Essa eu só fiquei sabendo agora e agradeço ao leitor Tiago Rangel pelo toque. O vestibular deste ano da Fuvest, um dos mais importantes do país, porta de entrada da Universidade de São Paulo, errou na questão número 06 da primeira fase. Segue o enunciado:
O Brasil ainda não conseguiu extinguir o trabalho em condições de escravidão, pois ainda existem muitos trabalhadores nessa situação. Com relação a tal modalidade de exploração do ser humano, analise as afirmações abaixo.
I. As relações entre os trabalhadores e seus empregadores marcam-se pela informalidade e pelas crescentes dívidas feitas pelos trabalhadores nos armazéns dos empregadores, aumentando a dependência financeira para com eles.
II. Geralmente, os trabalhadores são atraídos de regiões distantes do local de trabalho, com a promessa de bons salários, mas as situações de trabalho envolvem condições insalubres e extenuantes.
III. A persistência do trabalho escravo ou semi-escravo no Brasil, não obstante a legislação que o proíbe, explica se pela intensa competitividade do mercado globalizado.
Está correto o que se afirma em:
a) I, somente.
b) II, somente.
c) I e II, somente.
d) II e III, somente.
e) I, II e III.
O vestibular considera como certa a alternativa “c”.
Contudo, se ela fosse aplicada a pesquisadores que estudam o trabalho escravo contemporâneo, seja na própria Universidade de São Paulo, seja na Universidade Federal do Rio de Janeiro, ou em outros centros de excelência em todo o país, a alternativa “e” seria a escolhida.
E não só na academia. Consultei membros da Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo (Conatrae), da qual faço parte, – instância federal que reúne instituições que atuam no combate a esse crime e conta com a presença de nove ministérios, além de Ministério Público, Justiça, Organização Internacional do Trabalho, associações de classe e entidades não-governamentais, como a Comissão Pastoral da Terra – e eles também marcariam “e”.
Ao longo dos últimos anos, também já ouvi de membros do alto escalão do Ministério das Relações Exteriores, ou seja, quem cuida das relações comerciais internacionais, a explicação de que a competição global violenta também contribui para o surgimento de trabalho escravo.
Para início de conversa, o trabalho escravo contemporâneo no Brasil é diferente do trabalho escravo colonial e imperial, estão inseridos em modos de produção diferentes. Isso não sou apenas eu quem digo, mas qualquer pesquisador sobre o tema no Brasil.
É claro que a questão do trabalho escravo contemporâneo não se justifica apenas pela busca por competitividade, mas ela é um elemento importante que está inserido nesse processo. Como o enunciando da alternativa não restringe (algo como “explica-se exclusivamente”), possibilita ao candidato escolhê-la como uma possibilidade explicativa.
Se trabalho escravo não é a busca por lucro fácil, dentro de um contexto da competitividade de um empreendimento, ele é o que? Uma prática de gente malvada guiada por puro sadismo?
Trabalho escravo é sustentado pelo tripé impunidade (de quem usa escravos), pobreza (que expulsa trabalhadores e os força a aceitar propostas de emprego bizarras) e ganância (em um cenário de intensa competitividade nacional e internacional, o produtor rebaixa o custo trabalho para poder alcançar um lucro igual ou maior que o seu competidor). Separadamente, nenhum deles explica esse fenômeno no país.
A incidência do problema está concentrada nas regiões de expansão agropecuária da Amazônia (dos Estados de Rondônia até o Maranhão, coincidindo com o Arco do Desflorestamento, onde a floresta perde espaço para a agropecuária) e do Cerrado (principalmente nos Estados da Bahia, Goiás, Mato Grosso do Sul e Tocantins). Contudo, há casos confirmados em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, entre outras regiões em que o capital e instituições estatais já estão estabelecidas, o que demonstra que a origem desse fenômeno não está vinculada ao locus da fronteira agrícola, mas a outro elemento que perpassa realidades sociais diferentes.
