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Posts com a Tag serviço

terça-feira, 16 de novembro de 2010 serviço | 09:20

Cheiro de ovo no copo? Jato d’água resolve

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um copo de cólera: se não enxaguar direito, nem a taça de James Bond escapa do cheirinho de ovo

um copo de cólera: se não enxaguar direito, nem a taça de James Bond escapa do cheirinho de ovo

Não é por estar grávida, ou grávido, e com todos os sentidos mais apurados. Culpa do transtorno obsessivo compulsivo? Não. Se você sente aquele “cheiro de ovo” no copo de vinho, de água ou na louça, não está alucinando. Não é imaginação, frescura. Nada. Ele existe e é chatinho. É até capaz de acabar com o apetite dos mais sensíveis.

Eu fico verde.

Costuma ocorrer em cafés, bares e restaurantes. Nos mais finos também. E não é porque quebraram os ovos do pudim no copo ou porque bateram a omelete no prato. Normalmente, o problema está na hora de enxaguar — se fosse mesmo o caso de alguém derramar ovo onde não deve ou misturar recipientes, nossas avós, mães e tias já ensinaram: café neles.

Aprendi há algum tempo em uma aula na sede paulistana da Associação Brasileira de Sommeliers que resíduo de detergente na louça forma uma película que emula o cheiro característico do ovo. Quem tiver estômago pode fazer o teste em casa. Dá certo. E essa lembrança sempre me perturba quando estou no restaurante e sinto o aroma desagradável no copo de água: muitas vezes, na pressa, o lavador de pratos não enxágua direito as peças… pronto. Estragou. Daí fico monitorando meus humores: aguento, só hoje? Difícil. Vou pedir para trocar? Fresquinha… Não fiz as estatísticas, mas frequentemente o problema se repete. Outro copo, mesmo padrão de lavagem. Aqui em casa, não. Jato de água fortíssimo e atenção especial na hora de enxaguar.

Dá para pedir para trocar o prato ou o copo, mas não há garantias que o próximo não terá o mesmo padrão. Com sorte, se pedir para enxaguar, resolve. Pior se o sujeito entender que precisa lavar. Mais detergente na louça? Melhor não.

Notas relacionadas:

  1. “Serviço bom pode consertar a comida”. Pode mesmo?
  2. Você gosta de vinho. Os mosquitinhos também
  3. Chá de sumiço
Autor: Viviane Zandonadi Tags: , ,

quinta-feira, 11 de novembro de 2010 serviço | 18:59

Chá de sumiço

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Ella Fitzgerald e Count Basie -Tea For Two
(Ella Fitzgerald e Count Basie, Tea for Two)

Roman Holiday - Audrey Hepburn

O espanto de Audrey Hepburn com o preço do chá (brincadeirinha) no filme A Princesa e o Plebeu, rodado em Roma

Parece que foi isso, chá de sumiço, que a autora deste blog tomou nos últimos dias. Na verdade foi camomila e hortelã. Infusões, como são chamados tecnicamente os saquinhos que NÃO são feitos de Camellia Sinensis (esta sim que dá origem aos verdadeiros chás) que mergulhamos em água quente.

Mas não foi por causa de chás ou infusões que sumi. Estive fora a trabalho por três semanas. Teve o passeio gastronômico em Turim, a caça às trufas na Toscana, uma semana em Roma (fazendo o que se faz em Roma). Quando voltei, fui obrigada a ficar em repouso por recomendação médica. Agora (piano, piano, como dizia o Salvatore, motorista italiano bravo e de olhos azuis que nos ajudava a saltar aqui e ali em Nápoles e Pompeia), retomo.

Muito já foi dito sobre o preço do cafezinho, com ou sem petit fours, a criar músculos no valor final da conta em um restaurante. O custo da garrafa de água também costuma fazer erguer sobrancelhas. E é assim em qualquer lugar do mundo. Como se essas coisas que parecem detalhes tão pequenos de nossas refeições, dos quais não conseguimos nos descolar, fossem a fonte de lucro das casas que frequentamos. Pagam a louça, a prataria, a roupa de mesa? Talvez. Não sei.

