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07/07/2009 - 23:44

Desmatamento: um “eu te disse” não é suficiente

Uma das expressões mais irritantes é a arrogante “Eu te avisei…” Funciona como uma bigorna lançada sobre quem já está no fundo do poço, esperando uma corda ou uma palavra de consolo. Igualmente chatas são as suas variações como “Eu te disse? Não te disse?”, “Tentei de avisar, mas você não quis me ouvir”, “Não disse?…” e, a cereja do bolo: “Eu já sabia!”.

Ou seja, não pega bem falar que um monte de gente avisa, há anos, empresas e fazendas que agridem o meio ambiente, superexploram trabalhadores e afetam comunidades tradicionais que elas seriam e serão, mais cedo ou mais tarde, julgadas pelo mercado, por consumidores e pela sociedade civil por sua danosa ação – passiva ou ativa, direta ou indireta. De usinas de cana a frigoríficos, há grupos econômicos que começam a se sentir incomodados pela (ainda tímida, diga-se de passagem) reação social a quem progresso a qualquer custo.

Também não pega bem dar exemplos, não. Falar que o Grupo Bertin foi largamente avisado dos problemas que teria ao comprar unidades frigoríficas no Pará, que possuem entre os fornecedores fazendeiros cobertos até o pescoço de passivos ambientais, sociais e trabalhistas – isso sem contar os que ocuparam terras públicas ilegalmente. Foi para lá mesmo assim.

Muito menos é aconselhável falar “Eu te disse” para grupos com capital internacional que começaram a investir em etanol no Brasil e foram alertados para o fato de que seguir a legislação trabalhista era fundamental para não ter dores de cabeça. Alguns deles, como a Brenco, ignoraram os alertas, não se preocupando com a observância aos direitos fundamentais, e acabaram nas páginas de jornais do país e do exterior, acusados de usar mão-de-obra escrava.

Por isso, acho que também não é o caso de avisar ao JBS/Friboi, a maior indústria de carnes do mundo, que ele pode ter mais problemas futuros por arrendar unidades do frigorífico Quatro Marcos, empresa com longo histórico de desrespeito ao meio ambiente e aos trabalhadores. A aquisição aumentará em 5,5 mil cabeças de gado/dia a capacidade de abate do Friboi, levando-a impressionantes 26 mil/dia.

Além do Quatro Marcos ter sistematicamente comprado gado de empregadores que figuravam na “lista suja” do trabalho escravo e que haviam cometido crime ambiental, unidades de abate da empresa apresentaram graves problemas ambientais e trabalhistas – houve até morte no chão de fábrica por falta de equipamento de proteção individual. A unidade localizada em Juara, no bioma amazônico, por exemplo, teve suas atividades embargadas pelo Ibama no ano passado por operar sem licença ambiental. O frigorífico foi acionado pelo Ministério Público por descartar os resíduos orgânicos de forma irregular e sem tratamento em áreas de preservação. É um passivo e tanto para se corrigir.

Vale lembrar que o Friboi já tem seus próprios problemas para resolver, uma vez que possui forte presença no Mato Grosso, porta de entrada da Amazônia, e que pesquisas mostraram que sua cadeia de fornecedores conta com fazendeiros que desmataram ilegalmente a floresta. Ou alguém acha que o Pará é o único Estado em que há péssimos índices sociais e ambientais relacionados à atividade da pecuária bovina? E que é o único estado com Ministério Público Federal?

Grandes empresas do setor agropecuário deveriam, neste momento, estar analisando mudanças profundas em seus negócios, criando instrumentos de controle, rastreamento e transparência mais eficazes, caminhando no sentido da sustentabilidade. Às vezes, é melhor parar e refletir, mesmo que isso signifique queda dos lucros em um primeiro momento ou não cumprimento de metas de crescimento, para avançar de uma forma mais segura.

Falar tudo isso pode parecer arrogante, eu sei. Mas é melhor falar agora do que usar um insuficiente “eu te disse” no futuro.

Autor: sakamoto - Categoria(s): Sem categoria Tags:

50 comentários para “Desmatamento: um “eu te disse” não é suficiente”

  1. argo disse:

    Não vai adiantar de nada. A sanha destruidora do capitalismo resiste a qualquer coisa. Eles só são afetados num órgão: o próprio bolso. Multas nesses miseráveis!

  2. Mário disse:

    Sakamoto, gostei do texto e concordo com você. As empresas não levam certas coisas em consideração e depois dançam…

  3. luciana lopes disse:

    Oi Sakamoto
    È triste saber que o agronegócio é responsável pro 25 % do PIB do país, segundo da revista exame
    Para um pais que presenciou e sentiu o revés do desenvolvimento a qualquer custo que culminou nessa crise que vivemos – e que pretende fazer uma nova cartilha de desenvolvimento – é deplorável que sejamos o celeiro sujo do mundo.

  4. Marcus disse:

    Infelizmente não só as empresas mas também politicos ignorantes que colocam a politica em detrimento dos problemas ambientais. Até que ponto quem destroi as florestas, fauna e flora, NÃO PODE SER CONSIDERADO COMO BANDIDO. Quem nos dias de hoje está alheio a este problema não pertence a espécie humana.

  5. CLAUDIO - Curto e Grosso disse:

    Tem muito engenheiro de obras feitas na rede. Gostaria de conhecer o que falaram antes dessa situação explodir.

  6. Milena disse:

    Sou uma simples funcionária de uma das empresas do Grupo Bertin, e a vontade que dá é de sair dela por causa desses acontecimentos, não posso mudar a realidade deles, nem muito menos mudar a idéia de a cada ano devemos crescer mais, produzir mais e destruir mais.
    E este é só um grupo dentre tantos outros

  7. Luiz disse:

    O povo (as massas) deveriam ter parado de chorar a morte do MJ, ter tirado o Sarney do Senado a efeito de exemplo para tantos outros corruptos que acreditam na impunidade.
    E no seu dia a dia como consumidores poderiam boicotar produtos de tais empresas, eu tento, mas admito que mtas vezes falta informação.

