iG
iBest BrTurbo

Publicidade

Publicidade

Arquivo de março, 2008

31/03/2008 - 19:34

Abaixo-assinado pela aprovação da PEC do Trabalho Escravo

Há anos quem atua no combate ao trabalho escravo luta pela aprovação de uma proposta de emenda constitucional que prevê o confisco das terras de escravagistas e sua destinação para a reforma agrária. No dia 12 de março, quase mil pessoas foram a um evento no Congresso Nacional seguido de um abraço simbólico no prédio, como noticiei aqui.

Vocês podem imaginar a dificuldade de projetos desse tipo andarem em Brasília devido à grande quantidade de deputados e senadores da bancada ruralista. Recentemente, eles até colocaram a PEC 438/2001 (o nome da criança) como a quarta proposta legislativa na lista das que mais podem trazer danos ao agronegócio. A economia antes dos direitos humanos.

O Movimento Nacional pela Aprovação da PEC do Trabalho Escravo começou um abaixo-assinado para pressionar o parlamento e fazer a proposta andar. Ele já estava circulando em papel, com milhares de assinaturas. A intenção é checar a um milhão e entregar à Câmara dos Deputados como forma de pressão.

Para assinar a versão eletrônica, clique aqui. Ou entre em: http://www.reporterbrasil.org.br/abaixo-assinado.php

Passem adiante. Segue o texto do abaixo-assinado.

Abaixo-assinado pela aprovação da PEC do Trabalho Escravo

O Congresso Nacional tem a oportunidade de promover a Segunda Abolição da Escravidão no Brasil. Para isso, é necessário confiscar a terra dos que utilizam trabalho escravo. A expropriação das terras onde for flagrada mão-de-obra escrava é medida justa e necessária e um dos principais meios para eliminar a impunidade.

A Constituição do Brasil afirma que toda propriedade rural deve cumprir função social. Portanto, não pode ser utilizada como instrumento de opressão ou submissão de qualquer pessoa. Porém, o que se vê pelo país, principalmente nas regiões de fronteira agrícola, são casos de fazendeiros que, em suas terras, reduzem trabalhadores à condição de escravos – crime previsto no artigo 149 do Código Penal. Desde 1995, mais de 28 mil pessoas foram libertadas dessas condições pelo governo federal.

Privação de liberdade e usurpação da dignidade caracterizam a escravidão contemporânea. O escravagista é aquele que rouba a dignidade e a liberdade de pessoas. Escravidão é violação dos direitos humanos e deve ser tratada como tal. Se um proprietário de terra a utiliza como instrumento de opressão, deve perdê-la, sem direito a indenização.

Por isso, nós, abaixo-assinados, exigimos a aprovação imediata da Proposta de Emenda Constitucional 438/2001, que prevê o confisco de terras onde trabalho escravo foi encontrado e as destina à reforma agrária. A proposta passou pelo Senado Federal, em 2003, e foi aprovada em primeiro turno na Câmara dos Deputados em 2004. Desde então, está parada, aguardando votação.

É hora de abolir de vez essa vergonha. Neste ano em que a Lei Áurea faz 120 anos, os senhores congressistas podem tornar-se parte da história, garantindo dignidade ao trabalhador brasileiro.

Pela aprovação imediata da PEC 438/2001!

Autor: sakamoto - Categoria(s): Sem categoria Tags:
30/03/2008 - 19:46

Passeata na Paulista pede fim do cerco à Faixa de Gaza

Dizem que cada palestino expulso de suas terras – e não são poucos desde 1948, quando foi criado o Estado de Israel – guarda uma chave que carrega sempre consigo. Não é a chave de seu carro, de seu escritório ou do barraco de lona perdido em algum lugar entre a Jordânia, a Síria e o Iraque.

É a chave de sua casa, na terra apontada como sagrada por sua religião e para onde eles nunca mais puderam voltar. Provavelmente, o que conheciam por lar não existe mais. Afinal, 60 anos se passaram. Mas continuam levando em seus bolsos e bolsas o símbolo do retorno exigido – e merecido.

Hoje, 30 de março, é o dia da terra Palestina. Em todo o mundo, milhares de pessoas protestam contra a opressão desse povo, dilacerado por muros e postos de controles israelenses, que têm suas casas destruídas e sua liberdade cerceada. Aqui no Brasil, uma das mobilizações aconteceu na avenida Paulista, em São Paulo. Não eram muitas pessoas, pelas minhas contas pouco mais de 200 passaram por lá.

Agradeceram a acolhida do governo brasileiro, mas também pediram que não fossem selados acordos comerciais com Israel enquanto o país mantivesse sua política para Gaza. Lembraram seus mortos, como não podia deixar de ser. A caminhada também foi curta, da praça Osvaldo Cruz até o prédio da Gazeta, quase nada se comparada com a longa jornada por uma paz duradoura em sua terra natal.