Mas e o chá? Aconteceu comigo em um café, numa dessas piazzas romanas. Terminei a refeição e pedi um digestivo de hortelã. Era um saquinho de menta quase suspeito. Há quanto tempo estaria ali, onde todo mundo prefere café puro, com grappa, lemoncelo etc? Nada de folha de hortelã orgânica, fresca e perfumada.

Estava bom. Bebi puro, exceto pela rodela de limão siciliano. Pensei na vida, observei a gente passar, paguei a conta e fui arrastar os sapatos em mais uma caminhada. Mais tarde, dei uma olhada na ricevuta, o valor específico do dito cujo (que eu ingenuamente não perguntei nem consultei no cardápio antes de pedir): 5 euros.

CINCO EUROS por uma xícara de infusão de hortelã. Quase quinze reais. Meu queixo, que já anda a estalar por aí, quase caiu. Estou vendo errado, pensei. Nunca fui boa na matemática. Mas era isso mesmo.

E veja só… depois da infusãozinha mais cara da minha vida, ontem o supermercado entregou aqui em casa algumas compras que fiz pela internet. Entre elas, caixinhas de infusão de camomila e hortelã com quinze saquinhos cada, 3,28 reais por embalagem. Não chega a 22 centavos de real cada saquinho.

Não tem explicação. Pelo custo do produto, seria gracioso se o restaurante oferecesse o chá como cortesia.

Se no preço do café está a qualidade do grão, o trabalho do barista e o lucro, ok, ainda que com um certo desconfiômetro. Sabemos que a mão às vezes é pesada, mas muitas vezes os brigadeiros, bolinhos e chocolatinhos acabam adoçando o amargor da conta.

Mas… e no chá comum? Veja: não estamos falando de coisa gourmet ou exótica, como gostam de dizer por aí. Nada de flores orientais que fazem balé na água e falam depois de desabrochar. Infusões ordinárias.

E obviamente a gente não precisa ir longe para fazer as contas. Hoje em um francês aqui em São Paulo o chá de hortelã, uma folha verde e aromática, custava quatro reais. Não são aqueles cinco euros, mas é muito também.

Acho que vou começar a levar saquinhos na bolsa e pedir água quente no restaurante. É como um remedinho… “Me dá um copo de água para tomar, por favor?” Claro que, por via das dúvidas, é melhor perguntar antes quanto custa a água quente. No caso, sem gás. Será que vão cobrar?

Notas relacionadas:

  1. A vida à mesa e seus acompanhamentos
  2. “Serviço bom pode consertar a comida”. Pode mesmo?
  3. Vale o valet?
Autor: Viviane Zandonadi Tags: , ,

sexta-feira, 15 de outubro de 2010 serviço | 17:27

Vale o valet?

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DriveMyCar-Beatles-RubberSoul-1965

Esta é sobre aqueles dias em que o serviço de manobrista deixa um gostinho amargo na boca. Drive My Car, com os Beatles, para adoçar. Maybe I will love you. Or hate you.

Getty Images

vale o valet?

O leitor que como eu mora nesta São Paulo caótica, congestionada, sem lugar para os carros, as gentes e com milhares de estacionamentos particulares e serviços de valet a custos estrambólicos cobrados por minuto, talvez suspire e pense que a resposta para a pergunta do título é qualquer coisa como “não, mas não tem muito jeito”.

Não sei. Os carros muitas vezes ficam na rua. Os manobristas fazem algazarra acelerando veículos na madrugada. É uma confusão.

Tenho amigos que já desistiram de ir ao restaurante com o próprio carro. Vão de táxi. Ou então só saem na base da promenade, caminhando, perto de casa. Essa história de riscar o chão para conseguir um lugar cansa. E esvazia os bolsos. Os preços… ah, os preços. Doze, 15, 25 reais pela conveniência… E o carro fica onde mesmo? É tudo um tanto nebuloso.

