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sábado, 16 de julho de 2011 comida | 22:10

Josi e o bolinho de arroz da minha mãe

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Não suporto arroz requentado. Só gosto feito na hora. Fresca, sim, mas não perdulária. Na semana passada, nessa de fazer todo dia uma ou duas medidas, sobrou um tanto e não tinha cabimento jogar fora. Foi assim que tracei uma meia dúzia de bolinhos de arroz: dourados, quentinhos, bem temperados, sequinhos por fora e supermacios e saborosos por dentro. (Quase) iguais aos feitos pela minha mãe a vida toda.

Estou na fase de pouca rua e muita comida caseira. Desejo tresloucado e constante por bolo de chocolate e vontades variadas de outros acepipes, como o tal bolinho. Só que para ter direito a guloseimas, é preciso cultivar uma razoável sequência de refeições saudáveis, lanchinhos, sucos, frutas etc.  O bom é que amamentar além de abrir o apetite queima calorias à beça: a gente come o dia inteiro. Anyway, cada um resolve as demandas da cozinha como pode, mas uma Josi em casa, nessas horas, ajuda muito.

Explico: não fiz os bolinhos (mãe de RN não tem tempo para quase nada. Esta carta, por exemplo, escrevo em etapas. Nunca em uma teclada só), quem fez foi a Josi. Depois de algumas semanas de caos, consegui contratar essa moça para trabalhar aqui em casa. Josilene na carteira de trabalho, a baiana já na entrevista avisou que gosta de cozinhar – achei ótimo.

(Esses bolinhos da foto são bem parecidos com os da mãe e os feitos pela Josi, só que mais formatados. Uso-os para fazer o leitor parar um pouco e respirar antes de percorrer todos os parágrafos. A imagem foi feita pela Tricia Vieira da Fotoarena no restaurante Ritz, em São Paulo. A receita deles é bem querida. Não fotografei os meus…, mas acredite na minha palavra. Comi tudo antes de pensar nisso.)

bolinho de arroz do Ritz

bolinho de arroz do Ritz

A cozinha agora é da Josi. Ligou o forno, aqueceu a casa, tomou conta. É um pouco estranho, claro. Eu que sempre gostei de almojanta, de passar tempo sozinha e conversar comigo alimentando meus silêncios, agora como na hora certa e tropeço o tempo todo nessa moça e em suas perguntas e afirmações do tipo “abobrinha em rodelas ou cubinhos?”; “posso ralar a cenoura?”; “compra leite de coco?, vou fazer moqueca. Não esquece da farinha para o pirão!”; “ah, não gosto dessa batedeira cheia de frescura, não…”

(esta última me fere, pois gastei uma grana na tal batedeira vermelha, linda. E o bolo de iogurte que ela fez no aparelho desandou. O de chocolate, bateu na mão. Quase desmanchou de tão leve e fofo… humpf)

Touquinha na cabeça, raciocínio rápido para avaliar a geladeira, me entrevistar e elaborar o cardápio do dia, ela gerencia tudo. Faz do armário uma despensa de verdade, vai à feira e estabelece uma rotina de temperos, aromas e variações. De certa forma, ela e a Catarina, meu bebê, mandam em mim. Ambas exigem que eu faça escolhas, tome decisões rápidas, faça compras (…). A moça, em troca, me entrega casa arrumada e boa comida. Já a menininha… transforma a minha vida.

Pois nesta semana pedi para a Josi fazer o bolinho. Antes da licença maternidade, nunca comia fritura em casa (só na rua, no bar, no restaurante). Em São Paulo, pastel do bar Balcão, coxinha da Ofner, polenta da Fábrica de Massas da Beth, bolinhos do tipo arancini do Genesio (o bar, não o meu pai). Camarão, isca de peixe e bolinho de bacalhau naquelas temporadas no Recife e em Fortaleza. Essas coisas. Sempre fritas.

Nem lembro quando comprei óleo pela última vez e deixei vencer quase sem usar. Em contrapartida, adoro o som da fritura. Barulhinho bom, aliás, é também aquele da frigideira sendo lavada. Por outra pessoa.

Muito bem, comprei o óleo e a Josi me olhou com cara de paisagem: “nunca fiz bolinho de arroz, mas hoje em dia com receita a gente faz tudo, dona Catarina. Pega na internet.” — sim, ela me chama de senhora e ainda confude o meu nome com o da minha filha porque “combina mais”. Já desisti de corrigir. Tá, Josi, mas quero o bolinho da minha mãe. (…)

Ligo para a dona Maria Amélia, que faz tudo no olho, como fazia a minha avó. No pirex, coloca o arroz cozido (não precisa ser fresquinho, por isso é uma boa para aproveitar o que sobrou). Tempera com alho, cebola, salsinha, cebolinha. Quebra um ovo (só um, para até umas duas xícaras de arroz) para dar liga. Mistura. Vai ‘um pingo’ de leite. Corrige o sal, se precisar, e acerta o ponto com farinha de trigo. Como no caso do bolinho de chuva, o de arroz tem de pingar bem lindo da colher no óleo quente, como uma grande gota. Sem desmanchar. Retira o excesso com toalha de papel e pronto. Manda bala.

Se fosse uma “receita da internet”, como diz a Josi, tudo bem. Mas ela pareceu especialmente pressionada e desafiada por ser o bolinho “da minha mãe”, um bolinho sem medidas. Ficou quieta, concentrada, falou sozinha. Eu me fiz de invisível, para não atrapalhar. Entre resmungos, ouvia a massa crispar na gordura… Pinga um, pinga outro. Frita, frita.

Pronto. Um a um, enfileirados e perfeitamente disformes, dourados. Sequinhos por fora, macios por dentro. Gostosos. Comi um atrás do outro e a moça ficou toda faceira quando viu uma fila ser completamente esvaziada.

A verdade é que não tem bolinho igual ao da minha mãe em nenhuma mesa de bar. A vida é assim mesmo. Mas o da Josi chegou bem, bem perto. Quando a gente se conheceu, ela disse que tá “construindo” na cidade dela, perto de Porto Seguro, e que vai juntar dinheiro para terminar, voltar e trabalhar em algum restaurante por lá. Bom, depois do bolinho, do charutinho de repolho, do bife acebolado, do camarão ensopadinho com chuchu, do feijão gordo, do ragu de músculo, do lagarto assado, dos bolos, das sopas e das saladas… penso que é melhor ela abrir o próprio restaurante.

Mas que espere a Catarina ir para a faculdade. Me apeguei.

Veja também: três receitas de bolinho de arroz

Autor: Viviane Zandonadi Tags: ,

14 comentários | Comentar

  1. 14 eliana 18/08/2011 14:39

    olhe se a Josi, tiver uma irmã… nossa essa comilança toda me deu água na boca e uma fome pois é tudo de bom ……

    Responder
  2. 13 Deta 19/07/2011 23:13

    Entrega em PoA?

    Responder
    • Viviane Zandonadi 19/07/2011 23:19

      não, mas com a receita você resolve!

  3. 12 Clarissa 19/07/2011 19:19

    Vivi, me empresta a Josi?

    Responder
    • Viviane Zandonadi 19/07/2011 20:43

      menina… você iria gostar. Hoje almoçamos saladinha variada, picadinho de filé, farofa com bacon, feijãozinho fresco, arroz, banana. De tarde teve bolo de cenoura com uma cobertura de chocolate amargo (açucaramos, sabe, para agradar nosso paladar infantil). Enfim, minha caríssima, não consigo. Já vou dormir pensando no cardápio de amanhã. Estou apegada de fato.

  4. 11 Júnior Milério 19/07/2011 12:37

    E eu que adoro uma fritura. Meu Deus do céu! A Josi faz pra vender? :-)

    Responder
    • Viviane Zandonadi 19/07/2011 18:24

      favor não perturbar a josi com frilas, que estamos cheias de tarefa em casa, viu? bjs

  5. 10 nana 19/07/2011 8:18

    Fofa, Vivi! Saudades de ti e feliz de ver que está bem.
    Beijo e parabéns!

    Responder
    • Viviane Zandonadi 19/07/2011 11:14

      Nana, também estou com saudades. Vou mandar foto da Catarina para você. Ela é fofa e você vai se divertir. Obrigada e tudo de bom. Um beijo!

  6. 9 Fernando Gallo 17/07/2011 22:02

    Eu já disse que quero escrever que nem você quando crescer?
    Saudade, querida.
    Um beijo.

    Responder
    • Viviane Zandonadi 18/07/2011 9:37

      sempre um lord. beijo.

  7. 8 francisco carlos marrocos 17/07/2011 13:30

    Viviane Zandonadi, você fala pelos cotovelos mas o faz bem tem jeito pra escritora e, também , é uma mulher resolvida, agora quanto aos bolinhos de arroz gostaria de uma explicação no seguinte sentido; repita para um homem que se aventura a pilotar um fogão essa receita acima, detalhe: o que significa “…acertar o ponto com farinha de trigo…” ?. Um abraço.

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    • Viviane Zandonadi 17/07/2011 14:20

      Oi, Francisco. Bom, essa receita não tem medidas exatas, objetivas. É feita mesmo “no olho” do cozinheiro. Pensa assim: ao pegar a massa com uma colher de sobremesa ou de sopa (isso depende do tamanho dos bolinhos que quer fazer), ela tem de estar cremosa, mas não pode ser nem líquida nem compacta (muito firme). Tem de escorregar da colher toda junta, como se fosse uma gota. Pinga uma por uma no óleo quente e observa: elas se encrespam mas não desmancham. Como nuvens, cada uma fica de um jeito, com um formaro diferente. É uma característica desse bolinho. Bom. Falei demais outra vez! Veja se funciona :) abraços e obrigada, Viviane

  8. 7 Julio R. Neto 17/07/2011 13:21

    Quem roubou o bolinho que tava no meu prato???????

    Responder
  9. 6 luciane 17/07/2011 13:14

    BOLINHO DE ARROZ,NÃO É IGUAL DA MINHA MÃE.

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  10. 5 Maria Amélia Alves Pereira 17/07/2011 13:06

    Normalmente receitas caseiras fazem um bem, hummmm!!! É por essas e outras que têm muita gente na nossa sociedade que passa fome, tendo as vezes sobras de alimentos e não sabem como utilizá-las e acabam jogando fora. O Brasil é um dos países que mais desperdiça alimentos. Vamos divulgar e socializar com os menos favorecidos para que a fome seja extirpada do nosso país. Bolinho de arroz que delícia !!!!!!!! Parabéns a quem teve a idéia de preparar a receita e divulgar.

    um abraço,

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