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Arquivo de novembro, 2008

28/11/2008 - 17:23

Quero ser broa de milho

Sabia que 75 de cada 100 pessoas que passam fome são produtoras de alimentos, como pequenos agricultores, camponeses, sem-terra e pescadores?

A afirmação está no vídeo “Quiero ser Tortilla” (em espanhol), que está circulando na internet, sobre a competição entre agrocombustíveis e alimentação. Vale a pena assistir.

Os mexicanos sofreram com o aumento no preço do milho, base de sua alimentação, que está na mira das usinas produtoras de etanol nos Estados Unidos. Enquanto isso, discute-se por aqui como a produção de biodiesel e de etanol de cana pode causar o mesmo problema, considerando a disputa por terra para produção de gêneros alimentícios.

O vídeo é uma realização dos Veterinários sem Fronteiras, uma organização não-governamental que atua para melhorar a qualidade de vida das populações desfavorecidas. Possui projetos com o objetivo de desenvolver a produtividade animal em comunidades rurais.

Autor: sakamoto - Categoria(s): Sem categoria Tags:
27/11/2008 - 18:38

Deputado faz apologia à morte de funcionários públicos

Luís Carlos Heinze (PP-RS) faz parte da bancada ruralista no Congresso Nacional e tem sido um dos mais atuantes na defesa do agronegócio. Em uma audiência na semana passada, fez um discurso inflamado, afirmando que a agropecuária era pressionada pelo sistema financeiro, ambientalistas, pelo Ministério do Trabalho. Se empolgou tanto que soltou esta pérola:

“Aqui em Goiás, até isso acontece, os caras tiveram que matar um fiscal. De tão acuado que tava esse povo. O cara não agüenta mais!” (Ouça o áudio com a declaração.)

Em outras palavras: fazendeiros acuados por terem que cumprir a lei não agüentaram tanta pressão para reduzir a taxa de lucro conseguida de forma criminosa e mataram para continuar na ilegalidade.

Mais direto impossível. Vale lembrar que o deputado externou o que pensam muitos produtores rurais e seus representantes políticos. Muita gente deve ter se sentido aliviada.

O Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais do Trabalho afirmou que vai entrar com uma ação contra o deputado, tentando provar quebra de decoro. Sua declaração, além de infeliz, incita o ódio e a violência contra funcionários públicos, ambientalistas e defensores dos direitos humanos – que já vivem com na mira de matadores devido à zona rural que aqui impera. Em outras democracias, isso já seria suficiente para sua cassação. Aqui é capaz dele acabar ganhando um prêmio. Da mesma forma que um outro político ganhou.

Há três posts lembrei da Chacina de Unaí (MG), quando quatro funcionários do Ministério do Trabalho e Emprego foram mortos durante fiscalização rural. A Polícia Federal apontou Antério Mânica, prefeito de Unaí, como um dos mandantes. Nesta segunda, ele recebeu a Medalha da Ordem do Mérito da Assembléia Legislativa de Minas Gerais.

Se quiserem entrar em contato com o deputado, seu e-mail é dep.luiscarlosheinze@camara.gov.br.

Autor: sakamoto - Categoria(s): Sem categoria Tags:
26/11/2008 - 20:30

Dendê: herói ou vilão?

Alguns empresários do biodiesel apontam que a próxima geração de agrocombustíveis irá incluir o querosene (com grande uso na aviação) a partir do dendê, o que geraria mais demanda de áreas para essa cultura no país. Realizamos, aqui na Repórter Brasil, um estudo sobre essa palmácea e suas possibilidades para a produção de combustíveis e o que encontramos são prognósticos preocupantes.