Penso nisso quando ocorrem coisas do tipo o que o experimentei nas duas vezes em que estive, em 2010, no variado Becco 388. O restaurante, boa comida, simpático, serviço esforçado, fica ali na rua Mato Grosso em Higienópolis. É a rua atrás do cemitério da Consolação. Tranquila demais – sem trocadilhos – e que, até o Becco 388 instalar seu serviço de valet, não tinha nada disso.

Quem ia ao ex-AK Delicatessen, ao Anita, ao Antonieta ou mesmo a La Frontera, ali perto, deixava o carro na rua e entregava para Deus – tá, os devotos que me perdoem, mas não consigo evitar a piadinha espiritual. Eu sempre pensava nisso. Tinha mesmo a impressão de que aquele clima de tranquilidade eterna do cemitério dava também um descanso para os clientes. Nada de flanelinha. Parecia outra cidade. Não esquenta, deixa o carro na rua e vai comer que está tudo sob controle. Surreal, mas bacana.

Voltando ao Becco (e ao valet). Estive lá duas vezes, para jantar, em 2010. Nas duas visitas tentei parar na porta, mas tinha o guarda-chuva do manobrista. Quinze reais. Sabe como é: à noite, logo depois do trabalho, a gente quer conforto. Entreguei a chave para o rapaz que, na primeira visita, perguntou se eu queria que ele deixasse o carro na rua ou levasse ao estacionamento. Hum? Como quem pergunta se quer gelo e limão na Coca-Cola. A vantagem de deixar na rua, explicou, é que ele ficaria “de olho” e, quando eu saísse, o carro estaria “fácil”.

Tem seguro?, perguntei. Tem, mas o estacionamento é longe. “Olha, se você quiser deixar a chave comigo na cortesia, eu olho para você. Fica mais barato.” É, mas daí não tem seguro, insisti. Só quero com seguro. Ele disse que levaria ao estacionamento. Sinceramente, não acreditei.

Quando saí, meu carro estava na porta: o rapaz teria se adiantado e resgatado o carro do estacionamento ou deixado ali o tempo todo para não ter o trabalho? Na dúvida, quinze reais. Isso se repetiu na segunda vez. E ouvi história parecida de assédio sofrido por gente que esteve no mesmo restaurante dias depois.

Irregular, diria a defesa do consumidor.

Outro exemplo: minha amiga jantou no Tordesilhas, meu brasileiro preferido em São Paulo. Saiu feliz com a comida, mas terminou com um gosto amargo na boca por causa do valet. E acha que não volta. O carro demorou a ser entregue e, quando chegou, estava batido. Segundo o motorista, “um sujeito bateu no veículo e fugiu”. Ela passou por semanas de negociações, direto com o manobrista, porque o restaurante fez que não viu ou nem foi informado. O funcionário do valet  pagou o prejuízo do bolso. Pediu dinheiro emprestado para um conhecido. Uma manobra no mínimo esquisita.

Totalmente irregular. Pelo menos em São Paulo, é lei: o restaurante é responsável pelo serviço que contrata e é, no jargão, ’solidário’ em caso de danos aos carros. A profissão de manobrista não é regulamentada e muitas vezes o sujeito não ganha nem 50% do valor de um conserto.

A pedido do iG Comida, a jornalista Larissa Januário levantou junto à Proteste e ao Procon algumas informações úteis para quem vive em São Paulo e usa esse tipo de serviço.

getty images

drive my car. ou não

Oito coisas que é bom saber antes de entregar a chave para o manobrista em São Paulo:

1. mais de 90% dos acidentes dessa profissão ocorrem no trajeto entre o estabelecimento e o local do estacionamento.

2. Desde novembro de 2004, está em vigor na capital paulista uma lei que regulamenta o serviço de manobristas oferecido por estabelecimentos comerciais, os “valets”. A lei torna os estabelecimentos solidários com a empresa responsável pelo serviço de estacionamento caso ocorra algum dano no carro do cliente. Em outras palavras: restaurante e serviço de valet têm responsabilidade pelo prejuízo, se houver.

