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domingo, 9 de janeiro de 2011 cultura | 09:17

Três filmes para ver com a chuva

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dieta mediterrânea

o triângulo de sofia: olivia molina, alfonso bassave e paco león

Para muita gente – me incluo no grupo -, reside nas chuvas de verão uma das alegrias da vida e um esperado intervalo para fazer coisas que realmente gosta, em condições mais amenas de tempo e temperatura. Pensamentos alagados.

Precedidas por aquele espetáculo apocalíptico, a formação da tempestade, essas chuvas são boas. Sei, caro leitor, que também podem ser  más e causar danos indiscutíveis – mas infraestrutura foge ao meu alcance e, por outro lado, se estiver tudo bem, as chuvas são afinal um convite para se largar no sofá com algum filme preferido.

Para ver embalado por chuva (ou não), separei três fitas em que a comida é o catalisador da história. Duas delas estão disponíveis em DVD. A outra tem de ver no cinema.

Inédito, Dieta Mediterrânea “é daqueles filmes que se assiste com prazer e água na boca”, disse, no facebook, o colega Miguel Barbieri Jr. Miguel é crítico de cinema da revista Veja S. Paulo e Dieta Mediterrânea estreia no Brasil no dia 14 de janeiro. Verei.

dieta mediterrânea

'a melhor chef do mundo' e os homens que a ajudaram a virar lenda

Os atores são pouco conhecidos por aqui e o imdb entrega uma sinopse enxuta (“é a história de Sofia, a melhor chef do mundo, e os dois homens que a ajudaram a virar uma lenda”). O filme é dirigido pelo catalão Joaquín Oristrell, roteirista do drama Entre as Pernas, de 1999, no qual o separado Javier Bardem e a casada Victoria April se tornam amantes, aproximados por um grupo de terapia para viciados em sexo.

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Você até pode não gostar de Soul Kitchen, mas há uma boa chance de se chacoalhar um pouco na poltrona por causa da trilha sonora, com pegada pop e soul, como o nome sugere.

soul kitchen

zinos preocupado em trocar fritas congeladas por comida de verdade, para salvar o restaurante

O filme de Fatih Akin (2009), que ganhou prêmio especial do júri no Festival de Veneza, ocupou as salas de cinema no ano passado e tem origem greco-germânica. Ambientado em Hamburgo, conta a história do grego Zinos, que, na tentativa de salvar seu galpão-quase-restaurante, contrata um chef de verdade (e furioso) para comandar a cozinha. Mais: o irmão encrenqueiro, em liberdade condicional, vai trabalhar com ele, a namorada decide morar na China e um amigo de araque tenta sabotar o negócio para ficar com o terreno. No meio disso tudo ele dá uma bela travada nas costas.

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o cartaz francês de 'o jantar', com fanny ardant

o cartaz francês de 'o jantar', com fanny ardant

É um dos meus preferidos de sempre. Em O Jantar (Ettore Scola, 1998), Fanny Ardant (Flora) é a charmosa e querida dona de um típico restaurante italiano. A trama tem início com a casa sendo preparada para o próximo jantar e termina de um jeito meio mágico, como se quisesse ser fábula, quando a função da noite acaba.

A fita dura mais ou menos duas horas e percorre, mesa a mesa, dramas e alegrias dos clientes, as aflições da própria Flora e o calor da cozinha. Tem o professor casado (Giancarlo Gianninni) e a amante, uma aluna décadas mais nova e absolutamente deslumbrada com sua figura – a questão é se essa relação resiste ao filé à milanesa.

Em outra mesa, a voluptosa Isabella (Stefania Sandrelli) está desesperada para conquistar a filha adolescente, mas borra o rímel quando a garota informa que está decidida a ir para um convento. O casal de turistas japoneses não para de tirar fotos, enquanto seu filho tem um olho no macarrão e outro no joguinho eletrônico – que terá um papel importante no desfecho do filme.

Vittorio Gassman, que morreu em 2000, interpreta o Maestro Pezzullo. Com mesa cativa, janta sozinho e gosta de observar os vizinhos. Suas interferências ajudam a medir a temperatura humoral. E, francamente, ter Vittorio Gassman no elenco já basta para tornar um filme atraente. Se o juntar à linda Fanny Ardant, à mão de Ettore Scola e à culinária italiana que amarra toda a trama, pronto. É imperdível.

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Trailers

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  2. Esperando o derrame, entre azeitonas, uvas e cerejas
  3. A garçonete e o poder curativo de uma boa torta
Autor: Viviane Zandonadi Tags:

terça-feira, 4 de janeiro de 2011 cultura | 19:35

A garçonete e o poder curativo de uma boa torta

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a garçonete

todos os humores de uma torta

Não sei se você conhece Jenna. Talvez já tenha topado com ela em algum canal de filmes da TV a cabo ou na prateleira da locadora – capaz até de ter desprezado, posso entender, por causa desse cartaz meio bobo. Ocorre que a moça é a protagonista de uma fita de mulherzinha – que muitos homens também assistem, eu sei. Em segredo ou acompanhado, é ótima desocupação para uma tarde chuvosa e preguiçosa de verão – pronto, fiz um post sazonal.

