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sábado, 2 de julho de 2011 comida, serviço | 00:19

Palmas para a lula à provençal (e o dia em que fomos aplaudidos ao sair do restaurante)

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Chegando à mesa tenra e perfumada, servida na chapa e produzindo breves estalos, a lula provençal do restaurante paulistano AK Vila, da chef Andrea Kaufmann (ex Delicatessen), foi o melhor prato do último lugar que visitei antes da minha filha Catarina nascer – ela chegou no dia 10 de maio e exigiu que a lula ficasse na gaveta até que a gente estivesse mais entrosadas (eu e a Cata e não eu e a lula).

lula à provençal da chef Andrea Kaufman

lula à moda provençal: aplausos para ela

Agora, feliz e alimentado, o bebê dorme. Eu escrevo: aplausos para a lula. A receita está lá embaixo.

Bom, a Provence, no sul da França, é o lugar mais lindo em que já estive. Abre parêntese: quando no Luberon, haja o que houver, hospede-se no Les Roullets e vá ao Le Vivier. Isso e as travessias de carro pela região já valem metade da viagem. E não se atrapalhe com os horários, para não perder o almoço, pois quando o francês diz que a função termina às 14h, significa que não adianta chegar cinco para as duas e esperar ser atendido. A cozinha já terá encerrado e a porta será fechada na sua cara. Prometo.

É um lugar para onde quero voltar mil vezes (a Provence), mas, por ora, só faço esse passeio na imaginação, nos livros e, claro, no aroma de um prato bom como a lula provençal do AK Vila. Vale anotar aí que é esperado que praticamente toda receita à moda – ou que carrega ‘provençal’ no nome – seja banhada por uma carga de azeite e alho (mais sobre na reportagem “Um  toque de Provence”). Fecha parêntese.

O novo AK ocupa na Vila Madalena um imóvel com jeito de galpão e que pertence à família da chef. Minha expedição para atacar a lula e outras atrações contou com a barriga, o pai e os padrinhos da mesma. Foram eles que alguns anos antes nos apresentaram os predicados culinários da Andrea na judaica AK Delicatessen, em Higienópolis — colada ao cemitério da Consolação, na Rua Mato Grosso. Naquela tarde, lembro, tudo acabou em um inesquecível pain perdu, a rabanada francesa servida em ramequin e que mudou junto com a chef para o novo endereço (oba).

Na Vila, pois, a expectativa era muita. A turma lamentava o fechamento da casa mais antiga, mas estava animada com a nova – ambiente menos charmoso, culinária mais variada. Cozinha jóia. Ficamos superbem e, com água, suco, espumante – porque a gente celebra, claro – e café, a conta não chegou a 80 reais por pessoa em um bem servido almoço de sábado. Não é barato, sabemos, mas é promissor, considerando que é Vila Madalena e é São Paulo – eita cidade metida a besta de tão cara para comer…

Nossas escolhas tinham o jeitão da casa: simples e gostosas, pedidas para compartilhar. Sardinha marinada (saiu do cardápio, pena), costelinhas grelhadas com melaço e laranja (para se lambuzar sem nenhuma culpa),  lula à provençal (um pulinho na Provence) e os famosos raviólis de batata judaicos, os varenikes tradicionais (em maio, foram substituídos pelos de mandioquinha, o que não deixa de ser boa notícia, pois todos os varenikes da Andrea valem a mordida).

Quando liguei para conversar sobre a casa, ela contou que as receitas são todas feitas com produtos frescos do dia, comfort food, como se convencionou chamar o que comove nosso coraçãozinho passando antes pelo estômago.

A chef vai desenhando o cardápio com a inspiração e, também, respondendo à repercussão que os pratos obtiveram entre os clientes. A intervenção do público, aliás, é capaz de acabar com a carreira de alguns ingredientes. A sardinha, por exemplo, pela qual me apaixonei e até pedi receita, infelizmente foi deletada. “Esse peixe ainda sofre muito preconceito. É uma receita da minha mãe e uma das preferidas da minha filha, mas acabei tirando do menu”, explicou Andrea.

O AK é um lugar para ir com o namorado, a namorada, a mulher, o marido e os amigos e passar muito bem. Sem frescura, bom uso da grelha e delicada mistura de cozinhas várias com a culinária judaica, mas sem ficar preocupada demais com geografia. O serviço no dia da visita esteve bastante atrapalhado e em algumas situações despreparado (ou desinteressado?) até para descrever pratos do cardápio. Mas vai melhorar – ou já melhorou. Vou voltar para ver.

Lá embaixo, a Andrea Kaufmann compartilha duas receitas preferidas daquela tarde. A lula e a sardinha.

***

Nota (sobre o atendimento): imagina se ao visitar um restaurante você é recebido com uma salva de palmas. Legal. Constrangedor, talvez. Mas, por mais vaidoso que o sujeito seja, se as palmas vierem no finzinho da refeição, quando ele afasta a cadeira preparando-se para ir embora…, é esquisito. Seu maior pecado foi ser parte da última mesa. Foi assim que eu e meus amigos deixamos o AK Vila, depois do ótimo almoço no comecinho de maio. “Já vão tarde”, diziam as palmas vindas do staff que batia papo perto da porta da cozinha.

Tá certo que a gente se comportou bem, não exagerou no álcool, não disse verdades inconvenientes, não bagunçou e pagou a conta direitinho. Mas nem por isso precisa aplaudir, certo?

Enfim, quem fica tímido com esse tipo de reação da brigada (!) deve consultar o relógio antes de esticar a conversa e pedir mais um cafezinho. No mais, aproveite a visita. Sim, para quem conheceu, o serviço do AK Delicatessen era mais afinado, mas pelo jeito é raro isso em São Paulo hoje. Tá difícil encontrar quem consiga equacionar com sucesso comida e atendimento. Mas a gente continua procurando. E pagando para ver.

Era sábado de tarde, alguns minutos depois das quatro, quando começa o intervalo para reabrir no jantar — em SP, pelo menos, dá para fazer uma lista enxuta e confortante de estabelecimentos que ficam abertos sem parar do almoço ao jantar aos sábados. Piselli entre os caros. Lellis – e seu Oswaldo Aranha inesquecível - entre os mais baratos.

***

Receitas

Lula provençal

Rendimento: 1

Tempo de preparo: 10 minutos

Chef: Andrea Kaufmann

Ingredientes:

170g de lulas pequenas inteiras, limpas, sem a pele

3 dentes de alho

2 col de sopa de salsa

azeite, sal, pimenta

Modo de preparo:

Tempere as lulas com azeite e sal. Passe-as pela grelha de carvão por dois minutos de cada lado.

Numa frigideira, refogue o alho no azeite, coloque as lulas, já grelhadas, e saltei-as para que peguem o sabor. Depois acrescente a salsa picada.

Sirva numa chapa aquecida, com uma fatia de limão siciliano.