3. Parar na rua é proibido. A lei proíbe que as empresas estacionem o carro na rua. Elas precisam ter um pátio ou um estacionamento adequado. (detalhe: um decreto do prefeito Gilberto Kassab (DEM)), de abril de 2009, autoriza valets a parar veículos em postos de gasolina e terrenos vazios, entre outros locais.

4. O estabelecimento (no nosso caso, estamos falando principalmente de bar ou restaurante, mas vale para todos) deve responder pela reparação de danos ou quaisquer outros prejuízos que o consumidor venha a ter enquanto seu veículo estiver sob sua responsabilidade.

5. Todo mundo tem de exigir (e o valet é obrigado a entregar) um comprovante de estacionamento, com dados do carro, data e horário em que o automóvel foi ‘confiado’ ao manobrista e endereço do local em que o veículo fica estacionado durante a permanência do cliente no bar, restaurante ou qualquer outro tipo de estabelecimento comercial (Nota do Sem Reservas: eu nunca, nunca, nunca vi isso!).

6. O comprovante deve exibir também o nome da empresa, o número do CNPJ, modelo, marca e placa do veículo e a tal frase “A empresa prestadora dos serviços de “valet” assim como o estabelecimento são solidariamente responsáveis por quaisquer danos causados aos veículos”.

7. Se o restaurante tem esse serviço, mesmo que seja terceirizado, ele é responsável solidário. O cliente pode reclamar com o restaurante, que pode ter estacionamento próprio ou terceirizado. É importante o cliente se informar antes de estacionar. E sempre vistoriar o veículo ao recebê-lo de volta.

8. É aconselhável o cliente se informar se o carro será estacionado em local adequado, sob o risco de ser surpreendido por alguma multa. É importante também guardar o tíquete. Quem paga a multa por estacionamento irregular é o valet+restaurante. São ’solidários’ entre eles, lembra?

Obs.: as informações acima, reforço, valem para São Paulo. Trata-se de lei municipal e quem fiscaliza é a subprefeitura.

Mais: três perguntas para Syrius Lotti Junior, diretor jurídico da Associação de Valets de São Paulo e advogado especialista em valets:

Sem Reservas: Manobrista de valet é uma profissão regulamentada?
Não. O principal problema é que diferente do manobrista comum, de estacionamento fechado, o funcionário do valet tem que conduzir o veículo em via pública até o local da vaga. Nesse percurso ele está exposto a uma série de riscos. O salário médio desse profissional fica em torno de 600 a 700 reais.

Sem Reservas: Quem arca como prejuízo em caso de acidente com o carro, se ele estiver com o manobrista?
Depende da empresa em que ele trabalha. O dono tem o direito de descontar uma parcela do salário do funcionário até que se quite o prejuízo. Lógico que isso vai do bom senso do dono da empresa, porque se o funcionário causa um prejuízo de 10 000 reais não dá pra reter o salário total.  O limite é de 30% do valor do salário, normalmente.

Sem Reservas: Como costumam atuar os restaurantes?
Muitos proprietários, a fim de oferecer o serviço e de gerar uma fonte de renda extra, acabam aceitando trabalhar com empresas de valet irregulares que prometem repassar parte do dinheiro arrecadado para a casa. Mas, normalmente, empresas de valet idôneas não fazem repasse, porque têm custos com o serviço. O risco de fazer parceria com uma empresa irregular é que a maioria não faz seguro e a casa pode morrer com o prejuízo em caso de danos. A lei é categórica ao entender o bar/restaurante/casa noturna como co-reponsável pelo valet.

Notas relacionadas:

  1. A vida à mesa e seus acompanhamentos
  2. “Serviço bom pode consertar a comida”. Pode mesmo?
Autor: Viviane Zandonadi Tags:

terça-feira, 31 de agosto de 2010 serviço | 13:05

“Serviço bom pode consertar a comida”. Pode mesmo?

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(Você concorda com a afirmação acima, de que o atendimento é capaz de salvar a comida? Fique à vontade para dizer o que acha nos comentários, por favor.) 

