2010 outubro | Balaio do Kotscho
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Arquivo de outubro, 2010

29/10/2010 - 21:36

Últimas cenas da campanha eleitoral

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Caros amigos balaieiros,

domingo, 31 de outubro de 2010. Chegou o dia da onça beber água e ver quem tem café no bule. Pesquisas, comentários, análises, torcidas, propostas, baixarias, nada disso mais interessa. Agora cessa tudo porque a única coisa que importa é sua excelência, o eleitor, clicar seu voto na urna.

Aqui em Porangaba são 7h30 da manhã. O dia nasceu bonito, com céu claro e poucas nuvens, o canto do galo e os passarinhos muito animados. Daqui a pouco vou votar aqui e voltar para São Paulo porque viajo ainda hoje à tarde para Brasília a trabalho. Acompanharei as apurações por lá para preparar uma reportagem da revista Brasileiros, que sairá na edição de novembro, junto com meus colegas Hélio Campos Mello e Nirlando Beirão.

Bom domingo, bom voto a todos. Volto para atualizar o Balaio e liberar comentários a qualquer momento, assim que arrumar uma brecha porque meu dia vai ser bem corrido.

Abraços,

Ricardo Kotscho

*** 

Acabei de ver agora os últimos programas dos candidatos presidenciais na TV e o noticiário do dia sobre a campanha eleitoral. Como Serra e Dilma vão participar daqui a pouco do décimo e derradeiro debate, na TV Globo, as últimas cenas foram protagonizadas em São Paulo e no Recife, respectivamente, sem a presença deles.

Em São Paulo, quem convocou e liderou a caminhada tucana foi o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. No Recife, a carreata de Dilma foi comandada pelo presidente Lula. Imagens dos dois eventos e o noticiário completo estão na capa do iG.

Informam Ricardo Galhardo e Ana Carolina Dias, do iG em Pernambuco:

“Lula leva 100 mil pessoas às ruas do Recife _ Acompanhado do governador reeleito Eduardo Campos, Lula seguiu em carro aberto pelas ruas da capital pernambucana”.

Informa Rodrigo Rodrigues, do iG em São Paulo:

“FHC perde sola de sapato e interrompe caminhada _ Evento organizado pelo ex-presidente em apoio a Serra contou com participação do governador e prefeito de SP”.

Nada tenho a acrescentar.

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
28/10/2010 - 10:21

Agora até o Papa dá palpite na eleição

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Só faltava ele! Pois ao abrir a capa (alguns preferem chamar de home page) do portal Estadão.com, a 72 horas das eleições presidenciais, tomo um susto ao ler a manchete: “Papa condena aborto e pede a bispos que orientem politicamente fíéis”.

Diz a nota que “em reunião em Roma na manhã desta quinta-feira, 28, o papa Bento XVI conclamou um grupo de bispos brasileiros a orientar politicamente fiéis católicos. Sem citar especificamente as eleições de domingo, o Papa reforçou a posição da Igreja a respeito do aborto e recomendou a defesa de símbolos religiosos em ambientes públicos”.

Além de condenar o aborto, como se alguém pudesse ser a favor do aborto, embora muitos defendam a sua descriminalização, o papa também cobrou o ensino religioso nas escolas públicas e defendeu a luta pela manutenção dos símbolos religosos, citando o monumento do Cristo Redentor no Rio, como se eles estivessem ameaçados.

O Brasil é um Estado laico e mantem relações diplomáticas com o Estado do Vaticano. Com que direito Sua Santidade vem meter o bedelho em questões internas de um país às vésperas das eleições presidenciais? Já não basta o papel impróprio e deprimente  exercido por alguns dos seus bispos que, com esta falsa questão do aborto, transformaram seus altares em palanques contra uma candidatura e a favor de outra, distribuindo panfletos políticos em lugar de homilias?

Depois de ser explorado até a exaustão pelos bispos teefepeanos, telepastores dos dízimos e, principalmente, pela mídia, o assunto já tinha até saído de pauta, tão rapidamente quanto entrou, porque as últimas pesquisas mostraram que ele não estava mais rendendo nenhum resultado nas intenções de voto dos eleitores.  

Em artigo publicado terça-feira no Observatório da Imprensa, o analista de mídia Cristiano Aguiar Lopes prova com números de uma pesquisa que “houve um esforço coordenado e eficiente dos principais jornais e revistas do país para insuflar a polêmica sobre o tema com vistas a um fim eleitoral mais que óbvio: roubar votos de Dilma entre eleitores conservadores contrários à descriminalização do aborto”.

Os números são impressionantes: a três dias do primeiro turno, no dia 30 de setembro, as principais publicações do país pesquisadas registraram 149 menções sobre o aborto, chegando a 430 no dia 8 de outubro, na primeira semana do segundo turno que foi dominada pelo tema.

“A primeira escalada ocorre pouco antes do primeiro turno e tem como objetivo conquistar os votos de indecisos e de dilmistas não muito convictos. A segunda, bem mais intensa, busca transferir para Serra os votos de um grande contingente de eleitores conservadores _ sobretudo católicos e evangélicos _ contrários à descriminalização do aborto”, conclui Cristiabno Aguiar Lopes.

A pesquisa prova também que não houve “onda verde” nenhuma que tenha provocado o segundo turno. Foi, na verdade, uma “onda religiosa” nas igrejas e nos subterrâneos da internet que beneficiaram a candidata evangélica Marina Silva e levaram a eleição ao segundo turno, usando a ameaça do aborto como instrumento eleitoral.

O Papa foi inconveniente, chegou atrasado na história e entrou de gaiato numa falsa polêmica que até a mídia já tinha esquecido. Deveria se preocupar mais com os casos de pedofilia envolvendo religiosos que grassaram nos últimos anos em sua igreja, com a fuga de fiéis e o esvaziamento dos seus templos. Não precisamos dos seus conselhos para saber como deveremos votar no domingo.

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
27/10/2010 - 10:30

O dia em que Lula derrotou Serra

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Oito anos atrás, foi num dia 27 de outubro, como hoje, dia do seu aniversário, que Lula ganhou sua primeira eleição para presidente da República. Por acaso, o adversário derrotado em 2002 foi o mesmo tucano José Serra, que agora disputa novamente a eleição, desta vez contra a petista Dilma Rousseff, a candidata escolhida por Lula para a sua sucessão.

O que aconteceu nos bastidores da campanha de Lula naquele dia histórico? Eu era seu assessor de imprensa na época e passei o dia com o então candidato, mas já não me lembro mais de muita coisa, assim de cabeça.

Por isso, recorro outra vez ao meu livro de memórias, “Do Golpe ao Planalto _ Uma vida repórter” (Companhia das Letras, 2006) para rememorar como foi que Lula ficou sabendo que era o novo presidente eleito.

***

Às cinco horas da tarde do domingo, 27 de outubro de 2002, no dia em que Lula completava 57 anos, foi com muito custo que ele atendeu a meu chamado para vir até onde se encontravam sua família _ a mulher, os quatro meninos e as noras _ e uns poucos amigos, diante do aparelho de televisão.

Desde a hora do almoço, ele conversava com José Dirceu, Aloizio Mercadante, Gilberto Carvalho e Antonio Palocci na sala de refeições da suíte presidencial do Gran Meliá, na avenida Nações Unidas, no bairro do Brooklin, em São Paulo. Lula votara de manhã numa escola em frente à sua antiga casa de esquina, na Vila Paulicéia, em São Bernardo do Campo, e chegara de helicóptero ao hotel.

A TV Globo iria anunciar o resultado da pesquisa de boca-de-urna da eleição presidencial. O âncora Franklin Martins (o mesmo que hoje é seu ministro) chamou a repórter, que estava ao lado do presidente do Ibope, Carlos Augusto Montenegro:

“Agora, ao vivo, vamos conhecer os resultados da pesquisa boca-de-urna com a repórter…”. Por coincidência, a repórter era minha filha mais velha, Mariana Kotscho.  

“Olha lá, Mara! A Mariana está mesmo com jeito de grávida!”: foi o primeiro e único comentário de Lula, como se o resultado anunciado por Montenegro, dando-lhe a vitória por larga margem sobre José Serra, não estivesse acabando de confirmar a primeira eleição de um operário para a presidência da República do Brasil, depois de três tentativas frustradas.  