Paz que nem se avizinha no horizonte.


O bebê é brasileiro, filho de um casal de refugiados palestinos que vieram para o Brasil tentar uma nova vida.

Autor: sakamoto - Categoria(s): Sem categoria Tags:
30/03/2008 - 12:01

Pelo fim do cerco à Faixa de Gaza

Esta acontecendo, neste momento, na avenida Paulista, um ato público pelo fim do cerco israelense à Faixa de Gaza e por um Estado Palestino independente. Apesar de uma fina chuva que cai, palestinos (alguns dos quais refugiados que chegaram há pouco tempo no Brasil) e pessoas e organizações solidárias à situação deplorável em que se encontra esse povo participam da caminhada que deve acabar em frente o prédio da Gazeta.

Assim que terminar por aqui, eu envio fotos da passeata e mais alguns comentários.

Autor: sakamoto - Categoria(s): Sem categoria Tags:
28/03/2008 - 19:25

Calcule aqui o quanto você estraga o planeta

Pegada ecológica é um método que foi desenvolvido para avaliar a quantidade de recursos naturais necessários para produzir o que uma indivíduo consome durante um ano e assimilar os resíduos (lixo, emissão de gás carbônico, esgoto, entre outros) que ele produz. Basicamente é uma conta (entre o consumo e a capacidade da natureza de suportá-lo) que tem como resultado um indicador do impacto que você causa no mundo.

Sugiro este site na internet que faz uma estimativa da pegada individual de cada um. Você pode escolher o Brasil apontando com a seta e depois o idioma (provavelmente, português). Ele diz quantos planetas seriam necessários se todos na Terra tivessem o mesmo hábito de consumo que o nosso. E depois ajuda a calcular como diminuir esse impacto mudando certos hábitos.

Ecological Footprint Quiz

(Tirei uma boa nota em vários dos itens, mas me lasquei com o avião. Apesar de não ter carro e andar bastante de ônibus e metrô, toda a semana eu pego um avião – um dos meios de transporte mais poluentes que existe. Com isso, seriam necessários 3,8 planetas se o mundo fosse feito por pessoas como eu…)

O futuro do planeta depende de uma mudança drástica nos padrões de consumo dos mais ricos (e do sistema que foi estruturado para manter esse padrão de consumo). Se o mundo comprasse e descartasse coisas como a sociedade norte-americana, precisaríamos de outros quatro planetas iguais ao nosso para fornecer matéria-prima e receber o entulho resultante dos processos industriais e do consumo. Quem lucra com isso? As grande empresas e quem estiver ligado a elas. Quem perde com isso? Todos nós, que poluímos nosso mundo, nosso corpo e exploramos, indiretamente, outras pessoas para atender nossos hábitos.

O ato da compra é também um ato político, com conseqüências maiores do que a gente pode imaginar. E se é um ato político, ele tem o mesmo poder de um voto. Ao comprar algo, você deposita o seu aval para a maneira que determinado produto foi feito ou para um padrão de consumo como um todo. Negar uma compra, pelo impacto que determinada mercadoria pode causar (social, ambiental, trabalhista…), contribui com uma mudança no sistema.

Não estou defendendo que nos organizemos em comunidades isoladas, cultivemos juta para fiar nossas roupas, boldo e pariparoba para garantir uma reserva médica e restrinjamos nosso lazer a cânticos em torno de fogueiras. Avançamos tecnologicamente e nos beneficiamos disso – por mais que esse “progresso” tenha sido doloroso. E é exatamente por isso, pelo acúmulo de conhecimento sobre o meio em que vivemos, que é possível e lógico reformular nosso padrão de vida. Consumir apenas o que é necessário, repensando o significado de “necessário”. É triste uma civilização que deposita tanta importância em badulaques para atingir a felicidade.

O debate sobre o meio ambiente emerge no século 21 como uma discussão sobre a qualidade de vida, não tratando apenas de rios poluídos e derramamento de petróleo, mas também da atual idéia de progresso – alta tecnologia aliada a uma postura consumista -, que não está conseguindo dar respostas satisfatórias à sociedade. Faz parte dessa discussão a busca por modelos alternativos de desenvolvimento humano. Que só serão efetivos caso diminuam nosso apetite por recursos naturais. E não mantenham a população mais pobre excluída dos benefícios trazidos por sua exploração atual e futura.

Autor: sakamoto - Categoria(s): Sem categoria Tags:
28/03/2008 - 18:36

Fora do ar

Aviso aos leitores deste blog: ele ficou fora do ar por umas 30 horas. Culpa das mudanças na estrutura do portal. Voltamos agora às atividades normais.

