DriveMyCar-Beatles-RubberSoul-1965
Esta é sobre aqueles dias em que o serviço de manobrista deixa um gostinho amargo na boca. Drive My Car, com os Beatles, para adoçar. Maybe I will love you. Or hate you.

vale o valet?
O leitor que como eu mora nesta São Paulo caótica, congestionada, sem lugar para os carros, as gentes e com milhares de estacionamentos particulares e serviços de valet a custos estrambólicos cobrados por minuto, talvez suspire e pense que a resposta para a pergunta do título é qualquer coisa como “não, mas não tem muito jeito”.
Não sei. Os carros muitas vezes ficam na rua. Os manobristas fazem algazarra acelerando veículos na madrugada. É uma confusão.
Tenho amigos que já desistiram de ir ao restaurante com o próprio carro. Vão de táxi. Ou então só saem na base da promenade, caminhando, perto de casa. Essa história de riscar o chão para conseguir um lugar cansa. E esvazia os bolsos. Os preços… ah, os preços. Doze, 15, 25 reais pela conveniência… E o carro fica onde mesmo? É tudo um tanto nebuloso.
Penso nisso quando ocorrem coisas do tipo o que o experimentei nas duas vezes em que estive, em 2010, no variado Becco 388. O restaurante, boa comida, simpático, serviço esforçado, fica ali na rua Mato Grosso em Higienópolis. É a rua atrás do cemitério da Consolação. Tranquila demais – sem trocadilhos – e que, até o Becco 388 instalar seu serviço de valet, não tinha nada disso.
Quem ia ao ex-AK Delicatessen, ao Anita, ao Antonieta ou mesmo a La Frontera, ali perto, deixava o carro na rua e entregava para Deus – tá, os devotos que me perdoem, mas não consigo evitar a piadinha espiritual. Eu sempre pensava nisso. Tinha mesmo a impressão de que aquele clima de tranquilidade eterna do cemitério dava também um descanso para os clientes. Nada de flanelinha. Parecia outra cidade. Não esquenta, deixa o carro na rua e vai comer que está tudo sob controle. Surreal, mas bacana.
Voltando ao Becco (e ao valet). Estive lá duas vezes, para jantar, em 2010. Nas duas visitas tentei parar na porta, mas tinha o guarda-chuva do manobrista. Quinze reais. Sabe como é: à noite, logo depois do trabalho, a gente quer conforto. Entreguei a chave para o rapaz que, na primeira visita, perguntou se eu queria que ele deixasse o carro na rua ou levasse ao estacionamento. Hum? Como quem pergunta se quer gelo e limão na Coca-Cola. A vantagem de deixar na rua, explicou, é que ele ficaria “de olho” e, quando eu saísse, o carro estaria “fácil”.
Tem seguro?, perguntei. Tem, mas o estacionamento é longe. “Olha, se você quiser deixar a chave comigo na cortesia, eu olho para você. Fica mais barato.” É, mas daí não tem seguro, insisti. Só quero com seguro. Ele disse que levaria ao estacionamento. Sinceramente, não acreditei.
Quando saí, meu carro estava na porta: o rapaz teria se adiantado e resgatado o carro do estacionamento ou deixado ali o tempo todo para não ter o trabalho? Na dúvida, quinze reais. Isso se repetiu na segunda vez. E ouvi história parecida de assédio sofrido por gente que esteve no mesmo restaurante dias depois.
Irregular, diria a defesa do consumidor.
Outro exemplo: minha amiga jantou no Tordesilhas, meu brasileiro preferido em São Paulo. Saiu feliz com a comida, mas terminou com um gosto amargo na boca por causa do valet. E acha que não volta. O carro demorou a ser entregue e, quando chegou, estava batido. Segundo o motorista, “um sujeito bateu no veículo e fugiu”. Ela passou por semanas de negociações, direto com o manobrista, porque o restaurante fez que não viu ou nem foi informado. O funcionário do valet pagou o prejuízo do bolso. Pediu dinheiro emprestado para um conhecido. Uma manobra no mínimo esquisita.
Totalmente irregular. Pelo menos em São Paulo, é lei: o restaurante é responsável pelo serviço que contrata e é, no jargão, ’solidário’ em caso de danos aos carros. A profissão de manobrista não é regulamentada e muitas vezes o sujeito não ganha nem 50% do valor de um conserto.