As pessoas começaram a pular, gritar e se abraçar. Lula, impassível, braços cruzados, olhava para o monitor de TV. Parecia não acreditar no que via e ouvia _ ou já esperava aquele resultado havia muito tempo e por isso não se surpreendeu. Os filhos, também; pareciam assistir ao final de um jogo cujo resultado já conheciam. Com os números da pesquisa aparecendo na tela, não tinha mais erro.

A comemoração podia começar, mas o dono da festa resistia. “Porra, Lula, nós ganhamos a eleição!”, gritei, e lhe dei um tapão nas costas, para ver se ele caía na real.

***

Quem quiser saber conhecer a história completa, das comemorações na avenida Paulista até o dia da grande festa da posse em Brasília, está tudo no capítulo “Da vitória à posse – 2002″. É só comprar o livro.

Nesta quinta-feira, Lula faz 65 anos, e entra oficialmente na terceira idade, a dois meses de entregar o cargo para seu sucessor ou sucessora. O tempo correu depressa.

Em tempo:

o nosso preclaro Enio Barroso Filho, um dos sócios fundadores deste Balaio, me deu uma boa idéia em seu comentário: perguntar onde o amigo leitor estava e o que lembra deste dia 27 de outubro de 2002?

 

 

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
26/10/2010 - 14:43

Lula só quer paz e amor na reta final

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Conversei agora há pouco rapidamente com o presidente Lula, que completa 65 anos amanhã, quarta-feira. Com o fim do seu inferno astral, ele pretende voltar a ser apenas o “Lulinha paz e amor” das eleições de 2002, sem querer saber de confronto com a oposição e a imprensa, como nas últimas semanas. 

E também não quer saber de festa: “Vou trabalhar amanhã, meu filho, não dá pra parar”. Em suas últimas participações nos palanques de Dilma, ele deverá fazer um agradecimento ao povo brasileiro pelo bom momento que o país está vivendo.

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
26/10/2010 - 12:00

O pior debate que eu não vi

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Dos debates anteriores que eu acompanhei, não sei dizer qual foi o pior. Mas este penúltimo da noite/madrugada de segunda-feira na TV Record certamente foi o pior dos que eu não vi. Por uma razão muito simples: a esta altura da campanha está todo mundo cansado, nem os candidatos aguentam mais e ninguém tem mais nada de novo a dizer. E ainda teremos o décimo debate da temporada, quinta-feira, na TV Globo. 

Quando o candidato José Serra começou a responder à primeira pergunta sobre a criação de empregos e projetos para o Nordeste, e só fez críticas e acusações ao PAC de Dilma Rousseff, minha paciência definitivamente acabou. Nem ouvi até o fim. Aquilo seria mais uma repetição dos debates anteriores. Ninguém merece.

Pois o noticiário de hoje dos jornais e portais apenas confirma o que eu pressentia: não perdi nada ao desligar a televisão. Olhem que ainda assisti a um bom pedaço de “A Fazenda”, o BBB rural da Record, esperando pelo debate que, para completar, começou atrasado.

Tanto para os candidatos como para os pobres eleitores, dez debates numa campanha eleitoral constituem um verdadeiro massacre. Se ainda estivessem em discussão diferentes propostas e projetos para o país, algo que tenha a ver com a vida real dos brasileiros, vá lá. Mas fica só aquele joguinho de um denunciar os mal feitos ou os não feitos do outro, pegadinhas preparadas pelos marqueteiros, ironias e hipocrisias, falsos sorrisos e caras de indignação.

Como não vi o debate, vou parando por aqui mesmo para não aborrecer vocês mais ainda. Vou pegar a idéia do meu colega e amigo Ricardo Setti, competente e respeitado jornalista que agora tem um blog na Veja.com: é melhor abrir espaço logo para deixar os leitores comentarem.

Se é que algum assistiu a este festival de monólogos, em que as respostas nada tinham a ver com as perguntas e cada candidato procurou apenas deixar gravadas algumas frases para exibir no seu próprio programa eleitoral…

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
25/10/2010 - 10:14

De guerra em guerra, escalada da intolerância

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Da guerra santa à guerra suja, a campanha presidencial de 2010, que entra hoje em sua última semana, graças a Deus!, registrou uma inédita escalada de intolerância. Jogaram nos ventiladores da velha mídia e da jovem internet todos os preconceitos, ódios, medos, calúnias, mentiras, baixarias, tudo o que o ser humano pode produzir de pior.

Ainda bem que agora falta pouco. A cada dia, lendo o noticiário do jornal no café da manhã, meu estômago foi ficando mais embrulhado e teve dia em que nem me deu ânimo de escrever nada. Tentei mudar de assunto, falar sobre futebol e até do Mickey, mas não adianta. Parece que as pessoas não estão mais nem lendo o que os outros escrevem.

De nada adiantaram meus reiterados apelos para que os leitores se ativessem em seus comentários ao assunto tratado no post, evitassem agressões e ofensas, não usassem o espaço para fazer propaganda eleitoral nem escrevessem suas mensagens só com letras maiúsculas, em caixa alta, como se quisessem gritar suas verdades.

Pela primeira vez, neste domingo, fui obrigado a deletar mais comentários do que publicar. Procuro manter aqui um mínimo de civilidade, mas fico cada vez mais assustado e enojado com o que leio nas áreas de comentários em outros blogs e mesmo sobre as notícias publicadas nos diferentes portais. Em matéria de escatologia e desrespeito, chegamos ao fundo do poço.

Nem dá mais para saber o que é publicação da grande imprensa ou panfleto apócrifo distribuído nas ruas, nos templos e nos botecos. Virou tudo uma massa disforme, mal cheirosa, escondida no anonimato ou brandida por nobres colunistas. Daqui a cem anos, quando os historiadores do futuro contarem o que foi esta eleição de 2010 vão ter que colocar aquelas máscaras hospitalares.

Do alto do seu mais de meio século de competente e honesto jornalismo, sábio criador de jornais e revistas, combatente da boa luta, Mino Carta resumiu em poucas linhas qual foi o papel da imprensa nesta triste história:

“Não hesito em afirmar que nunca, na história das eleições pós-guerra, a mídia nativa permitiu-se trair a verdade factual de forma tão clamorosa. Tão tragicômica. Com destaque, na área de comicidade, para a bolinha de papel que atingiu a calva de José Serra”.

De fato, os sete minutos produzidos pelo Jornal Nacional na semana passada para provar que o candidato José Serra foi duramente alvejado por manifestantes do PT, no Rio de Janeiro, ao contrário do que mostraram as imagens do SBT, deverão constar no futuro de qualquer antologia de jornalismo de ficção.

Ao ser surpreendido pelo furo do concorrente, mostrando que a arma utilizada no atentado se limitou a uma bolinha de papel, o JN recorreu a uma foto de celular fornecida pela Folha, em que não se conseguia ver nada direito e buscou o depoimento de um perito bom bril para ”provar” que, num segundo “evento”, teria sido utilizada munição muito mais letal.

A guerra suja tomou então o lugar da guerra santa que vinha alimentando a campanha oposicionista na passagem do primeiro para o segundo turno. O que falta ainda? Esgotado o arsenal do bispo de Guarulhos e do telepastor Malafaia, os dois candidatos fizeram carreatas pacíficas neste domingo no Rio, em que Lula pela primeira vez não fez discurso, e se encontram novamente esta noite no debate da TV Record.

São os penúltimos lances de uma campanha presidencial brasileira que, pela primeira vez, utilizou massivamente a internet, mas a experiência não foi das mais edificantes. Mais do que um novo e democrático meio para divulgar propostas dos candidatos, mobilizar as militâncias e angariar recursos, a rede serviu para espalhar o horror religioso, desconstruir adversários, disseminar o ódio.

Sobrou espaço, no entanto, para reflexões muito lúcidas como a do leitor JG Schneider, em comentário enviado ao Balaio às 8h52 de hoje, o primeiro que li ao abrir o computador:

“Até parece que a web vai virar uma igreja, uma Santa Web ou Santa Rede Mundial ou Igreja Mundial do Santo E-Mail. A princípio, até achava que era uma brincadeira, mas nestes últimos dias a coisa piorou e os tais “crentes do e-mail” estão se superando”.

Sim, por mais absurdo que pareça, muita gente acredita nas barbaridades que circulam na grande rede e ajuda a espalhar este lixo eletrônico.

Se não temos mais a nossa velha mídia para separar o joio do trigo _ e publicar o joio, como brincávamos antigamente, e acabou virando verdade… _ pergunto-me o que acontecerá a partir da semana que vem, depois da apuração dos votos, quando a vida volta ao normal? Em quem ainda poderemos acreditar?

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
24/10/2010 - 09:01

Quer ver o Mickey? É uma gincana…

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Eles já estão na idade e, no fim do ano, vamos todos viajar para a Disney com os netos. A decisão foi tomada pela família no Natal do ano passado. Gostei muito da idéia, mas não fazia conta de como tudo mudou, desde que fui lá pela primeira vez, para levar as filhas pequenas, uns trinta anos atrás.

O problema começou quando descobri que meu passaporte estava vencido. Agora é tudo pela internet, me disseram _ quer dizer, deveria ser tudo teoricamente mais fácil. Só que havia um problema administrativo qualquer no setor de emissão de passaportes na Polícia Federal, e demorou um bocado para conseguir o meu.

Nos tempos antigos, era só ir à sede da PF, procurar pelo assessor de imprensa e, no mesmo dia, os jornalistas conhecidos da casa recebiam seu novo passaporte em mãos acompanhado de um abraço e votos de boa viagem. 

O pior veio depois quando reparei que vencera também meu visto para os Estados Unidos. A dificuldade para tirar o dito cujo já tinha virado tema de matérias de jornal e até capas de revista, o que não me parecia nada animador, ainda mais para mim que tenho pavor de qualquer desafio ligado à burocracia. Foi-se o tempo, eu já sabia, em que bastava ligar para o assessor de imprensa do consulado. Naquela época ainda não existiam os Bin Laden da vida.

“É só fazer o pedido pela internet”, informou-me o genro que cuidou da organização da viagem _ou seja, arrumou hotel, comprou ingressos, marcou passeios, cosnseguiu lugar em aviões lotados, etc… Na parte que me coube, claro que recorri aos préstimos da minha mulher, a Mara, que é craque no computador e no inglês, duas das áreas do conhecimento humano em que tenho grande deficiências.

Deu tudo certo, até o ponto crucial de marcar a tal da entrevista no consulado americano em São Paulo. E aconteceu o que eu mais temia. Como a procura aumenta muito neste último trimestre do ano por causa das férias de verão, só havia horário livre no dia 30 de dezembro, onze dias depois da data da partida.

De nada adiantaria explicar ao computador que já tínhamos comprado as passagens para o dia 19 de dezembro. Por mais modernos que sejam, eles ainda não falam nem foram programados para quebrar o galho de ninguém.  

Restava apenas torcer por alguma desistência em data anterior. Por sorte, consegui marcar a entrevista para esta semana e, ao final de duas horas de filas, me garantiram que, em apenas seis dias, receberia pelo correio o meu passaporte de volta com o sonhado visto da terra do Mickey.

Me deu a impressão de que está todo mundo indo pra lá no final do ano, tamanha era a multidão que se aglomerava diante dos guichês das seis estações em que foi organizado o serviço. De uma fila para outra, você vai fazendo novas amizades, ouvindo os planos de viagens e os sonhos de cada um, as dificuldades que as pessoas enfrentaram para chegar até ali.

Num enorme galpão industrial erguido nos fundos do consulado, a expressão de ansiedade das pessoas fazia lembrar um campo de refugiados à espera de um salvo-conduto. Era também a expressão de uma sociedade bem democrática, com pessoas de todos os níveis sociais agora podendo viajar para os Estados Unidos.

Depois dos atentados que sofreram e das ameaças que permanecem, é compreensível esta preocupação dos americanos com a segurança, até mesmo dentro do consulado, protegido na entrada por gigantescos blocos de concreto.

Serve também para deixar mais tranquilos os que para lá viajam só para ver a alegria dos netos diante dos personagens de Walt Disney, que, ao contrário da gente, nunca envelhecem. Cumprida a gincana no Brasil, falta apenas enfrentar as filas na Disneyworld propriamente dita. Não é fácil a vida de turista avô, mas é boa.

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
22/10/2010 - 10:08

Lula “ruim/péssimo” cai para só 3%

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Em meio aos números sobre a corrida presidencial divulgados pelo novo Datafolha na noite desta quinta-feira, com Dilma 12 pontos à frente de Serra (56 a 44) nos votos válidos, confirmando as pesquisas anteriores do Ibope e do Vox Populi, o instituto mostra também que o presidente Lula bateu seu próprio recorde mais uma vez, atingindo 82% a avaliação positiva de “ótimo/bom”.

“Esta é também a melhor marca já apurada pelo Datafolha para todos os presidentes civis desde 1985″, constata a Folha. Na outra ponta, o contingente dos brasileiros que avaliam Lula como “ruim/péssimo” caiu para 3%, o menor já registrado desde a posse do presidente, em 2003.

A popularidade dos presidentes costuma cair à medida em que que se aproxima o final dos seus mandatos, mas com Lula está acontecendo exatamente o contrário: a avaliação positiva não para de subir e a negativa cai a índices irrisórios.

Meses atrás, registrei aqui uma curiosidade: enquanto variavam os índices de avaliação positiva do presidente de um instituto para outro, o dos que desaprovavam o governo ficava sempre na marca dos 5%. Por mero instinto de repórter, escrevi que gostaria de saber quem são e o que pensam estes brasileiros.

Cheguei a sugerir que se investigasse (no sentido científico de pesquisar, claro, não no policial, como alguns entenderam) onde vivem, a que categorias sociais pertencem, as faixas etárias e níveis de escolaridade. Diante de tamanha aprovação do governo, esta turma do contra parecia-me um grupo meio exótico, apenas isso.

Teve um bobalhão que me acusou de estar querendo identificar, fichar e mandar esfolar e prender os que se opõem ao governo, como faziam os nazistas, imaginem! _ e teve gente que acreditou… Recebi uma enxurrada de mensagens me esculhambando e outros blogueiros da mesma laia disseminaram a sandice pela blogosfera.

Não tem jeito, não tem volta. Querer explicar qualquer coisa publicada na grande rede é como jogar papel picado pela janela num dia de muito vento e sair correndo atrás para pegar tudo de volta.

O fato é que nos meses seguintes, o índice de “ruim/péssimo” de Lula se estabilizou em 4%, e agora caiu mais um ponto. Em duas manchetes de página (A6 e A7) a Folha  atribui a esta estratosférica aprovação de Lula, a pouco pouco mais de dois meses do final do seu governo, o crescimento da vantagem de Dilma na última pesquisa: 

“Popularidade de Lula e Nordeste alavancam Dilma”

“Lula, pobres e NE contam história da eleição” (texto assinado pelo colunista Vinicius Torres Freire).

Se realmente a aprovação de Lula constitui um fator decisivo nesta eleição, como diz a Folha, e se as pesquisas estiverem certas, dificilmente este cenário vai mudar nos oito dias que faltam para irmos às urnas.

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
20/10/2010 - 11:16

Imprensa e igrejas, os grandes derrotados na eleição 2010

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Caros leitores,

por motivos de força menor, hoje não estou disposto a atualizar o Balaio, mas queria falar apenas de dois fatos da quinta-feira que merecem registro:

* Confirmado: a terceira onda que favorecia Serra no começo do segundo turno virou marolinha.

O novo ibope divulgado pelo Jornal Nacional apenas confirma o que o Vox Populi já havia mostrado na véspera e que tanta indignação causou ao Sergio Guerra, o comandante da campanha tucana. Segundo os números apresentados por Fátima Bernardes, a vantagem de Dilma Rousseff sobre José Serra aumentou de 6 para 11 pontos (51 a 40, nos votos totais) e de 6 para 12 (56 a 44, nos votos válidos). Até o momento, Guerra ainda não se manifestou sobre o Ibope.

* A “agressão” a Serra foi uma farsa.