Autor: sakamoto - Categoria(s): Sem categoria Tags:
25/03/2008 - 20:53

Por uma boa vida. Por uma morte digna

Rio de Janeiro, 14 de janeiro de 1942. Sol. Contrariando a previsão do tempo, aquele seria mais um dia seguido de calor na capital do país. Casais de namorados andavam despreocupados pela orla de Copacabana e, no Catete, Getúlio posicionava as forças tupiniquins na grande guerra. Enquanto isso, além da linha do bonde, em uma casinha humilde no subúrbio, dava-se à luz uma menina. Pele negra, olhos puxados, quase três quilos e meio, Maria.

A França entrou em comoção por conta da morte na última semana de Chantal Sébire, uma professora aposentada de 52 anos que pediu à Justiça autorização para que cometesse eutanásia devido a um câncer que lhe causava dores insuportáveis e havia lhe deformado o rosto. Ela queria ter o direito de partir lúcida e ao lado dos familiares, mas teve seus apelos ignorados até pelo presidente Sarkozy. Uns acreditam que cometeu suicídio sozinha, outros que foi ajudada na clandestinidade. Na verdade, pouco importa, porque nos dois casos o Estado francês lhe deu as costas.

O seu exemplo faz sentir o quão mesquinha é a humanidade. Afinal, para Chantal isso não era uma discussão sobre a morte, mas sobre a vida e sua dignidade, ou seja, de como ela queria terminar os seus dias.

Maria, como tantas outras Marias, cresceu em um lugar pobre. E como tantas outras Marias ficou órfã muito cedo. Seu pai morreu quando ela ainda não havia desmamado e a mãe seguiu o marido não muito tempo depois. Caçula de quatro irmãos, foi ser criada pela tia. Aos 14, deu o seu grito de independência. Apesar de inteligente, a monotonia da escola não era para ela. Seria considerada apenas mais uma criança problemática pela psicologia moderna. Deixou sua casa e saiu pelo mundo em busca da vida.

O Estado deve proteger a vida. Mas que tipo de vida? Aquela sem qualidade nenhuma, de dor e sofrimento, apenas para cumprir uma exigência legal, filosófica ou religiosa?

Histórias de médicos que cometem eutanásia diariamente nas UTIs não são raridade na França ou no Brasil. Pessoas com sensibilidade para entender quando o seu semelhante quer dar cabo de sua existência devido a um sofrimento extremo e não tratável. Normalmente, aumentam a dose de medicação até o ponto de falência do organismo. Mas, da mesma forma, há os que atendem os apelos de familiares que não querem deixar seus entes queridos partirem e os mantém em uma não-vida por meses. Ou aqueles que acreditam que podem controlar a vida alheia sob o nome de Deus.

De acordo com o historiador Phillippe Ariès, no seu livro O homem diante da morte, a partir do século 12, entre os ricos, os letrados e os poderosos cresceu a idéia de que cada um possui uma biografia pessoal. No início, essas biografias era constituídas apenas dos atos bons e maus de cada um, unidos em torno de um só julgamento: o de ser. Com o passar do tempo, a biografia foi se constituindo também de coisas, animais, posses, pessoas apaixonadamente amadas e de uma reputação: a de possuir.

Ao final da Idade Média, a consciência de si mesmo e da sua biografia confundiu-se com o amor pela vida. A morte começou a ser encarada não mais como a conclusão “do ser”, mas uma separação “do possuir”: morrer é deixar casas, plantações, cavalos e jardins.
Em plena saúde, a alegria de aproveitar “as coisas” ficou alterada pela visão de que um dia o fim chegaria. O contexto histórico também não ajudou muito: no continente europeu, a peste negra exterminou boa parte da população. Tudo isso fez com que a morte deixasse de ser balanço de contas ou sono (para os que acreditavam em vida após a morte) para se tornar carniça e podridão. Não mais o fim da vida, mas morte física, sofrimento, decomposição.

Desvincular a idéia de morte como prejuízo ou frustração, esse é o primeiro passo que deve ser dado para mudar nossa visão diante da eutanásia. Se por um lado o fim da vida pode representar culpa aos que estão indo, significa derrota para os que tentam curar.

Devido ao seu temperamento explosivo, Maria não ficou no seu primeiro emprego por muito tempo. Era desbocada. Quando tinha que dizer algo, não relutava e dizia. Depois tinha que arcar com as conseqüências. Não se tem muito conhecimento sobre sua juventude. O que se sabe vem da boca do povo. As boas línguas dizem que Maria deu sangue e suor para sobreviver. As más, que era boêmia, que dançava, que cantava, que era namoradeira, que bebia muito, que saía sozinha, que contava piadas cabeludas, que juntara os trapos sem passar pelos laços do sagrado matrimônio. Quando questionada sobre o que realmente aconteceu nessa época, Maria ficava em silêncio. E depois de um instante sorria, dizendo: eu era feliz.