Sardinha Marinada

Rendimento: 20 porções

Tempo de pré-preparo: 5 dias

Tempo de preparo: 15 minutos

Chef: Andrea Kaufmann

Ingredientes:

3kg de sardinha espalmada, sem cabeça e espinhas

150ml de água filtrada

100ml de vinagre de vinho branco

2 folhas de louro

10 grãos de pimenta do reino (preta e branca)

15ml de creme de leite

2 cebolas cortadas em rodelas finas

Sal marinho

Modo de Preparo:

Numa vasilha feita de material não reagente (vidro ou inox, por exemplo), disponha camadas de sardinha com camadas de cebola e vá salpicando sal em cada um dos peixes.

À parte, faça uma marinada com a água, o vinagre, o louro e as pimentas. Jogue sobre as sardinhas, tampe a vasilha e deixe marinar por 5 dias.

Ao servir, misture separadamente o creme de leite fresco com uma colher do líquido da marinada.

Sirva a sardinha, com as cebolas e o creme de leite.

Veja também no iG Comida

>>Sardinha: como comprar e preparar. O peixinho sai da lata e, fresco, vira protagonista
>> A cozinha da Provence e da Cote D’Azur

Notas relacionadas:

  1. As 13 coisas que mais irritam os garçons
  2. O dia em que fomos maltratados no Ritz, e por que não precisamos de nada disso
  3. Um domingo à milanesa, com molho de tomate e parmesão
Autor: Viviane Zandonadi Tags: , , , ,

sábado, 11 de dezembro de 2010 serviço | 12:06

O dia em que fomos maltratados no Ritz, e por que não precisamos de nada disso

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O Ritz, em São Paulo, é uma rede de restaurantes de comida variada, famosos pelo cardápio de hambúrguer e pelo bolinho de arroz – e também por ser badaladinhos, frequentados por quem o lugar comum gosta de chamar de ‘gente bonita’, por quem vive atrás de ‘gente bonita’ e, claro, por muitos que não estão nem aí para isso tudo.

o bolinho de arroz do Ritz, veja a receita lá embaixo

o bolinho de arroz do Ritz: se estiver grávida, uma saída é fazer em casa esta ou outra receita. E não precisa disputar uma mesa no restaurante…

Sempre tem espera na porta, mas o hambúrguer não é nada além de bom. Melhores são o tal bolinho de arroz da foto acima, o filé à milanesa e a truta com amêndoas. Variado, enfim.

Soube que estão abrindo uma nova unidade no shopping Iguatemi – lembro até que, há uns dois meses, quando nossa equipe entrou em contato com a assessoria de imprensa do Ritz para uma pauta sobre filé à milanesa, eles declinaram. Não vamos participar e ponto. Nada naquele momento seria mais importante para a casa, disse a assessoria, do que os preparativos para a nova unidade do Iguatemi.

Pois ontem fui almoçar – a passeio – no Ritz do Itaim, com mais três amigos. Estávamos preparados para alguma espera, mas não sem contar, também, com alguma cordialidade e bom senso do serviço da casa. Tal expectativa provou ser pura ingenuidade.

O primeiro rapaz que nos recebeu colocou o nome na lista e disse que ‘com certeza’ nossa mesa sairia com prioridade, pois, como dá para ver, eu estou grávida. Não deu uma previsão, mas fomos logo para o balcão, ponto de vista privilegiado para constatar, na próxima uma hora, várias mesas serem ocupadas por outros grupos. Uma atrás da outra. Nenhuma grávida aparente.

Meus amigos perguntaram quanto tempo ainda teríamos de esperar – já acabou o bolinho de arroz, o suco de tomate e a água que pedimos no balcão. Veio a gerente. “Oi, vocês me chamaram?” É sobre a nossa mesa. “Olha, tem uma para duas pessoas sendo liberada agora. É a mesa da grávida. Se ela quiser, pode até colocar mais uma cadeira e daí são três pessoas”.

Pensei: ela não deve ter tido tempo de contar. “A grávida” informou: estamos em quatro. A gerente respondeu: “Eu sei, mas só a grávida tem prioridade. Não tem prioridade para o grupo. Se quiser sentar, tem essa mesa”.

***

Minha médica costuma dizer que nós, grávidas, costumamos ficar ligeiramente lesadas, “ausentes de si”, nesse período interessante. A gente viaja um pouco, é verdade.

Mas, vendo a carinha de espanto dos meus amigos, percebi que naquele caso não era viagem minha: a gerente do Ritz sugere, com cara de poucos amigos, que a coisa funciona simplesmente assim: em um grupo, só a grávida tem prioridade. E nada de querer levar vantagem se você conhece uma grávida. Como diria o Simonal, nem vem que não tem.

Sendo assim,  se decide ir ao restaurante, a grávida que sente sozinha quando um lugar for liberado para sua barriga. Ela que se separe do grupo, coma, não reclame, vá embora e encontre seus amigos depois. É isso.

Por sorte, nem todos os lugares e serviços de restaurantes têm a mesma política. Eu sei que não posso exigir que todo mundo fique mais ou menos feliz como estou, porque carrego um bebezinho na barriga. Porém, o recado que o Ritz passa é o seguinte: “não adianta vir aqui usando uma grávida como desculpa de prioridade para se dar bem.” Uau, com que tipo de gente esses restaurantes precisam lidar. E, pior, como nivelam por baixo seu público. Pena.

Tudo bem. Sentamos, uma hora e meia depois de chegar. Só não fomos embora antes por duas razões:

1. estava muito calor lá fora e a gente preferia ficar no salão fresquinho, mesmo que barulhento. Sim, grávidas cansam ao sol. E não grávidos também. Depois dos 26 graus fica difícil manter a civilidade.

2. a gente queria ver se, pelo menos, valeria a espera (e os entretantos do caminho, se é que isso é possível). Vamos todos pedir hambúrguer!

Conclusão: achamos o hambúrguer nada demais. Mas já era um pouco tarde para isso. Demorou demais para chegar (25 minutos) e, somando toda a espera, estávamos cansados. Boa parte do tempo à mesa, entre risadas, lógico, foi dedicada ao nosso espanto com o modo como havíamos sido tratados até ali – entramos numa de simular algumas boas maneiras de dizer tchau, mas, ao contrário da gerente, achamos melhor não usar. Bom senso, educação, essas coisas. A gente se contentou em dar risada.

O sabor do hambúrguer, o ponto da carne… nada disso conseguiu ser assunto mais importante. Passou. Falamos sobre o vice-presidente José Alencar, sobre a Dilma, sobre cartões com e sem chip. E ficamos, ainda, lembrando dos hambúrgueres suculentos de outros lugares em que estivemos.

Tá certo, eu era a única barrigudinha do lugar (ao menos com a desculpa do bebê). Mas parece que o staff não está treinado para lidar com esse tipo de situação. Deveria. É o trabalho deles. Com ou sem barriga.

Sabe do que me lembrei? Uma vez, isso foi há muuuuitos anos, eu estava de paquera com um escritor. A gente se cortejava platonicamente. Era um sábado à tarde e ele me ligou: vamos comer um hambúrguer no Ritz? Eu não tinha namorado, tinha acabado de sair da casa dos meus pais, nunca tinha ido ao Ritz… Travei. Não sabia se queria ir ou não. Respondi rápido: “Ai, não vai dar. Estou passando óleo de peroba nos meus móveis de demolição.”

Hein?!

Acho que vou usar essa desculpa da próxima vez que me convidarem para ir ao Ritz, sobretudo enquanto grávida. Afinal, eu já sei fazer bolinho de arroz e um bom filé à milanesa. E tem um monte de lugares com hambúrguer suculento e atendimento correto por aí. Peroba nos outros. Meus móveis estão lindões até hoje.

Notas relacionadas:

  1. As 13 coisas que mais irritam os garçons
  2. Você gosta de vinho. Os mosquitinhos também
  3. Cheiro de ovo no copo? Jato d’água resolve
Autor: Viviane Zandonadi Tags: , ,

terça-feira, 16 de novembro de 2010 serviço | 09:20

Cheiro de ovo no copo? Jato d’água resolve

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um copo de cólera: se não enxaguar direito, nem a taça de James Bond escapa do cheirinho de ovo

um copo de cólera: se não enxaguar direito, nem a taça de James Bond escapa do cheirinho de ovo

Não é por estar grávida, ou grávido, e com todos os sentidos mais apurados. Culpa do transtorno obsessivo compulsivo? Não. Se você sente aquele “cheiro de ovo” no copo de vinho, de água ou na louça, não está alucinando. Não é imaginação, frescura. Nada. Ele existe e é chatinho. É até capaz de acabar com o apetite dos mais sensíveis.

Eu fico verde.

Costuma ocorrer em cafés, bares e restaurantes. Nos mais finos também. E não é porque quebraram os ovos do pudim no copo ou porque bateram a omelete no prato. Normalmente, o problema está na hora de enxaguar — se fosse mesmo o caso de alguém derramar ovo onde não deve ou misturar recipientes, nossas avós, mães e tias já ensinaram: café neles.

Aprendi há algum tempo em uma aula na sede paulistana da Associação Brasileira de Sommeliers que resíduo de detergente na louça forma uma película que emula o cheiro característico do ovo. Quem tiver estômago pode fazer o teste em casa. Dá certo. E essa lembrança sempre me perturba quando estou no restaurante e sinto o aroma desagradável no copo de água: muitas vezes, na pressa, o lavador de pratos não enxágua direito as peças… pronto. Estragou. Daí fico monitorando meus humores: aguento, só hoje? Difícil. Vou pedir para trocar? Fresquinha… Não fiz as estatísticas, mas frequentemente o problema se repete. Outro copo, mesmo padrão de lavagem. Aqui em casa, não. Jato de água fortíssimo e atenção especial na hora de enxaguar.

Dá para pedir para trocar o prato ou o copo, mas não há garantias que o próximo não terá o mesmo padrão. Com sorte, se pedir para enxaguar, resolve. Pior se o sujeito entender que precisa lavar. Mais detergente na louça? Melhor não.

Notas relacionadas:

  1. “Serviço bom pode consertar a comida”. Pode mesmo?
  2. Você gosta de vinho. Os mosquitinhos também
  3. Chá de sumiço
Autor: Viviane Zandonadi Tags: , ,

quinta-feira, 11 de novembro de 2010 serviço | 18:59

Chá de sumiço

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Ella Fitzgerald e Count Basie -Tea For Two
(Ella Fitzgerald e Count Basie, Tea for Two)

Roman Holiday - Audrey Hepburn

O espanto de Audrey Hepburn com o preço do chá (brincadeirinha) no filme A Princesa e o Plebeu, rodado em Roma

Parece que foi isso, chá de sumiço, que a autora deste blog tomou nos últimos dias. Na verdade foi camomila e hortelã. Infusões, como são chamados tecnicamente os saquinhos que NÃO são feitos de Camellia Sinensis (esta sim que dá origem aos verdadeiros chás) que mergulhamos em água quente.

Mas não foi por causa de chás ou infusões que sumi. Estive fora a trabalho por três semanas. Teve o passeio gastronômico em Turim, a caça às trufas na Toscana, uma semana em Roma (fazendo o que se faz em Roma). Quando voltei, fui obrigada a ficar em repouso por recomendação médica. Agora (piano, piano, como dizia o Salvatore, motorista italiano bravo e de olhos azuis que nos ajudava a saltar aqui e ali em Nápoles e Pompeia), retomo.

Muito já foi dito sobre o preço do cafezinho, com ou sem petit fours, a criar músculos no valor final da conta em um restaurante. O custo da garrafa de água também costuma fazer erguer sobrancelhas. E é assim em qualquer lugar do mundo. Como se essas coisas que parecem detalhes tão pequenos de nossas refeições, dos quais não conseguimos nos descolar, fossem a fonte de lucro das casas que frequentamos. Pagam a louça, a prataria, a roupa de mesa? Talvez. Não sei.

Mas e o chá? Aconteceu comigo em um café, numa dessas piazzas romanas. Terminei a refeição e pedi um digestivo de hortelã. Era um saquinho de menta quase suspeito. Há quanto tempo estaria ali, onde todo mundo prefere café puro, com grappa, lemoncelo etc? Nada de folha de hortelã orgânica, fresca e perfumada.

Estava bom. Bebi puro, exceto pela rodela de limão siciliano. Pensei na vida, observei a gente passar, paguei a conta e fui arrastar os sapatos em mais uma caminhada. Mais tarde, dei uma olhada na ricevuta, o valor específico do dito cujo (que eu ingenuamente não perguntei nem consultei no cardápio antes de pedir): 5 euros.

CINCO EUROS por uma xícara de infusão de hortelã. Quase quinze reais. Meu queixo, que já anda a estalar por aí, quase caiu. Estou vendo errado, pensei. Nunca fui boa na matemática. Mas era isso mesmo.

E veja só… depois da infusãozinha mais cara da minha vida, ontem o supermercado entregou aqui em casa algumas compras que fiz pela internet. Entre elas, caixinhas de infusão de camomila e hortelã com quinze saquinhos cada, 3,28 reais por embalagem. Não chega a 22 centavos de real cada saquinho.

Não tem explicação. Pelo custo do produto, seria gracioso se o restaurante oferecesse o chá como cortesia.

Se no preço do café está a qualidade do grão, o trabalho do barista e o lucro, ok, ainda que com um certo desconfiômetro. Sabemos que a mão às vezes é pesada, mas muitas vezes os brigadeiros, bolinhos e chocolatinhos acabam adoçando o amargor da conta.

Mas… e no chá comum? Veja: não estamos falando de coisa gourmet ou exótica, como gostam de dizer por aí. Nada de flores orientais que fazem balé na água e falam depois de desabrochar. Infusões ordinárias.

