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13/07/2010 - 13:39

Anunciada a morte do Jornal do Brasil

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Só falta marcar a data da morte, aos 119 anos, do melhor jornal em que já trabalhei na vida, um símbolo da imprensa brasileira do século passado.

Ainda esta semana, Nelson Tanure, o atual dono da marca, vai anunciar o dia em que deixará de circular o Jornal do Brasil, um dos mais antigos, revolucionários e respeitados veículos já publicados no país. Fosse uma pessoa, era o caso de dizer como antigamente: trata-se de uma perda irreparável. Para lembrar dele, restará apenas uma versão eletrônica.

O necrológio já havia sido muito bem escrito pelo colega Carlos Brickmann, semana passada, em sua coluna no Observatório da Imprensa. Agora, quem anunciou oficialmente o desenlace, em sua edição desta terça-feira, por ironia do destino, foi justamente O Globo, outrora principal concorrente e algoz do Jornal do Brasil.

Trabalhei por três temporadas no JB, primeiro como seu correspondente na Europa, na década de 1970, e depois na sucursal paulista, nos anos 80/90.  

Para se ter uma idéia da fôrça e do prestígio deste jornal, quando fui contratado pela grande jornalista Dorrit Harazim para ser seu correspondente na então Alemanha Ocidental, ela me alertou para a responsabilidade: “Você vai ter que se comportar como se fosse um embaixador do JB na Europa”.

No elegante restaurante da diretoria, onde fui convidado a almoçar para ser apresentado aos meus novos chefes, os homens estavam todos de terno e havia tantos copos e talheres à minha frente que não sabia nem por onde começar _ ainda mais, depois da advertência da Dorrit, a chefe dos correspondente internacionais do jornal. 

De roupa esporte, me senti um verdadeiro caipira sentado à mesa da rainha da Inglaterra. Meses depois, participaria com Dorrit de uma reunião dos correspondentes do JB na Europa, um timaço com mais de dez jornalistas na época, convocada para acontecer num grande hotel de Paris _ vejam que chique…

O JB deste tempo ainda reunia a seleção brasileira da imprensa. Não havia limite de despesas para se fazer uma boa reportagem. O grande sonho de todo jornalista era trabalhar lá um dia. Tinha vários craques em cada editoria. Ouso afirmar que nunca mais se montou uma redação daquela qualidade em jornal algum.

Não vou me meter a elencar os nomes, como fez o robusto Carlinhos em sua coluna, “O circo da notícia”, porque eram tantas as estrelas que não vou me lembrar de todos os mestres com quem convivi. Basta apenas lembrar, por exemplo, que trabalhei ao lado de Walter Fontoura, Elio Gaspari, Ancelmo Góis, Zuenir Ventura, Ricardo Setti, Célia Chaim, Renato Machado, Augusto Nunes e Evandro Teixeira, entre tantos outros cobras do jornalismo.

O que mais me fascinava no Jornal do Brasil era o ameno ambiente de trabalho e a absoluta independência editorial. Para se ter uma idéia, a dona era uma condessa, a condessa Pereira Carneiro, e o diretor, um lorde, o seu genro Nascimento Brito.

Nunca os vi de perto e jamais recebi uma “ordem da diretoria” para fazer ou deixar de fazer determinada matéria. Mais tarde, as coisas mudariam, e o jornal entraria numa crise financeira e editorial que o levaria à decadência, até ser arrendado para o empresário Nelson Tanure, em 2001. Começava ali a sua agonia. Em 2009, Tanure levou à morte de outro grande jornal, a Gazeta Mercantil.

Teria mil histórias a contar sobre o meu trabalho no JB, que não cabem num blog, mas podem ser encontradas no meu livro de memórias “Do Golpe ao Planalto _ Uma vida de repórter”, da Companhia das Letras.

Ao ver a notícia do falecimento esta manhã, fiquei muito triste. Foi como se estivessem apagando da paisagem e levando embora para sempre o lugar onde passei a melhor fase da minha já longa vida profissional.

Restavam lá trabalhando apenas 60 jornalistas, a circulação vinha minguando abaixo dos 20 mil exemplares, o jornal já tinha encolhido de tamanho e o passivo chegava a 100 milhões de reais. Alguns dos seus antigos craques hoje ainda podem ser encontrados nas páginas de O Globo. A imprensa brasileira deveria decretar três dias de luto.