Produzido principalmente na Malásia e na Indonésia, o óleo de dendê tem espaço consolidado no abastecimento das indústrias alimentícia e cosmética da Europa, do Japão e dos EUA, e sua utilização para produção de biodiesel, destinado sobretudo ao consumo interno dos países de origem, tem crescido à medida que é usado como mecanismo regulador dos preços internacionais do óleo bruto. Porém, a valorização ascendente do óleo de dendê no mercado mundial desde a década de 1990, acabou causando uma catástrofe ambiental e social na Indonésia, na Malásia e em outros países asiáticos, onde extensas áreas de floresta foram substituídas pela palma e milhares de pequenos agricultores, expulsos de suas terras.

Tratado como “herói da economia” pelo mercado (se os usineiros da cana são “heróis” para o nosso presidente, o dendê tinha que ser herói para alguém…), a palmácea tem a maior produtividade de óleo por hectare dentre todas as oleaginosas comerciais e é vista por ambientalistas e defensores dos direitos humanos como um dos grandes vilões socioambientais do mundo.

No Brasil, onde, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), ocupa pouco mais de 96 mil hectares, o dendê ainda não teve seu papel definido. Do ponto de vista biológico, o dendezeiro tem características que o tornam uma espécie apropriada em processos de recuperação de áreas degradadas na Amazônia e, do ponto de vista social, a cultura tem revelado grande potencial de geração de empregos, já que todo o seu manejo é manual.

Na Bahia, onde ocorre em cerca de 45 mil hectares, também acabou tornando-se um importante esteio da agricultura familiar, que o explora de forma extrativista e em pequena escala. Cultivado mais extensivamente no Pará e no Sul da Bahia, o dendê brasileiro ainda não está na lista dos grandes vetores do desmatamento ou dos conflitos socioambientais. Mesmo porque, se comparado à soja – com seus 21 milhões de hectares plantados, é um dos grandes vilões do Cerrado e da Amazônia Legal, onde, até 2004, 1,2 milhão de hectares da floresta foram convertidos em lavouras do grão – sua importância é pequena.

Esta situação pode mudar com a aprovação de uma alteração no Código Florestal, que permitirá, entre outros, a recuperação obrigatória das reservas florestais na Amazônia – 80% das propriedades rurais, segundo a lei vigente – com espécies exóticas. A medida é vista com simpatia pelo governo federal e ferrenhamente defendida pela bancada ruralista do Congresso Nacional, que estimam em cerca de 70 milhões de hectares as áreas degradadas da região, passíveis de serem utilizadas para o cultivo de dendê. Já ambientalistas e movimentos sociais, por sua vez, opõem-se ao projeto, apelidado de “Floresta Zero”, por considerarem que sua aprovação efetivamente diminui a reserva legal e fortalece o modelo de exploração predatória do bioma.

À revelia de posicionamentos técnicos e políticos, devem ser consideradas as seguintes questões sobre as possibilidades do projeto de expansão do dendê na Amazônia, pelo menos no curto prazo: primeiro, se liberado para o plantio de exóticas, grande parte das áreas degradadas não será utilizada no cultivo do dendê, mas convertidas em reflorestamentos de eucaliptos ou outras espécies para produção de carvão (para a indústria siderúrgica), papel e celulose, atendendo a demandas de mercado mais imediatas. Segundo, de acordo com especialistas do setor, o país simplesmente não possui sementes suficientes para aumentar vertiginosamente sua dendeicultura, como também não tem mercado ou estruturas para o processamento do dendê.

Por outro lado, as áreas degradadas não são contínuas, e a implantação de grandes projetos de plantio obrigatoriamente levaria a desmatamentos das faixas intermediárias de floresta. Os impactos de uma dendeicultura massiva sobre um bioma tão megadiverso como a Amazônia também são imensuráveis, assim como são imprevisíveis os efeitos sobre as comunidades tradicionais e sobre a agricultura familiar da região.

Quanto à participação do dendê na produção de biodiesel, a porcentagem do óleo convertido em agrocombustível é muito pequena. O dendê no Norte, assim como a mamona no Nordeste do país, goza de incentivos especiais se vinculado ao Selo Combustível Social do Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel (PNPB), mas o baixo preço pago pelo combustível, se comparado ao do óleo cru, não tem se mostrado economicamente compensador.

As características positivas poderiam fazer do dendê uma alternativa econômica bem-vinda para a agricultura familiar, se cultivado em sistemas agroflorestais, em pequena escala e de forma autônoma. Mas esta não parece ser a opção prioritária das políticas públicas. Não obstante sua alta rentabilidade, o cultivo de dendê em larga escala tem um alto custo de implantação e manutenção, modelo que tende a transformá-lo em exclusividade do grande agronegócio, com eventuais projetos de integração da agricultura familiar.

Autor: sakamoto - Categoria(s): Sem categoria Tags:
26/11/2008 - 15:33

Petrobras é excluída do Índice de Sustentabilidade da Bovespa

A Petrobras foi excluída do Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) da Bovespa, que reúne empresas que se destacariam por seu compromisso com a responsabilidade social. O motivo seria o não cumprimento por parte da empresa de resolução do Conama que determina a redução do teor do enxofre no diesel a partir de janeiro de 2009. A decisão foi tomada pelo Conselho do ISE, que também excluiu as empresas Aracruz, CCR Rodovias, Copel, Iochpe-Maxion e WEG.

De acordo com nota do Movimento Nossa São Paulo, a empresa foi uma das responsáveis pelo não cumprimento da resolução e na postergação por vários anos do início de uso de diesel mais limpo. A grande quantidade de partículas de enxofre no diesel brasileiro é responsável por graves doenças respiratórias na população e pela morte prematura de aproximadamente 10 mil pessoas por ano.

Para ler os esclarecimentos divulgados pela Petrobras a respeito da questão do enxofre, clique aqui.

Autor: sakamoto - Categoria(s): Sem categoria Tags:
25/11/2008 - 15:53

Acusado de chacina recebe medalha em Minas Gerais

Antério Mânica, prefeito reeleito de Unaí, foi um condecorados ontem com a Medalha da Ordem do Mérito Legislativo, em cerimônia promovida pela Assembléia Legislativa de Minas Gerais, realizada no Palácio das Artes e “aplaudida por mais de mil convidados”, como explica o site da instituição. Para ver a lista completa dos agraciados, clique aqui,

A condecoração deixou entidades da sociedade civil bastante surpresas, uma vez que o prefeito é acusado de ser o mandante da Chacina de Unaí.

Em 28 de janeiro de 2004, quatro funcionários do Ministério do Trabalho e Emprego foram assassinados em uma emboscada enquanto realizavam uma fiscalização rural de rotina na região de Unaí, Noroeste de Minas Gerais. O caso ganhou repercussão na mídia nacional e internacional, o que levou o governo federal a uma verdadeira caçada aos executores e mandantes do crime. Foram apontados como mandantes dos assassinatos os fazendeiros Norberto e Antério Mânica, que figuravam entre os maiores produtores de feijão do mundo. Ambos chegaram a ser presos, mas hoje respondem ao processo em liberdade. Os executores estão presos aguardando julgamento. Após isso, Antério foi eleito prefeito de Unaí pelo PSDB, ganhando fórum privilegiado.

A ação entregue à Justiça afirmou que a motivação do crime foi o incômodo provocado pelas insistentes multas impostas pelos auditores. Nelson José da Silva seria o alvo principal. Ele já havia aplicado cerca de R$ 2 milhões em infrações aos Mânica por descumprimento de leis trabalhistas.

Como perguntou um amigo: o que falta agora? Um desagravo oficial do Estado?

Autor: sakamoto - Categoria(s): Sem categoria Tags:
22/11/2008 - 12:41

Dona de hotel em Natal é flagrada com escravos no Pará

Entre o final de outubro e o início de novembro, uma ação do grupo móvel de fiscalização do governo federal libertou cinco trabalhadores da fazenda São Judas Tadeu, em São Félix do Xingu, no coração do Estado do Pará. Porém, nenhum deles recebeu ainda os seus direitos trabalhistas, apesar do empregador ter recursos para tanto.