A pedido do iG Comida, a jornalista Larissa Januário levantou junto à Proteste e ao Procon algumas informações úteis para quem vive em São Paulo e usa esse tipo de serviço.

drive my car. ou não
Oito coisas que é bom saber antes de entregar a chave para o manobrista em São Paulo:
1. mais de 90% dos acidentes dessa profissão ocorrem no trajeto entre o estabelecimento e o local do estacionamento.
2. Desde novembro de 2004, está em vigor na capital paulista uma lei que regulamenta o serviço de manobristas oferecido por estabelecimentos comerciais, os “valets”. A lei torna os estabelecimentos solidários com a empresa responsável pelo serviço de estacionamento caso ocorra algum dano no carro do cliente. Em outras palavras: restaurante e serviço de valet têm responsabilidade pelo prejuízo, se houver.
3. Parar na rua é proibido. A lei proíbe que as empresas estacionem o carro na rua. Elas precisam ter um pátio ou um estacionamento adequado. (detalhe: um decreto do prefeito Gilberto Kassab (DEM)), de abril de 2009, autoriza valets a parar veículos em postos de gasolina e terrenos vazios, entre outros locais.
4. O estabelecimento (no nosso caso, estamos falando principalmente de bar ou restaurante, mas vale para todos) deve responder pela reparação de danos ou quaisquer outros prejuízos que o consumidor venha a ter enquanto seu veículo estiver sob sua responsabilidade.
5. Todo mundo tem de exigir (e o valet é obrigado a entregar) um comprovante de estacionamento, com dados do carro, data e horário em que o automóvel foi ‘confiado’ ao manobrista e endereço do local em que o veículo fica estacionado durante a permanência do cliente no bar, restaurante ou qualquer outro tipo de estabelecimento comercial (Nota do Sem Reservas: eu nunca, nunca, nunca vi isso!).
6. O comprovante deve exibir também o nome da empresa, o número do CNPJ, modelo, marca e placa do veículo e a tal frase “A empresa prestadora dos serviços de “valet” assim como o estabelecimento são solidariamente responsáveis por quaisquer danos causados aos veículos”.
7. Se o restaurante tem esse serviço, mesmo que seja terceirizado, ele é responsável solidário. O cliente pode reclamar com o restaurante, que pode ter estacionamento próprio ou terceirizado. É importante o cliente se informar antes de estacionar. E sempre vistoriar o veículo ao recebê-lo de volta.
8. É aconselhável o cliente se informar se o carro será estacionado em local adequado, sob o risco de ser surpreendido por alguma multa. É importante também guardar o tíquete. Quem paga a multa por estacionamento irregular é o valet+restaurante. São ’solidários’ entre eles, lembra?
Obs.: as informações acima, reforço, valem para São Paulo. Trata-se de lei municipal e quem fiscaliza é a subprefeitura.
Mais: três perguntas para Syrius Lotti Junior, diretor jurídico da Associação de Valets de São Paulo e advogado especialista em valets:
Sem Reservas: Manobrista de valet é uma profissão regulamentada?
Não. O principal problema é que diferente do manobrista comum, de estacionamento fechado, o funcionário do valet tem que conduzir o veículo em via pública até o local da vaga. Nesse percurso ele está exposto a uma série de riscos. O salário médio desse profissional fica em torno de 600 a 700 reais.
Sem Reservas: Quem arca como prejuízo em caso de acidente com o carro, se ele estiver com o manobrista?
Depende da empresa em que ele trabalha. O dono tem o direito de descontar uma parcela do salário do funcionário até que se quite o prejuízo. Lógico que isso vai do bom senso do dono da empresa, porque se o funcionário causa um prejuízo de 10 000 reais não dá pra reter o salário total. O limite é de 30% do valor do salário, normalmente.
Sem Reservas: Como costumam atuar os restaurantes?
Muitos proprietários, a fim de oferecer o serviço e de gerar uma fonte de renda extra, acabam aceitando trabalhar com empresas de valet irregulares que prometem repassar parte do dinheiro arrecadado para a casa. Mas, normalmente, empresas de valet idôneas não fazem repasse, porque têm custos com o serviço. O risco de fazer parceria com uma empresa irregular é que a maioria não faz seguro e a casa pode morrer com o prejuízo em caso de danos. A lei é categórica ao entender o bar/restaurante/casa noturna como co-reponsável pelo valet.