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26/06/2009 - 01:12

Presidente Lula, nosso dedo não é tão limpo assim

“Sei que o trabalhador de cana trabalha no pesado, mas é menos pesado do que trabalhar em uma mina de carvão, que foi o que transformou seu país [dos estrangeiros que apontam os problemas trabalhistas no etanol brasileiro] numa potência. Tirem o dedo sujo de combustível fóssil do nosso combustível limpo, senão fica acusação por acusação.”

Essa frase do presidente Lula foi proferida durante evento que lançou o “Compromisso Nacional para Aperfeiçoar as Condições de Trabalho na Cana-de-Açúcar”, costurado por governo federal, empresas do setor e trabalhadores rurais. Na ânsia de defender o etanol, ele deu uma bola fora novamente. Vale lembrar que ele havia dito a mesma abobrinha antes, em março do ano passado:

“Vira e mexe, nós estamos vendo eles [estrangeiros] falarem do trabalho escravo no Brasil, sem lembrar que o desenvolvimento deles, à base do carvão, o trabalho era muito mais penoso do que o trabalho na cana-de-açúcar.”

Em ambas, Lula se refere às primeiras etapas da revolução industrial européia, ocorridas no século 18, e na qual trabalhadores, adultos e crianças, eram tratados como animais. O serviço naquela época podia até ser mais penoso que o atual, não discuto isso. Mas não é triste comparar a situação de hoje do país com a da Europa de 200 anos atrás para precisar se justificar frente às violações de direitos humanos que ocorrem no campo?

Ou seja, aqui é ruim hoje, mas aí era pior há dois séculos. Inacreditável a comparação, não? Dizer isso é passar um atestado de incompetência coletiva – que, de certa forma, merecemos por não garantir que nenhum cortador de cana tenha sido tratado como bicho em nome do progresso.

O mais interessante é que as críticas mais pesadas contra o modelo de produção do etanol não vêm do exterior, mas daqui mesmo. São organizações sociais, sindicatos, parlamentares que denunciam os casos de superexploração. E quem diz que há trabalho escravo não é um estrangeiro com dedo sujo, mas é o próprio Estado brasileiro. Milhares de cortadores de cana ganharam a liberdade graças à atuação da fiscalização do Ministério do Trabalho e Emprego, Ministério Público do Trabalho e Polícias Federal e Rodoviária Federal. Só no ano passado, dos 5244 libertados, 49% estavam no setor sucroalcooleiro.

O etanol brasileito se tornou vedete internacional, os usineiros “heróis” nas palavras do presidente da República (heróis deveriam ser chamados os trabalhadores rurais, que são os responsáveis por esse “milagre verde” do etanol, e os auditores, procuradores e policiais que os libertam). Com isso, o interesse pela ampliação da produção e a busca por novas áreas cresceu. E com isso, a exploração do trabalhador.

Há muita gente lá fora querendo o fracasso comercial do Brasil e usando a justificativa social para erguer barreiras? É claro! No comércio internacional, não há ninguém bonzinho e muitos venderiam a mãe por um bom preço. Mas o Brasil, que é um dos únicos que reconhece o problema e faz a lição de casa (e é considerado referência na área pelas Nações Unidas) pode mostrar o que está fazendo e cobrar o mesmo dos outros que façam o mesmo. Por exemplo, há trabalho escravo comprovado em países como Estados Unidos, França, Índia, Reino Unido, China…

Por isso mesmo surpreende o presidente não utilizar os bons resultados obtidos por gente do seu próprio governo em seus discursos mas, ao contrário, rebater as críticas de forma tão superficial. E reclamar daqueles que mostram a verdade com medo de que vá haver “repercussão lá fora”. Se o Brasil quer ser referência internacional do comércio poderia começar garantindo que seus produtos são socialmente e ambientalmente responsáveis – um diferencial neste mundo de cadeias produtivas problemáticas.

Essa agenda política, pragmática ao cubo, do presidente me mata.

Sobre o compromisso assinado hoje: Ele possui avanços, como a contratação direta do cortador de cana pelas usinas invés de usar intermediários, que facilitam as fraudes. Aliás, já não era sem tempo de reconhecerem o uso criminoso dos “gatos”. Mas medidas relevantes como um piso nacional para a categoria, ficaram de fora. Além disso, há pontos acordados que praticamente já estão previstos na legislação. Pacto empresarial, na minha opinião, existe para ir bem além do que a base legal do país já prevê e do que é sistematicamente exigido pelos auditores fiscais do Ministério do Trabalho e Emprego. Volto a este tema em breve.

