Presidente Lula, nosso dedo não é tão limpo assim
“Sei que o trabalhador de cana trabalha no pesado, mas é menos pesado do que trabalhar em uma mina de carvão, que foi o que transformou seu país [dos estrangeiros que apontam os problemas trabalhistas no etanol brasileiro] numa potência. Tirem o dedo sujo de combustível fóssil do nosso combustível limpo, senão fica acusação por acusação.”
Essa frase do presidente Lula foi proferida durante evento que lançou o “Compromisso Nacional para Aperfeiçoar as Condições de Trabalho na Cana-de-Açúcar”, costurado por governo federal, empresas do setor e trabalhadores rurais. Na ânsia de defender o etanol, ele deu uma bola fora novamente. Vale lembrar que ele havia dito a mesma abobrinha antes, em março do ano passado:
“Vira e mexe, nós estamos vendo eles [estrangeiros] falarem do trabalho escravo no Brasil, sem lembrar que o desenvolvimento deles, à base do carvão, o trabalho era muito mais penoso do que o trabalho na cana-de-açúcar.”
Em ambas, Lula se refere às primeiras etapas da revolução industrial européia, ocorridas no século 18, e na qual trabalhadores, adultos e crianças, eram tratados como animais. O serviço naquela época podia até ser mais penoso que o atual, não discuto isso. Mas não é triste comparar a situação de hoje do país com a da Europa de 200 anos atrás para precisar se justificar frente às violações de direitos humanos que ocorrem no campo?
Ou seja, aqui é ruim hoje, mas aí era pior há dois séculos. Inacreditável a comparação, não? Dizer isso é passar um atestado de incompetência coletiva – que, de certa forma, merecemos por não garantir que nenhum cortador de cana tenha sido tratado como bicho em nome do progresso.
O mais interessante é que as críticas mais pesadas contra o modelo de produção do etanol não vêm do exterior, mas daqui mesmo. São organizações sociais, sindicatos, parlamentares que denunciam os casos de superexploração. E quem diz que há trabalho escravo não é um estrangeiro com dedo sujo, mas é o próprio Estado brasileiro. Milhares de cortadores de cana ganharam a liberdade graças à atuação da fiscalização do Ministério do Trabalho e Emprego, Ministério Público do Trabalho e Polícias Federal e Rodoviária Federal. Só no ano passado, dos 5244 libertados, 49% estavam no setor sucroalcooleiro.
O etanol brasileito se tornou vedete internacional, os usineiros “heróis” nas palavras do presidente da República (heróis deveriam ser chamados os trabalhadores rurais, que são os responsáveis por esse “milagre verde” do etanol, e os auditores, procuradores e policiais que os libertam). Com isso, o interesse pela ampliação da produção e a busca por novas áreas cresceu. E com isso, a exploração do trabalhador.
Há muita gente lá fora querendo o fracasso comercial do Brasil e usando a justificativa social para erguer barreiras? É claro! No comércio internacional, não há ninguém bonzinho e muitos venderiam a mãe por um bom preço. Mas o Brasil, que é um dos únicos que reconhece o problema e faz a lição de casa (e é considerado referência na área pelas Nações Unidas) pode mostrar o que está fazendo e cobrar o mesmo dos outros que façam o mesmo. Por exemplo, há trabalho escravo comprovado em países como Estados Unidos, França, Índia, Reino Unido, China…
Por isso mesmo surpreende o presidente não utilizar os bons resultados obtidos por gente do seu próprio governo em seus discursos mas, ao contrário, rebater as críticas de forma tão superficial. E reclamar daqueles que mostram a verdade com medo de que vá haver “repercussão lá fora”. Se o Brasil quer ser referência internacional do comércio poderia começar garantindo que seus produtos são socialmente e ambientalmente responsáveis – um diferencial neste mundo de cadeias produtivas problemáticas.
Essa agenda política, pragmática ao cubo, do presidente me mata.