Em tempo 1: alguns leitores me cobraram por não ter publicado um post sobre a decisão da Copa em que a competente Espanha levantou o caneco diante da irreconhecível Holanda, que mais parecia um time de fazenda dando pernadas e ponta-pés a três por quatro. Nada escrevi porque nada tinha a acrescentar aos comentários dos meus colegas do iG. A Espanha jogou melhor e mereceu o título, só isso. Foi o que disse hoje de manhã em entrevista ao meu amigo Sergio Canova, que apresenta o programa “Bola na Trave”, que pode ser visto no www.nauweb.tv, a partir das 9 horas desta quarta-feira. 

Em tempo 2: uma bela notícia desta terça-feira foi a chegada à Espanha dos primeiros sete dissidentes cubanos libertados, de um total de 52 presos de consciência que o governo dos Castro prometeu soltar até o final do ano. A notícia sobre as negociações entre o governo e a igreja católica de Cuba para a libertação destes presos foi antecipada pelo Balaio no último dia 16 de junho.

Em tempo 3: mais uma vez, peço encarecidamente aos queridos leitores que não escrevam seus comentários só com letras maiúsculas. Isso prejudica a leitura e aborrece os demais leitores. Ninguém precisa gritar para ser ouvido. Não somos surdos. Vou começar a deletar os comentários de leitores que não atenderem a este apelo. Também peço que se evite o interminável bate-boca entre alguns internautas sobre as suas preferências partidárias, qualquer que seja o tema do post. Chega uma hora que fica chato. E ninguém vai convencer ninguém a mudar de candidato a esta altura do Fla-Flu da eleição.

Em tempo 4: meu colega Guilherme Barros, que entrevistou Nelson Tanure, informa aqui mesmo no iG que o enterro do Jornal do Brasil impresso já tem data marcada: 1º de setembro. Na verdade, o velho JB já morreu faz tempo. Só faltava mesmo enterrar.

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:

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211 comentários para “Anunciada a morte do Jornal do Brasil”

  1. Mas o JB continua online, torço para que se transforme num grande portal não alinhado com a imprensa golpista
    ..
    Discurso de deputado sobre a capa da Veja

    FONTE: http://www.youtube.com/watch?v=o27oJZYGVB0

  2. A Copa dos erros
    A final simbolizou o futebol violento, burocrático e enfadonho que prevaleceu na África do Sul. A vitória do supervalorizado time espanhol coroa um pragmatismo que parece ter se transformado em sinônimo de sucesso, principalmente para as equipes menos capacitadas: aversão ao risco, marcação, resistência.
    Fazia tempo que não víamos a mídia esportiva errar tantas previsões. Mal iniciada a competição, Itália, França e Inglaterra calaram metade dos oráculos de botequim. Brasil, Argentina, Portugal e Alemanha viveram seus momentos de “virtuais campeões” durante os mata-matas, com os resultados conhecidos. Por outro lado, seleções menosprezadas (Uruguai, Paraguai, Chile) surpreenderam positivamente.
    As estrelas também ficaram devendo. Rooney, Lampard, Kaká, Robinho, Cristiano Ronaldo, Eto´o e Messi (este em menor intensidade) decepcionaram os fãs. Estavam claramente fora de condições físicas. Mas a falta de destaques individuais não redundou necessariamente em forças coletivas inquestionáveis. Não houve um grande time. Quase todas as partidas emocionantes tiveram nível técnico medíocre.
    Se a Fifa não superar o ridículo arcaísmo tecnológico, as competições internacionais logo perderão a credibilidade restante. Os erros bizantinos de arbitragem novamente decidiram jogos numa Copa, e talvez a própria conquista da taça. A estranha tolerância de Joseph Blatter com esse absurdo permite suspeitas de manipulação e mancha definitivamente a história do esporte.
    A desorganização e as falhas infra-estruturais das sedes sul-africanas demonstram que é necessário muito problema para inviabilizar uma Copa do Mundo. E também revela algo sobre a sanha denunciatória da imprensa (brasileira, inclusive), quando se trata de cobrir festividades alheias.

