iG

Publicidade

Publicidade
31/03/2011 - 12:30

Estão tirando pão da boca de criança

Compartilhe: Twitter

Não, agora não é mais apenas uma força de expressão: o título acima resume o crime hediondo cometido por 16 pessoas presas esta semana pela Polícia Federal em Alagoas, entre elas quatro “primeiras-damas” de municípios do interior, que desviaram dinheiro da merenda escolar para comprar ração para cachorro, garrafas de uísque 12 anos e caixas de vinho, entre outros artigos de primeira necessidade.

Já vimos de tudo em matéria de bandalheira no nosso país, mas pode existir algo de mais abominável do que literalmente tirar pão da boca da crianças, em sua grande maioria carentes, que têm na merenda escolar muitas vezes sua única refeição do dia?

Será que estas mulheres chamadas de “primeiras-damas”, cujos nomes foram mantidos em segredo de Justiça, não têm filhos, netos, alguma criança na família para saber a barbaridade que estão cometendo?

A PF calcula que em dois anos estes criminosos desviaram R$ 8 milhões da verba destinada à merenda das escolas públicas de Alagoas. Quantos quilos de comida e litros de leite poderiam ser comprados com esta grana que o governo gastou e não chegou às crianças alagoanas?

O pior é isso: o esquema já é antigo, tem um monte de gente envolvida em mais de 20 municípios, incluindo Maceió, os supermercados que forneciam a merenda também faziam parte dos desvios de verbas do PNAE (Programa Nacional de Alimentação Escolar)para abastecer as mordomias das excelências municipais, e ninguém denunciou nada antes que a Polícia Federal botasse as madames em cana.

Segundo relato do repórter Odilon Rios, na edição de O Globo desta quinta-feira, “as fraudes na aplicação dos recursos da merenda escolar em Alagoas são facilitadas pela falta de qualificação dos conselheiros municipais de educação”.

Além disso, há o medo de denunciar os poderosos. “Não quero ser um novo Pedro Bandeira”, dizem os moradores, lembrando o caso do professor de Educação Artística Paulo Bandeira que, em 2004, foi acorrentado e queimado vivo em seu carro ao denunciar desvios de verba no município de Satuba. Autor do crime: o então prefeito da cidade, Adalberon de Moraes.

Se é assim no interior de Alagoas, é bem provável que este crime hediondo _ se ainda não for, tem que ser assim qualificado pelo Código Penal _ esteja sendo praticado neste momento em outros pontos do país onde os cachorros ficam gordos e os donos do poder tomam bons uísques com o dinheiro da merenda escolar das crianças pobres.

Pode existir um crime mais abominável do que roubar comida da boca de criança e, portanto, do ensino básico em escolas públicas, num país com tantas carências, que tem na educação a sua maior prioridade, a esperança de oferecer um futuro melhor para todos?

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
30/03/2011 - 14:16

Últimas 24 horas de José Alencar

Compartilhe: Twitter

Segunda-feira, dia 28, 14 horas. Com fortes dores abdominais, José Alencar chegou de ambulância para ser internado mais uma vez no Hospital Sírio-Libanês.

A equipe médica rapidamente se reuniu na UTI e avaliou a gravidade do quadro _ tão grave, que não havia mais nada a fazer, a não ser sedar o paciente com morfina para que ele não sofresse com as dores.

O ex-vice-presidente estava consciente ao chegar e mostrou bom humor quando fez seu último comentário aos médicos, antes de receber o medicamento:

” O doutor Raul não vai falar nada? Se o doutor Raul não está falando nada é porque estou mal, a situação deve ser grave mesmo…”

Terça-feira, dia 29, por volta das 14h30 horas. O médico Raul Cutait, 61 anos de idade e 37 de medicina, que cuidava de José Alencar desde a sua primeira cirurgia, em 1997, e passou com ele as últimas 24 horas, recebe uma ligação do ex-presidente Lula, querendo saber notícias do seu amigo.

Dez minutos depois, Cuitait daria a notícia da morte de José Alencar a Lula, que soltou um palavrão e começou a chorar ao telefone.

A imbatível dona Marisa, acompanhada dos filhos Josué, Patrícia e Maria da Graça, ficou ao lado do marido até o fim. Nas muitas visitas que fiz a ele no Hospital Sírio-Libanês, nos últimos dois anos, nunca o encontrei sem a mulher a seu lado.

A última vez, umas duas semanas atrás, foi no dia em que Alencar, cansado de tomar remédios e se submeter a tratamentos dolorosos que já não faziam mais efeito, decidiu comunicar aos médicos que preferia voltar para casa.

Queria apenas que a família lhe providenciasse uma garrafa da cachaça “Maria da Cruz”, que ele mesmo fabricava, para tomar um “golo”, como ele dizia, com os amigos.

A companheira de mais de 50 anos só não estava com ele no momento em que foi internado na segunda-feira porque tinha passado a noite em claro a seu lado, e queria descansar um pouco antes de ir para o hospital.

No final da tarde, quando ela chegou, o quadro médico já era gravíssimo. “Procuramos apenas dar conforto ao paciente”, lembrou Cutait, na manhã desta quarta-feira, ao me relatar os últimos momentos da vida de José Alencar, de quem ficou muito amigo também.

Na hora do almoço de terça-feira, fui informado por um amigo que estava no hospital, o eterno assessor Adriano Silva, que já não havia mais esperanças de que Alencar conseguisse sobreviver a mais um dia, como tantas vezes aconteceu antes.

Ao saber da notícia de sua morte, fiz apenas um breve registro no Balaio. Tudo o que tinha a dizer sobre José Alencar Gomes da Silva escrevi enquanto ele estava vivo, em inúmeros posts nos quais os leitores puderam acompanhar a sua longa luta contra o câncer.

“É fácil falar das pessoas depois que morrem, porque todo mundo fica bom depois que morre. Mas o Zé Alencar era bom em vida”, disse Lula sobre seu melhor amigo, e disse tudo. Faço minhas as palavras do ex-presidente.

Os dois, Lula e Alencar, eram os melhores amigos um do outro _ um exemplo raro na vida, raríssimo na política.

***

Abaixo, os links dos textos sobre José Alencar publicados no iG e no site da revista Brasileiros:

Entrevista da edição 25:

O “vice-cara”

http://www.revistabrasileiros.com.br/edicoes/25/textos/672/

Quando a política pode ser nobre

http://www.revistabrasileiros.com.br/secoes/balaio-do-kotscho/noticias/2089/

Lula e José Alencar, amigos para sempre

http://www.revistabrasileiros.com.br/secoes/balaio-do-kotscho/noticias/2076/

Um dia na vida de Zé Alencar, a unanimidade nacional

http://www.revistabrasileiros.com.br/secoes/balaio-do-kotscho/noticias/1252/

Prosa de fim de tarde com José Alencar no hospital

http://www.revistabrasileiros.com.br/secoes/balaio-do-kotscho/noticias/817/

A valente luta de José Alencar pela vida

http://www.revistabrasileiros.com.br/secoes/balaio-do-kotscho/noticias/359/

Zé Alencar dá mais uma bela lição de vida

http://www.revistabrasileiros.com.br/secoes/balaio-do-kotscho/noticias/285/

Entrevista com o Josué Gomes (filho de José Alencar):
“Eu só não posso fazer coisa errada”

http://www.revistabrasileiros.com.br/edicoes/31/textos/877/

Outros textos e posts relacionados:

Morre, aos 79 anos, José Alencar

http://www.revistabrasileiros.com.br/secoes/o-lado-b-da-noticia/noticias/2055/

A nova rotina de Lula fora do poder

http://www.revistabrasileiros.com.br/secoes/balaio-do-kotscho/noticias/2129/

Alencar se emociona ao falar de Minas

http://www.revistabrasileiros.com.br/secoes/balaio-do-kotscho/noticias/1912/

Enquanto isso, nos Jardins…

http://www.revistabrasileiros.com.br/edicoes/30/textos/848/

Na homenagem a José Alencar, estilos opostos de Lula e Serra

http://www.revistabrasileiros.com.br/secoes/balaio-do-kotscho/noticias/1096/

Um guerreiro

http://www.revistabrasileiros.com.br/secoes/o-lado-b-da-noticia/noticias/873/

“É um colosso”, diz Alencar sobre nova pesquisa

http://www.revistabrasileiros.com.br/secoes/balaio-do-kotscho/noticias/713/

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
29/03/2011 - 13:09

A greve dos juízes e o exemplo de Rogério Ceni

Compartilhe: Twitter

EM TEMPO(14H55):

MORREU, AOS 79 ANOS, MEU AMIGO JOSÉ ALENCAR GOMES DA SILVA, EX-VICE PRESIDENTE DA REPÚBLICA, UM DOS MELHORES BRASILEIROS QUE CONHECI NA VIDA. VAI NOS FAZER MUITA FALTA.

