Arquivo de junho, 2007
29/06/2007 - 10:24
Eu ia falar sobre o tema, mas com a história das ações de terrorismo de Estado do governo do Rio nos últimos dias, acabei deixando para depois a história do espancamento de uma mulher por jovens da classe média carioca. Do jornal O Globo:
A empregada doméstica Sirley Dias de Carvalho Pinto, de 32 anos, teve a bolsa roubada e foi espancada por cinco jovens moradores de condomínios de classe média da Barra da Tijuca, na madrugada de sábado. Os golpes foram todos direcionados à sua cabeça. Presos por policiais da 16ª DP (Barra), três dos rapazes (…) confessaram o crime e serão levados para a Polinter. Como justificativa para o que fizeram alegaram ter confundido a vítima com uma prostituta.
Se eles fossem de classe social mais baixa, certamente o texto seria sutilmente diferente:
A empregada doméstica Sirley Dias de Carvalho Pinto, de 32 anos, teve a bolsa roubada e foi espancada por cinco moradores da favela da Rocinha, na madrugada de sábado. Os golpes foram todos direcionados à sua cabeça. Presos por policiais da 16ª DP (Barra), três dos bandidos (…) confessaram o crime e estão presos. Como justificativa para o que fizeram alegaram ter confundido a vítima com uma prostituta.
Rico é jovem, pobre é bandido. Um é criança que fez coisa errada, o outro um monstro que deve ser encarcerado. O pai de um deles, num momento de desespero, justificou a atitude do filho como sendo perdoável. É pai, direito dele. O incrível é como muitos veículos de comunicação trataram o tema, com uma diferenciação claramente causada pela origem social.
Tenho minhas dúvidas se a notícia sairia se fosse o segundo caso. Provavelmente, na hora em que o estagiário que faz a checagem das delegacias chegasse com a informação, ouviria algo assim na redação:
- Pobre batendo em pobre? Ah, acontece todo dia, não é notícia. Além disso, é coisa deles com eles. Então, deixem que resolvam.
Amigos que trabalharam em uma rádio grande de São Paulo, pertencente a um grupo de comunicação, já ouviram algo muito parecido, mas mais cruel… É triste verificar mais uma vez que o conceito de notícia depende de qual classe social pertencem os protagonistas. Somos lenientes com os nossos semelhantes e duros com os outros.
A justificativa dos espancadores também é bastante esclarecedora. Ou seja, puta pode. Assim como índio e mendigo. Lembram-se do Galdino, que morreu queimado por jovens da classe média enquanto dormia em um ponto de ônibus em Brasília? Ou a população de rua do Centro de São Paulo morta a pauladas também enquanto dormia? Até onde sabemos, apesar dos incendiários brasilienses terem sido presos, eles possuem regalias, como sair da cadeia para passear. E na capital paulista, o crime permanece impune até hoje.
Na prática, as pessoas envolvidas nos casos do Rio, São Paulo e Brasília apenas colocaram em prática o que devem ter ouvido a vida inteira: putas, índios e mendigos são a corja da sociedade e agem para corromper os seus valores morais e tornar a vida dos cidadãos de bem um inferno. Seres descartáveis, que vivem na penumbra e nos ameaçam com sua existência, que não se encaixa nos padrões estabelecidos. E por que não incluir nesse caldo as empregadas domésticas, que existem para servir? Se eles soubessem a profissão de Sirley não teria feito diferença.
Alguém acha que se entre eles houvesse alguém com menos de 18 anos, a mídia e os formadores de opinião usariam o caso para defender a redução da maioridade penal?
A sociedade tem uma parcela grande de culpa em atos como esse e os dos jovens que se tornam soldados do tráfico por falta de opções e na busca por dignidade. A culpa não é só deles.
A diferença é que para os da classe média e alta, passamos a mão na cabeça. Para os pobres, passamos bala.
Autor: sakamoto - Categoria(s): Sem categoria
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29/06/2007 - 08:10
“Se morreram, é porque são bandidos”, disse um comandante.
“Todos são suspeitos até que se prove o contrário”, afirmou outro.