A dramédia romântica A Garçonete trata dessa moça brilhante na cozinha (um gênio das tortas). Só que, como sabemos, para o filme existir a heroína tem de gramar. Portanto Jenna é, também, uma frustrada na vida pessoal e enroscada com Earl, o marido. Este último, não é nada além de um néscio completo.

Quando descobre que está grávida do infeliz (tudo tem uma explicação, ou não), Jenna é invadida por um processo criativo violento, infalível combinação de sabores inspirada por pensamentos politicamente incorretos sobre… tudo, até o bebê – uma situação bem comum em grávidas. Mixed emotions produzem tortas fabulosas e mães também, assim espero.

Jenna (Keri Russell, aquela que tem voz de travesseirinho e era a protagonista do seriado Felicity) tem talento fora do comum para criar e fazer tortas – e batizá-las de um jeito bem passional. Invariavelmente, suas confecções são uma mistura de instinto com experiência pessoal. Catálise de sentimentos confusos. Imagine que o marido intragável (um idiota, se já não mencionei) apronta uma. Jenna tem uma ideia para torta (I Hate My Husband Pie, ou torta eu odeio meu marido). Ao se apaixonar pelo ginecologista, outra inspiração (I Can’t Have no Affair Because is Wrong and I don’t Want Earl to Kill Me Pie). Ao tomar uma invertida do chef, mais uma. Descobriu que está grávida e não fica feliz com a notícia…? Idem. Nasce a Pregnant Self  Pitying Pie, ou  torta da grávida com pena si mesma, que mais adiante, no pré-natal, vai ganhar uma prima chamada Don’t Want Earl’s Baby Pie (torta não quero o bebê do Earl). Mas nem só de rancor é abastecido o laboratório de Jenna. Primeiro porque, com ou sem mágoa, o resultado é bom. Além disso, a torta estou apaixonada (intensa, feita à base de chocolate) e aquela outra, coberta de marshmallows coloridos, não deixam dúvida: a alegria também inspira. Mas os artistas não costumam castigar o papel quando estão tristes? Normal.

Enfim, cada execução de confeitaria tem, para Jenna e para quem se joga nas tortas com ou sem culpa, um certo poder curativo, confortante. Empregada de um café tipicamente americano, que serve suas criações doces e salgadas no café da manhã, no almoço e no jantar, logo ela vai acabar se apaixonando pelo obstetra fofo e casado que chega à cidade. Ao mesmo tempo, tenta escapar das patadas do Earl e dar um jeito de participar de um concurso de tortas para levantar 25 000 dólares e deixar o néscio para trás.

Waitress não é um filme novo, é de 2007. Mas isso não faz muita diferença. Nem reviro os olhos quando uma criança quer ver e rever O Rei Leão incontáveis vezes, faço igual com minha coleção de DVDs ou na tevê. E, embora não tenha muito jeito para decorar falas ou nomes de personagens – talvez exatamente por isso… -, assisto alguns filmes outras e outras vezes. Inteiros, pela metade. Enfim, com A Garçonete (Waitress), é assim.

Aliás… mesmo sendo uma indisciplinada quase completa, vou tentar ver um filme de comida por dia. Ou pelo menos uns cinco por semana. Quando achar que vale, comento aqui. Começo revendo meus preferidos, como O Jantar (Ettore Scola), Soul Kitchen (Fatih Akin) e o óbvio, mas não menos emblemático, Festa de Babette (Gabriel Axel).

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A diretora de Waitress é Adrienne Shelly, a colega mais desajeitada da Jenna-Felicity no filme. Ela morreu antes de ver seu trabalho brilhar, com indicações e prêmios, em festivais de cinema independente. Pior: morreu por uma coisa estúpida. Um trabalhador de uma construção vizinha teria ficado irritado porque Adrienne reclamou do barulho da obra. O sujeito foi atrás dela, simulou suicídio, mas acabou condenado.

Notas relacionadas:

  1. Mané pelado e porco na lata em Pirenópolis
  2. Esperando o derrame, entre azeitonas, uvas e cerejas
Autor: Viviane Zandonadi Tags:

quinta-feira, 30 de setembro de 2010 cultura | 12:21

Esperando o derrame, entre azeitonas, uvas e cerejas

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O camponês Mauro Selvetti tem 80 e poucos anos. Vive na roça, na Itália, onde passa os dias colhendo azeitonas, uvas e cerejas. Cuida dos animais e conversa com os insetos.

O senhor Selvetti acha, e está certo, que todo mundo pode ter um derrame (ou cair um piano na cabeça, ou ter um infarte, morrer de câncer, acidente de carro, o que for). Mas ele sabe, também, e convence quase todos ao falar com a simplicidade dos lapidados pela vida simples, que esperar o derrame sentado na porta de um bar vendo a vida passar é pouco.

Ele prefere esperar na lida.

Em dado momento, Selvetti compara sua rotina no campo com a de um executivo em seu escritório, e elabora uma reflexão na linha: “Ele fica ali, separando papéis, movendo-os de uma pilha para a outra, estressado. Acho a minha vida na terra mais emocionante do que isso.”