E obviamente a gente não precisa ir longe para fazer as contas. Hoje em um francês aqui em São Paulo o chá de hortelã, uma folha verde e aromática, custava quatro reais. Não são aqueles cinco euros, mas é muito também.

Acho que vou começar a levar saquinhos na bolsa e pedir água quente no restaurante. É como um remedinho… “Me dá um copo de água para tomar, por favor?” Claro que, por via das dúvidas, é melhor perguntar antes quanto custa a água quente. No caso, sem gás. Será que vão cobrar?

Notas relacionadas:

  1. A vida à mesa e seus acompanhamentos
  2. “Serviço bom pode consertar a comida”. Pode mesmo?
  3. Vale o valet?
Autor: Viviane Zandonadi Tags: , ,

sexta-feira, 15 de outubro de 2010 serviço | 17:27

Vale o valet?

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DriveMyCar-Beatles-RubberSoul-1965

Esta é sobre aqueles dias em que o serviço de manobrista deixa um gostinho amargo na boca. Drive My Car, com os Beatles, para adoçar. Maybe I will love you. Or hate you.

Getty Images

vale o valet?

O leitor que como eu mora nesta São Paulo caótica, congestionada, sem lugar para os carros, as gentes e com milhares de estacionamentos particulares e serviços de valet a custos estrambólicos cobrados por minuto, talvez suspire e pense que a resposta para a pergunta do título é qualquer coisa como “não, mas não tem muito jeito”.

Não sei. Os carros muitas vezes ficam na rua. Os manobristas fazem algazarra acelerando veículos na madrugada. É uma confusão.

Tenho amigos que já desistiram de ir ao restaurante com o próprio carro. Vão de táxi. Ou então só saem na base da promenade, caminhando, perto de casa. Essa história de riscar o chão para conseguir um lugar cansa. E esvazia os bolsos. Os preços… ah, os preços. Doze, 15, 25 reais pela conveniência… E o carro fica onde mesmo? É tudo um tanto nebuloso.

Penso nisso quando ocorrem coisas do tipo o que o experimentei nas duas vezes em que estive, em 2010, no variado Becco 388. O restaurante, boa comida, simpático, serviço esforçado, fica ali na rua Mato Grosso em Higienópolis. É a rua atrás do cemitério da Consolação. Tranquila demais – sem trocadilhos – e que, até o Becco 388 instalar seu serviço de valet, não tinha nada disso.

Quem ia ao ex-AK Delicatessen, ao Anita, ao Antonieta ou mesmo a La Frontera, ali perto, deixava o carro na rua e entregava para Deus – tá, os devotos que me perdoem, mas não consigo evitar a piadinha espiritual. Eu sempre pensava nisso. Tinha mesmo a impressão de que aquele clima de tranquilidade eterna do cemitério dava também um descanso para os clientes. Nada de flanelinha. Parecia outra cidade. Não esquenta, deixa o carro na rua e vai comer que está tudo sob controle. Surreal, mas bacana.

Voltando ao Becco (e ao valet). Estive lá duas vezes, para jantar, em 2010. Nas duas visitas tentei parar na porta, mas tinha o guarda-chuva do manobrista. Quinze reais. Sabe como é: à noite, logo depois do trabalho, a gente quer conforto. Entreguei a chave para o rapaz que, na primeira visita, perguntou se eu queria que ele deixasse o carro na rua ou levasse ao estacionamento. Hum? Como quem pergunta se quer gelo e limão na Coca-Cola. A vantagem de deixar na rua, explicou, é que ele ficaria “de olho” e, quando eu saísse, o carro estaria “fácil”.

Tem seguro?, perguntei. Tem, mas o estacionamento é longe. “Olha, se você quiser deixar a chave comigo na cortesia, eu olho para você. Fica mais barato.” É, mas daí não tem seguro, insisti. Só quero com seguro. Ele disse que levaria ao estacionamento. Sinceramente, não acreditei.

Quando saí, meu carro estava na porta: o rapaz teria se adiantado e resgatado o carro do estacionamento ou deixado ali o tempo todo para não ter o trabalho? Na dúvida, quinze reais. Isso se repetiu na segunda vez. E ouvi história parecida de assédio sofrido por gente que esteve no mesmo restaurante dias depois.

Irregular, diria a defesa do consumidor.

Outro exemplo: minha amiga jantou no Tordesilhas, meu brasileiro preferido em São Paulo. Saiu feliz com a comida, mas terminou com um gosto amargo na boca por causa do valet. E acha que não volta. O carro demorou a ser entregue e, quando chegou, estava batido. Segundo o motorista, “um sujeito bateu no veículo e fugiu”. Ela passou por semanas de negociações, direto com o manobrista, porque o restaurante fez que não viu ou nem foi informado. O funcionário do valet  pagou o prejuízo do bolso. Pediu dinheiro emprestado para um conhecido. Uma manobra no mínimo esquisita.

Totalmente irregular. Pelo menos em São Paulo, é lei: o restaurante é responsável pelo serviço que contrata e é, no jargão, ’solidário’ em caso de danos aos carros. A profissão de manobrista não é regulamentada e muitas vezes o sujeito não ganha nem 50% do valor de um conserto.

A pedido do iG Comida, a jornalista Larissa Januário levantou junto à Proteste e ao Procon algumas informações úteis para quem vive em São Paulo e usa esse tipo de serviço.

getty images

drive my car. ou não

Oito coisas que é bom saber antes de entregar a chave para o manobrista em São Paulo:

1. mais de 90% dos acidentes dessa profissão ocorrem no trajeto entre o estabelecimento e o local do estacionamento.

2. Desde novembro de 2004, está em vigor na capital paulista uma lei que regulamenta o serviço de manobristas oferecido por estabelecimentos comerciais, os “valets”. A lei torna os estabelecimentos solidários com a empresa responsável pelo serviço de estacionamento caso ocorra algum dano no carro do cliente. Em outras palavras: restaurante e serviço de valet têm responsabilidade pelo prejuízo, se houver.

3. Parar na rua é proibido. A lei proíbe que as empresas estacionem o carro na rua. Elas precisam ter um pátio ou um estacionamento adequado. (detalhe: um decreto do prefeito Gilberto Kassab (DEM)), de abril de 2009, autoriza valets a parar veículos em postos de gasolina e terrenos vazios, entre outros locais.

4. O estabelecimento (no nosso caso, estamos falando principalmente de bar ou restaurante, mas vale para todos) deve responder pela reparação de danos ou quaisquer outros prejuízos que o consumidor venha a ter enquanto seu veículo estiver sob sua responsabilidade.

5. Todo mundo tem de exigir (e o valet é obrigado a entregar) um comprovante de estacionamento, com dados do carro, data e horário em que o automóvel foi ‘confiado’ ao manobrista e endereço do local em que o veículo fica estacionado durante a permanência do cliente no bar, restaurante ou qualquer outro tipo de estabelecimento comercial (Nota do Sem Reservas: eu nunca, nunca, nunca vi isso!).

