2010 novembro | Balaio do Kotscho
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Arquivo de novembro, 2010

29/11/2010 - 11:29

Muricy na decisão: vitória do caráter

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No futebol, tem gente que é campeão por sorte e outros que deixam de ser por azar. Não é o caso dele. Pelo sexto ano consecutivo,  mostrando que não depende de sorte nem de azar, o técnico Muricy Ramalho chega à rodada decisiva do Brasileirão em condições de levar o  time treinado por ele ao título.

Até agora, ele conquistou o tri com o São Paulo (2006-7-8),  e perdeu com o Internacional (naquele campeonato polêmico de 2005, vencido pelo Corinthians, com jogos anulados por causa do juiz ladrão) e o Palmeiras, no ano passado.

No caso de Muricy, qualquer que seja o resultado de domingo, além do reconhecido talento e da capacidade de trabalho do treinador, esta será a vitória do sujeito de caráter sobre a malandragem que impera no nosso futebol.

No ano em que São Paulo e Palmeiras entregaram jogos para se vingar do Corinthians, que fez a mesma coisa no ano passado, contra o Flamengo, Muricy teve a coragem de recusar o convite da CBF para assumir o comando da seleção brasileira e cumprir até o final seu contrato com o Fluminense _ algo inédito na cultura do leve vantagem em tudo. Por ironia do destino, o beneficiário do vexame de São Paulo e Palmeiras foi o Fluminense e, o grande prejudicado, o Corinthians. 

Se vencer e levantar o caneco de 2010, o que é o mais provável, pois o seu Fluminense vai pegar o já rebaixado Guarani jogando em casa, Muricy será tetracampeão brasileiro e terá todos os motivos do mundo para dar uma banana aos seus críticos, na imprensa e nos clubes, a começar pelos diretores do São Paulo que nunca se conformaram por não poder mandar no time enquanto ele era o treinador.

Feliz da vida nos vestiários depois do jogo de domingo, cansado de ver seu time perder um caminhão de gols até chegar à vitória, Muricy foi humilde ao falar do momento que está vivendo:

“Não pensei que estaríamos nesta situação. Temos que ser realistas. Há três anos esta equipe luta para não cair. Não sou exemplo para ninguém, a não ser para meus filhos, mas ninguém segura ninguém no futebol”.

Num campeonato brasileiro que não mostrou nenhum grande time e nenhum grande jogador, o grande destaque ficou fora do campo.

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
27/11/2010 - 18:27

Cutait dá a Lula boa notícia de Alencar

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Uma das poucas coisas boas de ficar velho como repórter é conhecer muita gente boa e estar no lugar certo na hora certa. Tem que ter sorte, também, é claro. Foi só por isso que pude testemunhar, agora há pouco, no bar do Beto Ranieri, ao lado da minha casa, o telefonema do médico Raul Cutait ao presidente Lula para contar que deu tudo certo na cirurgia que ele tinha acabado de fazer no seu grande amigo, o vice- presidente José Alencar. 

Cutait estava ao lado dos dois numa recente visita de Lula a Alencar, em mais uma das muitas internações hospitalares do vice no Sírio-Libanês, quando o presidente pegou na sua mão e lhe prometeu que os dois iriam descer juntos a rampa do Palácio do Planalto, na cerimonia de transmissão do cargo,  no dia 1º de janeiro. “Subi a rampa com o Lula e vou descer com ele!”, passou a me garantir Alencar, ao falar do seu estado de ânimo, quando o visitava no hospital.

Qualquer um de nós pode imaginar a imensa responsabilidade de ter em mãos a vida de um homem que hoje é a grande unanimidade nacional, por seu exemplo de força e superação, ao ser submetido agora, sempre sorrindo e sem reclamar da vida,  à sua 16 ª cirurgia, mais uma ao longo do interminável tratamento de um câncer intestinal. Por isso mesmo, é mais do que justo que o amigo Raul Cutait, médico dos bons e gente boa, saísse do hospital direto para encontrar os amigos no bar.  

Fico muito feliz por poder ser amigo, a esta altura da vida, do Raul Cutait, do José Alencar e do Lula, e ter a certeza de que tudo vale a pena, quando a gente faz o que gosta, sabe o que faz e ainda por cima pode fazer bem aos outros. Vida que segue.

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
27/11/2010 - 10:25

O final feliz do drama de Gabriel

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Acabei de ler agora no site do Estadão, no meio da manhã deste sábado, uma incrível história humana que se situa entre os extremos da vida e da morte e nos faz pensar nos desígnios do destino determinado por alguma entidade superior para cada um de nós.

“Recém-nascido é encontrado dentro de bolsa na região de Higienópolis _ Segundo a equipe médica, no momento em que foi encontrado, ele tinha no máximo 4 horas de nascimento”, diz a notícia do repórter Ricardo Valota, do estadão.com.br.

Algúem que passava pela calçada da rua Piauí, perto da praça Buenos Aires, ouviu o choro de uma criança, avisou a polícia e o bebê foi levado rapidamente para o Instituto da Criança do Hospital das Clínicas, onde seria salvo pelos médicos, que o batizaram de Gabriel.

