para a fome que sinto o tempo todo e desde sempre) agora é um bebê. E mulheres grávidas têm desejos gerais. Eu, em Roma, acredite, desejava sopa à noite (como primeiro prato, claro). Uma confortante zuppa de verdura. Legumes, tomate, caldo de carne bem feito. Encontrei. E quando queria jantar rigatoni alla matriciana, também achei o lugar certo. Uma comidinha caseira.
Se estiver nos arredores do bairro Prati, portanto, perto do palácio da justiça, do Castelo St. Angelo ou do Vaticano, almoce ou jante num desses dois.
São simples, frequentados por italianos (e turistas que não se importam com badalação):
Su e Giù Cucina Romana
Via Tacito, 42
É uma casa diminuta, familiar (a mãe, uma senhora gordinha de origem piemontesa, o filho e a mulher do filho cuidam de tudo) e de boa comida caseira. Carbonara, matriciana, sopas variadas, peixes, vôngole… Está tudo lá. Feito na hora e com produtos frescos do dia – então talvez aquele risoto de alcachofra não seja opção para hoje. Depende da feira, o que é sempre bom.
Lembro que, no ano passado, na minha primeira noite em Roma, chegamos ao Su e Giù e fomos os únicos clientes durante toda a noite. Eles tinham acabado de inaugurar e foram queridos. A doninha sentou conosco, como uma mamma preocupada e divertida. Era uma entrevista para saber o que iria bem no jantar. Rigatoni alla matriciana e coda alla vaccinara – um tipo de rabada. O vinho foi sugestão da doninha. Um tinto piemontês.”Da minha terra”, disse.
No fim da cena, eles nos levaram até a porta e ficamos conversando na calçada. Voltei para o hotel pensando naquela recepção carina, temendo que eles talvez não vingassem. Cadê as pessoas que não estão vendo esse lugar?
Deu tudo certo, porque voltei lá mais de um ano depois. A casa estava cheia e animada. O antepasto sugerido ainda é o mesmo: uma inesquecível linguiça caseira cozida por horas em vinho branco e bruschetta – pão tostado com azeite e alho e uma cobertura de tomate em conserva. Na sobremesa, me entreguei à panna (cotta) de frutas vermelhas.
Veja as especialidades
Grotta Azzurra
Via Cicerone, 62/A
Tem esse nome por causa da famosa gruta azul que fica na região da ilha de Capri. Da calçada, você desce um lance e está no primeiro salão onde é recebido por duas senhoras distintas que eu não consegui descobrir se são mulheres ou irmãs – acho que mulheres – dos dois sócios, os irmãos Cammarano. A casa tem três salões e o mais disputado – no qual não consegui jantar nenhuma noite – é a gruta propriamente dita. Os fratelli foram buscar as rochas que revestem a parede em uma gruta marítima. Dizem.
Mas o que interessa é a comida. E o futebol (se tiver jogo de qualquer rodada as televisões estarão ligadas…). Logo na entrada você já se depara com vitrines de pescados frescos – tem até acabar – e outra com legumes e frutas, como fragolas – os morangos lindos que vai comer na sobremesa, com limão e açúcar. A sopa de verdura é devidamente confortante. É um grande mérito fazer com que depois de absorver o caldo e os legumes o sujeito não tenha a sensação de ter tomado vinagre ou mergulhado no salitre. É uma sopa fina, bem feita e delicada como faria a sua mãe, avó ou equivalente de coração.
Os peixes grelhados, spigola ou espada, são igualmente muito bem feitos e servidos, com molhos leves e azeitados. Tudo é preparado na hora, então demora um pouquinho. O bom é preencher os espaços vazios com todas as etapas da refeição. Pão com azeite e sal (eles não oferecem, vale pedir), para começar. Depois uma salada mista e, por que não, uma entrada deliciosa feita de polvo cozido em molho de tomate. Não fique comovido porque no menu o polvo é chamado de baby. É bom! Vale cada raspadinha de pão no que sobrar no prato. E por aí vai. Pizza de forno a lenha (não adianta, para mim pizza boa mesmo está em São Paulo), massas com molhos clássicos, muita, mas muita coisa do mar.
Atendimento simpático. Pode ir quase todos os dias, sem vergonha. Como eu fiz. O que eles vão fazer é adivinhar seus desejos. E sugerir por afinidade.