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07/11/2008 - 11:37

O Troféu Frango vai para o Passarinho

Enquanto o Brasil não quitar uma dívida com o seu passado, trazendo à tona os nomes e punindo os torturadores que agiram em nome do Estado durante a ditadura militar, não conseguiremos dar um passo em direção a um futuro de respeito aos direitos políticos, civis e sociais. Já abordei o assunto aqui várias vezes, apoiando a sociedade civil e os setores do governo federal que encampam a luta pela memória e a verdade. Tortura não é crime político, é crime contra a humanidade, e como tal não prescreve jamais e nem poder ser contemplado pela Lei da Anistia.

Nossa política para tratar dos abusos durante a ditadura prevê compensações financeiras para quem sofreu nas mãos do Estado. A Anistia tem servido como justificativa para encobrir crimes que, em outros países vizinhos, como a Argentina, têm sido trazidos a público e julgados. Se perguntarem para as vítimas da Gloriosa se elas preferem dinheiro ou cadeia aos culpados, tenham certeza que a imensa maioria irá optar pela segunda opção. Não por revanchismo, mas por Justiça. Mas essa opção infelizmente não existe.

Fizeram bem os ministros Tarso Genro, Dilma Roussef e Paulo Vannuchi ao condenarem o comportamento da Advocacia Geral da União, que considerou que a Lei da Anistia perdoou a tortura cometida durante a ditadura. Ato que está sendo usado na defesa de militares reformados como Brilhante Ustra e Audir Maciel, que chefiaram o DOI-Codi, o açougue da ditadura. José Antonio Toffoli, que está à frente da AGU, bate o pé sobre o caso e não muda posição. Sabe-se, em Brasília, que ele tem interesses maiores na sua meteórica carreira jurídica – como um assento no STF. Então, para que comprar uma briga como essa, considerando a quantidade de interesses envolvidos?

Nossa transição para a democracia foi lenta, gradual e pacífica – do comando indo dos militares à burguesia, que já participara ativamente da ditadura. Infelizmente, não houve uma necessária clivagem como em outras transições no Cone Sul. Não trabalhamos o nosso passado e, por isso, não nos desvencilhamos dele – da forma como estruturamos nosso desenvolvimento à maneira como tratamos aqueles que discordam do sistema. 

Dedico o Troféu Frango, criado por este blog para premiar bizarrices em geral, a quem defende o silêncio diante da tortura. Passo na figura do coronel Jarbas Passarinho, que nos premiou hoje com uma pérola de artigo na página A3 do jornal Folha de S. Paulo sob o título “Julgadores facciosos dos direitos humanos”. Nele, desanca os que estão lutando para ver a justiça ser feita no caso da tortura. Não vou colocar o texto, que é grande, mas dou o link para quem quiser ver - para assinantes. Passarinho reclama sobre a ideologização dos direitos humanos, que estaria sendo feita por quem é a favor da condenação de torturadores e não de “terroristas” que teriam agido durante a ditadura. Esquecendo, é claro, que no primeiro caso estamos falando de crimes cometidos pelo Estado – que têm a função de proteger o cidadão, não de botá-lo no pau-de-arara, dar choques em suas genitálias, violentar seu corpo e sua alma, sumir com cadáveres…

No século 21, vivemos um momento em que a reafirmação dos direitos humanos é uma tarefa difícil e necessária. Parte daqueles que deveriam servir ao cidadão jogam os preceitos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que completa seis décadas neste ano, no lixo, dizendo que isso emperra o progresso ou atrapalha uma “convivência pacífica” entre ricos e pobres, torturadores e torturados.

Pensávamos há 20 ou 30 anos que a defesa dos direitos humanos já estaria superada. Neste momento, trabalharíamos para obter avanços para além desses patamares liberais mínimos, no sentido de garantir mudanças estruturais na sociedade. O que vemos, porém, é um refluxo. A vida é desrespeitada em todas as suas facetas e a defesa desses direitos não perpassa governos e sociedade. É bandeira de poucos.

No mês passado, fui “acusado” de agir com e por ideologia no combate ao trabalho escravo. O que era elogio há algumas décadas, passa a ser xingamento nos primeiros anos do novo século. Agir por dinheiro ou pelo poder também é uma ideologia, apesar de ser considerada uma “emanação da racionalidade humana no seu estado mais grandioso”.