6. O comprovante deve exibir também o nome da empresa, o número do CNPJ, modelo, marca e placa do veículo e a tal frase “A empresa prestadora dos serviços de “valet” assim como o estabelecimento são solidariamente responsáveis por quaisquer danos causados aos veículos”.

7. Se o restaurante tem esse serviço, mesmo que seja terceirizado, ele é responsável solidário. O cliente pode reclamar com o restaurante, que pode ter estacionamento próprio ou terceirizado. É importante o cliente se informar antes de estacionar. E sempre vistoriar o veículo ao recebê-lo de volta.

8. É aconselhável o cliente se informar se o carro será estacionado em local adequado, sob o risco de ser surpreendido por alguma multa. É importante também guardar o tíquete. Quem paga a multa por estacionamento irregular é o valet+restaurante. São ’solidários’ entre eles, lembra?

Obs.: as informações acima, reforço, valem para São Paulo. Trata-se de lei municipal e quem fiscaliza é a subprefeitura.

Mais: três perguntas para Syrius Lotti Junior, diretor jurídico da Associação de Valets de São Paulo e advogado especialista em valets:

Sem Reservas: Manobrista de valet é uma profissão regulamentada?
Não. O principal problema é que diferente do manobrista comum, de estacionamento fechado, o funcionário do valet tem que conduzir o veículo em via pública até o local da vaga. Nesse percurso ele está exposto a uma série de riscos. O salário médio desse profissional fica em torno de 600 a 700 reais.

Sem Reservas: Quem arca como prejuízo em caso de acidente com o carro, se ele estiver com o manobrista?
Depende da empresa em que ele trabalha. O dono tem o direito de descontar uma parcela do salário do funcionário até que se quite o prejuízo. Lógico que isso vai do bom senso do dono da empresa, porque se o funcionário causa um prejuízo de 10 000 reais não dá pra reter o salário total.  O limite é de 30% do valor do salário, normalmente.

Sem Reservas: Como costumam atuar os restaurantes?
Muitos proprietários, a fim de oferecer o serviço e de gerar uma fonte de renda extra, acabam aceitando trabalhar com empresas de valet irregulares que prometem repassar parte do dinheiro arrecadado para a casa. Mas, normalmente, empresas de valet idôneas não fazem repasse, porque têm custos com o serviço. O risco de fazer parceria com uma empresa irregular é que a maioria não faz seguro e a casa pode morrer com o prejuízo em caso de danos. A lei é categórica ao entender o bar/restaurante/casa noturna como co-reponsável pelo valet.

Notas relacionadas:

  1. A vida à mesa e seus acompanhamentos
  2. “Serviço bom pode consertar a comida”. Pode mesmo?
Autor: Viviane Zandonadi Tags:

sábado, 2 de outubro de 2010 serviço | 15:53

Você gosta de vinho. Os mosquitinhos também

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ops, tem algo estranho na minha bebida… e agora?

Uma amiga anotou no Facebook: “never saw a fly die of natural causes”. É. Eu também nunca vi uma mosca morrer de causas naturais, mas outro dia quase presenciei o suicídio de um mosquitinho.

Era miudinho, parecido com os que às vezes fazem balé ao redor das bananas na fruteira. Mas era um mosquitinho. E foi encontrado boiando, ainda vivo, em mais ou menos 100 mililitros de vinho italiano no copo da minha companheira de almoço, no restaurante.

(Que o leitor ou leitora não desista de ler por achar que vem aí um texto de causar engulhos. Não é o caso. Acho.)

A questão é: qual a atitude do restaurante em uma situação como essa?

Já conto o desfecho.

***

No dia 31 de agosto, nossa missão era saborear o nhoque de batata com molho de tomate e queijo fontina em um dos mais tradicionais restaurantes italianos de São Paulo, o Vecchio Torino. O táxi nos deixou na porta, que estava trancada à chave “por medida de segurança”, disse o funcionário. Brinquei: “para criar uma dificuldade, não é?”. No fundo, imaginei que fosse proteção para algum cliente seqüestrável, mas descartei. Devaneios da fome. Afinal, todos somos sequestráveis, em maior ou menor grau e em circunstâncias diferentes. Soube depois que a porta do Vecchio Torino costuma ficar trancada, não fui a primeira a passar por isso.

Confortavelmente instaladas, abrimos os trabalhos. Água. A casa não oferece opções de vinho em taça, então partimos para a diminuta, e cara, lista de meias garrafas. Um debate breve com o funcionário me ajudou na escolha de um tinto leve. Sem madeira. Bem longe da marcenaria, como eu gosto por enquanto.

Pedimos os pratos – além do nhoque, outra massa com o mesmo molho: tortelloni verde recheado de pato. Esperamos felizes. Era só bebericar o vinho e beliscar o couvert. Quando chegaram, percebemos que foram escolhas muito acertadas. Em termos de massa, gostamos mais do tortelloni do que do nhoque, é verdade, mas o molho com fontina estava de fato muito bom. O sugo, delicado, ganhou corpo com o queijo. Dava vontade de sorver com a colher. E foi o que fizemos. Tranquilamente finas.

Mais um brinde. Estávamos felizes, porque nossa pesquisa avançava e porque uma ida ao Vecchio Torino é, como tantas outras visitas a restaurantes bacanas, um evento. Para a maioria das pessoas, a trabalho ou não, é especial.

Foi então que aconteceu: minha amiga viu o mosquitinho. O garçom que nos observava se aproximou, levou a taça fúnebre embora e trouxe outra limpinha na qual derramou o resto de vinho que havia na garrafa. E foi falar com o chefe do salão. Nós duas com cara de paisagem pensando, esperando. Quando veio retirar os pratos, perguntou se estava tudo bem. “Tudo, exceto pelo mosquito, o senhor deve saber.”

E esperamos, de novo e em vão, um pedido de desculpas que nunca chegaria.

Ouvimos o seguinte: “É… esses mosquitinhos são fogo. Adoram vinho e acabam caindo nele.”

***

Tenho certeza que o que ocorreu foi uma fatalidade (sobretudo para o mosquito). Mas acho que não existe justificativa para a indiferença.  O leitor ou a leitora vai perguntar por que não chamamos o dono, o chef, a vigilância sanitária. Já disse, aqui, que não sou o tipo que cala quando as coisas ficam feias. Só que naquele dia preferi esperar e observar.

O garçom e o chefe do salão foram devidamente informados. É óbvio, pensei, que para uma coisa tão séria existe uma orientação, um procedimento padrão na tentativa de corrigir e não permitir que o cliente vá embora sentindo-se lesado, subestimado ou punido — ele, o cliente — por algo que não cometeu. Simples assim.

Mas que nada. Talvez esta seja a lição: quem cala consente. Ou não.

***

Já na redação, nossa reportagem entrou em contato com alguns dos mais importantes restaurantes de São Paulo e perguntou: qual é a recomendação da casa para seus funcionários se um mosquitinho, por exemplo, cair ou for encontrado na comida ou na bebida?