Ficamos sabendo que o bebê  passa bem; a PM fez buscas pela região para encontrar a mãe do menino, mas não a encontrou, e o caso foi registrado no distrito policial do bairro.

Drama, milagre, miséria, abandono, final feliz: em apenas quatro horas, o destino do pequeno Gabriel já teve quase todos os ingredientes dramáticos de uma vida inteira e deixa no seu rastro muitas indagações sobre a sua origem e o seu futuro.

Quem serão os pais desta criança? Onde e como vivem? Onde e como o bebê nasceu? O que leva uma mulher a abandonar o filho logo após o seu nascimento? E se não passasse ninguem pela calçada àquela hora, no começo da madrugada de sábado?  

O nome bíblico dado ao recém-nascido me fez lembrar que, durante toda esta semana, travou-se aqui no Balaio um longo e acalorado debate entre leitores comentando os textos que escrevi sobre a permissão dada pelo papa Bento 16 para que os católicos possam usar preservativos, mas só nas relações sexuais com prostitutas.

Nos mais de 1.100 comentários publicados, leitores de todas as religiões, ateus e agnósticos discutiram de tudo, do papel da religião nos dias de hoje às dúvidas que permanecem sobre as origens da nossa existência e os destinos da humanidade, deixando no ar mais perguntas do que respostas e apenas uma certeza para mim: cada vez mais, não tenho certeza de nada e aumentam as minhas dúvidas sobre todas as coisas.

Quando vejo um caso como este do pequeno Gabriel, e não consigo entender o que foi que aconteceu, aumenta minha perplexidade diante do mundo em que vivemos e do que estamos fazendo dele. Confesso que uma história dessas me choca mais do que a guerra contra a bandidagem nas ruas do Rio.

Em tempo:

ainda bem que existe esta interação com os leitores aqui no blog para a gente nunca perder as esperanças.

Leiam só esta mensagem enviada pelo leitor Janos, às 12h59, que está publicada na área de comentários:

“Tenho quatro filhos, e estou com 77 anos, mas assiom caso não tiver alguém para adotar este menino, Gabriel, eu aceito com o máximo prazer ficar comigo para a alegria dos demais filhos e eu! Por favor Deus!!!!, que tenham piedade destes abandonados”.

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
26/11/2010 - 11:37

José Alencar fará nova cirurgia sábado cedo

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Atualizado às 15h40 de 27.7

Para tranquilizar os leitores e amigos do vice-presidente José Alencar, posso garantir que correu tudo bem na nova cirurgia que começou hoje cedo e só terminou às 14 horas. Falei agora há pouco com seu assessor e meu amigo Adriano Silva, que deu boas notícias. Alencar está na UTI e os médicos se mostram otimistas com a sua recuperação.

Atualizado às 14h20 de 26.7

O vice-presidente da República, José Alencar, acaba de ser internado outra vez no final da manhã desta sexta-feira no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. Seu quadro de saúde indicou a necessidade de uma nova cirurgia no intestino, que foi marcada, agora há pouco, para as 8 horas da manhã deste sábado. Esta é a 16ª cirurgia de Alencar nos últimos 12 anos, em consequência de um câncer na região abdominal. Até a semana passada, após 24 dias de internação causada por uma obstrução intestinal, a família era contrária a uma nova cirurgia.

Em tempo, às 16h35:

Internado desde a última terça-feira, informação que eu não tinha e só soube agora, o vice-presidente José Alencar, na verdade, foi informado na manhã de hoje que será submetido a nova cirurgia amanhã de manhã. Peço desculpas aos leitores e editores do iG, mas são tantas as internações e cirurgias que eu me confundi.  As últimas informações que recebi do hospital, agora à tarde, dão conta de que Alencar está de bom astral, conformado com a necessidade de fazer uma nova cirurgia, e muito confiante. Boa sorte, amigo.

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
26/11/2010 - 09:36

Imprensa e governo: o papel de cada um

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Quando ocupava a sala da Secretaria de Imprensa, no Palácio do Planalto, onde hoje trabalha meu amigo Franklin Martins, no início do primeiro mandato do presidente Lula, costumava dizer aos amigos, meio brincando, meio a sério, que só tinha dois problemas ali: o governo e a imprensa, um reclamando o tempo todo do outro.  

Desde o primeiro dia, ficou claro para mim que é muito difícil conciliar os interesses destas duas instituições de naturezas, tempos e interesses tão diversos. Instalado do outro lado do balcão, assisti à gincana promovida pelos meus colegas repórteres em busca de notícias negativas sobre o governo, certamente uma demanda de suas redações, que simplesmente  não assimilaram e não se conformaram com a vitória de Lula e a mudança de mãos do poder, depois de mais de 500 anos.

A competição entre os profissionais que fazem a cobertura do Palácio do Planalto, por vezes pertencentes à mesma empresa, é feroz, implacável, ainda mais com a proliferação naquela época, começo de 2003, do jornalismo online e dos canais e emissoras de notícias, que a todo momento precisavam entrar no ar ao vivo, de preferência com alguma novidade.  

Lembrei-me daqueles primeiros tempos de Brasília enquanto ouvia o ministro Franklin Martins, que na época era o homem mais importante do jornalismo da TV Globo em Brasília, na abertura do Seminário sobre Liberdade de Imprensa, em boa hora promovido pela TV Cultura, na manhã de quinta-feira, em São Paulo.