 
 
 

Juscelino Pereira. Foto: Trícia Vieira/Fotoarena

Juscelino Pereira na porta da cozinha de seu restaurante: dali para fora, o atendimento é o grande trunfo


nemvemquenaotemTRECHO

A casa está cheia e a cara do sujeito é de nem vem que não tem, como na música do Simonal (ouça um trechinho acima, se quiser). Ele avança pelo salão e vai logo abordando o dono : “Quanto tempo?”, pergunta, firme. “Não importa. Afinal, há quanto tempo estou te esperando?”, responde o outro. Em dois segundos, os dois caem na gargalhada, sendo que a do dono da casa é em 5.1. Alta, despojada e sincera. Assim, como a gargalhada do Simonal. Está tudo bem. Os clientes vão aguardar no bar.

Placar: UM para Juscelino Pereira, dono do restaurante italiano Piselli, em São Paulo, ZERO para mau humor do cliente, nocauteado por uma sonora risada.

A linha que separa os bajuladores dos naturalmente simpáticos e atenciosos pode ser tênue e deixar muita gente confusa ou, de cara, derruba a máscara de quem só quer puxar sardinha (sem trocadilhos). Não é o caso de Juscelino. Ele não é bajulador. Você vai perceber isso vendo-o falar de sua trajetória e de como gosta de (e tem talento para) agradar (a íntegra da entrevista no iG Comida). Se a pessoa quiser um copo especial, ele vai buscar. Se quiser comer carne com camarão, ele não vai deixar. E o cliente vai agradecer por isso.

Enquanto costurava a conversa que gravei com Juscelino, outro dia, lá no Piselli, pensei que quando a pessoa trabalha direto com o público simplesmente não pode dar uma de Clint Eastwood em Grand Torino. E isso de fato é um dom. Não quero espantar meus leitores…, mas a verdade é que eu não tenho esse talento tão raro para me relacionar, a paciência, a presença de espírito. Sou mais Clint do que Juscelino, mas prefiro encontrar Juscelinos nos restaurantes em que eu vou.

Para o simpático Juscelino, no entanto, a conquista do cliente é quase um jogo. Enquanto não ganhar a confiança, não tiver certeza de que fez a coisa certa para a pessoa ir embora com a barriga cheia e o coração feliz, ele não sossega. Bom para quem for atendido por ele.

Saquei da entrevista sete frases para pensar.

“Eu gosto de atender, servir. Gosto de gente, gosto de me relacionar.”

“A gente forma clientela tratando todo mundo com carinho, tentando guardar o nome da pessoa e o que ela gosta de comer e beber. Dando atenção.”

“O que os clientes gostam é de sinceridade. Mostrar que eu quero que fiquem bem sem gastar além do necessário, sem empurrar coisas.”

“Tem gente que, mesmo com treinamento, não consegue. Não é culpa da pessoa. É falta de talento para essa atividade.”

“Eu não tenho aqui uma estrutura muito profissional de serviço, como outros restaurantes têm, com formação técnica, excelência mesmo. Falo de pessoas perfeitas na postura, na classe, no jeito de tirar e por o talher, trocar o prato etc. É um balé perfeito e bonito de se movimentar. Mas o meu lado é mais emocional.”

“O serviço não pode ser relaxado, o cara não pode esquecer de trazer as coisas, não pode demorar. Tem de ter eficiência, mas a chave está em ser personalizado.”

“Já ouvi cliente dizer que valoriza mais o serviço do que a comida. Se o serviço for personalizado, gentil, bom mesmo, ele é capaz de consertar a comida.”

***

Nota1: no livro A Fisiologia do Gosto, um dos mais citados quando se fala de história da comida, o pioneiro da crítica gastronômica Jean Anthelme Brillat-Savarin (1755-1826) anota em seus aforismos o seguinte: “convidar alguém significa ocupar-se de sua felicidade durante todo o tempo.” E não é?

