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sábado, 11 de dezembro de 2010 serviço | 12:06

O dia em que fomos maltratados no Ritz, e por que não precisamos de nada disso

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O Ritz, em São Paulo, é uma rede de restaurantes de comida variada, famosos pelo cardápio de hambúrguer e pelo bolinho de arroz – e também por ser badaladinhos, frequentados por quem o lugar comum gosta de chamar de ‘gente bonita’, por quem vive atrás de ‘gente bonita’ e, claro, por muitos que não estão nem aí para isso tudo.

o bolinho de arroz do Ritz, veja a receita lá embaixo

o bolinho de arroz do Ritz: se estiver grávida, uma saída é fazer em casa esta ou outra receita. E não precisa disputar uma mesa no restaurante…

Sempre tem espera na porta, mas o hambúrguer não é nada além de bom. Melhores são o tal bolinho de arroz da foto acima, o filé à milanesa e a truta com amêndoas. Variado, enfim.

Soube que estão abrindo uma nova unidade no shopping Iguatemi – lembro até que, há uns dois meses, quando nossa equipe entrou em contato com a assessoria de imprensa do Ritz para uma pauta sobre filé à milanesa, eles declinaram. Não vamos participar e ponto. Nada naquele momento seria mais importante para a casa, disse a assessoria, do que os preparativos para a nova unidade do Iguatemi.

Pois ontem fui almoçar – a passeio – no Ritz do Itaim, com mais três amigos. Estávamos preparados para alguma espera, mas não sem contar, também, com alguma cordialidade e bom senso do serviço da casa. Tal expectativa provou ser pura ingenuidade.

O primeiro rapaz que nos recebeu colocou o nome na lista e disse que ‘com certeza’ nossa mesa sairia com prioridade, pois, como dá para ver, eu estou grávida. Não deu uma previsão, mas fomos logo para o balcão, ponto de vista privilegiado para constatar, na próxima uma hora, várias mesas serem ocupadas por outros grupos. Uma atrás da outra. Nenhuma grávida aparente.

Meus amigos perguntaram quanto tempo ainda teríamos de esperar – já acabou o bolinho de arroz, o suco de tomate e a água que pedimos no balcão. Veio a gerente. “Oi, vocês me chamaram?” É sobre a nossa mesa. “Olha, tem uma para duas pessoas sendo liberada agora. É a mesa da grávida. Se ela quiser, pode até colocar mais uma cadeira e daí são três pessoas”.

Pensei: ela não deve ter tido tempo de contar. “A grávida” informou: estamos em quatro. A gerente respondeu: “Eu sei, mas só a grávida tem prioridade. Não tem prioridade para o grupo. Se quiser sentar, tem essa mesa”.

***

Minha médica costuma dizer que nós, grávidas, costumamos ficar ligeiramente lesadas, “ausentes de si”, nesse período interessante. A gente viaja um pouco, é verdade.

Mas, vendo a carinha de espanto dos meus amigos, percebi que naquele caso não era viagem minha: a gerente do Ritz sugere, com cara de poucos amigos, que a coisa funciona simplesmente assim: em um grupo, só a grávida tem prioridade. E nada de querer levar vantagem se você conhece uma grávida. Como diria o Simonal, nem vem que não tem.

Sendo assim,  se decide ir ao restaurante, a grávida que sente sozinha quando um lugar for liberado para sua barriga. Ela que se separe do grupo, coma, não reclame, vá embora e encontre seus amigos depois. É isso.

Por sorte, nem todos os lugares e serviços de restaurantes têm a mesma política. Eu sei que não posso exigir que todo mundo fique mais ou menos feliz como estou, porque carrego um bebezinho na barriga. Porém, o recado que o Ritz passa é o seguinte: “não adianta vir aqui usando uma grávida como desculpa de prioridade para se dar bem.” Uau, com que tipo de gente esses restaurantes precisam lidar. E, pior, como nivelam por baixo seu público. Pena.

Tudo bem. Sentamos, uma hora e meia depois de chegar. Só não fomos embora antes por duas razões:

1. estava muito calor lá fora e a gente preferia ficar no salão fresquinho, mesmo que barulhento. Sim, grávidas cansam ao sol. E não grávidos também. Depois dos 26 graus fica difícil manter a civilidade.

2. a gente queria ver se, pelo menos, valeria a espera (e os entretantos do caminho, se é que isso é possível). Vamos todos pedir hambúrguer!