“Foi igual a dar tiro em pato no parque de diversões”, resumiu um policial civil.
A mira dos agentes de segurança no Rio deve ser tão afiada quanto a sua língua. Afinal de contas, acertar um tiro na nuca de um suspeito no meio de um confronto armado demanda muita precisão do policial. Ou é destreza ou é covardia, com o tiro sendo dado pelo representante do Estado em uma execução sumária, com a pessoa já rendida e de costas.
Como a polícia vetou o perito da Ordem dos Advogados do Brasil para acompanhar as autópsias nos 19 mortos, fico com a covardia. O que reveste de chacina a ação policial. Considerando que o governo já avisou que esse tipo de ocupação vai virar moda, já podemos considerar que o Rio optou pelo caminho mais fácil do terrorismo de Estado por causa dos Jogos Panamericanos.
Autor: sakamoto - Categoria(s): Sem categoria
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28/06/2007 - 13:58
O diário carioca O Dia publicou uma galeria de fotos sobre o conflito entre policia e organizações criminosas que começou com a ocupação do Complexo do Alemão nesta quarta. Até agora, são 19 mortos e nove feridos. Não gosto da banalização da violência pela mídia e da espetacularização do sofrimento de outras pessoas, então sempre me furto a publicar esse tipo de conteúdo. Mas acho que, desta vez, vale a pena para quebrar um pouco a apatia dos mais abastados – preocupados tão somente com a segurança de seus filhos.
O tráfico de drogas, que vem crescendo rapidamente desde a década de 80 nas grandes cidades brasileiras, é a maior causa de morte entre os jovens nas periferias. A batalha acontece longe dos olhos da classe média e da mídia, que só eventualmente dão atenção ao problema: a imensa maioria dos corpos contabilizados sempre são de jovens, pardos, negros, pobres, que se matam na conquista de territórios para venda de drogas ou pelas leis do tráfico. Os mais ricos sentem a violência, mas o que chega neles não é nem de perto o que os mais pobres são obrigados a viver no dia-a-dia.
De tempos em tempos, essa violência causada pelo tráfico retorna com força ao noticiário, normalmente no momento em que ela desce o morro ou foge da periferia das grandes cidades. Ou agora, em que está em curso uma série de operações de ocupação de favelas no Rio, em que não se esconde um matiz de “limpeza” social.
Atacar a estrutura do tráfico e sua sustentação econômica, o que inclui também o comércio ilegal de armas, é uma saída. Porém, será inócua se o Estado não se fizer presente e se não houver mudanças estruturais que garantam dignidade para os moradores e outras opções de vida para os jovens que saem em um busca de um lugar no mundo todos os anos.
Mais do que uma escolha pelo crime, a opção pelo tráfico é uma escolha pelo emprego e pelo reconhecimento social. Um trabalho ilegal e de extremo risco, mas em que o dinheiro entra de forma rápida. Dessa forma, o jovem pode ajudar a família, melhorar de vida, dar vazão às suas aspirações de consumo – pois não são apenas os jovens de classe média que querem o tênis novo que saiu na TV. Ganhar respeito de um grupo, se impor contra a violência da polícia. E uma vez dentro desse sistema, terá que agir sob suas normas. Matando e morrendo, em uma batalha que para cada baixa, fica uma família.
Uma batalha que respinga em nós, que temos responsabilidade pelo o que está acontecendo, seja por nossa apatia, conivência, desinteresse, medo ou incompetência. A polícia e os traficantes puxam os gatilhos, mas nós é que colocamos as balas na agulha.
Autor: sakamoto - Categoria(s): Sem categoria
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27/06/2007 - 20:34
De Brasília – O governo chinês informou que começará na próxima semana uma campanha de repressão ao trabalho escravo focada principalmente na inspeção de pequenas olarias, minas de carvão e oficinas. Pequim deu liberdade para os funcionários públicos envolvidos solucionarem as situações encontradas e combaterem os comportamentos criminosos. A ação é motivada por centenas de casos de pessoas em condições de escravidão que foram encontradas nas última semanas na região central do país.
O curioso é que o governo afirmou que a campanha terá duração de cerca de dois meses. Ou seja, ela está mais para show pirotécnico do que para uma política séria de erradicação do trabalho escravo, porque é impossível acabar com esse tipo de exploração num prazo de tempo tão curto. A ação serve mais para dar uma satisfação a entidades internacionais – como a Organização Internacional do Trabalho e a Organização Mundial do Comércio – do que para aliviar o sofrimento dos trabalhadores.
Infelizmente, porque, apesar de não haver estatísticas nesse sentido, acredita-se que a China é um dos campeões mundiais de trabalho escravo. As altas taxas de crescimento do país estão assentadas em uma exploração intensa de sua mão-de-obra. Os relatos que chegam até o exterior informam que não são raros os casos de trabalhadores que não se ofereceram para um serviço, mas do qual não podem se ausentar sob a pena de maus tratos, espancamentos ou até morte.
O Brasil implantou o seu sistema de combate ao trabalho escravo em 1995. Desde então, 24,5 mil pessoas foram libertadas em operações de fiscalização, que ocorrem o ano inteiro. Mesmo assim, e com todos os programas, políticas e ações judiciais, estamos muito longe da erradicação do problema.
Nós, e a China mais ainda, temos um modelo econômico propício a gerar formas contemporâneas de escravidão, em que a expansão do capital espreme os trabalhadores até sair lucro. estamos fazendo a lição de casa. Já os chineses, com ações pirotécnicas, mostram que não estão nem perto.
(Enquanto isso, nossos economistas renomados e comentaristas conceituados sonham o dia em que o Brasil se tornará uma China. Deus que me livre e guarde.)
Autor: sakamoto - Categoria(s): Sem categoria
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26/06/2007 - 01:58
De Brasília -Renan é do partido de Roriz, que pegou dinheiro de Constantino.
Renan tinha uma filha, fruto de um antigo romance, e precisava sustentá-la. Roriz queria muito uma bezerra nelore. Constantino é fazendeiro e gosta de ajudar os amigos.
O presidente do Senado negou que uma empreiteira pagava suas contas, cobertas por uma suposta venda de gado a preços acima do mercado. O senador e ex-governador negou que desviava dinheiro público e disse que apenas contraiu um empréstimo para comprar a tal bezerra. O presidente do Conselho de Administração da Gol disse que pegou o dinheiro da venda de uma fazenda e fez um favor ao senador. Alguns anos atrás, ele havia dito também que 259 escravos encontrados em sua propriedade pelo governo federal não eram dele, mas de uma “empresa terceirizada”.
Nessa história, quem faz o papel de J. Pinto Fernandes (do poema de Drummond) é o pobre do boi, que entrou na história de gaiato.
Autor: sakamoto - Categoria(s): Sem categoria
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25/06/2007 - 18:42
Deu no jornal Valor Econômico de hoje:
A JBS, controladora do Friboi, que se tornou o maior frigorífico de carne bovina do mundo, pode ganhar um sócio de peso. A BNDESPar, braço de participações em empresas do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), negocia uma injeção de cerca de R$ 1,4 bilhão na empresa. O dinheiro seria usado num aumento de capital da JBS, dentro do pacote para financiar a compra da americana Swift, fechada no mês passado. Se a operação for concluída, a BNDESPar poderá ficar com uma participação entre 15% e 19% do capital da JBS, segundo estimativas feitas pelo Valor. Segundo o jornal, as conversas já estão adiantadas.
Como eu já tratei neste blog anteriormente, o Friboi é um dos maiores compradores de carne do país, inclusive no Mato Grosso – estado cuja fronteira agrícola está em plena expansão. De acordo com um estudo do Banco Mundial, cerca de 75% da área desmatada da floresta amazônica está ocupada com pasto. A pecuária é a ponta de lança do agronegócio na região, limpando (ou grilando) a terra que depois poderá ser comprada, sem árvores e populações tradicionais, por sojicultores e canavieiros.
Em 2004, constatou-se que o frigorífico era um dos compradores de gado de propriedades rurais que estavam na “lista suja” do trabalho escravo – cadastro do governo federal que relaciona os empregadores que comprovadamente utilizaram esse tipo de mão-de-obra. No dia 21 de maio, ele se tornou signatário do Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo, após dois anos de vigência, sob pressão de redes de supermercado como o Wal-Mart. Com isso, se comprometeu a deixar de comprar de fazendas escravagistas.
O BNDES declara que utiliza a “lista suja” para conceder empréstimos e financiamentos, assim como já faz o Banco do Brasil, o Banco do Nordeste e do Banco da Amazônia – só para citar instituições estatais.
Nesse contexto, espera-se que nosso banco de investimentos, ao se tornar sócio dessa empresa, tenha certeza de que ela não está comprando carne que tem o desmatamento da floresta, a grilagem de terras, a expulsão de comunidades tradicionais e o trabalho escravo, infantil ou degradante no DNA de sua carne.
O frigorífico Bertin, outro grande exportador, para conseguir recursos do IFC, o braço de investimentos no setor privado do Banco Mundial, teve que realizar um estudo de impacto sobre a ampliação de sua atuação no Pará. Afinal de contas, a região conhecerá um crescimento da demanda por gado causado pelo aumento de sua capacidade de abate. O estudo, criticado pela sociedade civil, não contempla todas as possilidades de danos sociais, ambientais e fundiários. Mas é, em si, um avanço com relação ao passado, em que nada se cobrava e tudo se podia.
A assinatura do Pacto Nacional foi um passo importante dado pelo Friboi, mas é necessário que a empresa dê outros. Não é porque a empresa é o maior frigorífico mundial que ela deve ser motivo de orgulho para o Brasil. Mas sim o tratamento que ela reserva à sua terra e sua gente.
Autor: sakamoto - Categoria(s): Sem categoria
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25/06/2007 - 15:49
Os lucros recordes dos bancos brasileiros e de grandes empresas, como a Vale do Rio Doce, estão sendo alardeados como motivo de júbilo para toda a nação. E justificam o discurso de que é necessário – e patriótico – extirpar todos os entraves para o investimento em infra-estrutura, garantindo a continuidade dessa fartura. Os embates gerados pela construção das hidrelétricas de Belo Monte, no rio Xingu, de Santo Antônio e Jirau, no rio Madeira, e de Estreito, no rio Tocantins, são exemplos disso.
As populações atingidas são tratadas como efeitos colaterais menores do crescimento e, portanto, contornáveis.
A busca pelo progresso a qualquer custo não é novidade, mas em tempos de obcessão pelo crescimento do país, é importante ressaltar uma informação sempre esquecida para trazer luz a esta discussão.
Entre 1994 e 2002, a participação do trabalho na renda caiu de 40% para 36,1% do produto nacional. Enquanto isso, a participação do rendimento do capital (lucro) cresceu de 38% para 41,9% do PIB neste período – dados do IBGE.
Nos países desenvolvidos, a renda do trabalho representa mais de 60% do PIB. O que deveria ser lógico, pois apenas trabalho gera valor.
Ou seja, o Brasil cresce, mas a renda tem saído da classe trabalhadora para aportar nos donos de empresa e sistema financeiro. Nos últimos anos, os programas de transferência de renda ajudaram a amenizar o quadro, mas não a mudá-lo.
Não é necessário fazer aulas de história da economia. Podemos ver ao vivo e a cores um processo de acumulação primitiva, com a expulsão de comunidades tradicionais para a implantação de hidrelétricas, fazendas, indústrias e mineradoras e a apropriação de suas terras e recursos naturais na Amazônia aliadas à exploração intensiva do trabalho, arrancando ao máximo o que o povão pode dar. Com isso, ganha-se competitividade. E lucro.
Nesse contexto, me pergunto: crescer para quê? Ou melhor, para quem?
Autor: sakamoto - Categoria(s): Sem categoria
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22/06/2007 - 19:36
De Cuiabá - Você sabe por onde passa a carne bovina até chegar à mesa do consumidor?
Não? Pois saiba que você não está sozinho. Se o presidente do Senado, terceira pessoa na linha sucessória do país, não é capaz de apontar quem são os compradores reais dos bois de sua fazenda (se é que existem…), que diria do cidadão comum que só se depara com eles quando já estão em forma de bife nos supermercados e açougues.
A história dos bois de Calheiros, que já foi somada à triste enciclopédia do anedotário político brasileiro, trouxe à tona um outro tema que mereceria também uma luz: a rastreabilidade da carne bovina. Muitos dos bois que frigoríficos e mercados vendem sob o rótulo de origem controlada, na verdade vieram de um limbo que eles mesmos desconhecem ou conhecem e acobertam. Principalmente nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, não é raro os brincos de identificação dos bois, que deveriam acompanhá-los durante toda sua vida, serem entregues novos, nunca utilizados, pelos percuaristas aos frigoríficos e abatedouros dentro de sacos plásticos.
Com a identificação de um boi é possível saber se ele foi vacinado, onde nasceu, em que local ocorreu a sua engorda até o seu abate. Por poder ser rastreado e possuir um diferencial, ele alcança cotação maior no mercado. Há um sistema que garante isso, o Serviço Brasileiro de Rastreabilidade da Cadeia Produtiva de Bovinos e Bubalinos (Sisbov), do Ministério da Agricultura e Pecuária. Mas é incipiente, está em processo de implantação com um calendário que vai até o final de 2008. Mas falta maior participação da sociedade na sua gestão e transparência, além de formas mais efetivas de garantir que ele não seja fraudado.
O que o consumidor tem a ver com isso? Nós podemos estar comprando carne de boi criado em fazendas com más condições sanitárias, que agridem o meio ambiente, que exploram crianças ou escravos, que grilam terras, que fraudam a receita e a previdência social. Tudo isso poderia ser rastreado com um sistema eficaz e universal. Hoje, ao comprarmos esses produtos, damos – mesmo sem saber – anuência a essas práticas.
Uma conseqüência da insuficiência do sistema é a ação de algumas redes de varejistas que têm optado por rastrear por conta própria a carne que vendem – da situação das matrizes, passando pelas condições social e ambiental das propriedades rurais, até a forma como é feito o abate e o transporte.
Em muitos lugares, a pecuária é um negócio informal – gigantesco, envolvendo milhões, mas informal. Boi de uma fazenda irregular passa para outra que possui certificação apenas levantando-se uma cerca. Donos de frigoríficos usam laranjas e mudam de razão social para sonegar impostos. Aliás, há uma estreita relação entre fazendeiros que agem de forma ilegal e certos frigoríficos. Para ambos, o lucro está acima de tudo. E como gado no pasto funciona muito bem como dinheiro facilmente não contabilizado, é um prato feito.
Repórteres da Globo e da Folha de S.Paulo mostraram que os locais indicados por Renan Calheiro como seus compradores não tinham capacidade para receber a quantidade de gado descrita por ele ou nunca tinham comercializado com o senador. A Repórter Brasil realizou uma grande identificação das redes de comercialização de fazendas de gado que usavam escravos. Ignoraram as insuficiências do sistema de rastreamento e investigaram. E se a mídia consegue, os órgãos públicos também.
Autor: sakamoto - Categoria(s): Sem categoria
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21/06/2007 - 15:52
Do Ministério Público Federal:
O MPF no Pará solicitou à Secretaria Estadual de Segurança Pública do estado providências urgentes para garantir proteção policial ao cacique Odair José Borari, coordenador do Conselho Indígena Tapajós e Arapiuns (Cita), que vem lutando contra a invasão de madeireiros em terras dos índios.
No último dia 6, Borari foi assaltado em Santarém, no Oeste paraense, e depois levado à estrada que liga a sede do município à vila balneária de Alter-do-Chão. De acordo com informações repassadas ao MPF pela Fundação Nacional do Índio (Funai), o líder indígena foi espancado por quatro homens armados e, em seguida, amarrado.
