Casa Daros: Bilionária suíça banca museu no Rio | Direto do Rio - Luiz Antonio Ryff

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sexta-feira, 18 de maio de 2012 Reportagem | 18:16

Casa Daros: Bilionária suíça banca museu no Rio

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No Brasil, os bilionários ou multimilionários que gastam uma parte de suas fortunas com obras de arte costumam guardá-las para si mesmos, nas paredes de suas casas, nos jardins de suas mansões, longe do olhar do público e, não raro, do fisco. Há exceções, como o empresário da mineração Bernardo Paz, que fundou Inhotim, uma junção fabulosa de instituto de arte contemporânea e jardim botânico em Brumadinho, a 60 km de Belo Horizonte.

Por isso, é surpreendente que um museu de nível internacional vá abrir ainda este ano no Rio custeado pela fortuna de uma única pessoa. Mais surpreendente ainda é que a dona da fortuna é estrangeira: a suíça Ruth Schmidheiny. Ela financia do próprio bolso a abertura da Casa Daros, um espaço em Botafogo, na zona sul carioca, para exposição da maior coleção europeia de arte latino-americana contemporânea.

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O pátio interno da Casa Daros sob reforma (foto: Fabio Caffé/divulgação)

O pátio interno da Casa Daros sob reforma (foto: Fabio Caffé/divulgação)

A origem dos Schmidheiny

Ruth é ex-mulher de Stephan Schmidheiny, pertencente a mais tradicional dinastia industrial suíça e uma das famílias mais ricas do mundo. Seu ex-marido e seu ex-cunhado estão na lista da Forbes de maiores fortunas do mundo. Quando o pai morreu, dividiu o espólio em dois. Thomas ficou com o setor de cimento (a segunda maior empresa do setor no mundo). E Stephan ficou com a Eternit, a gigante do cimento amianto (uma substância cancerígena), o que fez com que ele se tornasse uma figura bastante controversa. Em fevereiro foi condenado a 16 anos de prisão por um tribunal italiano em um julgamento sobre contaminação por amianto – ele anunciou que vai recorrer.

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Publicamente , Stephan condenou o uso do amianto bem antes que a substância fosse proibida e começou a substituir seu uso. Ele se aposentou em 2003 para se dedicar à filantropia e ao ambientalismo. Gastou mais de US$ 1 bilhão em projetos, a maioria na América Latina. A Forbes se referiu a ele como o Bill Gates da Suíça. Sua preocupação com o reflorestamento data dos anos 80 e ele foi um dos principais conselheiros de Maurice Strong, o secretário-geral da Rio92, durante a preparação e a realização da conferência da ONU no Brasil.

A Casa Daros é um projeto de sua ex-mulher, Ruth. Embora não sejam mais casados, continuam compartilhando certa aversão a entrevistas e conversas com a imprensa. O museu vai servir de local de exposição da coleção Daros Latinamerica que ela mantém em Zurich, na Suíça, com acervo composto de meios e formatos diversos – de pinturas e esculturas a fotografias, instalações e vídeos.

O museu no Rio deve receber entre duas e três grandes mostras por ano. A de abertura já está escolhida. Será “Cantos Cuentos Colombianos”, com 11 artistas da Colômbia, entre eles Doris Salcedo, Oscar Muñoz e José Alejandro Restrepo.

Prédio era orfanato para meninas

Fachada da entrada principal da Casa Daros (foto: Jacqueline Felix/Divulgação)

Fachada da entrada principal da Casa Daros. No alto a imagem da Santa que virou modelo para Vik Muniz (foto: Jacqueline Felix-Imagens do Povo/Divulgação)

A Casa Daros deve ser inaugurada no segundo semestre deste ano. A data depende da conclusão da minuciosa reforma por que passa o imenso casarão neoclássico projetado pelo arquiteto Joaquim Bethencourt da Silva e erguido em 1866 na Rua General Severiano.

