Palmas para a lula à provençal (e o dia em que fomos aplaudidos ao sair do restaurante)
Chegando à mesa tenra e perfumada, servida na chapa e produzindo breves estalos, a lula provençal do restaurante paulistano AK Vila, da chef Andrea Kaufmann (ex Delicatessen), foi o melhor prato do último lugar que visitei antes da minha filha Catarina nascer – ela chegou no dia 10 de maio e exigiu que a lula ficasse na gaveta até que a gente estivesse mais entrosadas (eu e a Cata e não eu e a lula).
Agora, feliz e alimentado, o bebê dorme. Eu escrevo: aplausos para a lula. A receita está lá embaixo.
Bom, a Provence, no sul da França, é o lugar mais lindo em que já estive. Abre parêntese: quando no Luberon, haja o que houver, hospede-se no Les Roullets e vá ao Le Vivier. Isso e as travessias de carro pela região já valem metade da viagem. E não se atrapalhe com os horários, para não perder o almoço, pois quando o francês diz que a função termina às 14h, significa que não adianta chegar cinco para as duas e esperar ser atendido. A cozinha já terá encerrado e a porta será fechada na sua cara. Prometo.
É um lugar para onde quero voltar mil vezes (a Provence), mas, por ora, só faço esse passeio na imaginação, nos livros e, claro, no aroma de um prato bom como a lula provençal do AK Vila. Vale anotar aí que é esperado que praticamente toda receita à moda – ou que carrega ‘provençal’ no nome – seja banhada por uma carga de azeite e alho (mais sobre na reportagem “Um toque de Provence”). Fecha parêntese.
O novo AK ocupa na Vila Madalena um imóvel com jeito de galpão e que pertence à família da chef. Minha expedição para atacar a lula e outras atrações contou com a barriga, o pai e os padrinhos da mesma. Foram eles que alguns anos antes nos apresentaram os predicados culinários da Andrea na judaica AK Delicatessen, em Higienópolis — colada ao cemitério da Consolação, na Rua Mato Grosso. Naquela tarde, lembro, tudo acabou em um inesquecível pain perdu, a rabanada francesa servida em ramequin e que mudou junto com a chef para o novo endereço (oba).
Na Vila, pois, a expectativa era muita. A turma lamentava o fechamento da casa mais antiga, mas estava animada com a nova – ambiente menos charmoso, culinária mais variada. Cozinha jóia. Ficamos superbem e, com água, suco, espumante – porque a gente celebra, claro – e café, a conta não chegou a 80 reais por pessoa em um bem servido almoço de sábado. Não é barato, sabemos, mas é promissor, considerando que é Vila Madalena e é São Paulo – eita cidade metida a besta de tão cara para comer…
Nossas escolhas tinham o jeitão da casa: simples e gostosas, pedidas para compartilhar. Sardinha marinada (saiu do cardápio, pena), costelinhas grelhadas com melaço e laranja (para se lambuzar sem nenhuma culpa), lula à provençal (um pulinho na Provence) e os famosos raviólis de batata judaicos, os varenikes tradicionais (em maio, foram substituídos pelos de mandioquinha, o que não deixa de ser boa notícia, pois todos os varenikes da Andrea valem a mordida).
Quando liguei para conversar sobre a casa, ela contou que as receitas são todas feitas com produtos frescos do dia, comfort food, como se convencionou chamar o que comove nosso coraçãozinho passando antes pelo estômago.
A chef vai desenhando o cardápio com a inspiração e, também, respondendo à repercussão que os pratos obtiveram entre os clientes. A intervenção do público, aliás, é capaz de acabar com a carreira de alguns ingredientes. A sardinha, por exemplo, pela qual me apaixonei e até pedi receita, infelizmente foi deletada. “Esse peixe ainda sofre muito preconceito. É uma receita da minha mãe e uma das preferidas da minha filha, mas acabei tirando do menu”, explicou Andrea.