De acordo com a Comissão Pastoral da Terra, a propriedade, destinada à criação de bois, possui cerca de 5 mil hectares e é de propriedade de Coracy Machado Kern, dona do hotel Natal Dunnas, em Ponta Negra, região turística da capital potiguar.

Em sua página na internet, o Dunnas cobra diária de R$ 320,00 para a suíte master – valor não muito distante de um salário mínimo. Veja uma imagem em 360 graus do hotel.

Em junho e setembro, trabalhadores fugitivos denunciaram trabalho escravo na propriedade. O número de libertados seria maior, mas diante das péssimas situações a que estavam submetidos, muitos trabalhadores tentaram e conseguiram ir embora.

“Gatos” (contratadores a serviço do fazendeiro) aliciaram pessoas para a derrubada de mata. Os alojamentos eram precários e o mato fazia papel de banheiro. A água utilizada para beber, cozinhar, tomar banho e lavar roupa era a mesma usada pelo gado, que deixavam por lá seus excrementos. A alimentação era composta de arroz, feijão, farinha e carne estragada. Pessoas chegaram a adoecer por causa da qualidade da comida, mas não tiveram socorro médico. A fazenda possuía uma cantina que vendia botina, foice, esmeril, lima (equipamentos de proteção individual que deveriam ser fornecidos gratuitamente), além de fumo, caderno, sabão. Todos os objetos eram anotados em um caderno de dívidas pelo gato e descontados dos trabalhadores, resultando em servidão por dívida. Eles não recebiam salário.

Há trabalhadores que permaneceram por mais de um ano ligados à fazenda. Segundo eles, foram vítimas de humilhações. As péssimas condições de trabalho na fazenda levaram a equipe móvel a lavrar 47 autos de infração.

Apesar de tudo isso, Coracy se negou a pagar o montante devido (que soma R$ 99.729,15, de acordo com informações do Ministério do Trabalho e Emprego). O grupo móvel negociou por uma semana, mas a empresária não teria demonstrado preocupação com a situação dos empregados.

Diante disso, o Ministério Público do Trabalho (MPT) solicitou à Justiça do Trabalho de Xinguara o bloqueio das contas bancárias da empresária para possibilitar o pagamento dos trabalhadores. Para impedir o bloqueio, a fazendeira pediu para que uma caminhote fosse dada como garantia.

Por enquanto, eles vão receber apenas o seguro-desemprego garantido pelo Ministério do Trabalho e Emprego aos libertados da escravidão. Porém, o recurso só começa a ser liberado mais de um mês após a libertação. Até lá, eles devem contar com a própria sorte.

Autor: sakamoto - Categoria(s): Sem categoria Tags:
22/11/2008 - 09:06

Conferência paralela divulga declaração contra agrocombustíveis

Enquanto era realizada a conferência internacional sobre biocombustíveis, nesta semana, no Hotel Hyatt em São Paulo, houve um evento paralelo envolvendo movimentos sociais, organizações da sociedade civil e representantes de universidades e institutos de pesquisa para discutir os impactos, prognósticos e alternativas para a produção de energia com matriz agrícola. Ao final, o “Seminário Internacional Agrocombustíveis como obstáculo à construção da Soberania Alimentar e Energética” divulgou uma declaração que publico aqui na íntegra:

“Nós, organizações e movimentos sociais do Brasil, Argentina, Colômbia, Costa Rica, Bolívia, El Salvador, México, Equador, Paraguai, Tailândia, Holanda, Suécia, Alemanha e Estados Unidos, reunidos em São Paulo de 17 a 19 de Novembro de 2008.

