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Arquivo de dezembro, 2006

26/12/2006 - 21:47

Como fazer um mundo melhor em 2007?

Enumerei algumas coisas que gostaria de ver realizadas nesse ano que começa. Algumas são praticamente impossíveis, tendo em vista o panorama atual e o estágio de consciência da humanidade… Mas considerem isso como um exercício para ajudar a seguir em frente, tendo um horizonte para onde olhar.

Dei o início com cinco sugestões, mas a construção disso é coletiva.

Espero que em 2007:

Os grandes projetos não serão aprovados de forma atropelada, porque o interesse das populações locais bem como os possíveis danos ao meio ambiente serão exaustivamente considerados na tomada de decisão. Que será coletiva e respaldada por todas as informações referente ao impacto. E caso os projetos mostrem-se inviáveis social ou ambientalmente, eles permanecerão no papel, pois a qualidade de vida de muitos não pode se sobrepor sobre a vida de poucos.

Os parlamentares aprovarão os projetos de lei que tratam da erradicação do trabalho escravo no Brasil, entre eles a proposta de emenda constitucional que prevê o confisco das terras em que esse tipo de crime for encontrado.

O governo federal destinará recursos suficientes para assentar 1,5 milhão de famílias de forma sustentável entre 2007 e 2010. Uma reforma agrária que não apenas dê terra, mas também garanta condições sociais e econômicas para que o trabalhador produza e comercialize sua mercadoria.

As concessões de rádio e TV, bem como a definição de políticas de comunicação, atenderão a interesses públicos e não privados. A comunicação não será provolégio de grandes corporações, mas haverá espaço para as pequenas comunidades, com respeito às realidades locais.

A Febem será desativada em São Paulo, seus prédios demolidos e o terreno salgado. A criança e o adolescente infrator não serão colocados mais em depósitos de gente e tratados como bandidos, mas será dado todo o apoio para que sejam, pela primeira vez na vida, integrados à sociedade. As mães desses rapazes e moças serão convidadas a participar do processo de construção de um novo modelo, cidadão e humano.

Grande abraço a todos e até o dia 04 de janeiro.

Autor: sakamoto - Categoria(s): Sem categoria Tags:
22/12/2006 - 10:23

As vítimas não contadas na Guerra no Iraque

Hemoderivados são medicamentos fabricados a partir da industrialização do plasma do sangue humano. Um dos mais importantes é a imunoglobulina, utilizada no tratamento de deficiências do sistema imunológico, como AIDS e doenças degenerativas, como miastenia e esclerose múltipla. Milhares de pessoas no Brasil dependem desses medicamentos para poderem levar uma vida normal.

O problema é que, nos últimos meses, começou a faltar imunoglobulina humana endovenosa nas prateleiras dos hospitais, inclusive no Hospital das Clínicas de São Paulo, o maior do país. Tenho uma pessoa muito próxima a mim que precisa do medicamento e sei como a demora no tratamento causa complicações para a sua saúde.

O motivo é bizarro: os Estados Unidos, principal exportador de plasma sangüíneo, suspenderam as vendas devido à demanda por esses medicamentos pelos militares na Guerra no Iraque. O Ministério da Saúde afirmou que possui estoques de emergência e que a alternativa, no curto prazo, é buscar no mercado internacional outro fornecedor além dos EUA.

Duas lições podem ser tiradas desse episódio:

1) Apesar das iniciativas do poder público para substituir a importação de medicamentos, produzindo-os em solo brasileiro, o ritmo desse processo está muito lento. Perdem os pacientes e perde a economia. Com a crise gerada pela falta de imunoglobulina, o governo federal prometeu contratar uma empresa para fracionar o plasma brasileiro, para que sejamos menos dependentes de produtos externos. Espero que isso não fique retido no contingenciamento de gastos para gerar o superávit de 4,25% a fim de pagar a dívida externa…

2) Há compradores espalhados pelo mundo dispostos a comprar e vendedores nos EUA dispostos a vender sob o preço de mercado. O governo norte-americano ao intervir nessa relação econômica rasga a própria cartilha de livre comércio global que defende arduamente, mostrando que opera um capitalismo “self-service”: usa as regras que lhe convém e deixa o resto de lado. Vale a pena registrar isso para quando nos acusarem de interferência em nossa própria economia.

