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terça-feira, 30 de novembro de 2010 livro, viagem e comida | 11:57

500 viagens gastronômicas (sem sair do lugar)

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surreal: auto-retrato de rené magritte. de quantos braços você precisa para saborear todos os seus desejos?

surreal: auto-retrato de rené magritte. de quantos braços você precisa para saborear todos os seus desejos?

Afundada em livros e quase sem poder sair de casa, escapei para a livraria atrás de um presente para meu irmão mais novo. Viro algumas páginas de Dr. House – Um Guia para a Vida (Toni de La Torre, Ed. Leya Brasil) e me convenço:  fininho e divertido “ensina” a levar a vida na filosofia do dr. House, aquele docinho do seriado.

Já que estou aqui, aproveito para comprar um presente para mim. A matemática costuma ser uma mistura de autoindulgência com crime e castigo. Ou seja: primeiro, eu mereço. Depois, me entendo com o cartão de crédito. Opto pela biografia de Paul Newman: ator, lindo, fã de uísque e empresário do mundo dos alimentos orgânicos (Paul Newman, Uma Vida, de Shawn Levy, é do selo Agir).

Então, quando tudo parecia resolvido e eu já planejava o cardápio para me jogar no sofá com o Paul (o livro), ganho um presente de verdade. E fico muito dividida.

Viagens Gastronômicas: 500 Lugares Extraordinários para Comer no Mundo Todo, livro produzido pela National Geographic, acaba de ganhar a segunda edição brasileira. Penso que já devia ter isso sobre a minha mesa de trabalho há algum tempo. Tsc, tsc. Não ia caber naquela bagunça. Além disso, seria tão distrativo que iria atrapalhar a produtividade – tento me consolar, de um jeito meio torto, e em vão.

Com prefácio de Nina Horta e fotos escandalosas, Viagens… é uma dessas listas de referência para brincar de marcar tudo o que você já comeu (ou quer comer), consultar, questionar, concordar, se espantar, programar a próxima viagem e saber quando e onde buscar o ingrediente perfeito.

Qual é a época do caranguejo-peludo em Xangai, na costa da China? Está lá, na página 79 do capítulo Delícias Sazonais: é o outono.

“Se você planeja viajar em setembro ou outubro e quer comer nos melhores restaurantes de Xangai, é preciso reservar com antecedência, principalmente para um banquete completo. Tenha cuidado com caranguejos com o selo de Yangcheng Lake, a melhor fonte, pois os selos costumam ser falsos. Se você se concentrar nos restaurantes mais respeitados (…), de frente para o mar ou em hotéis cinco estrelas, desfrutará o prazer da escolha certa. Evite os caranguejos ditos selvagens: por causa da poluição, a maioria é cultivada e caranguejos genuinamente selvagens são tão raros que podem custar cinco vezes o preço do cultivados.”

Aliás, outono, minha estação preferida em qualquer hemisfério, é também a campeã da sazonalidade gastronômica. Abóboras, maçãs, cogumelos, festival vegetariano na Tailândia, slow food em Turim, colheita de uva na borgonha, caça às trufas… Mas também a primavera e o verão guardam suas particularidades. Morangos, por exemplo, são os “reis do verão pelas estradas de Kent, na ponta sudeste da Inglaterra”.

morangos: os reis do verão inglês nas estradas do Kent

morangos: os reis do verão inglês nas estradas do Kent

As melhores comidas de rua no Brasil, na Jamaica, em Bangcoc? Veja as fotos, as descrições e as dicas para ficar longe de indisposições estomacais.

Todos os capítulos são pontuados por listas chamadas de “Os dez mais”. Em Comidas de Rua, por exemplo, foram eleitos os festivais de comidas e bebidas raras mais legais do mundo. Entre eles, a porcalhada, a chocolatada e a festa dos queijos. Todos na França.

Sabia que no segundo fim de semana de março, e durante quatro dias, ocorre em Sweetwater, no Texas, o Rodeio de Cascavéis? Pois sim. Inclui demonstrações de manuseio, um concurso com pratos à base de cascavel e outro para ver quem consegue comer mais (!). “As barraquinhas vendem carne de cobra frita, que lembra frango no sabor e jacaré na textura, além de derivados de serpente.”

