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19/05/2009 - 12:17

Regina Duarte também tem medo de índio

A atriz global e pecuarista Regina Duarte, em discurso na abertura da 45ª Expoagro, em Dourados (MS), disse que está solidária com os produtores e lideranças rurais quanto à questão de demarcação de terras indígenas e quilombolas no estado.

“Confesso que em Dourados voltei a sentir medo”, afirmou a atriz, neste domingo (18), com referência à previsão de criação de novas reservas na região de Dourados. “O direito à propriedade é inalienável”, explicou ela, de forma curta, grossa e maravilhosamente elucidativa o que faz do BRASIL um brasil. Em verdade, ela deve estar sentindo medo desde a campanha presidencial de 2002…

(O deputado Ronaldo Caiado, principal defensor desses princípios, deveria cobrar royalties de Regina Duarte… Inalienáveis deveriam ser o direito à vida e à dignidade, mas terra vale mais que isso por aqui.)

“Podem contar comigo, da mesma forma que estive presentes nos momentos mais importantes da política brasileira.” Ela e o marido são criadores da raça Brahman em Barretos (SP).

Dos 60 assassinatos de indígenas ocorridos no Brasil inteiro em 2008, 42 vítimas (70% do total) eram do povo Guarani Kaiowá, do Mato Grosso do Sul, de acordo com dados Conselho Indígenista Missionário (Cimi). “Ninguém é condenado quando mata um índio. Na verdade, os condenados até hoje são os indígenas, não os assassinos”, afirma Anastácio Peralta, liderança do povo Guarani Kaiowá da região.

“Nós estamos amontoados em pequenos acampamentos. A falta de espaço faz com que os conflitos fiquem mais acirrados, tanto por partes dos fazendeiros que querem nos massacrar, quanto entre os próprios indígenas que não tem alternativa de trabalho, de renda, de educação”, lamenta Anastácio Peralta.

A população Guarani Kaiowá é composta por mais de 44,5 mil. Desse total, mais de 23,3 mil estão concentrados em três terras indígenas (Dourados, Amambaí e Caarapó), demarcadas pelo Serviço de Proteção ao Índio (criado em 1910 e extinto em 1967), que juntas atingem 9.498 hectares de terra. Enquanto os fazendeiros, muitos dos quais ocuparam irregularmente as terras, esparramam-se confortavelmente por centenas de milhares de hectares. O governo não tem sido competente para agilizar a demarcação de terras e vem sofrendo pressões até da Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária (CNA). Mesmo em áreas já homologadas, os fazendeiros-invasores se negam a sair – semelhante ao que ocorreu com a Raposa Serra do Sol.

É esse massacre lento que a pecuarista apóia, como se as vítimas fossem os pobres fazendeiros. Só espero que, na tentativa de apoiar a causa, ela não resolva levar isso para a tela da TV, em um épico sobre a conquista do Oeste brasileiro, nos quais os brancos civilizados finalmente livram as terras dos selvagens pagãos. 

Autor: sakamoto - Categoria(s): Sem categoria Tags:

146 comentários para “Regina Duarte também tem medo de índio”

  1. Manu disse:

    Os indios deveriam ser totalmente aculturados para começarem a trabalhar, e deixarem de ser vagabundos, é isso. Mas agora estão acostumados a mamar nas tetas do governo.

  2. paulopierre disse:

    Sugiro, ( não é nome japones ), que o Sr.doe todos os seus bens
    para os indigenas. Depois disso vá pentear macaco.

  3. Ana Paula disse:

    Para todos os babacas que criticam os comunistas:

    1 – Se você precisar se virar no meio do mato, consegue? Consegue água, comida e abrigo?
    2 – Se você precisar conter uma praga no meio de uma comunidade e separar, liderar e controlar os pontos críticos, consegue? Consegue liderar qualquer coisa? Ou só consegue obedecer?
    3 – Pra criticar o legado comunista que segurou com TANTA FORÇA TANTA ATROCIDADE em nosso país durante os anos da ditadura, você consegue argumentar contra? Você leu Marx, estudou Lênin? Você sabe quem é Trótski, o que é a Quarta Internacional?
    Não.
    Você não sabe sequer viver sem carro.
    Você tem medo de atrasar o imposto.
    Você não dá conta nem de votar direito.
    Então você não merece tirar a terra de quem já estava aqui.
    De quem já plantava aqui.
    De quem já vivia aqui.
    Não precisa ser comunista para ter noção do que é estúpido dizer. Só precisa ter bom senso.
    E se você não gosta, vai pra Europa. Lá está cheio de branco entediado querendo se matar porque a vida é muito simples.

  4. Reflexão disse:

    Outra míope?

  5. Laurindo B. Regueira disse:

    Para Reflexão:
    Seu poder de argumentação e o seu nível de informação são muito bons, especialmente pela sua juventude. Gosto disso.
    Reconheço que pratiquei algumas generalizações por causa do ambiente blogueiro e do tamanho do meu texto.
    Numa mesa de negociações, condutas como a sua levam a bom termo, principalmente porque o bom-senso indica identificar as diferenças e as semelhanças, antes de discutir.
    Um bom ponto em comum seria, ambos, estarmos preocupados não só com o bem comum, mas sobretudo com a dignidade de todos, a qual, se não remete à utópica igualdade, ao menos precisa remeter a uma diferença menor entre as pessoas, sob os pontos de vista educacional e material. Tenho a certeza de que você concorda com isso e isso, a rigor, é tudo.
    Um abraço.

  6. Joao Saldanha disse:

    essa louca Regina Duarte já cheirou muita cocaina…..
    é uma figura estranha…
    a santinha miseravona…..tem cara de quem nunca gozou gostoso.
    só gozou “legal” em “Malu Mulher” quando no segundo episódio, após se separar de Denis Carvalho, o marido dela na série que a encheu de porrada, encontrou um namorado, personagem de Paulo Figueiredo, que a levou para um fim de semana e depois da primeira picada, ela aparece abrindo amão deitada na cama (não esqueço a cena 30 anos depois) e fala: “Maravilhosoooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooo”, juro, com 500 mils OOOOOOSSSSS.

  7. Marcio disse:

    Por isso que o melhor papel dela até hoje foi o da VIÚVA PORCINA.

    Ela só fez papel dela mesmo.

  8. Fabio Moura Duarte disse:

    Esperar o quê de uma representante das elites, sobretudo, daquela elite branca, escravista, de olhos azuis que pensa o Brasil com o olho em Wall Street? Os comentários de apoio à essa retrograda senhora acompanham o que há de mais atrasado no país: a classe média e seus representantes.

  9. Raimundo Guedes disse:

    É duro ter que aguentar pessoas sem qualquer preparo intelectual, opinar sobre tudo o que acha que entende!!!
    Essa senhora conquistou o País há meio século, por ter uma carinha bonita, umas pernas bonitas, bunda bonita e fazer média com a imprensa. Obviamente que na época o que menos importava era o que dizia… Hoje, porém, seus atributos físicos murcharam ao nível do seu cérebro. Daí essas bobagens todas que vice a soltar.
    Senhora, o tempo não para!!!!
    ADEUS, VAI!!!!

  10. batista disse:

    Matéria jornalística: “afirmou o presidente interino da Funai, Aloysio Guapindaia:Na medida que uma terra é pequena demais para determinado grupo pode comprometer sobrevivência dessa sociedade.”
    Conclusão:como a natalidade desses brasileiros descendentes da etnia indígena esta aumentando, então futuramente deverão as reservas serem aumentadas até os limites fronteiriços, pela lei ou pela força???????
    Ocorrem decisões políticas e demagógicas que não atendem aos interesses e harmonia da Nação, gerando conflitos desnecessários. Poderiam ser aproveitadas as estruturas já existente para integrar os brasileiros de etnia indígena a Nação Brasileira e não discriminar e prejudicar o restante.No caso de Alcântara, poderiam àqueles brasileiros, serem indenizados, como ocorrem nas desapropriações de fazendas seculares e residências de gerações, para execução de obras de interesses publico.
    Em um Pais africano, recentemente, o governo visando acabar com os conflitos étnicos mandou excluir dos documentos públicos as etnias dos cidadãos, aqui o governo alimenta a discórdia privilegiando alguns nacionais e discriminando a maioria.Ministro si em parada da maconha.Cacique disse,semana passada, que o exercito não pode adentrar nas resrvas indígenas.Reservas não são terras da União? No Peru grupos indígenas estão insurgentes.Divisões e grupos fortalecidos geram conflitos por ganância de riquezas e poder, praticando atentados, agressões, extorsões, até impunemente. Nunca soube da Inglaterra e outros paises coloniais resgatando as injustiça seculares ou privilegiando minorias com tamanho empenho de nossos administradores, já que aqueles é que foram beneficiados e coniventes com o trafico de escravos e e exploração das ex-colonias.Eh!! Pais dos privilegios.

  11. Rumiñawi disse:

    Ê, Batista! Você por aqui? Contra pra nós, o Reflexão é teu companheiro antigo de caserna, é não?

    Vocês falam pra caramba, hein? Alguém paga vcs pra ficar escrevendo comentário pra blog, ou vcs são aposentados mesmo?

  12. Aaron disse:

    Regina é apenas uma tele-atriz.

  13. Reflexão disse:

    Para Laurindo B. Regueira.

    Laurindo, concordo em número e grau com seu comentário das 20:09 hs.

    Adianto-me, agradecendo com todo respeito, o vosso elogio a mim dirigido.

    Sua educação, discernimento, demonstração de tolerância as adversidades de pensamento, somadas a sua experiência deveria servir de exemplo para todos os leitores deste blog, inclusive o Sakamoto.

    Observemos que nossa diferença de idade é muita, já que vc. declara estar nos 70, e eu sem procurar muito me expor a um blog público, lhe adianto dizendo possuir entre 20 a 40 anos.
    Também parece ficar claro nossa grande diferença sobre capitalismo, socialismo e comunismo.

    Porém, sua idade maior, aproxima da minha pela força jovem que suas palavras impõem.

    Nossas diferenças, não há por que ser desculpa para fazermos um do outro intolerante e intolerado. O ser humano não vale pela idade, pela ideologia política, vale sim pelo seu caráter e conduta para com o outro.

    Nossas diferenças, são aproximadas quando quebramos barreiras e “pré”—conceitos sobre tudo aquilo que não conhecemos. Sabemos que nunca adotarei e nem vc. adotará minha maneira de encarar a vida e suas formas de governar a cada cidadão. Mas isto não importa, pois melhor de tudo é quebrar barreiras, que permitam criar novas amizades mesmo na adversidades de opiniões.

    Sei que lerei comentários seus que não me agradaram, o inverso também será recíproco, é óbvio, somos diferentes, assim como todo ser humano o é. Porém, nos aproximamos no momento em que foi colocado entre ambos o respeito e a cordialidade como norma principal para entendimento mútuo.

    Digo isso, sabendo que com sua experiência, não trata-se de nenhuma novidade (já que não estou inventando a roda, como disse outro colega), mas apenas para ficar em registro, e servir de exemplo para cada um dos leitores deste blog, inclusive ao Sakamoto.

    Um forte abraço.

    Reflexão.

  14. Reflexão disse:

    Correção:

    Sei que lerei comentários seus que não me agradaram

    Ler “agradarão”

  15. Reflexão disse:

    Correção:

    Sei que lerei comentários seus que não me agradaram

    Ou deverá ser: Ler “agradará”.

  16. Li esses comentários do início ao fim e após constatações trágicas consegui me divertir. Afinal, alguém precisa disso.

  17. Concordo com o Laurindo à medida que mais que a questão da classe e identidade existe a questão prática que poucos levantaram e que é o mote do artigo: a questão indígena propriamente.
    Calamitosa desde há muito.
    Mas, o que me choca é essa radicalização em não se compreender que levantar essa problemática não significa um ataque a este ou aquele, mas o que nós brasileiros podemos fazer para superar essa questão de extrema violência que se relaciona à questão do índio e da reforma agrária.
    Por que é difícil identificarmos essas questões como um problema do povo brasileiro? É disso que tenho medo. Não somos um povo: somos ou índios, ou agronegociantes…
    No mais, quem é a Regina Duarte?
    E aquele Ricardo Ardini que errou de página?
    E o ótimo Abin dizendo que o outro é bobo?
    E a recomendação de maracujina?
    Tirante o medo e o escândalo em relação ao que somos como povo… eu ri demais das intervenções de alguns colegas. Muito espirituosos.

  18. Sabugo disse:

    O massacre dos índios Kaingang no oeste paulista
    Maurício Castelo Branco
    Julho de 2004

    ——————————————————————————–

    Quase quatro mil índios dizimados, em pouco mais de uma década, com requintes de crueldade muito semelhantes aos do holocausto. Assim foi o massacre dos Kaingang no Oeste Paulista, no início do século passado.(Na imagem ao lado, uma reprodução que mostra a índia Vanuíre). Um dos mais sangrentos capítulos da História do Brasil, este, como tantos outros marcados por extrema violência contra grupos étnicos ou religiosos, também não teve um volume de estudos nem visibilidade compatíveis com sua importância. Exceção feita à memorável dissertação de mestrado em Ciências Humanas na área de História Natural (USP, 1978) do professor João Francisco Tidei de Lima, de Bauru (SP), base obrigatória para pesquisas.

    A incursão no território Kaingang, que em São Paulo se estendia pelo quadrilátero que vai da região de Bauru à de Adamantina e do Rio Tietê ao Rio Paranapanema, começou por volta de 1900, de maneira ainda tímida, mas sempre caracterizada pela ação truculenta dos bugreiros (caçadores índios), que agiam inicialmente a mando de grileiros.

    Grupos de grileiros se aventuravam no oeste do Estado e loteavam e vendiam ilegalmente terras devolutas (pertencentes ao Estado). As atrocidades cometidas contra os Kaingang e transações ilegais deram, portanto, o tom do início da ocupação deste vasto território.

    O problema é que no meio do caminho, no coração da mata atlântica que cobria a maior parte da região, viviam os Kaingang. Os conflitos foram inevitáveis e seu recrudescimento deu-se por volta de 1905, com início da construção da Ferrovia Noroeste do Brasil, que partia de Bauru, cruzava o Noroeste do Estado e fazia a ligação com o Mato Grosso do Sul.

    Os alvos da marcha capitalista, acelerada pela construção da ferrovia, rumo ao Oeste Paulista eram a abertura de uma nova fronteira agrícola, impulsionada pela expansão do café; as rentáveis (e ilícitas) transações de terra e o encurtamento da rota de ligação entre São Paulo e o vizinho Estado, pecuarista por vocação, para estimular as transações de gado no crescente mercado paulista. O jogo capitalista estava posto sobre a mesa, e por questões culturais, os Kaingang eram considerados um entrave a suas estratégias expansionistas.

    Com um poder de fogo infinitamente maior do que o dos índios, que contavam apenas com armas primitivas, as frentes de conquista atropelaram como uma locomotiva desgovernada todas as tribos Kaingang. Embora tentassem resistir de maneira heróica, sua derrocada seria consumada pela associação dos bugreiros agora também com o grupo Franco-Belga responsável pela obra da ferrovia. Os ataques às tribos eram noturnos, o que facilitava as chacinas; os índios eram surpreendidos em meio ao sono profundo por dezenas de homens armados com espingardas, facões e com sede de sangue.

    Proteção tardia – Uma descrição de Amadeu Nogueira Cobra sobre um desses massacres traduz com precisão as atrocidades cometidas contra os Kaingang: Atiravam as crianças para cima e aparavam com o facão, batiam suas cabeças contra um poste, partindo-as. Índias grávidas eram estrebuchadas. Os cadáveres eram amontoados e queimados (…). Deitavam substâncias venenosas nos utensílios de cozinha e nos alimentos ali guardados, para que fosse vitimado no comer algum que porventura sobrevivesse. Faziam prisioneiros mulheres e alguns rapazes para as fazendas, ficando como semi-escravizados.

    A omissão do Estado e da imprensa na época foi fatal para os Kaingang. Desde a Proclamação da República, a Igreja estava afastada do processo de pacificação dos índios. O governo, por sua vez, não havia criado mecanismos próprios para substituí-la nesta missão. E o pior: fez vistas grossas ao genocídio.