Autor: sakamoto - Categoria(s): Sem categoria Tags:

52 comentários para “Presidente Lula, nosso dedo não é tão limpo assim”

  1. Antonio disse:

    Já que me tiraram do sério…ai vai outra pergunta já que o tema é sobre DEDO. Vocês conhecem aqueles trabalhadores do interior da Bahia que lidam com as máquinas de sisal? Aqueles que têm as suas mãos e braços multilados pela máquina assassina?
    Vocês sabiam que o INSS não os aposenta?
    Me expliquem como alguém, tipo o lula, perde o dedo mindinho, o menos importante da mão, em uma máquina? Pensem que este dedo sempre está recuado em relação aos outros (sem contar o polegar) então, provavelmente pare se perder o mindinho, talvez fosse necessário perder os outros três…O pior que ele recebe aposentadoria por perder este dedo, enquanto outros que perdem o braço não têm essa sorte. Muito engraçado.

  2. GIBA disse:

    A vida de quem corta cana não é nada fácil. Aordar cedo. trbalhar de sol a sol… Sem contar com a posibilidade de perder um membro. Parece injusto uma pessoa sem uma das pasrtes do corpo não estar recebendo do inss. Jogam axcopa apenas no presidente, esquecem dos parlamentares que eles sim, sã os verdaderos culpados. Há, acho que não… Os colpados samos nós. quem lembra em qual deputado ou senador votou? Historicamente são os mesmos de form hereditária. DEVEMOS ACORDAR.

  3. Olá Sakamoto.

    Te convido a visitar o meu blog. Meu último post trata justamente de uma “opção” de emprego muito discutível que se perpetua nas páginas de alguns dos principais jornais do país.

    Um forte abraço e sucesso.

  4. Ricardo Casaca disse:

    O endereço do blog é http://blig.ig.com.br/carreiratupiniquim

  5. Edson disse:

    A direita precisa de debates deste tipo. A quem interessa isto se não à direita? Os bilhões de dólares públicos para socorrer irresponsável e ladrões privados tão elogiados pela DITAMÍDIA pode? O deus mercado morreu, mas a direita estará sempre de plantão tentando disumular o obvio como se os fatos fossem impossíveis de enxergar! O recado esta dado para o PMDB e alguns cretinos finge que o Sarney entre outros é coisa atual e que toda esta farsa que nos é imposta também! Algumas pessoas por ingenuidade e até mesmo por voluntarismo pseudo ético deixam a direita muito feliz! O que esta em jogo de fato é 2010 e só isto interessa a esta corja de cretinos que dominam o legislativo e o judiciário há 200 anos! É bom que estejamos atentos porque dos olhos para baixo será considerado canela e qualquer distração poderá se transformar em um sério complicador!

  6. João Luis disse:

    É óbvio que a situação dos cortadores de cana (e muitos outros trabalhadores rurais) normalmente estão abaixo da miserabilidade. Mas, sinceramente, acho que deveríamos analisar o que o presidente disse no contexto da época. Lembro-me que as grandes potenciais tentavam de todas as formas desqualificar o etanol brasileiro, valendo-se, inclusive, da situação dos cortadores. Nesse aspecto, mandou muito bem o presidente ao tocar na ferida deles. Se é certo que o dedo sujo dos europeus se deu há 200 anos, certo também que a europa já é o berço da civilização moderna há mais de 1000 anos. O Brasil, por sua vez, só existe há pouco mais de 500 anos. Se tivesse feito o discurso e o Brasil ficasse parado, sem nada fazer a respeito da situação dos cortadores de cana, assinaria tudo que vc falou. Porém, conforme vc mesmo disse, muito progresso houve desde então. É o que penso.

  7. Pedro disse:

    Parabéns Sakamoto pela análise, concordo com nosso colega Helio que aqui escreveu, e peço licença ao amigo para fazer minhas suas palavras quando diz:

    Bem feito pros que o acusam de ser defensor do Lula, do PT, etc. Votei em Lula, mas estou preocupado quando diz que desmatador não é criminoso, que Sarney não é um homem comum (e não é mesmo), porquanto tem a responsabilidade do mandato. Tomara que todas essas insatisfações que sentimos hoje, não implique em devolver o Poder e o Governo aos que já privatizaram quase tudo. O risco é grande. Os interesses escusos também.

    E acrescento ainda, fico cada dia mais com medo do Lula, ele tem falado muita asneira ultimamente…sobre o Irã, sobre os desmatadores, e agora mais essa…francamente, entendo que o Lula é analfabeto, mais nem por isso precisa ser BURRO, IGNORANTE e ESTÚPIDO!!!