Um a um, Franklin foi espantando os fantasmas acenados pelos donos da mídia para assustar a platéia toda vez que alguém procura discutir qualquer medida de regulação dos meios de comunicação social, até hoje regidos por uma legislação dos anos 60 do século passado, quando ainda não existia nem TV a cores, e celular, internet, essas coisas todas então, então, nem pensar. O ministro lembrou que sequer o capítulo da Constituição de 1988 referente à Comunicação Social foi até hoje regulamentado.

Depois de defender a refundação do Ministério das Comunicações para transformá-lo num centro formulador de políticas e descartar uma por uma todas as “ameaças” à liberdade de imprensa no país, garantindo que ela não corre nenhum risco, Martins defendeu um debate com a sociedade sobre um marco regulatório para o setor, até para defender a radiodifusão brasileira diante do vertiginoso crescimento das empresas de telecomunicações no país. Acontece que a mídia brasileira se recusa a discutir a mídia.  

Nenhum representante patronal estava presente ao seminário, como constantei na breve fala que fiz em seguida, durante a mesa de debate da qual participei, com a moderação da jornalista Monica Teixeira, junto com Sergio Dávila, editor-executivo da Folha, e do professor Demétrio Magnoli. É difícil e seria até meio redundante falar depois de Franklin Martins porque ele é um jornalista apaixonado pela profissão como eu e que se sabe se expressar muito bem, ao contrário deste que vos escreve.

Em todo caso, já que estava lá mesmo, li o meu “improviso”, que reproduzo abaixo, mostrando as dificuldades no relacionamento entre imprensa e governo, que seria bem melhor cada um se limitasse a cumprir o seu papel sem transformar as divergências, que são naturais, numa guerra permanente.

Liberdade de imprensa para quem? 

 Sempre que se discute liberdade de imprensa _ e nunca se discutiu tanto como agora _ faço uma pergunta. Em primeiro lugar, precisamos saber de qual liberdade de imprensa estamos falando. Liberdade de imprensa para quem?

  • Diante do espanto da platéia, iniciei com esta pergunta a palestra que fiz em seminário promovido pela ANJ, a Associação Nacional de Jornais, entidade patronal da mídia impressa, faz uns dois ou três anos, em Brasília.
  • Não se trata de garantir liberdade apenas para a imprensa, quer dizer, para as empresas e para os jornalistas.
  • Quando se fala em liberdade de imprensa devemos falar, em primeiro lugar, na liberdade de imprensa como um direito que a sociedade tem à informação, assim como à água encanada e à energia elétrica. 
  • Aí cabe perguntar novamente: que tipo de informação, com que grau de qualidade, credibilidade e honestidade?
  • A melhor resposta para esta questão crucial da liberdade de imprensa e de expressão está num estudo apresentado recentemente pela consultora Eve Salomon, da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura, a Unesco.
  • Salomon estudou, coisa que poucos entre nós costumam fazer, a situação do sistema de radiodifusão brasileira, ao longo de um ano, com o objetivo de propor diretrizes para uma nova regulação de mídia. A que está em vigor data dos anos 60 do século passado.
  • Em entrevista a Lisandra Paraguassu, do Estadão, a consultora afirma: “Regular não é censurar, e as diferentes visões políticas precisam ser protegidas”.
  • Com toda clareza, Salomon responde à pergunta que fiz acima. Abre aspas: “A regulação, quando feita da maneira correta, é uma maneira de proteger a liberdade de expressão”, fecha aspas, diz ela, ao contrário do que temem os porta-vozes da velha mídia.
  • Abre aspas novamente: “Isso não é apenas para garantir o direito de dizer o que você quer, mas também o direito dos cidadãos de receber o que eles precisam para operar em uma democracia. É preciso respeitar a privacidade das pessoas, não transmitir mensagens de ódio, é preciso respeitar as crianças e garantir que as notícias sejam acuradas. Esses são os princípios básicos que estamos propondo para o Brasil, nada mais”, fecha aspas.
  • Nem precisaria de mais nada, acrescento eu. Acontece que nós vivemos num país em que os donos da mídia simplesmente se recusam a discutir qualquer regulação, qualquer marco regulatório. Não admitem sequer discutir a autorregulamentação proposta pela ANJ, algo que já existe no setor de publicidade há mais de 30 anos. Não aceitam, simplesmente, qualquer regra ou limite para a sua atividade. Neste seminário, por exemplo, não há nenhum representante dos proprietários dos meios de comunicação.
  • Toda vez que se tenta discutir as regras do jogo da comunicação social em defesa dos direitos de informação da sociedade, as entidades patronais e seus colunistas de estimação, saem logo gritando: “Fogo na floresta! Isto é censura! É o controle social da mídia! Querem acabar com a liberdade de imprensa!”.
  • Desde a posse do presidente Lula, há quase oito anos, ouço esta mesma ladainha, e eu faço outra pergunta a vocês: qual foi a iniciativa concreta implantada pelo governo federal para cercear a liberdade de imprensa neste período?
  • Bastaria pegar agora qualquer jornal ou revista, abrir os blogs, sintonizar qualquer emissora de rádio ou televisão, para ver que a imprensa tem a mais absoluta liberdade de expressão _ e até abusa dela frequentemente, com informações muitas vezes erradas, manipuladas e incompletas, sem falar em graves ofensas pessoais ao presidente da República. 
  • Sempre que afirmo isto, tem alguém na platéia que levanta o braço para contestar. E a censura ao Estadão? E a expulsão do Larry Rother? Então, já vou logo respondendo: a censura no Estadão não tem nada a ver com o governo federal. É um absurdo, uma aberração, eu também acho. Mas é uma decisão do Judiciário, envolvendo um processo que corria em segredo de Justiça. Daí a dizer que, por causa disso, existe censura à imprensa no Brasil é uma aberração maior ainda.
  • Quanto ao tal do Larry Rother, houve inicialmente um grave erro do governo, sim, mas que, graças a Deus e ao Márcio Thomás Bastos, com a minha ajuda, não se concretizou.
  • O resto fica no campo dos medos, das ameaças e dos fantasmas que ressurgem toda vez que o assunto entra em pauta.
  • Para ganhar tempo e dar mais espaço ao debate com vocês, já vou logo respondendo também à questão levantada pelo tema da palestra de amanhã (hoje, sexta-feira) com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.
  • “A liberdade de imprensa corre risco no Brasil?”.
  • Não, a meu ver a liberdade de imprensa não corre nenhum risco no Brasil neste momento e até onde a minha vista alcança.
  • A sociedade brasileira, sim, corre sérios riscos de não ser informada corretamente quando a sua grande imprensa assume o papel de partido de oposição, como admitiu publicamente a presidente da ANJ, Judith Brito,  e demite os colaboradores que não seguem o pensamento único dos seus donos.
  • Partido é partido, imprensa é imprensa e governo é governo. Assim como a imprensa não deve tomar  partido, também não é papel do governo ser ombudsman da imprensa. A jovem democracia brasileira agradeceria se cada instituição se limitar a cumprir o papel que lhe cabe.

Ricardo Kotscho

24.10.2010

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
24/11/2010 - 11:42

A fé, a má-fé e o fanatismo religioso

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Atualizado às 7h45 de 25.11

Carlos leitores,

participo daqui a pouco, a partir das 9 horas da manhã desta quinta-feira, dos debates sobre Liberdade de Imprensa no seminário promovido pela TV Cultura, com palestras de Franklin Martins, Fernando Henrique Cardoso e Carlos Ayres Britto.

O evento pode ser acompanhado ao vivo pela internet: www.tvcultura.com.br/seminario

Em tempo, às 17h30: depois de participar do seminário na Cultura, tive outros compromissos à tarde e ainda hoje vou participar de uma gravação na TV Bandeirantes. Por isso, a moderação dos comentários do Balaio ficará para mais tarde ou, dependendo do horário, para amanhã.  

Grato pela compreensão,

Ricardo Kotscho

***

Política, futebol e religião são temas que sempre provocam polêmicas entre os leitores, eu sei, mas ainda não tinha visto nada parecido com o que aconteceu esta semana. Ao indagar no post “Quem ainda segue o que diz Bento 16?”, um texto sobre as suas mais recentes declarações a respeito do uso da camisinha, acabei despertando a ira de católicos mais ortodoxos, que invadiram o Balaio desde segunda-feira com uma enxurrada de comentários histéricos e ensandecidos de papistas em defesa de seu líder espiritual.

Parecia coisa de uma central de pronta-resposta,  tão mal escritos eram os comentários, em estilo capenga e com palavras chulas, a exemplo do que vimos na recente campanha eleitoral, entre o primeiro e segundo turnos. Poucos se dignaram a responder à questão levantada pelo Balaio, limitando-se a ofender o autor. Nunca fui tão xingado na vida.

Além de pedir minha expulsão imediata da Igreja Católica e a censura ao blog, alguns igrejeiros mais xiitas chegaram perto de me mandar para a fogueira. Devem ser os mesmos que vivem pregando a favor da liberdade de imprensa e de expressão _ da imprensa deles e da expressão deles, é claro, não dos outros. Ou o infalível Bento 16 pode falar o que quiser e nós, os simples mortais, não? Em qual dos muitos livros bíblicos citados isto está escrito?

Até os termos usados foram semelhantes aos do catecismo empregado na campanha eleitoral:  velho, idiota, comunista, gagá, ateu, evangélico, traidor, idiota, Judas Escariotes, cocho mental, excomungado e por aí afora. Ao contrário da limpeza que costumo fazer para manter o asseio do blog, deixei de propósito alguns comentários mais escatológicos para que os leitores possam constatar a que ponto chegam a estupidez e a irracionalidade de uma camada da população ainda mais radicalizada após as eleições.  

Ao começar a escrever este post, já havia liberado mais de 550 comentários sobre o assunto, fora as centenas que eram absolutamente impublicáveis e tiveram que ser deletados. No país laico em que vivemos, graças a Deus, somos todos livres para professar a nossa fé, mas a intolerância e a má-fé demonstradas em muitas destas manifestações nos levam a refletir sobre os males que podem ser causados pela intolerância que leva ao fanatismo religioso. Só mesmo lendo estes comentários para entender o que estou querendo dizer.