    Os principais jornais paulistas limitavam-se a noticiar os poucos relatos que chegavam à redação sobre ataques contra os Kaingang, ainda assim de forma resumida e evasiva. A imprensa era pautada pela visão hegemônica e eurocentrista de progresso – a base da justificativa para a carnificina.

    Só depois da insistente pressão de um grupo liderado por intelectuais, políticos e militares, o governo federal decidiu criar, em 1910, o Serviço de Proteção ao Índio (SPI), que tinha a missão de evitar mais chacinas e apaziguar os Kaingang.

    Sob o comando do marechal Cândido Rondon, a base do SPI foi instalada na região Noroeste do estado, mais precisamente onde hoje fica o município de Promissão, local em que naquele momento encontravam-se acuados pela ferrovia poucos grupos Kaingang, remanescentes do extermínio. O primeiro contato, porém, só ocorreria após dois anos. A partir de então, a pacificação seria consolidada aos poucos.

    Mas já era tarde. Do contingente estimado em 4 mil índios habitantes do Oeste Paulista, restaram apenas 700. Os sobreviventes continuariam sendo atacados, agora por outros inimigos não menos impiedosos: doenças, como gripe espanhola e sarampo, contra as quais não tinham imunidade. Em 1916 estavam reduzidos a 173.

    Os remanescentes foram confinados, em 1921, em dois modestos aldeamentos, localizados em Tupã e Graúna. O de Tupã, denominado Índia Vanuíre, hoje pertence a Arco-Íris, que em 1993 foi promovido a município. Para suas tradições nômades, essas reservas eram uma afronta aos Kaingang, como bem observa o major Lima Figueiredo, em seu livro Índios do Brasil: Por muito favor reservaram-lhes dois lotes acanhados, verdadeiros pingos de ‘i’ numa página de jornal. Posteriormente foi criado o aldeamento de Avaí.

    Resgate necessário – Nesse sentido, o geógrafo e mestre em geociência e meio ambiente, José Aparecido dos Santos, professor dos cursos de Geografia e História das Faculdades Adamantinenses Integradas (FAI), defende a inclusão da história dos Kaingang no currículo das escolas do Oeste Paulista. Santos entende que “o ensino fundamental e médio deveria enfocar em sala de aula a verdadeira história dos Kaingang, até porque foram eles os primeiros habitantes da nossa região.” Para o professor “é fundamental se resgatar a história do Oeste Paulista, desde o processo de ocupação, enfatizando a questão indígena, que no Brasil sempre foi renegada oficialmente”. “Agora é que está havendo maior mobilização para se reverter esse quadro”, comenta, citando como exemplo “a última campanha da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e o esforço de uma nova geração de estudiosos, tais como historiadores e antropólogos, que procuram resgatar a história dos índios.”

    Com refinada ironia, Santos observa: “o curioso é que um dos principais marcos da ocupação do oeste paulista, que levou ao genocídio dos Kaingang, foi a construção da Ferrovia Noroeste do Brasil, e hoje não temos nem os índios e muito menos a ferrovia – privatizada e depois falida .” Quase um século após o massacre, e tal como a Fênix – ave da mitologia grega que ressurgiu das cinzas – os descendentes Kaingang da reserva Índia Vanuíre iniciaram, há cerca de oito anos, um processo de resgate de sua cultura. A iniciativa tem apoio do governo estadual e é desenvolvida em parceria com os Krenak, índios de Minas Gerais que vivem no aldeamento há quatro décadas. “Hoje estudamos nosso idioma, celebramos rituais e produzimos artesanatos típicos”, conta Irineu Kotuí, o 2º cacique da reserva, que hoje fica em Arco-Íris, na região de Tupã. Os Kaingang não só fazem apresentações de rituais em eventos nas cidades da região, como abrem o aldeamento para visitas. A história dos Kaingang é de resistência e reconstrução, mas seu passado de injustiça sangrenta não pode ser esquecido.

    O legado da cultura indígena para a cultura brasileira é muito maior do que se imagina. Como se sabe, as influências estão presentes na culinária, na medicina e mais recentemente na glamourosa indústria de perfumaria e cosméticos, pois essência é o que mais a floresta tem. É também surpreende a contribuição dos índios para a língua portuguesa falada e escrita no Brasil. Como nos ensina o professor Fernando Silva em seu Pequeno Dicionário Tupi-Guarani, é grande a influência desta, que é a mais importante família lingüística indígena, sobre o português brasileiro.

