E eu me achava malandra
Vocês não vão acreditar, mas eu, a jornalista, a carioca, a malandra, a que sabe tudo, a descolada, a que ensina as pessoas da casa a ficarem espertas, acabo de cair no trote do sequestro relâmpago. Neste exato momento, minha reputação está descendo pelo ralo, mas pelo menos é só a reputação, poderiam ser também os nervos e o dinheiro.
Pois estava no computador quando o telefone fixo tocou e ouvi a musiquinha da ligação a cobrar. Na mesma hora pensei nas pessoas que trabalham na minha casa e às vezes ligam da rua. Nem tive tempo de perguntar quem era quando ouvi ‘fui assaltada, fui assaltada’, numa voz fina e chorosa. Não pensei duas vezes e gritei: ‘Cristiane, onde você está?’. Uma besta, não? Cris é a babá da Maria, que estava passando mal e imediatamente achei que ela tinha ido à rua, farmácia, sei lá. Bem, a criatura chorava e repetia: ‘fui assaltada, botaram arma na minha cara, quatro homens, estou com medo…’ E eu, certa de que era ela e já tremendo, berrava: ‘diz onde você está, Cris, que vou te buscar agora’. ‘Estou perto do carro deles, eles querem dinheiro, eu não tenho’. Nesse momento, ao mesmo tempo em que a infeliz do outro lado da linha me avisava que o bandido ia falar comigo, ao meu lado, meu caseiro, tranquilamente, fala: ‘mas a Cris não estava no quarto?’.
Aí a ficha dessa anta que vos escreve caiu e quando o imbecil começou a gritar ‘se fizer alguma gracinha vou estourar a cara da Cristiane’, a própria já estava na minha frente e pude ouvir o resto com tranquilidade. ‘Não brinca, não, que nós vamos tocar o terror, é o bonde do complexo’. Então perguntei onde eles estavam, ouvi que o ‘bonde do complexo’ estava em Niterói e foi nesse momento que falei palavrões impublicáveis mas deliciosos para o cretino, que desligou quando eu disse que a cara dele é que seria estourada pela polícia.
Tá certo que eu ainda tremi uns 10 minutos e depois ri de mim mesma. Só lamento não ter tido sangue frio para tentar levar a conversa adiante e, quem sabe, botar a polícia no circuito. Ah, sim, e como todas as outras vítimas, meu depoimento de besta quadrada é: ‘mas a voz era igualzinha, juro’. Era só o que me faltava.