A Medicina convencionou chamar de pacientes terminais as pessoas que se encontram no estágio final de moléstias fatais, como é o caso de um câncer avançado ou da AIDS. Em muitos hospitais, laboratórios e centros de saúde trava-se uma verdadeira batalha contra essas doenças. No livro AIDS e suas Metáforas, a escritora Susan Sontag diz mais: “é uma guerra na qual o inimigo precisa ser derrotado a qualquer custo”. Louvável o empenho dos doutores da ciência. Contudo, o problema é que diversas vezes essa guerra assume um valor muito alto, financiado às custas da dignidade do paciente.

Ninguém quer perder nunca. Caio Rosenthal, um dos mais respeitados infectologistas brasileiros, disse que é necessário que o médico tenha a capacidade de compreender as suas limitações. “Ele é formado para salvar vidas e, quando se depara com uma situação de morte, a encara como uma derrota pessoal. Isto está errado. Quando o paciente está no fim da vida e o médico passa a estendê-la artificialmente, pensa que está em um jogo. Um jogo entre ele e a morte da pessoa. E como inexoravelmente é a morte que ganha nessas condições, ele acaba se julgando um perdedor”.

“A morte é apenas mais uma etapa da vida e como tal deve ser encarada”, afirma a psicóloga Ana Maria Barbosa. Aceitá-la como mais uma fase pela qual todos teremos que passar, conviver com a idéia de finitude da própria existência e tirar o máximo proveito disso.

Contudo, como disse o poeta, “pensar que a vida cessa é íngreme”. Saber que há um fim faz o homem evoluir enquanto indivíduo, enquanto sociedade. Leva o homem a se levantar, bater a poeira e ir atrás dos seus objetivos na Terra, uma vez que seu tempo aqui é escasso.

Qual o principal objetivo do homem? Essa pergunta sempre vem à tona quando se chega a esse ponto da discussão. Para que estamos aqui? Sem encerrar uma discussão relacionada à própria existência da raça humana, eu diria que a busca da felicidade tem uma grande chance de ser a razão. Porém, é grande o número de pessoas que deixam escapar de suas mãos a chance de dar sentido às suas vidas. É comum ouvir frases do tipo: “bem que eu gostaria, mas tenho que deixar para depois”.

Boa parte das pessoas que sofrem de doenças fatais caem em uma angústia profunda e negam veementemente o fim de suas existências. Muitos pacientes não aceitam o fim como etapa do processo e sofrem muito negando a morte. Isto não significa que a notificação da proximidade do seu próprio óbito tenha que ser recebido com júbilo. Mas de onde vem esse sentimento de revolta, essa tristeza?

Há uns 35 anos, Maria conheceu Antônio. Definitivamente não foi amor à primeira vista. Maria era extrovertida, grandona, aloprada. Antônio era baixo, calado, trabalhador. Casaram-se e pouco tempo depois foram tentar a vida em São Paulo. Através da Caixa Econômica Federal financiaram um apartamento de dois quartos lá na Vila Maria. E Maria foi tentar realizar um velho sonho: ter uma criança. Porém, a sorte lhe fez abortar duas vezes antes de descobrir que era estéril. Não desanimou. Adotou José. E gostou tanto que seis anos depois, trouxe Carolina para fazer parte da família.

“Na verdade, não é a morte que está sendo negada e sim tudo o que deixou-se de fazer na vida. Ou seja, a angústia da morte é conseqüência da falta de importância que se deu à vida”, afirma Ana Maria Barbosa. Em sua dissertação de mestrado Viagem ao Vale da Morte – um estudo psicológico das mulheres que, por sofrerem de câncer de mama, tiveram o seio amputado – ela quebra as amarras sobre o tema:

“A questão não é a morte, mas a vida! Desta maneira cabe ao homem dar sentido à sua própria existência. A intensa dificuldade em lidar com o próprio ódio diante do engodo da vida. Talvez seja este o fator que impossibilita a aceitação do fim. Em contrapartida, a melancolia torna o sofrimento interminável. Perdido o objeto [a morte] e desconhecido o que se perdeu nele [a vida], instalado está o vazio, amputada está a fonte de alimento e aconchego.”

José já era homem e Carolina uma garotinha sapeca quando Maria descobriu um carocinho no seu seio direito. Exames mostraram que estava tudo bem, que o tumor era benigno. Seria feita apenas uma pequena cirurgia para extrair o nódulo. Porém, quando abriram, viram um tumor, maligno, dominando todo o seio. Para que a praga não atingisse outro lugar, foi consenso arrancar-lhe a mama. A partir daí, Maria teve que dividir os afazeres domésticos com sessões semanais de rádio e quimioterapia. Devido às doses cavalares de química, o seu pulmão direito foi queimado. Mas ninguém lhe contou. Maria pensava que a dificuldade de respirar fazia parte da debilidade causada pelo tratamento.

O tratamento psicológico que é dado aos chamados pacientes terminais não deveria ter como objetivo a cura ou o prolongamento de seus dias. “A ênfase está na qualidade e na ressignificação da vida. É preciso que não se ouça apenas as máquinas e as sondas. Dar abertura e espaço para o paciente dizer aquilo que tiver necessidade”, é o que ensina Maria Júlia Kovács, professora de psicologia da morte, no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo.

Começou a sentir dores na perna. Feito o raio-X, mais um carocinho apareceu. O médico, não se sabe porque, afirmou que aquilo não era câncer mas um machucado qualquer. E nada foi feito. Maria sabia que estava morrendo. E dizia que não podia ir embora enquanto não garantisse o futuro dos filhos. Antônio, apesar de bom homem, tinha pouca ou nenhuma iniciativa. Maria pediu, então, empréstimo e montou uma confecção. O empreendimento não durou muito pois não era muito boa para dar ordens. Fazia mais o tipo: se alguma coisa tem que ser bem feita, faça você mesmo. Vendeu a confecção e alugou um galpão abandonado que reformado virou uma avícola. Apesar do câncer e de um pulmão a menos, fez o negócio prosperar. A ponto de poderem mudar do velho apê para uma casa maior e melhor. A doença e as dificuldades não abalaram o jeito de Maria encarar o mundo. A teimosa continuava feliz.

Um tratamento psicológico que poderia ser receitado para qualquer momento da vida. Dar um significado, viver a vida, ter uma vida digna. Não deixar nenhuma página do livro da vida em branco e, ao virar a folha, ter a certeza de que esta foi única. Se assim for, no momento em que chegar à última, irá encará-la de uma maneira muito melhor. E ao fechá-lo, alguém poderá dizer que o livro valeu a pena. Não será guardado na estante, mas servirá de exemplo aos novos autores. Ora, é a qualidade de um livro medida pelo seu número de páginas ao invés de seu conteúdo?

Naquela noite, Maria foi internada às pressas no hospital. Estava enjoada, dolorida e com falta de ar. Apesar de seu histórico ser grave, não foi à UTI pois o plano de saúde não cobria este tipo de despesa. Ficou em um quarto, sozinha. Dia seguinte, Antônio ligou para saber qual o estado da esposa. “Bem, ela vai indo muito bem”, responderam as enfermeiras de plantão. Mas sentia alguma coisa errada. Insistiu para verificarem como estava Maria. Resmungando, as mulheres de branco acataram o pedido. Na volta, a notícia: “Infelizmente sua esposa faleceu”. Causa mortis: insuficiência respiratória.

A definição de “vida” do livro Ciência e Vida com o qual passei a 3º série do 1º grau é: “processo através do qual os seres nascem, crescem, reproduzem-se, envelhecem e morrem”. Mas a vida, em verdade, é muito mais do que isso. Pelo menos é o que os relatos de milhares de anos de história humana fazem crer. Há algo entre o nascer e o morrer que nos faz únicos. E não é o tempo que permanecemos no planeta e sim a forma como gastamos esse tempo. Maria gastou bem. Por isso, o relato que acaba aqui não tem o objetivo de fazer a cabeça de ninguém. É simplesmente a história de alguém que viveu a vida com dignidade até o fim. Como as coisas deveriam ser.

São Paulo, 30 de janeiro de 1996. Todos os que foram ao seu enterro – diga-se de passagem, não eram poucos – esperavam encontrar uma figura triste, debilitada e comida pelo câncer. Ficaram sem entender. Maria morreu sorrindo.

(*) Maria, que não se chamava Maria, era uma pessoa próxima a mim. Não queria viver para além de sua felicidade. Teve seu desejo atendido.

Autor: sakamoto - Categoria(s): Sem categoria Tags:
24/03/2008 - 18:01

E sobraram sete minutos

Sugiro o texto abaixo, publicado no jornal mexicano La Jornada, sobre um depoimento de Henry Sarahig, líder campesino indonesio e representante internacional da Via Campesina, em uma conferência internacional da FAO – órgão das Nações Unidas voltada para a agricultura e alimentação.

Infelizmente, apenas em espanhol.

Palabrería

Por Gustavo Duch Guillot – Notaba que las rodillas le temblaban, quería levantarse inmediatamente, pero aún no era su turno. Se recolocaba constantemente los cascos de la traducción y miraba curioso al auditorio que tenía enfrente. La gente sentada escuchaba distraída al conferenciante que lo precedía mientras hojeaban el periódico o tecleaban mensajes en el móvil. Para Henry Sarahig, líder campesino indonesio y representante internacional de Vía Campesina, era buena ocasión para trasladar sus experiencias y argumentos. Se trataba de una conferencia internacional de la FAO para resolver el hambre en el mundo.

Para tranquilizarse se concentró en repasar su intervención que llevaba escrita en un papel. En primer lugar iba a plantear el tema candente de la situación de los precios de los alimentos. “Los consumidores de todo el mundo han visto que los precios de los alimentos básicos se han incrementado dramáticamente durante los pasados meses, creando unas extremamente difíciles condiciones de vida, especialmente para las comunidades más pobres. Durante el año pasado, el trigo ha doblado su precio y el maíz ha subido cerca de 50 por ciento. Sin embargo, no hay crisis productiva. Las estadísticas muestran que la producción de cereales nunca ha sido tan alta como en 2007. Los precios se han incrementado porque una parte de la producción es ahora derivada a agrocombustibles y las reservas globales de comida están en su momento más bajo de los últimos 25 años debido a la desregulación de los mercados marcada por la OMC y el clima extremo que han padecido algunos países exportadores como Australia. Pero los precios también se han incrementado porque las compañías financieras especulan con la comida de las personas, ya que anticipan que los precios de los productos agrícolas seguirán subiendo en el futuro próximo. La producción de alimentos, su proceso y su distribución quedarán cada vez más bajo el control de las empresas trasnacionales que monopolizan los mercados”.

Y levantaría el tono de voz para advertir que “no todos los campesinos se benefician de los altos precios. Los precios récord en todo el mundo de los alimentos golpean a los consumidores, pero, contrariamente a lo que se podía esperar, no benefician a todos los productores. Los ganaderos están en crisis debido al aumento del precio de los piensos, los productores de cereal se enfrentan a agudos incrementos de los precios de los fertilizantes, y los campesinos sin tierra y los trabajadores agrícolas no pueden darse el lujo de comprar alimentos. Los campesinos venden sus productos a un precio extremadamente bajo comparado con lo que los consumidores pagan”.

Después profundizaría sobre la trágica realidad de los agrocombustibles industriales, que pueden alimentar coches, pero no personas. “Los agrocombustibles (combustibles producidos a partir de plantas, productos agrícolas y forestales) se presentan como una respuesta a la escasez de combustibles fósiles y al calentamiento global. No obstante, muchos científicos e instituciones reconocen que su energía y su impacto en el medio ambiente serán limitados o incluso negativos. Todo el mundo de los negocios está apresurándose a invertir en este nuevo mercado que está compitiendo directamente con las necesidades alimenticias de las personas. Los agrocombustibles industriales son un sinsentido económico, social y medioambiental. Su desarrollo debe detenerse y la producción agrícola debe enfocarse prioritariamente hacia la alimentación.”

Pensaba que si iba bien de tiempo, debería denunciar también las grandes cantidades de tierra que se están dedicando al cultivo de eucaliptos para la producción rápida de papel, y que como cualquier otro monocultivo sólo genera pobreza. “Los campesinos necesitan la tierra para producir comida para su comunidad y su país. Ha llegado la hora de llevar a cabo auténticas reformas agrarias para permitir que los pequeños campesinos den de comer al mundo.”

Pasaron por fin los 30 minutos que le habían otorgado a cada ponente. Habían hablado ministros de agricultura de diversos países, ministros de desarrollo rural, cargos de la propia FAO y del Banco Mundial. El moderador presentó a Henry indicando que por primera vez en un foro de estas características se contaba con una voz representativa de los campesinos y campesinas, de la agricultura familiar. Pero lamentablemente el tiempo se les había echado encima y el aperitivo los esperaba.

-Le ruego al señor Henry Sarahig que tenga la bondad de concentrar su intervención en ocho minutos- dijo.

“No se preocupe”, expresó Henry. Tomó el papel que llevaba en la mano y se lo llevó a la boca para comerlo. Finalmente lo escupió, y de frente sentenció: “Los agrocombustibles o el papel no se comen. Sus discursos, su palabrería de buenas intenciones, tampoco solucionan nada. Muchas gracias”.

Le sobraron siete minutos.