  8. marcelo disse:

    A saida para os usineiros e produtores de cana será a mecanização da colheita o que eliminará a necessidade de contratação de grandes contigentes de trabalhadores, pode parecer o mais correto porém nos estados mais pobres e /ou com menor indice de desenvolvimento gerará um nova onda de migração especialmente naqueles estados com grande numero de usina e baixa qualificação da mao de obra como é o caso de alguns estados nordestinos, ondemais de um milhao de pessoas vivem da colheita da cana. Diminuirão os casos de exploração e também os empregos para uma parcela da população que nao tem qualificação para outras tarefas, ai dar-lhe novo bolsa familia.

  9. Marcelo disse:

    Sakamoto, se tu estivesse na minha frente pediria para te dar um abraço mas não estas e moramos longe um do outro, fico então de te dizer que sou um fã dos teus posts e com certeza este é mais um dos teus que cortam como navalha afiada, a situação com certeza não é um previlégio apenas de Sampa mas daqui da provincia de São Pedro do RGS também e com certeza à continuar com a tendência da concentração de renda que cada vez mais cresce experimentaremos mais e mais esta situação criminosa que parte da sociedade brasileira promove. Um Grande abraço.

  10. marcelo batista disse:

    VC acha triste a comparação de hoje com 200 anos atrás , porque lhe convém. Normalmente a gente só vê aquilo que nos interessa ver.
    porque você não acha triste querer implantar as mesmas leis do sul e sudeste do Brasil, (leis trabalhistas , ecológicas, etc), no norte do País, sabendo que o norte esta pelo menos 100 anos atrasado em comparação com o centro-sul? Eu respondo, porque não lhe convém. o seu emprego e o dos outros eco terroristas dependem das tolices que vocês fazem.
    -” todos tem direito, no futuro , ao ecossistema equilibrado.” a constituição diz isto? diz sim , mas também diz que todos tem direito a vida, à terra, ao trabalho, a cidadania. agora fazer a pura e simples opção pelos calangos e pererecas em detrimento do homem, parece no mínimo que estão sob interesses escusos, dignos sim de CPIs e de policia federal.

  11. Cleber disse:

    Sakamoto, não concordo com os 200 anos. Ainda no fim do século 19 existiam muitas críticas as condições nada humanas de trabalho nas minas. Vide o livro Germinal de Émile Zola, que relata a vida dos mineiros na França. Não sei precisar a data que por lá a situação tenha melhorado aos níveis atuais, mas desconfio que só no início do século XX mesmo, isso nos países mais ricos.
    Não se justifica manter as condições atuais dos pobres cortadores de cana com esse argumento, mas é evidente que os países ricos irão arranjar muitas desculpas para não endoçarem o uso do etanol. A Suécia que tem proteção exemplar aos trabalhadores retirou a sobretaxa ao etanol e o usa como combustível apesar do frio que faz por lá.

  12. NIlton César Forte da Costa disse:

    É muito confortável ser esquerdista-intelectual de boutique feito o Azarias e a Marisa, melhor ainda é receber as benesses conquistadas pelos anlfabetos dos sindicatos. Qual foi o presidente que fez mais pelos boías-frias e aposentados?
    Qual intelectual ‘fez’, pois falar é muito fácil. Até eu sei, e não sou intelectual, nem analfabeto, mas sou um dos beneficiados pelas conquistas dos anlafabetos sindicalistas, como todos os outros.

  13. Ciro Lauschner disse:

    Vejo que todos os trabalhadores braçais são considerados escravos nesse país. Na Europa os alemães tem os turcos para escravizar, os franceses, os marroquinos etc. etc. e negam a cidadania a eles com a maior cara de pau, mas não deixam de financiar ONGS no Brasil que são as “donas da verdade” e cuja
    principal função é servir munição para as guerras comerciais., posando de grandes defensores dos direitos humanos, Em tempo eles se servem também de inocentes úteis, que no seu desconhecimento de causa nada mais são do que marionetes de grandes interesses, se referindo a êsses que não são pagos

  14. Zé da Pinga disse:

    Ue quero sabe si oce acaba com os cortado di cana,ondi e qui vou compra a minha pinga e lula vai compra a dele tambem

  15. Marcelo Teixeira disse:

    Caro Leonardo
    Vc é muito jovem, deve ter trabalhado pouco e faz um discurso aparentemente correto. Tem discurso de pedra sem ter experimentado ser vidraça. Seus Títulos por certo tem grande valor e por isso Eu o Parabenizo. O que lamento? É ver uma pessoa tão jovem jogando esse jogo sujo, dessa forma, por falta de experiência, Ignorância ou, na pior das hipóteses, como carta marcada, escolhida para fazer essa tarefa UDENISTA. Jornalista que critica tem opinião sobre caminhos alternativos às críticas que faz. Uma boa leitura e que ensina aos mais jovens a julgar a partir das perspectivas históricas: Mauro Santayana. Leia e verá um grande jornalista que analisa, critica mas apresenta as questões considerando o universo em andamento e não em condições “Cetris Paribus” como me parece a escola por você escolhida.