Nota2: uma coisa que me conforta em alguns sábados à tarde – só alguns, afinal eles não são todos iguais – é saber que sempre haverá um restaurante que funciona sem intervalos, para a gente “almojantar”. O Piselli é assim, um dos meus preferidos. Mas é um lugar caro, não dá para recorrer a ele com freqüência. Assim, com uma outra proposta, mais acessível, tem o Lellis Tratoria da Alameda Campinas. Também em São Paulo. Se você for do signo da carne, sugiro pedir o Oswaldo Aranha – são quatro filés altos e bem suculentos, mais a misencene da casa para incorporar ao suco dos medalhões o arroz, a farofa bem temperada e as batatas crocantes. Peça também um ovo frito para acompanhar, se for do seu agrado.

Notas relacionadas:

  1. A vida à mesa e seus acompanhamentos
Autor: Viviane Zandonadi Tags:

segunda-feira, 30 de agosto de 2010 serviço | 17:07

A vida à mesa e seus acompanhamentos

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Cheguei outro dia na porta de um restaurante e, ainda na calçada, o manobrista se recusou a pegar a chave do carro. Me fez um sinal para esperar e gritou para o colega na porta da casa, a alguns metros dali. “Tem espera, fulano?”. O fulano fez mímica. O manobrista me olhou: “Uma hora e meia. Não adianta eu levar seu carro, né?” “Leva sim”, falei. “Se tiver um bar, vou esperar”. Era minha primeira vez no italiano Tre Bicchieri (Itaim, Zona Oeste de São Paulo), um dos lugares mais disputados na cidade atualmente, e eu não estava com pressa. A gritaria na porta do restaurante era dispensável.

Entendo: em um esforço para evitar cara feia por não ter sido avisada da espera, o rapaz quis se adiantar. Mas ele berrou. Eu ficaria até embaraçada se a mesma cena não tivesse acontecido várias vezes em outros dias, em outros lugares. Costumo dizer que manobrista às vezes dá uma de firewall. Cria um filtro.

Lidar com gente – o manobrista comigo, e eu com ele, por exemplo – não é fácil. Eu sei disso na pele, porque antes de ser jornalista fui sócia da minha irmã em uma locadora de filmes. Era muito legal, porque eu assistia tudo “de graça”. Teoricamente, ali todo mundo entrava feliz para alugar um pouco de diversão. Mas a gente enfrentava cada coisa… Com meu temperamento não deu lá muito certo. Resolvi escrever.

Enfim, atire o primeiro garfo quem não tem uma história de restaurante. Minha família é famosa pela linhagem de encrencas – não as procuramos, mas somos procurados, que se há de fazer? Nada muito grave, mas temos um radar para filas de espera com movimentações duvidosas, carne fora do ponto, mesas esquecidas no salão, cafés frios e contas que nunca chegam.

Recentemente, no português Bacalhoeiro, no Tatuapé (na zona leste de São Paulo), quase usei meu celular para ligar para a recepção e avisar que a gente queria mais uma água, o café e a conta, tamanho o tempo que passamos ali, às vezes com a mão levantada, sem que ninguém socorresse. A comida é ótima e a casa tem uma brigada esforçada, mas naquele domingo eles estavam atrapalhados entre as belas praças do salão. Como nossa mesa era reservada, ficava em um cantinho mais tranquilo, pagamos o preço. Outra noite, no contemporâneo Dui, que fica nos Jardins, sempre tinha um garçom por perto. Foi quase como jantar a três. Trocávamos cinco palavrinhas e… au revoir privacidade. Lá estava um deles com um sorriso amarelo, a se desculpar e indagar o próximo passo. Isso causa uma certa ansiedade e dá a impressão que querem se livrar de você. Um engano.

