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03/11/2009 - 23:17

Meio intelectual, meio de esquerda, meio anacrônico

A convenção sobre o clima em Copenhague está se aproximando, mas o Brasil ainda não tem uma proposta consistente. Não vou entrar nesse debate – mais uma vez – mas abordar um outro tema. Cansei de ouvir intelectuais de esquerda que dizem militar por uma sociedade mais justa e humana fazendo coro com setores políticos e econômicos ao pedir que o meio ambiente não seja um entrave para o crescimento. Que se cuide do planeta, adapte-se modelos de desenvolvimento, mas que o “progresso” não seja alterado.

Fazem contas para mostrar que a vida de algumas centenas de famílias camponesas, ribeirinhas, quilombolas ou indígenas não pode se sobrepujar sobre o “interesse nacional”. Defendem a energia nuclear como panacéia. Taxam de “sabotagem sob influência estrangeira” a atuação de movimentos e entidades sérias que atuam para que o “progresso” não trague o país. Já ouvi esse discurso antes. Mas achei que ele estava enterrado junto com a ditadura militar. Certas coisas nunca morrem, só trocam de farda.

Valeria a pena pararem para refletir e perceber que o que chamam de “interesse nacional” é, na verdade, o interesse de poucos. Como a implantação de usinas hidrelétricas em regiões de mineração para abastecer a siderurgia de exportação. Antes de pensar em escala macroeconômica, é importante ver o que vai acontecer na realidade da população. E os casos que temos visto não são nada bons.

Recomendo a leitura do Relatório de Impacto Ambiental desses projetos. Há centenas de críticas à implantação da obra, prova-se que as consequências à população e ao meio serão imensas, que no longo prazo os empregos gerados não acompanharão o desemprego movido pelas desapropriações de terras. E, no final, vem a conclusão cara-de-pau recomendando o projeto apenas com uma meia dúzia de sugestões para minimizar o impacto. E com um passivo ambiental que não atrapalha ninguém.

Este post não é para defender ONGs, bem pelo contrário. Tem um monte de organizações que agem de forma bizarra, ajudando grandes empresas a ocupar a planície amazônica de forma inconsequente. Mas para perguntar: por que uma turma inteligente e esclarecida acha que o capital do Centro-Sul brasileiro pilhar a Amazônia e o Cerrado é muito diferente do Centro mundial pilhar a Periferia? Os resultados são iguais e a história está aí para mostrar as tragédias causadas quando quem detinha o poder e disse representar a maioria subjugou as minorias.

Sendo que, no Brasil, o que acontece com uma minoria em um vilarejo da Amazônia repete-se metonimicamente por todo o território. O problema é igual, mudam apenas os atores.

O desenvolvimento em curso na Amazônia privilegia apenas uma camada pequena da população. Os lucros advindos da implantação de grandes empreendimentos permanece concentrado na mão de poucos, enquanto o prejuízo é dividido por todos. Vale lembrar o exemplo de municípios como Coari (AM) e São Francisco do Conde, no Recôncavo Baiano, ricos em royalties do petróleo e derivados, mas com baixo índice de desenvolvimento humano.

Esse pragmatismo exacerbado, de que são necessários perder os peões para se ganhar uma partida de xadrez, é muito triste. Ainda mais quando vêm de pessoas que, desde a ditadura, lutam pela liberdade e a efetivação dos direitos.

Autor: sakamoto - Categoria(s): Sem categoria Tags:

14 comentários para “Meio intelectual, meio de esquerda, meio anacrônico”

  1. Raul disse:

    O mundo vai para o buraco. E vamos todos junto com ele.

  2. Ciro Lauschner disse:

    Se de um lado existe o pensamento de que tem que haver desenvolvimento a qualquer preço de outro lado existe a idéia de que deve haver as estagnação a qualquer preço.
    O argumento de que construir hidroelétrica só traria prejuizos é errôneo e desprovido de qualquer lógica, o mesmo acontecia anos atras quando da construção de Itaipu, onde se dizia a boca pequena (pleno periodo da ditadura) que haveria mudança de condição climática, fim de espécies de animais etc.etc., e o que se viu não foi nada disso.
    O argumento de que o progresso beneficia poucos é outro argumento sem nexo. Esquece-se aí que o governo é sócio majoritário de todos os empreendimentos nacionais com uma carga altíssima de impostos (só perdemos para Suecia e Noruega).
    Quanto as ONGS da Amazonia elas são financiadas sim, não há uma única ONG que trabalhe com voluntários, todos são pagos e isso por si só gera interesses de quem paga.
    Quanto ao lucro ficar na mão de poucos e os pobres seguirem pobres, com certeza não seria mantendo o cerrado e Amazonia intocáveis que esses pobres seriam menos pobres, mas sim fazer investimento maciço na educação e na qualificação técnica dessa população.
    Um planejamento estratégico de desenvolvimento do pais a longo prazo, porque a principal pobreza é a pobreza do ser, , da iniciativa, do saber, da falta de visão em aproveitar
    as oportunidades.
    Sei que a esquerda acha que isso é ser “reaça” mas não é a toa que nenhum regime de esquerda proporcionou ou proporciona algo melhor para a humanidade.

