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23/12/2009 - 08:59

Se comentarista de economia vivesse com salário mínimo, o mundo seria melhor

Defendo plenamente o direito dos colegas de profissão de falarem abobrinha para seu leitor, ouvinte, telespectador. Também defendo o direito dessa abobrinha ser contestada em público e o colega questionado sobre sua competência com números ou sua cara-de-pau. Liberdade de expressão deve servir para os dois lados da questão, caso contrário entramos no campo do monopólio da verdade (se é que verdade existe), almejada por tantos.

Quando chegamos na época do ano em que se discute o tamanho do aumento do salário mínimo, alguns comentaristas quase têm um ataque cardíaco. Dá para perceber o suadouro de muitos deles, implorando para que o governo e os congressistas sejam “racionais”, que não criem um problema inflacionário, não empurrem as pobres empresas para a demissão de seus empregados e para a adoção da informalidade e não aumentem o “rombo” nas contas públicas por conta da Previdência. Hoje, ouvi uma pérola da boca de um deles, um famoso, dizendo que a Constituição Federal está errada porque, em seu artigo sétimo, prevê que o salário mínimo deve ser de tamanho suficiente para garantir alimentação, saúde, educação, lazer, moradia…, ou seja, garantir dignidade. Para isso, todos sabemos, o valor teria que ser bem maior que os R$ 510,00 que estão sendo previstos para 2010, ultrapassaria os R$ 2 mil segundo o Dieese. Errada, segundo ele, porque isso provocaria um caos só comparável a uma hecatombe maia.

Isso, desconsiderando, é claro, que se as empresas não sonegassem impostos previdenciários ou, na melhor das hipóteses, não empurrassem seus débitos com o INSS com a barriga, haveria mais recursos para cobrir o “rombo” nas contas públicas. Coloco sempre essa palavra entre aspas porque ela tem que ser entendida de outra forma. Previdência não é para dar lucro ou mesmo empatar, não é banco, apesar do desejo de muitos. Deve cumprir uma função social e ser um instrumento para garantia da qualidade de vida de um povo. Só para lembrar que, antes do Bolsa Família, a aposentadoria rural era o maior programa de distribuição de renda do país, garantindo a subsistência de milhões de família no campo. E, ainda hoje, tem uma importância ímpar – a despeito de tantos comentaristas que debatem a “utilidade” dessa política.

Enche-se a boca para falar dos bilhões a serem gastos a mais com o mínimo, uma preocupação frente à queda de arrecadação. Fingem que ignoram que isso vai impulsionar o consumo de milhões de famílias, rodar a economia em locais pobres e, sobretudo, tornar a vida de uma parcela da população menos sofrida. Mas quando os bilhões são aqueles destinados ao perdão de dívidas de grandes produtores agrícolas ou na rolagem de dívidas industriais, reina o silêncio. Ou pior, o apoio deslavado.

A Constituição não está errada, o país é que está. Há estudos que apontam que o PIB brasileiro comportaria um aumento até maior do mínimo, desde que houvesse uma distribuição real de renda, de direitos e de justiça. Ou seja, redução da desigualdade. Alguns perderiam para muitos ganharem. Da taxação de heranças seguindo um modelo americano ou europeu, passando pela cobrança de altos impostos sobre grandes fortunas, pelo aumento no imposto de renda de quem ganha bastante, até a reforma para um Estado que garanta “Justiça fiscal”, considerando que, proporcionalmente, os muito ricos não pagam imposto no Brasil, há muito o que se poderia fazer.

Poderia, porque isso está no campo da ficção científica. Tão difícil quanto ver um comentarista de economia conservador que viva com salário mínimo e, portanto, entenda o que é passar necessidade.

Autor: sakamoto - Categoria(s): Sem categoria Tags:

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20 comentários para “Se comentarista de economia vivesse com salário mínimo, o mundo seria melhor”

  1. [...] This post was mentioned on Twitter by João Sérgio, Leonardo Sakamoto. Leonardo Sakamoto said: Se comentarista de economia vivesse com salário mínimo, o mundo seria um lugar melhor: http://is.gd/5yxEE [...]