  16. Myriam disse:

    Se bem q o Brasil hj e a Europa a 200 anos.. não tem muita diferença não… é só comparar o Brasil de hj com a Europa de hj

  17. Na semana passada os funcionários (na sua maioria tripulantes) da British Airways (Empresa Aerea Estatal da Inglaterra) resolveram trabalhar de graça durante o periodo de 1 mes ou mais.

    Na Inglaterra, mesmo trabalhando-se de graça é possível manter os benefícios de saúde, seguro de vida & pensão.

    O presidente Lula se esquece do grande ditado que diz que 2 errados não fazem 1 certo, se o outro país errou ou está errando obviamente isto não e´motivo para que ele (o Lula) justifique um programa de combustível alternativo gerado por mão de obra escrava.

    SoluçãoÇ Oferece seguro saúde, seguro de vida & fundo de pensão aos trabalhadores de usinas e comece pelo menos dando um pouco de dignidade ao home da cana que é o verdadeiro preculsor do programa do ethanol que já vem assim desde que os militares estavam no poder e os usineiros abusam do poder através de mão de obra a troco de banana…

  18. José Higino Dias Filho disse:

    Sakamoto

    Devo dizer que concordo com sua crítica em relação ao elogio que o presidente fez aos usineiros, atribuindo a eles, unicamente, o mérito da continuidade da produção do etanol. Porém, penso que você foi infeliz ao criticar o discurso do presidente insinuando que ele esteja desmerecendo ou mesmo não relevando o esforço descomunal que é feito por nossos trabalhadores no processo de produção do etanol. Nosso presidente é, simplesmente, fundador do PT. Não seria muita inocência um erro desses? Penso que pegar duas frases ditas por alguém e construir todo um contexto em torno delas é falar no vazio. Outra coisa que me irrita no jornalismo brasileiro é a quase total escassez de críticas de certas figuras da política nacional. Governos como o de São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, só para citar alguns, são verdadeiros “santinhos” para a nossa “tão inocente” rede de jornais, televisão, rádios e outros. Curiosamente também, existe uma grande semelhança na trajetória de vida desses governantes (origem social, convicções e posturas políticas, o que defendem e representam). Estamos muito atrasados (na idade da pedra) no que se refere a direitos de mídia. Na Itália, se um veículo de comunicação consegue 25% de audiência, o grupo que o controla não pode ter outro veículo, para não se constituir num formador de opinião opressor (um ditador da comunicação). No Brasil, chegamos ao absurdo de termos grupos empresariais donos de televisão, jornais, rádios, revistas e sítios de internet. Pior ainda é saber que cerca de 95% desse poder está concentrado em somente umas dez famílias. Diante de um quadro desses, penso que é urgente a população discutir uma reforma na mídia brasileira, havendo revisão dos direitos de exploração dessa “mina”. Isso sim, eu considero preocupante e urgente.

  19. José Miranda de Oliveira Júnior disse:

    Sakamoto..como vc é babaca mesmo,vc faz parte daquela casta de doutorado e jornalistas,que vivem as custas dos nossos impostos,vai trabalhar vagabundo…quem sabe vc tome vergonha na cara,antes de ficar escrevendo bobagem,seu trouxa burrocrático….vai dormir,beber vinhio de jarra,assistir peças teatrais com os globais,e falar alto nas pizzarias,alem de pagar a conta com cartão de crédito.

  20. Mario SC disse:

    Nas “bobagens” que o Lula fala, ao menos temos que recorrer a memória ou irmos pesquizar sobre o assunto. Agora o que o Serra falou sobre a gripe suína é no minimo hilariante, é uma piada de um pseudo-intelectual metido a sabe tudo. Assisti alguns vídeos no Youtube sobre FHC, em inglês, mais enrola do que fala e a mídia acha o máximo e esconde as gafes deles.
    Quanto ao Lula não ler revistas e jornais, eu também não leio,
    inventam fatos, requentam notícias passadas, armam situações, alem de estarem atrasadas.
    Tenho um amigo que é jornalista e ele me contou que tinha um colega fotógrafo no jornal que tinha em sua bolsa de trabalho uma chupetinha “bico” e um sapatinho de criança, quando acontecia uma tragédia envolvendo crianças ele colocava o sapatinho ou o bico na estrada de modo que aparecesse na foto, imaginem a cena, não é chocante? Mas vende mais jornais…
    Prefiro o Lula com suas bobagens a ter que voltar anos atrás. Quem não lembra faça um esforço, comparem, pesquisem. Que mudou para melhor não tenho dúvidas.

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