Os relatórios de fiscalização do Ministério do Trabalho mostram que os empregadores envolvidos nesse tipo de exploração não são pequenos sitiantes isolados economicamente do restante da sociedade, mas na maioria das vezes, grandes proprietários rurais, muitos deles produzindo com tecnologia de ponta. Pesquisas da ONG Repórter Brasil apontam que esses produtores fornecem commodities para grandes indústrias e ao comércio nacional e internacional. Portanto, estão sob a influência direta da economia de mercado e dela dependentes.
A utilização de trabalho escravo contemporâneo no Brasil não é resquício de práticas arcaicas que sobreviveram provisoriamente ao capitalismo, mas sim um instrumento utilizado pelo próprio capitalismo para facilitar a acumulação em seu processo de expansão ou modernização. Esse mecanismo garante competitividade a produtores rurais de regiões e situações de expansão agrícola que optam por uma via ilegal. Dessa forma, fazem concorrência desleal com os outros empregadores que agem dentro da lei.
O Anglo Vestibulares, um dos cursinhos mais conhecidos do país, resolveu da seguinte forma a questão:
“A existência de trabalho escravo no Brasil atual se explica pela extensão de seu território, onde, em pontos isolados, persistem relações arcaicas entre empregadores e trabalhadores. Essas regiões, marginalizadas da modernidade, são de difícil fiscalização, o que contribui para que se mantenha tal aberração. Isso não se relaciona à globalização, marcada pela modernização e a competitividade, o que exclui a afirmação III.”
Se seguirmos por essa resposta, teremos uma situação em que todos os crimes acontecem apenas por falta de policiamento. O que é uma simplificação tosca e repressiva da realidade. Ou, na pior das hipóteses, uma forma de leitura do mundo carregada de uma visão política que o vestibular considera como a correta. Se for assim, a Fuvest passa a agir como um filtro ideológico e não apenas técnico, deixando de fora aqueles que não concordam com esse modelo do mundo. Um modelo raso, diga-se de passagem.
Na minha opinião, essa questão deveria ter sido cancelada. Aliás, se eu fosse um candidato que saiu prejudicado por conta dessa questão, iria reclamar os meus direitos.
A polícia gosta de samba? A resposta é “não” se for aquele produzido na Real Parque, favela vizinha do rico bairro do Morumbi, em São Paulo. Na semana passada, seis viaturas com 12 policiais entraram na comunidade, por volta da meia noite, para interromper uma roda de samba. Lançando bombas de efeito moral, dispersaram quem dela participava, incluindo famílias com crianças, aos gritos de “Vamos pra casa dormir!”
Se a balada fosse algumas ruas acima, em um dos nababescos condomínios verticais do Morumbi, ao menos tocariam o interfone para pedir educadamente: “Senhor (a), desculpe incomodar a essa hora. Mas poderiam baixar o volume?”
Mas como é na parte baixa do bairro, o “psiu” é mais barulhento. Com direito a toque de recolher.
Entidades ligadas aos sem-terra têm sido acusadas de utilizarem ilegalmente recursos oriundos de convênios públicos na promoção de ações políticas de movimentos que lutam pela (imprescindível e inadiável) reforma agrária. O tema tem sido pauta da mídia nos últimos tempos, aquecida por indignadas reações de comentaristas e âncoras, exigindo a devolução do dinheiro e a condenação dos acusados.
É claro que todo o dinheiro público utilizado para outra finalidade não prevista tem que ser devolvido e os culpados responsabilizados. Contudo, não vemos a mesma indignação contra empresas que superfaturam contratos públicos e, através de seus lobistas, pagam partidos e políticos – garantindo proteção a maracutaias descaradas. Ou mais discretas, como forças que agem pela manutenção de uma política de empréstimos-de-mãe com dinheiro público, a não-aprovação de medidas que ajudariam no combate à escravidão, a mudança na legislação para possibilitar a transformação da Amazônia em pasto, a contratação de empresas com licitação de brincadeirinha…
O nome Camargo Corrêa é a (breve) bola da vez, mas a lista é grande. E somados os bilhões roubados através de esquemas de grandes empresas que mamam no governo, o suposto desvio feito por entidades ligadas aos sem-terra parecem furto de xampu em supermercado. Dois pesos, duas medidas? Imagine! Em uma democracia como a nossa, com uma imprensa tão independente, isso não acontece.
Ah, mas eu ia me esquecendo: quem furta xampu no Brasil fica preso. Quem rouba o dinheiro do Estado, sonegando milhões em impostos, vai condenado a 94 anos, mas não fica na cadeia tempo suficiente para a champanhe esquentar.
A Hora do Planeta, campanha mundial da WWF, tem como objetivo chamar para uma reflexão sobre a ameaça das mudanças climáticas. Para participar, apague as luzes de sua residência ou negócio por uma hora na noite de hoje.
Diz a campanha: Este ano é crucial para o futuro do planeta, pois os países precisam assinar um acordo internacional com medidas para combater o aquecimento global. Será um ano de mobilização para que os países finalmente assinem, na 15ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, em dezembro, na Dinamarca, um acordo para reduzir drasticamente as emissões de gases do efeito estufa.
No Brasil, o desmatamento das nossas florestas – principalmente Amazônia e Cerrado –, é responsável por 75% das emissões de CO2, o principal causador do aquecimento global. No entanto, as emissões de outras fontes, como agricultura, energia elétrica, entre outras, não devem ser menosprezadas dentro de um caminho de desenvolvimento limpo.
Sugestão: nas outras 8759 horas do ano, você pode fazer muito mudando seus hábitos de consumo (ou seja, comprando menos e mais racionalmente), reciclando, enfim. Por exemplo, a indústria de alumínino, daquelas latas que você joga fora, é uma devoradora de eletricidade e tem demandado a construção de usinas hidrelétricas. Como a da Usina de Estreito, no Maranhão, que vai ser responsável por um belo impacto ambiental, além de desalojar dezenas de comunidades indígenas.
O consumidor tem uma importante arma: o boicote. Pena que a usamos tão pouco.
O Tibete não era o paraíso na terra, muito menos um exemplo em direitos humanos ou em cidadania. Mas a China o invadiu na metade do século passado e a ditadura que governa o país tem controlado a região com mão de ferro, ignorando direitos fundamentais e dando uma banana para quem protesta contra a situação.
Para comemorar a invasão, a repressão e o assassinato e expulsão de opositores, o novo embaixador chinês Qiu Xiaoqi vai abrir a exposição de fotos “50 Anos da Reforma Democrática do Tibete”, em São Paulo, neste sábado.
“Reforma Democrática do Tibete”? É muita cara de pau.
Belém - Um amigo jornalista que está acompanhando a prisão/soltura da dona da Daslu, Eliane Tranchesi, (condenada em primeira instância a 94 anos de cadeia por sonegação e outros crimes financeiros) me encaminhou o e-mail abaixo (em itálico). Ele – o e-mail, não meu amigo – está circulando entre a alta classe paulistana.
Queridos amigos ,
Gostaria de convidá-los a se juntarem à corrente FREE ELIANA, um movimento que criei a favor da libertação e contra a condenação da nossa amiga Eliana Tranchesi. Podemos contribuir com força e energia positiva . Usem FREE ELIANA no status de vocês em redes sociais e coloquem o laço da esperança em seus blogs, perfis pessoais do MSN, Twitter, Facebook, Orkut, Hi5, e outras redes sociais em que estiverem presentes.
Passem essa corrente para os amigos de vocês também.
Agradeço muito o apoio de TODOS vocês.
Beijos.
Free Eliana? Laço da esperança? Fala sério! Olha, façamos o seguinte: eu vou roubar dinheiro de um escola ou de um hospital públicos (na prática, sonegação de milhões em impostos é isso) e, quando (e se) for preso, também quero uma campanha ”Sakamoto Esperança”, pela minha soltura imediata.
Por muito menos, tem gente (doente ou não) que vai preso por roubar xampu e só consegue ser solto anos depois. Alguém pergunte para o Dr. Dráuzio Varella quantos pacientes HIV positivo à beira da morte ele tinha no Carandiru. Não quero parecer insensível, entendo as circunstâncias, mas esse “dois pesos, duas medidas” me mata.
Servidores públicos, cumprindo as suas obrigações previstas em lei, fazem uma diligência surpresa e constatam que as denúncias que haviam recebido sobre as irregularidades eram procedentes. Ou condenam os acusados. Estes, proprietários – ricos e respeitados, bem relacionados nas cúpulas do poder – reclamam do tratamento “violento” que teriam recebido da Polícia Federal ou da Justiça.
Logo em seguida, surgem reclamações de políticos, pessoas influentes, juristas, corneteiros de luxo em geral: “Os investimentos estrangeiros vão secar com esse tipo de fiscalização/condenação”, dizem uns. “É um ultraje contra o setor que gera empregos”, bradam outros. Surge pressão para que o governo federal afrouxe as decisões (afinal de contas, é impossível ser um fiel cumpridor da lei nesse país, não é?).
Federações patronais reclamam no Congresso contra os desmandos do poder público, manifestam apoio aos proprietários da empresa e tentam até realizar uma passeata em prol da “legalidade”. Alguns jornalistas e veículos de comunicação defendem que a violência perpetrada tem cunho político para desviar o foco da crise.
Lembro que o finado senador Antônio Carlos Magalhães (DEM-BA) e o então prefeito José Serra (PSDB-SP), entre outros, saíram em defesa de Eliane Tranchesi durante a Operação Narciso. Pressionaram o governo federal, reclamando de que a ação viria da revanche do governo petista. Políticos encheram o ouvido do então ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos (que, agora, está defendendo a Camargo Corrêa contra a Polícia Federal – irônico o que o “profissionalismo” não faz, não?)
Em São Paulo, a toda-poderosa Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) saiu em defesa da Daslu através do seu dirigente Paulo Skaf e ensaiou uma manifestação de protesto. Ressaltou-se que a empresa gera empregos e contribui para o desenvolvimento da região. Empresários lembraram que fiscalizações como essa afugentariam possíveis investidores. Os defensores da Daslu disseram que é impossível pagar todos os impostos.
A elite assume um papelzinho mais ridículo do que de costume quando se sente acuada. E o instinto de autopreservação, desenvolvido ao longo de séculos de Casa-grande e Senzala, surge de forma semelhante em ambientes tão diferentes como os cabides da Vila Olímpia, as usinas de cana de Pernambuco, as minas do Pará.
Exposta a uma situação que considera de risco à sua posição hegemônica na sociedade, essa elite esquece que tanto a utilização de mão-de-obra escrava, em vez da assalariada, quanto a sonegação de impostos representa concorrência desleal. Acha normal que Tranchesi passava a perna no empresário ao lado e lucra cometendo um crime. Afinal, ela é hype. É uma das nossas.
Ao cobrar que a lei seja totalmente aplicada, os bons empresários estão apenas tomando conta de seus investimentos. Quem não faz isso atua em um corporativismo burro achando que é sua “classe social” que está sendo ameaçada (e, como empresário, perde dinheiro com isso).
Ou faz isso como medida preventiva. Até para evitar devassas na contabilidade ou a verificação da condição social de seus empregados no futuro…
Vista do alto, a região de Capão Redondo, na zona Sul de São Paulo, forma um estranho mosaico. Não por causa das cores – que se alternam entre um vermelho-tijolo monótono, um cansativo cinza-cimento e um marrom-terra bem batido. São dezenas de milhares de pecinhas que se unem umas às outras, deixando parcos espaços vagos. A ilusão é a de um imenso tapete, subindo e descendo morros, pulando córregos até morrer à beira de um barranco ou nos limites do cemitério. De cima, todas as casas são iguais. De perto, a semelhança se restringe à forma como foram montadas. Cada uma delas, pedra desse mosaico, foi erguida pelos próprios moradores, que, nas horas de folga, remexiam cascalho e enfileiravam colunas.
Jogadas à própria sorte, pessoas de baixa renda que querem uma casa precisam construí-la com as próprias mãos ou procurar um abrigo sob viadutos ou marquises dos prédios nas metrópoles. Com a extinção do Banco Nacional da Habitação (BNH) e as medidas econômicas que foram se acumulando ao longo dos anos, o financiamento de um imóvel para essas pessoas tornou-se impossível. A solução encontrada foi a informalidade – a esmagadora maioria das moradias no Brasil são erguidas por iniciativa dos próprios proprietários, sem construtoras.
O problema da habitação parte de um círculo vicioso. Sabe-se que qualidade de moradia é essencial para combater a violência na cidade ou no campo. Ou mesmo para preservar a saúde. Locais construídos de forma precária dificilmente terão saneamento básico, o que acarreta graves problemas aos habitantes.
As conseqüências, porém, não ficam restritas ao universo dos excluídos. A má utilização da superfície das cidades traz sérios prejuízos a todos os moradores e ao meio ambiente. Por exemplo, a ocupação desordenada de áreas de mananciais, que abastecem as cidades, pode no médio e no longo prazos ser a responsável pela diminuição ou mesmo o desaparecimento da água potável. Na capital paulista, a região Sul, onde estão localizadas as represas Billings e Guarapiranga, está repleta de loteamentos ilegais. E, como não há saneamento, o esgoto é lançado nelas sem nenhum cuidado.
Havia escrito sobre esse tema anos atrás e com o lançamento ontem do programa habitacional do governo federal (que deve gastar R$ 34 bilhões em moradias populares) achei que valia a pena retomá-lo. O conceito de terra improdutiva no campo é aceito (pelo menos em teoria – na prática, a desapropriação de áreas improdutivas é muito mal feita). Mas o grande problema, hoje em dia, é aplicá-lo às cidades. Devido ao abandono, à especulação imobiliária ou mesmo a processos judiciários, uma grande quantidade de imóveis permanece vazia enquanto um número muito maior de pessoas vive sem teto. As notícias de ocupações de terra do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) agora dividem espaço na mídia com ocupações de edifícios abandonados no centro das metrópoles por grupos de moradia urbana. Sem ter para onde ir, trabalhadores acabam se instalando em locais sem água ou luz, esperando uma solução do governo. São imóveis vazios que deveriam cumprir sua função social, prevista na Constituição. Só na cidade de São Paulo, os imóveis ociosos poderiam abrigar mais de 1 milhão de pessoas.
Um projeto imobiliário decente deveria contar com instrumentos legais para aplicar uma política fundiária e imobiliária nas capitais, como, por exemplo, o IPTU progressivo em caso de imóveis que permaneçam muito tempo desocupados, a edificação compulsória em terrenos baldios e, em último caso, a própria desapropriação forçada com pagamento em títulos da dívida pública. Ou seja, formas de contribuir com a solução do problema, mas gerando economia aos cofres públicos.
Por fim, tomar imóveis que poderiam ser convertidos em moradia como pagamento dos grandes devedores do erário público. Isso é lógico, não? Mas, infelizmente, não acontece na prática. Ocupações de sem-teto, como o que havia em um edifício vazio da avenida Prestes Maia, em São Paulo, são desmontadas. No caso da Prestes Maia, mesmo com o proprietário Jorge Hamuche devendo mais de R$ 5 milhões à cidade, os moradores tiveram que sair e ele conseguiu um desconto e o parcelamento da dívida.
A revista História Viva que chegou esta semana às bancas traz um dossiê sobre a diáspora africana causada pelo tráfico de escravos durante mais de quatro séculos de intenso comércio transatlântico de gente. Organizado pelo jornalista José Chrispiniano e com textos de Emília Viotti da Costa, entre outros, vale a pena ser lido.
Pediram para eu escrever um texto sobre como esse tráfico mudou de roupa e continua nos dias hoje. Reproduzo-o aqui:
Migrar e trabalhar. Quando esses verbos se conjugam da pior forma possível, acontece, ainda hoje, o chamado tráfico de seres humanos. Um relatório da Organização Internacional do Trabalho, publicado em 2005, estima em cerca de 2,5 milhões o número de pessoas traficadas em todo o mundo, 43% para exploração sexual, 32% para exploração econômica e 25% para os dois ao mesmo tempo. No caso do tráfico para exploração econômica, a negociação de trabalhadores rende por ano cerca de US$ 32 bilhões no mundo.
O tráfico de pessoas para exploração econômica e sexual está relacionado ao modelo de desenvolvimento que o mundo adota. Esse modelo é baseado em um entendimento de competitividade que pressiona por uma redução constante nos custos do trabalho. Empregadores “flexibilizam” as leis e relações trabalhistas para lucrar e, ao mesmo tempo, atender aos consumidores, que exigem produtos mais e mais baratos. No passado, os escravos eram capturados por grupos inimigos e vendidos como mercadoria. Hoje, a pobreza que torna populações socialmente vulneráveis garante oferta de mão-de-obra para o tráfico – ao passo que a demanda por essa força de trabalho sustenta o comércio de pessoas. Esse ciclo atrai intermediários, como os “gatos” (contratadores que aliciam pessoas para ser exploradas em fazendas e carvoarias); os “coyotes” (especializados em transportar pessoas pela fronteira entre o México e os Estados Unidos) e outros “animais”, que lucram sobre os que buscam uma vida mais digna.
Muitas vezes é a iniciativa privada uma das principais geradoras do tráfico de pessoas e do trabalho escravo, ao forçar o deslocamento de homens, mulheres e crianças para reduzir custos e lucrar. Direta ou indiretamente. Na pecuária brasileira, na produção de cacau de Gana, nas tecelagens ou fábricas de tijolos do Paquistão, em olarias na China. Vale lembrar que a sistemática desregulamentação do mercado de trabalho facilita a ocorrência desses crimes.
O governo federal anunciou, hoje, a ampliação de 36 para 43 os municípios na “lista suja” do desmatamento, responsáveis por 55% do desmatamento na Amazônia Legal no ano passado. Essa é a primeira atualização da lista, lançada em 2007. Os sete municípios incluídos são Feliz Natal (Mato Grosso), Amarante (Maranhão), Marabá, Pacajá, Tailândia e Itupiranga (Pará) e Mucajaí (Roraima).
Apenas por curiosidade: cruzando essas informações com os dados do Ministério do Trabalho e Emprego, verifica-se que já houve libertação de pessoas escravizadas em todos esses novos municípios, com exceção do localizado em Roraima. O que não é coincidência, uma vez que trabalho escravo tem sido utilizado na derrubada da floresta amazônica, principalmente para a implantação ou ampliação de pastos e carvoarias.
Os agricultores e pecuaristas desses locais não conseguem novos financiamentos até realizarem um novo mapeamento da área e obterem autorização do Incra. Também fica proibida a emissão de novas licenças ambientais e a liberação de novas áreas para plantio.
Na época em que foi criada pelo governo federal, houve a promessa de que a lista serviria de referência para o mercado evitar commodities produzidas através da devatastação da Amazônia. A própria ex-ministra Marina Silva disse que a idéia é que isso funcionasse como a “lista suja” do trabalho escravo no Brasil (atores do mercado utilizam essa relação, criada em 2003, para evitar empréstimos e cortar relações comerciais). A idéia com a “lista suja” do desmatamento era compartilhar com frigoríficos, tradings de soja, siderúrgicas, usinas de etanol a responsabilidade das fazendas e carvoarias, uma vez que eles também contribuem com a degradação ambiental ao financiar produção sob área irregular. Ainda hoje, aguardam-se dados do Ministério do Meio Ambiente mostrando que isso não era conversa para boi dormir.
Três municípios devem ser excluídos nos próximo meses caso terminem de cumprir as exigências do ministério: Alta Floresta, Porto dos Gaúchos e Nova Maringá, todos no Mato Grosso. Para deixar a relação, o desmatamento no município deve apontar diminuição com relação a anos anteriores, ter sido igual ou inferior a 40 km2 em 2008 e possuir 80% do território georreferenciado.
Seguem os municípios embargados:
Alta Floresta (MT)
Altamira (PA)
Amarante do Maranhão (MA)
Aripuanã (MT)
Brasil Novo (PA)
Brasnorte (MT)
Colniza (MT)
Confresa (MT)
Cotriguaçu (MT)
Cumaru do Norte (PA)
Dom Eliseu (PA)
Feliz Natal (MT)
Gaúcha do Norte (MT)
Itupiranga (PA)
Juara (MT)
Juína (MT)
Lábrea (AM)
Machadinho D’Oeste (RO)
Marabá (PA)
Marcelândia (MT)
Mucajaí (RR)
Nova Bandeirantes (MT)
Nova Mamoré (RO)
Nova Maringá (MT)
Nova Ubiratã (MT)
Novo Progresso (PA)
Novo Repartimento (PA)
Pacajá (PA)
Paragominas (PA)
Paranaíta (MT)
Peixoto de Azevedo (MT)
Pimenta Bueno (RO)
Porto dos Gaúchos (MT)
Porto Velho (RO)
Querência (MT)
Rondon do Pará (PA)
Santa Maria das Barreiras (PA)
Santana do Araguaia (PA)
São Félix do Araguaia (MT)
São Félix do Xingu (PA)
Tailândia (PA)
Ulianópolis (PA)
Vila Rica (MT)
E já que estamos falando de desmatamento e desenvolvimento sustentável: Toda semana aparece alguém, seja político, militar ou empresário, reclamando de entidades não-governamentais, movimentos sociais e associações de populações tradicionais que atuam na Amazônia. Elas estariam fazendo o “jogo” dos interesses estrangeiros ou tentando evitar que o Brasil se torne grande (a velha história do destino do gigante deitado em berço esplêndido…)
Contudo, o que me assusta é a cara de pau dos reclamantes, pois ninguém diz um “opa” sobre as dezenas de empresas estrangeiras que estão por lá, muitas degradando a gente e o meio, e que internacionalizaram a Amazônia há tempos. Boa parte da soja, da carne e do minério da região vai para fora, commodities que são produzidas para responder à demanda mundial.
Há gente séria, mas também grandes companhias que funcionam como nuvens de gafanhotos, comendo o que há pela frente, madeira, terra, água, minério, burlando leis ambientais e desobedecendo as trabalhistas. Alguém reclama disso? Nada, imagina! É o progresso, discurso impregnado entre formadores de opinião, mídia, parte da sociedade civil, que faz esquecer o que significa a expressão “dois pesos, duas medidas”.
Ao mesmo tempo, há políticos que, diante das acusações de desmatamento ilegal, eleva o tom e fazem chantagem. Para eles, o país tem que escolher entre seguir as regras ambientais, e passar fome, ou desmatar (e mudar as leis, como o Código Florestal) – e garantir soberania alimentar. Como se houvesse apenas duas alternativas, o que convém a parte dos empresários que lucra fácil com a expansão agropecuária.
