O dia em que fomos maltratados no Ritz, e por que não precisamos de nada disso
O Ritz, em São Paulo, é uma rede de restaurantes de comida variada, famosos pelo cardápio de hambúrguer e pelo bolinho de arroz – e também por ser badaladinhos, frequentados por quem o lugar comum gosta de chamar de ‘gente bonita’, por quem vive atrás de ‘gente bonita’ e, claro, por muitos que não estão nem aí para isso tudo.

o bolinho de arroz do Ritz: se estiver grávida, uma saída é fazer em casa esta ou outra receita. E não precisa disputar uma mesa no restaurante…
Sempre tem espera na porta, mas o hambúrguer não é nada além de bom. Melhores são o tal bolinho de arroz da foto acima, o filé à milanesa e a truta com amêndoas. Variado, enfim.
Soube que estão abrindo uma nova unidade no shopping Iguatemi – lembro até que, há uns dois meses, quando nossa equipe entrou em contato com a assessoria de imprensa do Ritz para uma pauta sobre filé à milanesa, eles declinaram. Não vamos participar e ponto. Nada naquele momento seria mais importante para a casa, disse a assessoria, do que os preparativos para a nova unidade do Iguatemi.
Pois ontem fui almoçar – a passeio – no Ritz do Itaim, com mais três amigos. Estávamos preparados para alguma espera, mas não sem contar, também, com alguma cordialidade e bom senso do serviço da casa. Tal expectativa provou ser pura ingenuidade.
O primeiro rapaz que nos recebeu colocou o nome na lista e disse que ‘com certeza’ nossa mesa sairia com prioridade, pois, como dá para ver, eu estou grávida. Não deu uma previsão, mas fomos logo para o balcão, ponto de vista privilegiado para constatar, na próxima uma hora, várias mesas serem ocupadas por outros grupos. Uma atrás da outra. Nenhuma grávida aparente.
Meus amigos perguntaram quanto tempo ainda teríamos de esperar – já acabou o bolinho de arroz, o suco de tomate e a água que pedimos no balcão. Veio a gerente. “Oi, vocês me chamaram?” É sobre a nossa mesa. “Olha, tem uma para duas pessoas sendo liberada agora. É a mesa da grávida. Se ela quiser, pode até colocar mais uma cadeira e daí são três pessoas”.
Pensei: ela não deve ter tido tempo de contar. “A grávida” informou: estamos em quatro. A gerente respondeu: “Eu sei, mas só a grávida tem prioridade. Não tem prioridade para o grupo. Se quiser sentar, tem essa mesa”.
***
Minha médica costuma dizer que nós, grávidas, costumamos ficar ligeiramente lesadas, “ausentes de si”, nesse período interessante. A gente viaja um pouco, é verdade.
Mas, vendo a carinha de espanto dos meus amigos, percebi que naquele caso não era viagem minha: a gerente do Ritz sugere, com cara de poucos amigos, que a coisa funciona simplesmente assim: em um grupo, só a grávida tem prioridade. E nada de querer levar vantagem se você conhece uma grávida. Como diria o Simonal, nem vem que não tem.
Sendo assim, se decide ir ao restaurante, a grávida que sente sozinha quando um lugar for liberado para sua barriga. Ela que se separe do grupo, coma, não reclame, vá embora e encontre seus amigos depois. É isso.
Por sorte, nem todos os lugares e serviços de restaurantes têm a mesma política. Eu sei que não posso exigir que todo mundo fique mais ou menos feliz como estou, porque carrego um bebezinho na barriga. Porém, o recado que o Ritz passa é o seguinte: “não adianta vir aqui usando uma grávida como desculpa de prioridade para se dar bem.” Uau, com que tipo de gente esses restaurantes precisam lidar. E, pior, como nivelam por baixo seu público. Pena.
Tudo bem. Sentamos, uma hora e meia depois de chegar. Só não fomos embora antes por duas razões:
1. estava muito calor lá fora e a gente preferia ficar no salão fresquinho, mesmo que barulhento. Sim, grávidas cansam ao sol. E não grávidos também. Depois dos 26 graus fica difícil manter a civilidade.
2. a gente queria ver se, pelo menos, valeria a espera (e os entretantos do caminho, se é que isso é possível). Vamos todos pedir hambúrguer!
Conclusão: achamos o hambúrguer nada demais. Mas já era um pouco tarde para isso. Demorou demais para chegar (25 minutos) e, somando toda a espera, estávamos cansados. Boa parte do tempo à mesa, entre risadas, lógico, foi dedicada ao nosso espanto com o modo como havíamos sido tratados até ali – entramos numa de simular algumas boas maneiras de dizer tchau, mas, ao contrário da gerente, achamos melhor não usar. Bom senso, educação, essas coisas. A gente se contentou em dar risada.
O sabor do hambúrguer, o ponto da carne… nada disso conseguiu ser assunto mais importante. Passou. Falamos sobre o vice-presidente José Alencar, sobre a Dilma, sobre cartões com e sem chip. E ficamos, ainda, lembrando dos hambúrgueres suculentos de outros lugares em que estivemos.
Tá certo, eu era a única barrigudinha do lugar (ao menos com a desculpa do bebê). Mas parece que o staff não está treinado para lidar com esse tipo de situação. Deveria. É o trabalho deles. Com ou sem barriga.
Sabe do que me lembrei? Uma vez, isso foi há muuuuitos anos, eu estava de paquera com um escritor. A gente se cortejava platonicamente. Era um sábado à tarde e ele me ligou: vamos comer um hambúrguer no Ritz? Eu não tinha namorado, tinha acabado de sair da casa dos meus pais, nunca tinha ido ao Ritz… Travei. Não sabia se queria ir ou não. Respondi rápido: “Ai, não vai dar. Estou passando óleo de peroba nos meus móveis de demolição.”
Hein?!
Acho que vou usar essa desculpa da próxima vez que me convidarem para ir ao Ritz, sobretudo enquanto grávida. Afinal, eu já sei fazer bolinho de arroz e um bom filé à milanesa. E tem um monte de lugares com hambúrguer suculento e atendimento correto por aí. Peroba nos outros. Meus móveis estão lindões até hoje.
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