Lembrete de final de ano: a escravidão continua no Brasil
A cada ano, milhares de trabalhadores rurais provenientes de regiões pobres do Brasil são obrigados a trabalhar em fazendas e carvoarias, submetidos a condições degradantes de serviço e impedidos de romper a relação com o empregador. Permanecem presos até que terminem a tarefa para o qual foram aliciados sob a ameaça de sanções, que podem ir de torturas psicológicas até espancamentos e assassinatos. No Brasil, essa forma de exploração degradante de trabalho em que há o cerceamento da liberdade de se desligar do serviço é chamada de escravidão contemporânea, nova escravidão ou ainda trabalho análogo ao escravo. Sua natureza econômica difere da escravidão da Antigüidade clássica e da escravidão moderna, da colônia e do império. Mas o tratamento desumano, a restrição à liberdade e o processo de “coisificação” do ser humano são características similares a das anteriores.

Coloquei algumas fotos que tirei em ações de libertação de escravos. Essa é a mão de um trabalhador ferida no serviço e a água “potável” a que ele tinha acesso
O número de trabalhadores envolvidos é relativamente pequeno, mas não desprezível: entre 1995 (quando o sistema de combate ao trabalho escravo contemporâneo foi criado pelo governo federal brasileiro) até dezembro de 2007, mais de 26 mil pessoas foram encontradas nessa situação de acordo com dados do Ministério do Trabalho e Emprego, principal órgão responsável pela apuração de denúncias e a libertação de trabalhadores. Entre 1996 e novembro de 2007, a Comissão Pastoral da Terra, organização ligada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e principal referência civil no combate a essa forma de exploração, registrou denúncias envolvendo 47 mil trabalhadores.
A incidência do problema está concentrada nas regiões de expansão agropecuária da Amazônia (dos Estados de Rondônia até o Maranhão, coincidindo com o Arco do Desflorestamento, onde a floresta perde espaço para a agropecuária) e do Cerrado (principalmente nos Estados da Bahia, Goiás e Tocantins). Contudo, há casos confirmados em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, entre outras regiões em que o capital e instituições estatais já estão estabelecidas, o que demonstra que a origem desse fenômeno não está vinculada ao locus da fronteira agrícola, mas a outro elemento que perpassa realidades sociais diferentes.
Os relatórios de fiscalização do Ministério do Trabalho mostram que os empregadores envolvidos nesse tipo de exploração não são pequenos sitiantes isolados economicamente do restante da sociedade, mas na maioria das vezes, grandes proprietários rurais, muitos deles produzindo com tecnologia de ponta. Pesquisas da ONG Repórter Brasil apontam que esses produtores fornecem commodities para grandes indústrias e ao comércio nacional e internacional. Portanto, estão sob a influência direta da economia de mercado e dela dependentes.

Água usada para banho de trabalhadores escravizados em fazenda de gado no Pará
Defendo que a utilização de trabalho escravo contemporâneo no Brasil não é resquício de modos de produção pré-capitalistas que sobreviveram provisoriamente ao capitalismo, mas sim um instrumento utilizado pelo modo de produção para facilitar a acumulação em seu processo de expansão ou modernização. Esse mecanismo garante competitividade a produtores rurais de regiões e situações de expansão agrícola que optam por uma via ilegal.
O combate ao trabalho escravo, para ser efetivo, passa por um conjunto de ações nacionais e multilaterais como a repressão aos ganhos econômicos gerados pela exploração dessa forma de mão-de-obra não só no Brasil, mas em todos os países. E vale lembrar que restrições às importações não devem ser feitas de maneira generalizada e sim analisando-se caso a caso para não cometer injustiças com os países da periferia. O Brasil já possui mecanismos para que os compradores de commodities não adquiram mercadorias produzidas com trabalho escravo, como a consulta à “lista suja”, cadastro do governo federal que divulga os empregadores que utilizaram essa prática. Instituições financeiras têm negado crédito a essas pessoas e empresas signatárias do Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo têm cortado relações comerciais com eles.
Contudo, é importante ressaltar que há um limite para o alcance disso. Pois o trabalho escravo não é uma doença e sim uma febre, um indicador de que o corpo está doente. Tratar a febre (como libertar trabalhadores) é muito importante pois alivia a dor, mas não resolve em definitivo. O Brasil ainda falha ao tentar implementar medidas para atacar a impunidade (como a proposta de mudança na Consituição que prevê o confisco de terras onde escravos forem encontrados e que está desde 1995 esperando aprovação) e reduzir a pobreza, que junto com a ganância são o tripé que sustenta a escravidão contemporânea no Brasil.
A Comissão Pastoral da Terra, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, entre outros grupos sociais, sindicatos e federações de trabalhadores rurais e organizações não-governamentais defendem a realização de uma ampla reforma agrária como elemento fundamental no combate à escravidão. Essas organizações se reuniram, em novembro de 2006, na 2ª Conferência de Açailândia sobre Trabalho Escravo e Superexploração, no Sul do Maranhão, para discutir o problema e aclamar a reforma agrária como “base indispensável para a construção de um outro modelo de desenvolvimento no campo, includente e sustentável”.

Barraco de trabalhadores encontrados em situação de escravidão no Pará. No fundo, a floresta amazônica em processo de desmatamento
Mudar o modelo de desenvolvimento para possibilitar uma reforma agrária ampla e a criação de alternativas de geração de renda contribuiriam com o processo de redução da pobreza. A distribuição de terra não é a panacéia para o problema da exploração do trabalho no país, mas a socialização, pelo menos parcial, dos meios de produção no campo, significaria um pesado golpe nos empreendimentos que, direta ou indiretamente, se aproveitam do exército reserva de mão-de-obra disponível para superexplorá-lo. E garantiria um futuro para milhões de pessoas.
Neste final de ano, fica a pergunta: teremos coragem de fazer as mudanças necessárias para fazer deste um país melhor para todos (o que inclui enviar ao esquecimento das urnas os deputados e senadores que defendem quem se utiliza dessa prática)? Ou permitiremos que alguns poucos continuem a desfrutar de uma vida de privilégios baseada na exploração de nossos semelhantes?
(O assunto é um dos principais tratados por este blog. Então, se alguém tiver interesse, há dezenas de textos sobre trabalho escravo que publiquei aqui. Vale a pena dar uma garimpada)
Autor: sakamoto - Categoria(s): Sem categoria Tags:
Ólá,Sakamoto,sua crítica construtiva é muito boa,mas eu cheguei a conclusão,hoje estou c/ 37 anos e nada mudou,nada muda neste país: miséria,fome,escravidão,preconceito,burrice,hipocrisia,falsidade,drogas…eu acho,que ninguém sabe o que fazer,ou até sabe mas ,quem será terá coragem p/ voltar ao regime de 60,tem que ter muita coragem.Um beijo,adorei o teu desabafo, um dia seremos ouvidos, Feliz 2008 PAZ
Como empregador a décadas, conheço bem o trabalhador brasileiro: produtividadde baixa, pouco fiel a empresa, cheio de interesses, e mesclado a intrigas e chavecos, fazem dele um dos menos confiáveis do mundo. Acredito que realmente exista uns que se deixe escravizar, mas trabalhador nacional é ciente dos seus direitos e deveres. Direitos ele conhece e exige, deveres ele não procura saber, nem cumpre. Conclusão: escravidão? Não engulo essa.
A escravidão no Brasil existem em todos os setores onde há trabalhadores, na micro, média e grandes empresas. Para confirmar isto basta ir ao Banco do Brasil alí pelas 19:00 horas, pode-se encontrar grande parte de funcionarios que chegaram ao serviços as 8 horas da manhã para trabalharem até as 14 horas e estão lá sem remuneração extra e apenas para não serem demitidos. Esse tipo exploração tem por todos os lados desde a doméstica até bancários secretárias de dendista etc.. o sindicátos e o ministério do trabalho e público fecham os olhos.