    Tupi-guarani: o Brasil por definição

    Pouca gente sabe, mas vem do tupi-guarani, por exemplo, a expressão nhenhenhém, que ficou famosa na boca de linguajar castiço (ou postiço?) do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, quando ele praguejava contra a esquerda que o provocava com o apelido de neoliberal. Como se diz aqui no interior, apelido que pega é aquele que deixa o apelidado furioso. Mas como ia dizendo, nhenhenhém em tupi significa tagarelice, falação.

    E quem nunca usou a expressão “fulano está tiririca da vida”? É isso mesmo. Tiririca também herdamos desse léxico indígena e quer dizer estado nervoso das pessoas, além de erva daninha, que faz um estrago danado nas plantações. Capim (meu apelido de infância) também está lá, no idioma tupi, assim como canoa e cuíca.

    Agora, fiquei surpreso mesmo foi quando descobri que carioca em tupi é casa do branco. Não sei por que deram aos nativos da capital fluminense um nome com tal significado. O Rio de Janeiro pode ser tudo, até casa do branco, mas não a casa do branco.

    Logo o Rio, a terra sagrada da macumba. E o que falar do samba do morro, do saudoso e bom malandro de alma negra, de Cartola, de Madame Satã – o temível travesti da noite da Lapa -, de um sem-número de mitos e personalidades e de milhões de anônimos cariocas de origens africanas?

    Colocar nomes indígenas em Estados e cidades virou tradição no Brasil. Pará, quer dizer rio; Paraíba, rio ruim, que não se presta à navegação. Seguindo a lógica do idioma tupi-guarani, é fácil deslindar a sintomática tradução de pindaíba, segundo a velha e boa gíria brasileira: pinda é falta de dinheiro (o brasileiro bem sabe o que é), é coisa ruim mesmo, ou iba, como preferem os índios. Mas voltando ao assunto dos lugares batizados com nomes indígenas, araxá em tupi é onde primeiro se avista o sol, justamente como amanhece Araxá, a bela cidade histórica encravada nas montanhas de Minas Gerais.

    Por falta de informação, políticos batizaram muitos logradouros públicos com nomes que em tupi-guarani não são de bom agouro. Anhangüera, que virou rodovia em São Paulo, é diabo velho. Anhangabaú, localizado no centro da capital paulista, é vale do diabo. E a mais bela e maior floresta urbana do país, a Tijuca não merece o nome que tem: tijuca significa líqüido podre, atoleiro. Tudo bem que lá no meio da mata deve haver alguma área com essas características, mas não que justifique dar a toda aquela maravilha um nome de significado tão desairoso.

    Bem humorados como são, os índios cairiam em gargalhadas se soubessem que aqueles ricaços do bairro homônimo da floresta moram num lugar que em sua língua quer dizer líqüido podre. É como se os moradores da Barra da Tijuca estivessem chafurdados no atoleiro.

    Muitos pais, na hora de batizar seus filhos, são atraídos pela doce sonoridade dos nomes indígenas, uma prática que virou moda e teve seu auge na década de 80, no eixo Rio-São Paulo (lê-se Santa Tereza-Vila Madalena). Mas é sempre bom conferir antes o que os nomes indígenas querem dizer, pois, caso contrário, o efeito pode ser uma desagradável surpresa para os pais e uma frustração para os filhos.

    É o caso emblemático de Arani, que significa tempo furioso. Eu conheço uma Arani assim, em São Paulo, e agora entendo que não é culpa dela aquele jeito tempestuoso de ser. É coisa dos desígnios da natureza, que só os espíritos das florestas são capazes de explicar.

    Confesso que sou mais chegado em Iracema, a eterna e bela morena dos lábios de mel, que é exatamente o que Iracema significa em tupi-guarani: lábios de mel.