Os agressores teriam dito a Borari que ele iria pagar por tudo o que estava fazendo, o que, para o movimento indígena, é mais uma tentativa de amedrontar as lideranças dos índios da região.
No ofício enviado à Segup, o procurador da República Daniel César Azeredo Avelino observa que “as comunidades existentes ao longo dos rios Tapajós e Arapiuns sofrem com as investidas de madeireiros e sojeiros, com animosidade crescente diante de reconhecimento de áreas, na região, como pertencentes aos indígenas”.
Autor: sakamoto - Categoria(s): Sem categoria
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21/06/2007 - 11:41
Ao anunciar, ontem, os dados de geração de emprego com carteira assinada no país, o ministro do Trabalho e Emprego, Carlos Lupi (PDT) afirmou que seriam implantadas medidas para combater o trabalho escravo no setor sucroalcooleiro. Ele enfatizou que o objetivo é se antecipar às críticas internacionais devido ao aumento da participação brasileira no mercado de etanol e açúcar.
“A questão do etanol é prioritária para o país. Venho recentemente de uma reunião na OIT [Organização Internacional do Trabalho], e a gente percebe com clareza um movimento para prejudicar o Brasil no cenário internacional, já que somos os pioneiros nessa tecnologia”, afirmou.
Deve-se reconhecer que Lupi tem colocado em seus discursos o combate à escravidão contemporânea como uma das principais pautas de sua administração, afirmando que esforços estão sendo feitos na implantação de medidas preventivas, além de garantir apoio às operações de fiscalização.
Contudo, é preocupante que um ministro do Trabalho analise publicamente a questão do etanol sob a ótica dos problemas gerados ao empresariado e não pelas conseqüências ao trabalhador.
Nos últimos três anos, 19 trabalhadores rurais morreram no corte da cana apenas no (”desenvolvido”) interior paulista. Centenas de pessoas têm sido encontradas em situação degradante de trabalho em canaviais de Goiás, Mato Grosso do Sul e São Paulo. A cana não é a principal usuária de escravos – título ostentado pela pecuária bovina. Mas há incidência do crime nesse setor, tanto que a maior libertação realizada até hoje aconteceu em uma fazenda de cana – a Destilaria Gameleira, em Confresa (MT), em junho de 2005, quando 1003 pessoas ganharam a liberdade.
É claro que as coisas não são simples. Se houver embargo comercial, os trabalhadores rurais também serão prejudicados. Mas o Ministério do Trabalho há anos têm atuado para regularizar a situação nessas fazendas, ou seja, fazendo a parte dele. É hora dos empregadores, que têm enchido os bolsos com a cana, e seus ministérios fazerem também a lição de casa.
Lupi deveria externar sua preocupação com a situação dos trabalhadores rurais envolvidos na colheita da cana, que se matam de trabalhar, cortando até 17 toneladas por dia e não com a queda de ganhos causados por possíveis barreiras comerciais. Esse discurso caberia aos ministérios da Agricultura, do Desenvolvimento e Comércio Exterior ou ainda do das Relações Exteriores. O MTE é para defender o trabalhador e não o capital.
Isso me lembra um caso que aconteceu há um ano, quando fui a Alemanha para dar palestras sobre a situação do trabalho escravo no Brasil e como a Europa poderia contribuir com a sua erradicação. Quando voltei, recebi críticas de dirigentes de uma grande central sindical brasileira, que hoje faz parte do governo (OK, não ajuda muito, pois as duas maiores se aninharam com Lula), de estar “manchando” a imagem das empresas brasileiras no exterior.
Fiquei surpreso. Não por culparem o mensageiro – como jornalista já estou acostumado. Mas em nenhum momento eles se mostraram preocupados em como ajudar a resolver o problema. Ficaram indignados com o possível impacto no comércio – como se o fato de termos trabalho escravo fosse alguma novidade para o mundo.
Se esse é o novo sindicalismo, mais de olho mais na balança comercial do que na situação dos trabalhadores, teremos que redefinir rapidamente o significado da palavra peleguismo.
Autor: sakamoto - Categoria(s): Sem categoria
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