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sexta-feira, 18 de maio de 2012 Reportagem | 18:16

Casa Daros: Bilionária suíça banca museu no Rio

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No Brasil, os bilionários ou multimilionários que gastam uma parte de suas fortunas com obras de arte costumam guardá-las para si mesmos, nas paredes de suas casas, nos jardins de suas mansões, longe do olhar do público e, não raro, do fisco. Há exceções, como o empresário da mineração Bernardo Paz, que fundou Inhotim, uma junção fabulosa de instituto de arte contemporânea e jardim botânico em Brumadinho, a 60 km de Belo Horizonte.

Por isso, é surpreendente que um museu de nível internacional vá abrir ainda este ano no Rio custeado pela fortuna de uma única pessoa. Mais surpreendente ainda é que a dona da fortuna é estrangeira: a suíça Ruth Schmidheiny. Ela financia do próprio bolso a abertura da Casa Daros, um espaço em Botafogo, na zona sul carioca, para exposição da maior coleção europeia de arte latino-americana contemporânea.

Rio tem a maior concentração de investimentos no mundo

O pátio interno da Casa Daros sob reforma (foto: Fabio Caffé/divulgação)

O pátio interno da Casa Daros sob reforma (foto: Fabio Caffé/divulgação)

A origem dos Schmidheiny

Ruth é ex-mulher de Stephan Schmidheiny, pertencente a mais tradicional dinastia industrial suíça e uma das famílias mais ricas do mundo. Seu ex-marido e seu ex-cunhado estão na lista da Forbes de maiores fortunas do mundo. Quando o pai morreu, dividiu o espólio em dois. Thomas ficou com o setor de cimento (a segunda maior empresa do setor no mundo). E Stephan ficou com a Eternit, a gigante do cimento amianto (uma substância cancerígena), o que fez com que ele se tornasse uma figura bastante controversa. Em fevereiro foi condenado a 16 anos de prisão por um tribunal italiano em um julgamento sobre contaminação por amianto – ele anunciou que vai recorrer.

Maior museu de arte naïf no mundo reabre no Rio

Publicamente , Stephan condenou o uso do amianto bem antes que a substância fosse proibida e começou a substituir seu uso. Ele se aposentou em 2003 para se dedicar à filantropia e ao ambientalismo. Gastou mais de US$ 1 bilhão em projetos, a maioria na América Latina. A Forbes se referiu a ele como o Bill Gates da Suíça. Sua preocupação com o reflorestamento data dos anos 80 e ele foi um dos principais conselheiros de Maurice Strong, o secretário-geral da Rio92, durante a preparação e a realização da conferência da ONU no Brasil.

A Casa Daros é um projeto de sua ex-mulher, Ruth. Embora não sejam mais casados, continuam compartilhando certa aversão a entrevistas e conversas com a imprensa. O museu vai servir de local de exposição da coleção Daros Latinamerica que ela mantém em Zurich, na Suíça, com acervo composto de meios e formatos diversos – de pinturas e esculturas a fotografias, instalações e vídeos.

O museu no Rio deve receber entre duas e três grandes mostras por ano. A de abertura já está escolhida. Será “Cantos Cuentos Colombianos”, com 11 artistas da Colômbia, entre eles Doris Salcedo, Oscar Muñoz e José Alejandro Restrepo.

Prédio era orfanato para meninas

Fachada da entrada principal da Casa Daros (foto: Jacqueline Felix/Divulgação)

Fachada da entrada principal da Casa Daros. No alto a imagem da Santa que virou modelo para Vik Muniz (foto: Jacqueline Felix-Imagens do Povo/Divulgação)

A Casa Daros deve ser inaugurada no segundo semestre deste ano. A data depende da conclusão da minuciosa reforma por que passa o imenso casarão neoclássico projetado pelo arquiteto Joaquim Bethencourt da Silva e erguido em 1866 na Rua General Severiano.

A construção é da época em que a região não era tão densamente povoada e podia abrigar uma chácara. Desde 1819 o local pertencia à Santa Casa de Misericórdia e nas últimas décadas foi ocupada por uma escola conhecida no Rio (o Anglo-Brasileiro). Mas, em sua origem, foi criado com outra função. Era o Recolhimento Santa Teresa, um orfanato para meninas pobres que teve entre os beneméritos D.Pedro II e a imperatriz Tereza Cristina. Posteriormente virou um educandário, também ligado à Santa Casa.

Curiosamente, a imagem que adorna o alto da fachada de entrada do casarão não é de Santa Teresa, como pareceria natural. É de Nossa Senhora das Graças, uma das invocações da Virgem Maria. Ela acabou virando inspiração e modelo para uma encomenda a Vik Muniz dentro da série “Pictures of Junk”. Foi recriada em dimensões maiores a partir do entulho da própria reforma do casarão.