    Maurício Castelo Branco, jornalista em Tupã e Bastos (na época)

  19. Sabugo disse:

    A história de um século de massacre (2) escrito em Sunday 15 March 2009 18:57 Abaixo, mais duas matérias de minha autoria publicadas no Jornal da Cidade de Bauru, no dia 15 de março de 2009. São continuação daquelas narrativas sobre o massacre sofrido pelos caingangues no começo do século 19. Os textos que se seguem são a respeito da índia Vanuíre (foto), considerada a responsável pelo fim dos confrontos entre brancos e caingangues, em 1912.

    Vanuíre, a heroína da pacificação
    Vinda do Paraná, índia caingangue é considerada uma das figuras essenciais para o fim dos conflitos no oeste de São Paulo
    Corpo franzino envolto em trajes singelos; rosto repleto de sulcos, emoldurado por um lenço e algumas mechas de cabelos brancos. Figura frágil, mas dotada de valentia superior à de muitos guerreiros (sua coragem não era a dos que empunham revólveres ou facas, mas sim a daqueles que conferem à vida humana um valor que nenhum punhado de terra é capaz de pagar), a índia Vanuíre é considerada uma das figuras cruciais para que a paz entre brancos e índios no oeste de São Paulo pudesse ser selada.

    A história da índia caingangue é um tanto obscura. Ninguém sabe ao certo quando e onde ela nasceu. Atualmente, existe um consenso entre pesquisadores de que ela teria vindo do Paraná. “Pelo que sabemos, Vanuíre trabalhava na lavoura em uma propriedade situada próximo à divisa com São Paulo. Como já estava acostumada ao convívio com os brancos, acabou sendo chamada pelo Serviço de Proteção ao Índio (SPI) para mediar as negociações de paz com os índios”, afirma Tamimi David Rayes Borsatto, diretora do Museu Histórico Pedagógico “Índia Vanuíre”, em Tupã (182 quilômetros de Bauru).

    Devido à pobreza de documentos oficiais referentes ao fato, os relatos envolvendo a índia são recheados de licenças poéticas e, por vezes, a história acaba ganhando ares de romance ou mesmo de lenda.

    Por volta de 1910, o principal foco de resistência indígena estava concentrado no vale do Rio Feio, também conhecido como Aguapeí. Um grupo chefiado pelo cacique Iacri (que hoje empresta o nome a uma cidade situada nas imediações de onde o conflito ocorreu) não queria saber de dialogar com os brancos.

    O ainda coronel Cândido Mariano Rondon, fundador do SPI, resolveu recorrer ao auxílio de um grupo de caingangues “pacificados” que trabalhavam como escravos na Fazenda Campos Novos do Paranapanema, no Paraná. É interessante notar que seres humanos pudessem ainda viver na condição de servidão, a despeito de a escravidão no Brasil ter sido abolida em 1888.

    Embora convivesse de perto com os brancos, Vanuíre mal sabia falar português direito. Por outro lado, como era uma das mulheres mais velhas da tribo e tinha grande habilidade para contar histórias, atuava como uma espécie de guardiã das tradições de seu povo.

    “Vanuíre prestou um enorme serviço para a pacificação de seus irmãos. Ela desejava salvar da morte o que ainda restava de seu povo”, conta o historiador bauruense Luciano Dias Pires, editor do suplemento Bauru Ilustrado, do Jornal da Cidade.

    Conta a lenda que, cansada de ver a dizimação de seu povo, Vanuíre costumava subir em um tronco de jequitibá de dez metros de altura, onde permanecia, do nascer do dia ao cair da tarde, entoando canções em favor da paz.

    Ela também teria o costume de colocar presentes nas bordas da floresta para atrair a simpatia de Iacri e seus comandados. Por meses, o esforço da velha caingangue parecia ter sido em vão. Certo dia, porém, ao caminhar pela mata, Vanuíre notou que os presentes haviam sido recolhidos pelos índios, que, em troca, deixaram flechas e mel.

    Segundo Luciano Dias Pires, o dia 19 de março de 1912 foi decisivo para o final dos conflitos. “Pouco depois do meio-dia, dez guerreiros caingangues se apresentaram no acampamento branco. Vinham desarmados. Marchavam resolutos. Davam sinais de que desejavam fumar o cachimbo da paz com os integrantes do SPI”, narra o historiador.