Uno Degli Ultimi (Um dos Últimos, 2007, dir. Paul Zinder).
O filme tem pouco menos de 12 minutos.

Uno Degli Ultimi fez parte da programação do festival de cinema Slow Food em Pirienópolis (Goiás), setembro de 2010.

Notas relacionadas:

  1. Mané pelado e porco na lata em Pirenópolis
Autor: Viviane Zandonadi Tags:

domingo, 19 de setembro de 2010 cultura | 18:55

Mané pelado e porco na lata em Pirenópolis

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Caipira de cidade grande, quando chega à graciosa cidade do interior, fica assim. Deslumbrado.  Escrevo de Pirenópolis, a uns 120 quilômetros de Goiânia. Um dos lugares mais fotogênicos, com suas ruas de pedra e casinhas brancas de portas e janelas coloridas. Cheguei na sexta-feira, dia 17, a trabalho, para acompanhar três dias de programação no Cine Pireneus, o Festival Slow Film de Cinema e Alimentação.

A conexão com a internet estava uma lástima – o que de certa forma é bom para ajudar a gente a ver as coisas de outra perspectiva. Mas agora o sinal está melhor e eu volto um pouco ao vício urbano. Uma janela.

Junto com o fotógrafo Leo Feltran (e mais umas 100 pessoas por grande sessão), tenho visto filmes de comida feitos em todo o mundo – todos alinhados com a temática do Slow Food, que defende a retomada das origens, o convívio com as pessoas que a gente gosta quando a gente quer e sobretudo ao redor da mesa, o conhecimento – e a consciência – a respeito da origem daquilo que se come, a produção pequena e orgânica, as tradições culinárias e de cultivo.

Entre os filmes, meu preferido até agora é o curta sérvio Somos Aquilo que Perdemos. Sem emitir uma palavra, diz tudo o que a gente precisa saber: somos um pouco daquilo que perdemos, mesmo. Mas também vamos nos transformando com o que – e com quem – encontramos pelo caminho. Como este filme.

Veja:

Quando não estamos no cinema, o programa é visitar alguns produtores locais. Essas histórias, enriquecidas com as fotos de Leo, serão contadas com profundidade no iG Comida.

Ontem fizemos um roteiro rural que começou em um pequeno laticínio e terminou em almoço orgânico em um restaurante lindo e longe de tudo. Teve salada fresca de verduras e beterraba e cenoura raladas, galinha d’angola cozida por hooooras em um caldo reduzido e enriquecido com os próprios miúdos, purê de mandioca e alho-poró. Na sobremesa, frutas assustadoramente frescas banhadas em calda de açúcar mascavo e sementinhas de papoula. Só ingredientes da terra.

Hoje tivemos aula de história a cada dentada no café da manhã espetacular da dona Telma, na Fazenda Babilônia.

Os olhos azuis da dona Telma acolhem como olhos de mãe. Coisa que ela é para todo mundo que se aproxima. Em sua casa, antigo engenho de 200 anos de idade, a mesa está sempre posta. E é farta.

Entre outras tantas especialidades de Goiás, de quintandas e de tempos coloniais, tem mané pelado. Foi meu preferido de hoje. É um bolo de massa de mandioca ralada, ovos, queijo e leite de coco, de consistência elástica, delicada, e que faz a felicidade genuína na companhia de café recém coado e ligeiramente descansado em bule de ágata, no fogão a lenha.

mané pelado: o delicado bolo de mandioca da dona Telma, em Pirenópolis. Foto: Leo Feltran

Mané pelado: o delicado bolo de mandioca da dona Telma, em Pirenópolis. Foto: Leo Feltran

Tem também mais umas 39 coisas boas de comer, todas feitas de jeito antigo, natural e sem pressa. De sal, é de encantar o porco na lata, por exemplo, preparado com a carne do animal criado solto na fazenda e conservada em sua própria banha. É cheio de adjetivos. Saboroso, suculento, rosado, macio, os pedaços desprendendo-se sem esforço.

Gordo, o leitor vai dizer. Sim, é. Mas é comida de verdade que se a gente pode faz bem encontrar, ao menos vez ou outra. 

Nos intervalos das apurações nos passeios e no cinema, a gente come fruta do pé, bebe muita água, reclama um pouco da secura do tempo, se admira da belezura da paisagem e da cidade e da gentileza do povo — mas também já percebe que Pirenópolis começa a dar sinais de ser vítima de sua própria atração. Aos finais de semana, as ruas mais centrais, como a chamada Rua do Lazer, são disputadas. Arrisco dizer que até registram um certo congestionamento. De gente. E de carros.

No fim da tarde, porém, a trilha sonora é tarefa de uma turma de cigarras. Há pouco, o silêncio era ensurdecedor. Mas elas voltaram a cantar e parece que tudo está em seu devido lugar. Só falta um pouco de chuva. E já é hora de ir para a cidade ver mais um filme.

Autor: Viviane Zandonadi Tags: ,