iG
iBest BrTurbo

Publicidade

Publicidade
04/11/2008 - 18:27

É mais fácil negar que assumir o problema de frente

Em matéria publicada pela Agência Brasil, André Amado, subsecretário-geral de Energia e Alta Tecnologia do Ministério das Relações Exteriores, declarou que não se pode dizer que há trabalho escravo na plantação de cana-de-açúcar no país. Para ele, isso seria uma distorção da realidade. Amado deu essa declaração durante um coletiva de imprensa para promover a Conferência Internacional sobre Biocombustíveis, marcada para novembro aqui no Brasil. 

“O que nos deixa um pouco indignados é essa preocupação de qualificar o trabalhador rural, porque faz um trabalho muito difícil, à luz do sol, horas a fio, como um escravo. Por quê? Ele tem condições muito difíceis de vida, mas são condições muito difíceis de vários trabalhadores rurais e urbanos brasileiros e nem por isso eles podem ser considerados como escravos. Isso faz parte de uma campanha de denegrimento da atividade de produção de biocombustíveis no Brasil”, argumentou.

Adoraria trocar um dedo de prosa com Amado e indicar alguns colegas dele dentro do Itamaraty que têm uma visão diferente do assunto. Será que o ministério não conversa internamente?

Bem, vamos por partes. Primeiro, é de muito mau gosto usar o termo “denegrimento” para falar de uma coisa negativa. Entidades do movimento negro e setores do governo federal lutam contra esse preconceito lingüístico há anos. Isso mostra uma certa distância entre ele e a base social do país.

Tocando no assunto principal: em 2007, dos 5.999 trabalhadores libertados da escravidão pelo Ministério do Trabalho e Emprego, Ministério Público do Trabalho e Polícia Federal, 3.131 estavam em fazendas de cana-de-açúcar. Significa que a cana é o principal problema do trabalho escravo? Não. Isso aconteceu em nove fazendas apenas - a cana usar mão-de-obra em grande quantidade. A pecuária é um setor com menos libertados, mas com muito mais fazendas que incidiram no crime, dezenas por ano – o que faz dele, ao meu ver, o problema mais grave no trabalho escravo.

Aliás, o setor é exportador e traz mais divisas para o país que o etanol. Carne com trabalho escravo é exportada. Mas não se fala muito nisso, não é?

A cana no Brasil é cultivada com trabalho escravo? Uma parte, muito, muito pequena. Mas não significa que pouco é nada. E os estudos do Comitê Gestor do Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo mostram que o etanol dessas usinas abastecia grandes distribuidoras em todo o país. Que hoje são signatárias desse acordo e afirmar estar cortando os empregadores que estão na “lista suja” – cadastro oficial do governo que mostra quem cometeceu esse crime. E inclui usinas de cana.

Tudo isso para dizer o seguinte: tem gente lá fora querendo erguer barreiras comerciais contra os produtos brasileiros sob justificativa de estar defendendo os nossos trabalhadores, mas com reais motivos protecionistas. Mas alegar isso não isenta nossa responsabilidade em acabar com esse crime contra os direitos humanos. Já que ele não é generalizado no setor, não seria o caso do Itamaraty atacar os escravagistas e mostrar as ações que vêm sendo feitas nesse sentido ao invés de dizer que nada existe?

Autor: sakamoto - Categoria(s): Sem categoria Tags:

9 comentários para “É mais fácil negar que assumir o problema de frente”

  1. Desbestializado da Mata disse:

    Esse André, deve ser muito “Amado” pelos latifundiários brasileiros pois, ter o descaramente de afirmar que não existe trabalho escravo nos canaviais brasileiros é posicionar-se totalmente a favor de um mal que atormenta nosso país há séculos, que é o caso da escravidão em detrimento de trabalhadores sofridos que até já tiveram seu bem mais precioso, a vida, ceifadas por péssimos transportes, exaustão, pistolagem, etc.
    Quando esse problema vem de “qualquer um” até nem causa tanto espanto agora, quando vem de alguém do alto escalão do governo aí sim, é causa de extrema preocupação! ACORDA BRASIL!!!

  2. Bruno Manso disse:

    Itamaraty, Itamaraty…

  3. Elias Lourenço Ferreira disse:

    Chega a ser vergonhoso o depoimento do subsecrtário, é o mesmo que tentar tapar o sol com peneiras, gostaria de saber se ele realmente conhece a realidade dos cortadores de cana-de-açúcar. Acho que deve ter lido em algum livro sobre o assunto, e com certeza, livro este, escrito por algum usineiro. Estou falando com propriedade, pois fui cortador de cana dos sete aos quinze anos e só quem trabalha nas lavouras de cana pode dizer o quão penoso é tal atividade. A remuneração é tão baixa que seria mais lucrativo para o próprio trabalhador ser mesmo um escravo, pois estudos mostram que o trabalhador atual dá menos despesas ao patrão do que dava os escravos. É de se indgnar.