Imagens mostradas pelo SBT e linkadas pelos leitores aqui no Balaio provam que a tal da “agressão de petistas ao candidato Serra”, que até o levou ao hospital, quarta-feira, no Rio, não passou de uma pantomina muito mal ensaiada. Parece que foi só uma bola de papel enrolada em fita durex. Teve colunista da velha mídia que viu até uma bandeirada de petistas na cabeça de Serra. Se fosse isso, convenhamos, sobraria certamente ao menos uma foto, com tantos jornalistas seguindo o candidato. Foi apenas mais um factóide que não vingou, mas certamente será utilizado no programa de TV. Vai ficar conhecido como o “novo caso Rojas” (lembram-se do goleiro chileno que se “feriu” no Maracanã?).

***

Ganhe quem ganhar a Presidência da República no próximo dia 31, já dá para saber quais foram os grandes derrotados desta inacreditável campanha eleitoral de 2010: a imprensa da velha mídia, mais engajada e sem pudor do que nunca, e as igrejas em geral, com amplos setores medievais de evangélicos e católicos transformando templos em palanques e colocando a religião a soldo da política.

Por acaso, são as mesmas instituições que se uniram em 1964 para derrubar o governo de João Goulart e jogar o Brasil nas profundezas da ditadura militar por mais de duas décadas. Como naquela época, os celerados e ensandecidos combatentes das redações e dos púlpitos acenam com novas ameaças às liberdades democráticas, outra vez o perigo vermelho, de novo a degradação dos costumes. Só falta uma nova “Marcha da Família, com Deus pela Liberdade”.

Nem parece que se passou quase meio século, que o Brasil lutou e reconquistou a democracia e vivemos em pleno Estado de Direito um dos mais longos períodos de amplas liberdades públicas de nossa história, com crescimento econômico, distribuição de renda e desenvolvimento social.

Faço esta constatação com muita tristeza, com dor na alma, pois a imprensa e a religião católica são importantes na minha vida desde menino, foram duas instituições fundamentais na minha formação. Sempre tive muito orgulho de ser jornalista e de professar a fé católica. Agora, confesso, que muitas vezes sinto vergonha. Explica-se: sou do tempo de Cláudio Abramo e D. Paulo Evaristo Arns. 

Cursei o ginásio num colégio de padres e, no meu teste vocacional, fui informado de que deveria seguir o sacerdócio. Só não o fiz por causa desta bobagem de que padre não pode ter mulher, ou seja, tinha que ser celibatário. É que já na época gostava muito do chamado sexo oposto e detestava a hipocrisia.

Acabei optando muito cedo por outro tipo de sacerdócio, o jornalismo, profissão na qual comecei com 16 anos, trabalhando em jornais de bairro de São Paulo. Nunca me arrependi. Nestes 46 anos de ofício, passei pelas mais diferentes funções, de repórter a diretor, nas redações de praticamente todas as principais empresas de comunicação do país, com exceção da revista Veja e da TV Record.   

Agora, ancorado aqui na internet com o meu Balaio e na Brasileiros, uma revista mensal de reportagens que ajudei a criar, acompanho de longe esta guerra santa em que se transformou a campanha presidencial, com igrejas, jornalistas, padres e pastores tomando partido fanaticamente a favor de uma candidatura e contra a outra.

Jamais tinha visto nada parecido na cobertura de uma eleição _ tamanhas baixarias, tantos preconceitos, discursos tão vis e cínicos, textos inacreditavelmente sórdidos publicados em blogs e colunas _ desde os tempos em que não podíamos votar para prefeito, governador nem presidente da República.  

No melhor momento social e econômico da história recente do país, chegamos ao fundo do poço na política. O Brasil não merecia isso. O problema é que, qualquer que seja o resultado da eleição, no dia seguinte a vida continua, e um terá que olhar na cara do outro, seja de que partido ou igreja for, leitor, ouvinte ou telespectador. Como sobreviverão estas duas instituições? Com que cara?

Na véspera do golpe dentro do golpe que foi o Ato Institucional Nº 5 decretado pelos militares, em dezembro de 1968, o Estadão publicou o editorial “Instituições em Frangalhos”, e a edição foi apreendida. Agora, pode publicar o que quiser e apoiar o candidato que melhor lhe convier sem correr este risco.  

Orgãos de imprensa e igrejas, jornalistas e religiosos, têm todo o direito de escolher seus candidatos, fazer campanhas por eles, detonar os adversários. Só não podem fingir que são santos e pensar que nós todos somos bobos.