Taí, bom livro para você se dar de presente no Natal, para distrair seu cunhado ou cunhada mais querido. Essas coisas. E se, como eu, deixou passar a primeira edição, não fique triste. Se jogue na segunda, revisada e atualizada, e vá viajar de verdade, na cabeça ou no sofá.

Notas relacionadas:

  1. Três razões para ler (ou não) o segundo livro de Julie Powell
  2. Dicas úteis para uma vida fútil
Autor: Viviane Zandonadi Tags:

sábado, 11 de setembro de 2010 livro | 10:08

Dicas úteis para uma vida fútil

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“Ele tinha grande experiência com médicos e dizia que “o único jeito de ter saúde é comer o que não quer, beber o que não gosta e fazer o que detesta!”

(Dicas Úteis para uma Vida Fútil, de Mark Twain)

Dicas Úteis para uma Vida Fútil

um manual para a maldita raça humana

Este NÃO é um texto a respeito de um lançamento da literatura gastronômica, com a história de algum chef ou um monte de receitas.

O caso é outro.

Em um sábado qualquer, topei com Dicas Úteis para uma Vida Fútil – Um Manual para a Maldita Raça Humana, de Mark Twain (1835-1910). Pois o livreiro que organizou (ou bagunçou) as prateleiras da loja naquele dia acertou. Percorri os olhos por algumas páginas e comprei. E foi um dos melhores investimentos que fiz nos últimos tempos.

O livro só é novo para quem, como eu, nunca tinha visto. Publicado há alguns anos pelo selo Relume Dumará, é desses para se jogar no sofá e ler de uma vez, se o tempo permitir. Dando risada.

Mark Twain é o pseudônimo de Samuel Clemens, que foi um dos mais importantes escritores norte-americanos do século 19. Um ícone de bom humor, inteligência e caneta (acho que pena é o termo mais adequado). Todos afiados. O homem que gostava de usar ternos brancos foi também autor de romances como As Aventuras de Huckleberry Finn.

Dicas Úteis é um livro cheio de opiniões sobre as coisas da vida. Qualquer coisa. Viagem, educação das crianças… Estilo.

“A roupa faz o homem. Povos que andam nus têm pouca ou nenhuma influência na sociedade”, dizia Twain no aforismo colado ao capítulo que trata de moda — e dá para notar na foto da capa que ele é todo jeitoso para se vestir.

Naquele tempo sem internet e mensagens em tempo real, os temas do momento eram construídos assim, por pensadores como Twain que saíam pelo mundo atrás de histórias ou as encontravam na sala de almoço de casa, no quintal ou no banheiro enquanto faziam a barba. Em um monte de textos e cartas pessoais e trechos de romances, o autor saca do cotidiano situações banais, como a conversa de duas mulheres ao telefone (“por que, afinal, elas falam tão alto?”), e nelas injeta uma baita dose de humor e ironia. São raciocínios inspirados e conclusões sobre tudo.

O recado é: levar a vida muito a sério só desgasta além do inevitável. Então, divirta-se um bom tanto.

Mas o que isso tem a ver com comida, vida à mesa ou ao redor dela? O capítulo 3, A Mesa Americana, tem tudo a ver. E o capítulo 5, Saúde e Alimentação, também tem.

Um pouco antes de alcançar o relato sobre um “jantar inesquecível”, leio que em 1878 a família Clemens viajou para a Europa, porque  Mark Twain estava fazendo pesquisa de campo para escrever Um Mendigo no Estrangeiro, que seria publicado dali uns dois anos. A mulher e as crianças acompanharam o autor em seis meses de expedição “e compras”.