Conclusão: achamos o hambúrguer nada demais. Mas já era um pouco tarde para isso. Demorou demais para chegar (25 minutos) e, somando toda a espera, estávamos cansados. Boa parte do tempo à mesa, entre risadas, lógico, foi dedicada ao nosso espanto com o modo como havíamos sido tratados até ali – entramos numa de simular algumas boas maneiras de dizer tchau, mas, ao contrário da gerente, achamos melhor não usar. Bom senso, educação, essas coisas. A gente se contentou em dar risada.

O sabor do hambúrguer, o ponto da carne… nada disso conseguiu ser assunto mais importante. Passou. Falamos sobre o vice-presidente José Alencar, sobre a Dilma, sobre cartões com e sem chip. E ficamos, ainda, lembrando dos hambúrgueres suculentos de outros lugares em que estivemos.

Tá certo, eu era a única barrigudinha do lugar (ao menos com a desculpa do bebê). Mas parece que o staff não está treinado para lidar com esse tipo de situação. Deveria. É o trabalho deles. Com ou sem barriga.

Sabe do que me lembrei? Uma vez, isso foi há muuuuitos anos, eu estava de paquera com um escritor. A gente se cortejava platonicamente. Era um sábado à tarde e ele me ligou: vamos comer um hambúrguer no Ritz? Eu não tinha namorado, tinha acabado de sair da casa dos meus pais, nunca tinha ido ao Ritz… Travei. Não sabia se queria ir ou não. Respondi rápido: “Ai, não vai dar. Estou passando óleo de peroba nos meus móveis de demolição.”

Hein?!

Acho que vou usar essa desculpa da próxima vez que me convidarem para ir ao Ritz, sobretudo enquanto grávida. Afinal, eu já sei fazer bolinho de arroz e um bom filé à milanesa. E tem um monte de lugares com hambúrguer suculento e atendimento correto por aí. Peroba nos outros. Meus móveis estão lindões até hoje.

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  2. Você gosta de vinho. Os mosquitinhos também
  3. Cheiro de ovo no copo? Jato d’água resolve
Autor: Viviane Zandonadi Tags: , ,

quinta-feira, 25 de novembro de 2010 comida | 00:37

A doce intimidade de compartilhar a sobremesa

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Spoonful
Spoonful (Etta James e Harvey Fuqua)
Could be a spoonful of diamonds
Could be a spoonful of gold
Just a little spoon of your precious love
Satisfied my soul

tiramisu

mais uma colher e pronto: cumplicidade

Quer maior intimidade do que compartilhar a sobremesa? Acho lindo quando, mesmo sem ninguém pedir, o garçom traz o pratinho com duas colheres. Sugere a partilha. É doce, com o perdão do trocadilho. E nem estou dizendo isso para que você feche os olhos e imagine alguém da sua fantasia, na sua frente, lambendo a colher de um jeito lascivo. Estou falando de intimidade de verdade: simplesmente duas colheres, uma sobremesa e a cumplicidade na gula.

Resolvi, por isso, fazer uma lista dos meus doces preferidos. Aqueles que, mesmo com muito apego, tenho prazer em compartilhar. São poucos, só cinco. Mas são bons para mim, que nem sou mulher de açúcar.

Vou contar como pensei nisso. Primeiro, pingou no meu twitter uma citação do poeta Manoel de Barros. “Ando em vias de ser compartilhado.” Gosto do que ele escreve, porque me faz sorrir por dentro. Sempre. Pensei que, no meu caso, grávida, não estou bem em vias de ser compartilhada. Já sou. Mas não sou doce.

Daí comecei a imaginar que quando compartilho uma sobremesa, por exemplo, só um terço é meu. A outra parte é do bebezinho, que lá dentro talvez se surpreenda… ‘o que será que ela vai mandar para mim hoje?’. Devaneios bem reais.

Depois, no mesmo dia, enquanto bebia uma divertida vitamina de banana com aveia (duas bananas prata, lógico, porque é compartilhada: um copo de leite, quatro colheres de aveia, mel ou um pouquinho de açúcar), fui ler os jornais. Sempre começo a virar as páginas pelo colunista de cultura do dia. Tenho meus preferidos, outros menos me interessam, mas sempre procuro alguma inspiração. O resto do jornal dificilmente fará esse papel. Gosto de ver como eles mudam de assunto como quem muda de canal. Fico imaginando que às vezes estão sem ideias e daí isso rende à beça. Em outras, com a pauta bem encaminhada, travam. Acontece com quem escreve.