  3. Bom dia Ricardo!
    Bom dia amigos balaieiros!

    Não sou, e nem nunca fui um expert em política. Estou ciente das dificuldades em se governar. A dificuldade em se aceitar uma oposição que pelo próprio nome se identifica como “opositor” , porém, assim como a “situação” também se utiliza de meios bastante criticáveis no ponto de vísta ético, e muitas vezes moral.
    Me lembro da atual situação, quando era oposição, e suas críticas EM TUDO que era colocado pelo governo.
    Muitas destas coisas ajudam atualmente na governabilidade, isso é fato. Outras foram criadas atualmente, e apesar das críticas, tem apresentado alguma eficiência.
    Assim seguem as democracías. Cada governo comete seus erros, e acertos (estou ciente disso).
    O que na verdade eu custo a entender, é essa comparação entre governos, sendo que cada qual agía sob determinada circunstância completamente diferente.
    A imprensa serve como “analísta” dessas circunstâncias, e apesar de muitos condenarem, eu acredito que sem essas “análises”, estaríamos cegos.
    Não vejo como não …digamos! “Malhar” algumas atitudes, ou a falta delas quando necessário.
    É através da mídia que o povo se conhece. Que estabelece a sua indentidade, e por que não? Controla os organìsmos que administram seus impostos? Um dos mais caros do mundo.
    Eu, quando posso, estou seguindo vários blogs, da situação, e da oposição. Vejo os argumentos, estudo os assuntos, pesquiso sobre as denúncias, e busco conhecimento para poder continuar com meu protesto em votar nulo.
    Já disse que sou a favor da “facultabilidade” do voto.
    Tenho consciência de que posso estar errado, e no perigo que isso possa representar à um pais que está “tentando” ser democrático, mas sempre acenando no sentido contrário.
    O JB, tema desse post, assim como outros jornais, não irá desaparecer, mas sim -como disseram alguns leitores aqui- mudar de forma. Isso é necessário, e por que não dizer, ecológicamente correto”?
    Se a imprensa cobra que se apurem QUEM VIOLOU OS DADOS DA RECEITA , e POR QUE, que divulguem. Isso foi um crime? Sabem quem são os responsáveis? Então que se cumpra a lei.
    Se um governante se sente difamado, injuriado, ou questionado injustamente, que busque amparo legal, e processe o órgão devidamente.
    Essa de ficar jogando de “perseguído injustamente “, é que eu não engulo.
    Já falei aqui sobre o “portal” que foi retirado do ar por não corresponder ao que é “pregado” pela situação.
    Ninguém da imprensa fez isso. Foi o próprio governo quem pôs, e em seguida retirou.
    Agora, querer “amordaçar” e inviabilizar a credibilidade de uma imprensa que faz o seu papel fiscalizador, é no mínimo um absurdo.
    Assim também como mandar demitir reporteres, concordo.
    Emitir opinião, é um direito descríto na constituição, e isso é soberano.

    …estou observando…

    Abraços!

    Robson de Oliveira nosbornar@ig.com.br
    http://ecoblog-blogeco.blogspot.com/ (meu bloguinho)

    • Pedro Borges disse:

      Muito bem, Sr. Robson, muito bem.
      Permita-me uma discordância:
      Ninguém foi demitido, como bradam os petralheiros da internet.
      Basta pesquisar. Basta querer saber.
      Os aludidos jornalistas estão onde sempre estiveram.
      Entretanto, sabemos o que aconteceria a jornalistas se, na tv do lula ( a que ninguém vê), fizessem perguntas à candidata sobre os dossiês e os novos aloprados, o programa contendo premissas da ala mais radical do pt, que ela assinou-mas-não-leu (assinou, não:”rubricou”), se é contra ou a favor das invasões criminosas do MST e que papel terão no seu eventual governo e outras perguntas inconvenientes:
      Demissão sumária, difamação e perseguição. No mínimo.

    • Pedro Borges disse:

      Outras perguntas que poderiam contrariar a dilma:
      O caso Lina Vieira, e agora do EJ.
      Ambos os casos com flagrante quebra de sigilo fiscal.
      Dilma só se igula à lula no quesito mentira.