Em tempo:

sempre achei que este espaço não deve ser utilizado para fazer campanha eleitoral, mas vou abrir uma exceção hoje para pedir aos meus caros leitores que votem no programa “Papo de Mãe”, na categoria Comunicação, do Premio Top Blog de 2010. Transcrevo abaixo a mensagem que recebi de Mariana Kotscho, a minha filha jornalista, que dirige e apresenta o programa junto com Roberta Manreza, no comando de uma equipe da melhor qualidade:  

“Oi!!! Você já votou no Papo de Mãe para o prêmio Topblog??? Se não votou, ainda dá tempo!!! Já estamos entre os 30 mais votados na categoria Comunicação e as votações se encerram no dia 10/11/2010.

 Para votar é só ir até o www.papodemae.com.br e clicar no selo do concurso. Ou, então, acessar direto pelo link:  http://www.topblog.com.br/2010/index.php?pg=busca&c_b=2799553. Depois, você receberá uma mensagem em seu e-mail pedindo que confirme o voto. É fácil. Peça para seus amigos votarem também!

Esta é uma campanha absolutamente “ficha limpa” em que o que conta é o resultado do nosso trabalho. Em nosso site você confere informações, opiniões,  participação de telespectadores e especialistas, dicas, entrevistas exclusivas e muito mais. Tudo isto com a credibilidade da Equipe Papo de Mãe – uma equipe de peso!   Não é à toa que um de nossos repórteres chama-se Pedrinho Tonelada (rsrs).

Contamos com seu voto. Obrigada!Mariana Kotscho

Equipe Papo de Mãe”

 

 

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
19/10/2010 - 13:45

Terceira onda foi só marolinha de Serra

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“Política é como nuvem. A gente olha, está de um jeito. Quando olha de novo, está de outro”, já dizia Magalhães Pinto, o grande banqueiro que virou governador e um dos ícones dos velhos políticos mineiros nos anos 60 e 70 do século passado.

Assim são as pesquisas eleitorais, como nos provou, mais uma vez, o último levantamento do Vox Populi/iG/Band divulgado nesta terça-feira. A tal terceira onda a favor de José Serra, que registrei aqui no Balaio quatro dias atrás, já se desmanchou antes de chegar à praia. A “boca do jacaré” se abriu de novo. O bicho está vivo.

“Vox/iG: Dilma tem 51%, e Serra 39%”, informa neste começo de tarde a manchete que está no ar no portal, mostrando que a diferença a favor da candidata petista sobre o tucano aumentou de 8 para 12 pontos de uma semana para outra. Nos votos válidos, a vantagem de Dilma é maior ainda: subiu três pontos, de 54% para 57%, e Serra caiu três, de 46% para 43%, elevando a diferença para 14 pontos.

Com estes números, a apenas 12 dias da abertura das urnas, a eleição já estaria mais uma vez decidida, como já esteve em todas as pesquisas na reta final do primeiro turno, apontando a vitória folgada de Dilma Rousseff _ e, no entanto, como todos sabemos, estamos em plena disputa do segundo turno, que começou com uma onda a favor de Serra.

Constatamos haver no momento uma diferença de seis pontos entre os números deste Vox Populi e o último Datafolha, que registrou apenas oito pontos a favor de Dilma (54 a 46) nos votos válidos _ e maior ainda em relação ao Sensus, o único até agora que apontou um empate técnico. De qualquer forma, todos os institutos mostram que Dilma estaria eleita se a eleição fosse hoje.

Como não é, e ainda temos pela frente dois debates na televisão (na Record e na Globo), mais as capas de revistas neste final de semana e as manchetes dos jornais até o dia 31, ninguém deve soltar fogos ou começar a chorar antes da hora. Vale a lição do primeiro turno: por mais que seja pesquisado, o eleitor é imprevisível como as nuvens. A única diferença é que desta vez não temos uma Marina Silva na disputa.

Se depender do apoio de artistas, Dilma leva vantagem: nas capas dos jornais de hoje, ela aparece abraçada com Chico Buarque, enquanto Serra surge ao lado de Fernando Gabeira.

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
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