Apenas um aviso ao coronel Passarinho: talvez a geração que está hoje no poder e que, de uma forma ou outra lutou contra a ditadura que o coronel representou, não consiga fazer Justiça às atrocidades cometidas pelos lacaios do regime apesar de seus esforços. Os governos estão por demais inseridos em um tempo que ainda os amarra à Gloriosa.

Mas garanto que a minha geração tratará de manter essa luta e colocar o nome desses torturadores na latrina da História. Pena que vocês não estarão vivos para ver esse dia chegar.

Autor: sakamoto - Categoria(s): Sem categoria Tags:

18 comentários para “O Troféu Frango vai para o Passarinho”

  1. ana maria balbueno disse:

    Esse troféu é pra muita gente, especialmente desse governo tido “oposição”. As mudanças aqui são sempre de cima pra baixo, então, nada muda. Fica tudo como está pra privilégio dos mesmos, até na justiça. Acha frango.

  2. Ivens disse:

    Eu lembro desse sujeitinho passarinho. Ministro do Sarney e da ditadura. Afetado…

  3. Leitura disse:

    Sugiro a todos que visitem este site e leiam o livro tambem

    A verdade sufocada mostra a esquerda que eles tentam esconder dos brasileiros.

    http://www.averdadesuficada.com

  4. Nurf´s disse:

    Oi Leo!
    Você foi “acusado” em qual situação ?
    Esse passarinho se acha muito engraçado em comer alpiste…

  5. Li disse:

    Sakamoto, parabéns pelo artigo.
    Às vezes, eu sinto o mesmo medo que senti em 1964, quando eu era criança e minha família foi atingida pelo golpe militar que se instalou no País até 1985. Às vezes, eu penso que aqueles tempos não passaram. Por isso, pela primeira vez, entro em um blog e não arrisco assinar meu nome. Sabem do que eu tenho medo? De que, a exemplo do que fazem os neonazistas em relação ao holocausto, comecem a negar que o Brasil viveu uma ditadura, uma feroz ditadura, que manteve à parte, sem informação, milhares de brasileiros. São essas mesmas pessoas, seus descendentes e ainda os artífices do regime arbitrário que agora querem mudar 21 anos de história. O único argumento dos partidários da ditadura é o ataque aos que pegaram em armas para combater aquele regime absurdo, cruel e cínico. Durante 21 anos, foram poucos os que pegaram em armas, mas foram muitos os que tiveram seus direitos de cidadãos aviltados por quem derrubou um governo democraticamente eleito pelo povo e se deu o direito de mudar brutalmente o rumo de muitas vidas. Mesmo que os arquivos sejam abertos (o que eu defendo) toda a crueldade daqueles tempos jamais será totalmente exposta. Muitas atrocidades nunca foram registradas a não ser na mente, na alma e nos olhos de quem as sofreu. Apesar do medo, eu não me calo, jamais me calarei, em memória de quem já não está mais aqui para contestar as aberrações que ditadores, torturadores e seus seguidores andam escrevendo em livros e na internet. Eles contam com a falta de memória e o desconhecimento da história que, infelizmente, vigoram em nosso País. A prevalecer as versões do sr. Jarbas Passarinho e do sr. Brilhante Ustra, se o delegado Sérgio Paranhos Fleury ainda fosse vivo, seria capaz de vir a público garantir que o papel dele na ditadura era o de Papai Noel. Nessa linha, quem poderá se surpreender se algum dia alguém propuser a canonização de Josef Mengele? Que Deus nos proteja de novos carrascos e de uma outra ditadura!
    Um abraço

  6. Chirac disse:

    Falando sobre passarinho . Jarbas Passarinho se vangloria de ter entrado para o exército por meio de concurso sem pistolões.
    Envaidecido dizia que nem os filhos dos Generais haviam passado nas provas de concurso , amealhando para si uma importancia desmedida . Como se ele fosse o único . São estes personagens que governavam o Brasil na época da Ditadura . Coisa triste . Só não é mais triste , porque temos um ex-torneiro mecanico que chegou à Presidencia carregado pelo povo . Traiu os compromissos com o trabalhador e até hoje não se esplica porque tem uma aposentadoria por invalidez , sendo que “trabalha” viajando ! E como é bom viajar ! Ah …. e ele faz isso com muito gosto ! Ele é o Presidente Viajante , ou caixeiro viajante ! Ah….! É muito bom ! Mas como eu dizia , se ele se aposentou como inválido pela perda do dedo , como poderia trabalhar como Presidente Caixeiro Viajante ? E como quer impedir a Lei Paulo Paim ? Pela Lei da Previdencia , o aposentado perde o direito à aposentadoria por invalidez quando retorna ao trabalho ! Mesmo que este trabalho seja o de caixeiro viajante ! Até eu , pessoal ! Quando eu for político vou viajar . Vou bater o record de Lula . Vou entrar para o guines book . É o Presidente fazendo escola . Também eu não vou deixar ninguém aposentar !!!

  7. valter disse:

    TOMARA (mesmo) q sua geraçao consiga pois essa q ai esta
    q faço parte e` COVARDE e la atras qdo eram contra a ditadura
    falavam q haveria mudança, pergunto qual??? se aliaram a
    acm ,sarney, esperar o q???
    valter

  8. jr disse:

    Precisa cutucar mesmo… Vale a pena fazer todo o barulho do mundo. Mesmo que esses caras morram de velhos no meio do caminho, como fez Pinochet, o barulho é muito importante.

    E eles se enlameiam tentando se defender também.

  9. Giu disse:

    Co-co-ri-có para a ditadura.

  10. Biquei disse:

    Ao colocar o bode na sala deixam de discutir os desmandos e arbitrariedade cometido pelos adeptos do caçador-de-fantasmas.

    Garzón visita una exposición sobre la tortura en Brasil.

    Mugem como uma manada orquestra contra discricionaridade e o arbitrio,mas continuam a cometê-las.

    Algemas nas mãos e nos pés, apesar da súmula

    A Defensoria Pública da União apresentou no Supremo Tribunal Federal (STF) Reclamação (RCL 6963) contra uma juíza paulista por desrespeito à Súmula Vinculante nº 11 ao determinar o uso de algemas nos pés e nas mãos do sul-africano Gideon Johannes Maartens durante o depoimento.

  11. Biquei disse:

    Analisando uma nova estratégia,de
    Paulo H.Tamborim,vejamos;
    LULA NÃO GOVERNA A ABIN, A PF, NEM O MINISTÉRIO DA DEFESA. QUE PRESIDENTE É ESSE ?
    O homem vive um confronto de existencial crise identidade,e como a desgraça nunca anda só,foi afetado pela falta de memória.
    Para memória fosforado,para crise de identidade,rever os conceitos,nunca defender pessoas ou ídolos mas defender á lei. .
    È o mesmo presidente da farsa BrOi,todos sabemos que ALIBARBUDO, é um mutante de LULA,por isso preferimos defender á lei.
    O baixinho, nosso amigo criador do PIG não faz jus ao adágio,todo homem pequeno precisa ser duas vezes mais inteligente.

  12. Celso disse:

    Nunca poderemos nos esquecer que a tortura foi empregada contra terroristas.

    Se é para punir torturadores, que se punam também os terroristas.

    Aliás, o Brasil agradeceria, pois os temidos torturadores hoje são velhinhos que se levantam da cama para ir ao banheiro, ao passo que os terroristas estão em cargos do governo, e continuam fazendo o que mais sabem: cometendo crimes e saqueando os cofres públicos.

  13. Celso disse:

    Aliás, texto rid[iculo feito sob medida para a claque petralha.

  14. Desbestializado da Mata disse:

    Se o Brasil quiser moralizar-se, terá que colocar esses monstros da Ditadura na cadeia. GAIOLA NO PASSARINHO!

  15. Aquele-que-nao-deve-ser-nomeado disse:

    Interessante… gostei da passagem:
    “..ideologização dos direitos humanos, [...] a favor da condenação de torturadores e não de “terroristas” [...] Esquecendo, é claro, que no primeiro caso estamos falando de crimes cometidos pelo Estado….

    O que eu não vi foram comentários, no texto, acerca do “segundo caso”.

    É com esta PARCIALIDADE que se espera atingir uma sociedade mais justa?

  16. JCarlos disse:

    Por que será que tanta gente resiste à abertura dos chamados “arquivos da ditadura” ? Teoricamente, lá deveriam estar as provas para condenar os torturadores militares. Não abrem os arquivos porque, de fato, lá estão as provas contra a tentativa de sovietizar o país e instalar aqui algo muito pior do que se instalou em Cuba…. Por favor, vamos lutar pela abertura dos arquivos. Aí sim, estaríamos restaurando a História.

  17. jose carlos disse:

    discos e pessas

  18. jose carlos disse:

    discos e pessas tintas rolamentos

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