Enfim, faço como faço com o Manoel. Tento ver se eles me fazem rir ou chorar por dentro, ficar brava ou me achar mais (ou menos) inteligente. Gosto se, de alguma forma, me provocam ou simplesmente me contam algo que não sei. Se me fazem ver alguma coisa – que parecia tão certa e resolvida – de um jeito completamente diferente, melhor ainda. Acontece, às vezes.

Pois hoje/ontem o Marcelo Coelho, na Folha de S. Paulo, escreveu sobre os bolinhos individuais e de cobertura colorida e confeitada, os cupcakes. São, para ele, uma descoberta.

“O cupcake, mínimo e caro, é mais um passo na individualização da nossa vida gastronômica.” (…) “O cupcake introduz, nessas muralhas de resistência afetiva, o espírito do cada um por si. (…) deixa aos poucos de fazer parte da esfera coletiva para entrar no campo da intimidade, do inconfessável.”

***

Oquei, nada contra o cupcake. Acho fofo e lindo e adoro a ideia de que devorá-lo sozinha e escondido é um pecado inconfessável. Mas esse discurso de individualização – outra coisa a qual não me oponho, para ser franca -, me incitou a encontrar doces para compartilhar. Aqui vai minha seleção, com algumas indicações de onde encontrar (em São Paulo). A primeira seria a sobremesa preferida, o manjar branco feito pela minha mãe. Mas, como ela “não faz para fora”, desclassifiquei.

Pastiera di grano, porque é séria, madura e italiana. A do Buttina é perfeita. Fina. Escuto o Emilo Pericoli cantar Al Di La, como no filme Candelabro Italiano. Ah, que cafona, o leitor pode pensar. Mas é ótimo.

Creme de mascarpone com chocolate. Ah… mascarpone! O do Gero é ótimo. Mas se derreter o chocolate amargo em casa também funciona. Do seu jeito.

Tiramisu, porque é tiramisu. E porque tem mascarpone. No Tappo Tratoria, vem no copo, o que além de ter uma pegada caseira ainda me dá a sensação – ilusória, provavelmente – de concentrar mais sabor.

Panna cotta com molho de frutas vermelhas, porque nem é tão doce assim. Mas ainda não encontrei, aqui em São Paulo, a que eu mais gosto. Vou seguir as pistas da Roberta Malta.

Torta de maçã, a do Ráscal tem jeitão de torta da vovó Donalda. Massa fina e muita (muita) fruta.

(Ah, sim, contrariando o estereótipo do cupcake, eu deixaria alguém muito querido dar uma dentada no meu bolinho. E não precisa ser escondido)

Autor: Viviane Zandonadi Tags: , ,

quinta-feira, 18 de novembro de 2010 viagem e comida | 12:26

Onde comer em Roma: dois restaurantes que não estão no gibi

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Um elevador e duzentos e tantos degraus depois, vista do topo da basílica de São Pedro...

Um elevador e duzentos e tantos degraus depois, vista do topo da basílica de São Pedro… Nosso hotel fica ao lado esquerdo, atrás do castelo de Santo Angelo (a construção arredondada, lembra daquele filme com o Tom Hanks?). Centro histórico do lado direito do rio

(aviso ao navegante: se quiser pular a introdução ‘onde ficar’, os dois restauras estão lááá na segunda metade do texto. e veja também: no iG Comida, uma parada na região gastronômica do Lascio-Roma).

Então, passei uma semana em Roma. O hotel fica na Via Cicerone, num bairro chamado Prati. Está colado ao Vaticano, mais ou menos perto do badalado Trastevere e a uma ponte (Cavour, Santo Angelo ou mais precisamente Umberto I) da muvuquinha clássica do centro histórico. Uma caminhada leve, de quinze minutos, leva até à brasileiríssima Piazza Navona.

Fiquei muito bem assim. Foi a segunda vez no mesmo hotel, o Isa. É bem caro, mas muito adequado ao que eu precisava no momento em termos de café da manhã (quase insuperável), bom serviço (o Fabio, da recepção, é o tipo zelador querido do coração. Confie) e excelente localização para andar com segurança dia e noite. Nas minhas contas, eu gastaria a metade se alugasse um apartamento charmoso no centro e vivesse assim me fingindo de romana por uns dias. Mas não dava para fazer isso desta vez.