No trecho de Comida Americana Versus Comida Européia, ele compara os cafés da manhã nos dois continentes:

“O tipo mais comum e mais simples de café da manhã do americano médio consiste de café e bife, mas na Europa o café é uma bebida desconhecida. Você pode conseguir o que o dono do café europeu acha que é café, tão parecido com o autêntico quanto hipocrisia parece com santidade. É uma coisa fraca, sem gosto e sem graça, quase imbebível, como se tivesse sido preparada num hotel americano. O leite usado para acompanhar o café é o que os franceses chamam de leite “cristão”, ou seja, foi batizado com água”

(…)

“E vem o bife. Na Europa há bife, mas não sabem como cozinhá-lo. Tampouco como cortá-lo. O bife vem à mesa no meio de um pequeno prato de estanho redondo, cercado de batatas imersas em gordura (…). É um pouco passado demais, seco e tem gosto de nada.

Imagine um pobre exilado contemplando essa coisa inerte e um anjo de repente chega de uma terra melhor e coloca à frente dele um poderoso assado de cervejaria, de cinco centimetros de altura, crepitando na assadeira, temperado com perfumada pimenta em pó e acrescido de pedacinhos de manteiga derretidos, bem fresca e autêntica. Os preciosos sucos da carne escorrem e entram no molho, que é rodeado por um arquipélago de cogumelos; um ou dois pedaços de tenra e amarela gordura formam um distrito nesse abundante condado de bife (…)”

Segue uma lista de comidas que Mark Twain sugere a todo norte-americano carregar consigo em viagem à Europa, por questão de sobrevivência diante da “insípida” comida local. E conclui: “Suponho que os estrangeiros não apreciam a nossa comida mais do que nós a deles. Não é de estranhar, pois o paladar se forma, não se nasce com ele.”

Lembrei da minha irmã que acaba de voltar de uma dessas viagens com crianças aos Estados Unidos e seus parques temáticos. Exceto quando conseguiam escapar da rotina de férias para comer em um restaurante brasileiro ou cozinhar na casa alugada, foram dias de malabarismos para se adaptar a refeições gordas e cafés da manhã untuosos. A tal ponto que minha sobrinha, de um ano e meio e paladar em formação, um belo dia acorda e pede: “mãe, quero arroz”. É, senhor Mark Twain, há comidas e comidas.

Fico imaginando se o senhor apreciaria nossa média com pão na chapa, deliciosamente apressadinha, logo de manhã. E se gostaria de saborear um café fresquinho, escoltado por bolo caseirinho de laranja, enquanto percorre as páginas do livro. Como estou fazendo agora, rindo das suas fanfarronas narrativas e imaginando o que vem por aí neste fim de semana. E o que vou almoçar. E jantar.

Notas relacionadas:

  1. Três razões para ler (ou não) o segundo livro de Julie Powell
Autor: Viviane Zandonadi Tags: ,

quinta-feira, 2 de setembro de 2010 livro | 12:08

Três razões para ler (ou não) o segundo livro de Julie Powell

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Destrinchando, de Julie Powell

Casamento, carne e obsessão (!). Editora Record, 52 reais. Tradução de Alice França

Enquanto viro as últimas páginas de Destrinchando: uma História de Casamento, Carne e Obsessão, da mesma autora do supervendido Julie & Julia, penso o óbvio: o segundo livro da americana Julie Powell é uma road trip por açougues em vários lugares do mundo. Isso é legal. O leitor a acompanha pela viagem que faz sozinha nos arredores de Nova York, Buenos Aires, Kiev (na Ucrânia), Tanzânia (na África) etc. Também é uma road trip sobre a vida sentimental de Julie.

Depois de mudar de vida ao executar as receitas da Ofélia americana Julia Child, ela está em crise. Ainda casada com Eric, se apaixona por um homem chamado Damian que, segundo ela, “é somente quem ele consegue ser”. As coisas ficam enroladas e Julie resolve ser açougueira. Na estratégia de divulgação do livro, foi replicada uma comparação feita pela autora: “os açougueiros provocam em algumas mulheres o mesmo fetiche dos bombeiros.”  Hein? Confesso que caí. E fui ler e procurar que provocação seria essa…

Claro que não foi o único motivo, livros sobre comida me interessam porque trabalho com isso e porque gosto. De todo modo, Destrinchando talvez desse um bom roteiro. É uma tragédia romântica. Com isso, não conto o fim da história. Quem ler verá.