A construção é da época em que a região não era tão densamente povoada e podia abrigar uma chácara. Desde 1819 o local pertencia à Santa Casa de Misericórdia e nas últimas décadas foi ocupada por uma escola conhecida no Rio (o Anglo-Brasileiro). Mas, em sua origem, foi criado com outra função. Era o Recolhimento Santa Teresa, um orfanato para meninas pobres que teve entre os beneméritos D.Pedro II e a imperatriz Tereza Cristina. Posteriormente virou um educandário, também ligado à Santa Casa.

Curiosamente, a imagem que adorna o alto da fachada de entrada do casarão não é de Santa Teresa, como pareceria natural. É de Nossa Senhora das Graças, uma das invocações da Virgem Maria. Ela acabou virando inspiração e modelo para uma encomenda a Vik Muniz dentro da série “Pictures of Junk”. Foi recriada em dimensões maiores a partir do entulho da própria reforma do casarão.

Obra Nossa Senhora das Graças, feita por Vik Muniz (foto divulgação)

Obra Nossa Senhora das Graças, feita por Vik Muniz com entulho da reforma (foto divulgação)

A obra se incorpora ao acervo de mais de 1.100 peças de 114 artistas latino-americanos contemporâneos. Dezessete artistas brasileiros estão presentes na coleção da Daros. Entre eles, alguns bastante conhecidos, mas de estilos e trajetórias bastante diferentes, como Antonio Dias, Cildo Meireles, Hélio Oiticica, Lygia Clark, Ernesto Neto, Iole de Freitas, Mario Cravo Neto, Nelson Leirner. Entre os estrangeiros constam a escultora colombiana Doris Salcedo e o pintor uruguaio Joaquín Torres Garcia.

Dobradiças refeitas

Detalhe do ferrolho restaurado em uma das portas (foto: Fabio Caffé/Divulgação)

Detalhe do ferrolho restaurado em uma das portas (foto: Fabio Caffé/Divulgação)

A equipe da Casa Daros tem uma ambição, que o espaço sirva para difusão e reflexão acerca da arte latino-americana. E, para tanto, pretende funcionar baseada em um tripé: arte, educação e comunicação.

Além de exposições, ela irá oferecer atividades integradas de arte-educação, como oficinas, seminários, cursos. E também terá o esquema de “artistas visitantes”, em que convidados passarão pequenas temporadas associados à Casa, trabalhando e difundindo sua arte, possibilitando o funcionamento de um espaço de convivência com práticas artísticas.

Para chegar até isso foram necessários seis anos. O casarão foi comprado em 2006. As obras começaram no ano seguinte. A inauguração do museu chegou a ser anunciada, inicialmente, para 2008 e, posteriormente, para 2009. Mas as dificuldades e especificidades encontradas durante a obra atrasaram o projeto.

“Achávamos que seria uma reforma bem mais simples. Houve um cálculo equivocado que ela duraria um ano e meio, dois anos. Mas a manutenção era pavorosa e a necessidade de restauro foi maior. Entrava água quando chovia, por exemplo. E não imáginávamos que teríamos que trocar o telhado inteiro”, explicou ao iG Isabella Rosado Nunes, diretora-geral da Casa Daros.

Musa Paradisíaca, do colombiano José Alejandro Restrepo, deve estar na mostra de inauguração (foto: Divulgação)

Musa Paradisíaca, instalação do colombiano José Alejandro Restrepo, deve estar na mostra de inauguração (foto: Divulgação)

Como o imóvel era tombado, houve acompanhamento do Patrimônio Histórico. A preocupação era recuperar o prédio, sem descaracterizá-lo, adaptando o espaço para abrigar um museu do porte e com as necessidades da Casa Daros. Um exemplo é a instalação de elevadores de carga que possam carregar obras pesadas e de grande formato. Ao mesmo tempo, foi dispendido tempo e energia para recuperar a pintura marmorizada das paredes do saguão de entrada. O cuidado se estendeu às gigantescas palmeiras imperiais que ornam a frente do casarão.

Um passeio pelo prédio, acompanhando o trabalho dos operários, evidencia o cuidado com os detalhes na reforma. Para restaurar os janelões e portas imensas, foi preciso achar artesões que pudessem refazer as dobradiças e ferrolhos da forma mais próxima das originais. E olha que são 500 vãos de portas e janelas. O chão foi inteiramente rebaixado em meio metro para que pudesse ser utilizado. Sem falar em toda a parte elétrica e hidráulica, que foi refeita do zero.

Sorte do Rio, azar de Havana

O objetivo agora é concluir a restauração de dois terços dos 11 mil metros quadrados de área construída para a inauguração.

Se tudo correr sem novos imprevistos, a Casa Daros abrirá seus portões no final do ano. O prédio contará com uma biblioteca, um auditório para cem pessoas, um restaurante e uma cafeteria. O objetivo é levar ao museu não apenas o público habituado a esse tipo de espaço. Funcionará de quarta a domingo com uma previsão de 300 visitantes diários.

Por último, e não menos surpreendente, em um País onde o hábito do investimento em cultura pela iniciativa privada se dá em troca do abatimento do imposto a pagar e mediante publicidade para a própria empresa, até o momento nenhum centavo de dinheiro público custeou a Casa Daros. E só o casarão custou R$ 16 milhões. A ideia é tocar o museu sem recorrer a verbas governamentais, embora não esteja descartada a possibilidade de parcerias com outras instituições, inclusive públicas, no futuro.

A vinda da Casa Daros para o Rio também tem um componente de boa fortuna, na segunda acepção da palavra. Inicialmente, a ideia era tocar o projeto em Havana. Mas problemas burocráticos por lá acabaram inviabilizando a escolha e a opção recaiu sobre o Rio. Azar dos cubanos.

O pátio interno da Casa Daros iluminado (foto: Fábio Caffé/Divulgação)

O pátio interno da Casa Daros iluminado (foto: Fábio Caffé/Divulgação)

Autor: Luiz Antonio Ryff Tags: , , , ,

11 comentários | Comentar

  1. 11 danielaschneider 09/10/2012 12:58

    gostaria de saber quais as pessas q vao ser espostas no museu.eu trabalho na sollos brasil e fisemos a mobilia tenho interesse em saber

  2. 10 MAria Adelina Daros 13/09/2012 14:49

    Gostaria de saber a origem do nome “Casa Daros”

  3. 9 Harry Palmer 08/08/2012 18:03

    I remember visiting this building many years ago, while traveling in Brazil. Very impressive.
    And one more thing, Baba Booey to you all..

  4. Luiz Antonio Ryff 20/05/2012 21:58

    Oi, Julia
    Você tem razão. O autor do casarão é Francisco Joaquim Bethencourt da Silva, que vale um texto em separado. Ele foi discípulo do Grandjean de Montigny. Planejou o prédio do Banco do Brasil na 1º de Março (Centro), o pórtico do cemitério São João Batista (Botafogo) e o edifício do Instituto Benjamin Constant, (Urca). Também foi idealizador do bairro de Vila Isabel (o primeiro planejado do País),
    No início do projeto da Casa Daros o arquiteto responsável foi o Paulo Mendes da Rocha. Posteriormente a reforma ficou a cargo do escritório do Ernani Freire. E continua com ele.
    Abs

  5. 8 Julia 20/05/2012 20:37

    LINDA INICIATIVA E TRABALHO! FIQUEI CURIOSA PARA SABER QUEM FORAM OS ARQUITETOS DESTE BELISSIMO PROJETO!
    ESTRANHO A REPORTAGEM NAO MENCIONAR
    ALGUEM SABE DIZER SE O PROJETO ‘E SUI’CO?
    BRAVO DE QUALQUER MANEIRA! QUE HAJA MAIS PROJETOS DESTE TIPO NO RIO!
    MERECEMOS!!!

  6. 7 shirlei horta 20/05/2012 0:06

    Bom para o Rio, bom para o Brasil, deve ser bom para todo mundo. Mas é impossível não ficar com um sentimento estranho que, vai ver, é coisa de pobre mesmo. Nos últimos tempos, a gente só ouve falar de milhões, bilhões – de dólares, de reais, de euros – de gente que constrói castelo no interior de Minas Gerais, gente que constrói museus imensos e totalmente desconhecidos como esse em Inhotim (para não falar em mecenas como Bernardo Paz, de quem eu jamais antes ouvi falar), famílias que estão devotada e gratuitamente se devotando à sensibilíssima arte em todas as suas formas de expressão. Sei lá. Deixa quieto. Comentário de pobre mesmo.

  7. 6 Pedro 19/05/2012 16:15

    É muito melhor aquele casarão virar um museu particular !! Há muitos por aí que gostariam que o casarão fosse derrubado e ali se construísse mais prédio desses de mau gosto e, ainda, há também aqueles que postariam que se tornasse um museu público, logo com falta de verba, funcionários em greve, etc. etc.

  8. 5 maria jose 19/05/2012 11:49

    E lindo quando agente ver alguém investido em arte no belo sinto falta desses ambientes na paraíba, as pessoas deixaram de ver o belo curtir cultura .passeios hoje é sinônimo de shopping e compras. Parabéns Rio

  9. 4 carmen c.perine 19/05/2012 1:33

    É, cariocas, não deixem mais, uma,vinda de uma marca como a casa Daros, um museu, de grande prestígio no mundo. se instalarem em outro lugar , a imagem do rio, ficou muito prejudicada, com a posição de uma das cidade mais violenta do mundo, espantava, muitas pessoas,e tornando-a lmpossível receber turistas Se os cariocas, abrirem a boca, e não derem espaço, para, estas grandes vindas, quem vai ficar com estas aquisições, é São paulo,, que vem abocanhando tudo que é, , bom e famoso, para cidade de São Paulo…. é cariocas não deixem passar, esta fase, para voltarem a ser o espelho do brasil como sempre foi…carmen

  10. 3 ANTONIO SAMPAIO 19/05/2012 1:06

    MARAVILHA PARA AS ARTES E PARA OS APRECIADORES DE PLANTAO – MAS EU ADORARIA SE ELA OLHASSE PARA UM PROJETO NOSSO DE INCLUSAO DIGITAL NAS COMUNIDADES CARENTES DO RIO DE JANEIRO NA IMPLANTAÇAO DE TECENTROS DE INCLUSAO DIGITAL SERIA SIM UMA BELA OBRA DE ARTES. NA TRANSFORMAÇAO CIDADA QUE SERA PARA AQUELES QUE NAO SABEM NEM O QUE EH ARTE DESTE NIVEL OR PURA IGNORANCIA DO SABER O QUE EH SABER.

    ANTONIO SAMPAIO 21 9118 6183 – 21 8270 2602

    PELA ARTE DE TRANSFORMAR PESSOAS

  11. 2 Leonardo da Vinci da Silva Santos 19/05/2012 0:18

    Confesso que pouco ou nada sei sobre arte. Não o é por gosto ou opção, mas, infelizmente, o foi por razões de berço e de ambientação. Em suma, a minha praia é outra. Assim exposto, podendo vir a equivocar-me, aprendi que quem quer que seja não prega prego sem estopa. A conta pode ser paga no final, de alguma maneira. A ocasião é propícia para a inseção de um comentário paralelo relativamente a um leilão de parte das jóias da viúva do banqueiro Safra, brasileiro de origem síria radicado na Suíça, cuja renda (US$38,000,000.00) reverteria em benefício de instituições filantrópicas. Deixei de saber se havia alguma instituição brasileira a ser beneficiada. Agora, vem uma cidadã da Suíça dar uma de mecenas no Brasil. É deu a louca no mundo mesmo. Ninguém se entende. Tem que s enturmar.-

  12. 1 Lucas P. S. 18/05/2012 23:39

    Brilhante iniciativa, que pena que seja preciso uma estrangeira para dar oportunidade a todos apreciar a arte feita aqui na américa latina.

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