  2. Diogo F disse:

    Jesus, raras vezes vi tanto populismo num texto tão curto. Você sabe alguma coisa de Economia, filho? Se não souber tá perdoado por essas muletas de jornalista leigo tipo “rodar a economia”. Doutor em Ciência Política…

    A pergunta permanece: se a CF está certa com seu salário mínimo, de onde sai o dinheiro? Vc vai pagar?

    • Roberto Venceslau disse:

      Caro Diogo,

      Ele está certo, quem tem mais dinheiro deve pagar. Voce deve ter faltado nas aulas de economia da sua faculdade quando estas tratavam de distribuição de renda. Aliás, falando de forma simples e direta, o Sakamoto mostra que entende bastante de economia. E é um humanista, se é que você entende a palavra.

      Posso te passar uma bibliografia básica se você não souber onde procurar. Procure também sobre justiça distributivista – a idéia tange essa discussão e é deveras pertinente.

      Abraços,

      Roberto

    • Amanda Vieira disse:

      Colega, é uma questão de prioridade: a economia deve trabalhar para as pessoas. Se um economista não é capaz de criar/gerir sistemas que tenham em sua base as boas condições de vida para todas as pessoas, então ele não é um bom economista. Experiemente estudar taxação de grandes fortunas, imposto progressivo, etc. Coloque seu cérebro pra funcionar e veja que há inúmeras possibilidades de respostas para as sua brilhante pergunta. Volte sempre e não desista das boas perguntas!

    • joselito disse:

      “de onde sai o dinheiro? Vc vai pagar?”

      O assunto é outro, mas a lógica é a mesma:
      http://classemediawayoflife.blogspot.com/2009/05/dica-011-ser-contra-o-bolsa-familia.html

      “Um dos grandes absurdos deste país, para a Classe Média, é essa história de o Governo Federal ajudar pobre. Você, aspirante a médio-classista, precisa aprender a se revoltar contra isso.”

    • Fabiano disse:

      Cornetar é facílimo para quem nunca passou o mês com um mínimo e vive sentado nos livros da faculdade. Levanta a bunda da cadeira, vá conhecer o mundo e a realidade da classe miserável brasileira, que conta moedas na palma da mão para comprar pão e leite. Dane-se que o dinheiro sairá da classe média, não ligo de pagar mais imposto, de suar 1 mês a mais no ano para trocar de carro, dane-se tudo isso. 10 reais a mais comprará chinelos para a família inteira desse povo, que só não mastiga terra porque não tem dente.

  3. Hugo Meira disse:

    O texto está muito bom, alguns conservadores vão querer te chamar de populista e outros de que você não é realista.

    Quanto a constituição federal, temos que ver a norma como mais uma obra literária do poder legislativo que deve passar séculos sem cumprimento ou talvez nunca seja cumprido.

    Digo mais, talvez se 1/3 da CF fosse cumprida o Brasil seria um país de primeiro mundo.

  4. Giorgio Dal Molin disse:

    Leonardo,

    Como jornalista e cidadão não quero dizer nada além de: parabéns pelo pensamento. Sincero, humano, consciente e direto.

    Abraços,
    Giorgio.

  5. Cebola disse:

    Parabéns… assino embaixo. Acho que somos almas gêmeas (sem viadagem:-). Achava um absurdo o Covas dizer que terminava o ano com dinheiro em caixa. Os acionistas do estado somos nós, e o lucro tem de estar nas ruas, não no banco. Creio que vc vai concordar com minha mensagem de natal em meu blog…

  6. João Carlos disse:

    Sakamoto, assisti comentário semelhante de economista famoso ontem no Jornal da Globo. Porém, repulsa maior me foi provocada pelo comentário inicial do apresentador ao dizer que o salário mínimo no Brasil é algo muito “emocional”. Meu Deus, em que realidade vivem essas pessoas?

  7. Se este comentarista acha que a Constituição está errada em seu art. 5º (quando fala sobre o salário mínimo), espere ele chegar ao art. 153 (lá pelo inciso VII) e encontrar o Imposto sobre Grandes Fortunas (mencionado no texto).

    Por algum motivo desconhecido o Congresso Nacional nunca pensou em votar uma lei que regulasse este imposto. Quando o orçamento está apertado, fala-se em aumentar o IR, criar tributos como a CPMF, o COFINS, mas ninguém nunca pensou em colocar em prática este imposto que, ao contrário do COFINS, é constitucional!