  4. Elias Lourenço Ferreira disse:

    Fiquei tão indgnado que esqueci da dar os parabens para Sakamoto, não só por esta, mas por todo trabalho que desenvolve na denúncia do trabalho escravo. Quero fazer coro com você Caro Sakamoto, me diga como e me engajarei nesta luta.

  5. Biquei disse:

    Os trabalhadores do Itaú e Unibanco,serão convidados compulsóriamente a entrarem para estátistica do aumento,de nosso índices de desempregados. EDITORIAL.WWW,Elpais.com. Desempleo récord!
    Durante octubre se han registrado 192.658 parados más, una cifra récord que confirma que España tiene un problema diferencial en materia laboral. En pocos meses hemos pasado de ser el país que creaba más puestos de trabajo a ser el que los destruye más rápidamente. En un año, el número de parados ha aumentado en 770.000 personas (un 37%), hasta alcanzar los 2,8 millones: los mismos de mediados de los años noventa, si bien entonces suponía el 23% de la población activa y ahora, tras aumentar ésta a 19 millones, el 11,5%.

  6. Oi, Sakamoto, aproveito o mote do seu post para falar sobre as condições de trabalho dos cortadores de cana-de-açúcar. Inclui lá o programa Plantão Saúde que tem uma entrevista contigo. Além disso, uma ligação com a recém-terminada licitação para divulgar o Brasil no exterior e que terá a questão do etanol como prioritária.

  7. Biquei disse:

    Quando eles não estão de”COSTA” para o jurisdicionado eles estão assim; Juiz DORME e julgamento é cancelado na Austrália. SYDNEY (Reuters), 6 de novembro – Uma corte australiana ordenou que seja feito um novo julgamento de dois supostos traficantes de drogas porque o juiz dormiu várias vezes durante a audiência dos dois. “Os períodos de sonolência de um certo ministro,acima do peso, no plenário do STF,já foi denúnciado,com mesmo problema, embora,ocasionalmente, quem acompanha pela Net,já observou,quem dúvida consulte os videos. Na Espanha,França, U.S e na terra de ninguém,um sistema EM EXTINÇÃO doente ASSIM,como estava o sistema financeiro. http://www.Elpais.com. Na Espanha o Dom Quixote da toga,agora quer punir os seguidores de Franco. È uma pena,pois os ´partidários de Franco,já encontram-se no purgatório. Não tardará o dia em que o rei pronunciará ás mesmas palavras,ao Dom Quixote da toga,assim como já fez com o ditador da Venezuela.

  8. Mateus disse:

    Parabéns pelo texto.
    Só ficou uma dúvida.
    Usar a palavra “denegrimento” para se falar de uma coisa positiva seria bom?

  9. Valderez Monte disse:

    Enquanto a Corte dorme a CNA relaxa e goza, a escravidão corre à vontade.
    Fiquei chocada com a notícia veiculada há um tempinho em que a Confederação Nacional da Agricultura diz não reconhecer a existência de trabalho escravo porque em dez anos ninguém foi julgado e condenado por tal crime em noso país.
    A princípio fiquei indignada e depois refleti, os representantes
    do poder paralelo brasileiro, senhores que nem se pode mais dizer de engenho, tem toda razão. Realmente nossa Justiça, campeã de olimpíadas , modalidade, corrida de cágados e tartarugas ainda está me convocando através de Cartas Precatórias para depoimentos de fiscalizações que fiz quando ainda na ativa(há três anos estou aposentada) cujos acontecimentos já não estão claros como deveriam.
    Com tanto marasmo, tanto descaso e conivência do Governo Brasileiro o trabalho escravo vai continuar, vidas estão sendo ceifadas, brasileiros humilhados e aviltados naquilo que dizem, dignifica o homem, seu trabalho. De sua força produtiva, adubo aos pastos, canaviais e demais culturas, servem, seu suor, seu sangue e até mesmo seus cadáver quando morre de exaustão, de acidente de trabalho, doenças profissionais, assassinatos e é enterrado por lá mesmo.
    Este senhor aí, do “denegrimento” deveria fazer um pacote de férias, travestir-se de ser humano normal, simples cidadão trabalhador e ir pra lide num canto qualquer desse “país’ brasileiro que chamam de agronegócio, tomar água poluída, labutar de sol a sol sem direito a folga semanal, fazer suas necessidades no matinho e dormir sob uma lona preta, isolado, sem saber onde se encontra e quem é seu “dono”.

    chamam de brasileiro que chamam de agronegócio.

Deixe um comentário:

Antes de escrever seu comentário, lembre-se: o iG não publica comentários ofensivos, obscenos, que vão contra a lei, que não tenham o remetente identificado ou que não tenham relação com o conteúdo comentado. Dê sua opinião com responsabilidade!

Os campos com * são de preenchimento obrigatório






Voltar ao topo