***

Aos leitores,

o texto do post abaixo continha incorreções que foram sanadas graças ao alerta dado por vocês.

Muito obrigado.
Ricardo Kotscho

***

“Dá para falar algo sobre esta greve escandalosa, Kotscho?”, pergunta o leitor Fabio de Oliveira Ribeiro em mensagem ao Balaio enviada às 10h20 desta terça-feira.

Falar o quê, caro leitor, diante da ameaça das excelências de parar o Judiciário, se não lhes for concedido um aumento de 14,79%, o que elevaria o atual salário dos ministros do STF de R$ 26,7 mil para R$ 30,6 mil (base da remuneração dos juízes que é escalonada a partir deste teto) num país onde o salário mínimo foi recentemente reajustado para R$ 545,00?

Na verdade, desde ontem eu estava querendo escrever sobre os 100 gols de Rogério Ceni, um sujeito que, na contra-mão do oba-oba e do vale tudo no Brasil do BBB e da marquetagem, prova aos mais jovens que ainda vale a pena ser honesto, trabalhar muito para alcançar seus objetivos e vestir de verdade a camisa de quem lhe paga o salário.

São dois exemplos oferecidos em extremos opostos da grande geléia nacional _ o da inacreditável greve dos juízes e o da dedicação fora do comum do goleiro são-paulino ao seu oficio.

E o que tem uma coisa a ver com outra?, poderão perguntar os leitores que já perderam as esperanças de viver num país mais justo e mais decente sem ter que sair do Brasil.

Pois tem tudo a ver. Sou dos que ainda acreditam na educação pelo exemplo daquilo que se pode e daquilo que não se deve fazer na vida. Goleiro não precisa ser artilheiro, pode tomar seus frangos, mas juíz tem a obrigação de dar o exemplo pela posição que ocupa e pela instituição que representa.

Seria mais lógico esperar que o bom exemplo viesse dos nobres membros do Judiciário, um dos três pilares da República, que deram um ultimato ao Congresso Nacional: até o dia 27 de abril, ou sai o aumento ou eles cruzam os braços.

Como vivemos no Brasil, o bom exemplo vem do futebol, de um atleta que certamente ganha várias vezes mais do que os juízes que ameaçam entrar em greve. Claro que não dá para comparar o salário mínimo de um operário, com os proventos de um juiz e a fortuna paga a um jogador de futebol consagrado.

Não me refiro neste caso a valores financeiros, mas a valores morais. Rogério Ceni é sempre o primeiro a entrar em campo para os treinamentos do São Paulo e o último a sair, não faz média com a mídia, não joga a torcida contra a diretoria, assume suas falhas, que não foram poucas, estimula os mais jovens, nunca ameaçou deixar de jogar para receber aumento salarial.

Por isso mesmo, foi poucas vezes chamado para a seleção brasileira e não é considerado um campeão de simpatia pelos colegas de imprensa. Tem opiniões próprias, costuma brigar por elas, o que o leva faz muitos anos a ser respeitado e idolatrado pelos torcedores.

De acordo com o relato de Mariângela Gallucci, do Estadão, não é a primeira vez que a Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe) recorre ao Supremo Tribunal Federal para conseguir um aumento. O mesmo aconteceu em 2000, quando o STF concedeu auxílio-moradia aos juízes, o que, na prática, representou aumento de salário e evitou a greve.

Agora, a Ajufe defende que o próprio Supremo conceda o aumento “diante da omissão do Congresso”. A briga promete ser boa e longa. O projeto de reajuste salarial do Judiciário ainda nem está na pauta do Congresso.

Chova ou faça sol, Rogério Ceni mais uma vez estará em campo nos próximos dias com a camisa tricolor _ contra o Santa Cruz, amanhã, no Recife, e o Mirassol, domingo, em Barueri.

Viva o cidadão Rogério Ceni! Que os jovens servidores do Judiciário se mirem neste exemplo.

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
28/03/2011 - 09:43

Quem é o autor do slogan “Lula-Lá”?

Compartilhe: Twitter

O assunto foi tratado pela primeira vez aqui no Balaio no dia 26 de maio de 2010, no início da campanha presidencial, quando a Folha publicou matéria com o título “Marina recorre a inventor do `Lula-Lá ´”.

No mesmo dia, publiquei post contestando a informação da Folha, pois trabalhei na campanha de Lula em 1989 e sabia como e por quem o jingle havia sido criado: “Folha errou: `Lula-Lá ´é de Hilton Acioly”.

Dizia a matéria da Folha: “PV recruta Paulo de Tarso, mas diz rejeitar marqueteiro profissional. Autor do jingle petista nas eleições de 1989 já prepara senadora para eventos. Contrato ainda estaria em negociação”.

Se o PV rejeita marqueteiro profissional, então é porque está recrutando um marqueteiro amador, se é que isso ainda existe (além do falecido Carlito Maia, criador do slogan “Lula-Lá”, não conheço nenhum). Se é amador, para que negociar contrato? Não fica claro.

A verdade é que a Folha confundiu slogan com jingle e errou duas vezes: o publicitário Paulo de Tarso não é autor de nenhum dos dois. Foi apenas o marqueteiro que levou o slogan de Carlito, criado no ano anterior, como sugestão para o compositor Hilton Acioli usar no jingle da campanha de 1989, que acabou virando um hino.

Pensei que o assunto estivesse esclarecido e morto, quando na semana retrasada me ligou uma repórter da Folha querendo checar uma informação publicada sobre o assunto na coluna da minha amiga Monica Bergamo. Repeti-lhe o mesmo que está escrito no meu post de maio do ano passado.

Dias depois, o sr. Paulo de Tarso Santos enviou um comentário desvairado ao meu blog, que nem me dei ao trabalho de responder.

Só agora entendi o motivo: a família de Carlito Maia resolveu contestar a versão dada por Paulo de Tarso e encampada pela Folha, reinvindicando a autoria do slogan.

Maurício Maia, filho de Carlito, enviou-me neste final de semana a longa troca de correspondência que manteve com a Folha.

Ao final da leitura das mensagens, que reproduzo abaixo, não tenho a menor dúvida, diante da cronologia dos fatos e das notas publicadas em jornais, inclusive na própria Folha, de que a autoria do slogan é mesmo do meu querido amigo Carlito Maia e o jingle da campanha foi criado por Hilton Acioly.

O slogan de Carlito é bem anterior à montagem da estrutura de comunicação da campanha, em meados de 1989. Só eu e o colega Sergio Canova começamos a trabalhar mais cedo, cuidando da área de imprensa, no início daquele ano.

Sei por experiência própria que a Folha tem grande dificuldade em reconhecer erros históricos que comete, preferindo reescrever a história, mas neste caso não dá para ficar calado diante de um episódio do qual fui testemunha.

Peço aos leitores deste Balaio que porventura também tenham trabalhado na primeira campanha presidencial de Lula, em 1989, ou guardem consigo qualquer lembrança ou documento daquela época que, por favor, ajudem a esclarecer esta polêmica sobre um fato ocorrido 21 anos atrás.

Transcrevo abaixo a correspondência com a Folha que me foi enviada por Maurício Maia:

***

Prezado Ricardo Kotscho,

Como imaginava, a Folha de S. Paulo ignorou meus protestos contra as notas publicadas pela colunista Mônica Bergamo, em que atribui ao publicitário Paulo de Tarso da Cunha Santos a autoria da frase “Lula lá”. Só resta recorrer à blogosfera para mostrar que o jornal Folha de S. Paulo errou em algum momento nesta história. Ou em 1989, quando publicou diversas notas em que a autoria da frase era atribuída a Carlito Maia; ou agora, quando endossa a versão do publicitário Paulo de Tarso.

Esse problema não se resume apenas ao “Lula lá”. Ele mostra como existe uma parcela do jornalismo que se acha imune às críticas. Lembro-me de uma frase sua que sempre foi um norte para o exercício da profissão (“O trabalho do jornalista é essencialmente crítico e a gente tem que começar a criticar o nosso próprio trabalho para poder melhorar”). Ao contrário do que escreveu a colunista Mônica Bergamo (“Sua carta foi encaminhada ao Painel do Leitor e seguramente será publicada”), o jornal parece não ter considerado relevante minha argumentação. A carta não saiu no Painel do Leitor e a ombudsman nem se deu ao trabalho de responder as mensagens que lhe enviei.

Apresentei à Folha de S. Paulo diversas evidências de que a autoria da frase é de Carlito Maia e que caberia ao publicitário Paulo de Tarso demonstrar que teve antes a ideia. A expressão se tornou pública em nota que saiu na coluna de Zózimo do Amaral em dezembro de 1988. Esta e todas outras notas que encontrei publicadas na imprensa ao longo da campanha eleitoral de 1989 seguem logo abaixo para que se possa montar uma linha do tempo. Em anexo, mando facsímilie das colunas “Tenho Dito”, publicadas na Gazeta de Pinheiros. Amanhã cedo, pedirei ao Centro de Documentação do Jornal do Brasil cópia da coluna do Zózimo. As notas da Folha de S. Paulo podem ser verificadas no sítio virtual do jornal.