  8. Andrea disse:

    Ainda é intrigante (e triste) ver como os indivíduos são esperançosos e ingênuos em achar que ALGO contundente será feito para corrigir as atrocidades ambientais dos humanos na Terra.

    Acordem desse sonho de Poliana. Nada será feito, pois as conseqüências sempre incidem sobre os menos favorecidos – os “mais” PAGAM para se ver livres e seu dinheiro sujo é aceito com prazer.

    Ainda mais no brasil, que nunca chegou a ser país ou nação, é um ‘lugar’. Degaulle o superestimou.

  9. Amado Nedo disse:

    “Quem avisa, amigo é” também entraria nesse rol. “Depois não digam que não avisei”.

  10. jobster disse:

    É, mas que eu te disse, eu te disse!!!

  11. Any disse:

    As empresas/agropecuaristas responsáveis raríssimas vezes são punidas. O “eu te disse” acaba ficando mesmo é para o povo que vê acontecer e nada faz. Enquanto vermos injustiças e permanecemos nos julgando vítimas do mundo, as coisas continuarão no mesmo rumo.
    O “Eu te disse” fica pra nós mesmos, pois quem será a mão de obra escrava? Quem terá de viver em ambientes insalubres ou sofrer suas consequencias?

    Enquanto o governo dá incentivos para desmatar a amazônia pra criar gado, o pampa é descaracterizado pelos incentivos ao plantio de eucalipto.

  12. Ciro Lauschner disse:

    A carne que voce come, o presunto, o queijo , o leitinho das crianças vem de áreas desmatadas.
    O feijão, o arroz, a alface, o repolho, o tomate, vem de areas que antres eram florestas.
    A roupa que vestes vem do algodão, plantado onde ontem era a natureza intocável. A cadeira que tu sentas é feita, “oh horror” de madeira inda que reflorestada,às vezes.
    A casa que tu moras, a cama que tu dormes, oh céus tudo vem do desmate, até a rua que eu ando era floresta.
    Meu Deus, meu Deus, o que faremos, vamos abandonar esse barco terra e nos transformar em adubo para essas árvores, afinal somos tão desprezíveis diante de uma árvore, de um macaco de uma anta. Vamos embora, mas espero que tu váis nba minha frente

  13. TheTruth disse:

    É, tá certo, só dizer “eu te disse” é bobeira. Mas qual o caminho, então? A política ambientalista/conservacionista da “contenção” só faz atrasar os empreendimentos honestos e o desenvolvimento possível, para tentar parar os ilegais e criminosos – é como matar o doente para curar o câncer. Essa é o discurso adotado hoje – a contenção.. O emprego da ciência, e mais, muito mais investimentos em fiscalização (veja, não são gastos, como consideraria os donos do nosso orçamento, são investimentos em fiscalização!… rs…) não seria mais inteligente do que criminalizar tudo o que se tenta fazer na Amazonia – tem gente vivendo lá, OK? Gente que quer comer carne, quer internet, luz elétrica, bons salários, etc.. E são hoje mais de 25 milhões de brasileiros – nem todos índios, nem todos empresários de multinacionais irresponsáveis… qual a solução?

  14. Paulo disse:

    SÓ DIGO UMA COISA OS MAIORES EXPLORADORES DE TERRAS DA AMAZONIA ESTÃO NO CONGRESSO NACIONAL E O PIOR CRIAM LEIS PARA BENEFICIAR SEUS FEUDOS.

  15. chris disse:

    Alguém poderia me dar uma informação??

    Para que serve (ou servia) as normas ISO 14.000?

  16. Zé da motoserra disse:

    Primeiro quero parabenizar o Ciro Lauschener, por sua lucidez e pela forma educada de expor sua opinião. Nós homens do campo, desbravadores não temos este perfil, mas temos a conciencia de que o nosso país não pode se submeter aos ecoterroristas financiados pelas ONGs para defender interesses da comunidade européia. Nossa luta incansável pelo desbravamento da amazônia jamais vai aceitar estes argumentos ridículos que a floresta deve permanecer intocada, pelo contrário deve ser “destocada” após o desmatamento, para que possamos usufruir da recita da venda da madeira e formação de nossas pastagens. Esta é a opinião de quem vive na amazônia e garante a integração nacional nos limites de suas fronteiras. Produzindo madeira e carne.

  17. jobster disse:

    AE SAKAMOTO…LEIA SOBRE A MDL E O MECANISMO ILUSÓRIO, SOBRE O SISTEMA DE CRÉDITOS DE CARBONO, NA AMERICAN SCIENTIST E VC TERÁ UMA RESPOSTA SOBRE ESSE SEU TEMA E O MOTIVO DESSAS ATROCIDADES….

  18. Andre Santa Rosa disse:

    Houvesse homens neste país ele seria diferente.
    Chega de conversa, de diplomacia. O negócio agora é “tolerância zero”.
    Desmatou e não podia; crime do colarinho branco, e correlatos: É preso e tem 100% dos bens sequestrados, até 4º grau.
    Seja político, parente, jurista, etc. e não só os laranjas.

  19. Pita disse:

    Gostaria de parabenizar o Ciro Lauschner por ser tão simplista e oferecer uma justificativa patética.

  20. Andre Santa Rosa disse:

    Este país já teve uma ditadura militar e agora uma ditadura político-partidária. Precisamos de democracia, com direitos e sobretudo, deveres.

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