Autor: sakamoto - Categoria(s): Sem categoria Tags:
21/03/2008 - 20:03

Por um boicote aos Jogos Olímpicos de Pequim

Alguns jornalistas que conseguiram furar a censura imposta por Pequim têm trazido à tona a violência com a qual a China vem reprimindo os protestos tibetanos contra a antiga ocupação territorial, econômica, política e cultural. O país mente descaradamente sobre o que está acontendo no Tibet – onde cerca de cem pessoas já teriam morrido nos confrontos de março – e acusa o Dalai Lama de incitar a violência a partir da Índia, onde está o governo tibetano no exílio.

Há séculos o Tibet tenta ser livre, o que não lhe é permitido. A invasão de 1951 foi apenas a última sofrida por esse povo.

A ditadura chinesa, em termos de liberdade de expressão, faz o regime cubano parecer jardim de infância. Só que, ao contrário da ilha caribenha, ela é vista com respeito e admiração pelo mundo. Se Cuba fosse aberta ao mercado global, as acusações sobre o desrespeito aos direitos humanos seriam insignificantes (ou alguém tem dúvida que há um monte de cubanos de Miami sonhando com o dia em que poderão tirar proveito da mão-de-obra barata da ilha?). A China é o sonho de todo o capitalista moderno, com milhões de trabalhadores em situação de escravidão e outras centenas de milhões pagos a soldo de miséria, gerando crescimento e lucro altos. E quem reclama, toma bala. Para a alegria de várias multinacionais.

A China aproveita os jogos olímpicos para tentar limpar sua imagem (a mesma tática é utilizada por empresas que desmatam, poluem e exploram e, para ninguém se lembrar disso, patrocinam eventos ou bancam a construção de pracinhas).

Um comentarista esportivo disse recentemente que é errado misturar política com esportes. E que os jogos são um momento de confraternização entre os povos e não de contestação. Afe! Eu prefiriria ouvir os gritos de “pão e circo!” no Coliseu. Pelo menos nos tempos dos césares, a sinceridade era maior…

Na Grécia Antiga, todos os conflitos e guerras paravam por ocasião das Olimpíadas, quando ocorria um teste para o corpo, mas também um exercício de tolerância. Como a China é grande, dá para fazer as duas coisas ao mesmo tempo: bater nos tibetanos no Oeste e fazer propaganda para o Ocidente no Leste.

Vozes têm se levantado em protesto. Mas vão ficar no gogó. Não creio que algum país tenha coragem de boicotar os jogos por conta do que a China faz ao Tibet. Pois o mundo se divide em dois blocos. Primeiro, aqueles que estão no mesmo barco que a China. Rússia, Turquia, Sérvia, Espanha, entre outros que têm reprimido a ferro e fogo povos que habitam seus territórios e buscam a autodeterminação. Estes devem estar torcendo para Pequim passar o rolo compressor nos protestos o quanto antes e não abrir precendentes. E, segundo, aqueles que têm ou gostariam de ter negócios da China com a China. Os restantes.

Vamos todos ver quem será o mais rápido, o mais forte ou quem irá mais alto. Com a certeza de que somos cada vez menos conscientes e humanos. Afinal, competir é o que importa.

Autor: sakamoto - Categoria(s): Sem categoria Tags:
19/03/2008 - 23:28

O bem e o mal na opinião do agronegócio brasileiro

A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) divulgou este mês a “Lista de Proposições Parlamentares de Alto Impacto para a Agropecuária Brasileira”, organizada pela superintendência técnica da entidade. Segundo o levantamento, há no Congresso Nacional 1.879 proposições que, na opinião da CNA, impactam o agronegócio, das quais 904 estão em tramitação. Elas estão divididas em proposições convergentes e divergentes para a agropecuária – também de acordo com ela.

Vale a pena a leitura das duas partes para entender como pensa a entidade máxima da agropecuária brasileira, seus técnicos e políticos. Com raras exceções, as medidas que melhoram a vida do trabalhador, protegem o meio ambiente, garantem direitos às populações tradicionais e discutem a concentração de terras são consideradas “divergentes”. As que contribuem para os ganhos econômicos e retiram os “entraves” para o lucro (como indígenas e sem-terra) são boa parte das “convergentes”.

Para ter uma idéia do show de horrores, a proposta de emenda constitucional número 438/2001 que prevê o confisco de terras em que trabalho escravo seja encontrado é o quarto da lista de proposições divergentes. Pelo fim do trabalho escravo? Pra que? Vem dando tão certo…

No mesmo dia (quarta-feira, 12) em que este documento era lançado, centenas de trabalhadores rurais, membros de movimentos sociais, juristas, artistas, cantores, ministros, deputados, senadores, juízes, procuradores, organizações de direitos humanos e entidades das Nações Unidas, entre outros, faziam um ato na Câmara dos Deputados pela aprovação da PEC, que culminou em um “abraço” ao prédio do Congresso Nacional.

Sim, é um banho de sinceridade (o que não é ruim, pelo menos eles falam o que pensam). Mas é também uma forma dos eleitores saberem o que fazem os seus representantes políticos nas horas de trabalho, uma vez que as proposições vêm com seus respectivos autores. Com a alta das commodities, o agronegócio – que já era atrevido – está saindo da toca e mostrando que suas garras são maiores ainda. Que se cuidem os trabalhadores rurais, posseiros, sem-terra, ribeirinhos, quilombolas e comunidades indígenas dessa nação.

Para baixar o arquivo, clique aqui.

Autor: sakamoto - Categoria(s): Sem categoria Tags:
18/03/2008 - 08:06

Dicas para uma guerrilha econômica no dia-a-dia

Empresas ganham muito dinheiro nas nossas costas. E aceitamos bovinamente quando nos passam a perna. Bancos, companhias telefônicas, planos de saúde… Dou algumas sugestões de amigos que trabalham nelas. Formas de reduzir os lucros delas e poupar o seu dinheiro, coisas que podemos fazer para ajudar a tornar um inferno a vida dos que tornam nossa vida um inferno. Listo cinco, mas depois volto com mais.

1) Caso o seu plano de saúde negue um exame previsto no contrato (isso acontece com todo mundo a toda hora), dê o telefone do setor responsável para o seu médico e peça para ele exigir o número do registro no CRM e o nome da pessoa que está negando o pedido. Amigos médicos disseram que sempre que fizeram isso, o plano de saúde voltou atrás e enviou pouco tempo depois a autorização. Poucos são os funcionários de seguros de saúde que encarariam um processo em nome da companhia em caso de problemas decorrentes da não concessão de um exame.

2) Poucas pessoas olham com atenção o extrato bancário e a fatura do cartão de crédito. Procurem débitos de baixo valor, de quatro, cinco centavos, escondidos em nomes estranhos. Pessoas que trabalham na administração de bancos explicam que há instituições financeiras que costumam tungar na cara dura os clientes em cobranças ilegais minúsculas. Quando são pegos em flagrante, estornam os recursos. Vocês vão dizer: “Quatro centavos, Sakamoto? Eu tenho mais o que fazer”. Sim, se fosse uma moeda no chão não vale a caloria que você queima para abaixar e pegar. Mas imagine quantas contas um banco tem? E quanto ele ganha com a maracutaia todos os meses.

3) Aliás, falando em cartões, de tempos em tempos ligue para sua central de atendimento ameaçando o cancelamento dos cartões. Há várias promoções e benefícios que são apresentados ao cliente apenas quando ele está de saída, para convencê-lo a ficar. Todos já conhecem a oferta pela isenção de anuidade, mas quantos já conseguiram a redução drástica da taxa de juros cobrada? Eu sei de gente que conseguiu.

4) Todos conhecem os programas de voz sobre IP, como o Skype, e suas ferramentas de ligação para telefone fixo, como Skype Out. Mas nem todos sabem que há programas que fazem ligação gratuita e ilimitada para telefone fixo. Ou seja, se você mora no Rio de Janeiro e tem uma namorada em Natal, dá para ligar para o telefone fixo dela e ficar quanto tempo que quiser conversando de graça. Um desses programas é o justvoip.com. Carregando com dez euros (para garantir ligações para celulares) você pode ficar meses falando de graça. Muitas empresas que prestam serviços para companhias telefônicas usam esses programas. Ou seja, quem está “dentro” prefere esses serviços. Nos Estados Unidos as operadoras de telefone já começaram a reduzir tarifas para fazer frente a esse admirável mundo novo. Muitas vão quebrar.

5) Vá à Justiça sem pensar duas vezes. Não aceite presentinho, pedidos de desculpas, acordos que prevêem apenas a solução do problema. Exija indenização pela perda de tempo, de dinheiro, de dignidade, de humor. Não precisa ser muito, os tribunais de pequenas causas dão conta do recado. Se cada um que tomar uma na cabeça deixar de moleza e ir à luta, as coisas mudam. Peça o limite que essas instâncias prevêem, ou seja, 40 salários mínimos (R$ 16.600,00). Duvido que as empresas não passem a ter um pouco mais de respeito com o cidadão tupiniquim. Não porque eles não conseguirão um acordo em várias delas, mas porque terão que gastar dezenas de horas de advogados com isso. Gravem a conversa com os atendentes, da mesma forma que eles gravam a sua, e usem como prova. E se não quiser ficar com o dinheiro, há vários orfanatos e asilos que ficariam muito felizes com uma doação.

Autor: sakamoto - Categoria(s): Sem categoria Tags:
Voltar ao topo