Falamos com DOM, Antiquarius, Due Cuochi Cucina, Maní, Varanda e o próprio Vecchio Torino.

Veja as respostas oficiais:

Antiquarius: trocar o pedido do cliente, prato ou bebida. O segundo prato ou bebida é cobrado. O que tiver problema, não

D.O.M.: trocar a comida ou a bebida. Não cobrar

Due Cuochi Cucina: trocar a comida ou a bebida. Não cobrar

Maní: trocar a comida ou a bebida. Não cobrar

Varanda: “avaliar o caso”. Se o problema for confirmado, trocar a comida ou a bebida. Não cobrar. Oferecer uma cortesia para que o cliente volte outro dia e consuma o mesmo prato ou bebida

Vecchio Torino: trocar a comida ou a bebida. O segundo prato ou bebida é cobrado. O que tiver problema, não

***

Nosso vinho foi substituído pelo que restava na garrafa, que nós pagamos. A bebida não foi trocada e não houve nenhum tipo de desconto na conta ou pedido de desculpas. Suponho que tenha existido algum problema de comunicação com a brigada, desorientada para a situação.

Para a imprensa, a informação é clara: trocar a comida ou a bebida, se for o desejo do cliente, e cobrar apenas o substituto.

Na vida real, não foi bem assim. Por que será?

(* colaborou Larissa Januário, especial para o iG Comida)

 

Notas relacionadas:

  1. As 13 coisas que mais irritam os garçons
Autor: Viviane Zandonadi Tags: ,

quarta-feira, 8 de setembro de 2010 serviço | 15:53

As 13 coisas que mais irritam os garçons

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Esta é uma delas… Do filme Harry & Sally (1989, com Meg Ryan e Billy Crystal)

Sally Albright: …e eu gostaria da torta quente. Não quero o sorvete sobre a torta, mas ao lado da torta. E em vez de sorvete de baunilha eu quero sorvete de morango, se você tiver. Se não tiver, nada de sorvete, só chantilly. E só se for verdadeiro chantilly. Se ele estiver fora da lata, não quero nada.
Garçonete: Nem a torta?
Sally Albright: Não, eu quero a torta, mas, então, sem esquentar.

***

Outra:

São Paulo, duas e meia da tarde, muito movimento e alguma espera. Dá para notar aquela tensãozinha no ar, ainda que disfarçada, por causa da Restaurant Week. É a temporada em que duas centenas de casas oferecem almoço e/ou jantar a preços promocionais e as mesas costumam ser mais disputadas.

Estamos, eu e minha amiga, de olho em um pequeno grupo: três pessoas - o pai e duas filhas – chamam mais atenção do que a animadíssima reunião das quinze senhoras da sociedade itaim-bibiense, que ocorre no mesmo salão (tá, não existe itaim-bibiense, mas é para ajudar a compor a fotografia). Todas têm as cabeleiras escovadas, os dedos cheios de anéis e passam o tempo todo a escanear umas às outras: roupas, rugas, retoques, pratos, experiências de viagens etc.

Em termos de barulho, no entanto, não tem para ninguém. O pai fala alto com as duas filhas e elas respondem à altura. Ele também grita com os garçons, reclama dos preços, da comida, do lugar, da vida, da prole, de tudo. Os namorados da mesa ao lado, que já não conseguiam arrulhar e menos ainda conversar, trocam de lugar. É tarde. Estão tomados pela nuvenzinha e passam o resto do tempo esperando a confusão acabar. Mal bebem o café, com um certo rancor, e vão embora de cabeça baixa. “Boa sorte”, diz a moça, bem baixinho, para o garçom.

Antes de partir, eles passam pela cozinha e berram com os cozinheiros. Acho até que estavam elogiando, mas parecia briga.  Saio um pouco depois com minha amiga e alcançamos a calçada a tempo de ver o pai se escorando nas filhas. Bebeu demais. Ainda conseguimos ouvir comentários baixinhos da brigada, na linha do “já vai tarde” (e antes que o leitor de olhar mais agudo aponte essa possibilidade, já digo que não acredito que o recado dos garçons tenha sido para nós, mas para “eles”. A gente se comportou).

***

Clientes que fazem zilhões de mudanças nos pratos e outros que esquecem a educação em casa estão entre as principais reclamações dos funcionários de restaurantes quando perguntados sobre o que mais os irrita no trato com as pessoas.

A pedido do iG Comida, a repórter Larissa Januário conversou com maîtres, donos, gerentes e garçons de mais de vinte lugares, alguns dos mais bacanas nas principais cidades do Brasil. Em comum, eles têm, além de boa reputação e boa comida, público de todo canto a visitar. A partir dessas entrevistas, fizemos a listinha abaixo. É para pensar antes de sair por aí na defensiva contra o serviço.

Está certo que a vida do garçom (também) não é fácil, mas faço alguns contrapontos em defesa do cliente, estão em itálico. No mais, é o bom senso de cada um.

1. Gente que chega a dez minutos do encerramento do serviço.

(o horário de fechamento das casas, muitas vezes, não é claro. A hora em que são encerrados os trabalhos na cozinha nem sempre é a mesma em que fecha o salão. A cozinha costuma parar antes. Se a peça ou o filme terminou muito tarde, é melhor ligar para o restaurante e conferir se ainda dá tempo. Evita aborrecimentos. Outra coisa: se o cliente for recebido de portas abertas, sem ressalvas e dentro do “horário regulamentar”, tem de ser bem atendido independentemente do horário. Certo?)

2. Pessoas que, mesmo chegando depois da hora marcada na reserva (e além daqueles minutinhos de tolerância), brigam por ter perdido a mesa.

3. Reclamações desproporcionais sobre o preço da comida e da bebida, depois de terminar a refeição. Os preços em geral constam do cardápio. Qual seria a surpresa?

4. Ser chamados de “amigo”, “psiu” ou “xará”. Assoviar, estalar os dedos, cutucar e puxar o avental? Melhor não.

(Muitos clientes também não gostam de ser chamados de “menina” e “garoto”, sendo, ou não, menina e garoto. Tem ainda o “meu querido” ou “minha querida”. Claro, há quem aprecie certos gracejos, mas, no geral, pode ser considerado um excesso.)

5. Frases do tipo “você não sabe com quem está falando” ou “sou amigo do dono”.

6. Clientes muito indecisos, confusos e dispersos na hora de fazer o pedido ou, ainda, que mudam de ideia quando o prato já está quase pronto.

(Admito que, às vezes, eu faço isso.)

7. Comer tudinho e só depois dizer que a comida “não estava boa” ou que o pedido veio errado.

8. Crianças descontroladas + pais relapsos = coquetel molotov. Correrias pelo salão, bagunça no banheiro e gritos são as principais reclamações.

