Arquivo de agosto, 2007
30/08/2007 - 17:53
A subcomissão de biocombustíveis do Senado aprovou uma audiência pública para discutir o que os senadores chamaram de “rescisão direta do contrato de trabalho” de mais de mil pessoas na fazenda Pagrisa, localizada em Ulianópolis (PA). Na verdade, trata-se de uma reunião para massacrar o grupo móvel de fiscalização do governo federal, responsável por apurar denúncias de trabalho escravo, tentando desmoralizar a ação coordenada pelo auditor fiscal Humberto Célio Pereira, que retirou da Pagrisa trabalhadores em condições degradantes no dia 30 de junho.
João Tenório (PSDB-AL) e Kátia Abreu (DEM-TO), ambos da bancada ruralista, preparam uma farra do boi para detonar Humberto nessa audiência. Ele foi a único dos convidados que defende a fiscalização. Todos os demais já se manifestaram publicamente a favor da empresa. Convidaram até o dono da Pagrisa. Mas não chamaram ninguém do Ministério Público do Trabalho e da Polícia Federal, que também participaram da ação.
Kátia Abreu é uma das mais fervorosas opositoras do combate ao trabalho escravo no Brasil, sendo uma das responsáveis por travar no Congresso a lei que prevê o confisco de terras em que forem encontrados escravos.
Ainda não há data para a audiência, mas assim que ela for acertada, divulgaremos aqui neste espaço, convidando as organizações de trabalhadores rurais e as entidades governamentais e da sociedade civil envolvidas na luta pelo trabalho decente para estarem presentes na discussão.
Se os parlamentares da bancada ruralista querem entender tecnicamente o caso, o que é justo e salutar em uma sociedade democrática, que isso seja feito de forma correta, convidando para o debate opiniões de ambos os lados, com pesos semelhantes. Caso contrário, o encontro será visto apenas como orquestração para dar apoio a uma determinada empresa.
Para mais informações sobre o caso Pagrisa e de outros relacionados à cana de açúcar, sugiro que acessem o Especial: O avanço da cana-de-açúcar da Repórter Brasil.
Segue a aprovação da audiência.
29/8/2007 EXTRA-PAUTA: Requerimento nº 15, de 2007 – CRA-BIO
Requer seja realizada audiência pública na Subcomissão Permanente dos Biocombustíveis, no âmbito da Comissão de Agricultura e Reforma Agrária do Senado Federal, para debater a respeito das condições da rescisão direta do contrato de trabalho de 1.180 empregados da empresa Pará Pastoril e Agrícola (Pagrisa), localizada no município de Ulianópolis, nordeste do Estado do Pará, com a presença dos seguintes convidados:
· Humberto Célio – Auditor do Ministério do Trabalho;
· Delegacia Regional do Trabalho do Estado do Pará;
· Federação da Agricultura do Estado do Pará;
· Federação das Indústrias do Estado do Pará;
· Ordem dos Advogados do Brasil – Subseção Pará;
· Proprietário da Empresa Pagrisa.
AUTORES:SENADOR JOÃO TENÓRIO e SENADORA KÁTIA ABREU
Resultado: APROVADO
Autor: sakamoto - Categoria(s): Sem categoria
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28/08/2007 - 15:13
Islamabad – Londres – São Paulo - Dizem que há um forte esquema de segurança para o vôo entre Islamabad e Londres, que seria um dos mais visados do mundo por conta do medo de atentados terroristas contra o principal aliado dos Estados Unidos na sua cruzada pelo petróleo, quer dizer, contra o terror. Na entrada do aeroporto internacional da capital paquistanesa, policiais usam espelhinhos para verificar o que há por baixo dos carros que entram na área de desembarque de passageiros. “Perceba que eles estão olhando os próprios sapatos. Eles nem sabem o que tem embaixo do carro”, diz o nosso taxista. Deu para perceber que o “forte esquema de segurança” não impõe muito respeito.
Entre o check in e o embarque, há várias paradas para verificação de documentos, o que só serve para atrasar e criar longas filas, uma vez que a capacidade daquele pessoal de pegar alguém com más intenções é mínima. Se o Osama chegasse lá com explosivos plásticos, entraria na boa sem ser incomodado. Apesar do número de atentados suicidas dos últimos dias no Paquistão, pelo o que ouvi os caras ainda não estão a ponto de mandar para o paraíso uma quantidade tão grande de compatriotas muçulmanos para obter um resultado contra o Ocidente. O Paquistão não está ocupado pelo exército norte-americano, como o Iraque e o Afeganistão. Ainda.
Como a tática de ser educado não funcionou no vôo de ida, quando minha cara de fundamentalista islâmico me barrou em Heatrow, em Londres, na viagem de volta parti para a grosseria. Afinal de contas, o que eu tinha a perder? Acho que a moça da imigração não esperava alguém responder as perguntas com tanto sarcasmo, ironia e arrogância, e fui autorizado a passar algumas horas na terra da rainha entre um vôo e outro. Tomar o café na ex-colônia e almoçar na ex-metrópole é uma experiência interessante, faz a gente lembrar o que anos de pilhagem fizeram a ambos os lados.
Um paquistanês que mora na Inglaterra tinha ganhado uma viagem para a Disney. Quando chegou aos States ficou sendo interrogado por horas no aeroporto internacional, pois seu nome era o mesmo de um acusado de estar envolvido nos ataques de 11 de setembro. Apesar da insistência dos seus acompanhantes, ele não foi autorizado a entrar no país. De volta, disse que não achou que seu nome lhe causaria problemas e nunca mais iria querer saber dos EUA. O ridículo é que a história é de um moloque de sete anos, que na época dos ataques terroristas tinha o quê, um ano de idade? Um bebê-bomba? Juro que se eu fosse norte-americano me sentiria envergonhado com uma dessas.
Mas não aproveitei a passagem por Londres. Estava com febre, dor no corpo, enjôo, aquele piriri, além de um bate-estaca triturando a minha cabeça. Sintomas parecidos com os que eu tive quando peguei malária no Timor Leste e em Angola. Mas a doença é mais rara nas áreas que visitamos no Paquistão, portanto acho difícil que seja isso. Praticamente, desmaiei no metrô de Londres. O Xavier, meu companheiro de viagem, flagrou a cena.

Chegando em São Paulo, já passei por uma série de médicos e estou fazendo exames e a alegria das indústrias farmacêuticas. O mais provável é que seja uma virose. Até porque, como eu havia comentado dias atrás, o conceito de higiene no interior do Paquistão é algo diferente do que estamos acostumados. Por exemplo, há lugares em que o papel higiênico é raro (inclusive no aeroporto internacional de Islamabad). O mais comum é existir uma torneira e uma espécie de bule de plástico para fazer o papel de bidê. Em outras vezes, a limpeza é feita manualmente, para ser bem direto. Agora, eu entendi porque, segundo o profeta, cumprimenta-se uma pessoa ou serve-se a comida com a mão direita. A esquerda pode ter outros usos menos nobres.
Eu havia comprado em uma cidade no Deserto de Thar um livro escolar. “Everyday English – for Class 7″ é uma publicação usada nas escolas da província de Sindh para ensinar o inglês às crianças (uma das duas oficiais, junto com o urdu, em um país que se fala mais 80 línguas diferentes). Lá há discussões sobre os hábitos de higiene e de comportamento, muito baseados no que foi ensinado pelo próprio Maomé. Não sei se passou por uma revisão mais séria… Em um diálogo entre professor e aluno para ensinar exemplos:
- Onde devemos jogar os sacos plásticos?
- Nós devemos enterrá-los no chão.
Não é um bom exemplo. E não é culpa do profeta, porque acho que ele não usava sacos de plástico para fazer a feira.
Outra coisa interessante do livro é ver como a história é contada pelo outro lado. Aprendemos por aqui sobre a dominação árabe na Península Ibérica e sobre a glória da reconquista e da expulsão dos mouros. No livro, dizem que a conquista árabe levou cultura, conhecimento e liberdade de culto para a região e que isso foi responsável por tirar a Europa de sua idade das trevas. OK, cada um conta a história do jeito que quiser, os cristão fazem isso, por que eles também não podem? Mas apesar dos exageros, é verdade que o Sul da Espanha brilhou em conhecimento e tolerância durante uma época em que o resto da Europa ficava esperando o dia do juízo final.

(Essa é uma cópia da página 56, onde é sugerida uma dinâmica de classe, em que parte intepretaria os muçulmanos e parte os cristãos em uma batalha – vencida pelo Islã, é claro.)
Há uma certa lavagem cerebral na educação. Menor nas escolas privadas, maior nas madrassas, que são os centros de educação religiosas. Uma vez que o ensino público é um lixo, a opção por um escola religiosa, que oferece merenda inclusive, é a única saída dos mais pobres. Lá sim, muitos aprendem a ser radicais religiosos. A pobreza está levando ao extremismo.
Mas qual a perspectiva que essas crianças têm ao sair da escola? Entre 2005 e 2006, 73% das pessoas que trabalhavam estavam no setor informal. E o restante, os que estão no setor formal, não estão muito melhores não. Apesar de previsto na Constituição que a fiscalização do trabalho urbana (pois rural nunca existiu) deve atuar para garantir qualidade de vida ao trabalhador, nos últimos anos os governos central e das províncias baixaram uma ordem suspendendo todas as inspeções em empresas. Em muitos lugares, os proprietários fazem uma auto-declaração do que acontece dentro de sua empresa. Um dos intuitos disso seria facilitar a vinda de capital estrangeiro que queira investir em produção no país.
Essa sinceridade toda me mata! Prefiro a hipocrisia brasileira, do engana que eu gosto, em que leis são aprovadas para “a retirada de entraves de investimento, facilitando a capitalização do setor produtivo através da redução nos custos do capital variável”. O resultado é o mesmo: tirar da boca do trabalhador para dar para os gringos.

Há muitas coisas que valeriam a pena serem contadas e que por falta de tempo acabaram ficando para trás. Desde a nuvem de gafanhotos, que ficavam pulando no meu notebook, na cama e no banheiro, em Karachi, por causa das chuvas, até a estrutura de castas que permanece em alguns lugares, principalmente nas populações hindus. É estranho alguém estar sentado do seu lado durante uma conversa e, na hora do almoço, ela se retirar porque não pode comer com um impuro.
Ou as pequenas diferenças culturais que atrapalham uma conversa, como muitas pessoas balançarem a cabeça como um “não” para quer dizer “sim” (parece que é pouco, mas isso prega umas boas peças na gente). Há ainda a música – por lá, o povo adora cantar. Pediram para eu entoar alguma brasileira, mas eu os poupei do sofrimento.
E falando em música, segue aí embaixo parte de uma apresentação que vimos com um encantador de serpentes. Infelizmente, a cobra estava de folga. Lembrei de ter lido que, na verdade, o bicho é surdo e o que faz diferença não é o som, mas as vibrações da flauta e o movimento hipnotizante feito pelo tocador. Que, neste caso aqui, era de uma casta de encantadores de cobras, que há gerações aprendem e passam para frente o ofício de domar ofídios.
Visitei lugares muito bonitos, mas não fui para os mais belos do país, que estão na região norte, em que está o Himalaia e a rodovia do Karakoram. Mas não fomos ao Paquistão a turismo e sim para ver qual a realidade daqueles que são obrigados a trabalhar como escravos por décadas ou até gerações, sob a tirania de senhores de terra ou empresários. E ver como a sociedade civil de lá está lutando para acabar com isso. Uma luta difícil e por vezes inglória, como vocês puderam ver aqui nesse blog.

(Na foto, o Xavier mostrando como funciona o trabalho e conscientização por aqui no Brasil)
Muitos dos problemas de lá têm a mesma origem que os daqui: a ganância que transforma homens livres em instrumentos de trabalho. A cultura e a história são diferentes, é claro. Mas em ambos os países, as antigas formas de exploração são reinventadas para levar ao máximo lucro possível. No Brasil, utiliza-se práticas que foram abolidas em 1888. No Paquistão, usa-se um trabalho servil que se encaixa mais na época do feudalismo do que nos dias de hoje.

E se os problemas são iguais, por que não nos unirmos na busca por ações que ajudem a ambos? Afinal de contas, as empresas multinacionais compram o algodão ou tecidos de lá e daqui, muitas vezes sem se importarem com a forma como foram produzidos. Pelo contrário, incentivam a busca pelo menor custo a qualquer preço, mesmo resultando em produtos manchados com o suor e o sangue de trabalhadores da Província de Sindh ou do Estado da Bahia. Se somos diferentes culturalmente, somos irmãos na mesma exploração sofrida. Pois isso independe de cor, credo ou etnia.
E gênero. O Brasil trata mal as suas mulheres. Aqui uma negra ganha bem menos que um branco. Mas a situação nem se compara ao Paquistão, onde em muitos lugares as mulheres não conseguiram conquistar o direito de saírem na rua sozinhas. E essa exploração começa dentro de casa e não na empresa ou fazenda em que se trabalha. Os dois povos terão que superar os preconceitos presentes no machismo brasileiro e no islamismo paquistanês para serem dignos de terem um futuro.
Espero que nossos governos e os povos da periferia do mundo, um dia, percebam tudo isso e se unam em torno desse bem comum.
Grande abraço aos que acompanharam a leitura dos Diários do Paquistão. E continuem visitando o blog.
Autor: sakamoto - Categoria(s): Sem categoria
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27/08/2007 - 11:20
Islamabad - Uns tempos atrás, circulava por São Paulo uma lenda urbana em que uma pessoa atraente oferecia uma bebida em uma balada e depois sugeria uma noite em um motel. Chegando no local, o desavisado capotava por efeito do sonífero na bebida e acordava em uma banheira, cheia de gelo, com um recado ao lado de um telefone: “Não se levante, seu rim foi retirado. Ligue para a emergência”.
Pois saibam que o roubo de órgãos não é conto da carocinha por aqui.
Neste exato momento está sendo discutida no Paquistão a probição do comércio de órgãos humanos, atividade que movimenta mais de R$ 30 milhões anualmente por aqui.
O principal órgão comercializado são os rins, e o centro dessa atividade bisonha está localizado nas cidades de Lahore e Rawalpindi, sendo que a maioria dos vendedores são da zona rural da província de Punjab. Uma estimativa divulgada pelo jornal Dawn, um dos mais influentes, apontam que cerca de 70% deles são trabalhadores forçados – aquele pessoal explorado e miserável que venho retratando nos posts.
Desesperadas para quitar a dívida que possuem com o senhor de terras ou o dono de uma fábrica de tijolos, essas pessoas vendem um rim por algo entre R$ 2 mil e R$ 4 mil. Porém, o esforço, que vai debilitar a sua vida para sempre, tem se mostrado inútil. Uma pesquisa também divulgada pelos jornais daqui mostra que 95% dos vendedores continuam pobres e devendo ao patrão, portanto, escravos de sua vontade. Nessa hora, quando percebem a burrada que fizeram, sentem-se culpados, caem na depressão e vão definhando aos poucos.
Cerca de mil transplantes de rins foram realizados em entrangeiros que viajaram ao país com essa finalidade. Pessoas de mais de 20 países do Oriente Médio, América do Norte, Europa e Sul da Ásia. Daí pode-se tirar uma idéia de quem usa o Paquistão como estoque de peças humanas de reposição. O irônico é que, em muitos casos, mesmo com poderosas drogas imunosupressoras, a incompatibilidade leva à rejeição do órgão. Perdem os dois lados, ganha a máfia montada para esse fim.
Quem fica com a maior parte do dinheiro são os intermediários, que negociam as vendas, e as equipes médicas daqui que aceitam realizar esse tipo de operação. E, é claro, o senhor de terras. Há casos relatados por organizações não-governamentais de servos que foram enganados pelo patrão e tiveram seu rim roubado. O sujeito é levado para o hospital, faz exames, é anestesiado e sai de lá sem um rim. Aí o patrão diz que abateu uma parte da dívida com ele, mas não toda. Quando se recuperar da cirurgia, é obrigado a continuar trabalhando.
Apesar de parcelas importantes da população, como a Sociedade de Transplantes, estarem pressionando pela proibição total desse comércio, até agora o governo tem se mostrado conivente com a situação. O primeiro-ministro Shaukat Aziz recentemente jogou a solução para frente, indo contra seu próprio ministro da Saúde.
Um dos motivos para a lenga-lenga é o – acreditem – o intenso lobby sobre o governo dessa máfia que lucra com o comércio de órgãos. Não só aqui, mas em todos os países, a pressão das ricas indústrias da morte é forte. No Brasil, por exemplo, ajudou na vitória do “não” sobre a proibição das armas de fogo.
Desculpem. Este não foi um post leve, ao contrário dos outros até agora. Também nem tinha como ser diferente.
PS: Depois de tantos dias de viagem, estou voltando, mais queimado de sol e um pouco mais magro. Amanhã trago o epílogo desta jornada.
Autor: sakamoto - Categoria(s): Sem categoria
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25/08/2007 - 16:11
Karachi - Faz 10 dias que eu não bebo.
Antes de me darem os parabéns, não sou alcoólatra, longe disso. É claro que não nego uma cerveja no final do expediente com os amigos. Mas estou em abstinência forçada, sofrendo um processo de limpeza, uma vez que não é possível encontrar lugares que vendem álcool nas ruas do Paquistão, ou melhor dizendo, da República Islâmica do Paquistão. A religião não permite e ponto final. Por isso, nas refeições é mais comum te oferecerem água e refrigerantes ou, na sorte, algum suco.

(Eles dizem que está escrito “Coca-Cola” em urdu. Mas se você olhar com fé, verá que está escrito “Jesus”…)
Dá para encontrar alguma coisa alcoólica em lugares freqüentados por estrangeiros não-muçulmanos ou mesmo na casa dos paquistaneses cristãos, com uma ajuda da boa e velha figura universal do contrabandista. Alguns cristãos, em voz baixa, quase sussurrante, me convidaram para tomar uma em suas casas, mas acabou não dando tempo.
A comida aqui é fantástica. Parece comida indiana, com uma influência árabe. Os pratos são aromáticos, muito bem temperados, com molhos feitos de ervas (por que não dizer “especiarias”, já que estamos no Oriente?) e muita, mas muita pimenta.

Há carne de vaca, mas é mais comum você encontrar frango, bode e carneiro. Mais para a região do litoral, ou na beira dos rios, você acha também peixe fresco. Eles podem vir cobertos de molho, ensopados ou grelhados. E há pratos vegetarianos, com os mesmo molhos, mas legumes ao invés de carnes – lembrem-se, que por essas bandas, há pessoas que não comem bichos, como muitos hindus. Saladas e iogurte acompanham a refeição.
Porco passa ao longe. É impuro, dizia o profeta.
Os pratos são bem gordurosos, o que pode levar os viajantes desavisados a um outro processo de limpeza do organismo, ainda mais nesses dias quentes de verão. Eu estava indo bem, firme e forte, até que dia desses o negócio pesou. O que me faz lembrar de contar que os chamados banheiros turcos, sem assento sanitário, são comuns no interior.
Nos locais mais tradicionais, come-se com a mão mesmo, sem pudores, usando o pão como garfo, faca e colher. E come-se no chão, com um pano estendido, ou em mesas. Em alguns lugares, senta-se em estruturas parecidas com camas, e come-se sentado ou semi-deitado nelas.

Toda a refeição vem acompanhada de arroz e, principalmente, pão. Semelhante ao chamado pão sírio vendido no Brasil, nas casas árabes, ele pode ser mais fininho e mole como uma massa de crepe ou um pouco mais grosso. De qualquer maneira, tradicionalmente é feito no chamado forno tandoor, em que ele é preso na parede de um buraco circular de barro, aquecido pela lenha em brasa, assando rapidamente. Servido quente, é incomparável. Faltou só aquela cervejinha.

Em um restaurante bem simples em um vilarejo na estrada entre Mithi e Karachi, vi como eram fabricados esses pães. Gravei para vocês. Para terem uma idéia, os dois sujeitos trabalham em cima do forno, ou seja, em um calor do cão.
Seja em um pobre restaurante do interior ou no belo complexo gastonômico que fica no alto das montanhas de Margalla, uma muralha que separa a capital da parte montanhosa do país, o sabor dos pratos é muito parecido. O que varia é o preço.
Eu visitei Margalla. A partir de Islamabad, você vai subindo, subindo, subindo e lá de cima vê a cidade inteira. O pôr-do-sol é um espetáculo, um ótimo lugar para namorar – isso, é claro, se namorar em público, de mãos dadas, abraços e beijos, fosse permitido.
Esse local é simbólico: Islamabad fica na divisa entre as montanhas e a planície, cada qual com sua cultura própria. A parte alta do país é mais conservadora, enquanto a parte baixa tende a ser mais moderada. Se bem que com os últimos acontecimentos, como o massacre da Mesquita Vermelha (do qual falei em um dos primeiros posts), ficou claro que os fundamentalistas, por mais que estejam concentrados na região tribal, fronteiriça com o Afeganistão, encontram-se por toda a parte.
A idéia de Mohammed Ali Jinna, fundador do país, era criar um país seguro para os muçulmanos separando o Paquistão do resto da Índia. Mas queria uma nação que não fosse politicamente guiada pela religião. As ditaduras militares da década de 70 – fortalecidas pelo apoio dado pelos Estados Unidos para que o Paquistão ajudasse o Afeganistão contra a invasão soviética – é que fomentaram um estado guiado pelo Alcorão. Agora, o Ocidente reclama do extremismo que ele mesmo patrocinou.
Mas hora do almoço não é hora de discussão política pesada. Vamos para amenidades. Nas ruas, é frito na hora e vendido em barraquinhas um tipo de salgado, com massa semelhante ao rolinho primavera vendido nos restaurantes chineses, mas de forma triangular e com recheio de massa de batata apimentada ou alguma carne. Nas mesmas barraquinhas, são vendidos doces. Bons, coloridos, mas cheeeeeeeeios de óleo.

Também há frutas como aí no Brasil – banana, coco, manga, mamão, melão, maçã. Mas há tâmaras, frescas ou secas, e umas frutas diferentes, como essa aí, que dá em um arbusto e parece uma melancia anã. Pelo o que me disseram, quando eu achasse uma dessas, poderia encarar porque era comestível. Mas na dúvida, foi melhor não arriscar. A dor de barriga pelo almoço já bastava, não precisa de uma pela sobremesa.

Enquanto isso, aqui em Karachi, as monções continuam atacando. A chuva forte dos últimos dias alagou diversas partes da cidade, tornando as coisas nessa metrópole de 15 milhões de habitantes bem complicadas. Por exemplo, de sexta para o sábado, houve um congestionamento que durou nove horas. O jornal local deu na primeira página que pessoas morreram porque as ambulâncias que as transportavam ficaram presas no trânsito. Além dos moradores das várias favelas da cidade, muitas das quais devem ter sido tragadas pela água, fiquei com pena dos afegãos que vivem em campos de refugiados na periferia da cidade, superlotados e em precárias condições. Fugiram da guerra no seu país, mas vivem uma batalha diária para sobreviver por aqui.
Esses devem ter comido o pão que o diabo amassou.
Autor: sakamoto - Categoria(s): Sem categoria
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24/08/2007 - 17:10
Karachi - Raul Júlia não morreu. Mudou-se para o Paquistão.

Rodando pelas estradas do Sul do país, me deparei a todo o momento com cartazes e painéis com a foto desse senhor que é a cara do finado ator porto-riquenho que ficou conhecido por filmes como Amazônia em Chamas, o Beijo da Mulher Aranha e, é claro, a Família Adams. Mas, por aqui, seu sósia faz outro papel: o de líder religioso e político e proprietário de terras. Peer Sadrudin Rashdi tem influência no parlamento nacional e nos distritos de Sindh. De acordo com organizações sociais, há muita gente em situação de trabalho forçado nas suas propriedades. Perguntei o que estava escrito embaixo da foto dele e me disseram que, basicamente, era seu nome e apelido. Pô, mas para que alguém vai fazer uma placa desse tamanho só com o seu nome?
“Porque não é necessário dizer mais nada”, me explicaram. Provavelmente, a idéia é mostrar que ela está lá, o tempo todo. Se queria isso, certamente conseguiu.
Há muitos senhores de terra que usam sua força para manter intocada a estrutura que garante a exploração do trabalhador, apesar da legislação do país proibir a existência de servos desde 1992.
Ontem, falei das crianças que produzem tapetes em Mithi, no deserto de Thar. Hoje, vou falar das mulheres para explicar outros casos de violência dos zaminders (senhores de terra) contra os trabalhadores, aproveitando nossa visita ao distrito de Mirphurkas.
Postei em um texto sobre as crianças uma foto de uma mulher que segurava um bebê, visivelmente doente, no seu colo. Se a foto é triste, a história dela é um pouco pior. Foi uma entrevista diferente da que estou acostumado, porque a entrevistada quase não falou nada. Acho que era um misto de vergonha do ocorrido com tradição islâmica, uma vez que, apesar das perguntas serem direcionadas a ela, foram seu pai e vizinhos que as responderam.
Ela morava na fazenda de um senhor de terras e teve o marido expulso pelo proprietário, que a estuprou. Das visitas do zaminder à sua cama, nasceram dois filhos, que ele não reconheceu. Além dela, outras mulheres que trabalhavam naquelas terras também foram violentadas. Ela conseguiu ser resgatada de lá, mas o sujeito, que detém poder político, não está preso.
Em outro vilarejo, encontrei Bai. Ela foi retirada de uma fazenda depois de 12 meses de trabalho forçado, em que semeava algodão e colhia 160 quilos de pasto para o gado todos os dias. O patrão costumava bater nela e deixou um de seus filhos surdo depois de espancá-lo.

O senhor de terras não se satisfazia em deter o poder sobre a força de trabalho e também controlava corpos e almas. Ele mantinha homens e mulheres separados durante a noite e as estuprava. Todas.
Bai escapou da fazenda em uma dessas noites e acabou nessa vila para resgatados do trabalho forçado. O senhor de terras chegou a mandar capangas para atacar o povoado e pegá-la de volta, mas a situação se inverteu e quatro dos jagunços foram capturados. Levados à polícia, foram simplesmente liberados.
“Estamos felizes aqui. Temos terra para fazer nossa própria casa e estamos conseguindo uma profissão”, referindo-se ao curso de costura que é oferecido por uma organização não-governamental para dar uma alternativa de vida aos moradores.
O rosário de histórias desse tipo é longo, com uma conta igual a outra. Não preciso, portanto, desfiá-las todos.
É claro que existem soluções para esse problema. A discussão é longa e eu espero poder retomá-la nos próximos posts.
Reforma agrária é uma alternativa para fazer com que esses trabalhadores tenham independência e possam tocar sua vida e, ao mesmo tempo, tirar poder desses sujeitos. Mas se ela é difícil no Brasil, aqui ela é ficção científica. Colocar esses senhores de terra na cadeia é outra opção. Mas como botar os donos do poder atrás das grades? Aí no Brasil não é diferente: a gente tem senador e deputado que usaram escravos em suas fazendas e que continuam sorrindo alegremente nos corredores do Congresso…
Bem, vou falar um pouco do que as ONGs daqui vêm fazendo para tentar resolver o problema. Antes de mais nada, há uma verdadeira batalha pelo registro civil, pois dezenas de milhões de pessoas não possuem carteira de identidade. E, sem ela, não há acesso aos programas sociais do governo, como uma espécie de bolsa-escola. Além disso as pessoas podem, ser presas na rua. Em alguns lugares, há muita paranóia, você pode ser confundido com algum agente secreto indiano (não se esqueçam que a disputa sobre quem fica com a Caxemira não está resolvida) e ir para o xilindró prestar esclarecimentos. Nessa viagem, em todos os hotéis e pousadas que ficamos, éramos obrigados a deixar o passaporte para que a polícia local tirasse um xerox. Para nossa segurança, segundo eles. Tá bom…

Uma curiosidade: há algumas carteiras de identidade de mulheres que não possuem foto, só impressão digital. Motivo: o marido não deixou que tirassem um retrato da sua esposa.
Outro problema é arranjar um lugar para morar. No início, após o Ato de Abolição de 1992, a população que era retirada dessa situação conseguia um terreno para fazer uma casa. Hoje, nem isso. Entidades sociais tentam conseguir um lugar para essas famílias que eram servas, foram resgatadas e passaram a não ter um lugar para viver. Muitas desenvolvem vilas-modelo, com o intuito do governo adotar a idéia e levá-la para frente. Não estamos falando de terra para plantar, mas para morar.
Uma importante ação sendo desenvolvida é a organização dos trabalhadores e sua conscientização sobre seus direitos. Já houve conquistas: trabalhadores explorados montaram associações. Comunidades se uniram e conseguiram bater de frente com os senhores de terra, enfrentando inclusive policiais que agiam como seus seguranças privados.
Em um vilarejo que visitei, um homem ficou preso três dias porque o fazendeiro queria que sua irmã se casasse à força com um outro camponês que, como ele, também vivia nas terras do patrão. (Vê se pode, um cara desses brincando de casinha! Mas em que as bonecas que ele decide que devem se casar são gente de verdade.)
Resumo da história: por enfrentar o patrão foi para a cadeia. Mas a comunidade se juntou e conseguiu pressionar até tirá-lo de lá.
Hakim Zadi foi treinada por uma ONG para coordenar um grupo de mulheres pelos seus direitos. “Antes, elas tinham um senhor na própria casa [pais e maridos]. Hoje, podem sair e estão aqui do lado de fora, para lutar por outros direitos.” Quando ela diz “sair” é o significado literal, deixar a porta da casa. Agora, Hakim diz que elas estão preparadas para lutar contra outros senhores, agora os de terra.

Podemos dizer que essas ações são coisas simples, que talvez não mudem a vida da população daqui na velocidade que eles precisam. Mas acho que alguns desses projetos irão, aos poucos, fazer pequenas revoluções. Não vão extinguir o trabalho forçado, longe disso. Mas vão trazer dignidade para a vida de muita gente.
Enquanto eu falava com Hakim, de repente aproximou-se uma tempestade, com ventos fortes e muita água. Corremos para dentro da van e a chuva castigou sem dó aquela terra. Na volta, fiquei pensando que realmente Islamabad é uma ilha de frieza. A cidade pode ser mais bonita que o interior do país, mas eu prefiro muito mais a companhia dessa gente simples, humilde e hospitaleira, que faz milagre para sobreviver, mas está sempre sorrindo e cantando.
Espero que a chuva que caiu exatamente quando falávamos de liberdade seja um bom presságio, para limpar essa terra boa desses homens que insistem em interpretar o papel de protagonista da vida dos outros, numa comédia muito da sem graça.
PS: Alguns leitores me mandaram e-mail perguntando como é que estou arranjando tempo para escrever. Não, gente, eu não viajei para Bauru e contratei figurantes para as fotos – até porque achar um camelo seria difícil. Primeiro, é que a comida daqui é muito forte (amanhã eu falo sobre isso) e fico batendo um papo com ela depois do jantar. Além disso, deixei meu notebook com o horário do Brasil. Por exemplo, agora é 1h aqui, mas 17h por aí. Quando estou escrevendo, acabo olhando para o horário daí. Irracional? Ah, mas está funcionando.
Autor: sakamoto - Categoria(s): Sem categoria
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23/08/2007 - 15:49
Do deserto de Thar - Eu havia conseguido um lugar para acesso (precário) à internet em uma cidade no meio do deserto, ou seja, o mais difícil. Mas quando comecei a escrever o post de ontem, a eletricidade do local foi desligada. Os moradores me explicaram que o governo paquistanês, para racionar energia, tem cortado a força em algumas cidades. O blecaute pode durar minutos ou horas, dependendo do dia. Aqui o apagão faz parte do cotidiano.
Chegamos a Mithi após uma longa jornada de carro. De manhã, Hyderabad era um cenário indescritível: lixo por todos os lados, piscinas no lugar de avenidas, lama e um cheiro de merda em muitos locais. A partir de Umarkot, o portão de entrada do deserto de Thar (o portão existe mesmo, não é força de expressão, e os nomes são esses, eu não tirei do Senhor dos Anéis), o caminho é quente. Muitas dunas, a maioria delas coberta de vegetação, que estava verde por causa das chuvas que caíram por aqui. Breves, só de passagem.

Uma praia de areia fina, vez ou outra, invade o que deveria ser um acostamento da estrada, ladeado à distância por aldeias de casas de palha e barro, escondidas na paisagem como se não quisessem ser incomodadas. Alguns pastores de cabras e de camelos atrapalham o caminho, o que só se torna uma coisa séria porque temos um motorista alucinado.
Mithi é uma cidade em que a areia está presente em todos os lugares, apesar do asfalto nas ruas. Mas é anos-luz mais limpa que Hyderabad. Pena que os proprietários das oficinas de tapetes cismem em sujá-la de outra forma.
A cidade é uma das tantas que possuem crianças trabalhando como servos em casas de famílias, em lojas do comércio e na fabricação de tapetes de lã, atividade em que se encontram as piores condições.
Visitamos, junto com representantes de outras organizações de combate ao trabalho forçado no Paquistão, também companheiros nessa viagem, um desses lugares. Em uma pequena casa, no estilo tradicional da região, feita de barro e coberta de palha, havia quatro jovens fazendo um tapete de lã em um tear. O mais novo tinha 12 anos, o mais velho 21. Nos contaram que trabalhavam seis dias por semana, 12 horas por dia. Juntos, conseguem fazer um tapete em 30 dias e ganham 5 mil rúpias por isso, o que dá uns 1250 para cada – em um país em que o salário mínimo é de 4600. O dono da oficina vende o mesmo tapete, em Karachi, por 40 mil.
Eles não podem parar de trabalhar. E o pior é que isso ficou acertado entre o dono da oficina e suas famílias.

Tomemos como exemplo o mais velho. Seus pais tinham um dívida com um senhor de terras – aquele pessoal gente boa, de quem falei nos últimos posts, que transforma pessoas livres em servas através de dívidas impagáveis. Para quitá-la, pegaram um empréstimo de 10 mil rúpias com o dono da oficina. E, como garantia, empenharam o trabalho do próprio filho. Hoje, ele tem 21 anos, mas há quatro está nessa vida, tecendo todos os dias. Há ainda descontos do empregador no ganho do rapaz e, para piorar, juros sobre a dívida. Resultado: após todo esse tempo, a família deve a mesma coisa que antes e ele está preso ao patrão. E, como são analfabetos, os pais não têm como checar as contas.
Vocês podem vê-los trabalhando no vídeo que fiz abaixo. Essa voz fininha é de uma das crianças pequenas que vai dando instrução para as outras:
Pelo o que moradores de Mithi me contaram, durante o trabalho essas crianças respiram o pó resultante da fabricação do tapete e ficam doentes (deve ser uma forma de silicose, que também ataca os pulmões de trabalhadores da mineração no Brasil, debilitando-os permanentemente). Mas mesmo doentes são forçados a trabalhar.
E isso é ilegal no país? É claro que é! O Ato da Abolição do Trabalho Servil do Paquistão, de 1992, diz isso e determina a libertação de todas as pessoas nessas condições. Mas temos que lembrar que as coisas não são bem assim por aqui. Muitos desses fuinhas que usam crianças ou adultos como seus escravos são poderosos, alguns possuem força política nacional. A sociedade civil está na luta, mas a situação é difícil.
Trabalho infantil não é novidade para a gente no Brasil. Muito menos trabalho forçado infantil. Temos meninas, por exemplo, que são literalmente vendidas por suas famílias e acabam em bordéis de beira de estrada ou da fronteira agrícola. Toda essa vulnerabilidade social é conseqüência da miséria e da falta de opções de emprego ou de uma terra para plantar. Aqui e aí.
Depois de entoar cânticos em um templo hindu à noite para umas estátuas de divindades de caras bem simpáticas – os que nos ciceronearam na cidade são dessa religião (a fronteira com a Índia fica só a uns 100 quilômetros de Mithi) – pensei ter fechado definitivamente o corpo (já havíamos estado em uma igreja, uma mesquita e um santuário muçulmano).
Mas aí, no dia seguinte, nossa van quebrou… no meio do deserto. E eu me lembrei que faltou algo budista, para completar as principais religiões daqui. Buda foi cruel, não perdoou e arrebentou a correia do alternador e do radiador.
Não foi ele diretamente, mas através do nosso motorista maluco que avançou sobre um obstáculo na estrada, detonando o carro. No meio do sol escaldante e sem água, com aqueles arbustos que quando secos formam bolas de palha que ficam rodando nos faroestes antigos que meu pai assistia, me sentindo dentro de um filme B, esperando uma boa alma.
Enquanto isso, como o dia estava nonsense mesmo, fui ter aulas de como usar um chicote com um pastor do deserto.

Eu tentei.

Mas foi ridículo. Até o pastor desistiu.

A salvação veio na forma de uma carreta que nos guinchou até o vilarejo mais próximo. Ao todo, uma viagem que era para durar cinco, levou 11 horas.

Amanhã, vou mostrar que o ator Raul Julia não morreu. Mudou-se para o Paquistão.
Autor: sakamoto - Categoria(s): Sem categoria
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21/08/2007 - 16:58

Rodando pela Província de Sindh – Eu aposto que isso é um dromedário.
Discuti com meu companheiro de viagem, Xavier Plassat, a diferença entre camelos e dromedários. Que eu me lembre (do conhecimento adquirido através daqueles cartões que vinham com o chocolate Surpresa, no meu tempo de criança), dromedário tem uma corcova e camelo, duas. Xavier não ficou muito satisfeito com a resposta – também não ficaria com um argumento baseado em uma barra de cacau.
De qualquer maneira, esse bichinhos ocupam, em Hyderabad, o lugar que damos aos cavalos nas charretes. Transportam material de construção, feno, comida ou sacos cheios de braceletes. As paquistanesas de religião hinduísta gostam de usar muitos deles, como adornos, nos braços. Quando eles estão do cotovelo até o pulso, a mulher é solteira. Se estão no braço inteiro, ela é casada. Pudemos constatar isso em um vilarejo que visitamos na cidade de Karachi Hotel Chamber, durante uma reunião de uma organização de mulheres que tenta lutar contra o machismo e a exploração de seus pais, maridos e, é claro, senhores da terra.

Mas não são apenas as mulheres que são vaidosas. Andando pelas ruas do Paquistão, você nota um grande número de ruivos. Os homens passam hena no cabelo, na barba, no bigode ou nas costeletas para deixá-los dourados e “bonitos”. Explicaram-me que eles pegam a própria planta, amassam e tingem.

Bem, mas não é esse o asssunto do post. Há um “ponto final” de dromedários/camelos em uma das saídas de Hyderabad, à beira de um lixão. O lixão, na verdade, é o acostamento da estrada, uma vez que a coleta pública não funciona e os aterros são improvisados em alguns locais estratégicos. O cheiro, como era de se esperar, é péssimo e atrai moscas. Azar dos camelos, de quem os conduz e de toda a cidade. Essa sujeira vem à tona quando chove, literalmente, como eu contarei para para frente.

Estamos em uma região de deserto e esses bichos estão bem adaptados para esse clima quente (que transformaria em sopa o chocolate Surpresa num piscar de olhos). O homem é que não estaria se não fossem os canais construídos a partir do rio Indo e que irrigam parte da província de Sindh, tornando-a agricultável.
Desde que chegamos ao Paquistão só havíamos visto corpos bem cobertos. Nas cidades brasileiras, é comum o uso de bermudas e shorts, ou mesmo de camisetas que deixam a barriga das mulheres de fora. Além disso, em dias de verão, nas praias ou mesmo em cidades, o povo tira a camisa sem cerimônia. Por aqui não, conseqüência da religião. À beira de um dos canais do Indo foi a primeira vez que vimos pessoas de short, no caso a criançada, se atirando nas águas barrentas para refrescar-se do calor.

Ao lado dos canais, encontramos plantações de cana-de-açúcar. Uma organização de trabalhadores reclamou conosco do valor que eles recebem – menos do que deveriam pelo serviço de corte de cana. É…Seja no Sul da Província de Sindh ou no interior do Estado de São Paulo, cortador de cana é tratado como sub-raça. Senhores da terra ou empresários do agronegócio, o que muda é a alcunha, pois a ganância é a mesma.
O salário mínimo no Paquistão é de Rs 4600 (Rs de rúpias paquistanesas, não de reais). Isso dá 57 euros (se eu não fui roubado na casa de câmbio em Islamabad) e, portanto, cerca de 154 reais. É pouco, mas eu precisaria dar outras referências para vocês terem uma idéia do custo de vida. Bem, vejamos: uma moto 125 cilindradas custa 60 mil rúpias, um casal de boi e vaca, 40 mil, um carro como o Fiesta nacional, 400 mil. E, é claro, um camelo, 25 mil.
Os trabalhadores reclamam que ganham até metade de um salário mínimo. Enquanto ficam no corte da cana, voltada para a produção de açúcar e de álcool, o resto da família produz cordas a partir da fibra de juta, na própria casa, para ajudar no orçamento doméstico.
Aliás, há também servidão por dívida no trabalho doméstico. Na comunidade de Hussein Khan Laghari, município de Tando Mohammed Khan, as mulheres estão se organizando, com a ajuda de entidades da sociedade civil paquistanesa, como a GRDO, para evitarem serem exploradas. Sara, uma muçulmana que trabalha para uma família, nos contou que já foi torturada pela dona da casa. Ela possui uma dívida de Rs 2 mil com a patroa e diz que não pode deixar o emprego sem resolver a questão. Mas está difícil… Afinal de contas, o salário pago a ela é uma miséria que não dá nem para sustento dos filhos (Rs 500 mensais por três horas diárias, todos os dias). Mas se pudesse, mudar de emprego também não adiantaria: sem quitar o débito, a fofoca correria e ninguém das classes mais ricas daria emprego a ela. Um verdadeiro cartel doméstico.
Mas voltando ao dromedário/camelo: hoje à noite, eu tive vontade de ter em mãos as 25 mil rúpias para adquirir um deles e fugir das enchentes causadas pela chuva em Hyderabad. Retornando de outros distritos vizinhos, onde havíamos visitado comunidades que estão tentando se livrar do trabalho servil, ficamos engarrafados no trânsito da cidade.

Caro conterrâneo paulistano que, como eu, já ficou um longo tempo preso nos congestionamentos pós-chuva nas marginais em São Paulo. Tudo isso aí é fichinha comparado com este pesadelo paquistanês. Vamos colocar alguns elementos para vocês entenderem melhor: primeiro, ninguém respeita leis de trânsito na cidade. Por exemplo, se não há vagas dentro das vans e ônibus, sem problema: o povo vai no teto ou apoiado nos parachoques. A polícia não está nem aí.
Os motoristas buzinam o tempo todo para evitar atropelar pedestres, bater em outros carros, fazer barbeiragens ou simplesmente porque já estão condicionados. Os semáforos não funcionam direito e as placas são para inglês ver. Segundo, não há coleta de lixo decente. O sistema de drenagem de esgotos também é péssimo e o escoamento da água da chuva não ocorre. Há alguns pontos da cidade, em aterros, que ficam meses cobertos de água após a temporada das chuvas – que é agora. Como o deserto fica aqui ao lado, a chuvarada é muito breve e intensa.

Hoje não choveu muito, mas a cidade alagou. Ah, esqueci de falar uma coisa: é comum cidades do Paquistão (com exceção de Islamabad, a capital, aquela ilha de irrealidade) ficarem sem energia de vez em quando. Agora, vamos colocar tudo junto: chuva, enchente, lixo, esgoto, trânsito maluco e falta de luz. O coitado do guarda de trânsito estava com água até o joelho e a única coisa que ele conseguia dizer é: “olha, acho que se você passar, seu carro vai parar na água”. Riquixás (aqueles táxis minúculos para dois passageiros), carros, motos e vans paravam na água. A nossa não ficou, mas a água entrou por baixo. Não estou falando de ineficiência do sistema público, estou falando de inexistência. E Hyderabad tem mais de um milhão de habitantes.
Olha, foi um sacrifício bem grande mandar esse post hoje. Amanhã, vamos para o deserto. Se não tiverem mais notícias minhas, é que o camelo, ou o dromedário, por algum motivo, não conseguiu chegar até a internet café mais próxima para atualizar o blog.

Autor: sakamoto - Categoria(s): Sem categoria
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20/08/2007 - 18:23
Uma das idéias religiosas que mais me incomodou desde quando eu era criança era o pecado original. Por que temos que pagar pelas faltas daqueles que vieram antes de nós? Por que crianças devem sofrer pelo o que seus pais fizeram? Pior ainda: sofrer quando seus pais não fizeram nada de errado, como no caso da servidão por dívida. Por isso, só postei fotos de crianças de dois vilarejos/acampamentos de refugiados que visitei hoje. Vocês vão entender o porquê.

Hyderabad - Visitamos hoje dois vilarejos onde vivem famílias que foram libertadas da servidão. Só para lembrar (pois ninguém é obrigado a acompanhar este blog diariamente…), por aqui o mais comum é que trabalhadores contraiam uma dívida com um proprietário rural (um empréstimo para financiar o casamento da filha, por exemplo) e fiquem trabalhando para ele até quitá-la. Isso acontece na agricultura, fabricação de tijolos, mineração e na fabricação de tapetes, entre outros. Normalmente, o patrão é desonesto e, por isso, a dívida tem longa duração. Às vezes, dura uma vida. Ou, além dela.
Quando um casal tem um débito com um “senhor de terras” (como aqui são chamados esses canalhas), os seus filhos não podem ir embora antes que os pais paguem a dívida, pois o trabalho da criança pode ser usado na amortização do saldo. E se os pais morrem, os filhos assumem o débito, que pode ser passado por gerações. Ou seja, há meninos e meninas que já nascem em cativeiro.
Hyderabad fica no Sul do Paquistão, na província de Sindh. Chegamos a essa cidade pobre, de um milhão de habitantes, pelo aeroporto de Karachi, a maior urbanidade do país, distante duas horas de carro por uma rodovia – que seria muito tranqüila se não fossem os alucinados motoristas paquistaneses que ignoram qualquer lei de trânsito e fazem o coração dos passageiros saltar para fora da boca nas ultrapassagens. Considerando que eles dirigem na mão inglesa, ou seja, ao contrário da nossa, a impressão para quem não está acostumado é pior ainda.

O primeiro vilarejo visitado, próximo de Hyderabad, se chama Sakanderabad (traduzindo, seria algo como “Alexandrelândia”) e possui 600 famílias que foram libertadas ou fugiram do domínio dos senhores de terras. Para que eles se instalassem, o governo cedeu essa terra há uns 15 anos, quando foi promulgada a lei que torna ilegal a servidão por dívida. Lei que não consegue sair do papel, uma vez que inexiste um processo de fiscalização com resgate sistemático de trabalhadores após denúncias, como no Brasil.
Entidades do Paquistão acusam o governo de fazer corpo-mole e não atender a denúncias para verificar condições de trabalho em fazendas, olarias e minas. Os trabalhadores só têm sido libertados graças a decisões da Justiça paquistanesa que obriga os senhores de terra a soltarem as pessoas sem o pagamento do débito. Alguns vão para a cadeia. Outros, que detém maior poder político, ficam soltos.

Enquanto isso nosso Congresso Nacional aprovou uma lei – a famigerada Emenda 3 – que impedia os fiscais do trabalho de reconhecerem vínculos empregatícios entre patrões e trabalhadores, reservando esse poder à Justiça. Na prática, os grupos de fiscalização do Ministério do Trabalho e Emprego não teriam mais o poder de libertar escravos, como acontece hoje. Os fazendeiros brasileiros, que usam intermediários, os chamados “gatos”, para contratar empregados sem direitos trabalhistas, estariam protegidos com a nova lei.
Ao invés de fazerem turismo, ops, desculpe, de fazerem relevantes viagens de trabalho para a Europa, os deputados federais e senadores bem que poderiam visitar o Paquistão para ver uma prévia do que poderia ter acontecido se a sua lei – que atende a alguns empresários como uma luva – não tivesse sido barrada pela Presidência da República.

Voltando à Ásia, em alguns lugares do Paquistão a situação da ausência de fiscalização é um pouco pior. Em uma das províncias, o governo local fechou um acordo com os fabricantes de tijolos, famosos por usar servos na produção, para que a fiscalização fosse feita pelos… próprios empresários! Parece piada, não? É o sonho de muito fazendeiro no Brasil… Botaram a raposa para cuidar das galinhas – que ela vem devorando, ferozmente, com a anuência do Estado.
No segundo vilarejo que visitamos, Azadnagar e suas 130 familias, a situação é um pouco melhor. As casas têm melhor estrutura e há um curso de costura sendo fornecido por uma importante organização não-governamental paquistanesa (GRDO), que presta apoio a todos os dez vilarejos formados por servos libertados ou fugitivos.

Estive nos campos de refugiados de Angola, em 1999, e a imagem é muito semelhante à de lá. Casas feitas de barro e cobertas de palha, espreguiçando-se em um tom monocromático e poerento. Há algumas contruídas de tijolos, pelos moradores mais antigos, mas nem assim são muito melhores. A água não tem muita condição de consumo, mas é comsumida mesmo assim. Não há espaço para desenvolverem lavouras próprias e os homens trabalham fazendo bicos nas cidades ou, quando têm sorte, conseguem um dos mal-pagos empregos nas tecelagens locais.
Nos próximos posts, vou contas histórias de pessoas que fugiram dessas fazendas e hoje moram nesses campos.
Desculpem-me se o post não está dos melhores, mas estou com uma dor de cabeça me matando há quase 24 horas. E o sol também não ajuda: já estou derrentendo, e a previsão para os próximos dias para os lugares que vamos visitar é de 45 graus celsius.
Autor: sakamoto - Categoria(s): Sem categoria
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19/08/2007 - 08:02
Islamabad – Apesar de predominantemente muçulmano, há outras religiões no Paquistão, funcionando legalmente. Hoje, pela manhã, fomos à igreja de Saint Thomas, para assistir à missa em urdu, língua oficial do país, ao lado do inglês. O cristianismo, religião dos colonizadores ingleses, mas que já havia chegado no primeiro século da era cristã, está presente com católicos e protestantes.
O nome da igreja é carregado de história.
A cerca de 30 quilômetros e uma hora de carro de Islamabad ficam os sítios arqueológicos de Taxila, subdistrito de Rawalpindi, a oeste da capital, considerados pela Unesco como um Patrimônio Cultural da Humanidade. Nessa região, fixaram-se persas, gregos, hindus entre os séculos V a.C e II da era cristã, que a transformaram em capital de várias dinastias e centro de estudo budista e védico. Umas razões é proximidade com fluxos de comércio, como a Rota da Seda. Dario, o Grande, e Alexandre, o Grande, conquistaram a região de Taxila durante seus reinados. A história é longa, mas vai desembocar no arqueólogo inglês John Marshall que comandou um processo de escavações, no século passado, trazendo à tona as construções soterradas pelo tempo.
Estivemos lá anteontem. Segue uma foto para dar uma idéia de um dos sítios.

Voltando à igreja. Saint Thomas, ou São Tomé, em suas perigrinações para levar a fé cristã à Ásia, se fixou na região de Taxila por volta do ano 40. Até hoje, há um festival anual em sua homenagem no mês de julho.
A igreja de Saint Thomas, em Islamabad, não possui separação para homens e mulheres. A maioria deles senta à esquerda e delas à direta, mas há homens e mulheres em ambos os lados. A missa é longa (quase duas horas), mas bem animada, com músicas religiosas tocadas por instrumentos ao vivo, lembrando um pouco as missas e cultos mais modernos no Brasil. O frei Xavie Plassat, meu companheiro de viagem, fez um vídeo do momento da comunhão:
Como ontem eu havia reclamado da frieza de Islamabad, hoje eu venho dizer da simpatia demonstrada pela população mais humilde. Fomos bem recebidos na igreja, apesar de não falarmos uma palavra de urdu. É importante informar um outro dado: os cristãos estão entre os grupos mais pobres do país hoje, muitos deles vítimas de trabalho forçado.
Uma boa acolhida após uma entrada um pouco tensa, uma vez que vigias com detectores de metal fazem uma revista completa. Uma das razões é o medo de atentados – houve casos de granadas que foram lançadas contra igrejas no Paquistão.

Depois, fomos até o santuário de Bari Imam na periferia da cidade. Localizado em uma região mais pobre, escondida dos olhos dos visitantes e dos altos funcionários públicos de Islamabad, o seu entorno é bem movimentado, com barracas que vendem bugingangas de plástico, comida (os doces apesar de serem extremamente gordurosos, são bons) e pétalas de rosas perfumadas para serem ofertadas.
O santuário cheira a incenso, que é queimado em um forno a lenha do lado de fora. As mulheres não podem entrar na parte principal – a elas é reservado um espaço lateral, separado por um muro. Parte dos homens rezam, outra parte descansam nos tapetes, fugindo de um sol escaldante, do lado de fora. Olhares curiosos e desconfiados voltavam-se para nós o tempo inteiro – não deve ser muito comum estrangeiros em um santuário na periferia da cidade… Dois homens vieram nos perguntar de onde viemos e se éramos muçulmanos. O Xavier disse que não era, mas eu não me agüentei e disse que era muçulmano. Em um instante, um foi falando para outro, e estávamos rodeados de pessoas que vieram nos cumprimentar, oferecer água, enfim.

A verdade é que, independentemente disso, tanto na casa de Deus quanto no santuário de Alá, as pessoas foram extremamente simpáticas e acolhedoras. Pode ser que isso seja pelo fato de verem em nós duas pessoas que dividiam com elas o seu credo, independentemente de cor e raça. Ou que essas pessoas, mais humildes do que as que estão no centro de Islamabad, sejam mais alegres e hospitaleiras. Acho que os restante da viagem pode apontar uma resposta.
A certeza é que, neste último dia na cidade antes da ida para o interior, fechamos o corpo com uma benção dupla. Só para garantir.
Autor: sakamoto - Categoria(s): Sem categoria
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18/08/2007 - 16:04
Islamabad – Uma cidade planejada, de avenidas largas e prédios públicos monumentais, foi contruída no interior do país, substituindo a antiga capital que ficava à beira-mar. O objetivo era promover a integração do país, facilitando o acesso ao poder central. Brasília? Não. Islamabad.
A construção da nova capital teve início em 1961 e, cinco anos depois, começou a funcionar o primeiro edifício governamental na cidade. Assim como Brasília, ela possui apenas algumas centenas de milhares de habitantes, mas é cercada de cidades mais pobres e populosas no entorno, que lhe fornecem mão-de-obra.
Em ambas, as contradições sociais estão escondidas dos olhos dos visitantes: enquanto não muito longe do Palácio do Planalto, temos um bairro pobre nascido de uma ocupação irregular, em Islamabad há uma favela com esgoto a céu aberto escondida em um descampado nos fundos do parlamento nacional. Islamabad, assim como Brasília, também é uma ilha de irrealidade social, com uma elite mergulhada em sua própria corrupção e no incesto do público e do privado. Mas isso é história para depois.

(As crianças, brincando na frente de uma favela, não fogem das fotos como os adultos.)
Islamabad é mais cosmopolita do que as demais cidades paquistanesas, dizem seu moradores. Por isso a força de tradições religiosas, apesar de existirem, é mais amena que no interior do país. Mas a cidade também é, por assim dizer, muito chata, com a falta de alternativas culturais e de lazer, com exceção de alguns parques. Mas sair para dar uma corridinha não contribui muito para a saúde, pois a poluição é um problema. Sou paulistano e já me acostumei com o ar melequento da minha cidade. Mas o mal-estar aqui é agravado pela umidade e o calor dessa época do ano, que tornam o caldo bem indigesto.
Como comentei em outro post, no último dia 10 de julho, o governo paquistanês invadiu a Mesquita Vermelha para debelar um princípio de insurreição de grupos islâmicos radicais, deixando um rastro de mais de 100 mortos. Um leitor me mandou um e-mail dizendo que isso o fez lembrar do massacre da Penitenciária do Carandiru, em São Paulo, e a ação estúpida do governo paulista, que fez 111 vítimas em 1992. É, caro leitor, a estupidez não obedece credos ou fronteiras, é universal.
Por aqui o assunto virou tabu. Não se fala no tema e desconfia-se de quem toca no assunto.
O administrador de empresas Ali diz que a razão disso é que o governo possui muitos agentes secretos e informantes que podem causar problemas caso você faça um comentário mais enfático a respeito do massacre ou dos grupos radicais que estão em conflito com o governo (ele mesmo ficou preocupado sobre o motivo da minha pergunta.)
Nosso taxista, Assef, é um sujeito extremamente simpático. Apesar de não entender muito o que a gente fala, sempre sorri. Mas quando a Mesquita Vermelha foi trazida para dentro da conversa, fechou a cara, ficou claramente contrariado e não disse mais nada.
Passamos em frente ao local do massacre hoje, mas não conseguimos entrar, nem tirar fotos. O prédio foi pintado e limpo e na praça em frente, há um grande efetivo de militares, incluindo um veículo semelhante ao “caveirão” carioca, que recepciona os visitantes na porta de entrada.
A mesquita é bem pequena e apagada, a bem da verdade. Fica perto do Enclave Diplomático – uma verdadeira cidade cercada e protegida que concentra escritórios, residências, escolas e demais facilidades para os funcionários das embaixadas – e não muito distante da sede do governo federal, do tribunal islâmico e da suprema corte. Em Brasília, por exemplo, as embaixadas ficam em um setor da cidade, mas sua porta da frente é acessível por qualquer um. Ou seja, dá para realizar manifestações em frente delas – a embaixada norte-americana que o diga…
A Mesquita Vermelha desaparece se comparada com a gigantesca Mesquita Rei Faissal, a maior do Paquistão, localizada também em Islamabad. O mármore do chão do complexo escaldado pelo sol (visitantes devem deixar os calçados na entrada) comporta de 75 a 300 mil pessoas (de acordo com a fonte de informação). Lá, conheci pessoas mais simpáticas do que no restante da cidade – achei Islamabad uma cidade fria tanto no trato com as pessoas de fora, quanto nos moradores entre si. Pode ser que a simpatia seja causada pela impressão de que eu era muçulmano. Devo confessar que comprei um livro do alcorão. Se eu tinha cara de terrorista antes, quero ver o comportamento da imigração inglesa agora.
Tem um vídeo da última oração do dia, reproduzida por poderosos altos-falantes. A qualidade da imagem está péssima, devo reconhecer, mas foi feita do celular e repassada para o You Tube – prova de que por aqui as novas tecnologias da comunicação funcionam.
Os quatro minaretes da mesquita, com 88 metros de altura cada, são alvo de uma teoria esquisita de alguns moradores da cidade que dizem que a CIA acha que as quatro torres são mísseis balísticos escondidos. Dá para ter uma idéia do tipo de relacionamento saudável que os Estados Unidos desenvolveram com este país.

Mas que parecem mísseis, isso parecem.
Os Estados Unidos provocam múltiplas reações e aparentemente não há um consenso sobre o aliado. Em uma das inúmeras lojas de tapetes da cidade, um vendedor diz que o modelo com bandeirinhas norte-americanas tem saída. “Tem gente que gosta.”

Enquanto isso, o presidente Pervez Musharraf afirma que o governo decidiu entrar na “guerra ao terror” devido a interesses do próprio Paquistão, retrucando implicitamente quem diz que o país obedece aos EUA (ele só não falou que a fatura entregue aos EUA não foi baixa…)
Ao mesmo tempo, garantiu que vai concorrer a um novo mandato. Mas a Constituição o obriga a renunciar ao seu generalato se quiser tentar se reeleger, o que ele não quer fazer de jeito nenhum. Ou seja, as coisa vão esquentar, principalmente na já estremecida relação com a suprema corte, que teve o seu presidente destituído recentemente pelo próprio Musharraf – e depois restituído pelos colegas juízes.
Autor: sakamoto - Categoria(s): Sem categoria
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