A colunista Mônica Bergamo insiste que não há documentos para provar a autoria da frase. Os jornais da época seriam o que, então? Obras de ficção? Como ela se apega às declarações de suas fontes, procurei algumas pessoas ouvidas pelo jornal.

O vereador José Américo Dias (PT-SP), que coordenou a comunicação de rádio e de TV da campanha eleitoral de 1989, reconhece que não havia estrutura alguma montada em 1988. Aguardo nota que ele se comprometeu a me enviar com data aproximada da primeira vez que ouviu a expressão “Lula lá” (o vereador é uma das fontes ouvidas pela Folha de S. Paulo que referendaram a versão de que a ideia seria de Paulo de Tarso).

O compositor Hilton Acioli diz que recebeu a frase das mãos do publicitário Paulo de Tarso entre o final de janeiro e começo de fevereiro de 1989 num encontro de publicitários realizado em Cajamar. Ainda não localizei nenhuma referência a essa reunião. De qualquer modo, ela é bem posterior à nota publicada no Jornal do Brasil. Acioli não se lembra exatamente quando entregou as duas versões da música (um samba e a composição consagrada na campanha) aos coordenadores da campanha. Garante, no entanto, que é fantasiosa a versão apresentada no livro “Notícias do Planalto”, do jornalista Mário Sergio Conti, que relata ligações telefônicas de madrugada (telefonemas que nunca existiram, afiança Acioli).

O livro de Conti, publicado no final de 1999, parece ser o primeiro momento em que o publicitário Paulo de Tarso assume publicamente a autoria do “Lula lá”. Vem dessa época a estranha versão de uma ideia surgida simultaneamente na cabeça de dois publicitários. Essa história foi repetida no livro “Partido dos Trabalhadores – Trajetórias”, editado em 2000 pela Fundação Perseu Abramo. Na época, procurei Zilah Abramo para que a fundação corrigisse o erro. Nada foi feito.

Recorro agora a você para que essa história seja passada a limpo definitivamente. Seu testemunho pode ajudar a esclarecer alguns pontos obscuros dessa história. É espantoso, por exemplo, que o publicitário Paulo de Tarso não tenha procurado a Folha de S. Paulo ainda em 1989, caso as notas publicadas pelo Painel estivessem atribuindo à pessoa errada a criação do “Lula lá”. Gostaria muito que você fizesse um esforço de memória para tentar identificar a data em que os jingles foram apresentados aos coordenadores da campanha eleitoral. Se foi em fins de maio ou começo de junho, como sugere a nota publicada pela Folha de S. Paulo a 3 de junho, como o publicitário Paulo deTarso explicaria a nota de 16 de abril, quando a campanha não contava com canção alguma? Será que Paulo de Tarso não lia a Folha de S. Paulo? O Jornal do Brasil, pelo visto, não fazia parte de seus hábitos de leitura.

Desde já, grato pela atenção.

Maurício Maia

Dia 7/12/1988:
Jornal do Brasil, Caderno B, Coluna de Zózimo Barrozo do Amaral:
“Carlito Maia, filósofo popular de São Paulo, faz tanta fé no PT que acaba de criar um slogan para a campanha de Luiz Inácio da Silva à presidência da República. Lula lá. Parece canção de ninar”.

Dia 5/2/1989:
Gazeta de Pinheiros, coluna Tenho Dito, de Carlito Maia:
“(…) Logo mais teremos Lula lá e PT saudações. A continuação da virada…”

Dia 16/4/1989:
Folha de S. Paulo, Painel, p. A4:
“O publicitário Carlito Maia está tentando convencer Rita Lee a fazer um rock para a campanha de Lula, baseada no slogan que criou – Lula lá”

Dia 1º/5/1989:
Folha de S. Paulo, Painel do Leitor, p. A3:
[carta do leitor Sidney Lopes, provavelmente enviada em reação à nota do dia 16 de abril]
“Lula lá nunca, se Deus quiser”.

Dia 7/5/1989:
Gazeta de Pinheiros, coluna Tenho Dito, de Carlito Maia:
“(…) Então – Lula lá!”

Dia 3/6/1989:
Folha de S. Paulo, Painel, p. A4:
“Lula-lá – O compositor Hilton Accioly, autor da música ‘Disparada’ com Geraldo Vandré, fez duas versões para o jingle de campanha de Lula, a partir do slogan criado pelo publicitário Carlito Maia”.

Dia 21/3/2011:

Folha de S. Paulo, p.E2

LULA LÁ 1

Quem é o verdadeiro autor do “Lula Lá”, que embalou as campanhas presidenciais de Lula nas últimas décadas? Mais de 20 anos depois da eleição de 1989, Tereza Rodrigues, viúva do publicitário Carlito Maia, insiste em dizer que saiu da cabeça de seu marido. Tereza escreveu à coluna para protestar por causa de um texto em que a criação do “Lula lá” foi atribuída ao publicitário paulista Paulo de Tarso Santos.

Folha de S. Paulo, 21/3/2001, p. E2

LULA LÁ 2

Já Paulo de Tarso diz que teve a ideia num encontro do PT. Escreveu a frase num papel e a mostrou para o compositor Hilton Acioli. “Ele sacou que a frase era musical e a usou no jingle. A razão da frase é a musicalidade”, diz. “Admito que o Carlito Maia possa ter tido essa ideia ao mesmo tempo que eu, mas isso nunca chegou a nós durante o desenvolvimento do trabalho”. Testemunhas que coordenaram e participaram da campanha confirmam a versão de Tarso.

Enviada em: segunda-feira, 21 de março de 2011 12:52
Para: Monica Bergamo
Assunto: Lula lá

Prezada sra. Mônica Bergamo,

Sou filho de Carlito Maia e há anos venho me batendo contra a versão farsesca da autoria do “Lula lá”. Como o tema voltou à sua coluna, na edição de hoje, aproveito para demonstrar que o publicitário Paulo de Tarso mente quando diz que a ideia foi dele. Trata-se de simples cronologia. A expressão veio a público em nota que apareceu na coluna de Zózimo Barroso ainda em dezembro de 1988. A estrutura publicitária da campanha do então candidato Luiz Inácio Lula da Silva só foi montada em meados de 1989, conforme depoimento de vários participantes daquela disputa eleitoral. Sugiro contato com o compositor Hilton Acioli para confirmar quando ele recebeu a sugestão do “Lula lá”.
Reproduzo abaixo o texto que publicamos no sítio virtual em homenagem a Carlito Maia que, depois de morto, tem sido bombardeado com acusações de ter plagiado suas próprias ideias (o “Lula lá” é apenas um caso, há quem tem a cara de pa u de dizer que não era dele a criação da “Jovem Guarda” de Roberto Carlos e cia.).
Duvido que o sr. Tarso tenha prova material de ter se encontrado com o compositor Acioli ainda em 1988 – ou antes de maio de 1989.
Atenciosamente,

Maurício Maia

http://www.carlitomaia.etc.br/home.html

A participação política foi um dever de cidadania para Carlito Maia, traduzida de diversas maneiras: escrevendo cartas indignadas para jornais, colaborando na criação das campanhas eleitorais do Partido dos Trabalhadores, principalmente nas disputas de Eduardo Suplicy e com a parceria de companheiros de longa data, como Erazê Martinho. Também emprestava seu nome para manifestos políticos e movimentos sociais. O Movimento dos Sem-Terra foi ardorosamente defendido por ele.

Em 1983, criou o Tribunal Tiradentes, que julgou e condenou a Lei de Segurança Nacional. Também instituiu um prêmio simbólico para personalidades que se destacassem na luta pela Paz, pela Justiça e pela Liberdade. Os vencedores seriam aqueles que, na opinião de 1.062 amigos de Carlito (muitos dos quais ele sequer conhecia pessoalmente), fossem os mais votados pelo que fizeram ao longo de 1981. A premiação, que consistia apenas no anúncio dos vencedores e nada mais, seria feita em 1o de janeiro de 1982, Dia da Confraternização Universal. O Prêmio Mahatma Ghandi da Paz foi concedido a Dom Paulo Evaristo Arns, que recebeu 366 votos; o Prêmio Bertrand Russell da Justiça foi dado ao advogado Heráclito Sobral Pinto (que obteve 297 indicações); e, por fim, o pensador Alceu Amoroso Lima foi o vencedor do Prêmio Charles Chaplin da Liberdade, com 314 votos.