9. Adultos descontrolados, que falam alto demais e se dirigem aos funcionários da casa com grosseria.

10. Aquele tipo que não gosta de comida oriental e faz caretas ou reclamações diante de tudo o que vê no cardápio do restaurante… japonês. Ou, ainda, quem pede inúmeras mudanças para deixar uma receita de acordo com o próprio paladar. Algo na linha “vou querer o risoto de frutos do mar sem camarão, sem mexilhão e sem lula. Com frango, pode ser?”.

11. Quando o cliente diz que o atendimento não foi bom e não paga os 10%. O argumento é que isso só prejudica o garçom, e não pune a casa pelos deslizes.

12. Pessoas que saem de casa sem um plano B para o pagamento. Se o sistema de cartões de crédito e débito estiver fora do ar, como elas vão pagar a conta?

13. Gente que faz a reserva para cinco e aparece com oito pessoas, sem avisar com antecedência.

***

Nota: o restaurante do início do texto é o Marques de Marialva/La Cocagne, onde optamos pelo menu português (alheiras vegetarianas, bacalhau assado em lascas com cebola, broa de milho e uma pastinha de azeitonas pretas). Antes, ainda, provamos alheiras tradicionais (embutido português à base de pão e carne de porco). Estavam boas, mas um tanto oleosas demais. O bacalhau foi uma ótima escolha: muito promissor ver que a casa optou por uma versão em lascas, e não desfiada, a mais comum das comuns. A sobremesa era pastel de nata, estava tristinha. Nas duas horas em que ficamos no restaurante, quase fomos induzidas a consumir mais água do que o necessário, pois o serviço é do tipo que não deixa o copo vazio e abre a garrafa antes de perguntar se o cliente quer ou não a reposição.

Música: frim fram sauce

I dont want french fried potatoes, red ripe tomatoes. I’m never satisfied… (Frim Fram Sauce, com Louis Armstrong e Ella Fitzgerald)

Autor: Viviane Zandonadi Tags: , ,

terça-feira, 31 de agosto de 2010 serviço | 13:05

“Serviço bom pode consertar a comida”. Pode mesmo?

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(Você concorda com a afirmação acima, de que o atendimento é capaz de salvar a comida? Fique à vontade para dizer o que acha nos comentários, por favor.) 

 
 
 

Juscelino Pereira. Foto: Trícia Vieira/Fotoarena

Juscelino Pereira na porta da cozinha de seu restaurante: dali para fora, o atendimento é o grande trunfo


nemvemquenaotemTRECHO

A casa está cheia e a cara do sujeito é de nem vem que não tem, como na música do Simonal (ouça um trechinho acima, se quiser). Ele avança pelo salão e vai logo abordando o dono : “Quanto tempo?”, pergunta, firme. “Não importa. Afinal, há quanto tempo estou te esperando?”, responde o outro. Em dois segundos, os dois caem na gargalhada, sendo que a do dono da casa é em 5.1. Alta, despojada e sincera. Assim, como a gargalhada do Simonal. Está tudo bem. Os clientes vão aguardar no bar.

Placar: UM para Juscelino Pereira, dono do restaurante italiano Piselli, em São Paulo, ZERO para mau humor do cliente, nocauteado por uma sonora risada.

A linha que separa os bajuladores dos naturalmente simpáticos e atenciosos pode ser tênue e deixar muita gente confusa ou, de cara, derruba a máscara de quem só quer puxar sardinha (sem trocadilhos). Não é o caso de Juscelino. Ele não é bajulador. Você vai perceber isso vendo-o falar de sua trajetória e de como gosta de (e tem talento para) agradar (a íntegra da entrevista no iG Comida). Se a pessoa quiser um copo especial, ele vai buscar. Se quiser comer carne com camarão, ele não vai deixar. E o cliente vai agradecer por isso.

Enquanto costurava a conversa que gravei com Juscelino, outro dia, lá no Piselli, pensei que quando a pessoa trabalha direto com o público simplesmente não pode dar uma de Clint Eastwood em Grand Torino. E isso de fato é um dom. Não quero espantar meus leitores…, mas a verdade é que eu não tenho esse talento tão raro para me relacionar, a paciência, a presença de espírito. Sou mais Clint do que Juscelino, mas prefiro encontrar Juscelinos nos restaurantes em que eu vou.

Para o simpático Juscelino, no entanto, a conquista do cliente é quase um jogo. Enquanto não ganhar a confiança, não tiver certeza de que fez a coisa certa para a pessoa ir embora com a barriga cheia e o coração feliz, ele não sossega. Bom para quem for atendido por ele.

Saquei da entrevista sete frases para pensar.

“Eu gosto de atender, servir. Gosto de gente, gosto de me relacionar.”

“A gente forma clientela tratando todo mundo com carinho, tentando guardar o nome da pessoa e o que ela gosta de comer e beber. Dando atenção.”

“O que os clientes gostam é de sinceridade. Mostrar que eu quero que fiquem bem sem gastar além do necessário, sem empurrar coisas.”

“Tem gente que, mesmo com treinamento, não consegue. Não é culpa da pessoa. É falta de talento para essa atividade.”

“Eu não tenho aqui uma estrutura muito profissional de serviço, como outros restaurantes têm, com formação técnica, excelência mesmo. Falo de pessoas perfeitas na postura, na classe, no jeito de tirar e por o talher, trocar o prato etc. É um balé perfeito e bonito de se movimentar. Mas o meu lado é mais emocional.”

“O serviço não pode ser relaxado, o cara não pode esquecer de trazer as coisas, não pode demorar. Tem de ter eficiência, mas a chave está em ser personalizado.”

“Já ouvi cliente dizer que valoriza mais o serviço do que a comida. Se o serviço for personalizado, gentil, bom mesmo, ele é capaz de consertar a comida.”

***

Nota1: no livro A Fisiologia do Gosto, um dos mais citados quando se fala de história da comida, o pioneiro da crítica gastronômica Jean Anthelme Brillat-Savarin (1755-1826) anota em seus aforismos o seguinte: “convidar alguém significa ocupar-se de sua felicidade durante todo o tempo.” E não é?

Nota2: uma coisa que me conforta em alguns sábados à tarde – só alguns, afinal eles não são todos iguais – é saber que sempre haverá um restaurante que funciona sem intervalos, para a gente “almojantar”. O Piselli é assim, um dos meus preferidos. Mas é um lugar caro, não dá para recorrer a ele com freqüência. Assim, com uma outra proposta, mais acessível, tem o Lellis Tratoria da Alameda Campinas. Também em São Paulo. Se você for do signo da carne, sugiro pedir o Oswaldo Aranha – são quatro filés altos e bem suculentos, mais a misencene da casa para incorporar ao suco dos medalhões o arroz, a farofa bem temperada e as batatas crocantes. Peça também um ovo frito para acompanhar, se for do seu agrado.