Que tal uma terceira alternativa? Uma que inclua um zoneamento econômico da região, dizendo o que pode e o que não pode se produzido, uma regularização fundiária geral, confiscando as terras irregulares, a realização de uma reforma agrária e a garantia que os recursos emprestados pelos governos às pequenas propriedades – as verdadeiras responsáveis por garantir o alimento na mesa dos brasileiros – sejam, pelo menos, da mesma monta que os das grandes. Preservar os direitos das populações tradicionais, cujas áreas possuem as mais altas taxas de conservação do país. Manter o exército na caserna e longe da política, como deveria ter acontecido na transição da ditadura para a república. Enfim, mudar o modelo de desenvolvimento, o que inclui alterar o padrão de consumo, uma vez que nós do Sul Maravilha comemos e bebemos a Amazônia e o Cerrado, arrotando alegria.
Em tempo: As pequenas propriedades representam uma parcela pequena do total da área em que houve desmatamento, mas o Ministério do Meio Ambiente lembrou dos assentamentos rurais nesses municípios na apresentação dos dados hoje, esquecendo de dar aos latifúndios (os grandes responsáveis pela terra arrasada) atenção proporcional ao seu tamanho…
Como fazer jornalismo para a internet, fugindo dos padrões e amarras do jornalismo impresso e utilizando todos os recursos que a rede disponibiliza? André Deak e Paulo Fehlauer deram um exemplo do que deveria ser esse jornalismo digital na reportagem “Crônica de uma catástrofe ambiental - A história do derramamento de agrotóxico no rio Paraíba do Sul que matou toneladas de peixes e pode ter contaminado milhões de pessoas”, publicado no site da Revista Fórum.
Além disso, a matéria é a primeira experiência brasileira de jornalismo de código aberto - no qual se abre ao internauta os conteúdos e processos resultantes da apuração que guiaram a edição. Na explicação deles próprios:
Praticamente todo o material da apuração realizada que culminou neste trabalho jornalístico está disponível neste site. Áudios, fotografias em alta definição, vídeos e a transcrição das entrevistas podem ser acessados aqui.
Com isso, esperamos tornar mais transparente o trabalho de reportagem. Qualquer um que esteja interessado, pode realizar outras edições a partir do material disponível. Oferecer a íntegra de todas as entrevistas realizadas (quase 20) também permite que o leitor possa se aprofundar em algum tema específico.
A internet permite que o conteúdo de uma reportagem seja praticamente enciclopédico. Não há limite de espaço para publicação. Permitir que o usuário interessado tenha acesso a todos os aspectos observados pelo repórter – no formato em que aquela realidade tiver sido capturada, seja imagem, texto, seja áudio – é um benefício que a rede traz ao trabalho jornalístico.
Há também um mapa de apuração, mostrando o que foi feito em quais dias da reportagem. Vale a pena a leitura do making of no blog do André Deak. Nele, ele explica esse formato:
Não falo de uma apresentação onde a soma das linguagens ocorra, porque isso é normal (há vários sites e portais que apresentam o modelo “veja o vídeo, oução o áudio, leia o texto”). Mas de uma apresentação da soma dessas linguagens de uma maneira mais trabalhada, cuidadosa. Não um empilhamento de formatos, mas uma oferta de maneira mais organizada. Esperamos que esse trabalho cumpra esse papel. Mas esperamos mostrar também que, ainda que com poucos recursos e pouco tempo, uma reportagem multimídia é perfeitamente possível.
Leonardo Sakamoto é jornalista e Doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu a guerra pela independência em Timor Leste e a guerra civil angolana. Foi professor do curso de jornalismo da ECA-USP e trabalhou em vários veículos de comunicação, tendo recebido prêmios na área de jornalismo e direitos humanos, como o Vladimir Herzog e o Prêmio Combate ao Trabalho Escravo. Empreendedor social Ashoka, é coordenador da ONG Repórter Brasil e seu representante na Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo (Conatrae).