Alora, a coisa começa com frios, pães, frutas (ah, o doce melão…), granola envolvida em panna (uma mistura linda e indecisa de creme de leite/iogurte, encorpada e gostosa)… e ela, claro, minha estrela, a espremuta de laranja — não peça jamais suco de laranja. Na maioria dos lugares da Itália, se pedir suco vai ganhar uma bebida aguada com jeitão de ‘restôdontè’. Espremuta é o único jeito de beber a fruta fresca espremida na hora.

Capuccino, ovo cozido, omelete, chocolate? Tem o que você quiser, o que não tiver em geral arranjam. Para terminar, dá para bebericar espumante arriscando um providencial dolce far niente.

Essa prima colazione generosa ocorre no terraço com vista para os telhados alheios. Não tem arranha-céu aqui, digo, lá,  então dá para ver o que todo mundo faz “em cima”. São antenas (muitas), roupas penduradas, escritórios improvisados, nadas… Ao fundo disso tudo, dez minutinhos a pé e ao alcance dos olhos, o objeto principal e que provoca disputa por uma mesa na varanda: a cúpula da basílica de São Pedro.

Pensa nisso: banho de sol de outono, tomando um bom café da manhã e planejando seu dia em Roma… será que vou subir os duzentos e tantos degraus da basílica hoje? A vista, pelo menos, compensa.

Como à noite eu sempre estava destruída por muita caminhada durante o dia, precisava de opções confiáveis para jantar perto “de casa”. Mesmo se você não for geminiano indeciso, poucas coisas são mais difíceis do que escolher com segurança um restaurante em uma cidade como Roma a não ser que:

1. você não precise economizar euros e possa se jogar no Gambero Rosso, uma espécie de Michelin da Itália. Daí os grandes críticos locais decidem. São só os mais bem classificados. Um, dois, três forchetti? Quantas bicchieri seu bolso vai encarar hoje? Resolva ali onde vai comer ou qual reserva terá de cavar

2. você tenha amigos romanos ou residentes, com dicas pessoais e insuperáveis. Chico Buarque morou lá. Que tal? Faz tempo, mas… Liga pra ele!

3. você tenha um repertório de muitas visitas e possa já montar o seu Gambero Rosso particular

Nenhuma das três alternativas se aplicava a essa minha terceira visita à Roma. Todas as vezes em que estive aqui/lá fiz o que é do jogo. Andei muito, comi sanduíche de mortadela na rua, pizza em pedaços (o que eles chamam de pizza, ah, esses italianos) ou parei com fome diante de algum rabisco de fórmula turística: 10 euros por uma rotonda clássica, um copo de vinho e uma salada ou ainda espaguete alla matriciana, uma carne e um vinho.

Como todo mundo, tive boas e más experiências assim, na tentativa e erro. É bom.

Carbonara: especialidade romana servida com toucinho, ovo e pecorino. Lascas de parmesão também

Carbonara: especialidade romana servida com toucinho, ovo e pecorino. Lascas de parmesão também

Desta vez, no entanto, como disse, eu precisava de porto seguro no jantar. Sobretudo porque estou alimentando, dentro da minha barriga, uma outra pessoa. A lombriga (que na verdade não existia e eu usava como desculpa para a fome que sinto o tempo todo e desde sempre) agora é um bebê. E mulheres grávidas têm desejos gerais. Eu, em Roma, acredite, desejava sopa à noite (como primeiro prato, claro). Uma confortante zuppa de verdura. Legumes, tomate, caldo de carne bem feito. Encontrei. E quando queria jantar rigatoni alla matriciana, também achei o lugar certo. Uma comidinha caseira.

Se estiver nos arredores do bairro Prati, portanto, perto do palácio da justiça, do Castelo St. Angelo ou do Vaticano, almoce ou jante num desses dois.

São simples, frequentados por italianos (e turistas que não se importam com badalação):

Su e Giù Cucina Romana
Via Tacito, 42

É uma casa diminuta, familiar (a mãe, uma senhora gordinha de origem piemontesa, o filho e a mulher do filho cuidam de tudo) e de boa comida caseira. Carbonara, matriciana, sopas variadas, peixes, vôngole… Está tudo lá. Feito na hora e com produtos frescos do dia – então talvez aquele risoto de alcachofra não seja opção para hoje. Depende da feira, o que é sempre bom.