  3. A grande questão é quando se vai falar dessas coisas fica unilateral, esquerda ou direita, é muito complicado, partir para o dialogo é que todos fogem, por que se preocupam em alfinetar uns aos outros, não quero fazer dicurso anacronico e saudosista, como vamos é para pata o buraco, tem gente parece torcendo para isso, se não faz que nem advogado, fica sem assunto…é triste

  4. Patrick disse:

    Caro Sakamoto, você tem acesso a esses Relatórios de Impacto Ambiental? Poderi publicá-los aqui no blogue?

  5. Paulo Fonseca disse:

    Ótimo texto!

  6. Cristiane S Carvalho disse:

    ai ai… o tempo passa e as idéias somente se afundam cada vez mais…

    “O argumento de que o progresso beneficia poucos é outro argumento sem nexo.

    é mesmo! aí está a realidade do mundo gritando em nossos ouvidos todos os dias como o desenvolvimento tem beneficiado a todos indistintamente!!!!! Só não vê quem não quer.

    ” Esquece-se aí que o governo é sócio majoritário de todos os empreendimentos nacionais com uma carga altíssima de impostos (só perdemos para Suecia e Noruega).”

    A diferença entre o Brasil e a Noruega (pequena, mto pequena é claro…) é que lá existe o retorno dos impostos em benefícios para a população. O errado não é cobrar impostos, e sim, não utilizá-los da maneira correta.

  7. Ciro Lauschner disse:

    Sra. Cristiane:
    Sei que voce tem argumentos mais inteligentes do que esses expostos ai acima.Invista na formação educacional e técnica do povo que a distribuição de renda será consequencia.
    Tem muia gente “preocupada” com a pobreza, mas o fato é que ela é muito necessaria para a grande maioria para que se ataque as raízes dela.

    • Aroeira disse:

      Em matéria de confusão o senhor produz em quantidade, Seu Ciro. Favor reescrever para que se entenda o que o senhor pretendeu mesmo dizer. Obrigado.

    • Aroeira disse:

      Em tempo : Refiro-me à sua resposta para a Sra. Cristiane.

  8. [...] This post was mentioned on Twitter by Elisângela, Felipe Tebet. Felipe Tebet said: Meio intelectual, meio de esquerda, meio anacrônico – http://migre.me/aFwr -"Certas coisas nunca morrem, só trocam de farda" #BlogDoSakamoto [...]

  9. Ciro Lauschner disse:

    Aroeira :
    Solta do meu pé que minha mulher já ta com ciume.

  10. monik disse:

    MST = MOVIMENTO DE SAQUEADORES TERRORISTAS
    LULLA = 171 + 51
    FHC = THC

  11. Ismar Curi disse:

    Caro Sakamoto
    Há uns quinze dias atrás estive num congresso internacional de arquitetura da paisagem que realizou no Rio de Janeiro e pude assitir a exposição de uma engenheira do Ministério do Meio Ambiente que esclareceu bastante sobre essa posição que o Brasil vai levar a Copenhangue. Ela começou mostrando que existe consenso sobre o aquecimento global provocado pelas emissões de gases carbonoequivalentes (existe uma diversidade de substâncias além do carbono). Bom, se existe a certeza científica do aquecimento, já não se pode dizer o mesmo dos efeitos desse aquecimento, não se sabe exatamente oque vai acontecer, – por incrível que possa parecer, mas, em alguns lugares a situação pode até melhorar climaticamente, ninguém sabe exatamente. Voltanto as metas, o caso é que se pensa num máximo de aumento de temperatura média ao longo do tempo, em acerca de + 2° centígrados até 2100, desse modo, globalmente a regressão deve supor que até 2050 não será permitido que as emissões antropogênicas (lembrar que a própria natureza, vulcões, etc podem também provocar emissões) gases carbonoequivalentes superem a marca de 480 ppm (partes por milhão) na atmosfera. Então vamos ao Brasil, relacionado globalmente: nas condições mencionadas acima, existe ainda um bom espaço para emissões por parte dos países em desenvolvimento, diferente do caso dos já desenvolvidos. Especificamente em relação ao Brasil, é possível dizer que estamos bem confortáveis, nossa matriz energéitca é de baixo carbono, em relação à da Inglaterra, por exemplo, que queima o próprio carvão se quiser sobreviver no inverno, e essa é mais ou menos a realidade de todos os países de clima temperado – suas matrizes são de alto carbono, daí, que eles têm que trabalhar muito para viver lá, ou mudar para cá, é uma escolha deles. Outra coisa importante, para gente diminuir nossas emissões, na verdade é bem fácil, basta fiscalizar e eliminar queimadas, que ainda é a nossa maior fonte, que tal? Sem meias palavras o Brasil é o país do século XXI e tá acabado, chegou a nossa vez, o gigante adormecido, acordou. Mas, peraí, ninguém é bobinho, sem fiscalização de metas babau, rapídinho a gente se perde no meio da fumaça carbonizada do clima…

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