Sobre o compromisso assinado hoje: Ele possui avanços, como a contratação direta do cortador de cana pelas usinas invés de usar intermediários, que facilitam as fraudes. Aliás, já não era sem tempo de reconhecerem o uso criminoso dos “gatos”. Mas medidas relevantes como um piso nacional para a categoria, ficaram de fora. Além disso, há pontos acordados que praticamente já estão previstos na legislação. Pacto empresarial, na minha opinião, existe para ir bem além do que a base legal do país já prevê e do que é sistematicamente exigido pelos auditores fiscais do Ministério do Trabalho e Emprego. Volto a este tema em breve.
Autor: sakamoto - Categoria(s): Sem categoria Tags:
Parabéns Sakamoto, é de jornalistas assim, corajosos, que digam as verdades que muitos tem medo ou se calam por outros motivos que precisamos, a politica, e nossos políticos, estão aquém de serem pessoas honradas, que vislumbrem o bem comum, principalmente nos últimos 50 anos.
Saka,
Muito bom seu blog. Numa area tao dificil como essa. O Lula é passado, devemos olhar pro futuro.
Lembre-se, lideres tem que olhar pro umbigo primeiro antes de olhar pro lado, senao nunca chegarao a ser presidentes.
Ele esta em fim de mandato, quer manter as coisas nesse nivel ate o fim. Esta cedendo os dedos (rs..sem trocadilho) pra nao entregar os aneis.
Ele nao quer confusao com ruralista, com usineiro, com o PMDB principalmente.
E da vida democratica. Nos Eua é o tal do Pato-manco. Aqui os ultimos 2 anos de qualquer governante sem expectativa de poder são muito dificies. Ele quer fazer o sucessor. E nao é nem uma questao de pragmatismo politico, é sobrevivencia mesmo.
AGORA, nao podemos deixar de criticar.
E isso ai.
Ao invés desse sakamoto se preocupar e perder tempo criticando o presidente, pq ele não vai no interior do nordeste nos canaviais e doa 4 hs por dia dando aula aos que ainda necessitam?
Me faça uma garapa desses burocratas improdutivos eu hem
Eu acho que vc não sabe ler. O que o presidente Lula quis dizer é que não são ninguém para nos culpar de algo. Temos problemas e temos que resolvê-los.Nós. Entre nós.Sem interferência.
É isso! Quer que eu desenhe?
Saka, muito bom seu artigo. É importante que prestemos atenção tanto no que faz,como naquilo que dizem nossos dirigentes. Não só o Lula. Realamente em matéria de nação organizada,temos muito que aprender. Ainda há muita injustiça contra os mais fracos. Mas eu creio na força da comunicação. Ainda é cedo para se falar em transormações profundas.Afinal temos pouco mais de 100 anos de jornalismo.Menos de 40 anos de internet. Não há porque querermos grandes mudanças tão imediatemente, mas eu gostaria muito de estar aqui daqui a 100 anos. Com toda certeza, daqui a um século, este planeta será outro.
Parabens pelo seu trabalho.
Dentro desta mesma linha, vi nosso presidente também afirmar que os europeus não tem que se meter com o desmatamento da Amazônia, porque eles desmataram a Europa todinha. Nosso presidente é um jumento. Ele não consegue entender, ou é um cínico, que o desmatamento lá ocorreu há mais de século, na época que floresta era uma coisa ruim que precisava ser destruída para dar lugar ao progresso. Na ralidade o tico e o teco já se encontram danificados e as sinapses já não ocorrem com a mesma facilidade.
Extraído: Deu no “Financial Time” 14-04-2008 que os EUA INCORPORARAM NOVAS TERRAS para produção agrícola e terão um lucro líquido de U$ 92,3 bilhões de dólares na atual safra. Os EUA podem incorporar novas terras e nós não? SERÁ QUE SOMOS MAIS RICOS QUE OS EUA?