Lembro que, no ano passado, na minha primeira noite em Roma, chegamos ao Su e Giù e fomos os únicos clientes durante toda a noite. Eles tinham acabado de inaugurar e foram queridos. A doninha sentou conosco, como uma mamma preocupada e divertida. Era uma entrevista para saber o que iria bem no jantar. Rigatoni alla matriciana e coda alla vaccinara – um tipo de rabada. O vinho foi sugestão da doninha. Um tinto piemontês.”Da minha terra”, disse.

No fim da cena, eles nos levaram até a porta e ficamos conversando na calçada. Voltei para o hotel pensando naquela recepção carina, temendo que eles talvez não vingassem. Cadê as pessoas que não estão vendo esse lugar?

Deu tudo certo, porque voltei lá mais de um ano depois. A casa estava cheia e animada. O antepasto sugerido ainda é o mesmo: uma inesquecível linguiça caseira cozida por horas em vinho branco e bruschetta – pão tostado com azeite e alho e uma cobertura de tomate em conserva. Na sobremesa, me entreguei à panna (cotta) de frutas vermelhas.

Veja as especialidades

Grotta Azzurra
Via Cicerone, 62/A

Tem esse nome por causa da famosa gruta azul que fica na região da ilha de Capri. Da calçada, você desce um lance e está no primeiro salão onde é recebido por duas senhoras distintas que eu não consegui descobrir se são mulheres ou irmãs – acho que mulheres – dos dois sócios, os irmãos Cammarano. A casa tem três salões e o mais disputado – no qual não consegui jantar nenhuma noite – é a gruta propriamente dita. Os fratelli foram buscar as rochas que revestem a parede em uma gruta marítima. Dizem.

Mas o que interessa é a comida. E o futebol (se tiver jogo de qualquer rodada as televisões estarão ligadas…). Logo na entrada você já se depara com vitrines de pescados frescos – tem até acabar – e outra com legumes e frutas, como fragolas – os morangos lindos que vai comer na sobremesa, com limão e açúcar. A sopa de verdura é devidamente confortante. É um grande mérito fazer com que depois de absorver o caldo e os legumes o sujeito não tenha a sensação de ter tomado vinagre ou mergulhado no salitre. É uma sopa fina, bem feita e delicada como faria a sua mãe, avó ou equivalente de coração.

Os peixes grelhados, spigola ou espada, são igualmente muito bem feitos e servidos, com molhos leves e azeitados. Tudo é preparado na hora, então demora um pouquinho. O bom é preencher os espaços vazios com todas as etapas da refeição. Pão com azeite e sal (eles não oferecem, vale pedir), para começar. Depois uma salada mista e, por que não, uma entrada deliciosa feita de polvo cozido em molho de tomate. Não fique comovido porque no menu o polvo é chamado de baby. É bom! Vale cada raspadinha de pão no que sobrar no prato. E por aí vai. Pizza de forno a lenha (não adianta, para mim pizza boa mesmo está em São Paulo), massas com molhos clássicos, muita, mas muita coisa do mar.

Atendimento simpático. Pode ir quase todos os dias, sem vergonha. Como eu fiz. O que eles vão fazer é adivinhar seus desejos. E sugerir por afinidade.

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  1. Dê uma volta pela Itália inteira em dez horas. Pergunte-me como
Autor: Viviane Zandonadi Tags: , ,

terça-feira, 16 de novembro de 2010 serviço | 09:20

Cheiro de ovo no copo? Jato d’água resolve

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um copo de cólera: se não enxaguar direito, nem a taça de James Bond escapa do cheirinho de ovo

um copo de cólera: se não enxaguar direito, nem a taça de James Bond escapa do cheirinho de ovo

Não é por estar grávida, ou grávido, e com todos os sentidos mais apurados. Culpa do transtorno obsessivo compulsivo? Não. Se você sente aquele “cheiro de ovo” no copo de vinho, de água ou na louça, não está alucinando. Não é imaginação, frescura. Nada. Ele existe e é chatinho. É até capaz de acabar com o apetite dos mais sensíveis.

Eu fico verde.