Notas relacionadas:

  1. A vida à mesa e seus acompanhamentos
Autor: Viviane Zandonadi Tags:

segunda-feira, 30 de agosto de 2010 serviço | 17:07

A vida à mesa e seus acompanhamentos

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Cheguei outro dia na porta de um restaurante e, ainda na calçada, o manobrista se recusou a pegar a chave do carro. Me fez um sinal para esperar e gritou para o colega na porta da casa, a alguns metros dali. “Tem espera, fulano?”. O fulano fez mímica. O manobrista me olhou: “Uma hora e meia. Não adianta eu levar seu carro, né?” “Leva sim”, falei. “Se tiver um bar, vou esperar”. Era minha primeira vez no italiano Tre Bicchieri (Itaim, Zona Oeste de São Paulo), um dos lugares mais disputados na cidade atualmente, e eu não estava com pressa. A gritaria na porta do restaurante era dispensável.

Entendo: em um esforço para evitar cara feia por não ter sido avisada da espera, o rapaz quis se adiantar. Mas ele berrou. Eu ficaria até embaraçada se a mesma cena não tivesse acontecido várias vezes em outros dias, em outros lugares. Costumo dizer que manobrista às vezes dá uma de firewall. Cria um filtro.

Lidar com gente – o manobrista comigo, e eu com ele, por exemplo – não é fácil. Eu sei disso na pele, porque antes de ser jornalista fui sócia da minha irmã em uma locadora de filmes. Era muito legal, porque eu assistia tudo “de graça”. Teoricamente, ali todo mundo entrava feliz para alugar um pouco de diversão. Mas a gente enfrentava cada coisa… Com meu temperamento não deu lá muito certo. Resolvi escrever.

Enfim, atire o primeiro garfo quem não tem uma história de restaurante. Minha família é famosa pela linhagem de encrencas – não as procuramos, mas somos procurados, que se há de fazer? Nada muito grave, mas temos um radar para filas de espera com movimentações duvidosas, carne fora do ponto, mesas esquecidas no salão, cafés frios e contas que nunca chegam.

Recentemente, no português Bacalhoeiro, no Tatuapé (na zona leste de São Paulo), quase usei meu celular para ligar para a recepção e avisar que a gente queria mais uma água, o café e a conta, tamanho o tempo que passamos ali, às vezes com a mão levantada, sem que ninguém socorresse. A comida é ótima e a casa tem uma brigada esforçada, mas naquele domingo eles estavam atrapalhados entre as belas praças do salão. Como nossa mesa era reservada, ficava em um cantinho mais tranquilo, pagamos o preço. Outra noite, no contemporâneo Dui, que fica nos Jardins, sempre tinha um garçom por perto. Foi quase como jantar a três. Trocávamos cinco palavrinhas e… au revoir privacidade. Lá estava um deles com um sorriso amarelo, a se desculpar e indagar o próximo passo. Isso causa uma certa ansiedade e dá a impressão que querem se livrar de você. Um engano.

Sem Reservas

Catherine-Zetta Jones, a chef Kate: um bife cru para se vingar de um cliente mal criado

Tragicomédia

Quando era pequena, lá em São Bernardo do Campo, a gente comia fora de casa uma vez por semana (e olhe lá). Era no almoço de domingo, na casa da avó. Só nesse dia era permitido tomar refrigerante. Eu lambia os dedos ao saborear uma deliciosa coxa de frango assado. Com pele, lógico. Ir ao restaurante era caro e raro – e não por eu ser uma pequena selvagem que comia com as mãos e tinha de ser afastada da sociedade, mas por ser um passeio reservado a ocasiões especiais. Na tradicional rota do frango com polenta, aquela dos salões gigantes, só íamos por motivo de festa: formatura da escola, batizado, casamento. Naquele tempo, era comum a gente se botar bem bonito para jantar ou almoçar fora. Com a melhor roupa.

Nos últimos anos, por prazer e também atrás de material de trabalho, passei a sair para comer praticamente todos os dias na hora do almoço e bem umas três ou quatro noites por semana. Minha mesa preferida ainda é a da casa da mãe, que faz o melhor tudo que eu quiser. Depois, vem o restaurante. Cozinhar é a última opção por pura falta de talento, exceto para algumas coisas que a modéstia não permite exibir.

Nessa rotina, simpatizamos com o garçom mais esforçado, e ficamos inconformados com o arrogante, o afetado ou o preguiçoso. A gente cria um repertório de observação que chega a ser engraçado, e começa a antecipar problemas: o espumante em taça atravessa o salão, já servido, e chega à mesa meio triste, sem bolinhas. Não é culpa da distância. A suspeita é a garrafa, que deve ser da véspera. Tem de trocar, abrir outra. Nem todo lugar é amistoso com o pedido, que é legítimo. Não é frescura. Espumante sem borbulha é espumante morto.

É a tragicomédia da vida à mesa. Meus amigos e parentes já (quase) se acostumaram. Em troca, defendo-os sempre que posso. E tento não embaraçá-los nem criar situações que provoquem a ira da brigada: a atriz Catherine-Zetta Jones, no filme Sem Reservas (EUA, 2007), finca o garfo com um bife cru na mesa de um cliente mal criado. Bem, eu não cheguei a esse ponto. Nem dela nem dele.

Se perguntar o que me mais irrita, para falar de uma coisa só, é a falta de atenção. Não que eu seja muito carente, mas se estiver falando com o garçom e ele ficar com aquele ar de finge-que-escuta enquanto os olhos e o pescoço agitam para outras bandas, meu nível de paciência começa a cair. Fatalmente o sujeito não entenderá o que eu disse e terá de perguntar de novo ou anotará errado e trará gelo e limão para acompanhar minha água com gás. Aquela que sempre, sempre, sempre bebo pura – o gelo derrete, vira água lisa e estraga o prazer das bolinhas.

O desassossego aumenta se a falta de atenção for com meu pai e/ou minha mãe. Vira coisa de família e me tomo por eles. Quem viu a série de tevê Ally McBeal vai lembrar das alucinações em que a advogada interpretada por Calista Flockhart ficava furiosa e imaginava engolir a cabeça de quem a tirava do sério. É mais ou menos assim que fico (em pensamento, lógico).

Este blog, no entanto, que piloto enquanto editora do iG Comida, vai dar umas dentadas nessa convivência de cliente e restaurante. O serviço, aqui, receberá atenção especial. E o comportamento de quem frequenta os lugares também. Não vai ser o único assunto, porque teremos coisas de comer e beber, música, cinema e livros relacionados à gastronomia. E, como vou atender você, fique por favor à vontade para fazer seus pedidos, críticas e sugestões. Eu não mordo.

P.S. quem acompanhava meus boletins em rede nacional sobre viagem e comida na rádio CBN, apresentados junto com o Carlos Alberto Sardenberg, lembra que a gente sempre abria os trabalhos com uma música. Vou tentar retomar a rotina. Hoje, é uma canção italiana engraçadinha chamada Via Con Me, interpretada por Paolo Conte e que faz parte da trilha sonora do filme Sem Reservas, cujo nome inspirou livremente o marido de uma grande amiga a batizar o blog. (A canção também está na trilha da novela Passione, mas, nesse caso, é pura coincidência)

ViaConMeTRECHO

Autor: Viviane Zandonadi Tags: