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28/06/2007 - 13:58

As baixas do conflito armado no Complexo do Alemão

O diário carioca O Dia publicou uma galeria de fotos sobre o conflito entre policia e organizações criminosas que começou com a ocupação do Complexo do Alemão nesta quarta. Até agora, são 19 mortos e nove feridos. Não gosto da banalização da violência pela mídia e da espetacularização do sofrimento de outras pessoas, então sempre me furto a publicar esse tipo de conteúdo. Mas acho que, desta vez, vale a pena para quebrar um pouco a apatia dos mais abastados – preocupados tão somente com a segurança de seus filhos.

O tráfico de drogas, que vem crescendo rapidamente desde a década de 80 nas grandes cidades brasileiras, é a maior causa de morte entre os jovens nas periferias. A batalha acontece longe dos olhos da classe média e da mídia, que só eventualmente dão atenção ao problema: a imensa maioria dos corpos contabilizados sempre são de jovens, pardos, negros, pobres, que se matam na conquista de territórios para venda de drogas ou pelas leis do tráfico. Os mais ricos sentem a violência, mas o que chega neles não é nem de perto o que os mais pobres são obrigados a viver no dia-a-dia.

De tempos em tempos, essa violência causada pelo tráfico retorna com força ao noticiário, normalmente no momento em que ela desce o morro ou foge da periferia das grandes cidades. Ou agora, em que está em curso uma série de operações de ocupação de favelas no Rio, em que não se esconde um matiz de “limpeza” social.

Atacar a estrutura do tráfico e sua sustentação econômica, o que inclui também o comércio ilegal de armas, é uma saída. Porém, será inócua se o Estado não se fizer presente e se não houver mudanças estruturais que garantam dignidade para os moradores e outras opções de vida para os jovens que saem em um busca de um lugar no mundo todos os anos.

Mais do que uma escolha pelo crime, a opção pelo tráfico é uma escolha pelo emprego e pelo reconhecimento social. Um trabalho ilegal e de extremo risco, mas em que o dinheiro entra de forma rápida. Dessa forma, o jovem pode ajudar a família, melhorar de vida, dar vazão às suas aspirações de consumo – pois não são apenas os jovens de classe média que querem o tênis novo que saiu na TV. Ganhar respeito de um grupo, se impor contra a violência da polícia. E uma vez dentro desse sistema, terá que agir sob suas normas. Matando e morrendo, em uma batalha que para cada baixa, fica uma família.

Uma batalha que respinga em nós, que temos responsabilidade pelo o que está acontecendo, seja por nossa apatia, conivência, desinteresse, medo ou incompetência. A polícia e os traficantes puxam os gatilhos, mas nós é que colocamos as balas na agulha.

Autor: sakamoto - Categoria(s): Sem categoria Tags:

6 comentários para “As baixas do conflito armado no Complexo do Alemão”

  1. ana maria disse:

    Nossa, chocante as fotos.
    Se existe o tráfico é porque existe o consumo e, garanto, não exatamente nas favelas, de onde vem o produto. Consumidores deveriam ter pesadas punições porque eles alimentam essa roda viva, que mantém uma estrutura que não haverá bala que dê jeito.
    Abraços.

  2. nilza bellini disse:

    Como em todas as guerras, a questão do tráfico é econômica, concordo. Concordo, também, que essa é uma guerra com retoques de higienização social. É sociocídio.

  3. Eduardo Burlamaqui disse:

    O Brasil é um país puritano, proibisse, tudo, prostituição, jogos, drogas etc., mais por de baixo dos panos, as pessoas jogão, se drogam e dão umazinha com uma %!@$&@#
    a solução para o rio é só uma, legalize, em vez de proibir, regulamente.
    regulamente o consumo e uso de drogas, de jogos e dei carteira assinada para as prostituras, o rio vai ganhar, O Estado vai arrecadar e teremos muito menos violência.

  4. alex disse:

    Não sei se minhas palavras são de indgnação, ou revolta. como se mata nesse país! O Estado tenta legitamar tais ações e assim expõe seu próprio câncer: a incompetencia e a omissão que o impede de se fazer presente e assumir os morros e favelas, o que seria mais fácil se não houvesse tanta corrupção e dinheiro público disperdiçado. O que para ele, o estado, é uma operação bem sucedida é na verdade um massacre, vidas humanas foram ceifadas e quem se importará com elas? mais do que manter a hipocrisia de que estão combatendo o narcotrafico, o estado deveria assumir os morros investindo em saúde,esportes, educação e gerando empregos, tratando os moradores dos moros e favelas com dignidade, como cidadãos brasileiros e nao como sao vistos como bandidos por serem pobres e morarem onde moram. o que chamam de operação bem sucedida é na verdade algo repugnante e inaceitavel.

  5. Giovanni disse:

    Sakamoto

    Não ouvi falar em prisões. Só em mortos.
    A história do Rio de venda de drogas, guerra de facções, crescimento de armamento aconteceu por causa do desemprego, procura e venda de drogas e controle de pontos de vendas ou melhor dizendo, maiores lucros. Descriminalizando as drogas jogariam vários desempregados na rua que iriam assaltar. A questão é que deve haver uma forma daquela população favelada vender serviços à população da classe média. Isso para mim é evidente. Falta emprego, afinal de contas a cidade do Rio tem uma das maiores rendas per capita do Brasil.

  6. Fernando Paganatto disse:

    A explicação para o domínio da instituição “Tráfico de drogas” sobre as periferias pobres das grandes cidades brasileiras vai muito além da falta de emprego ou do dinheiro corrente dentro desta instituição. Resume-se, ao meu ver, (para não adentrar em seus detalhes) como sendo um reflexo, qual espelho. Esta população, que vem sendo renegada, desvalorizada de diversas formas e humilhada, passa a fazer o mesmo. A cultura de quem nasce nestas comunidades marginalizadas passa a ser a da desvalorização da vida, porque é essa a mensagem que eles recebem do Estado e da elite econômica (mídia, inclusive). Se minha vida não tem valor algum, por que há de ter a de outrém? Por isso cada vez mais mata-se por qualquer coisa.

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