O AK é um lugar para ir com o namorado, a namorada, a mulher, o marido e os amigos e passar muito bem. Sem frescura, bom uso da grelha e delicada mistura de cozinhas várias com a culinária judaica, mas sem ficar preocupada demais com geografia. O serviço no dia da visita esteve bastante atrapalhado e em algumas situações despreparado (ou desinteressado?) até para descrever pratos do cardápio. Mas vai melhorar – ou já melhorou. Vou voltar para ver.
Lá embaixo, a Andrea Kaufmann compartilha duas receitas preferidas daquela tarde. A lula e a sardinha.
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Nota (sobre o atendimento): imagina se ao visitar um restaurante você é recebido com uma salva de palmas. Legal. Constrangedor, talvez. Mas, por mais vaidoso que o sujeito seja, se as palmas vierem no finzinho da refeição, quando ele afasta a cadeira preparando-se para ir embora…, é esquisito. Seu maior pecado foi ser parte da última mesa. Foi assim que eu e meus amigos deixamos o AK Vila, depois do ótimo almoço no comecinho de maio. “Já vão tarde”, diziam as palmas vindas do staff que batia papo perto da porta da cozinha.
Tá certo que a gente se comportou bem, não exagerou no álcool, não disse verdades inconvenientes, não bagunçou e pagou a conta direitinho. Mas nem por isso precisa aplaudir, certo?
Enfim, quem fica tímido com esse tipo de reação da brigada (!) deve consultar o relógio antes de esticar a conversa e pedir mais um cafezinho. No mais, aproveite a visita. Sim, para quem conheceu, o serviço do AK Delicatessen era mais afinado, mas pelo jeito é raro isso em São Paulo hoje. Tá difícil encontrar quem consiga equacionar com sucesso comida e atendimento. Mas a gente continua procurando. E pagando para ver.
Era sábado de tarde, alguns minutos depois das quatro, quando começa o intervalo para reabrir no jantar — em SP, pelo menos, dá para fazer uma lista enxuta e confortante de estabelecimentos que ficam abertos sem parar do almoço ao jantar aos sábados. Piselli entre os caros. Lellis – e seu Oswaldo Aranha inesquecível - entre os mais baratos.
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Receitas
Lula provençal
Rendimento: 1
Tempo de preparo: 10 minutos
Chef: Andrea Kaufmann
Ingredientes:
170g de lulas pequenas inteiras, limpas, sem a pele
3 dentes de alho
2 col de sopa de salsa
azeite, sal, pimenta
Modo de preparo:
Tempere as lulas com azeite e sal. Passe-as pela grelha de carvão por dois minutos de cada lado.
Numa frigideira, refogue o alho no azeite, coloque as lulas, já grelhadas, e saltei-as para que peguem o sabor. Depois acrescente a salsa picada.
Sirva numa chapa aquecida, com uma fatia de limão siciliano.
Sardinha Marinada
Rendimento: 20 porções
Tempo de pré-preparo: 5 dias
Tempo de preparo: 15 minutos
Chef: Andrea Kaufmann
Ingredientes:
3kg de sardinha espalmada, sem cabeça e espinhas
150ml de água filtrada
100ml de vinagre de vinho branco
2 folhas de louro
10 grãos de pimenta do reino (preta e branca)
15ml de creme de leite
2 cebolas cortadas em rodelas finas
Sal marinho
Modo de Preparo:
Numa vasilha feita de material não reagente (vidro ou inox, por exemplo), disponha camadas de sardinha com camadas de cebola e vá salpicando sal em cada um dos peixes.
À parte, faça uma marinada com a água, o vinagre, o louro e as pimentas. Jogue sobre as sardinhas, tampe a vasilha e deixe marinar por 5 dias.
Ao servir, misture separadamente o creme de leite fresco com uma colher do líquido da marinada.
Sirva a sardinha, com as cebolas e o creme de leite.
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