    De acordo com ele, “a velha Vanuíre, percebendo a atitude pacífica dos guerreiros, não conteve o entusiasmo e marchou firme ao encontro dos visitantes. Disse a eles que seriam acolhidos como irmãos e pediu que a acompanhassem ao acampamento. A cena causou forte emoção em todos que ali estavam.”

    O encontro permitiu a retomada das obras da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB), e Vanuíre ganhou fama de pacificadora em toda a região. Ela viveu seus últimos dias na aldeia caingangue de Icatu, no município de Braúna, região de Tupã, onde veio a falecer, em 1918.

    Mais tarde, seus restos mortais foram levados a Tupã e depositados em um mausoléu construído em frente a uma escola estadual que leva seu nome.

    Vanuíre também é o nome de um posto da Fundação Nacional do Índio (Funai) existente no município de Arco-Íris, São Paulo; de uma escola estadual de educação indígena situada no local; de um museu histórico em Tupã; e de um núcleo habitacional localizado na zona norte de Bauru.

    Inaugurado em 1989, o Núcleo Índia Vanuíre foi construído pela Companhia de Habitação Popular de Bauru (Cohab). Possui 308 casas e aproximadamente 1.200 moradores. O projeto de lei que deu o nome ao conjunto habitacional foi de autoria do vereador Lucrécio Jacques, falecido em 2006.
    Rodrigo Ferrari
    Para Pelegrina, história possui lacunas demais

    O historiador bauruense Gabriel Ruiz Pelegrina não tem medo de polêmica. Aos 88 anos de idade, não teme colocar em xeque um dos principais ícones de Bauru e região: a índia Vanuíre. Ele é taxativo em dizer: “Em todos esses anos de pesquisa em jornais e documentos oficiais, nunca encontrei uma linha sequer que fizesse referência a ela.”

    Pelegrina possui em seus arquivos mais de uma dúzia de retratos em preto e branco da caingangue considerada heroína da pacificação indígena no início do século 20. “Dizem que é a Vanuíre nas fotos, mas quem pode garantir? Pode ser alguma índia catequizada qualquer”, provoca.

    De acordo com Pelegrina, a imprensa de Bauru do começo do século 20 teria feito uma ampla cobertura dos conflitos entre brancos e índios na região. “Nenhum jornal, porém, mencionava a índia Vanuíre”, garante.

    O historiador, que já pesquisou sobre o assunto em diversos livros da época, conta que nenhum sertanista (nem mesmo o Marechal Cândido Rondon, a quem é atribuída a vinda de Vanuíre a São Paulo) menciona a existência de Vanuíre.

    Mito?

    O historiador bauruense João Tidei de Lima, professor aposentado da Universidade Estadual Paulista (Unesp), afirma que Vanuíre realmente existiu. “Ela foi uma figura importante na pacificação”, garante.

    De fato, houve uma moradora da aldeia indígena de “Icatu”, no município de Braúna (região de Tupã), que se chamava Vanuíre. Era vinda do Paraná e se fixou no local no início da década de 1910.

    Muito respeitada entre seus pares por conhecer os cantos e tradições caingangues, acabou ganhando fama de responsável pela pacificação dos índios que estavam em guerra com os brancos. Faleceu em 1918, e teve seus restos mortais levados a Tupã, anos mais tarde.

    “A história de Vanuíre pode até parecer um pouco romanceada. Mas que ela de fato existiu e teve papel fundamental na pacificação dos índios da região, ninguém pode negar”, afirma a diretora do Museu Histórico e Pedagógico Índia Vanuíre, Tamimi David Rayes Borsatto.

    Moradores mais antigos das aldeias da região de Tupã afirmam ter conhecido de perto a “pacificadora”. Inclusive, o cacique caingangue da aldeia “Índia Vanuíre”, Irineu Cotuí, 58 anos, seria descendente de uma irmã de Vanuíre.
    Rodrigo Ferrari

  20. Enquanto fizermos nossos churrascos e desfrutarmos de todas as variedades carnívoras que os bovinos dispoem, estaremos dizendo “sim, concordamos com você Regina Duarte”.

    PS.: Não sou vegetariano. É uma auto crítica mesmo.

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