Ou essa política radical ambientalista é para evitar a concorrência internacional no agronegócio? Enquanto eles aumentam suas áreas, mandam ONGs para doutrinar os brasileiros a não produzirem e eles permanecerem hegemônicos e mais ricos.
Caro sakamoto
Que a comparação é inaceitável … condordo. O presidente poderia ter explorado melhor as ações do próprio governo n combate ao trabalho escravo … acho que faltou trabalho de assesoria ai.
A pergunta que eu te faço é : Qual a solução de curto prazo para os cortadores de cana? Que a situação deles é precária todo mundo sabe … substituir por maquina só faz por gerar desemprego. O problema dos cortadores de cana vem de longe … da falta de oportunidade de estudo/qualificação e da distribuição de terras no país. Não é algo que vá se solucionar em um governo … depende de investimento pesado em educação, crescimento descentralizado da economia, equalização da sociedade como um todo… todos processos longos e que dependem da manutenção de políticas sociais por longos periodos. Os cortadores de cana são pessoas que foram abandonadas pelo Estado por décadas …
Nunca o havia lido, e, hoje, ao fazê-lo vejo q mais um serrista tem lugar no Último Segundo. Vc está no rol dos q se dedicam a garimpar situações q possam comprometer o governo Lula, não p/ apontar soluções, mas c/ o intuito único de pisar no governo federal.
Viu só quantos incautos aproveitaram p/ malhar o Lula na esteira do q vc disse? Houve um q aventou a hipótese do dedo mínimo decepado do presidente ter sido fruto de um acidente forjado. Não têm vergonha de defender teses como esta? Por q tamanho ódio? Até onde vcs conseguem chegar p/ desqualificar um governo q, a despeito dos equívocos q possa ter cometido, é de longe o q mais atenção e respeito dispensou aos dasafortunados?
O discurso proferido por Lula, e do qual vc se valeu p/ extrair frases q o comprometessem, se deu num evento que lançou o “Compromisso Nacional para Aperfeiçoar as Condições de Trabalho na Cana-de-Açúcar”, segundo vc informa “costurado por governo federal, empresas do setor e trabalhadores rurais”. Sacou o nome do evento? Não seria ele um indicador de q o governo reconhece as dificuldades enfrentadas pelos q militam no segmento e busca, vale repetir, “Aperfeiçoar as Condições de Trabalho na Cana-de-Açúcar”?
Quando Lula proferiu as duas frases q serviram de mote ao seu comentário, ao se referir aos estrangeiros q insistem em denunciar as condições de trabalho escravo q persistem no país, o fez como um dasabafo. De fato, quem são eles p/ posarem de bons moços? Logo eles q forjaram seu desenvolvimento encima de “trabalhadores, adultos e crianças”, q eram “tratados como animais”, conforme vc mesmo disse. E, ao contrário do q vc afirma – q isso se deu há longos 2 séculos – a situação, hoje, de trabalhadores turcos, por exemplo, absorvidos pelo mercado de trabalho europeu repete o mesmo figurino de 200 anos atrás.
Vc próprio afirma q “milhares de cortadores de cana ganharam a liberdade graças à atuação da fiscalização do Ministério do Trabalho e Emprego, Ministério Público do Trabalho e Polícias Federal e Rodoviária Federal”. E arremata: “Só no ano passado, dos 5.244 libertados, 49% estavam no setor sucroalcooleiro.” Isso por si só não é sinal de q o governo vem adotando medidas p/ reverter o quadro?
Saca só, Sakamoto. Bola fora deu vc, meu caro!
Aos q quiserem interagir, deixo aqui o endereço do meu blog, modesto, ainda nos seus primeiros passos, mas sempre aberto a quem quiser chegar.
http://www.blogmarcoscampos.zip.net
Corrigindo: Ops! 200 anos atrás, e não à frente. Foi mal.
tudo sobre a ditabranda “ditadura”:
http://www.bolsonaro.com.br/jair/