    Deve ser pq a Constituição está errada mesmo…

  8. O Diogo F já entrou em frenesi só com o fato de um texto ser elucidativo e conter as palavras “povo” e “dinheiro” juntas. Despertou seus instintos mais paranóicos quando leu “Salário Mínimo”, o horror para os grandes economistas, como ele deve ser. Entretanto, nada poderia se esperar de alguém que associa humanismo ao populismo.

    Sakamoto, parabéns! Texto irretocável!

  9. daniel disse:

    “salário mínimo”. E o máximo? Porque só pagam o mínimo? e, ainda só pagam o mínimo por causa briga feia dos nobres trabalhadores na época de Getulio Vargas ( me corrigam se estou errado) essa não é minha área, mas afeta a todos nós.

  10. Ulisses Adirt disse:

    Lindo texto. Lindíssimo.

    Muito obrigado.

    Se eu não fosse contra correntes de e-mails, mandava para metade dos chatos q ficam me mandando pedras sobre a política brasileira.

  11. Diogo F disse:

    Não sou nem economista, mas, ao contrário de todo mundo aqui [pelo que vejo], já gastei o meu traseiro na cadeira estudando a respeito. ROBERTO VENCESLAU: estou curioso pra saber qual é a bibliografia que vc vai me indicar pra dizer que salário mínimo distribui renda.

    Distribui sim; sabe de quem? Dos desempregados pros empregados. Te parece justo?

    Quanto aos demais, ok, todos batalhadores do meu Brasil, que trabalham de sol a sol como pedreiros, lixeiros, posso imaginar… Vão pegar um livro pra ler, cambada de papagaios de pirata.

  12. Hans Lauxen disse:

    .O salário minimo no Brasil vai ser de R$ 469,20 (esqueceram os 8% do papai governo?)
    O empregador paga mais 28,5% de previdencia que dá R$ l45,35 e mais 8% de FGTS que dá R$ 40,80, somando dá 186,15 só para o patrão fora o tal salário mínimo.
    Porque não dar logo logo R$ 696,00 ao trabalhador que aí sim estaria injetando algum valor razoável na economia do país.
    E a nossa “esquerda” acha que a CLT é imexível como diz o Magri do Collor.
    E caso o Sakamoto conheça alguem que sonegou Imposto Previdenciário como afirma na reportagem denuncie ele ao Ministério Público que isso no Brasil é apropriação indébita. Calar é ser conivente, viu?

  13. Hohoho ... sem roubo! disse:

    Hohoho …

    Venho pedir desculpas por JAMAIS reler meus comentários, o q me faz escrever coisas q vao do hilário ao absurdo, inclusive porq meus teclados nao “falam” portugues (e eu escrevo mal mesmo).

    Enfim …

    Hohoho …

    FELIZ NATAL a todos do cyber boteco aqí, c/ alegrias e harmonia.

    Inté,
    Murilo

    Ps.: e vamo votar na Dilma, senao a merda piora.

  14. Adir Tavares disse:

    Acho que vai chover!

  15. BEM na hora seu comentario, e digo mais não precisamos de economistas para poder opinar sobre economia.
    Tivemos um sociologo, economista e presidente
    Tivemos um operario, presidente
    Agora me digam quem mostrou mais resultados a longo prazo, com distribuiçao de renda, ém claro que o SALARIO É MINIMO…mas é culpa dele ou cvai ser dela.
    Portanto, Sakamoto, pertinente sua pergunta, e resposta fica na boco desse bando luxurios do PODER.
    Tem Mazelas, ha se tem mas é preciso ter os pes no chão para saber o OBJETIVO FINAL.

  16. Alessandro disse:

    O Nassif é que está certo qdo chama economistas de visão curta de “cabeças de planilha” (CP). O q podemos fazer se alguns optam pela idiotia ou pelo puro cinismo ?

    As idéias do genial Keynes pairam por aí há tempos e a ficha ainda não caiu para a trupe dos CPs.

    Dois pontos para reflexão:

    1) As contas da Previdência nunca são realmente discutidas com propriedade na grande mídia. Os CPs querem porque querem que a conta feche mesmo qdo os gastos da Previdência incluem assistência social. CPs, por definição, assistência social levará a deficit. Matemática de padaria …

    2) IR progressivo: esta é a chave. A elite gananciosa se pela de medo à breve menção a esta expressão.

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