Não sei se isto ainda é sequela das baixarias da última campanha eleitoral, quando a religião foi utilizada no submundo da internet e de alguns templos para salvar uma candidatura presidencial a qualquer custo, levando a cenas explícitas de preconceito e violência nas ruas e na internet, mas o fato é que em mais de dois anos de Balaio é a primeira vez que o debate descambou desse jeito, justamente quando o assunto era religião. Nem futebol nem política chegaram perto.  

Misturaram política com religião e agora estão misturando religião com política. Será um sinal dos tempos? Estas confusões não costumam acabar bem.

Abaixo, reproduzo alguns comentários menos chulos, mantendo a grafia original para dar uma idéia do nível de intolerância a que chegamos:

Cícero, às 23h22, de terça-feira: “Se uma pessoa é católico tem que conceder em tudo que o papa prega”.

Roberto Petersen, às 10h36, de terça: “Lamento te informar, meu caro, que você não é mais um cristão. Talvez nunca foi!”.

Maurício, às 8h57, de terça: “Se você não está satisfeito, crie sua própria igreja e suas regras”.

Julio Cesar, às 8h34, de terça: “Cala a boca Ricardo… Vc não é católico, é ateu”.

Jorge Furlan, às 7h58, de terça: “Ricardo Kotscho: O TOSCO. VOÇE É UM GRANDE IDIOTA” (escrito assim mesmo, com cedilha, maiúsculas e sem acento).

Se não der para arejar um pouco as mentes, explicando que já chegamos ao século 21, estas centrais de pronta-resposta poderiam pelo menos oferecer um curso básico de língua portuguesa aos seus fiéis colaboradores.

Mas o que me deixou mais triste nesta história foi constatar, salvo engano meu, que nenhum dos quase mil leitores que enviaram comentários colocou em debate a questão do planejamento familiar, também ligado ao uso de preservativos _ assim como o combate à Aids _, entre outros anticoncepcionais cujo uso até hoje é considerado pecado pela Igreja Católica.

Neste caso, não estamos falando apenas de seguir ou não os mandamentos e as orientações do papa, seja ele qual for, mas de temas centrais da vida, como a miséria das milhares de mulheres com muitos filhos e sem nenhum marido, a saúde pública, a gravidez precoce, as mortes causadas por abortos feitos sem assistência médica, a falta de habitação decente para todos nas grandes metrópoles, a pedofilia, a violência crescente, a proliferação das drogas, a degradação dos costumes, a desestruturação familiar.  

É disso que todas as igrejas deveriam tratar em vez de ressuscitar a Santa Inquisição.

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
22/11/2010 - 09:32

Quem ainda segue o que diz Bento 16?

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Atualizado às 7h29 de 23.11

Pessoal,

viajo novamente daqui a pouco para Ribeirão Preto e outras cidades para fazer uma reportagem, que deverá sair na capa de dezembro da revista Brasileiros, com um balanço dos oito anos do governo Lula. Volto amanhã, quarta-feira.

Abraços,

Ricardo Kotscho

***

Com todo respeito aos fiéis seguidores da Igreja Católica Apostólica Romana, entre os quais me incluo, mas não dá para ficar calado diante das últimas manifestações do papa  Bento 16 sobre o que podemos ou não fazer nas nossas vidas. No meio do bestialógico publicado ou levado ao ar neste final de semana sobre as declarações dadas num livro-entrevista, como se alguém ainda estivesse interessado em ouvir o que pensa e diz este papa, salva-se a carta do leitor Renato Khair, publicada na Folha desta segunda-feira:

“Se o papa Bento 16 e a Igreja Católica são a favor ou contra o uso da camisinha (ou do aborto ou da união entre pessoas do mesmo sexo) é absolutamente irrelevante e não deveria fazer a menor diferença”.

É o mesmo que penso a respeito deste assunto, como se a palavra do papa continuasse sendo lei a ser obedecida cegamente por todos os católicos. Seus novos “mandamentos” sobre o uso da camisinha são de tal forma fora de tempo e de lugar, de propósito e de sentido, que o sumo pontífice mereceria uma advertência dos editorialistas do Estadão, como já aconteceu em outros tempos, quando a Igreja Católica defendia os perseguidos pelo regime militar.

Qual o efeito prático de tanto barulho em torno da manifestação papal sobre o uso de camisinhas? Vai mudar alguma coisa? Já posso imaginar os sindicatos de prostitutas em todo o mundo convocando assembléias extraordinárias. Gigolôs em polvorosa. Farmácias e camelôs providenciando reforço nos estoques de preservativos e indústrias comprando novos equipamentos para aumentar a produção.

Depois da sua extemporânea e infeliz intromissão na recente eleição presidencial brasileira, em que ressuscitou a questão do aborto, já estaria na hora de alguém mais próximo ao papa recomendar-lhe um bom repouso, antes de voltar a se manifestar sobre o uso de preservativos por prostitutas, o que obrigou o porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi, a sair dos seus cuidados e vir a público no final de semana para “explicar” o que Bento 16 queria mesmo dizer.

“No raciocínio do papa, está claro que não se trata de uma mudança revolucionária”, mas de uma “visão compreensiva”, para levar uma humanidade “culturalmente muito pobre rumo a um exercício mais humano da sexualidade”, disse Lombardi, em nota distribuída pelo Vaticano. Ah, bom…

Sempre me pergunto o que padres, bispos e papas entendem deste assunto, já que estão condenados ao celibato eterno, a ponto de dar lições de moral a nós pecadores, ainda mais depois das reiteradas denúncias da prática de pedofilia envolvendo religiosos que agora vêm a público. Não seria mais razoável cuidar primeiro do seu próprio quintal?

No livro-entrevista publicado pelo jornalista alemão Peter Seewald, o papa disse que não ficou “totalmente surpreso” com os escândalos dos padres pedófilos, mas que a repercussão do caso provocou-lhe “um choque enorme”.

Menos mal que Bento 16, nesta mesma entrevista, tenha questionado a infabilidade papal _ “já que um pontífice também erra” _ como ele mesmo tem feito questão de provar desde que assumiu o trono de Pedro.

“Obviamente, o papa pode se equivocar. Ser papa não significa se considerar um soberano cheio de glória, mas alguém que dá testemunho do Cristo crucificado”, afirmou ainda o papa alemão. Aos 83 anos, ele admite que “as forças vão diminuindo”, o que sugere aplicar a ele o mesmo ”silêncio obsequioso” que recomendou ao frade franciscano Leonardo Boff, meu bom e velho amigo, antes de expulsá-lo da igreja.

Diante da contínua perda de fiéis para outras denominações religiosas, seria de bom senso recomendar ao chefe da Igreja Católica, que disse não pensar em renúncia, para ocupar seu tempo mais com o seu público interno para saber o que acontece nas sacristias e menos em dar lições de moral ao rebanho.

Como bem diz o leitor Renato Khair:

“É realmente espantoso que, em pleno século 21, milhões de pessoas ainda abram mão da sua liberdade de escolha, de sua racionalidade, de suas convicções íntimas e aceitem que alguma suposta autoridade (papa, igreja, presidente, general) lhes diga o que é certo ou errado e como devem viver as suas próprias vidas”.

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
21/11/2010 - 09:18

O papel de Lula no governo de Dilma

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Num ponto, pelo menos, as personalidades de Lula e Dilma são muito semelhantes: os dois são teimosos, não gostam muito de ouvir palpites e conselhos, e apreciam exercer a autoridade, às vezes de forma brusca, deixando claro quem manda.

Por isso mesmo, não dou crédito a esta história de que o governo Dilma será apenas um terceiro mandato de Lula com outro nome. Quem diz isso não conhece a Dilma nem o Lula.

Claro que o futuro ex-presidente estará sempre à disposição da presidente eleita para colaborar, ajudar na articulação política e nos momentos de crise, mas só quando for chamado por ela, por iniciativa dela, jamais dando uma de oferecido. Não é do feitio dele.

Os dois têm grande respeito e admiração um pelo outro _ Lula pela gestora Dilma e Dilma pelo líder político Lula. O atual presidente não atropelaria a autoridade de quem foi eleita por indicação dele mesmo para exercer o poder central em seu lugar. Até seus piores inimigos concordam que Lula pode ser chamado de tudo, menos de burro.

Dilma tem plena consciência de que deve o mandato a Lula e será fiel aos princípios do atual governo, que deverá manter, em especial na política econômica. Ninguém, nem eles, pode ter absoluta certeza sobre o futuro, mas não acredito num possível rompimento entre criador e criatura, como muitos já especulam, e outros nem disfarçam a torcida para que aconteça.

Até porque, um continua dependendo muito do outro: Dilma depende do apoio de Lula para governar em paz com seus aliados e Lula precisa que o governo Dilma dê certo para preservar sua credibilidade, a própria imagem e a do seu governo.

Por isso mesmo, e mais duas razões bem simples, Lula não deverá voltar a se candidatar em 2014:

* Se o governo Dilma for um sucesso, ela certamente será a candidata natural do PT à reeleição.

* Se tudo der errado, a imagem de Lula também será abalada porque, afinal, ele foi o mentor e o fiador da eleição de Dilma.

Mesmo na remota hipótese de vir a ser candidato e de ser eleito, Lula sabe que correria o sério risco de perder, num eventual terceiro mandato, o prestígio que conquistou nos dois primeiros, chegando a mais de 80% de aprovação popular _ o que é inédito e não deverá se repetir tão cedo. Seu lugar na história já está garantido. Para que arriscar?

Pelo menos nos primeiros tempos do governo Dilma, depois de um breve descanso, Lula deverá se dedicar mais a fazer política lá fora do que aqui dentro do país. O instituto que pretende criar tem como principal foco levar a experiência das políticas públicas e dos projetos sociais do seu governo para países pobres da América Latina e da África.

Além disso, Lula terá que correr o mundo em 2011 para receber dezenas de títulos de “doutor honoris causa” que lhe foram outorgados ao longo destes últimos oito anos. Por razões que desconheço, ele deixou para receber todos só depois de deixar o governo. O metalúrgico vai virar “doutor Lula”…

Em tempo: (atualizado às 21h55 de domingo)

São Paulo entrega o ouro e cai de quatro

Tudo bem, até entendo que a torcida tricolor tenha ido ao estádio para torcer pelo Fluminense de Muricy e sacanear o Corinthians.

Tudo bem, até entendo que o time não tinha motivo nem vontade para lutar por uma vitória, já que faz tempo só virou café com leite no Brasileirão, quer dizer, não desempenha nem sai de cima.

Só não precisava cair de quatro, com dois jogadores expulsos, um deles aquele rapaz conflituoso de sempre. Até o lorde Rogério Ceni perdeu a paciência.

Se o ano todo foi fraco, o final está sendo um vexame. Em compensação, Muricy Ramalho, que foi mandado embora do Morumbi para dar lugar a Ricardo Gomes,  depois de se sagrar tricampeão brasileiro, está outra vez na disputa direta pelo título do Brasileirão, pelo sexto ano seguido  (primeiro com o Inter, depois três vezes com o São Paulo, no ano passado, com o Palmeiras e, agora, com o Fluminense.

O cara é ruim… Boa é a diretoria vitalícia do tricolor paulista…

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
19/11/2010 - 09:33

Os dilemas de Dilma na hora da divisão do bolo

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Não é que ela goste de fazer mistério e brincar de esconde-esconde com os repórteres que farejam os nomes dos ministros do novo governo. Para quem, como Dilma Rousseff, não tem experiência anterior nestas negociações do poder central, na hora da divisão do bolo da vitória são mesmo grandes os dilemas para montar o quebra-cabeças do seu ministério, com tantos partidos aliados e tantos apetites por cargos.

De fato, o desafio não é pequeno, não vai ser fácil. Por mais que quisesse, a presidente eleita não pode manter muitos dos atuais ministros nos cargos porque precisa dar uma cara própria ao seu governo e, ao mesmo tempo, abrir novas vagas. Nos partidos todos, não há bons quadros sobrando, como sabemos. Acontece que os partidos que estavam e continuarão no governo querem manter os postos que já têm e, se possível, mais alguns. A conta simplesmente não fecha.

Mais do que ninguém, na solidão da Granja do Torto, a presidente eleita sabe que o destino do seu governo dependerá em grande parte das escolhas que fizer agora, nas poucas semanas que faltam para a posse _  tanto em relação à qualidade profissional e à fidelidade política dos indicados para o seu ministério, como na correlação de forças do balaio de gatos dos aliados, tendo que lidar com a voracidade do PMDB, a ciumeira do PT  e a volubilidade dos partidos satélites.

Nas conversas que tive nesta quinta-feira durante as poucas horas que passei em Brasília, deu para perceber que ainda está tudo em aberto e ninguém tem certeza de nada, a não ser que Guido Mantega continuará na Fazenda, uma pedra cantada desde antes do primeiro turno em caso de vitória de Dilma.

Nem os mais próximos da ex-ministra arriscam palpites, não só por absoluta falta de informação, mas também porque ainda está tudo em aberto e pode mudar de uma hora para outra, assim como aconteceu na montagem do primeiro governo de Lula, quando o PMDB acabou ficando de fora poucos dias antes da posse, depois que parecia tudo acertado com a base aliada.

A crise vivida pelo governo Lula em 2005 comprovou que ninguém governa este país sem o PMDB, mas a aliança feita agora mostra mais uma vez que é muito difícil governar com o PMDB. A simples tentativa de formar um “blocão” fisiológico para mostrar força e assustar a presidente e o PT, que não durou mais de 24 horas, serviu para mostrar do que o partido-ônibus de Michel Temer é capaz.

A cada eleição, o enredo da novela da formação de um novo gabinete é sempre o mesmo. A palavra “crise” surge logo nos primeiros dias no noticiário quando a inevitável luta por espaços entre os vencedores e a ausência de definição dos nomes dos ministros estimulam especulações, cotoveladas, chutes e plantações de toda ordem.

Será que tem que ser mesmo sempre assim? Por que é tão importante para os partidos conquistar o maior número possível de ministérios? Para poder implantar suas políticas públicas e programas de governo? Ou será apenas, sejamos sinceros, para poder dispor de mais cargos e verbas, que é o que realmente interessa?

Para acabar com esta disputa insana que compromete qualquer governo antes mesmo de começar, só tem um jeito: uma ampla reforma político-partidária que reduza drasticamente o número de cargos de confiança no Governo Federal e de partidos no Congresso Nacional.

Em países mais desenvolvidos e civilizados, estes cargos não passam da casa de alguns poucos milhares;  aqui, são muitas dezenas, centenas de milhares, uma verdadeira festa do caqui. O mesmo acontece com os partidos, que entre nós vicejam como as novas igrejas e os botequins da moda.

Qual é a chance disto um dia acontecer? A meu ver, nenhuma. Pela simples e boa razão de que só quem pode fazer a reforma política são os políticos, ora pois. E eles jamais abrirão mão dos seus privilégios, não irão cortar na carne, jogar contra o próprio patrimônio. Uma vez eleitos, os eleitores que se danem. Todo mundo só quer se arrumar ou se garantir.

É por isso que os aviões para Brasília voam sempre lotados de lobistas e candidatos a uma “posição” no novo governo. Pois é nestes dias que antecedem o Natal que se jogam as pedras no grande tabuleiro do poder. Juro que eu não gostaria de estar no lugar da presidente eleita. E você, caro leitor, o que  faria no lugar dela?

Em tempo 1:

reparei agora nas estatísticas do Balaio que acabamos de passar dos 100 mil comentários publicados no blog (para ser mais exato, 100.036). Como “só” escrevi 621 textos neste período, vocês trabalharam bem mais do que eu… Esta é a melhor parte da internet: a participação dos leitores. Meu muito obrigado a todos os leitores/comentaristas.

Em tempo 2:

vocês podem encontrar no site www.sul21.com.br a entrevista que concedi ao repórter Felipe Prestes durante a Feira do Livro de Porto Alegre da qual participei no último final de semana.

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
16/11/2010 - 15:31

De volta à escola, uma boa surpresa

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A convite do professor de História Gonçalo de Andrés Fernandez e dos alunos da 7ª e da 8ª séries estive na manhã chuvosa desta terça-feira batendo um papo com a turma que faz o jornalzinho da Escola Municipal Maria Antonieta D´Alkimin Basto, na Vila Olímpia.

Em tempos de predominância do audiovisual e das novas mídias eletrônicas é uma boa surpresa para este velho repórter voltar a uma escola e encontrar adolescentes que ainda se dedicam a escrever para um jornal impresso, que batizaram de “At!tude” _ assim mesmo, com ponto de exclamação no meio. Embora de periodicidade irregular, o boletim já está em seu quarto ano e não falta gente para preparar o próximo número.

São apenas oito páginas bem ilustradas em formato de papel ofício, mas dá para ter uma boa idéia das atividades dos alunos e do que eles pensam da vida. Na nossa conversa, que durou o tempo certo de um jogo de futebol e só parou quando tocou a campainha anunciando o almoço, deu para perceber pelas perguntas que existe muita curiosidade da moçada em saber como é a profissão de jornalista e como funciona (ou não) a nossa imprensa.

“Qual o papel de um jornal?”, perguntam os alunos na primeira página do boletim da escola, e eles mesmos respondem: “Entre muitas outras coisas, defender ideias que podem ajudar a transformar o mundo”.

Podemos até não conseguir, procurei mostrar a eles. Mas, apesar de tudo, este sonho ainda move boa parte dos que escolheram a nossa profissão, sempre tão criticada, e ainda capaz de despertar muito fascínio nos jovens.

“Sabemos que nosso desafio é grande _ afinal, nunca se imprimiu tanto. E nunca se aproveitou tão pouco. Devoram-se toneladas de papel impresso em todas as línguas, mas a porcentagem de coisas de qualidade é quase nada, na maioria publicações fajutas”, escreveram eles no editorial da edição de setembro, mostrando que sabem onde estão pisando, mas nem por isso desanimam: “Não devemos nos esquecer, contudo, que um aluno que se dedica à elaboração de uma matéria jornalística pode escrever melhor e se tornar melhor leitor.”

Tudo é assunto: a visita a uma aldeia índígena, em Parelheiros, na zona sul da cidade; o filme “As melhores coisas do mundo”, que eles assistiram em sessão especial no Espaço Unibanco, aproveitando para entrevistar a diretora, Laís Bodanzky; a palestra sobre sexualidade dada pela psicóloga Viviane Hercowitz, da Fundação Tide Setubal; a história de uma aluna de 65 anos que voltou às aulas no curso noturno do Alkimin e a do casal que se conheceu ali naqueles mesmos bancos escolares onde hoje estuda seu filho, o Dia dos Pais…

Já em casa, ao dar uma passada d´olhos no jornalzinho que me deram para levar, encontrei o pequeno poema “Meu pai”, escrito pela menina J., da 7ª série, que transcrevo abaixo:

Para mim meu pai é como algo

Sem importância, ele é simplesmente

Uma folha seca que eu aturo

Duas vezes ao ano.

Eu me sinto alguém vazia

Quando estou com ele, algo sem vida.

Então, para mim, ele não é um parente,

Ele é somente uma pessoa.

Para conhecer a realidade desta menina, da cidade e do país em que vivemos, é preciso conversar mais com estes jovens e seus dedicados professores, saber o que eles pensam e sentem, em vez de ficar só repetindo que o nosso ensino é ruim. Claro que pode sempre melhorar, mas fiquei muito bem impressionado com a paisagem humana que encontrei nesta escola pública.  

Ao me convidar para este encontro com seus alunos, o professor Gonçalo me explicou que a maioria não mora perto da escola. Seus pais trabalham por ali e deixam as crianças antes de entrar no serviço. Alguns alunos moram no Grajaú, em Taboão da Serra, bairros bem distantes, e acordam muito cedo para ir à escola, que tem mais de 800 alunos. As aulas começam às sete da manhã. Pelo que vi, vale o sacrifício. Eu, pelo menos, ganhei o dia.

Em tempo:

Recebi agora uma boa notícia: o blog do programa “Papo de Mãe” (TV Brasil, aos domingos, 19 horas) foi classificado entre os três finalistas na categoria Comunicação do prêmio Top Blog 2010. O vencedor será conhecido no dia 18 de dezembro. A equipe do blog me pediu para agradecer aos leitores do Balaio que votaram no “Papo de Mãe”.

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
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