Costuma ocorrer em cafés, bares e restaurantes. Nos mais finos também. E não é porque quebraram os ovos do pudim no copo ou porque bateram a omelete no prato. Normalmente, o problema está na hora de enxaguar — se fosse mesmo o caso de alguém derramar ovo onde não deve ou misturar recipientes, nossas avós, mães e tias já ensinaram: café neles.

Aprendi há algum tempo em uma aula na sede paulistana da Associação Brasileira de Sommeliers que resíduo de detergente na louça forma uma película que emula o cheiro característico do ovo. Quem tiver estômago pode fazer o teste em casa. Dá certo. E essa lembrança sempre me perturba quando estou no restaurante e sinto o aroma desagradável no copo de água: muitas vezes, na pressa, o lavador de pratos não enxágua direito as peças… pronto. Estragou. Daí fico monitorando meus humores: aguento, só hoje? Difícil. Vou pedir para trocar? Fresquinha… Não fiz as estatísticas, mas frequentemente o problema se repete. Outro copo, mesmo padrão de lavagem. Aqui em casa, não. Jato de água fortíssimo e atenção especial na hora de enxaguar.

Dá para pedir para trocar o prato ou o copo, mas não há garantias que o próximo não terá o mesmo padrão. Com sorte, se pedir para enxaguar, resolve. Pior se o sujeito entender que precisa lavar. Mais detergente na louça? Melhor não.

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  1. “Serviço bom pode consertar a comida”. Pode mesmo?
  2. Você gosta de vinho. Os mosquitinhos também
  3. Chá de sumiço
Autor: Viviane Zandonadi Tags: , ,

quarta-feira, 8 de setembro de 2010 serviço | 15:53

As 13 coisas que mais irritam os garçons

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Esta é uma delas… Do filme Harry & Sally (1989, com Meg Ryan e Billy Crystal)

Sally Albright: …e eu gostaria da torta quente. Não quero o sorvete sobre a torta, mas ao lado da torta. E em vez de sorvete de baunilha eu quero sorvete de morango, se você tiver. Se não tiver, nada de sorvete, só chantilly. E só se for verdadeiro chantilly. Se ele estiver fora da lata, não quero nada.
Garçonete: Nem a torta?
Sally Albright: Não, eu quero a torta, mas, então, sem esquentar.

***

Outra:

São Paulo, duas e meia da tarde, muito movimento e alguma espera. Dá para notar aquela tensãozinha no ar, ainda que disfarçada, por causa da Restaurant Week. É a temporada em que duas centenas de casas oferecem almoço e/ou jantar a preços promocionais e as mesas costumam ser mais disputadas.

Estamos, eu e minha amiga, de olho em um pequeno grupo: três pessoas - o pai e duas filhas – chamam mais atenção do que a animadíssima reunião das quinze senhoras da sociedade itaim-bibiense, que ocorre no mesmo salão (tá, não existe itaim-bibiense, mas é para ajudar a compor a fotografia). Todas têm as cabeleiras escovadas, os dedos cheios de anéis e passam o tempo todo a escanear umas às outras: roupas, rugas, retoques, pratos, experiências de viagens etc.

Em termos de barulho, no entanto, não tem para ninguém. O pai fala alto com as duas filhas e elas respondem à altura. Ele também grita com os garçons, reclama dos preços, da comida, do lugar, da vida, da prole, de tudo. Os namorados da mesa ao lado, que já não conseguiam arrulhar e menos ainda conversar, trocam de lugar. É tarde. Estão tomados pela nuvenzinha e passam o resto do tempo esperando a confusão acabar. Mal bebem o café, com um certo rancor, e vão embora de cabeça baixa. “Boa sorte”, diz a moça, bem baixinho, para o garçom.

Antes de partir, eles passam pela cozinha e berram com os cozinheiros. Acho até que estavam elogiando, mas parecia briga.  Saio um pouco depois com minha amiga e alcançamos a calçada a tempo de ver o pai se escorando nas filhas. Bebeu demais. Ainda conseguimos ouvir comentários baixinhos da brigada, na linha do “já vai tarde” (e antes que o leitor de olhar mais agudo aponte essa possibilidade, já digo que não acredito que o recado dos garçons tenha sido para nós, mas para “eles”. A gente se comportou).

***

Clientes que fazem zilhões de mudanças nos pratos e outros que esquecem a educação em casa estão entre as principais reclamações dos funcionários de restaurantes quando perguntados sobre o que mais os irrita no trato com as pessoas.