Duas das maiores criações de Carlito, no entanto, foram feitas para o PT: “optei” e “Lula lá”. Houve quem quisesse dividir a paternidade do “Lula lá”, mas registros jornalísticos não deixam dúvida de quem foi o criador da expressão que consagrou as campanhas eleitorais de Lula para a presidência da República. O publicitário Paulo de Tarso Santos, por duas vezes (em entrevistas publicadas nos livros “Notícias do Planalto” e “Partido dos Trabalhadores – Trajetórias”), insistiu em dizer que também era autor do “Lula lá”. Na lembrança de Paulo de Tarso, “Lula lá” teria surgido nas primeiras reuniões da equipe de criação da campanha de TV do candidato
petista (ocorridas provavelmente em meados do primeiro semestre de 1989). Mas a expressão já havia sido cunhada por Carlito muito antes do processo eleitoral. A referência mais remota aparece em nota publicada no Jornal do Brasil, a 7 de dezembro d e 1988:

“Carlito Maia, filósofo popular de São Paulo, faz tanta fé no PT que acaba de criar um slogan para a campanha de Luis Inácio da Silva à presidência da República. Lula lá. Parece canção de ninar”

Ao contrário do que supunha o jornal carioca, o mote tornou-se um dos mais belos jingles das campanhas políticas com a música de Hilton Acioli. Carlito era um entusiasta propagador da idéia, como mostra sua coluna “Tenho Dito”, da Gazeta de Pinheiros. Na edição de 5 de fevereiro de 1989, ele escrevia:

“Brasil: vote-o ou fique-o! Logo mais teremos Lula lá e PT saudações. A continuação da virada…”. Três meses depois, em 7 de maio, arrematava assim seu texto dirigido aos eleitores de 16 anos: “Então, Lula lá!”.

Em 21/03/2011 13:07, Monica Bergamo escreveu:

Olá, Mauricio, tudo bem?

Agradeço a sua mensagem.

Na nota que publicamos, o Paulo de Tarso não acusa o Carlito de plágio. Ele diz inclusive que admite que o Carlito possa ter tido a ideia do Lula lá.

Mas diz que também não pode ser acusado de plágio pois não sabia, nunca tinha ouvido ou lido nada a respeito.

Procuramos registrar a posição da família sem deixar de dar voz ao publicitário, que nos deu a explicação agora publicada.

Um grande abraço, muito obrigada

Mônica

Enviada em: segunda-feira, 21 de março de 2011 21:59
Para: Monica Bergamo
Assunto: RE: RES: Lula lá

Prezada Mônica,

Curiosa essa situação. Apresentei-lhe dois registros jornalísticos – públicos, portanto – da expressão “Lula lá”. Um deles, por sinal, impresso numa das colunas mais lidas da imprensa brasileira de então, publicada por Zózimo Barrozo do Amaral no Jornal do Brasil. Ambos são bem anteriores às primeiras reuniões da campanha publicitária do então candidato Luiz Inácio Lula da Silva.
Na nota publicada hoje, a última palavra ficou com o sr. Paulo de Tarso e sua equipe de campanha. Ponto para o jornalismo declaratório e azar da apuração da verdade fática.
Caso sua coluna não volte ao caso, enviarei carta ao Painel do Leitor. É sempre bom que os leitores da Folha de S. Paulo não sejam ludibriados com apurações incompletas.
Atenciosamente,

Maurício Maia

Enviada em: terça-feira, 22 de março de 2011 11:11
Para: leitor@uol.com.br; Monica Bergamo; Ombudsman Folha de S.Paulo
Assunto: Lula lá: quando a Folha errou?

Prezados senhores,

Na edição de ontem, 21 de março, a colunista Mônica Bergamo voltou a insistir que o publicitário Paulo de Tarso é autor do slogan “Lula lá”, um dos fatos mais marcantes da campanha eleitoral de 1989. Ou a Folha de S. Paulo erra agora ou errou em sua edição de 3 de junho de 1989, quando publicou nota no Painel em que atribui a autoria do “Lula lá” a Carlito Maia, meu pai (FSP, 3/6/1989, p. A4).
Ontem mesmo, enviei à colunista da Ilustrada outros elementos que provam que o publicitário Paulo de Tarso tenta de apropriar de criação alheia. Em dezembro de 1988, o Jornal do Brasil publicou na coluna do Zózimo nota em que dizia: “Carlito Maia, filósofo popular de São Paulo, faz tanta fé no PT que acaba de criar um slogan para a campanha de Luis Inácio da Silva à presidência da República. Lula lá. Parece canção de ninar”.
Não bastasse essa prova pública de autoria, que circulou numa das colunas mais lidas do jornalismo brasileiro dos anos 80, Carlito Maia ainda voltou ao tema em sua coluna no jornal Gazeta de Pinheiros a 5 de fevereiro de 1989 (“Brasil: vote-o ou fique-o! Logo mais teremos Lula lá e PT saudações. A continuação da virada…”) e a 7 de maio (“Então, Lula lá!”).
A colunista Mônica Bergamo não é a primeira pessoa a dar crédito à versão mentirosa do publicitário Paulo de Tarso. O jornalista Mario Sérgio Conti, em seu livro “Notícias do Planalto” (lançado em 1999) deu crédito à fantasia de Paulo de Tarso. O livro “Partido dos Trabalhadores – Trajetórias” repete o erro. Nas duas vezes, a autoria de “Lula lá” é atribuída tanto a Carlito Maia como a Paulo de Tarso. Este último, em concessão generosa, admite que a ideia possa ter saído de duas cabeças ao mesmo tempo. O caso é de dar inveja à polêmica entre os irmãos Wright e Santos Dumont. Cabe a ele, portanto, provar que se encontrou com o compositor Hilton Acioli em dezembro de 1988 ou, então, explicar porque não protestou quando a Folha de S. Paulo publicou a nota de junho de 1989.
Não custa lembrar que a fantasiosa versão de simultânea autoria do “Lula lá” só começou a circular depois que Carlito Maia não podia se defender. Vítima de doença neurológica, deixou de publicar cartas e protestos desde 1999. Desde então venho tentando devolver a Carlito o que é de Carlito.
Como a colunista Mônica Bergamo optou pelo jornalismo declaratório (“checando” sua informação com “testemunhas que coordenaram e participaram da campanha [de Lula]” e que “confirmam a versão de Tarso”), rogo a publicação desta carta para que os leitores da Folha de S. Paulo tenham acesso a informações documentais que derrubam a farsa do publicitário Paulo de Tarso.
Em tempo: um dos maiores orgulhos que tenho de meu pai é que ele nunca ganhou um centavo por algumas de suas maiores criações publicitárias (como, por exemplo, “Optei” e “Lula lá”).
Atenciosamente,

Maurício Maia

Em 22/03/2011 20:36, Monica Bergamo escreveu:

Maurício,

Tudo bem?

Como eu já disse a você num outro e-mail, diante da acusação que a família de Carlito Maia faz ao Paulo de Tarso de que ele plagiou o slogan, nós o procuramos para que falasse a respeito.

Ele disse que teve a ideia e que, até então, nunca tinha ouvido falar que Carlito criara frase idêntica, nem lera nada a respeito.

Ele diz que nunca leu esta nota que você cita do Jornal do Brasil, publicada, segundo você, muito antes da campanha.

Nós registramos tanto as afirmações da família quanto a do publicitário.

Hilton Acioli, citado por você, também foi procurado por nós, entre outros que participaram daquela campanha.

Ele diz que recebeu a frase do Paulo de Tarso.

Diz que depois disso teve alguns encontros com Carlito Maia e que Carlito Maia nunca reivindicou a autoria da frase.

Hilton Acioli me contou que certa vez, num comício, Carlito Maia chegou a perguntar a ele: “Quem te passou essa frase?”

Acioli respondeu: “O Paulo de Tarso”. Carlito mais uma vez nada disse sobre ser o autor do slogan, segundo Acioli. Comentou apenas que a canção só poderia ser coisa “de um petista apaixonado”.

Acioli explicou a ele então que não era petista.

E nada mais, segundo ele, foi dito.

Enviado: terça-feira, 22 de março de 2011 21:34
Para: Monica Bergamo
Assunto: Re: RES: Lula lá: quando a Folha errou?

Prezada Mônica,

São surpreendentes as declarações que você relata quando cotejadas com o material publicado na imprensa em 1989. Só hoje tive acesso à nota publicada no Painel da Folha de São Paulo que trata justamente da autoria da frase e das duas versões da composição musical de Acioli.
Caso não tenha recebido cópia da carta que encaminhei ao Painel do Leitor, transcrevo a nota – que você pode acessar no banco de dados que a Folha de S. Paulo gentilmente colocou à disposição dos leitores. Trata-se de ferramenta fundamental para evitar os riscos de memórias construídas.
Se quiser, posso lhe mandar também cópia fac-similar da nota publicada por Zózimo.
São provas incontestáveis de autoria e mostram que a criação musical de Acioli é de junho de 1989, quando a criação de Carlito Maia já havia sido publicada em dezembro de 1988 no Jornal do Brasil.
Não se trata de guerra de versões. A frase é de Carlito Maia. O resto é invencionice.
Faço questão que o jornal publique esses dados, essenciais para que os leitores do jornal saibam de que lado está a verdade. Suas notas de segunda-feira, por sinal, têm um viés claramente favorável ao publicitário Paulo de Tarso, quando trata da “insistência” da viúva e de que integrantes da campanha confirmam a versão do publicitário Paulo de Tarso.
Resta à Folha de S. Paulo dizer a seus leitores se errou em 1989 ou se erra em 2011.
Grato pela atenção.

Maurício Maia

Painel – FSP, 3 de junho de 1989

Lula-lá

O compositor Hilton Accioly, autor da música “Disparada” com Geraldo Vandré, fez duas versões para o jingle de campanha de Lula, a partir do slogan criado pelo publicitário Carlito Maia.

Em 22/03/2011 23:03, Monica Bergamo escreveu:

Maurício,

Sua carta foi encaminhada ao Painel do Leitor e seguramente será publicada.

Sobre a apuração da coluna, eu quero apenas lhe dizer que não foi feita em cima apenas de declarações do Paulo de Tarso, mas sim de apuração com outras fontes.

Em nenhum momento dissemos que a frase não é do Carlito Maia.

Relatamos que a família, vinte anos depois, insiste, e é fato, em dizer que ela é dele.

E que o publicitário Paulo de Tarso admite que Carlito Maia possa ter tido a ideia.

Ninguém desmente a família.

Mas Paulo de Tarso afirma que teve a mesma ideia e que não sabia que Carlito Maia também tinha tido.

O fato de uma nota ter sido publicada no JB não prova que ele sabia.

Ele diz que não leu a nota do JB, que não sabia de nada.

Qual é a prova de que ele leu, sabia e copiou:

Outras fontes, da coordenação da campanha, dão o crédito ao Paulo de Tarso. Não se referem a nota no JB nem a informações anteriores de que o slogan é do Carlito Maia, embora não coloquem em dúvida a palavra da família.

Você citou o compositor Acioli e por isso eu relatei na mensagem anterior o que ele disse à Folha.

Um abraço, obrigada

Mônica

Enviada em: quarta-feira, 23 de março de 2011 09:49
Para: Monica Bergamo
Assunto: Re: RES: RES: Lula lá: quando a Folha errou?

Prezada Mônica,

Volto, então, ao ponto mais surpreendente dessa história. Até agora, você não relatou em momento algum a nota que encontrei ontem, publicada no Painel a 3 de junho de 1989. A clareza da nota é meridiana (repito: “Lula-lá: O compositor Hilton Accioly, autor da música”Disparada” com Geraldo Vandré, fez duas versões para o jingle de campanha de Lula, a partir do slogan criado pelo publicitário Carlito Maia”). Ou vocês me dizem que essa nota estava errada, ou houve um problema sério de apuração em sua nota publicada na última segunda-feira.
O publicitário Paulo de Tarso primeiro diz ser criador da frase “Lula lá” (apropriando-se decriação de Carlito Maia) e agora diz “que não sabia” da ideia de Carlito Maia (toma de empréstimo a famosa frase do Lula presidente?). Convenhamos, é muita cara de paulo (estou tomando de empréstimo frase de meu pai quando se referia a Paulo Maluf).
Volto a insistir: há um problema técnico em sua apuração, apoiada em declarações que se chocam com farto material publicado entre 1988 e 1989. Caso Acioli negue a nota publicada pela Folha de S. Paulo em junho de 1989, é razoável que o jornal comunique a seus leitores que errou naquele momento.
Continuo aguardando a publicação da carta que enviei ao jornal. Gostaria, no entanto, que sua coluna se manifestasse sobre todas as evidências que lhe mandei desde segunda-feira.
A nota na coluna do Zózimo, publicada em 1988, pode não provar que o publicitário Paulo de Tarso fosse leitor habitual do JB, mas prova que a ideia é de Carlito Maia, da qual nenhum aventureiro tem o direito de lançar mão.
Quando houve a polêmica entre os irmãos Wright e Santos Dumont, um oceano separava os inventores da aviação. A disputa pela autoria do “Lula lá” se dá n um universo infinitamente menor e todas as evidências da época que recolhi até agora mostram como é difícil acreditar na coincidência có smica da mesmíssima ideia ter surgido simultaneamente na cabeça de duas pessoas distintas.
Repito: o publicitário Paulo de Tarso assumiu a “paternidade” do “Lula lá” publicamente apenas em 1999, na entrevista a Mário Sérgio Conti, quando meu pai já estava seriamente comprometido por problemas neurológicos.
Como diria meu pai, continuo aguardando.
Atenciosamente,

Maurício Maia

Em 23/03/2011 12:30, Monica Bergamo escreveu:

Maurício,

Eu não posso responder pela nota de 1989. Não apurei, não sei como foi feita.

Mas sei como a Folha funciona.

Certamente o jornalista que assinava a coluna naquele momento ouviu a história de uma fonte fidedigna, ou não teria publicado.

Ele fez a nota baseado na declaração que alguém deu a ele. Confiou e publicou.

Não tinha como ser de outra forma. Não há documentos para provar nada. Só testemunhos, ou seja, declarações.

E eu fiz a minha nota baseada em declarações da família, do Paulo de Tarso e de coordenadores e participantes daquela campanha.

Em nenhum momento a minha nota desmente a nota de 1989.

Em nenhum momento diz que Carlito Maia não teve aquela ideia.

Diz, isso sim, que a família insiste em dizer que a ideia foi dele e que o Paulo de Tarso admite que isso pode ter acontecido.

Mas que não sabia. E sustenta que teve a ideia do “Lula lá” de sua própria cabeça e a levou para a campanha.

Você acha que o Paulo de Tarso é farsesco, é mentiroso, é aventureiro e etc.

É um direito seu.

Eu, como jornalista, não posso entrar nesse julgamento subjetivo.

Um abraço, muito obrigada

Mônica

Para: Monica Bergamo ,ombudsman@uol.com.br
Assunto: Re: RES: RES: RES: Lula lá: quando a Folha errou?
Enviada: 24/03/2011 08:45

Prezada Mônica,

Você há de concordar que a nota publicada pela Folha de S. Paulo a 3 de junho de 1989, atribuindo a autoria do mote “Lula lá” a Carlito Maia, prova que foi em meados do ano que o compositor Hilton Acioli fez o jingle da campanha de Lula. Se você consultar todas as suas fontes, creio que nenhuma deixará de confirmar ter sido nessa época que Acioli fez sua composição.
O publicitário Paulo de Tarso pode não ter lido a coluna de Zózimo, que na edição de 7 de dezembro de 1988 publicou a nota “Carlito Maia , filósofo popular de São Paulo, faz tanta fé no PT que acaba de criar um slogan para a campanha de Luis Inácio da Silva à presidência da República. Lula lá. Parece canção de ninar”. Muito menos as duas edições da Gazeta de Pinheiros em que “Lula lá” aparecia na coluna “Tenho Dito”, de Carlito Maia (dias 5/2/1989 e 7/5/1989).
Encontrei hoje, no entanto, outra nota publicada na seção Painel, da editoria de política da Folha de S. Paulo, que torna evidente que a criação do “Lula lá” é exclusivamente de Carlito Maia. Publicada a 16 de abril, no mesmo Painel (página A-4), a nota relata: “O publicitário Carlito Maia está tentando convencer Rita Lee a fazer um rock para a campanha de Lula, baseada no slogan que criou – Lula lá”. Será que Paulo de Tarso também não era leitor da Folha de S. Paulo?
Essa última evidência mostra que, antes mesmo da entrada em cena de Acioli, “Lula lá” já circulava publicamente em São Paulo, a ponto de causar reações indignadas entre aqueles que tinham aversão ao PT, como o leitor Sidney Lopes, que teve sua carta publicada no Painel do Leitor a 1º de maio de 1989 (“Lula lá nunca, se Deus quiser” – p. A-3).
Em respeito à cronologia dos fatos, rogo mais uma vez que você repare o erro cometido em sua coluna na última segunda-feira. A autoria de “Lula lá” é única e exclusivamente de Carlito Maia.
Desculpe-me a insistência. Não há subjetividade alguma nos elementos que lhe apresento.
Leitor voraz, meu pai costumava distribuir aos amigos os belos textos que encontrava pela frente. Fazia questão de colocar em destaque as fontes de onde retirava tudo o que compartilhava entre os seus. O respeito ao direito autoral é um dos mais importantes fundamentos da civilização moderna.

Maurício Maia

Para: ombudsman@uol.com.br
Assunto: Fwd: RES: RES: RES: Lula lá: quando a Folha errou?
Enviada: 25/03/2011 12:28

Prezada ombudsman,

Desde segunda-feira aguardo publicação de carta que enviei ao jornal para corrigir erro publicado na coluna de Mônica Bergamo. Até ontem, mantive esperança que a colunista reparasse o erro diante da várias mensagens que trocamos desde então. Hoje, tenho certeza que ela não pretende voltar ao assunto. Pelo visto, o Painel do Leitor também não se interessou por minha carta (que a colunista Mônica Bergamo disse que “seguramente” seria publicada).
Pois bem. Minha última esperança é que a representante dos leitores trate do assunto em sua coluna dominical. O jornal Folha de S. Paulo sempre foi muito cioso em questões de direitos autorais (vide a polêmica que resultou no desligamento de professor da USP que plagiou trabalho alheio).
Como lhe enderecei toda a minha argumentação relativa ao episódio da criação do “Lula lá”, não vou esmiuçar todos os pontos que apresentei. Só quero voltar a uma questão, fundamenta l no meu entendimento.
A colunista Mônica Bergamo insiste em dizer que a história se encerra em versões distintas e que não há “documentos” para provar ter sido de Carlito Maia a autoria da frase.
Pois bem, a cronologia mostra que meu pai teve a ideia em dezembro de 1988, quando foi tornada pública na coluna de Zózimo do Amaral. Voltou à ela, publicamente, em outras tantas oportunidades ao longo de 1989. Como a representantes dos leitores pode verificar no acervo da Folha de S. Paulo, o publicitário Paulo de Tarso não rebateu em 1989 nenhuma das notas publicadas sobre o “Lula lá”, nas quais a autoria era atribuída a Carlito Maia. Muito menos apresentou qualquer evidência que tenha dado publicidade à “sua” ideia.
Se essa documentação não é suficientemente sólida, estamos definitivamente diante do fim da História.
Aguardo sua manifestação pública sobre esse episódio. Por mais que a colunista Mônica Bergamo negue, estamos numa encruzilhada: ou a Folha de S. Paulo errou em 1989 ou erra agora.

Maurício Maia

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
27/03/2011 - 10:48

O que era para poucos agora é para muitos

Compartilhe: Twitter

A semana que passou acabou marcada por uma importante mudança geométrica na sociedade brasileira: deixamos de constituir uma pirâmede social, com poucos ricos na ponta superior e uma legião de excluídos na base, e nos tornamos um losango,com a barriga inchada pelos mais de 100 milhões de conterrâneos da nova classe média.

Falando assim em números e figuras geométricas, talvez muitos ainda não se tenham dado conta ainda de que a paisagem humana mudou na última década, qualquer que seja o lugar onde a gente vá.

Aquele Brasil governado historicamente para os 30 milhões de eleitos com acesso ao consumo mais do que triplicou neste período e isto trouxe mais gente para viajar de avião, mais carros para congestionar as ruas, mais filas nos supermercados, novas obras de edifício por toda parte, hotéis superlotados, praias apinhadas de gente, falta de mesas para sentar nos botecos.

Neste sábado, em dois eventos musicais, pude constatar que mais uma barreira social se rompeu em nosso país: os mais pobres estão tendo acesso também à cultura.

À tarde, no 1º Santinha Cultural promovido no teatro do Colégio Santa Cruz, tradicional reduto da elite paulistana, encontrei 60 crianças da Comunidade do Jaguaré (a reurbanizada Favela do Jaguaré) para assistir ao show infantil apresentado pelo grupo de Rita Rameh e Luiz Waack, que não cobraram cachê.

Há mais de 50 anos, desde o tempo em que eu estudava lá, professores, pais e alunos do Santa Cruz dedicam-se a projetos sociais no Jaguaré, que atualmente beneficiam 800 crianças. Mariana, minha filha mais velha, que também estudou no Santa Cruz, deu aulas no Jaguaré no seu tempo de aluna.

Ao final do show, na bagunça formada em frente ao palco com todas as crianças brincando, ficava difícil saber quem era aluno do Santa Cruz e quem tinha vindo num ônibus fretado do Jaguaré: eram todas crianças bem cuidadas, bem vestidas, alegres na mesma medida. Creio que esta foi a maior revolução promovida no país neste meio século.

Para quem podia pagar, o ingresso custava R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia), com renda revertida para os projetos sociais. Alunos do Santa Cruz eram minoria. Contatos para quem quiser contratar o belo quinteto musical infantil de Rita e Luiz:
e-mail: rita.rameh@terra.com.br
fone: 3815 4653

***

À noite, na abertura oficial da temporada 2011 da Bachiana Filarmônica SESI SP, comandada pelo meu amigo maestro João Carlos Martins, na Sala São Paulo, reparei logo ao chegar que havia gente nova chegando a um ambiente tão fechado em que até pouco tempo atrás todos se conheciam.

Com roupas mais esportivas, mais jovens e falando falando mais alto, sem aquele ar de quem está entrando num templo sagrado, esta nova platéia da música clássica em São Paulo aplaudiu várias vezes de pé as Sinfonias de Beethoven e os tangos em homenagem aos 90 anos de astor Piazzolla.

O grande momento da noite foi a estréia do jovem solista Lucas Targino Farias, de 12 anos, apresentado-se no Concerto Para Violino em Lá menor. Nascido em Guarulhos, bolsista da Fundação Bachiana Filarmônica, Lucas estuda com a professora Elisa Fukuda.

A homenageada da noite foi a executiva Marluce Dias da Silva, ex-diretora-geral da Rede Globo. Ao final, apresentou-se com a orquestra o percussinista Bolão levando Bach na cuíca. A plaéia não queria mais que o espetáculo acabasse e Martins teve que voltar duas vezes ao palco. Mais tarde, ele e a sua fiel mulher escudeira Carmem, ainda ofereceram um belo risoto para os amigos.

Com o apoio do SESI, e grandes empresas como Bradesco, Gerdau, Petróleo Ipiranga, Honda e Ecom, Martins levou seu projeto de popularização da música clássica a 350 mil pessoas no ano passado.

Na Fundação Bachiana Filarmônica, João Carlos Martins e sua equipe cuidam do ensino musical de 1.165 crianças de comunidades carentes. Os que não se tornarem novos virtuoses da orquestra de adultos, como Lucas Farias, certamente formaram as novas platéias da melhor música clássica. O que era para poucos agora é para muitos.

Vamos todos participar do
Movimento Landell de Moura

Recebi na tarde deste sábado, e reproduzo abaixo, mais um apelo do incansável amigo Eduardo Ribeiro, editor do “Jornalistas & Cia.”, para que todos participem da luta pelo reconhecimento do padre Landell de Moura como inventor do rádio.

Peço a todos os amigos leitores do Balaio que participem deste movimento. Segue o e-mail que recebi do Edu:

“Tomo a liberdade de chegar novamente a vocês para informá-los que uma série de instituições, lideradas pela Prefeitura de Porto Alegre, decidiu adotar o dia 30 de março, quarta-feira próxima, como o Dia de Adesão em Massa ao abaixo-assinado pelo reconhecimento do padre-cientista Roberto Landell de Moura, como inventor do rádio e a inclusão de sua saga no currículo do ensino básico (objetivo maior do Movimento, que foi abraçado pelo J&Cia.).

A mais auspiciosa notícia no que tange ao Movimento Landell de Moura foi a entrada do Ministério das Comunicações no circuito, apoiando oficialmente a causa, inclusive com uma declaração pública do ministro Paulo Bernardo nessa direção.

Acabo de olhar o abaixo-assinado (sábado, 15h35) e ele já superou as 4.300 assinaturas. O objetivo é entregá-lo em mãos às autoridades federais ainda este ano, que é o ano de celebração dos 150 anos de nascimento do padre Landell, inventor do rádio.

Abraço grande

Eduardo Ribeiro/Mega Brasil Comunicação/Jornalistas&Cia

Contatos: 11-5576-5600/ eduribeiro@jornalistasecia.com.br

Quarta-feira é o dia
de adesão em massa

O nosso principal objetivo no momento é colher assinaturas para o abaixo-assinado que será entregue às autoridades do Governo Federal.

Os brasileiros de todas as partes do país que quiserem apoiar o movimento que busca o reconhecimento do padre-cientista Roberto Landell de Moura como verdadeiro inventor do rádio poderão fazer isso agora mesmo, assinando o abaixo-assinado que está no site www.mlm.landelldemoura.qsl.br.

É que o dia 30 de março, quarta-feira, foi escolhido por várias instituições, entre elas a Prefeitura de Porto Alegre, terra onde ele nasceu, como o Dia de Adesão em Massa ao Movimento Landell de Moura.

Esse abaixo-assinado será posteriormente entregue, pelos coordenadores do Movimento, às autoridades de Brasília. A iniciativa faz parte da celebração do sesquicentenário de nascimento do padre-cientista, ocorrido no dia 21 de janeiro deste ano.

Padre Landell já ganhou um selo dos Correios, pela passagem dos 150 anos de seu nascimento; deverá ser declarado Herói da Pátria pelo Congresso Nacional, em projeto que atualmente tramita na Câmara dos Deputados (já aprovado pelo Senado Federal); receberá o título post mortem de Cidadão Paulistano, na Câmara Municipal de São Paulo; já recebeu uma primeira adesão oficial do Ministério das Comunicações e do ministro Paulo Bernardo, que o reconheceu publicamente; será alvo de exposições em São Paulo, em diversas praças públicas; está sendo homenageado com uma série de atividades no Sul do País; foi destaque de várias matérias na imprensa brasileira (Jornal Nacional, Jornal da Record, TV Brasil, CBN, Rádio Nacional, Rádio Globo, Zero Hora, Correio do Povo, O Estado de S.Paulo, Folha de S.Paulo, entre outros).

Mas, o mais importante, que é o seu reconhecimento oficial e a inclusão de sua saga no currículo do ensino básico, ainda não aconteceu, o que impede nossas crianças de conhecerem, em seu próprio País, a vida e a obra deste brasileiro, que, em sua genialidade e realizações, foi tão importante quanto foram Santos Dumont, Oswaldo Cruz, Marechal Rondon e outros heróis nacionais.

Assine o abaixo-assinado e ajude a divulgar essa causa. A História do Brasil agradece.

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
24/03/2011 - 11:14

Sem os meninos, o velho Tricolor

Compartilhe: Twitter

A previsão foi feita aqui mesmo no dia 13 de fevereiro, sob o título: “São Paulo recebe meio time do sub 20″. Com a volta dos campeões sul-americanos da categoria que estavam servindo a seleção, o Tricolor, que vinha capengando, virou outro time. Ficou oito jogos sem perder e assumiu a liderança do campeonato.

Não era preciso ser nenhum “especialista” em futebol para prever que, com a entrada de Lucas e Casemiro no time, o São Paulo ganharia novo ritmo e entraria na disputa pelo título paulista. Atingiu 90,5% de aproveitamento, algo inédito sob o comando de Paulo César Carpegiani, o nosso “Professor Pardal”, que adora ficar mexendo no time.

Agora, bastou Lucas ser convocado para a seleção principal e Carpegiani ter a brilhante idéia de substituir Casemiro, ainda no primeiro tempo da derrota por 3 a 2 na partida contra o Paulista, em Jundiaí, na noite desta quarta-feira, para o velho Tricolor voltar a campo, e dar outro vexame.

Para se ter uma idéia da diferença que eles fazem: nas nove partidas disputadas sem os dois, o São Paulo já perdeu quatro. Com eles, nenhuma derrota.

Justamente na véspera do clássico de domingo contra o Corintians, que assumiu a liderança, ao derrotar o Oeste por 3 a 0, o São Paulo caiu para o terceiro lugar e, pior do que isso, perdeu-se completamente em campo depois que o Paulsita abriu 2 a 0 ainda no primeiro tempo, em duas falhas de Rogério Ceni e da defesa.

Se o técnico não tiver alguma outra brilhante idéia, Casemiro pode jogar contra o Corínthians, mas Lucas estará com a seleção em Londres.

O São Paulo sempre sonhou em ter dois times para disputar todos os campeonatos, do Paulistão à Libertadores. Pois agora tem: um, com os meninos do sub 20; outro, sem eles.

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
23/03/2011 - 13:37

TV invadida por onda de “especialistas”

Compartilhe: Twitter

Pensei que era só aqui que estava pegando esta onda de “especialistas” pontificando em todos os telejornais. Pois acabei de ler aqui ao lado, na coluna do nosso grão mestre Ivan Lessa, da BBC, que não estamos sozinhos.

Em Londres, onde ele vive há séculos, também virou moda convocar palpiteiros diplomados para explicar ao povo ignaro o que está acontecendo no mundo.

Diante de tantas desgraças, tragédias, coisas inexplicáveis acontecendo, os jornalistas de TV jogaram a toalha e estão recorrendo cada vez mais aos “doutores universitários” para emprestar sua sabedoria quando não sabem mais o que dizer. Não sei o que é pior.

Conta-nos Ivan Lessa no texto “Deteriorações na Líbia”: “Lá estavam eles: âncoras, um rapaz e uma moça. Com sono, nervosos, inseguros. Não tinham filme a mostrar. Que faz a televisão nessas horas? Simples: convida autoridades para opinar, diagnosticar, prognosticar”.

A fórmula deve ser a mesma no mundo inteiro e por aqui está se espalhando como praga. Cada redação de TV já deve ter na sua agenda um elenco de “especialistas” pronto a entrar em ação a qualquer hora, conforme o assunto.

Alguns, mais ecléticos, entendem de todos os assuntos e falam exatamente o que cada emissora quer ouvir. Nos canais de notícias, então, eles viraram predominantes. Já aparecem mais do que âncoras e repórteres.

Política, economia, saúde, guerras, futebol, cultura, terremotos, pebolim, pão de queijo, educação pública, tsunamis, acidentes de trânsito, religião, discursos do Obama, mortes de celebridades, previsão do tempo, moda íntima, salário mínimo, bailes funk, física quântica, gorduras trans, brigas de vizinhos, dietas, novos remédios, velhas manias, não importa: temos “especialistas” para tudo, podemos até emprestar para a TV inglesa. No “Jornal Nacional” desta semana, por exemplo, eles deitaram e rolaram, nem me lembro do nome de todos.

Tem até “especialista” em meter o pau no governo e “especialista” para defender o governo (estes são um pouco mais raros). Ao ver a ocupação dos sábios nas telas da TV inglesa, durante a cobertura da guerra civil na Líbia, Lessa logo reconheceu a trupe:

“Lá estavam aquilo que nossos jornalistas gostam de chamar de `suspeitos habituais´. Brigadeiros, marechais do ar, diplomatas, políticos eleitos ou na bica de pegar uma vaga no parlamento, professores dos mais diversos centros de estudo, todos técnicos, rrrrrrealmente técnicos. A tchurma”.

Em época de campanha eleitoral abundam os “cientistas políticos” e os “especialistas em de pesquisas” que falam como se tratassem de ciências exatas. Como agora boa parte do mundo está se consumindo em tragédias naturais, atômicas ou bélicas, tome “especialistas” de todo tipo para prever se o mundo está ou não se acabando.

E qual é o palpite dos caros leitores deste Balaio? Moça bonita não paga nada, mas também não leva, como dizem os feirantes. Para dar palpite, ninguém precisa pagar nada (e alguns até recebem): afinal, o que podemos esperar do amanhã? Haverá amanhã?

Em tempo:

O leitor Edson Panini, que eu saiba, não é “especialista” em nada, mas ele mandou um comentário às 11:50 que é muito bom sobre esta visita e os discursos do presidente Barack Obama ao Brasil: “Carro de boi que faz muito barulho está vazio”.

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
22/03/2011 - 13:52

Obama vai pagar os pecados dos EUA?

Compartilhe: Twitter

Aqui, foi o próprio presidente Barack Obama quem levantou o assunto da ditadura militar, mas nenhum jornalista brasileiro ousou lembrar da ativa e decisiva participação do governo dos Estados Unidos da época no golpe contra João Goulart, um atentado contra a democracia brasileira que perdurou por mais de duas décadas.

Ao contrário, na imprensa brasileira Obama foi criticado exatamente por isto pelo colunista Merval Pereira, candidato à Academia Brasileira de Letras, em sua coluna desta terça-feira em O Globo:

“A insistência com que ele se referiu à superação da ditadura militar no Brasil pela ação de pessoas que, como a presidente Dilma Rousseff, resistiram em defesa da democracia, comparando a situação brasileira de 25 anos atrás com a atualidade dos países árabes que estão em crise política em luta por mais direitos, soou anacrônica e fora de próposito”.

Anacrônica e fora de propósito? Obama nem lembrou de dizer que, no Brasil, a longa ditadura militar foi apoiada alegremente por toda a nossa grande imprensa.

Pois, no Chile, apenas 24 horas depois do seu discurso no Teatro Municipal do Rio, que desagradou a Pereira, foi um jornalista quem questionou Obama sobre a responsabilidade dos Estados Unidos no golpe contra Salvador Allende, querendo saber se o seu governo estaria disposto a apoiar investigações judiciais sobre crimes praticados pela ditadura de Augusto Pinochet.

Na conferência de imprensa ao lado do presidente chileno Sebastián Piñera, em que os repórteres só podiam fazer três perguntas a cada um, o mesmo jornalista quis saber de Obama se estaria disposto a pedir desculpas pela participação dos EUA no golpe de 1973.

Obama respondeu que não é o caso de pedir desculpas, mas que estaria disposto a colaborar “com qualquer pedido feito pelo Chile”, segundo relato da correspondente Janaína Figueiredo, na mesma edição de O Globo. “É importante aprender nossa História, compreendê-la, mas não ficar presos na História”.

Por falar nisso, algum jornalista brasileiro poderia perguntar a Obama, antes do final da sua viagem, se estaria disposto a colaborar também com o nosso país na apuração dos crimes da ditadura militar, caso isso lhe seja solicitado, agora que estamos prestes a instalar a “Comissão da Verdade”.

Se tiver que pagar pelos pecados cometidos por sucessivos governos dos EUA, ao se tornar cúmplice de crimes praticados por dezenas de ditadores contra a democracia e a população civil de seus respectivos países, como aconteceu no Brasil dos militares e no Chile de Pinochet, aconteceu no Egito de Mubarak e está acontecendo hoje na Líbia de Kadafi, Barack Obama não fará outra coisa até o final do seu mandato.

Para o império americano, há ditaduras e ditaduras, claro, e por isso mesmo, em seu “Discurso às Américas”, proferido no Chile nesta segunda-feira, Obama se referiu à Cuba de Fidel Castro:

“Continuaremos buscando maneiras de aumentar a independência do povo cubano”, dizendo esperar das suas autoridades “uma decisão importante para defender os direitos básicos do povo”.

Muito justo. Se precisamos aprender com a História, porém, como ele mesmo falou em Santiago, não custava nada Obama lembrar que o atual regime cubano foi implantado no bojo de uma revolução popular que derrubou Fulgêncio Batista, o ditador apoiado pelos Estados Unidos, país que mantém até hoje o embargo econômico à ilha.

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
20/03/2011 - 11:33

Infernos do mundo no andar de cima

Compartilhe: Twitter

Cada um sente a dor ou a alegria de acordo com o lugar onde seus pés pisam. Pode ser o barulho dos bombardeios para quem mora na Líbia, o temor da radiação atômica no Japão, a do estômago roncando de fome ou a doce brisa do mar nas praias ainda intocadas no nosso nordeste.

No mesmo instante, em diferentes lugares do mundo, dependendo de onde estamos, poderemos ficar mais perto do céu ou do inferno, rir ou chorar, sentir amor ou ódio. Por maiores que sejam a tristeza ou a felicidade dos diferentes povos neste momento, o que nos toca é o som mais próximo, a paisagem ao alcance dos olhos, o sol que nos ilumina.

No meu caso, o inferno fica bem próximo, no andar de cima. Há várias semanas, entre uma tragédia e outra que acontece no Brasil ou no mundo, não consigo trabalhar nem dormir direito.

Sei que ninguém tem nada com isso e nem eu posso fazer nada, a não ser escrever, mas vocês podem imaginar os sons de um filme de terror numa casa mal assombrada? Pois é, aquele barulho infernal de móveis sendo arrastados, pés martelando no chão como se fosse dentro da minha cabeça, portas e lustres batendo, de dia e de noite, sem que eu consiga descobrir do que se trata?

Uma única vez ousei interfonar para saber o que estava acontecendo e, com muito jeito, pedi piedade ao vizinho, mas foi-me dito apenas para ter paciência porque que se tratava do ensaio de coreografia para um espetáculo prestes a estrear. Não adiantou nada meu apelo.

O tempo passou e os barulhos se intensificaram, entram noite adentro e cedo recomeçam. Parece o som de uma mudança interminável, que é feita todo dia, toda hora, sem tempo para acabar. Tem dia que não consigo nem escrever para atualizar o Balaio.

Também trabalho em casa, como muita gente faz hoje em dia, mas tenho certeza de que não incomodo ninguém batucando no meu notebook ou lendo meus livros. Nunca tive problemas com vizinhos nem eles comigo, mas agora não sei mais o que fazer. Para completar, meu prédio está em obras de reforma da fachada, também intermináveis.

Sim, também sei que posso voltar a trabalhar fora, ir todo dia para uma redação, como fiz a vida inteira, mas como faço para dormir? Já tentei até colocar tampão de silicone nos ouvidos, mas não adiantou. Alguém aí tem uma boa ideia?

Datafolha mostra
Dilma bem na foto

Na primeira pesquisa Datafolha de avaliação do seu governo, quase três meses após a posse, a presidente Dilma Rousseff aparece muito bem na foto: tem praticamente o mesmo índice (47%) de aprovação do presidente Lula (48%) em igual período no início de seu segundo mandato. Em março de 2003, no início do seu primeiro mandato, Lula registrou 43% de aprovação (ótimo e bom).

Mais do que isso: Dilma, com 7%, tem o menor índice de rejeição (ruim e péssimo) na sequência histórica da pesquisa, desde Fernando Collor, que registrou 19% no primeiro Datafolha do seu governo.

Itamar Franco teve 11%; FHC ficou com 16% no primeiro mandato e 36%, no segundo; Lula contou, respectivamente, com 10% e 14% de rejeição nos primeiros três meses de seus dois governos.

Ou seja, segundo a maioria da população, o novo governo está no caminho certo. Dilma está enfrentando todas as dificuldades com firmeza e transmitindo confiança à população, mesmo aos que não votaram nela.

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
16/03/2011 - 12:30

Deixaram Kassab pendurado na brocha

Compartilhe: Twitter

Tanto barulho, tanta notícia, meses de conversas sobre o novo partido de Gilberto Kassab, tudo para quê? Para nada…

Como já era de se esperar, a convenção do DEM juntou os cacos, quer dizer os caciques, e mesmo em clima de velório conseguiu não só eleger um novo presidente, o veterano senador José Agripino Maia, em lugar de Rodrigo Maia, como evitou a sangria anunciada pelo prefeito paulistano, quem nem foi à convenção.

Ao anunciar o PDB, sigla criada para abrigar os descontentes do DEM e de outros partidos, Kassab logo deixou claro que o novo partido seria apenas um trampolim para driblar a legislação eleitoral e, em seguida, se jogar nos braços do PSB, o partido do governador pernambucano Eduardo Campos, que é da base aliada da presidente Dilma.

Dos 35 nomes que chegaram a ser anunciados para acompanhar Kassab no novo partido, não restam mais do que meia dúzia de dois ou três sem maior expressão, com exceção do vice-governador de São Paulo, meu amigo Guilherme Afif, que foi quem levou Kassab para a política na equipe da sua campanha presidencial, em 1989, pelo antigo PL.

O antigo aliado Rodrigo Garcia (SP), a senadora Kátia Abreu (TO), líder ruralista, a prefeita de Riberão Preto, Dárcy Veras, e o ex-candidato a vice de Serra, Indio da Costa (RJ), várias “estrelas” anunciadas já estão roendo a corda do “novo partido”.

Confesso que fiquei surpreso ao ver o discreto Kassab circulando como grande estrategista político e ganhando destaque num possível rearranjo partidário em nível nacional. Quando a esperteza é grande demais acaba engolindo o esperto.

Os velhos coronéis comandados pelo Maia potiguar, com anos de janela na Arena, no PDS e no PFL, resolveram reagir na luta pela sobrevivência e, simplesmente, puxaram-lhe a escada, deixando Kassab pendurado na brocha.

Por tabela, deixaram na estrada também Jorge Bornhausen, derrotado na tentativa de retomar o comando do partido, e seu eterno aliado tucano, o ex-candidato José Serra.

Foi uma vitória dos profissionais comandados por Aécio Neves que agora precisa fazer o mesmo serviço no PSDB para assegurar sua candidatura presidencial em 2014. Os aliados demos, no entanto, ainda não se entenderam sobre a nova cara que pretendem apresentar ao eleitorado.

“Nego a pecha de direita”, injuriou-se José Agripino Maia, que defendeu o liberalismo econômico como bandeira do partido. O deputado gaúcho Onyx Lorenzoni não concordou: “Aí, não! Eu sou de direita”.

O senador goiano Demóstenres Torres anunciou que o partido precisa ter um rumo, uma direção, mas não disse qual. Só sabe o que o DEM não deve ser: “Não somos de esquerda, não somos de ultradireita, não somos governo”. O que serão, afinal?

O deputado paranaense Alcenir Guerra também não parecia muito animado, segundo o noticiário da Folha: “Dois sintomas mostram o tamanho da crise: de um lado, os fundadores insatisfeitos. De outro, o filiado com mais votos, que é o prefeito de São Paulo, falando em sair. A hora é de estancar a hemorragia”.

Pelo jeito, o DEM saiu da convenção direto para o pronto-socorro.

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
Voltar ao topo

oferecimento