No final das contas, a Casa Branca e o Pentágono vão ter sobre os ombros outras baixas causadas por essa guerra estúpida, além daquelas descritas pela contagem oficial de corpos no Iraque.

Autor: sakamoto - Categoria(s): Sem categoria Tags:
21/12/2006 - 14:15

A esquerda conservadora

Um rápido desabafo: cansei de ouvir intelectuais de esquerda que militam por uma sociedade mais justa e humana fazendo coro com o presidente da República e parte do empresariado nacional e internacional ao pedir que o meio ambiente não seja um entrave para o crescimento.

Fazem contas para mostrar que a vida de algumas centenas de famílias camponesas, ribeirinhas, quilombolas ou indígenas não pode se sobrepujar sobre o “interesse nacional”. Defendem a energia nuclear como panacéia. Taxam de “sabotagem sob influência estrangeira” a atuação de movimentos e entidades sérias que atuam para que o “progresso” não trague o país.

(Já ouvi esse discurso antes. Mas achei que ele estava enterrado junto com a ditadura militar.)

Valeria a pena pararem para refletir e perceber que o que chamam de “interesse nacional” é, na verdade, o interesse de poucos. Como a implantação de usinas hidrelétricas em regiões de mineração para abastecer a siderurgia de exportação. Antes de pensar em escala macroeconômica, é importante ver o que vai acontecer na realidade da população. E os casos que temos visto não são nada bons.

Recomendo a leitura do Relatório de Impacto Ambiental desses projetos. Há centenas de críticas à implantação da obra, prova-se que as conseqüências à população e ao meio serão imensas, que no longo prazo os empregos gerados não acompanharão o desemprego movido pelas desapropriações de terras. E, no final, vem a conclusão cara-de-pau recomendando o projeto apenas com uma meia dúzia de sugestões para minimizar o impacto. E com um passivo ambiental que não atrapalha ninguém.

Este post não é para defender ONGs, bem pelo contrário. Tem um monte de organizações que agem de forma suspeita, ajudando grandes trandings de commodities a ocupar a planície amazônica. Mas para perguntar: por que uma turma inteligente e esclarecida acha que é o capital do Centro-Sul brasileiro pilhar a Amazônia e o Cerrado é muito diferente do Centro mundial pilhar a Periferia? Os resultados são iguais e a história está aí para mostrar as tragédias causadas quando quem detinha o poder e disse representar a maioria subjugou as minorias.

Sendo que, no Brasil, o que acontece com uma minoria em um vilarejo da Amazônia repete-se metonimicamente por todo o território. O problema é igual, mudam apenas os atores.

O desenvolvimento em curso na Amazônia privilegia apenas uma camada pequena da população. Os lucros advindos da implantação de grandes empreendimentos permanece concentrado na mão de poucos, enquanto o prejuízo é dividido por todos. Vale lembrar o exemplo de municípios como Coari (AM) e São Francisco do Conde, no Recôncavo Baiano, ricos em royalties do petróleo e derivados, mas com baixo índice de desenvolvimento humano. Se a Petrobrás, que é estatal, não se preocupa com a forma através da qual os recursos são distribuídos para a população, imaginem então quando os impostos vêm de emprendimentos privados…

Esse pragmatismo exacerbado, de que são necessários perder os peões para se ganhar uma partida de xadrez, é muito triste. Ainda mais quando vêm de pessoas que, desde a ditadura, lutam pela liberdade e a efetivação dos direitos.

Autor: sakamoto - Categoria(s): Sem categoria Tags:
19/12/2006 - 15:40

E lá se vai o Pantanal…

Em 1971, abriram a estrada. Antes, era um caminho de carro de boi. “Depois que passou a Pantaneira, acabou o caminho. Mas acabou também o carro de boi, né?” Nos últimos 70 anos, Lucília Rondon viu o mundo de fora chegar à porta de sua casa e tocar de lá o mundo que ela conhecia. No início, serviu refeições aos trabalhadores quando estes vieram abrir a rodovia Transpantaneira, ligando Poconé (MT) a Porto Jofre. Hoje fabrica compotas de frutas para hotéis e turistas. Não sabe se o sobrenome do falecido marido vem do marechal que passou por aquelas terras. O certo, porém, é que a família está lá há mais tempo que o fio do telégrafo que Cândido trouxe.