A pedido do iG Comida, a repórter Larissa Januário conversou com maîtres, donos, gerentes e garçons de mais de vinte lugares, alguns dos mais bacanas nas principais cidades do Brasil. Em comum, eles têm, além de boa reputação e boa comida, público de todo canto a visitar. A partir dessas entrevistas, fizemos a listinha abaixo. É para pensar antes de sair por aí na defensiva contra o serviço.

Está certo que a vida do garçom (também) não é fácil, mas faço alguns contrapontos em defesa do cliente, estão em itálico. No mais, é o bom senso de cada um.

1. Gente que chega a dez minutos do encerramento do serviço.

(o horário de fechamento das casas, muitas vezes, não é claro. A hora em que são encerrados os trabalhos na cozinha nem sempre é a mesma em que fecha o salão. A cozinha costuma parar antes. Se a peça ou o filme terminou muito tarde, é melhor ligar para o restaurante e conferir se ainda dá tempo. Evita aborrecimentos. Outra coisa: se o cliente for recebido de portas abertas, sem ressalvas e dentro do “horário regulamentar”, tem de ser bem atendido independentemente do horário. Certo?)

2. Pessoas que, mesmo chegando depois da hora marcada na reserva (e além daqueles minutinhos de tolerância), brigam por ter perdido a mesa.

3. Reclamações desproporcionais sobre o preço da comida e da bebida, depois de terminar a refeição. Os preços em geral constam do cardápio. Qual seria a surpresa?

4. Ser chamados de “amigo”, “psiu” ou “xará”. Assoviar, estalar os dedos, cutucar e puxar o avental? Melhor não.

(Muitos clientes também não gostam de ser chamados de “menina” e “garoto”, sendo, ou não, menina e garoto. Tem ainda o “meu querido” ou “minha querida”. Claro, há quem aprecie certos gracejos, mas, no geral, pode ser considerado um excesso.)

5. Frases do tipo “você não sabe com quem está falando” ou “sou amigo do dono”.

6. Clientes muito indecisos, confusos e dispersos na hora de fazer o pedido ou, ainda, que mudam de ideia quando o prato já está quase pronto.

(Admito que, às vezes, eu faço isso.)

7. Comer tudinho e só depois dizer que a comida “não estava boa” ou que o pedido veio errado.

8. Crianças descontroladas + pais relapsos = coquetel molotov. Correrias pelo salão, bagunça no banheiro e gritos são as principais reclamações.

9. Adultos descontrolados, que falam alto demais e se dirigem aos funcionários da casa com grosseria.

10. Aquele tipo que não gosta de comida oriental e faz caretas ou reclamações diante de tudo o que vê no cardápio do restaurante… japonês. Ou, ainda, quem pede inúmeras mudanças para deixar uma receita de acordo com o próprio paladar. Algo na linha “vou querer o risoto de frutos do mar sem camarão, sem mexilhão e sem lula. Com frango, pode ser?”.

11. Quando o cliente diz que o atendimento não foi bom e não paga os 10%. O argumento é que isso só prejudica o garçom, e não pune a casa pelos deslizes.

12. Pessoas que saem de casa sem um plano B para o pagamento. Se o sistema de cartões de crédito e débito estiver fora do ar, como elas vão pagar a conta?

13. Gente que faz a reserva para cinco e aparece com oito pessoas, sem avisar com antecedência.

***

Nota: o restaurante do início do texto é o Marques de Marialva/La Cocagne, onde optamos pelo menu português (alheiras vegetarianas, bacalhau assado em lascas com cebola, broa de milho e uma pastinha de azeitonas pretas). Antes, ainda, provamos alheiras tradicionais (embutido português à base de pão e carne de porco). Estavam boas, mas um tanto oleosas demais. O bacalhau foi uma ótima escolha: muito promissor ver que a casa optou por uma versão em lascas, e não desfiada, a mais comum das comuns. A sobremesa era pastel de nata, estava tristinha. Nas duas horas em que ficamos no restaurante, quase fomos induzidas a consumir mais água do que o necessário, pois o serviço é do tipo que não deixa o copo vazio e abre a garrafa antes de perguntar se o cliente quer ou não a reposição.

Música: frim fram sauce

I dont want french fried potatoes, red ripe tomatoes. I’m never satisfied… (Frim Fram Sauce, com Louis Armstrong e Ella Fitzgerald)

Autor: Viviane Zandonadi Tags: , ,