Obra Nossa Senhora das Graças, feita por Vik Muniz (foto divulgação)

Obra Nossa Senhora das Graças, feita por Vik Muniz com entulho da reforma (foto divulgação)

A obra se incorpora ao acervo de mais de 1.100 peças de 114 artistas latino-americanos contemporâneos. Dezessete artistas brasileiros estão presentes na coleção da Daros. Entre eles, alguns bastante conhecidos, mas de estilos e trajetórias bastante diferentes, como Antonio Dias, Cildo Meireles, Hélio Oiticica, Lygia Clark, Ernesto Neto, Iole de Freitas, Mario Cravo Neto, Nelson Leirner. Entre os estrangeiros constam a escultora colombiana Doris Salcedo e o pintor uruguaio Joaquín Torres Garcia.

Dobradiças refeitas

Detalhe do ferrolho restaurado em uma das portas (foto: Fabio Caffé/Divulgação)

Detalhe do ferrolho restaurado em uma das portas (foto: Fabio Caffé/Divulgação)

A equipe da Casa Daros tem uma ambição, que o espaço sirva para difusão e reflexão acerca da arte latino-americana. E, para tanto, pretende funcionar baseada em um tripé: arte, educação e comunicação.

Além de exposições, ela irá oferecer atividades integradas de arte-educação, como oficinas, seminários, cursos. E também terá o esquema de “artistas visitantes”, em que convidados passarão pequenas temporadas associados à Casa, trabalhando e difundindo sua arte, possibilitando o funcionamento de um espaço de convivência com práticas artísticas.

Para chegar até isso foram necessários seis anos. O casarão foi comprado em 2006. As obras começaram no ano seguinte. A inauguração do museu chegou a ser anunciada, inicialmente, para 2008 e, posteriormente, para 2009. Mas as dificuldades e especificidades encontradas durante a obra atrasaram o projeto.

“Achávamos que seria uma reforma bem mais simples. Houve um cálculo equivocado que ela duraria um ano e meio, dois anos. Mas a manutenção era pavorosa e a necessidade de restauro foi maior. Entrava água quando chovia, por exemplo. E não imáginávamos que teríamos que trocar o telhado inteiro”, explicou ao iG Isabella Rosado Nunes, diretora-geral da Casa Daros.

Musa Paradisíaca, do colombiano José Alejandro Restrepo, deve estar na mostra de inauguração (foto: Divulgação)

Musa Paradisíaca, instalação do colombiano José Alejandro Restrepo, deve estar na mostra de inauguração (foto: Divulgação)

Como o imóvel era tombado, houve acompanhamento do Patrimônio Histórico. A preocupação era recuperar o prédio, sem descaracterizá-lo, adaptando o espaço para abrigar um museu do porte e com as necessidades da Casa Daros. Um exemplo é a instalação de elevadores de carga que possam carregar obras pesadas e de grande formato. Ao mesmo tempo, foi dispendido tempo e energia para recuperar a pintura marmorizada das paredes do saguão de entrada. O cuidado se estendeu às gigantescas palmeiras imperiais que ornam a frente do casarão.

Um passeio pelo prédio, acompanhando o trabalho dos operários, evidencia o cuidado com os detalhes na reforma. Para restaurar os janelões e portas imensas, foi preciso achar artesões que pudessem refazer as dobradiças e ferrolhos da forma mais próxima das originais. E olha que são 500 vãos de portas e janelas. O chão foi inteiramente rebaixado em meio metro para que pudesse ser utilizado. Sem falar em toda a parte elétrica e hidráulica, que foi refeita do zero.

Sorte do Rio, azar de Havana

O objetivo agora é concluir a restauração de dois terços dos 11 mil metros quadrados de área construída para a inauguração.

Se tudo correr sem novos imprevistos, a Casa Daros abrirá seus portões no final do ano. O prédio contará com uma biblioteca, um auditório para cem pessoas, um restaurante e uma cafeteria. O objetivo é levar ao museu não apenas o público habituado a esse tipo de espaço. Funcionará de quarta a domingo com uma previsão de 300 visitantes diários.

Por último, e não menos surpreendente, em um País onde o hábito do investimento em cultura pela iniciativa privada se dá em troca do abatimento do imposto a pagar e mediante publicidade para a própria empresa, até o momento nenhum centavo de dinheiro público custeou a Casa Daros. E só o casarão custou R$ 16 milhões. A ideia é tocar o museu sem recorrer a verbas governamentais, embora não esteja descartada a possibilidade de parcerias com outras instituições, inclusive públicas, no futuro.

A vinda da Casa Daros para o Rio também tem um componente de boa fortuna, na segunda acepção da palavra. Inicialmente, a ideia era tocar o projeto em Havana. Mas problemas burocráticos por lá acabaram inviabilizando a escolha e a opção recaiu sobre o Rio. Azar dos cubanos.

O pátio interno da Casa Daros iluminado (foto: Fábio Caffé/Divulgação)

O pátio interno da Casa Daros iluminado (foto: Fábio Caffé/Divulgação)

Autor: Luiz Antonio Ryff Tags: , , , ,

sexta-feira, 27 de abril de 2012 Entrevista, Reportagem | 16:14

Maior museu de arte naïf no mundo reabre após cinco anos fechado

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Nascido na França de uma família de origem judia polonesa, Lucien Finkelstein (1931-2008) chegou ao Rio de Janeiro sozinho, aos 16 anos, pouco após a Segunda Guerra acabar, sem falar uma palavra de português. Tinha passado o conflito escondido em uma casa no interior da França.

Exemplo de molas panamenhas exposta no Mian (foto: divulgação)

Exemplo de molas panamenhas exposta no Mian (foto: divulgação)

No Brasil, construiu uma família, um nome como joalheiro de reputação internacional e a maior coleção de arte naïf, que ele legou à cidade. O Museu Internacional de Arte Naïf fica no Cosme Velho, a poucos passos do bondinho do Corcovado, que leva ao Cristo Redentor.

“Ele achava que a arte naïf era a mais genuína de um povo. E o museu era o jeito dele para pagar uma dívida com a cidade que o tinha acolhido. Meu avô chegou aqui com uma mão na frente e a outra atrás, passando fome”, conta a educadora Tatiana Levy, que atua como gerente executiva do Mian.

Infelizmente, o museu ficou fechado durante cinco anos. Reabriu nesta sexta-feira (27), mostrando 250 obras em oito exposições. Uma delas é a panamenha “Molas”, que apresenta 15 telas com técnicas de sobreposição de tecidos feitas pelas índias da tribo Kuna.

A história do criador do museu

Lucien veio morar com os tios e começou a trabalhar na loja que vendia pedras e gemas brasileiras de propriedade do marido de sua tia, um imigrante judeu russo. Aprendeu português, virou atleta e chegou a competir pelo Fluminense em modalidades olímpicas como o arremesso de dardo.

Gostava de desenhar e pintar. Se encantou ao ver uma aquarela de Di Cavalcanti e um quadro de Heitor dos Prazeres na Livraria Francesa, em Copacabana. Daí nasceu o interesse pela arte naïf (também conhecida como arte primitiva moderna, ela se caracteriza por certa ingenuidade dos traços, por ter um caráter autodidata, não vinculado à qualquer corrente acadêmica formal).

Os Arcos da Lapa retratados pelo pintor Agostinho (foto: divulgação)

Os Arcos da Lapa retratados pelo pintor Agostinho (foto: divulgação)

Ao casar, Lucien resolveu criar uma joalheria e desenhar as próprias peças, valorizando um design próprio, em vez de apenas vender as gemas. Acabou descoberto por socialites como Teresa Souza Campos e foi catapultado para a capa da Manchete, importante revista de então.

Viveu seu auge profissional nos anos 50 e 60, quando uma pulseira fez parte do acervo da rainha Elizabeth II e criou uma coleção com Di Cavalcanti – de quem ficou amigo e passou a trocar quadros por joias. Pelo design de suas obras, acabou agraciado com o De Beers, o mais importante prêmio do mercado joalheiro mundial,.

Com o dinheiro das joias ele começou sua coleção. Colecionou durante 40 anos. E reuniu cerca de 6 mil obras de mais de 100 países. Teve que arranjar um apartamento para colocar o acervo. Em 1988, exibiu parte dele em uma exposição no Paço Imperial.

O sucesso levou ao desejo de montar um local para a exibição permanente. Ele comprou um casarão do século 19 no Cosme Velho para abrigar as obras. O Mian foi aberto em 1995, pelo esforço dele. O museu acabou recebendo uma verba municipal para o funcionamento, que foi cortada. Em 2007 ele foi fechado por falta de dinheiro para operar.

“O museu fechou em 2007 e meu avô morreu no ano seguinte de ataque cardíaco. Ele ficou deprimido e triste. Não conseguia entender como o governo não se interessava em manter na cidade um acervo tão significativo”, diz Tatiana. Ela conta que o avô tinha recebido convites para levar o acervo para outras instituições, mas queria que ficasse no Rio.

Entre 2007 e 2011, embora de portas fechadas, o museu ainda podia ser visitado por grupos que o contatassem. Em 2010, contudo, uma chuva destruiu o telhado e inundou a reserva técnica. Trezentos quadros foram danificados.

O painel "Rio de Janeiro, gosto de você, gosto dessa gente feliz...", de Lia Mittarakis, tem 4 x 7 metros (foto: divulgação)

O painel "Rio de Janeiro, gosto de você, gosto dessa gente feliz...", de Lia Mittarakis, tem 4 x 7 metros (foto: divulgação)

Em abril do ano passado o museu fechou completamente. A ajuda chegou com a Secretaria Municipal de Cultura, que liberou uma verba, e o Prince Claus Fund, instituição holandesa que preserva acervos pelo mundo e custeou a reforma do telhado e da reserva técnica.

O museu reabre reformado. Houve uma reforma museológica que privilegiou uma nova identidade visual e elementos de tecnologia com audioguias. No subsolo há uma videoinstalação em homenagem a Henri Rousseau, le douanier, francês precursor e nome mais conhecido da arte naïf no mundo.

Mas ainda tem muita coisa a fazer. A lojinha deve começar a funcionar este mês. O café ainda não tem prazo. A perspectiva do site é ficar pronto em maio. E Tatiana diz que é preciso restaurar a fachada do museu e que não há verba de manutenção básica para serviços de limpeza, conservação, jardim, gastos com luz, água… – a família ainda arca com isso.

“Queremos transformar o museu em uma instituição auto-sustentável. Mas ainda falta um caminho a percorrer”, diz Tatiana.

MUSEU INTERNACIONAL DE ARTE NAÏF (MIAN)
Rua Cosme Velho, 561 – Cosme Velho.
Funcionamento: de terça a sexta, das 10h às 18h; sábado, das 12h às 18h com agendamento prévio (até um dia antes).
Ingresso: R$ 16; crianças até 5 anos não pagam; R$ 8 (meia entrada), estudantes, menores de idade e maiores de 60 anos.
Telefone: (21) 2205-8612

Autor: Luiz Antonio Ryff Tags: , , ,

sexta-feira, 20 de abril de 2012 Entrevista, Reportagem | 16:44

Um ex-presidente de banco que investe reformando casarões em ruínas

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Como ex-presidente do BNDES, o economista Carlos Lessa foi responsável por gerenciar bilhões de reais de estímulo para empreendimentos que pudessem desenvolver o futuro do País. Como economista, preocupado com a gestão do próprio patrimônio, ele usa seus dinheiro preservando o passado carioca.

Ele é responsável por resgatar 11 imóveis antigos na região central da cidade. Preservando suas características arquitetônicas, viraram brasserie, livraria, pizzaria, botequim, casa de shows. São sobrados do século 19 em sua maioria. Um dos primeiros a ser resgatado, na rua do Rosário, Lessa acredita ter sido um dos primeiros bancos do Brasil sob d. João VI.

Carlos Lessa na rua do Mercado, onde restaurou sobrados antigos (foto: divulgação)

Carlos Lessa na rua do Mercado, onde restaurou sobrados antigos (foto: divulgação)

Sete casas estão alugadas e viraram empreendimentos comerciais. Duas estão ocupadas por familiares – e uma delas abriga sua biblioteca de 20 mil livros.

Sua última empreitada é o Ameno Resedá, um casarão arruinado que ele transformou em casa de shows e restaurante no Catete, bairro carregado de história a poucos metros do palacete que abrigou a Presidência até a transferência da capital para Brasília.

“O Catete tem uma simbologia muito grande. E ainda fica no pé da favela, na beira do asfalto”, afirma ele ao iG. Ao contrário dos outros empreeendimentos, este ele decidiu tocar pessoalmente.

É um caso de amor antigo com final feliz. Lessa havia comprado o casarão década atrás quando era diretor do Conselho Regional de Economia. O objetivo era fazer lá a Casa do Economista, um espaço de convívio da classe, com restaurante e livraria. A administração seguinte se opôs à ideia e vendeu o imóvel, que acabou nas mãos de uma igreja evangélica.

Como nasceu o interesse

Autor de 15 livros sobre economia e sobre o Brasil, Lessa tem um currículo extenso, que enche com folga uma página. Doutor em Economia pela Unicamp, é considerado um dos mais influentes economistas do País, foi reitor da UFRJ, a maior do País, e professor de diversas faculdades antes de se tornar presidente do BNDES no governo Lula.

Embora sempre tivesse tido curiosidade intelectual pela história do Rio, seu interesse pelo resgaste histórico tem origem em uma das atividades que exerceu. No início dos anos 90 ele foi coordenador do Plano Estratégico da cidade. Foi quando aproveitou para fazer um mergulho mais aprofundado na história.

“O Rio é uma metrópole linear. Você só pode ir de A para C passando por B. Os bairros são sequenciais. Em outras cidades você por ir de A para C por B, mas há outros caminhos. E em uma cidade octagonal, como São Paulo, há vários centros. E o centro do Rio estava morrendo. Seria acabar com o ponto de união dos cariocas da zona sul com os da zona norte. Esse encontro é importante para manter as características de cordialidade e convivialidade do carioca”.

Seu relatório do Plano Estratégico apontava isso. Mas havia um problema, que ele confessa. “Eu tinha vergonha de assinar aquilo. Minha família tinha dois imóveis inteiramente podres no centro do Rio, na rua do Rosário, que fediam, com esgoto a céu aberto. Se eu não recuperasse daria um atestado de hipocrisia”, admite.

Poder público é obstáculo

Os sobrados da família foram os primeiros. E ele ganhou gosto. Começaram a lhe oferecer todos os imóveis podres da rua. “Tinha até casa de tolerância que pertenceu a uma tal madame Lili”, confidencia ele.

E lamenta que o Rio não seja uma cidade que preserve mais sua própria memória. Sonha em fazer da Cinelândia (que ganhou esse nome pela quantidade de cinemas grandiosos que chegou a abrigar) uma Broadway brasileira.

Não que a recuperação de imóveis antigos em condição lastimável seja uma tarefa fácil. Antes de tudo é preciso fazer um levantamento de dívidas de IPTU, de contas não pagas de luz e água. Se há questões jurídicas e questionamentos de titularidade.

Ele lamenta que as autoridades municipais não ajudem como poderiam. Ele lista os três principais obstáculos que poderiam ser facilitados: identificação da titularidade (muitas vezes é difícil identificar os donos, às vezes há problemas legais com os espólios); acelerar o processo de licença; e ajudar a construção facilitando carga e descarga em ruas centrais e estreitas.

Na última obra, no Ameno Resedá, um deteriorado poste de luz na calçada ameaçava a fachada do casarão e impedia o início da reforma. Demorou um ano para que ele fosse removido. “Só quando a Justiça condenou à prisão o presidente da empresa e estipulou uma multa, que não foi paga até hoje”, conta Lessa.

E quando há incentivos, eles são difíceis de tirar do papel. A isenção de imposto para recuperar um imóvel antigo é um exemplo. “É a maior dificuldade conseguir essa isenção da Prefeitura. É muito obstáculo”, lamenta ele que diz que não há apoio nem para coisas elementares como remoção de entulho.

E esses obstáculos não estão apenas na esfera pública. A modernidade acabou condenando diversas especializações profissionais. É dificílimo encontrar um mestre gesseiro ou outros artesãos para fazer uma restauração adequada.

Investimento fabuloso

Fachada do Ameno Resedá, o casarão reformado e transformado em casa de shows (foto: divulgação/Kita Pedroza)

Fachada do Ameno Resedá, o casarão reformado e transformado em casa de shows (foto: divulgação/Kita Pedroza)

Apesar de tudo isso, o ex-presidente do BNDES afirma que esses empreendimentos são também um ótimo investimento financeiro e se surpreende que não existam mais investidores fazendo o mesmo. Ele avalia que há diversas áreas do Rio que estão subvalorizadas e mal utilizadas. Ele cita a quantidade de imóveis abandonados na avenida Brasil, estrategicamente ligando o centro à rodovias importantes como a Dutra.

“Comprar um imóvel destruído no centro e recuperar é uma aplicação patrimonial muito boa. É um investimento fabuloso comprar muito barato e gastar uma pequena fortuna restaurando. Mas dá um trabalho infernal, se amola uma barbaridade. É importante bolar um uso para o imóvel antes da reforma, imaginar para o que será usado. E é preciso paciência e não confiar no poder público. Ele não vai ajudar”, resume ele, que não revela cifras pagas pelos imóveis, quanto gasta nas reformas, nem o rendimento obtido com os aluguéis.

O Ameno Resedá é o ponto culminante desse processo. E tem uma história curiosa. Foi um rancho, uma espécie de precursor dos blocos carnavalescos, criado em 1907. E com vários detalhes típicos do ecumenismo carioca, como aponta Lessa. “Era uma atividade profana que começou com patrocínio da Igreja da Glória. E uma vez foram parar dentro do Palácio do Catete, se apresentando para o presidente, com um enredo sobre belzebu”, diverte-se.

Autor: Luiz Antonio Ryff Tags: , , , , , ,

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012 Entrevista, Reportagem | 10:01

Os últimos cem anos de artes plásticas no Brasil em 186 obras

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Das paredes de agências bancárias espalhadas pelo País, de saguões, escritórios e salões do Itaú, 186 obras de 137 artistas – representativas dos últimos 100 anos de artes plásticas no Brasil – foram reunidas no Paço Imperial, no centro do Rio.

"O Impossível", escultura em bronze de Maria Martins está exposta no pátio do Paço

Um dos locais com mais história no País, o Paço Imperial recebe a mostra “1911-2011 Arte Brasileira e depois, na Coleção Itaú”, um recorte impressionante, amplo e abrangente, de um dos mais importantes acervos de obras nacionais.  É quase um quem é quem das artes plásticas no Brasil. Vai de Lasar Segall, Tarsila do Amaral, Portinari e Di Cavalcanti até Adriana Varejão, Beatriz Milhazes, Ernesto Neto e Tunga, passando por Iberê Camargo, Cícero Dias, Maria Martins, Volpi e Samson Flexor.

E o local escolhido para exibir um acervo tão precioso está à altura. Foi no Paço, a primeira sede administrativa no País, que D. Pedro I teve o seu dia do Fico, em que avisou que preferia continuar aqui a se mandar para Portugal. Foi no Paço que a Lei Áurea de abolição da escravatura foi assinada. Lá também funcionou a Casa da Moeda. Era lá que D. João VI despachava quando chegou ao Brasil fugindo de Napoleão. E o prédio ainda serviu de local de trabalho e residência eventual para os dois imperadores brasileiros, que lá tiveram suas aclamações populares após as coroações. Em uma de suas salas ocorriam as cerimônias de beija-mão.

Escultura de aço cromado sem título de Lygia Pape em primeiro plano, com telas de Cícero Dias e Samson Flexor ao fundo

Escultura de aço cromado sem título de Lygia Pape em primeiro plano, com telas de Cícero Dias e Samson Flexor ao fundo

Após ficar fechado no ano passado para uma reforma estrutural – que permitiu o acesso do público a áreas que estavam restritas –, o Paço reabre com a mostra do Itaú. Uma das coleções mais representativas do País, ela começou a ser formada há 60 anos e conta com 3.600 peças de todos os principais movimentos da arte nacional.

Remoção impossível

O recorte da exposição é um panorama que cobre a evolução da produção artística brasileira durante os últimos cem anos. O marco inicial é um óleo sobre cartão “A Pequena Aldeã”, de Lasar Segall, de 1911, que abre a mostra. Vai até manifestações mais recentes, como instalações e arte digital. Há inclusive aquisições de obras produzidas em 2011. A mais recente é “Vermelho Grace Jones”, de Rodolpho Parigi.

O curador responsável pela mostra, Teixeira Coelho, crítico de arte e curador-diretor do Masp, diz que a exposição apresenta as obras mais marcantes da coleção Itaú, com poucas exceções. Do que ficou de fora, algumas não entraram por questões físicas (em uma das sedes do banco ficou um amplo painel do Portinari, de remoção impossível); outras pelo risco no transporte (uns pequenos pães de argila de Carlos Fajardo); ou por não se encaixarem na narrativa da mostra proposta por Teixeira Coelho.

Não há um percurso cronológico rígido, embora ele esteja presente. “A narrativa que eu proponho tem menos a ver com os canais e trilhos habituais da história da arte e mais com uma forma como os próprios artistas veem a arte”, afirma.

Divisão em seis grupos

São seis seções com algumas subdivisões: A Marca Humana; Irrealismos; Modos de Abstração; A Contestação Pop, Na Linha da Ideia; e Outros Modos, Outras Mídias.

“A Pequena Aldeã” abre o primeiro módulo, que apresenta obras com figuras humanas como tema. É onde estão os “Seringueiros”, de Portinari, e o autorretrato de Pancetti.

As tendências e movimentos estão lá. Mas nem sempre com o nome mais óbvio. Essas pequenas subversões ocorreram onde, segundo Teixeira Coelho, a pressão do rótulo não fosse muito forte. É o caso da produção surrealista, cuja seção ganhou outro nome: “juízo jocoso”. “É uma forma de se apresentar ao mundo e ver a arte através do riso”, justifica.

“O Brasil nunca teve uma produção surrealista muito forte. Mas a arte pop feita aqui foi muito diferenciada, com uma vertente mais política do que a dos EUA, onde nasceu”, afirma ele.

A obra "Palíndromo Incesto (Três Dedais)", de Tunga, vem com um aviso de que elementos em sua composição podem "causar prejuízo aos portadores de marcapassos e válvulas cardíacas não biológicas e para aqueles cuja saúde pode ser afetada por emissões eletromagnéticas. Recomendamos que pessoas nestas condições mantenham distância mínima de 1 m da obra"

Inspirada em objetos da cultura de massa, como quadrinhos e embalagens de produtos, a arte pop tem uma seção sua, com obras de Rubens Gerchman e Paulo Brusky, no grupo Contestação Pop.

Outras vertentes e movimentos influentes estão presentes. Caso da arte concreta. “Foi uma tendência internacional e foi muito forte no Brasil, com várias décadas de atraso”, avalia Teixeira Coelho. Seus representantes estão em Modos de Abstração.

Diversidade artística

Busto do escritor Mário de Andrade feito pelo escultor Bruno Giorgi. Ao fundo, maquetes de Portinari para o mural "Ciclo Econômico"

Não há um fio condutor na mostra. “Ainda bem. São vários vetores que orientam. A coleção é um retrato da diversidade da produção artística brasileira no último século”.

Para Teixeira Coelho, aliás, o grande traço da arte atual no Brasil é a diversidade. “Hoje não há uma proposta única. Mas não havia isso há 60 anos, nas primeira bienais em São Paulo”.

A preocupação com uma linguagem ou temática nacional também foi deixada de lado, embora fosse presente nas obras de artistas mais antigos. Caso de Tarsila do Amaral e do gaúcho Vasco Prado, com seu interesse regionalista.

Como é difícil que apenas uma coleção cubra de forma igualmente significativa um período tão extenso,  há algumas lacunas pontuais. “O que está na coleção não é o mais representativo do Hélio Oiticica e da Lygia Pape”, reconhece o curador.  Dos mais novos e com apelo para um público mais amplo a ausência que mais chama atenção é a de Vik Muniz. Mas das novas safras e com reconhecimento internacional estão Adriana Varejão, Beatriz Milhazes e Cildo Meireles, por exemplo.

A exposição pode ser vista de terça a domingo, das 12h às 18h, e se encerra em 12 de fevereiro.

"Menino Pescando", acrílico sobre tela de Beatriz Milhazes

Autor: Luiz Antonio Ryff Tags: , , , , ,

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011 Reportagem | 09:04

De Sepetiba a Praia Grossa, as 71 praias cariocas

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Do Leme ao Pontal não há nada igual… no mundo. Sem contar com Calabouço, Flamengo, Botafogo, Urca, Praia Vermelha, já cantava Tim Maia com seu vozeirão.

Praia do Diabo, com Ipanema e Leblon ao fundo

Praia do Diabo, com Ipanema e Leblon ao fundo

Só que Tim deixou de lado muitas praias famosas da cidade do Rio de Janeiro. Ele nomeou 7 das 71 que formam os 90 km da orla carioca – em mar aberto, em restinga e na Baía de Guanabara.

Símbolos do Rio, elas foram inventariadas e ganharam um roteiro em “Praias Cariocas”, do designer Claudio Novaes, 50 anos, gerente de Disseminação de Informação do IPP (Instituto Municipal de Urbanismo Pereira Passos), que lançou esta semana o livro (R$ 25) com fotos dele e do fotógrafo Cesar Duarte.

Algumas são famosas internacionalmente, como Copacabana e Ipanema, que renderam músicas e se transformaram em dois dos mais vistosos cartões postais do País.

Tirando a roupa

Abricó, em Grumari, é a praia naturista do Rio

Com 270 metros de extensão, Abricó é a praia naturista do Rio

Há outras que já tiveram algum destaque ou que, ocasionalmente, ganham atenção da mídia. No primeiro caso é possível citar a Praia de Ramos, com seu piscinão na Zona Norte. No segundo caso está Abricó. Com seus 270 metros de extensão, e cercada por pedras e vegetação, é a única reserva naturista da cidade. Para entrar lá só seguindo os preceitos da associação que administra o lugar. Em outras palavras, tirando a roupa e ficando ao natural.

Praia de Ramos, na Baía de Guanabara, com o piscinão de Ramos

Praia de Ramos, na Baía de Guanabara, com o piscinão de Ramos

“Pensei em estruturar o livro  como um roteiro, como se o leitor caminhasse pela orla da cidade, de Sepetiba até Paquetá, a ilha no meio da Baía de Guanabara”, explica Cláudio, que levou 11 meses de pesquisa e trabalho de campo, indo a todas as praias citadas. Ou quase. “Em Abricó só fui até a entrada”, ri.

Como ponto de partida ele usou uma listagem e informações do IPP, que à maneira de um IBGE carioca reúne informações estatísticas sobre a cidade. As praias foram ordenadas em cinco áreas: Zona Oeste, Barra da Tijuca, Zona Sul, Zona Norte e Ilha de Paquetá.

Local de fundação da cidade

E cada uma apresenta mapa de localização, informações sobre acessos, serviços e equipamentos disponíveis, além de curiosidades. Por exemplo, a Praia de Fora, dentro da fortaleza de São João, na Urca, não é somente a última praia da Zona Sul antes da baía. Foi láque Estácio de Sá fundou a cidade, em 1565.

A José Bonifácio, ou da Guarda, na Ilha de Paquetá, ganhou esse nome  por conta da guarda montada para vigiar a prisão domiciliar de José Bonifácio de Andrada e Silva, o patriarca da independência.

“A de São Bento, na Ilha do Governador, tem uma história interessante. A área foi doada por um fazendeiro aos padres beneditinos em troca da salvação da alma dele e da família”, conta Cláudio.

Praias selvagens

Mapa do livro mostra a localização das praias selvagens

Mapa do livro mostra a localização das praias selvagens

Na Zona Oeste ficam as cinco praias “selvagens” da cidade, sem acesso formal ou qualquer infraestrutura no local. Para chegar a esses pontos, protegidos por paredões de pedra e vegetação intocada, só por barcos ou caminhando por trilhas.

Praia do Perigoso é uma das cinco ainda selvagens na cidade

A praia do perigoso é uma das cinco ainda selvagens na cidade

As praias dos Búzios, do Perigoso, do Meio, Funda e do Inferno ficam próximas, entre Grumari e Barra de Guaratiba. Desconhecidas dos cariocas, elas ficam praticamente desertas durante a semana e são pouco visitadas nos finais de semana.

“As selvagens são mais bonitas, mas não têm qualquer infraestrutura. Gosto de Grumari, que tem alguma estrutura, quiosques para comer ou beber algo, e são um pouco selvagens ainda”, afirma Cláudio, que também frequenta a Barra.

Nem todas as 71 são próprias para banho. “As praias de Paquetá são muito bonitas, mas não são balneáveis. Elas sofrem com a degradação da baía, infelizmente”, diz Cláudio sobre a parte final de seu roteiro, que termina com as 14 praias da ilha.

Aliás, se seguisse a geografia carioca, Tim Maia teria feito outra letra para “Do Leme ao Pontal”. De Sepetiba a Praia Grossa não há nada igual… no mundo. Hum, pensando bem, melhor não.

Autor: Luiz Antonio Ryff Tags: , , , ,

sábado, 3 de dezembro de 2011 Reportagem | 08:01

Desconhecido dos cariocas, o Morro da Conceição abre suas portas

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É como uma pequena e tranquila cidade do interior no meio do burburinho caótico do centro do Rio de Janeiro. A poucos passos do antigo cais do porto da praça Mauá, com suas decadentes boates de strip-tease; do início da avenida Rio Branco, e atrás da avenida Presidente Vargas, com seus engravatados apressados, está escondido o Morro da Conceição.

Palácio episcopal, hoje ocupado pelo exército

Palácio Episcopal, hoje ocupado pelo Exército

Escondido não é modo de dizer. Um paredão de prédios impede a visão do local, desconhecido da maioria dos cariocas apesar de ser um dos marcos fundadores da cidade e de extrema importância para o desenvolvimento do que se tornou o Rio de Janeiro. Poucos sabem que há uma fortaleza no morro, com guarnição do exército e tudo – e aberta a visitação.

Vista de uma rua do Morro da Conceição

Vista de uma rua do Morro da Conceição

Com os morros do Castelo, de Santo Antônio e de São Bento, o da Conceição formava os quatro pontos onde o Rio de Janeiro nasceu e cresceu por quase três séculos a partir de sua fundação em 1565.

Essa áreas foram privilegiadas no início por conta das características topográficas da região, dominada por manguezais e áreas inundáveis. Os dois primeiros morros foram destruídos. O terceiro abriga o mosteiro que leva seu nome. O único que permanece como local de moradia é o da Conceição, com casario antigo de sobrados centenários em meio a becos, ladeiras, escadarias e ruelas com nomes estranhos, como rua do Escorrega.

A baía de Guanabara chegava aos pés do Morro da Conceição cujas muradas que serviram de ancoradouro durante séculos. Em seu topo, em 1634, foi construída a ermida de Nossa Senhora da Conceição, que se tornou o convento dos Capuchinhos. É lá que ficaria o Palácio Episcopal, com a chegada em 1702 do bispo d. Francisco de São Jerônimo, que escolheu o lugar para morar.

Pilhagem corsária

Fachada de uma casa no Morro da Conceição

Fachada de uma casa no Morro da Conceição

Oito anos depois o local foi alvo das baterias francesas na tentativa fracassada de invasão capitaneada por Duclerc.  No ano seguinte – a exatos 300 anos -, em nova investida comandada pelo corsário René Duguay-Trouin, os franceses foram bem sucedidos, após bombardeio e saque da cidade. Ele escolheu o palácio como sua residência. Só foi embora após receber um resgate.

Para evitar experiências do tipo, os cariocas resolveram reforçar a defesa da cidade construindo uma fortaleza nos fundos do terreno do palácio. Mais tarde ela receberia como prisioneiros, três participantes da Inconfidência Mineira, incluindo Thomaz Antonio Gonzaga (o Dirceu do poema arcadiano “Marília de Dirceu”).

Hoje, a fortaleza da Conceição abriga a 5ª Divisão de Levantamento do Exército, responsável pela área de cartografia da corporação. Além da fortaleza do Exército, o local também abriga um observatório, o do Valongo, onde antes havia uma chácara em que escravos eram vendidos, nos períodos colonial e imperial.

Samba, escravos e a Pedra do Sal

A Pedra do Sal, onde escravos desembarcavam na cidade

Em uma das entradas do morro, aliás, está a Pedra do Sal, que ganhou esse nome porque o tal produto era descarregado das embarcações ancoradas nas proximidades. Com o tempo, escravos também passaram a descer ali dos navios negreiros. No início do século passado, a área, frequentada por Pixinguinha, Donga e João da Baiana foi um dos berços do samba.

O restaurador Oyama Achcar é um dos artistas com ateliê no local

O restaurador Oyama Achcar é um dos artistas com ateliê no local

Apesar da localização central e da importância histórica, o Morro da Conceição foi se deteriorando com os anos. Cerca de 500 famílias ainda moram no local, que está passando por obras. Algumas moradores foram personagens do documentário feito pela cineasta Cristiana Grumbach com o nome do lugar.

Ultimamente passou a acolher artistas plásticos, que ajudaram a revigorar o bairro e criaram o projeto Mauá. Eles organizam, anualmente, o “Arte por toda parte”, que abre as portas dos ateliês e realiza eventos culturais. Um deles é o Ventos do Norte, de Oyama Achcar (especializado em restauração) e Tania Gollnick. O deste ano é neste final de semana.

Com feira de artesanato e antiguidades, palestras e inclui com shows da Orquestra Voadora (no sábado) e do bloco de carnaval Escravos da Mauá (no domingo).

Também têm passeios feitos por guias do programa Palácios do Rio, desenvolvido pelo Laboratório de Tecnologia e Desenvolvimento Social da Coppe/UFRJ.

De forma didática e interessante, eles contam a história do morro e ainda visitam a fortaleza da Conceição. O projeto se encerra na próxima semana, no dia 8 (o telefone para agendar é 21/2263-0685).

Baía de Guanabara vista da fortaleza da Conceição

Baía de Guanabara com a ponte Rio-Niterói ao fundo vista da fortaleza da Conceição

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