Discordamos radicalmente do modelo e da estratégia de promoção dos agrocombustíveis: entendemos que estes não são vetores de desenvolvimento, nem tampouco de sustentabilidade. Esta estratégia representa um obstáculo à necessária mudança estrutural nos sistema de produção e consumo, de agricultura e de matriz energética, que responda efetivamente aos desafios das mudanças climáticas.

Afirmamos que:
O modelo de agricultura industrial, onde se inserem os agrocombustíveis, é intrinsecamente insustentável, pois apenas se viabiliza através da expansão das monoculturas, da concentração de terras, do uso intensivo de agroquímicos, da superexploração dos bens naturais comuns como a biodiversidade, a água e o solo. Os agrocombustíveis representam uma grave ameaça à produção de alimentos. Independentemente dos cultivos utilizados para a produção de energia, comestíveis ou não, trata-se da competição por terra agricultável e por água.

A produção em escala industrial de agrocombustíveis, ao expandir a fronteira agrícola, soma-se à expansão do conjunto do agronegócio – cujos impactos dinâmicos e efeitos cumulativos são o principal vetor de desmatamento e destruição de ecossistemas em todo o mundo, e no Brasil é responsável pela destruição da Amazônia, do Cerrado e outros.

No Brasil, o setor sucroalcooleiro não se sustenta sem o financiamento público: a promoção dos programas governamentais de agrocombustíveis historicamente tem sido caracterizada por incentivos e subsídios governamentais diretos (como financiamentos públicos do BNDES, em grande parte oriundos do FAT) e indiretos (como não penalização das evasões fiscais e perdão de dívidas).

O setor sucroalcooleiro conta com a conivência do governo quanto ao descumprimento das legislações trabalhistas e ambientais: Entre os impactos da produção de etanol no Brasil destacamos a superexploração e as condições degradantes de trabalho e a utilização de mão de obra escrava; a contaminação dos solos, do ar e da água e redução da biodiversidade; o encarecimento das terras e a concentração fundiária, que fragilizam ainda mais os programas de reforma agrária e promovem, concomitantemente, um processo brutal de invasão de territórios de populações tradicionais e povos indígenas e de expropriação das terras de pequenos e médios agricultores; e a ameaça à produção dos alimentos que são consumidos no país. A extrangeirização da terra, seja através da compra ou contratos de arrendamento, para a produção de agroenergia, também é um fator recente e extremamente preocupante, pois hipoteca as áreas de terr as agriculturáveis disponíveis e as condições estruturais de produção de alimentos.

Denunciamos que a estratégia de difusão internacional do modelo agroenergético do governo brasileiro, através da ação de seus ministérios, em especial o Itamaraty, e instituições financeiras e de pesquisa, como BNDES e Embrapa, reproduzirá os impactos e problemas do setor nos países da África, América Latina e Caribe.

Questionamos a estratégia de expansão dos agrocombustíveis através do mercado global: Nos opomos radicalmente ao acordo de difusão tecnológica Brasil/EUA, que visa a padronização e comoditização do etanol. Nos opomos às metas de substituições de combustíveis na União Européia e nos EUA que ampliarão a demanda por terras para produção de agrocombustíveis nos países do Sul.

Alertamos que nem o zoneamento, nem critérios ambientais e sociais irão tornar sustentável o modelo do agronegócio exportador: As propostas de certificação socioambientais dos agrocombustíveis, a tomar por experiências diversas (como FSC, RTSPO, RTSB), não minimizam, mas escamoteiam os impactos, servindo majoritariamente como um instrumento de legitimação do comércio internacional. O zoneamento agroecológico da cana proposto pelo governo brasileiro, assim como a difusão de conceitos como o de terras ociosas, degradadas ou marginais, legitima a expropriação dos territórios para a expansão das monoculturas e oculta os conflitos sociais.

Reafirmamos nossa luta de mais de uma década contra os transgênicos: o avanço dos agrocombustíveis, do etanol de segunda geração e da produção de bioplásticos inclui um componente estrutural de biotecnologia, transgenia e biologia sintética, fatores que representam uma nova frente de ameaça à biodiversidade.

O atual modelo de produção e consumo, promovido pelos países do Norte é insustentável e coloca em risco a vida do planeta. Diante da crise estrutural do sistema capitalista, que engloba a questão energética, ambiental, alimentar, financeira e de valores é preciso repensar o modelo de sociedade e de civilização.

Defendemos como proposta alternativa a soberania energética, que não poderá ser alcançada em detrimento da soberania alimentar:

A soberania energética e alimentar é o direito dos povos de planejar, produzir e controlar a energia e os alimentos nos seus territórios para atender as suas necessidades:
- Requer uma nova organização do modo de vida em sociedade e das relações entre campo e cidade.
- Pressupõe um sistema alimentar calcado na reforma agrária em bases ecológicas adaptada as particularidades de cada bioma, como real alternativa aos problemas da escravidão no campo, da superexploração dos trabalhadores rurais e de concentração e acesso a terra; o fortalecimento do campesinato e das economias locais; a valorização dos hábitos alimentares e culturais; a diminuição das distâncias entre produção e consumo e relações solidárias de comércio.

Este sistema é também menos dependente, mais eficiente pode ser autosuficiente em energia. É mais apropriado e resistente e é a real solução para a crise climática, provocada pelo modelo agroindustrial petro-dependente que é reproduzido na estratégia dos agrocombustíveis, a qual nos opomos.

A soberania energética pressupõe um modelo de produção e consumo de energia e de transporte baseado na racionalidade e economia, através da mudança nos atuais padrões de consumo, na diminuição dos fluxos planetários de bens e energia do sistema econômico globalizado, e em modelos de mobilidade que priorizem o transporte coletivo, público e de qualidade em detrimento dos automóveis individuais. Pressupõe a substituição de combustíveis fósseis por fontes renováveis de energia produzida de forma descentralizada e para atendimento das demandas locais, bem como o apoio de assistência técnica e desenvolvimento de pesquisas voltadas aos interesses dos povos.

O preço da energia deve ser baseado no custo da produção real e não na especulação financeira.Tampouco pode estar sob controle de grandes grupos econômicos.

A soberania alimentar e energética está calcada nos princípios da democracia e da descentralização, com participação popular no planejamento e tomadas de decisões e gestão da produção de alimentos e energia, incluindo o acesso e controle sobre os fundos públicos, e da solidariedade entre os povos, considerando as diferentes potencialidades, necessidades e soluções apropriadas em cada país ou região.

A energia e os alimentos são direitos dos povos, nos são dados pela terra, pela água e pela diversidade da natureza, não podem ser tratados como mercadorias.”

Autor: sakamoto - Categoria(s): Sem categoria Tags:
22/11/2008 - 08:54

Aviso aos leitores

Muitos devem ter percebido que o endereço deste blog mudou para http://colunistas.ig.com.br/sakamoto. Há um redirecionador do endereço antigo (blogdosakamoto.blig.ig.com.br) para o novo, mas quem assinava o RSS do anterior terá que se cadastrar novamente no novo site para continuar recebendo os posts. Peço desculpas pelo transtorno.

Mas, se serve de consolo, tendo migrado para o sistema da wordpress o site está mais bonito e com mais ferramentas que antes.

Autor: sakamoto - Categoria(s): Sem categoria Tags:
19/11/2008 - 23:27

Síndrome da Cegueira Sucro-Seletiva

Brasília – Um rápido serviço de utilidade pública. Abaixo, os nomes de empregadores que foram flagrados pelo grupo móvel de fiscalização do governo federal com trabalhadores em situação análoga à de escravo neste ano. Entre parênteses, o número de pessoas libertadas. Enquanto você lê este texto, alguma outra deve ter sido incluída na lista, pois as inspeções dessa equipe do governo federal ocorrem em ato contínuo. Mas as 13 a seguir dão um retrato da situação e dos estados em que o problema tem ocorrido.

- Alvorada do Bebedouro S/A – Açúcar e Álcool (33), Guaranésia (MG)
- Central Energética Paraíso S/A (Cepar) (8), São Sebastião do Paraíso (MG)
- Agrovale – Companhia Industrial Vale do Curu (141), Paracuru (CE)
- Nelson Donatel (126), Iguatemi (MS)
- Usinas Itamarati S/A (67), Nova Olímpia (MT)
- Usina Fortaleza Açúcar e Álcool (244), Porteirão (GO)
- Agrisul Agrícola (55), Icém (SP)
- Elcana Goiás Agroenergética (95), Jataí (GO)
- Agro Pecuária Campo Alto S/A (421), Quirinópolis (GO)
- Brenco – Companhia Brasileira de Energia Renovável S.A (17), Campo Alegre (GO)
- Laginha Agro Industrial S.A (52), União dos Palmares (AL)
- Penedo Agroindustrial S.A (203), Penedo (AL)
- Usina Santa Clotilde (401), Rio Largo (AL)

Uma observação: enquanto parte do governo federal atua no combate a esse crime, outra insiste em negá-lo. Isso demonstra que a Esplanada dos Ministérios é vítima da famigerada Síndrome da Cegueira Sucro-Seletiva. Doença cruel, muito cruel, ela ataca qualquer funcionário público que não tenha sido inoculado com um mínimo de bom senso, de conhecimento histórico da exploração do trabalho e ou de capacidade de respeitar os direitos fundamentais. Ou que tenha em seu DNA propensão a defender primeiro o comércio, depois os direitos humanos.

Também acomete representantes de governos estaduais. Atinge, aí, muitas vezes sua forma mais letal.

Autor: sakamoto - Categoria(s): Sem categoria Tags:
18/11/2008 - 14:25

O século 21 de James Bond e Evo Morales

Se você pretende assistir ao filme “007 – Quantum of Solace”, não termine de ler este post. Ele conta partes do filme. Um spoiler, por assim dizer.

Um sujeitinho ruim, dono de uma ONG picareta de ecologia, está mancomunado com líderes mundiais, como os dos EUA, para apoiar um golpe militar contra o governo eleito da Bolívia (não falam no nome de Evo Morales, mas dão indícios, ao chamá-lo de líder “marxista”). Com isso, tentam ter acesso facilitado ao petróleo do país, uma vez que a atual administração estaria dificultando o diálogo. Na verdade o sujeitinho ruim quer ficar com a água, o recurso natural mais importante deste século, do nosso vizinho e cobrar horrores pelo seu acesso. O agente criado por Ian Fleming descumpre as ordens do governo britânico, que é um dos mancomunados, e é caçado pela CIA quando tenta vingar-se de quem matou sua namorada no filme anterior. Com isso, acaba impedindo que o sujeitinho ruim tenha sucesso na empreitada. É claro que, no final, o candidato a ditador é morto, o sujeitinho ruim também e o acesso à água para as populações andinas é liberado.

OK, o filme é um blockbuster e como tal tem um objetivo muito bem delimitado: fazer dinheiro. E, em boa medida, alienante, violento, estereotipado e sexista – quem já assistiu a algum 007 sabe do que estou falando.

Contudo os temas do enredo são realistas e atuais – a guerra pela água na Bolívia e as pressões externas por petróleo na América do Sul. Não tenho pretensão de que esse seja o padrão dos próximos filmes do agente. Mas, terminada a Guerra Fria, é interessante que um filme de 007 coloque governos nacionais do Ocidente e grandes corporações como inimigos e indígenas do Altiplano como vítimas. Ainda que seja apenas no campo do faz-de-conta.

Autor: sakamoto - Categoria(s): Sem categoria Tags:
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