Vivem de notícias requentadas os leitores desta coluna. Suas opiniões tb são sem qualquer senso de crítica ou conhecimentos. Só sabem papagaiar o que a grande mídia lhe enfia pela goela abaixo. Novidades como o caos do MASP e HC não saem nas manchetes e poupam os bicudos e demos Serra e Kassab, os grandes líderes paulistas do momento. Pobre elite desnorteada, sendo dirigida por estes “ótimos” políticos que ainda têm o iluminado fhc %!@$&@#o hospital das clínicas) como tutor, o chefe de toda a classe nobre do país. Prefiro continuar com Lula que fala um monte de besteiras mas faz as coisas direito do que estes que só falam (as mesmas besteiras só com um pouco mais de papel seda para enganar os letrados).
Olá. Há uma solução para diminuir em muito a escravidão e sofrimento de muitos que passam despercebidos, e que são inocentes, usados pela sociedade humana em larga escala: os animais, como vacas, bois, porcos, galinhas, perus, carneiros, chinchilas, entre outros…
Basta boicotar todo produto de origem animal, como carnes de animais, ovos, leite de vaca, couro natural, lã, entre outros.
Leia mais a respeito:
http://www.guiavegano.com/artigos/gary/entrevista.htm
http://mauricio-kanno.blogspot.com/2007/12/noite-feliz-ou-noite-infeliz-para-quem.html
http://mauricio-kanno.blogspot.com/2007/12/manifestao-pelo-dia-internacional-dos.html
http://mauricio-kanno.blogspot.com/2007/10/como-dia-dia-de-bezerros-vacas-galinhas.html
http://www.vegetarianismo.com.br/sitio/index.php?option=com_content&task=view&id=1514&Itemid=117
è um absurdo. falo por que moro na região sudeste do Pará, e enquanto não tomar providencias, é só olhar digitar no Google e pesquizar trabalho escravo no Pará e vai ver até prefeito envolvido mais tem que ser divulgado, a pistolagen ta solta tem que nos ajudar a divulgar , pelo amor de Deus.
Idelfonso Abreu Araújo, prefeito de Abel Figueiredo (PA) é o dono da propriedade, de cerca de 7200 hectares, em Rondon do Pará, município vizinho. Empregados não recebiam salário e alguns tinham dívidas de até R$ 800,00 com o “gato”
Que terrível.
É preciso punição exemplar para os escravocratas.
A culpa é do PSDB e do FHC. Quando eles sum irem da face da terra haverá um período de paz e prosperidade. O PSDB é a causa de todo o mal que existe no mundo!!!
Muito recentemente participei de uma força-tarefa na região oeste do Pará, num trabalho de identificação das famílias ribeirinhas, visando a regularização fundiárias das áreas de várzeas. Fiquei profundamente maravilhada com a riqueza da região, ainda, já que conheço de perto a sequidão do nordeste pernambucano, mas muito impressionada com o desrespeito aos direitos humanos e socias daquelas famílias ribeirinhas. Dois casos em especial jamais esquecerei: na Comunidade de Chicantã, município de Praínha, uma família vivendo desde 1974 sob regime de completa escravidão/alienação, às margens do pequeno Rio Jijuí. Na Comunidade de Anema, mesmo município, um pecuarista que se diz “dono” de grande parte daquela área de domínio da União Federal, passou uma cerca elétrica em praticamente toda a extensão do LAGO, para que a comunidade não tenha acesso e assim desista de seus direitos, o que na verdade, já vem acontecendo, pois alega que não tem a quem recorrer. O poder econômico dos madeireiros, agropecuaristas e latinfundiários é quem de fato prevalece. Ou seja: Opressão é sempre opressão. Seja contra os canavieiros de Pernambuco, seja contra os ribeirinhos do Pará…
achei muinto bom mas podia ser melho se tivesse mas detalhes e mas fotos eu sou indigena e la onde eu nasci ten muintas coisas legas de criancas