Há alguns anos, passei um mês no Pantanal fazendo uma reportagem sobre as mudanças que a região vem sofrendo. O “progresso” – palavra que vem sendo usada de forma infeliz na periferia do mundo para justificar a pilhagem – está fazendo cada vez mais vítimas nessa planície entre Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.

O “mundo de fora”, na busca pelo crescimento rápido, está alterando tudo de maneira definitiva, colocando em risco o ecossistema, as populações ribeirinhas e o futuro do seu próprio desenvolvimento. Acham que o meio ambiente agüenta porrada indefinidamente. Um bom exemplo de que não agüenta é o assoreamento do rio Taquari, devido à agricultura irracional nas franjas do pantanal.

A última idéia que tem tudo para não dar certo é a implantação da usina siderúrgica do grupo EBX, do empresário Eike Batista, na região de Corumbá. É aquele projeto que foi expulso pelo governo boliviano por, entre outras coisas, ter um potencial de grande impacto ao meio ambiente.

É difícil acreditar que a usina se contentará com o eucalipto de reflorestamento para produzir carvão e, conseqüentemente, ferro-gusa. O mais provável é que, assim como siderúrgicas em outras regiões do país, comece a comer também a vegetação nativa.

Isso sem contar que a termelétrica que vai ser construída para abastecer de energia a usina também oferece riscos de contaminação para a maior planície alagável do planeta.

O restrospecto do governo de Zeca do PT à frente do Mato Grosso do Sul não foi nada bom. Vale lembrar a batalha pela instalação de usinas de cana-de-açúcar nas beiradas do Pantanal. Batalha que teve pelo menos um morto: Francisco Ancelmo de Barros. Para protestar contra o projeto 170/05 do governo do estado, que previa a instalação de usinas de álcool na região, ele ateou fogo ao próprio corpo no dia 12 de novembro de 2005.

A morte e a conseqüente pressão popular levaram a Assembléia Legislativa a engavetar o projeto.

Zeca se vai com o final do ano. Não posso dizer que deixará saudades. Mas com o aumento do interesse do mundo em nossas commodities, do gusa ao álcool, é difícil prever por quanto tempo o Pantanal vai agüentar à pressão do “progresso”.

Na época da minha reportagem, Lucília disse que tinha se cansado de lutar. Pois, o que ela enxerga, além do ciclo das cheias, não é tão hospitaleiro como antes. O mundo de fora está chegando, e mudando tudo.

“Ali, era um arraial de povo. Tinha festa demais, de Conceição, de São Benedito, de São João. Cada família fazia a festa de um santo na sua casa. Era a coisa mais bonita do mundo. Dançava cururu, siriri, brinquedo de roda, baile de sanfona. Hoje, se não vier conjunto de Poconé, não tem festa…”

“Fico mordida com isso!”

Autor: sakamoto - Categoria(s): Sem categoria Tags:
18/12/2006 - 14:12

Quantas pessoas são necessárias para resgatar a liberdade?

Tive a honra de receber, hoje, em cerimônia na sede da Procuradoria Geral do Trabalho, em Brasília, o Prêmio Combate ao Trabalho Escravo 2006, categoria Personalidade. O prêmio é uma iniciativa da Organização Internacional do Trabalho, Associação dos Juízes Federais do Brasil, Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho, Associação Nacional dos Procuradores do Trabalho e Associação Nacional dos Procuradores da República.

Também foram agraciados a Comissão Pastoral da Terra (Instituição) e Ana Aranha e Ricardo Mendonça, da Revista Época (Matéria jornalística).

Agradeço a todos que reconheceram nosso esforço. É importante saber que estamos no caminho certo na luta contra essa desgraça que é a conversão de trabalhadores em instrumentos descartáveis.

Mas é necessário que se faça justiça. Por isso recebo o prêmio não em meu nome, mas no de uma equipe dedicada e competente, que está na linha de frente do combate à escravidão contemporânea. Que não mede esforços para cruzar as terras amazônicas e o sertão nordestino, atuando tanto na comunicação e pesquisa, quanto na prevenção e repressão a esse crime.

Muitas pessoas contribuíram com a área de combate ao trabalho escravo da Repórter Brasil nos últimos anos. Espero, portanto, que a memória não me falhe agora para que possa dividir esse prêmio com todos aqueles que verdadeiramente o merecem:

Ana Paula Severiano
André Campos
Andréa Leal
Beatriz Camargo
Caio Cavechini
Carlos Juliano Barros
Carolina Cunha
Carolina Motoki
Claudia Carmello
Daniela Matielo
Evelyn Kuriki
Fabiana Vezzali
Fernanda Sucupira
Gabriela Castello
Gustavo Monteiro
Iberê Thenório
Ivan Paganotti
Joana Moncau
Márcio Kameoka
Mariana Sucupira
Mauricio Monteiro Filho
Paula Takada
Paula Gonçalves
Priscila Ramalho
Renata Summa
Susana Bragatto
Thiago Guiamarães

É duro nadar contra a corrente. Ir para a esquerda quando tudo a nossa volta caminha à direita. Vivemos um tempo em que deveríamos estar derrubando cercas mas, ao invés disso, erguemos muros.

Mas sei que, mesmo assim, cada um desse pessoal aí, da sua forma, se dedica para que a idéia de liberdade fuja dos dicionários, salte esses muros e ganhe a realidade.

A todos eles, a minha admiração e o meu muito obrigado!

Autor: sakamoto - Categoria(s): Sem categoria Tags:
15/12/2006 - 18:28

Um deputado sustentaria 377 escravos por mês

Estava voltando de viagem hoje quando ouvi no rádio um nobre deputado defendendo o aumento salarial de 91%, que levou os seus vencimentos a R$ 24.500,00 mensais.

A sua família é grande, a distância das Alagoas, seu curral eleitoral, é grande, o número de obrigações de correio e gasolina são grandes… Grande também é a cara-de-pau.

Já disse isso em outro post e vou dizer de novo: a elite política brasileira perdeu o resto do pudor que guardava no bolso do paletó. Tão andando nus, sem vergonha de ser feliz, diante do povaréu.

Esse valor dá 70 salários mínimos. Em números redondos, sem decimais. Ou seja, parece até que a escolha foi de propósito.

Se considerarmos R$ 65,00 como custo mensal de “manutenção” de um escravo em uma fazenda de gado na Amazônia, teríamos um salário de um deputado garantindo o serviço de 377 trabalhadores.

(Calculei sem critério científico o valor da alimentação, com base em anotações mensais de cadernos de dívidas apreendidos dos “gatos”, os contratadores de mão-de-obra a serviço dos fazendeiros. Isso, por coincidência, deu mais ou menos um dólar por dia.)

Na verdade, os nobres deputados garantem a manutenção de mais escravos do que isso sem precisar tirar um real ou dólar de seus bolsos. Pois sentaram com as gordas nádegas em cima de projetos de leis que ajudariam a libertar gente, como o que prevê que terras em que escravos forem encontrados sejam confiscadas para a reforma agrária.

Isso sem contar que muitos deles, além dos salários, recebem também a cada quatro anos uma pensão de grandes fazendeiros para representá-los. Ou melhor dizendo, fazer a função de leão-de-chácara da manutenção de um estrutura que garante a exploração da ralé.

Eles são bem pagos para fazer esse serviço sujo. E isso eles têm feito de forma exemplar.

A elite política está nua, ou no máximo vestindo um tapa-sexo com os dizeres: “Dinheiro e Poder”.

E o resto que se dane.

Autor: sakamoto - Categoria(s): Sem categoria Tags:
12/12/2006 - 15:36

Guerreiro da Chapada

Joás Brandão é um daqueles caras que são capazes de convencer a gente a largar tudo e seguir uma causa. A dele é a defesa da vida na Chapada Diamantina – tanto da terra e da água quanto do homem que delas comunga com respeito. O Grupo Ambientalista de Palmeiras, que ele coordena, é considerado um dos anjos da guarda do parque nacional.

Conheci o Joás durante uma reportagem há seis anos. Sem medo nenhum de ser acusado de ser parcial com a fonte, ele se tornou uma das minhas grandes referências. Aliás, os infelizes que ensinam na faculdade que jornalismo é imparcial deviam trabalhar em uma redação para pararem de falar abobrinha…

As férias de verão estão chegando e milhares de turistas devem visitar a região da Chapada. Sugiro que procurem o GAP antes de aventurarem por aquelas bandas para o ver o trabalho deles e, se possível, trocar um dedo de prosa com Joás.

Recentemente, a revista Época deu uma boa matéria sobre ele. Vale a pena ler.

Autor: sakamoto - Categoria(s): Sem categoria Tags:
10/12/2006 - 15:26

Lamentos pela morte de Pinochet

Pinochet não podia ter morrido. Não devia ter morrido.

Entendo a alegria de todos os que, durante as ditaduras militares do Cone Sul, foram caçados por ele, chilenos ou não. Mas este é um momento de reflexão.

Pesar pela incompetência da humanidade que não conseguiu fazer com que esse açougueiro respondesse pelos crimes que cometeu. De 1973 a 1990, mais de 3 mil pessoas desapareceram pelas mãos de sua polícia secreta.

Um amigo comentou que hoje, domingo (10), a “justiça divina” finalmente havia chegado para o ditador via ataque cardíaco.

Pô, isso só pode ser brincadeira!

O sujeito com 91 anos, morando confortavelmente em sua mansão, com a certeza absoluta que tanto o governo chileno quanto o sistema internacional não teriam forças para colocá-lo na cadeia, passa dessa para a melhor e isso é “justiça divina”?

O cara viveu quase um século, sendo que 17 anos mandando e desmandando e morreu impune.Passou os últimos anos se justificando pela saúde frágil – frágil de acordo com a equipe contratada para a sua defesa. A culpa não foi do céu, é nossa.

Outra alma ceifada recentemente pela “justiça divina” foi o Coronel Ubiratan, responsável pela execução de 111 presos na Casa de Detenção do Carandiru, em São Paulo.

A sociedade brasileira não conseguiu condená-lo. Morreu há três meses, segundo a polícia, pelo gatilho de sua própria namorada. Estava a caminho de ser facilmente reeleito como deputado estadual, ironizando o país ao candidatar-se com o número 14111.

Os dois não são casos únicos. Se considerarmos os fazendeiros que utilizam trabalho escravo no Brasil, conheço dois casos que morreram com os processos criminais (lentamente) tramitando contra eles.

Não estou com uma sanha justiceira, de maneira alguma. Mas creio que todos os que lutam para que os direitos humanos não sejam um monte de palavras bonitas emolduradas em uma declaração cinqüentenária não se sentiram contemplados com o passamento de Pinochet, do Coronel, dos escravagistas. Não quero uma saída “Nicolas Marshall”, de justiça com as próprias mãos. Quero apenas que a justiça funcione.

É pedir muito?

Pinochet em Santiago 1988/AFP

Autor: sakamoto - Categoria(s): Sem categoria Tags:
08/12/2006 - 17:24

A seringueira, o metalúrgico e o fazendeiro

A foto não é nova. Mas como este blog é, eu não podia deixar de registrar…

… o presidente Lula e seu mais novo melhor amigo, o governador do Mato Grosso, Blairo Maggi.

No segundo turno da eleição presidencial começaram a pipocar aqui e ali muitas imagens dos dois juntos, com o apoio do recém-reeleito governador do Mato Grosso ao presidente Lula.

Foi na época daquele bilionário apoio amigo do Planalto para ajudar os agricultores que perderam dinheiro com as variações cambiais e para os que estavam endividados. Considerando que os sojicultores foram especialmente beneficiados com a medida, têm se a idéia da felicidade do acerto para o governador.

Depois de reeleito, Lula voltou ao Mato Grosso para fazer campanha pelo biodiesel ao lado de Blairo. Até visitou a fazenda do homem (mas se Bush Filho comeu churrasco do Torto, por que não, né?) e inaugurou uma estrada ali perto. Para ajudar o desenvolvimento, sabe?

Lembra daquele projeto de biodiesel que nasceu para ajudar os pequenos agricultores? Ele está cada vez mais fazendo a alegria do latifúndio da soja. Vale a pena ler a boa matéria de André Campos sobre o tema.

Uma das maiores produtoras de soja do mundo, a família Maggi veio comendo a Amazônia no nortão do Mato Grosso e regurgitando soja no lugar.

Como governador, Blairo levou o Prêmio Motosserra de Ouro 2005, após votação organizada pelo Greenpeace, com 37,21% dos votos. O presidente Lula ficou em segundo, com 26,3%.

“Acho que a continuidade do governo Lula é melhor para Mato Grosso e acho que as questões da agricultura estão muito mais próximas de ser resolvidas com este governo do que se começar tudo de novo”, disse o rei.

A imagem dos dois juntos é escabrosa se levarmos em conta que movimentos ambientais que apoiaram a reeleição agora são chamados de “gargalo” para o crescimento. E que a ministra do Meio Ambiente, que já foi amiga, hoje é uma pedra no caminho.

A foto é um resumo do nosso tempo se considerarmos que esse governo de esquerda privilegiou a grande produção agrícola em detrimento de camponeses, quilombolas, indígenas, ribeirinhos…

E que reforma agrária ainda é conto da carochinha.

Autor: sakamoto - Categoria(s): Sem categoria Tags:
07/12/2006 - 18:01

Um escravocrata na presidência?

Depois de ter um presidente que fez lobby por uma fazenda reincidente no uso de trabalho forçado, a Câmara pode ganhar um que usou, ele mesmo, mão-de-obra escrava.

Após empresas como Ipiranga e Petrobrás assumirem o compromisso de barrar fornecedores de álcool combustível que utilizaram mão-de-obra escrava, o então presidente da Câmara dos Deputados, Severino Cavalcanti (PP-PE) ligou para as empresas para saber por que o álcool da Destilaria Gameleira não estava mais sendo comprado.

A empresa em questão é controlada por um conterrâneo de Severino, Eduardo Queiroz Monteiro (irmão de Armando Queiroz Monteiro, presidente da Confederação Nacional da Indústria), e recordista no número de trabalhadores libertados em uma única operação do governo federal – 1003.

Severino disse que a ligação foi feita a pedido de deputados federais. Na época, a repercussão na imprensa e junto à sociedade civil do lobby do parlamentar agindo em prol da iniciativa privada foi bastante negativa.

Agora, quem pode assumir (de novo) a presidência da Casa é Inocêncio Oliveira (PL-PE). Ele é proprietário da fazenda Caraíbas, da qual, em março de 2002, foram libertadas 53 pessoas mantidas em situação análoga à de escravo. Inocêncio vendeu a propriedade, que fica no município de Gonçalves Dias, no Maranhão, mas isso não o livrou de constar da primeira “lista suja” – o cadastro do governo federal que relaciona os que foram comprovadamente flagrados utilizando esse tipo de mão-de-obra.

Ele já foi condenado em segunda instância pelo Tribunal Regional do Trabalho da 16a Região pelo crime e está recorrendo da decisão.

Inocêncio quer ser uma opção dos deputados do “baixo clero” aos nomes do PC do B, PT, PFL-PSDB ao segundo posto na linha sucessória da Presidência da República. No vácuo criado pelas brigas internas da base governista, Severino Cavalcanti chegou lá. Pode ser que Inocêncio não prospere e que tudo isso seja apenas mais uma ação para trazer mais poder para o primeiro-secretário da Câmara.

Mas, senhores deputados, tendo em vista o desgaste de vossa Casa no quesito ética perante a opinião pública, vale a pena pagar mais esse mico?

Autor: sakamoto - Categoria(s): Sem categoria Tags:
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