Sem Reservas

Catherine-Zetta Jones, a chef Kate: um bife cru para se vingar de um cliente mal criado

Tragicomédia

Quando era pequena, lá em São Bernardo do Campo, a gente comia fora de casa uma vez por semana (e olhe lá). Era no almoço de domingo, na casa da avó. Só nesse dia era permitido tomar refrigerante. Eu lambia os dedos ao saborear uma deliciosa coxa de frango assado. Com pele, lógico. Ir ao restaurante era caro e raro – e não por eu ser uma pequena selvagem que comia com as mãos e tinha de ser afastada da sociedade, mas por ser um passeio reservado a ocasiões especiais. Na tradicional rota do frango com polenta, aquela dos salões gigantes, só íamos por motivo de festa: formatura da escola, batizado, casamento. Naquele tempo, era comum a gente se botar bem bonito para jantar ou almoçar fora. Com a melhor roupa.

Nos últimos anos, por prazer e também atrás de material de trabalho, passei a sair para comer praticamente todos os dias na hora do almoço e bem umas três ou quatro noites por semana. Minha mesa preferida ainda é a da casa da mãe, que faz o melhor tudo que eu quiser. Depois, vem o restaurante. Cozinhar é a última opção por pura falta de talento, exceto para algumas coisas que a modéstia não permite exibir.

Nessa rotina, simpatizamos com o garçom mais esforçado, e ficamos inconformados com o arrogante, o afetado ou o preguiçoso. A gente cria um repertório de observação que chega a ser engraçado, e começa a antecipar problemas: o espumante em taça atravessa o salão, já servido, e chega à mesa meio triste, sem bolinhas. Não é culpa da distância. A suspeita é a garrafa, que deve ser da véspera. Tem de trocar, abrir outra. Nem todo lugar é amistoso com o pedido, que é legítimo. Não é frescura. Espumante sem borbulha é espumante morto.

É a tragicomédia da vida à mesa. Meus amigos e parentes já (quase) se acostumaram. Em troca, defendo-os sempre que posso. E tento não embaraçá-los nem criar situações que provoquem a ira da brigada: a atriz Catherine-Zetta Jones, no filme Sem Reservas (EUA, 2007), finca o garfo com um bife cru na mesa de um cliente mal criado. Bem, eu não cheguei a esse ponto. Nem dela nem dele.

Se perguntar o que me mais irrita, para falar de uma coisa só, é a falta de atenção. Não que eu seja muito carente, mas se estiver falando com o garçom e ele ficar com aquele ar de finge-que-escuta enquanto os olhos e o pescoço agitam para outras bandas, meu nível de paciência começa a cair. Fatalmente o sujeito não entenderá o que eu disse e terá de perguntar de novo ou anotará errado e trará gelo e limão para acompanhar minha água com gás. Aquela que sempre, sempre, sempre bebo pura – o gelo derrete, vira água lisa e estraga o prazer das bolinhas.

O desassossego aumenta se a falta de atenção for com meu pai e/ou minha mãe. Vira coisa de família e me tomo por eles. Quem viu a série de tevê Ally McBeal vai lembrar das alucinações em que a advogada interpretada por Calista Flockhart ficava furiosa e imaginava engolir a cabeça de quem a tirava do sério. É mais ou menos assim que fico (em pensamento, lógico).

Este blog, no entanto, que piloto enquanto editora do iG Comida, vai dar umas dentadas nessa convivência de cliente e restaurante. O serviço, aqui, receberá atenção especial. E o comportamento de quem frequenta os lugares também. Não vai ser o único assunto, porque teremos coisas de comer e beber, música, cinema e livros relacionados à gastronomia. E, como vou atender você, fique por favor à vontade para fazer seus pedidos, críticas e sugestões. Eu não mordo.

P.S. quem acompanhava meus boletins em rede nacional sobre viagem e comida na rádio CBN, apresentados junto com o Carlos Alberto Sardenberg, lembra que a gente sempre abria os trabalhos com uma música. Vou tentar retomar a rotina. Hoje, é uma canção italiana engraçadinha chamada Via Con Me, interpretada por Paolo Conte e que faz parte da trilha sonora do filme Sem Reservas, cujo nome inspirou livremente o marido de uma grande amiga a batizar o blog. (A canção também está na trilha da novela Passione, mas, nesse caso, é pura coincidência)

ViaConMeTRECHO

Autor: Viviane Zandonadi Tags: