Arquivo da Categoria Blog
08/11/2009 - 10:57
Os assuntos mais comentados da semana
Balaio
José Alencar (exclusivo): 171
Trânsito paulistano: 102
Clara Charf: 90
Folha
Marcha para Jesus: 73
Minissaia na faculdade: 52
Aposentados: 44
Veja
Apocalipse: 67
Manual da civilidade: 35
Michael Jackson: 31
***
Nesta segunda-feira, dia 9, o mundo comemora os vinte anos da queda do Muro de Berlim, símbolo da Guerra Fria. Quando estive lá pela primeira vez, em 1978, parecia que aquela pavorosa divisória de cimento entre Berlim Ocidental e Berlim Oriental, erguida em 1961, seria para sempre. Já fazia parte da triste paisagem do mundo dividido.
Era correspondente do Jornal do Brasil na então Alemanha Ocidental e morava em Bonn, a bucólica cidade universitária e administrativa que se tornara a capital do país quando o país foi dividido no pós-guerra. Na minha ignorância, só quando fui a Berlim fazer uma reportagem descobri que a cidade não ficava na fronteira entre os dois países, mas bem no meio da República Federal da Alemanha.
Fui de trem, umas seis ou mais horas de viagem, para entrevistar o exilado Luiz Travassos, um dos líderes do movimento estudantil no Brasil e último presidente da UNE antes de a entidade ser posta fora de combate pelos militares.
A entrevista com Travassos, que morreria em acidente de automóvel pouco tempo depois de voltar ao Brasil com a Anistia, fazia parte de uma série de reportagens com os líderes do movimento estudantil de 1968, dez anos depois da célebre rebelião dos jovens que começou em Paris e varreu o mundo, marcando a minha geração.
Era Semana Santa e aproveitei a viagem de trem para escrever outra reportagem que não estava na pauta (era comum naquele tempo a gente viajar para ir atrás de um determinado assunto e voltar com duas ou três matérias). “O trem da Semana Santa” foi uma das reportagens que mais gostei de escrever, porque me permitiu mostrar os dois mundos em que se dividia a Alemanha, baseando-me em histórias da vida real, como conto no meu livro de memórias “Do Golpe ao Planalto _ Uma Vida de Repórter” (Companhia das Letras, 2006).
Um trecho da reportagem em que narro minha conversa na cabine do trem com algumas velhinhas muito espirituosas:
Onze da manhã de Quinta-feira Santa em Berlim. A primavera começou oficialmente ontem, como anunciaram as rádios e televisões, mas ainda há neve nas ruas. Chove, e faz um frio de outono na antiga Capital do Reich, onde o sol há muito não aparece. Não fosse por isso, a plataforma 12 da principal estação ferroviária de Berlim Ocidental _ a do Jardim Zoológico _ faria lembrar qualquer desses entrepostos de retirantes do Nordeste brasileiro.
Crianças chorando, a agonia das pessoas em busca de um lugar nos dezesseis vagões do trem lotado, malas perdidas, sacolas em todas as mãos, aleijados tentando abrir portas com as muletas _ o D-345 mais parece um pau-de-arara eletrificado, em que não faltam cachorros e passarinhos. Mas sai exatamente dentro do horário previsto(…)
Ah, a televisão. As mulheres lembram da época em que a polícia da Alemanha Oriental quebrava todas as antenas que estavam voltadas para o lado ocidental. Depois, para impedir que se sintonizasse a televisão colorida da Alemanha Ocidental, implantaram o sistema francês, que exigia um transformador, cuja importação era proibida. Proliferaram então as “vovós contrabandistas”. Elas contam:
_ As vovós (do lado oriental) nunca viajaram tanto como agora. É que com elas o controle da alfândega é menos rigoroso. Minha sogra era uma artista. Ficava tremendo o tempo todo, tinha ataques, a polícia só faltava carregar as malas para ela, não revistavam nada…
Uma das poucas vantagens de ficar velho na profissão é esta: a cada evento que lembra fatos de 20, 30, 40 anos atrás, tenho uma história para contar porque estive lá e vi de perto. Neste caso das “vovós contrabandistas”, que ajudavam a sintonizar o lado oriental com o ocidental, não poderia existir nada mais emblemático do que esta preocupação do governo comunista em impedir que as pessoas vissem as imagens vindas do outro lado do muro, com a oferta de produtos e serviços que não podiam encontrar em seu país.
Ainda esta semana, contei a vocês os fatos de 9 de novembro de 1979, um ano depois de eu ter voltado ao Brasil, quando Carlos Mariguella, o líder da Ação Libertadora Nacional, foi morto numa emboscada pelo delegado Sergio Paranhos Fleury, na alameda Casa Branca, perto de onde moro hoje. Eu também estava lá nesta noite, há 40 anos, como repórter do Estadão, e voltei lá na quarta-feira, durante uma homenagem a ele prestada, para escrever um texto sobre sua viúva, Clara Charf, publicada aqui no blog.
Como me acusam alguns leitores, acho que estou mesmo ficando velho. Tudo está fazendo muito tempo…
Minha opinião
De Caetano Veloso falando sobre Lula ao dar seu apoio à candidata Marina Silva:
“Marina Silva é inteligente como o Obama, não é analfabeta como o Lula, que não sabe falar, é cafona falando, grosseiro. Ela fala bem”.
Minha opinião sobre Caetano Veloso:
Já foi um bom compositor, é um cantor mediano e nunca deixou de ser um analfabeto político _ uma mistura de Rui Barbosa em compota com ACM em conserva, que se acha o gênio da raça. Prefiro Maria Bethania.
Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog
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06/11/2009 - 18:14
Recebi na tarde desta sexta-feira dos meus amigos jornalistas Palmerio Dória e Mylton Severiano a denúncia, que reproduzo abaixo, sobre os lamentáveis incidentes registrados durante o lançamento do seu livro “Honoráveis Bandidos”, quarta-feira, em São Luís, no Maranhão.
Conheço há décadas a seriedade e a competência do seu trabalho na imprensa. Mylton Severiano, o mago do texto, foi quem me abriu as portas da grande imprensa, em 1967. O repórter Palmerio Dória conheci pouco mais tarde na redação do Estadão, vindo de Belém, jovem de talento, sempre inconformado com as injustiças de todas as latitudes. Encontramo-nos várias vezes mais tarde por variadas redações da vida.
Abaixo, a mensagem que eles me mandaram:
Amigo, eis o que enviamos a ABI e Fenaj
Os jornalistas abaixo-assinados, Palmerio Dória e Mylton Severiano, denunciam aqui a ação fascistoide de um grupo de jovens, a mando do grupo ligado a José Sarney, em São Luís do Maranhão.
1. Antecedentes. Palmerio, autor do livro Honoráveis Bandidos, da Geração Editorial, e Mylton, co-autor, a convite de jornalistas de São Luís, aceitaram lançar o livro na capital maranhense, ontem, dia 4 de novembro de 2009, às 19 horas. Para começar, nenhuma grande livraria local, ou entidade, aceitou promover o evento, além do que nem sequer aceitam o livro em suas prateleiras. Até que, lembrado o Sindicato dos Bancários, suas portas se nos abriram e para ali ficou marcado o lançamento. Na antevéspera, mais um ato que lembra métodos fascistas: a empresa responsável pelos outdoors que anunciavam o evento devolveu o dinheiro aos promotores e mandou “raspar” as peças.
2. O clima à nossa chegada, na terça, véspera do ato, começou a ficar “esquisito”, quando na coletiva à imprensa, numa sala do Sindicato, alguns colegas nos perguntaram se a gente não tinha “medo”. Falou-se em “corte de energia” durante o evento, brincou-se com a possibilidade de cada um levar uma vela, e alguns dos colegas não descartaram até atos de violência. À noite, em programa ao vivo na rádio Capital, vários ouvintes nos alertaram para aquelas possibilidades – “ele são capazes de tudo”, “cuidado”.
3. Ontem, quarta, no fim da manhã, uma colega, Jane Lobo, mais realista, aconselhou – e acatamos – a pedir proteção.
4. Veio a noite. O auditório do Sindicato dos Bancários, na Rua do Sol, estava superlotado, havia muita gente em pé. Um ambiente familiar – gestantes, gente idosa, crianças pequenas e grandes, estudantes. Por ali passaram mil pessoas.
5. Iniciada a sessão pelo coordenador Marcos Nogueira, quando Palmerio passa a falar sobre o conteúdo do livro, eis que do nosso lado direito uma vintena de jovens, na maioria rapazes e umas poucas moças, prorrompem em berros, aos poucos distinguimos “Jackson ladrão, envergonha o Maranhão”, “mentira”, “viva Sarney”. As pessoas mais próximas se levantam e se afastam, abrindo um claro. Os baderneiros abriram suas camisas, pondo à mostra uma camiseta em que se lia Navalhada de Bandidos e atrás de grades Jackson Lago, o governador que a família Sarney derrubou num golpe do judiciário. Dentre os baderneiros, um rapaz, possesso, ergueu uma das pesadas cadeiras e a arremessou na direção do palco onde estávamos. Imediatamente uma chuva de objetos voou sobre a mesa – bolas de papel molhado, ovos e até pedras – junto com xingamentos e outros impropérios.
6. Seguiu-se um quebra-quebra, pancadaria, promovida pelos baderneiros.
7. Passada a estupefação, os presentes mais os seguranças providenciados pelo Sindicato passaram a expulsar os baderneiros do local aos tapas e empurrões. Boa parte do público se retirou, preocupada, “eles vão voltar”.
8. Reiniciado o ato, os presentes cantaram Oração Latina, puxada ao violão pelo cantor e compositor Cesar Teixeira. A platéia e políticos, das mais diversas extrações, se deram as mãos durante o canto.
9. Felizmente nenhuma criança se feriu. Uma pessoa das relações de Jackson Lago foi buscar seu carro na rua de trás do Sindicato, Rua dos Afogados, e testemunha: ali havia cinco viaturas da PM, esperando o quê, não se sabe. E, praticamente no mesmo instante, menos de cinco minutos depois, Décio Sá, jornalista “guerrilheiro” dos Sarney, que se encontrava em Fortaleza, já postava em seu blog notícia em que os baderneiros viraram estudantes que protestavam contra o lançamento do livro e “foram atingidos por cadeiras, pedras, socos e pontapés e revidavam como podiam”.
10. Enquanto os autores retomavam a sessão, um grupo foi à delegacia de polícia mais próxima registrar B.O., Boletim de Ocorrência. Dissemos que os baderneiros vieram a mando do grupo ligado a José Sarney e eles próprios, desastrados, se encarregaram de deixar prova cabal: uma moça, Ana Paula Ribeiro, tida nos meios estudantis como “estudante profissional”, ao sair correndo deixou cair a bolsa, com sua identidade dentro. A moça trabalha simples mente com Roberto Costa, secretário de Esporte e Juventude da governadora Roseana Sarney.
11. Toda a confusão armada pelos baderneiros foi fotografada e filmada por profissionais contratados pelo evento.
12. Mesmo com este ataque fascistoide, Palmerio e Mylton assinaram mais de 500 livros, o que demonstra a sede de informação sobre a família que há meio século governa o Maranhão.
Palmerio Dória e Mylton Severiano
São Luís, 5 de novembro de 2009
Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog
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05/11/2009 - 15:07
Sob o sol forte de 11 horas da manhã de quarta-feira, com um cravo vermelho numa das mãos e o microfone na outra, a voz sai mais fraca, mas a firmeza das idéias é a mesma de sempre. Aos 84 anos, aquela mulher miúda de cabelos bem branquinhos posta-se diante do carro de som e dá início, como faz há 40 anos, a mais uma homenagem póstuma a seu marido, assassinado numa emboscada exatamente naquele local, no dia 4 de novembro de 1969.
Raras vezes na vida, mesmo no cinema ou na literatura de ficção, conheci uma história de amor tão forte como a da ex-aeromoça pernambucana Clara Charf pelo guerrilheiro baiano Carlos Marighella, fundador e líder da Ação Libertadora Nacional, uma das dissidências do Partido Comunista Brasileiro criadas durante o período de resistência à ditadura militar.
Cerca de 40 pessoas, entre amigos, parentes e velhos comunistas, que se referem a ele ainda como
“Mariga”, aglomeram-se na calçada da alameda Casa Branca, no Jardim Paulista. Na noite da sua morte, havia muito mais gente, é verdade _ policiais, curiosos e jornalistas, entre os quais, o autor deste texto, um dos repórteres escalados pelo Estadão para fazer a cobertura.
Quem passa de carro não faz idéia do motivo que reúne aquelas pessoas diante de uma pedra em forma de lápide colocada ali para lembrar a morte de Marighella, entre a alameda Lorena e a José Maria Lisboa.
Por isso, Clara pergunta e ela mesma responde:
“Por que ele foi morto? Porque a sociedade não era justa, não tinha terra e trabalho para todos. Ele lutou desde jovem contra isso, foi preso várias vezes(… ) Naquela noite veio se encontrar com dois companheiros para estudar caminhos que permitissem aos perseguidos sair do Brasil em segurança. Muitos que estão aqui devem sua vida a ele. (…) Graças a pessoas como Marighella chegamos ao Brasil que temos hoje, que está longe de ser perfeito, mas melhorou muito em relação ao que era naquela época”.
Desde quando teve seu registro de trabalho de comissária de bordo cassado em 1946, Clara Charf dedica-se a muitas lutas, tendo passado boa parte da vida na clandestinidade, outra como exilada, participando de protestos contra a bomba atômica à campanha contra o envio de soldados brasileiros para a Guerra da Coréia.
Até hoje, ela está na luta. Participa ativamente do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, da Associação Mulheres pela Paz ao Redor do Mundo e da Comissão de Mortos e Desaparecidos. Mas a maior de todas as lutas de Clara Charf nos últimos anos foi pela preservação da memória do grande amor da sua vida, hoje abrigada no Espaço Cultural Carlos Marighella, por ela criado.
Quatro décadas após a execução de Marighella comandada pelo delegado Sergio Fleury, o chefe da repressão em São Paulo, Clara fala com carinho do temido combatente, para ela “um poeta dedicado à solidariedade”, o homem mais procurado do país do seu tempo. A seu lado, estão o filho, Carlos Augusto, e a neta Maria, de 31 anos, artista de teatro, encarregada de ler um manifesto.
Diante deles, um cartaz do Espaço Cultural Carlos Marighella reproduz alguns versos de “Rondó da Liberdade”, o poema dele mais conhecido:
O homem deve ser livre (…)
É preciso não ter medo
É preciso ter a coragem de dizer.
Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog
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03/11/2009 - 10:07
Atualização às 11:45
Caros leitores,
cheguei agora de um ato em homenagem a Carlos Mariguella pelos 40 anos de sua morte e viajo daqui a pouco para Porto Alegre, onde farei, à noite, a convite da Souza Cruz, uma palestra sobre “Liberdade de Escolha e de Expressão” para um grupo de jornalistas gaúchos. Volto na manhã de quinta. Por esta razão, não farei hoje a atualização do Balaio e a moderação de comentários. Até a volta.
Abraços,
Ricardo Kotscho
***
Para quem só anda de táxi em São Paulo, como eu faço, todo dia ouço dos motoristas sempre a mesma triste ladainha: “Esse trânsito não tem mais jeito. Um dia vai parar tudo, vai dar um nó geral, ninguém mais vai conseguir nem sair de casa. Nem Jesus Cristo dá mais jeito nisto. Eu não vejo a hora de largar esta vida e ir embora de São Paulo”. E por aí vai.
Com mil novos carros entrando a cada dia no já caótico trânsito de São Paulo, mais as obras que interditam ruas e viadutos, parece que as previsões apocalípticas dos nossos taxistas estão para se confirmar a qualquer momento.
De repente, quando tudo parecia perdido, somos surpreendidos por uma bela notícia dada pela Folha desta terça-feira na manchete do caderno “Cotidiano”: ” Após 12 anos, SP vai ter respiro´ no trânsito _ Pacote de obras a ser entregue em março, num gasto total de R$ 9,8 bi, deve melhorar circulação pela 1ª vez desde o início do rodízio”.
Chamado de “pacote de março”, mes em que o governador José Serra terá que deixar o cargo caso venha a ser candidato a presidente da República, o conjunto de intervenções urbanas promovido pelo governo do Estado e pela Prefeitura paulistana, foi bem definido por Bernardo Alvim, consultor em transportes, como “um choque de bem-estar”.
Já não era sem tempo. A última vez que o poder público fez alguma coisa parar melhorar de fato a vida de quem é obrigado a enfrentar o trânsito de São Paulo todos os dias foi a implantação do sistema de rodízio de carros conforme o final da placa, que retirou de circulação de 10 a 20% dos veículos nos horários de maior movimento.
Agora, como informa a Folha, São Paulo vai inaugurar de uma só vez o trecho sul do Rodoanel, novas pistas da marginal Tietê, a extensão da avenida Jacu-Pêssego, ligando a Dutra e a Ayrton Senna por fora da cidade, a primeira fase da linha-4 do metrô e a extensão da linha 2 até Vila Prudente, tudo isso permitindo o aumento das restrições à circulação de caminhões.
Segundo cálculos do secretário dos Transportes, Mauro Arce, estas obras vão permitir a retirada de metade dos cerca do um milhão de caminhões que passam por São Paulo mensalmente em direção ao porto de Santos, que agora poderão utilizar o Rodoanel.
Nunca entendi porque São Paulo, entre todas as grandes cidades do mundo que conheço, é a única onde os caminhões ainda circulam livremente por quase toda a área urbana, cruzando suas principais vias, principal razão para os constantes congestionamentos e a lentidão do trânsito a qualquer hora do dia, qualquer hora da semana.
Ainda de acordo com a Folha, ”as obras têm uma década de atraso” , mas isso agora não importa. Pelo menos por algum tempo, teremos um refresco. “Essas obras vão estancar a piora do trânsito. A coisa vai continuar ruim, mas não vai piorar mais”, prevê Jaime Waisman, professor da USP. Por enquanto, já serão um alívio para meus estressados amigos taxistas e seus passageiros idem. Basta ter um pouco de paciência até as obras ficarem prontas, depois do Carnaval.
Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog
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01/11/2009 - 11:30
Os assuntos mais comentados da última semana
Balaio
Viagem a Cuba: 421
Futebol: 84
João Pedro Stédile: 54
Folha
Lula: 75
Educação: 38
Violência: 34
Veja
Crime no Rio de Janeiro: 82
Tomadas e plugues no Brasil: 51
Paulo Renato Souza: 39
***

Alencar posa para foto ao lado de Noca da Portela / Foto: Marlene Araújo
BRASÍLIA _ “Lula, estou com um problema sério. Eu já tinha planejado tudo para morrer, até o cemitério, e agora, de uma semana para cá, vi que vou ter que replanejar tudo”, confidenciou o vice José Alencar durante a feijoada em que só a familia e alguns amigos da família Silva comemoraram, neste sábado, os 64 anos do presidente, na Granja do Torto, em Brasília.
Feliz da vida com os resultados dos últimos exames, que mostraram uma regressão dos tumores no intestino, José Alencar chegou animado à festa acompanhado da mulher, dona Mariza. A presença dele foi uma surpresa que a outra Marisa, mulher de Lula, preparou para o presidente, porque a festa oficial de aniversário, com os membros do governo, já tinha acontecido na terça-feira, no Alvorada.
Maior foi a surpresa do presidente Lula quando, já no final do almoço, meio brincando, meio falando sério, o vice-presidente revelou a ele seus planos para 2010:
“Diante dos últimos exames, meu nome está de novo à disposição. Só não posso ser candidato a vereador nem a prefeito porque no ano que vem não tem eleição municipal. Fora isso, posso ser candidato a qualquer cargo em 2010″.
Virando-se para as outras pessoas na mesa principal _ as respectivas mulheres, os médicos Roberto Kalil, Nana Miura e Cláudia Cozer, e o cantor e compositor Noca da Portela _ José Alencar falou dos seus novos planos:
“O Lula está me devendo… Eu tinha mais quatro anos no senado e saí para ser vice dele… agora ele tem que me apoiar para devolver estes quatro anos…”
Em outras palavras: o vice José Alencar está “colocando à disposição” o seu nome para disputar uma das duas vagas para o Senado por Minas Gerais. Comentário meu: do jeito que anda seu prestígio em todo o país, Alencar seria um dos poucos candidatos majoritários que não precisaria nem do apoio do presidente Lula para se eleger em 2010.
Na festa de Lula, a
estrela é Noca da Portela
Outra surpresa preparada para o presidente Lula por dona Marisa, que cuidou da feijoada, e pela nora Marlene Araújo, encarregada da “produção”, foi um show do velho sambista Noca da Portela, autor, entre outros grandes sucessos, nos seus 55 anos de carreira, do jingle “Estrela da Esperança”, que fez em parceria com Riko Dirolêo, para a campanha de 2002.
Aos 76 anos, mesma idade de José Alencar, ele contou que veio prestar uma homenagem ao presidente, “com cachê zero”, e já chegou entoando os versos iniciais da música:
Está em festa o meu país
Nossa gente está contente
O Brasil está feliz
Lula é o nosso presidente
Acompanhado de apenas quatro ritmistas (dois deles alunos do Pró-Uni) e do parceiro Toninho Nascimento, Noca da Portela cantou a tarde toda e, nos intervalos, contou passagens da sua vida desde que deixou a sua pequena Leopoldina, em Minas gerais, e foi para o Rio de Janeiro, com cinco anos.
Nascido Osvaldo Alves Pereira, Noca fez seu primeiro samba enredo, o “Grito do Ipiranga”, com apenas 14 anos, para a escola Irmãos Unidos do Catete. Em 1966, seria levado para a Portela por Paulinho da Viola e de lá nunca mais saiu.
A família era da roça em Minas, mas o pai, Ernesto Domingos Araújo, seu mestre, foi um importante violonista no Rio de Janeiro, embora nunca tenha gravado um disco. Sua casa era frequentada por Cartola, Noel Rosa, Chico Alves, entre outros grandes nomes da nossa música popular.
Antes de se tornar famoso e ganhar a vida como músico, Noca foi feirante de frutas e legumes, dos 18 aos 28 anos. Como o pai, também foi militante do Partido Comunista Brasileiro, o antigo Partidão. “Desde jovem, a política e a música sempre se misturaram na minha vida. Meu ídolo era o Luiz Carlos Prestes. Viajei o Brasil inteiro junto com o taiguara fazendo shows para o Partidão”.
Depois de participar de toda a Campanha das Diretas ao lado de Ulysses Guimarães, Tancredo, Brizola e Lula, no final dos anos 1980, ele ainda faria o jingle da campanha de Roberto Freire, o candidato do PCB a presidente da república. Logo em seguida, aproximou-se do PT.
“Eu quero ajudar o meu país. Quando o Partidão acabou, a maioria foi para o PT e, em 2002, fiz o jingle da primeira vitória do Lula. Esse Brasil do nosso Lula deu oportunidade para mostrarmos o nosso rosto, um rosto bonito. Antes a gente escondia o rosto de vergonha”.
Músicos e convidados tomaram chope e caipirinha, menos Lula, que está fazendo a dieta da proteína e só comeu as carnes da feijoada. Foi uma festa bem caseira. Milhares de outros Silva devem ter comemorado deste jeito, com samba, cachaça e feijão, os seus aniversários por todo o Brasil neste sábado. Quando a música parou, a lua cheia começou a aparecer no horizonte da Granja do Torto. Foi o penúltimo aniversário que Lula comemorou aqui.
Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog
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30/10/2009 - 16:17
“O MST não é capacho de ninguém”, proclamou Joâo Pedro Stédile, o eterno líder do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), ao final de uma hora de entrevista ao programa “3 a 1″, gravado na manhã desta sexta-feira, nos estúdios da TV Brasil, em São Paulo. E emendou: “Não é porque o Lula mandou votar na Dilma que nós temos que votar na Dilma”.
Stédile cobrou dos candidatos um projeto para o país porque, segundo ele, os movimentos sociais querem discutir propostas e não nomes antes de se posicionar em relação às eleições presidenciais de 2010.
No programa, que irá ao ar às 23 horas da próxima quarta-feira, Stédile falou dos pontos positivos e negativos do governo Lula, dos rumos do MST e dos últimos acontecimentos envolvendo o movimento. Reconheceu erros e pediu desculpas, mas atribuiu a “agentes infiltrados” os atos de depredação e violência na fazenda da Cutrale, chamou a burguesia nacional de idiota, defendeu a agricultura familiar e atacou o agronegócio, a direita ruralista e a CPI.
Quase trinta anos depois de fazer a primeira entrevista com ele na Encruzilhada Natalino, o berço do MST no interior do Rio Grande do Sul, reencontrei o mesmo Stédile indignado de sempre, defendendo as mesmas idéias com a mesma convicção, sem dar espaço para dúvidas ou incertezas.
Mais magro, ele deu boas risadas com as histórias contadas por Luis Carlos Azedo, o apresentador do programa, antes da gravação começar. Já no estúdio, fechou a cara, aumentou o tom de voz e emendou um discurso no outro. Mas negou que o MST tenha se transformado num movimento político e, olhando diretamente para a câmera, disparou: “O MST não é um partido!”.
Além de Azedo, participaram como entrevistadores a repórter Cátia Seabra, da Folha, e eu. Várias vezes, o líder do MST negou que o movimento tenha optado nos últimos tempos por uma estratégia de confronto, atribuindo os excessos ao desespero das famílias acampadas à espera de terra.
Stédile reconheceu que os movimentos sociais envelheceram e passam por um processo de esvaziamento, “não só no Brasil, mas no mundo inteiro”, por conta de uma transição entre o neoliberalismo e algo novo que ele ainda não sabe definir claramente o que é. “Em breve, penso que surgirão novos lideres, novos movimentos, novos partidos.”
Mas ele mesmo, única liderança do MST nacionalmente reconhecida desde a criação do movimento, embora se apresente apenas como “membro da coordenação”, não deu nenhum sinal de que pretenda se aposentar e passar o bastão tão cedo.
Perguntei-lhe em que momento se deu a guinada do MST, com a invasão de prédios públicos, ataques a laboratórios e destruição de lavouras, como aconteceu em Iaras. Para mim, este marco seria março de 2002, com a invasão da fazenda da família do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.
Stédile garante que foram agentes P-2 (serviço secreto da Polícia Militar) infiltrados no movimento que provocaram a invasão da fazenda de FHC e culpa a cobertura da imprensa pela repercussão negativa das ações que envolvem o MST.
O apresentador Azedo perguntou-lhe então por que o movimento não fazia uma denúncia formal ao Ministério da Justiça, cobrando investigações sobre a suposta ação de agentes infiltrados em diferentes episódios. Stédile ficou de pensar na idéia.
Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog
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29/10/2009 - 13:52
Na eletrizante reta final do Brasileirão, faltando apenas seis rodadas, ainda temos seis times na luta direta pelo título, algo inédito na fase de pontos corridos: São Paulo, Palmeiras, Atlético, Internacional, Cruzeiro e Flamengo estão na parada. Dois paulistas, dois mineiros, um carioca e um gaúcho, donos de imensas torcidas, vão decidir quem fica com o caneco.
Com a magra e sofrida, mas merecida vitória do São Paulo por 1 a 0 contra o Internacional, na noite desta quarta-feira, no Morumbi, chegou a nossa vez de ocupar o topo da tabela, onde o Palmeiras se aboletou desde o primeiro turno e parecia nunca mais querer sair.
Toda a imprensa destacou que o São Paulo pode ser líder por apenas uma noite, pois seus concorrentes diretos, Palmeiras e Atlético, só jogam hoje e, se vencerem, o que é mais provável, já que seus adversários são mais fracos, vão nos passar na tabela.
Não tem problema. Pode ser por uma noite somente, mas já está bom demais ir dormir como líder para quem esteve à beira da zona do rebaixamento na metade do primeiro turno, quando o São Paulo mandou Muricy embora e contratou Ricardo Gomes, em quem quase ninguém, nem eu, botava muita fé.
Com praticamente o mesmo elenco, sem fazer nenhuma grande contratação, ao contrário dos seus concorrentes diretos, o São Paulo do discreto Ricardo Gomes, o anti-Muricy, foi comendo pelas beiradas, andou marcando bobeira nas últimas rodadas, mas finalmente chegou lá.
Aconteça o que acontecer, estamos no jogo. Só não vale fazer como meu amigo Milton Neves, que pisou na bola em seu comentário de hoje. Já está ficando chato esse negócio de dizer que o São Paulo só ganha com a ajuda do juiz. Ontem, por exemplo, acho que Sandro Meira Ricci não teve nenhuma influência no resultado, e nem os jogadores do Inter reclamaram da sua atuação.
O time do São Paulo não é nenhuma maravilha, eu sei, seus jogadores parecem apenas funcionários aplicados, mas também qual é o grande time brasileiro do momento? Como não tem nenhum, qualquer um pode ser campeão. Até o meu São Paulo…
Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog
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27/10/2009 - 12:09
Assim que entrei no salão de desembarque do aeroporto José Marti em Havana, depois de umas doze horas de viagem entre aviões e conexões, logo senti que havia algo diferente no ar. Sim, era o cheiro de tabaco queimado, algo cada vez mais raro em São Paulo. Enquanto esperava a mala, vi várias pessoas fumando ali mesmo e me senti livre para acender um cigarro também. Ninguém me olhou feio.
No táxi, em qualquer área do hotel, nos restaurantes, em qualquer lugar o fumo é livre em Cuba. Pode parecer uma bobagem, algo politicamente incorreto, eu sei, mas me deu uma boa sensação de liberdade, depois de tanto tempo, não ser reprimido nem tratado como um pária, um ser nocivo à sociedade.
Até hoje, não há nenhuma indicação científica de que os cubanos estejam vivendo menos do que nós porque a maioria continua fumando em qualquer lugar. Ao contrário, a expectativa de vida lá é de 75 anos, maior do que a dos brasileiros.
Nem falei disso ontem na minha cronica de viagem sobre as 72 horas que passei em Havana na semana passada, para não despertar ainda mais a ira dos que parecem viver até hoje na Guerra Fria, vinte anos após a queda do Muro de Berlim. Pelos comentários enviados ao Balaio, percebi que basta falar em Cuba para que recomece o mesmo tiroteio verbal feito de velhos chavões, de um lado e de outro, que já dura meio século.
Só toco neste assunto hoje por causa de uma brincadeira que fizeram comigo na cerimonia de entrega do 31º Premio Vladimir Herzog, na noite de segunda-feira, no Tuca. Ao ser chamado parta falar na homenagem prestada ao Audálio Dantas, valente presidente do Sindicato dos Jornalistas na época do assassinato de Herzog, outro amigo, Sergio Gomes, demorou-se para subir ao palco.
Ao se desculpar pela mancada, explicou que estava fora do teatro fumando um cigarro comigo e me dedou em público ao governador José Serra, o líder da cruzada antitabagista, presente à cerimônia. Todo mundo achou graça, contaram-me os amigos, mas depois me vinguei do Serjão, brincando que, depois de velho, ele tinha virado dedo-duro _ justo ele, que foi preso junto com Herzog, porque alguém o dedou…
Brincadeiras à parte, esta questão da proibição radical do fumo em São Paulo é apenas um sinal do crescente sentimento de intolerância que tenho notado nas pessoas nos útimos tempos _ em todas as áreas da vida nacional, da política à religião, do futebol aos movimentos sociais. Aqui mesmo no Balaio uns agridem os outros simplesmente por pensarem de forma diferente, argumentos são logo trocados por ofensas.
Vários leitores me mandaram ir morar em Cuba e bateram pesado só porque contei as minhas impressões de viagem, como costumo fazer sempre que vou a outros lugares e relato aos leitores o que vi e ouvi. Não tem nada uma coisa a ver com outra.
Gostar do povo cubano e do seu país não quer dizer que eu defenda o regime político em que vivem, mas não sou eu quem vai dizer para eles o que está certo ou errado, quais são os caminhos que devem seguir. Problema deles. Como jornalista, jamais poderia viver em Cuba porque lá só existe uma indigente imprensa oficial e eu prezo muito a minha liberdade.
Para mim, o melhor lugar do mundo para se viver é o Brasil, mas muitos leitores não pensam assim. Também é problema deles. Só peço que neste espaço todos procurem respeitar mais a opinião alheia, não só a minha, mas as dos demais leitores. Ao contrário de outros blogs, vocês sabem, aqui não excluo quem pensa diferente, mas apenas os que confudem liberdade de expressão com baixaria e preconceito.
Para que ninguém me entenda mal, quero dizer também que, apesar de fumante, aprovo as restrições ao cigarro em determinados locais, respeito o direito de quem não fuma, e acharia ótimo se pudesse largar esta porcaria, mas não concordo com os exageros. Minhas filhas e netos, graças a Deus, não fumam. Por isso, respeito a proibição da família para não fumar dentro de casa.
Só acho uma violência, um caso típico de intolerância e autoritarismo, proibir que se fume até em charutarias e tabacarias, e em varandas de bares e restaurantes onde há lugares reservados para não fumantes.
Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog
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26/10/2009 - 14:39
LA HABANA, CUBA _ Elas vão e voltam em seu passeio noturno, caminhando devagar e proseando pela rua. Com suas roupas coloridas, chamam a atenção dos turistas, mas parecem flanar em outro mundo, um mundo só delas. São duas senhoras mais ou menos sexagenárias, negras robustas como os enormes charutos de quase meio metro que fumam com prazer. Parecem felizes.
Quase nove da noite de sexta-feira, nossa última em Havana antes da viagem de volta, ainda se sente um calor gostoso, a brisa morna soprando do mar do Caribe. Cada um do nosso grupo de amigos foi para um lado diferente e agora caminho só com minha mulher, a Mara, pelas ruas estreitas e precariamente iluminadas do velho centro de Havana (o país vive mais um racionamento de energia), que foi declarado Patrimonio da Humanidade pela Unesco, e está sendo totalmente restaurado. Mal comparando, aqui é uma espécie de Pelourinho ou Ouro Preto deles.
Boa hora para entrar num bar e tomar um mojito, a bebida típica feita de rum, suco de limão, açucar, água gasosa e ramos de hortelã (pelo tanto que consomem, devem ser grandes as plantações da “hierba buena”, como a chamam por aqui), ouvindo ao vivo um conjunto de música caribenha, claro.
Passamos a tarde percorrendo cada viela, beco e praça, entrando nos prédios históricos _ tudo por aqui tem muita história _ em companhia de Eusebio Leal, 64 anos, historiador, arqueólogo e arquiteto “honoris causa” pela Universidade de Urbanismo de Ferrara, na Itália, a mais antiga do mundo.
Não poderíamos ter arrumado um guia melhor _ para não apenas ver, mas também conhecer e entender o que se passou por aqui, desde as longas e variadas lutas do povo cubano pela independência. Eusebio é uma espécie de “prefeito” desta parte de Havana, apaixonado pelo seu trabalho.
Quando lhe perguntei desde que idade se dedica a este ofício, responde com um sorriso: “Desde a vida toda…”. Mais exatamente, desde 1967, quando iniciou a restauração do antigo Palácio do Governo. A partir de 1993, com a criação da Oficina Del Historiador de La Ciudad, um orgão autônomo não estatal que ele comanda à frente de 10 mil colaboradores, entre eles 200 arquitetos, Eusebio Leal é uma espécie de prefeito plenipotenciário da La Habana Vieja.
Além das antigas moradias, ele já restaurou e administra 16 hotéis e mais de 70 comércios, entre lojas, bares e restaurantes, preocupado não só em resgatar o passado, mas em cuidar da rede de proteção social criada para os 74 mil habitantes espalhados por seus 4,9 quilômetros quadrados.
Outras 102 obras de restauração estão em curso e 40 delas devem ser entregues até o final do ano. O mais impressionante de tudo é uma monumental maquete montada com todas as edificações e vias da antiga cidade, que levou seis anos para ser concluída e onde cada um pode localizar o local onde morou.
É uma figura, este Eusebio, que parece conhecer pessoalmente cada morador da sua jurisdição como os velhos párocos do nosso interior. Ao passar pelas ruas _ algumas ainda calçadas com tacos de madeira _, é parado a todo momento por moradores que querem lhe contar alguma coisa, tirar uma foto, agradecer algum benefício recebido.
As duas senhoras charuteiras e o historiador Eusebio, além da sensação de segurança e tranquilidade que me deu andar por suas ruas, foram as imagens que mais me marcaram nesta viagem, a sexta ou sétima que faço à ilha, nem me lembro mais quantas foram.
Mas acho melhor contar como foi desde a chegada esta viagem de apenas 72 horas, no ano em que a Revolução Cubana comemorou 50 anos. Bastou contar aqui na semana passada que eu iria fazer esta viagem, justificando minha ausência por alguns dias no Balaio, para que os leitores já se dividessem entre os que defendem e os que condenam radicalmente o regime cubano, dando início ao Fla-Flu ideológico que até hoje provoca reações de amor e ódio em todo o mundo.
A uns e outros já deixo claro que não fui lá para trabalhar, mas apenas passear a convite de amigos. De qualquer forma, seria leviano fazer qualquer julgamento ou previsão sobre um país em tão curto espaço de tempo. Vou relatar apenas o que vi e ouvi. Cada um que tire suas próprias conclusões. Na verdade, para entender melhor Cuba, nada melhor do que ir lá e ver com seus próprios olhos para tirar suas próprias conclusões.
Hotel Nacional e La Floridita
Para chegar a Havana, não há mais vôos diretos do Brasil. Pela Copa Airlanes, uma empresa panamenha controlada pela americana Continental, dá um total de nove horas de vôo, com uma conexão em Panamá City. Em 1981, quando viajei para lá pela primeira vez, era bem mais complicado. O Brasil ainda não mantinha relações diplomáticas com Cuba. Viagens para a ilha eram oficialmente proibidas, como estava expresso no nosso passaporte.
Por isso, daquela tivemos que ir primeiro a Lima, no Peru, para pegar um visto avulso na embaixada cubana e só chegamos a Havana dois dias depois. Mudou o Brasil, mudaram Cuba e o mundo e, desta vez, encontrei muitos turistas brasileiros por lá, misturados a outros milhares do mundo todo, um cenário bem diferente de quase três décadas atrás.
Meio século após a revolução liderada por Fidel Castro, o turismo voltou a ser a maior fonte de receita de Cuba, depois que o preço do níquel, seu principal produto de exportação, caiu no mercado mundial. Percebe-se isso logo na chegada ao novo aeroporto Jose Marti, enfeitado com as bandeiras de quase todos os países do mundo, agora com um movimento muito maior de aviões e passageiros.
Na meia hora de viagem até o Hotel Nacional, trafegando numa moderna van por avenidas largas, limpas e bem arborizadas, sem congestionamentos ou motoristas estressados, nota-se que o antigo e o moderno agora convivem lado a lado como em qualquer cidade turística que tem na sua história o principal chamariz.
Os velhos “guaguas” caindo aos pedaços, foram substituídos por ônibus novos. Há cada vez menos carrões americanos pré-revolucionários e os soviéticos Ladas, dando espaço para carros contemporâneos de todas as marcas e procedências. Tem até táxi Mercedes.
A grande diferença em relação às paisagens que conhecemos está nos cartazes de propaganda, que se mantém imutáveis: em lugar de produtos de consumo, apenas anúncios de apelos patrióticos, denúncias contra o bloqueio americano e homenagens aos revolucionários. Além destas palavras de ordem, monumentos, palácios e estátuas espalhados por toda parte lembram a todo momento que estamos em Cuba e revivem os acontecimentos históricos de 50 anos atrás.
Fora isso, a vida segue normalmente, sem sobressaltos, veículos militares nas ruas, homens armados, nada que lembre um país em revolução permanente por tanto tempo. Também não se vê menores abandonados, famílias debaixo de pontes, sinais de pobreza extrema.
Uma boa surpresa foi encontrar completamente restaurado o Hotel Nacional, que recentemente completou 80 anos. Me fez lembrar o nosso Copacabana Palace, por sua imponência e amplitude das instalações à beira mar, o luxo antigo na decoração e a quantidade de bares e restaurantes para os hóspedes.
Em relação às viagens anteriores, o serviço e a oferta de produtos melhoraram consideravelmente, outro sinal da importância que se voltou a dar ao turismo. Em lugar de burocratas estatais formados na rigidez soviética, agora o atendimento na área de serviços é mais gentil, às vezes até bem humorado, sem ser subserviente.
Tem certos programas que não são nada originais, mas quase obrigatórios, onde dá vontade de voltar sempre que se vai a uma cidade. É o caso do La Floridita, mais conhecido como o “bar do do Hemingway”, o grande escritor americano que viveu seis anos em Cuba e lá escreveu parte de sua obra, além de ter inspirado o daiquiri, um aperitivo também preparado com rum, limão, açucar e gelo picado.
Fomos lá logo na primeira noite. Continua tudo igual, mas melhor servido, embora sempre lotado, com conjuntos musicais se revezando a noite toda para a festa dos turistas. Caminha-se pelas ruas até tarde da noite como em Buenos Aires. Grandes grupos de jovens e de turistas na mesma hora lotam o calçadão junto à amurada do Malecon, onde o mar bate com força e às vezes molha todo mundo.
Vale a pena também visitar a feira de artesanato, com roupas e objetos típicos, os antiquários, os muitos sebos espalhados pela cidade e a fábrica dos famosos charutos Cohiba, onde se pode acompanhar todo o processo de produção artesanal. Como ninguém é de ferro, sempre é bom reservar uma parte do dia para ir à praia. Se o tempo disponível é pouco, melhor ir a Santa Maria, que fica a apenas 27 quilômetros de Havana, tem quiosques de comes e bebes na areia e um maravilhoso mar de águas limpas e tépidas, mescladas de azul e verde.
Alarcon,Acosta,Morais
Tão importante quanto voltar aos lugares que conhecemos e gostamos é reencontrar os amigos para saber como andam as coisas.
Foi o que aonteceu num longo jantar no El Templete, bem em frente ao porto de Havana, encimado por uma grande imagem do Sagrado Coração de Jesus, onde encontramos os amigos Ricardo Alarcón de Quesada, presidente da Assembléia Nacional do Poder Popular (o Congresso Nacional deles), 67 anos, hoje o segundo homem na hierarquia do poder, e Homero Acosta, 45 anos, Secretário do Conselho de Estado, espécie de Gilberto Carvalho de Raul Castro, um advogado apaixonado por música popular brasileira.
No meio do jantar, ainda apareceu nosso velho amigo Fernando Morais, autor de “A Ilha”, que está em Havana fazendo pesquisas para um livro sobre os cinco cubanos presos nos Estados Unidos desde 1998, acusados de espionagem pela Justiça americana, dois deles condenados a duas prisões perpétuas (teriam que nascer de novo para cumprí-las).
Cada vez que vou a Cuba, encontro situações diferentes, sempre carregadas de dificuldades mais ou menos permanentes e muitas esperanças no futuro. As maiores dificuldades continuam localizadas nas áreas de energia (80% do petróleo vem da Venezuela), habitação e abastecimento (80% dos alimentos são importados), agravadas pelos três furacões que varreram a ilha em setembro do ano passado, causaram prejuízos de 10 bilhões de dólares e destruíram dezenas de milhares de moradias.
E o futuro? Quando pergunto a Alarcon, um advogado de 67 anos, de fala mansa e didática, fisicamente parecido com dom Pedro Casaldáliga, como imagina a vida dele e a de Cuba daqui a dez anos, ele abre os braços e um sorriso, como quem diz: “Se eu soubesse…”.
Apesar da abertura muito lenta, gradual e segura que se opera hoje em Cuba, como foi no Brasil de Geisel no período final do regime militar, dá para notar que os controles internos já não são tão rígidos, mas ninguém pode imaginar como será a vida em Cuba no período pós-Castro (Fidel, com 83, está doente e fora de combate há dois anos, e seu irmão e sucessor Raul já completou 78) e, principalmente, após o fim do bloqueio americano.
Em Cuba, todos sentem que estão vivendo o final de uma era, sabem que algo está para mudar, mas ninguém arrisca prever o que virá depois, nem quando isso acontecerá. Uma coisa é certa: os cubanos, quem diria, botam muita fé no presidente americano Barack Obama e sabem que até o final do seu governo o bloqueio deverá ser levantado. É apenas uma questão de tempo, de paciência.
Obama tem muitos problemas para resolver ao mesmo tempo no mundo inteiro, sem falar nos seus embates internos. “Para nós, os Estados Unidos sempre tiveram uma grande importância, mas para os Estados Unidos sei que nós representamos hoje uma questão menor, menos urgente”, conforma-se Alarcon, que sempre procura situar as mudanças em seu país no contexto das profundas modificações que podem acontecer no mundo nos próximos anos.
Por tudo isso, os cubanos temem pela segurança de Obama _ na visão deles, hoje mais ameaçada do que já foi a do próprio Fidel Castro. Ao mesmo tempo, sabem que o levantamento do embargo/bloqueio não representará
o fim de um dia para outro todos os problemas sociais e econômicos enfrentados pelos cubanos hoje.
Ao contrário, pode ser apenas o começo de outros problemas. No dia em que os norte-americanos puderem todos viajar livremente para Cuba _ hoje é proibido por lei nos Estados Unidos, a não ser em casos excepcionais _ como a pequena ilha suportará a invasão de turistas?
Por quanto tempo resistirão a restaurada Habana Vieja de Eusebio Leal, a limpeza das águas do Caribe, a convivência serena entre nativos e forasteiros tomando a fresca no Malecon? E, na direção inversa, quantos jovens cubanos poderão optar por viver nos Estados Unidos ou em qualquer outro país e não mais voltar?
Em tempo:
No sábado, dia 24, Frei Betto foi recebido para almoço por Raul Castro. Falaram dos impasses da Revolução Cubana, como a existência de duas moedas e os subsídios estatais à alimentação.
Raul Castro revelou que o governo pensa em aumentar os salários e reduzir tais subsídios, pois muitas famílias recebem cesta básica mensal sem dela necessitarem.
No final da tarde do mesmo dia, Fidel Castro recebeu Frei Betto em sua residência, uma casa de dois andares, em estilo californiano dos anos 50. Segundo Betto, conversaram sobre “os governos democrático-populares da América Latina, a importância dos meios de comunicação na formação cidadã das novas gerações e a questão da ética do poder”, tema do seu livro “A Mosca Azul”.
As mais comentadas da semana
Em razão da minha viagem, deixei de publicar ontem a relação das matérias mais comentadas da semana no Balaio, na Folha e na Veja, como faço desde a estréia do blog. Pelo mesmo motivo, o Balaio só destaca hoje duas matérias esta semana. Ver abaixo:
Balaio
O Caso Rubinho: 320
O Rio e o inglês do COI: 313
Folha
Lula: 122
Violência no Rio: 108
Educação/professores: 31
Veja
Albert Einstein: 17
Pressão do governo contra a Vale: 16
Lya Luft: 15
Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog
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20/10/2009 - 13:47
Os trágicos acontecimentos da chamada “Guerra do Rio” no último fim de semana, em que um helicóptero da polícia foi abatido por traficantes, deixando um rastro de mortos e feridos, fez a festa da urubuzada que estava só esperando a primeira chance para sair da toca gritando: “Tá vendo? Não avisei? Olha aí o Rio que vai sediar a Olimpíada! É o fim do mundo!”
Como se fosse possível, de uma hora para outra, só porque o Rio foi eleito faz duas semanas para receber as Olimpíadas de 2016, restabelecer a paz e acabar com o poder bélico da bandidagem na eterna luta da polícia contra o crime organizado movido a tráfico de drogas e de armas nas mais de mil favelas cariocas.
Para a turma do quanto pior, pior mesmo, tanto melhor, deve ter sido uma tristeza ler a manchete da página 15 de O Globo desta terça-feira: “Membro do COI diz que episódio é insignificante”. Se eu escrevesse uma coisa dessas, seria logo chamado de nacionalista imbecil, daí para cima.
Logo abaixo do título, o dirigente inglês Craig Reedie, membro do Comitê Olímpico Internacional (COI) explica sua afirmação: ele lembrou que em Londres, um dia após a escolha para os Jogos de 2012, atentados terroristas mataram 52 pessoas.
Em entrevista ao jornal “The Independent”, Reedie lamenta o ocorrido no Rio, mas afirma que o fato era “insignificante, comparado ao que aconteceu em Londres, em 2005″.
O texto de O Globo lembra: “Em 7 de julho daquele ano, logo depois da escolha da cidade para sediar as Olimpíadas de 2012, quatro homens-bomba causaram explosões em trens, metrô e ônibus, deixando 52 pessoas mortas e cerca de 700 feridas”.
Nem por isso, que me lembre, jornalistas ingleses sairam por aí afirmando que Londres não tinha condições de segurança para abrigar uma Olimpíada.
Nós ainda temos seis anos pela frente para que os poderes públicos reassumam o controle das áreas hoje controladas por traficantes e milícias.
Sempre podemos olhar as coisas por dois lados.
A visão otimista é acreditar que o Rio tem nas responsabilidades assumidas diante do COI pelos governos federal, estadual e municipal a grande chance de ganhar esta guerra e criar as condições para viver melhor e em paz após a Olimpíada.
A dos pessimistas, é ficar repetindo daqui até 2016, a cada novo episódio de violência, que é o fim do mundo, que vai ser um vexame, que nós brasileiros não temos condições de garantir a segurança de quem vier ao Rio para competir ou assistir aos Jogos Olímpicos.
Cada um que escolha a sua. A minha é a primeira.
Em tempo:
Viajo na madrugada desta quarta-feira para Havana e só volto no domingo. Vou a passeio, a convite de um velho amigo que vai comemorar lá seu aniversário de 75 anos (não, não é o Frei Betto…).
Nos mares do Caribe, onde costuma fazer sol e calor o ano inteiro, espero me curar de uma gripe cavalar que não me larga faz mais de uma semana. Não vou levar celular nem laptop porque estava precisando mesmo de uns dias de folga. Por isso, atualização do blog e moderação de comentários vão ficar para quando eu voltar para casa.
Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog
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