Até consigo imaginar a doce atriz Amy Adams (de Julie & Julia) outra vez no papel principal, embora eu tenha lido que ela se afeiçoa mais aos papéis de puritana do que de garota travessa. Julie não é exatamente puritana. No fundo, quer ser “francesa” e liberal, mas aparentemente é só mais uma mulher como muitas, cheia de conflitos, autocentrada e do tipo que expõe publicamente suas intimidades, sem muito pudor. Não é francesa. Já no epílogo, talvez esteja sentindo uma certa antipatia por ela. Mas, na realidade, isso não importa.

Três razões para ler (e talvez sejam, para muita gente, razões para NÃO ler) Destrinchando

1. por causa da narrativa sobre os bastidores dos açougues e do trabalho dos açougueiros. Tirando os excessos, as descrições do movimento das facas, do que se passa na cabeça na hora do corte, do desafio de descolar um pedaço de carne do osso com um cronômetro na cabeça, fazem pensar na atividade artesanal e quase extinta como um ofício de arte. É preciso concentração e sensibilidade e não só habilidade quase sobrenatural com as facas. Não é para vegetarianos.

2. pelas receitas. Chouriço, costelas, rosbife, bochecha, salsichão e outras paradas. Ao fim de um ou outro capítulo, para refletir (ou esquecer) o que foi lido, Julie sugere o preparo de um prato bem carnívoro. Como naquele efeito provocado por muitos filmes — sempre saio do cinema com fome — fiquei previsivelmente faminta. Só dispensaria o frango.

3. por pura curiosidade: saber como essa americana excessivamente preocupada com o que pensam dela (e carente da aprovação alheia) vai se sair ao jogar-se sozinha no mundo dos açougueiros.

A música que escolhi (Mixed Emotions, na voz de Dinah Washington) é autoexplicativa: Mixed Emotions

***

Nota1: copiei um trecho da página 13, não compromete a leitura e ajuda a entender o jeito de Julie misturar seus dramas pessoais com as experiências na cozinha. Aqui, depois de refletir sobre seu futuro-ex-atual-marido (ainda não sei), ela fala sobre fatiar o fígado do boi:

“(…)Desde o começo éramos como peças de um quebra-cabeça que se integram. Desde o começo alimentamos a ideia de que as nossas vidas deveriam ser irrevogavelmente entrelaçadas em uma só.

Agora eu corto oito belas fatias de fígado vermelho-escuro. A carne exala um cheiro forte metálico no ar, e ainda mais sangue sobre a tábua. Mudando de faca, retiro delicadamente os dutos pálidos apertados que se criam nas fatias. O fígado perfeitamente preparado deve ficar crocante na superfície e macio por dentro. Nada duro ou difícil de mastigar deve destruir aquela quintessência sensual. Seis destas fatias vão para a prateleira de vidro e aço brihante na frente da loja; as duas últimas eu separei, para embrulhar e levar para casa depois do trabalho, para o jantar do Dia dos Namorados. Antigamente, eu pensava que essa data consistia em caixas de bombom e cartões purpurinados, mas nesses últimos anos de revelação, entre o trabalho de açougueiro e angústias, decidi que a vida se tornou complicada demais para essas coisas doces e sem sentido (…).

Nota2: lembrei do açougue do Seu Nogueira, lá no bairro Assunção, em São Bernardo. Para a alegria geral, minha mãe comprava toda semana uma lingüiça artesanal feita de carne de boi. Era tenra e salgadinha na medida. Eu não tinha a menor paciência para esperar esfriar e concluir o preparo – ela seria frita, entraria em algum molho ou somaria um pouco mais de felicidade ao caldo do feijão. Antes do desfecho, bastava ferver e eu, que orbitava ao redor do fogão, já surrupiava uma delas, jogava na tábua e logo estava estourando a pele do gomo e devorando um pedaço ainda úmido. Mudamos de casa e no novo bairro não tinha um açougue igual. Página virada.

Autor: Viviane Zandonadi Tags: