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Arquivo de outubro, 2008

27/10/2008 - 21:46

Escravos, Carvão, Indústria, Automóveis, Você

Leitores me pediram para trazer um dos estudos de caso que a Repórter Brasil e a Papel Social lançaram no seminário “Conexões Sustentáveis São Paulo – Amazônia”, realizado por iniciativa do Movimento Nossa São Paulo e do Fórum Amazônia Sustentável. O objetivo de Quem se beneficia com a destruição da floresta é aumentar o nível de informação sobre as relações econômicas para contribuir com uma mudança no modelo de desenvolvimento que está consumindo a Amazônia e sua gente.

Trago aqui um caso de problema no setor siderúrgico, que começa em uma fazenda que usou trabalho escravo e termina nas concessionárias de automóveis:

A produção de carvão vegetal é, certamente, uma das atividades mais insalubres e perigosas a que um ser humano pode se dedicar, por conta das altíssimas temperaturas dos fornos que queimam os pedaços de madeira. Porém, os trabalhadores da fazenda Santa Terezinha, pertencente à A.S. Carvão e Logística, em Nova Ubiratã (MT), não tinham equipamentos básicos de proteção individual, como botas e luvas. Além disso, as instalações proporcionadas pelos empregadores eram precárias. De acordo com os fiscais do Ministério do Trabalho e Emprego, os funcionários da empresa dormiam em locais sem condições de alojar seres humanos, sem ventilação e iluminação. Além disso, o local onde ficava instalada a cozinha estava infestada de moscas, comprometendo a qualidade dos alimentos e a saúde dos carvoeiros. Por isso, os trabalhadores foram libertados da fazenda. Hoje, a A.S. Carvão e Logística aparece na “lista suja” do governo federal, que mostra quem se utilizou de trabalho escravo.

A Metalsider manteve relações comerciais com a empresa. Essa siderúrgica, localizada em Minas Gerais, tem capacidade para produzir até 360 mil toneladas por ano de ferro-gusa, principal matéria-prima do aço. Fornece para a indústria automotiva, e também exporta para Estados Unidos e países da Ásia.

Dentre os clientes da Metalsider, aparece a Teksid, pertencente ao grupo Fiat, também localizada em Minas Gerais. Ela fabrica peças de ferro fundido, como blocos de motor e discos de freio, que abastecem as principais montadoras de veículos instaladas no país. Uma parte considerável também é exportada: cerca de 30% das 300 mil toneladas produzidas por ano são vendidas para Argentina, Estados Unidos e Europa.

A Metalsider fornece ainda para o Grupo Continental, conhecida multinacional de origem alemã que fabrica pneus e outros produtos para a indústria automotiva. A companhia tem unidades industriais e escritórios espalhados em 36 países que empregam cerca de 150 mil funcionários. No ano passado, o faturamento do grupo atingiu 16 bilhões de euros.

Procurada pela pesquisa a direção da Metalsider forneceu as seguintes explicações: “Com relação à empresa A. S. Carvão e Logística, fomos informados que a mesma firmou Termo de Ajustamento de Conduta junto ao Ministério Público, já cumprido, e que por isso, a manutenção do nome desta empresa em Lista Suja é um equívoco que está sendo solucionado pela mesma. Desta forma, aguardamos posicionamento desta empresa, inclusive para que exclua o nome daquela lista, sob pena de não mais efetivarmos transações comerciais.”

Vale ressaltar que o cadastro de empregadores que utilizaram mão-de-obra escrava, conhecido como “lista suja”, é uma relação oficial mantida e divulgada pelo Ministério do Trabalho e Emprego. Nela são publicados os nomes de empregados que tiveram os processos administrativos de suas autuações transitados e confirmados. O Termo de Ajustamento de Conduta é um acordo feito com o Ministério Público para garantir que a empresa não incorra novamente nas mesmas infrações, e pode prever indenização aos trabalhadores ou à sociedade. Ou seja, mesmo com um TAC firmado, empregadores podem ser inseridos no cadastro, que é instrumento do Poder Executivo para o combate ao trabalho escravo. Uma vez incluída na relação, a pessoa física ou jurídica só tem seus dados retirados depois de dois anos. Isso se ela quitar todas as pendências trabalhistas e previdenciárias, além de não cometer novamente nenhuma irregularidade e passar por monitoramento do poder público.

Após a divulgação do estudo, a Agência Brasil procurou a Metalsider, que afirmou possuir centenas de fornecedores. A empresa disse que seria “inviável” manter um funcionário em cada um deles para analisar as condições de trabalho. Ressaltou ainda que fazem visitas e alertas freqüentes a seus fornecedores. De acordo com a Agência Brasil, mesmo estando ciente da situação do seu fornecedor, a Metalsider não confirmou ter deixado de consumir matéria-prima da A.S.

Também entramos em contato com a Teksid, que preferiu não se manifestar sobre o caso.

Já a diretoria da Continental emitiu nota oficial pela qual afirma ter “rígidos requisitos corporativos que exigem de todas as nossas plantas, a nível mundial, a certificação ISO 14001 que trata de aspectos ambientais e legais”. A empresa ainda afirma que cobra de seus fornecedores a mesma certificação, e que a Metalsider “tem a ISO 14001 desde 2006 e licença de operação expedida pelo órgão ambiental”. Por fim, a nota ainda afirma que a companhia “reafirma o seu compromisso, expresso através da sua ‘Política Ambiental Corporativa’, de priorizar os interesses humanos e as questões ambientais, sendo mandatório que todos os nossos parceiros e colaboradores sejam obrigados a seguir esses padrões”.

Se quiser ver mais estudos de caso como esse, clique aqui.

Autor: sakamoto - Categoria(s): Sem categoria Tags:
26/10/2008 - 08:08

Por um ar menos tóxico, por um combustível mais limpo

O Movimento Nossa São Paulo pediu para que o Ministério Público Federal não aceite a proposta apresentada pela Petrobras para compensar o descumprimento da resolução 315/2002 do Conselho Nacional do Meio Ambiente. A resolução determina a redução do teor de enxofre no diesel vendido em todo o Brasil para 50ppm (S-50), a partir de 1º de janeiro de 2009. Hoje, a proporção é de 500ppm de enxofre (S-500) nas regiões metropolitanas e de 2.000ppm no interior (S-2.000).

Menos enxofre no diesel significa um ar menos poluído, ou seja, menos internações e mortes por doenças respiratórias, hoje uma das principais causas de óbito nas grandes cidades.

O MPF está negociando com a Petrobras, as montadoras de veículos e distribuidoras de combustível as medidas de compensação que vão constar no termo, já que as empresas alegam a impossibilidade de cumprir a resolução na data prevista por problemas técnicos e necessidade de um cronograma maior para adaptação. De acordo com o Movimento, a proposta da Petrobras é considerada um retrocesso pelas entidades que estão se mobilizando pelo diesel mais limpo. A empresa propôs a distribuição do diesel S-50 em 2009 somente nas frotas de ônibus urbanos das cidades de São Paulo, Rio de Janeiro (em janeiro) e Curitiba (em agosto). O fornecimento em Porto Alegre, Belo Horizonte e Salvador seria em janeiro 2010. No interior, seria substituído o atual diesel S-2.000 pelo S-1.800.

Abaixo, a carta enviada à procuradora responsável pelo caso:
 
Prezada Ana Cristina Bandeira Lins, estamos extremamente chocados com a proposta que a Petrobrás apresentou para um possível acordo de compensação pelo descumprimento da resolução 315 do Conama. Caso esta proposta seja, aceita o Brasil terá, segundo recente publicação do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente – PNUMA, um diesel de padrão igual ao de países como a Argélia, Namíbia, Botsuana e Líbia (um dos piores do mundo). E continuará matando milhares de brasileiros, especialmente idosos e crianças. As 530 organizações sociais do Movimento Nossa São Paulo, as 1500 personalidades que assinaram o abaixo assinado pelo cumprimento da resolução 315 do Conama e a sociedade civil irão repudiar um acordo nos termos propostos pela Petrobrás.  A empresa tem suficientes recursos para oferecer (produzir ou importar) o diesel 50 ppm de enxofre para todo o Brasil a partir de janeiro de 2009. Esperamos que o Ministério Público seja irredutível na defesa do interesse público.

Autor: sakamoto - Categoria(s): Sem categoria Tags:
25/10/2008 - 08:52

A voz de Deus

Rio de Janeiro – Estou participando da 2a Reunião Científica sobre Trabalho Escravo Contemporâneo e Questões Correlatas na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Depois trago para este espaço parte das discussões realizadas nos três dias de encontro, pois o assunto agora é outro. Menos mundano, mais divino.

Levei um grupo de companheiros de luta que estavam no evento para conhecer o Pão de Açúcar. Embarcaram conosco no bondinho entre a Praia Vermelha e a Urca um grupo de simpáticas freiras, todas de branco da cabeça aos pés – e se não fosse os véus certamente veríamos os cabelos brancos das senhoras.

Uma delas, que aparentava uns 70 anos do alto dos seus 1,50 m, era a mais ansiosa antes do bondinho partir para a subida. Câmera na mão, olhava para trás, para frente, comentava com as amigas, agarrada à barra de segurança. Fitava a gente com cara de criança que ia ganhar brinquedo.

Poucos tempo depois, já estávamos chegando ao morro da Urca. Claramente decepcionada, virou-se para nós e com olhar de traquinagem bradou: “Rapidinho demais. Nem deu tempo de gozar!”

Das salesianas com quem dancei e cantei em Timor Leste, aos padres com quem enchi a cara de uísque em Angola, passando pelos dominicanos da Comissão Pastoral da Terra na Amazônia, que vivem a vida mais do que nós, sempre tive a sorte de me deparar com religiosos conectados com o plano terreno e seus vícios – que, para mim, são virtudes. O que mostra que eles entenderam perfeitamente o que os céus querem dizer. Afinal de contas, se Deus não tem senso de humor o que é o ornitorrinco?

O bonde que havia subido rapidamente, veio a baixo. Ouvia-se o comentário ser traduzido para inglês e espanhol e as risadas brotando naquele pedacinho de nações unidas, abençoado pelo bom humor divino.

Autor: sakamoto - Categoria(s): Sem categoria Tags:
24/10/2008 - 08:17

Para uns, “vale-chapinha” é política pública nas eleições

Rio de Janeiro – Você tem fome de que? Você tem sede de que?

Muitas mulheres de São Paulo são vítimas de violência doméstica, preconceito no trabalho, enfrentam jornadas triplas (trabalhadora, mãe e esposa), não têm direito à autonomia do seu corpo – que dirá de sua vida, pressionadas não só por pais e companheiros ignorantes mas também por uma sociedade que vive com um pé no futuro e o corpo no passado. A qual todos nós pertencemos e, portanto, somos atores da perpetuação de suas bizarrices. Discutimos muito sobre as mudanças estruturais pelas quais a cidade tem que passar, citando saúde, educação, transporte, segurança, mas esquecemos dos problemas ligados aos grupos que sofrem com o desrespeito aos seus direitos fundamentais. Que não conhecem classe social, cor ou idade.

A mídia também segue como atora de propagação desses preconceitos. Ao invés de colocar em pauta os problemas, brinca com o tema. Vale a pena ver a pérola do Grupo Estado de S. Paulo, em seu portal na internet, através de uma surreal pesquisa de opinião. Espero que seja apenas uma brincadeira infantil, caso contrário é hora do jornal começar a pensar mais “ÃO”…

Quais reivindicações femininas você faria ao Prefeito(a) eleito(a) no domingo?

Se todos os problemas estruturais da Cidade já estivessem resolvidos (Educação, Saúde, Transporte, Segurança …) que reivindicações femininas você faria?

Se eles não tirarem do ar, a enquete pode ser encontrada clicando aqui.

PS: O problema não é só colocar a enquete, é saber que tem gente que se digna a respondê-la.

Autor: sakamoto - Categoria(s): Sem categoria Tags:
23/10/2008 - 00:30

A voz do povo

Rio de Janeiro – Almocei em um botecão hoje – meu amigo queria matar a saudade de um bom PF. Na TV engordurada, presa à parede do estabelecimento, um programa começava a discutir o caso Eloá. Com voz grave, o repórter (como há pessoas que se prestam a isso?…) perguntava a moradores de Santo André se o namorado seqüestrador podia ser comparado a Alexandre Nardoni. Não vou fazer nenhuma análise do caso, mas tenho que fazer a ressalva que isso já virou esbórnia.

Imediatamente, um dos trabalhadores, provavelmente um dos pedreiros de uma obra próxima ao bar, reclamou em voz alta: “Pô, que sensacionalismo! Chega, né? Ficar falando disso vai trazer a menina de volta?” Seus companheiros e o próprio dono do bar concordaram. “O pessoal da TV parece que quer ganhar com a menina.” Mudaram de canal.

Essa é a opinião de todos? Nem de longe. Em uma espiral bizarra, polícia, mídia e sociedade se refestelam com o caso, que vai durar até a próxima desgraça.

Mas é interessante notar que, ao contrário do discurso de muitos, que justificam a cobertura intensa como uma resposta a uma suposta demanda do povo pelo assunto (Tostines vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais?) , parte desse “povo” também não agüenta mais.

Autor: sakamoto - Categoria(s): Sem categoria Tags:
20/10/2008 - 18:32

Um PC 486, um spam e o maior e-mail do mundo

Este post não tem relação nenhuma com os temas deste blog. Mas como eu estava refletindo sobre a velocidade com a qual o mundo mudou, achei pertinente.

No início da década de 90, chegou à casa dos meus pais um PC-AT 486. Na época, era uma sensação – não havia nada mais rápido. Meu pai atua com engenharia, então aquilo era visto como um instrumento de trabalho necessário e não um “brinquedo” – como ressaltava a minha mãe. Ou seja, havia até certa reverência à máquina branca, que desbancou a televisão e um vaso de estimação e ocupou o lugar de objeto mais importante da sala.

Os programas vinham em vários disquetes de 5¼ ou 3½ e levavam horas para serem instalados. Mas quem se importava? O ruído da impressora matricial mastigando a fita – que fazia o cachorro latir e só podia ser usada durante o dia, pois à noite acordava os vizinhos – era o estado da arte da tecnologia.

E, é claro, havia o acesso à rede. O computador da casa tinha uma placa de modem discado de 2400 bps de velocidade, com a qual eu acessava BBSs e trocava arquivos com amigos.

Um dia especial foi quando criei meu primeiro e-mail. Hoje, olhando daqui, me sinto um completo idiota. Com medo de não ser achado ou ser confundido com outra pessoa, criei o endereço leonardo.moretti.sakamoto@interconnect.com.br. Tirando os informes do provedor, nunca recebi uma mensagem sequer.

Feito esse preâmbulo, chego à história que motivou o post.

Na época, um amigo me ligou para fazer uma consulta:

- Cara, você que sabe dessas coisas de tecnologia [ter um computador em casa dava, imediatamente, um título honoris causa em tecnologia - mesmo que a pessoa não soubesse o que era um HD. E se eu tivesse ganhado um poodle, seria especialista em tosa?], me explica como é que eu faço para mandar um e-mail para todo mundo.
- Todo mundo quem, amigos, família?
- Não, não sacaneia. Você entendeu: todo mundo.
- Todo mundo quem?
- Todo mundo, o mundo inteiro. Todos. Sabe a loja do meu pai? Então, ele pediu para eu mandar um e-mail para todo mundo que tem e-mail fazendo uma propaganda [assim nasceu o spam...]
- Sei lá se dá. Coloca “all” no destinatário, de repente chega para quem você tem registrado.
- Sabe de uma coisa, você é o maior picareta, não entende de nada mesmo. Vou deixar em branco. Acho que deve dar.

Anos depois, meu pai vendeu o 486 e comprou outro, mais novo. Lembro que minha mãe ficou possessa porque iam pagar apenas uma parte ínfima do valor que havíamos pago, em suadas e longas prestações. Não adiantou falar que a tecnologia avança, barateira, Lei de Moore, essas coisas. Se o carro podia ser vendido por mais da metade do preço de compra, por que o micro não?

Acabei de fazer um download de um arquivo de 50 Mb. Demorou menos tempo que escrever este post. Ou seja, a tecnologia me fez ganhar muito tempo nas duas últimas décadas.

Tempo que alguém comeu, porque eu não vi.

Autor: sakamoto - Categoria(s): Sem categoria Tags:
18/10/2008 - 23:12

Milícias privadas atacam acampamento no Pará

Segue nota divulgada hoje pela Comissão Pastoral da Terra e pela Federação dos Trabalhadores da Agricultura no Pará sobre ataque que um acampamento de trabalhadores sem-terra teria sofrido no município de Redenção, Sul do Estado. A criação de milícias privadas, que ocupam o lugar do poder público e fazem papel de polícia e justiça, tem sido cada vez mais freqüente na região, o que tem preocupado movimentos sociais e defensores dos direitos humanos.

“No dia 16 de outubro ultimo, cerca de 08 pistoleiros atacaram o Acampamento Sardinha, organizado na Fazenda Vaca Branca, conhecida também por Fazenda Santa Maria, no Município de Redenção Sul do Pará.

Eles estavam encapuzados e fortemente armados, com pistolas, revolveres e espingardas, dispararam vários tiros, humilharam e ameaçaram as pessoas de morte, incendiaram os barracos com tudo o que tinham dentro, inclusive mantimentos e expulsaram as 27 famílias ali presentes. Apavoradas, as famílias se refugiaram na cidade de Redenção, na casa de familiares e amigos.

O crime foi comunicado à DECA (Delegacia de Conflitos Agrários), que lamentavelmente limitou-se a registrá-lo como ameaça, quando está configurado o porte ilegal de arma, disparos de arma de fogo, incêndio e formação de quadrilha ou bando.

É escandalosa a forma com que a policia do Pará continua a tratar os crimes praticados pelas milícias privadas contra os trabalhadores rurais sem terra. Agindo assim o Delegado da DECA, Newton Brabo já decretou a impunidade dos pistoleiros.

Crimes dessa natureza são feitos sempre por encomenda. Neste caso, a fazendeira chama-se Maria de Fátima Gomes Ferreira Marques, que já obteve na justiça uma decisão liminar de manutenção de posse, desde o dia 17.09.07. Pergunta-se: será que o Delegado Newton Brabo vai cumprir o seu dever legal de indiciar a proprietária como mandante do crime? É com a certeza da impunidade que os fazendeiros do Pará preferem lançar mão das milícias privadas a optar pelo regular cumprimento de ordem judicial.

Ressalte-se que os trabalhadores rurais já vinham sofrendo ameaças constantes desde o inicio de setembro de 2008 e já haviam comunicado o fato à DECA. O Acampamento é formado por aproximadamente 70 famílias que há mais de um ano ocupam a área, para pressionar o INCRA a realizar vistoria do imóvel a fim de verificar o cumprimento de sua função social.

Redenção-PA, 18 de outubro de 2008″

Autor: sakamoto - Categoria(s): Sem categoria Tags:
18/10/2008 - 09:21

Participe do abaixo-assinado pela punição a escravagistas

Nesta sexta (17), dezenas de instituições e organizações da sociedade civil, empresariais, da justiça, do ministério público e do governo se juntaram em uma mobilização nacional pela coleta de assinaturas para a aprovação da PEC do Trabalho Escravo. Essa proposta de emenda constitucional prevê o confisco de terras onde trabalho escravo for encontrado.

Aos 120 anos da Lei Áurea e aos 60 da Declaração Universal dos Direitos Humanos, brasileiros continuam sendo traficados para trabalho escravo: 6 mil deles foram libertados em 2007 de um total de 31 mil encontrados nessa situação desde 1995 pelo governo federal. Nesse período, a Comissão Pastoral da Terra registrou denúncias envolvendo mais de 50 mil trabalhadores “aprisionados por promessas”, obrigados a trabalhar em fazendas e carvoarias, em condições desumanas e impedidos de romper a relação com o empregador.

Sua maior concentração está nas regiões de expansão agropecuária da Amazônia (coincidindo com o Arco do Desflorestamento) e do Cerrado. O trabalho escravo é com freqüência associado a desmatamento ilegal, na formação de pastos ou instalação de lavouras. Contudo, há também casos no Sul e no Sudeste do país. Em 2007, metade dos trabalhadores foi resgatada na Região Centro-Oeste e em canaviais.

Empregadores adeptos desse sistema são, em sua maioria, grandes proprietários, produzindo com tecnologia de ponta lá mesmo onde exploram essa “gente descartável”. Arcaico e moderno convivem em busca do lucro fácil e abastecem o comércio nacional e internacional.

É teoricamente fácil punir quem ameaça a liderança do Brasil no mercado mundial de commodities agrícolas e envergonha cada brasileiro: indenizações milionárias são aplicadas contra escravistas modernos; signatários do Pacto Nacional das empresas pela erradicação do trabalho escravo têm cortado negócios com eles. Porém muitos persistem e até reincidem. Nenhum deles foi para a cadeia. Nenhum perdeu sua propriedade. Os criminosos permanecem livres, ricos proprietários, e até elogiados pelo tributo que trazem aos cofres nacionais.

Um meio simples de acabar com isso está nas mãos do Congresso. Chama-se PEC 438/2001 e acrescenta a questão do trabalho escravo ao artigo da Constituição que prevê a expropriação das terras com plantio de psicotrópicos. As propriedades confiscadas seriam destinadas à reforma agrária, uma das medidas mais urgentes para gerar alternativas decentes de trabalho no campo.

No dia 12 de março, em um evento com mais de mil pessoas em Brasília, cobrou-se da Câmara a aprovação da PEC, que já foi votada no Senado e, em primeiro turno, pelos deputados. Continua ali, parada, sob resistência da bancada ruralista. Dá para tolerar que nossos representantes continuem sentados em cima de uma questão como essa?

Se você acha que não, clique aqui e endosse o abaixo-assinado.

Autor: sakamoto - Categoria(s): Sem categoria Tags:
16/10/2008 - 19:14

Direitos quilombolas e trabalho escravo no Vladimir Herzog

Duas belas reportagens para internet vão ser agraciadas com o Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos este ano. André Deak, Rodrigo Savazoni, Spensy Pimentel e equipe, pela Agência Brasil, ganharam com “Nação Palmares”. E Lucio Lambranho, do Congresso em Foco, receberá a menção honrosa por “Vida e Morte Correntina”.

Já tinha indicado as duas reportagens neste blog e faço novamente agora com muito prazer. Porque jornalismo bom infelizmente não é lido, reproduzido e copiado com a freqüência necessária.

Para assistir ao documentário interativo “Nação Palmares”, sobre a luta da população quilombola pelo reconhecimento de seus direitos no Brasil, clique aqui.

Para ler a série de reportagens “Vida e Morte Correntina” sobre o drama de 79 trabalhadores rurais do Piauí, submetidos a condições análogas de escravo e vítimas de um grave acidente rodoviário no interior da Bahia, clique aqui.

Autor: sakamoto - Categoria(s): Sem categoria Tags:
15/10/2008 - 10:16

O que podemos fazer para salvar a Amazônia?

A Repórter Brasil e a Papel Social lançaram ontem no seminário “Conexões Sustentáveis São Paulo – Amazônia” o estudo “Quem se beneficia com a destruição da floresta”. O objetivo é aumentar o nível de informação sobre as relações econômicas para contribuir com uma mudança no modelo de desenvolvimento predatório que está consumindo a Amazônia e sua gente.

Grilagem de terras, corte ilegal de madeira, avanço de pastagens, monocultura agrícola e mineração predatória são os principais combustíveis da devastação da Amazônia. Em nome de um suposto progresso econômico e da geração de empregos, a floresta vem abaixo, quase sempre sem levar em conta as questões ambientais e a responsabilidade social. O manejo sustentável é uma exceção e o exemplo clássico é a madeira: ao menos 80% das árvores são derrubadas de forma predatória.

Povos indígenas, comunidades tradicionais e pequenos agricultores estão no topo da lista dos que saem perdendo. No entanto, essa relação é ainda mais longa, uma vez que não só o Brasil, mas o planeta inteiro é afetado pela exploração inconseqüente dos recursos naturais, já que a floresta em pé é decisiva para a manutenção da qualidade de vida de milhões de pessoas. Entre outras funções vitais, ela regula o regime de chuvas e a temperatura média de uma extensa área do globo.

Se tanta gente sai perdendo, quem ganha com a destruição da Amazônia? Essa foi a pergunta que originou este estudo e motivou esta pesquisa, que identificou exemplos de cadeias de responsabilidades ligadas ao problema.

A destruição da Amazônia tem uma forte relação com a economia de mercado. Na ponta da cadeia produtiva, diversos atores se beneficiam. Madeireiras, frigoríficos e agroindústrias estão diretamente ligadas ao problema, pois compram de fornecedores que estão na linha de frente do desmatamento. Posteriormente, distribuem produtos industrializados para uma ampla rede de compradores. O resultado final chega à casa dos paulistanos. Supermercados vendem carne produzida por frigoríficos que, por sua vez, compraram gado de fazendeiros que cometeram crimes ambientais e trabalhistas. Prédios são construídos com madeira oriunda de produtores que já foram flagrados destruindo a floresta.

Multinacionais que vendem produtos de madeira certificada, e que se dizem preocupadas com o aquecimento global, podem adquirir matéria-prima de uma madeireira multada nove vezes nos últimos quatro anos por desrespeitar a legislação ambiental? Supermercados podem comercializar carne comprada de um frigorífico que abate gado oriundo de produtores flagrados por desmatamento ilícito e trabalho escravo? Restaurantes podem vender hambúrgueres de produtores do bioma amazônico quando seus documentos de responsabilidade social avisam o consumidor de que isso não acontece? O poder público pode realizar obras de infra-estrutura com madeira comprada de uma empresa que se relaciona com madeireiras que atuam em áreas embargadas e são acusadas de crimes ambientais?

Tais perguntas precisam de respostas imediatas. A responsabilidade social empresarial deve ser exercida em sua plenitude e não apenas em ações de marketing social ou de filantropia. O consumidor precisa urgentemente ser educado e se educar para não comprar, sob nenhuma condição, produtos que tenham crimes ambientais e trabalhistas em sua cadeia de produção. O governo precisa tornar eficiente sua capacidade de fiscalização, educação e repressão às ações criminosas. O pode judiciário deve se agilizar e fazer o que for necessário para evitar que um processo por destruição ambiental ou por trabalho escravo se arraste por anos. Os agentes financiadores, públicos e privados, não podem mais injetar recursos em processos predatórios, seja através de compras públicas ou de financiamento à produção.

O ato da compra é um ato político poderoso. Através dele damos um voto de confiança para a forma pela qual determinada mercadoria é produzida. Um exercício democrático que não é exercido apenas a cada quatro anos, mas no nosso dia-a-dia. E que pode ditar o destino da maior floresta tropical do mundo e de sua gente. Ou seja, também cabe a cada um de nós, paulistanos, decidir o futuro da Amazônia.

Autor: sakamoto - Categoria(s): Sem categoria Tags:
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