    • Victor Hugo disse:

      Robson, estou com voce na facultabilidade do voto. Já pensou na militância do PT com estrelas e bandeiras em marcha para as zonas eleitorais no dia da votação com seus titulos eleitorais em punho, cantarolando “Dilma, Dilma, Dilma !!!!!

      Que espetáculo hein, Robson ?

      Enquanto isso os cansados do “Cansei” refestelados em suas poltronas trajando pijamas e com o controle remoto em punho :

      Ó dia. Ó azar. Serra e Indio Merenda não vai dar certo !!!

    • Fernando disse:

      Robson, li o seu texto, mas nem tudo é assim como expõe.
      A dona Judith Brito,representante da grande mídia, não falou só em fiscalizar o governo. Disse que a imprensa é oposição, em virtude da fragilidade da mesma.
      Afinal, que imprensa é esta que só tem um lado.
      Quero que me informe da verdade e não deturpe notícias com manchetes enganosas. Quando lemos a matéria na sua totalidade, vemos que não é nada que a manchete diz.

    • Victor Hugo disse:

      Robson, se tivêssemos imprensa e jornalismo imparciais, iríamos apurar as Megas maracutaias, como o golpe do Cacciola e funcionários do Banco Central que faturaram 4 bilhoes de dólares com informações privilegiadas sobre a maxi-desvalorizaçã do Real no governo FHC.

      A Policia Federal era tão atuante na era FHC que Cacciola só foi preso em Monte Carlo “decadas” depois e extraditado para o Brasil graças ao Tarso Genro, ministro de Lula.

      Mas e os outros participantes, todos do 1º, 2º e 3º escalões do governo FHC ?

      Escaparam ilesos, graças a inoperância da Policia Federal nos tempos do FHC.

      Robson, conhece a nova piadinha do pessoal do PT ?

      “Nós concordamos que o Lula pare de falar bem da Dilma, desde que FHC comece a falar bem do Serra “.

      Quá quá quá quá !!!!

  4. Marcos Negrão disse:

    Apesar de ser um leitor assíduo de jornais, nunca fui fã do JB. Sempre o achei acariocado demais, portando, ja vai tarde JB.
    P.S. Antes tarde do que nunca, mas a decisão de deletar os inoportunos me agradou bastante. DEL neles, Kotscho!

  5. Luiz Carlos disse:

    O Augusto Nunes é um dos grandes responsáveis pela derrocada do JB.

    • Fernando disse:

      Luiz Carlos, esse sr é o resto dos jornalistas, quando não tem argumentos e vc tiver erro de português fica ironizando.
      Esse lambe-botas está como auxiliar do chapeludo e mainard

  6. Ricardo!
    Não sei muito sobre a história do JB. O pouco que sei vem da leitura de seu livro. Todavia eu lamento a morte do jornal. Muitas funcionários na rua. Pais e mães de família na onda do desemprego. Lamentável mesmo.
    Por fim, agradecço ao JB por ter nos premiado com textos de gente boa como você, Noblat e Zuenir.
    Tudo de bom!

  7. O tiro certo disse:

    Quando chegar a vez da revistinha de comédias Veja eu vou tomar um porre.

  8. MARCOS disse:

    JUSTIÇA ELEITORAL PLANEJA CASSAR A CANDIDATURA DE DILMA ROUSSEF.

    SERÁ UM MANOBRA POLÍTICA?

  9. Victor Hugo disse:

    O Pedro Borges não lembra alguem ?

    Será um clone do saudoso Reginaldo Gadelha ?

  10. disse:

    Boa tarde!
    Lamento profundamente a baixa da imprensa de um grande jornal como este, o Brasil precisa cada vez mais de independência na imprensa e o Jornal do Brasil tinha esse estigma de publicar sempre as notícias sem cortes, fico triste tanto quanto Ricardo Kotscho.É o Brasil empobrecendo na mídia escrita.
    Ainda bem q continuará on-line!

  11. Brasileiro disse:

    Com o fim do JB, lá se vai mais um testemunho (IMPARCIAL) da nossa história. Tomara que preservem (e bem) o seu vasto arquivo, não deixando-o cair em mãos erradas. Desde 2002, já me sentia órfão do jornal, mas agora… Muito triste…

  12. Rodrigo Garcia disse:

    Triste e belo obituário do JB, Ricardo.
    Pêsames para todos nós.

  13. É uma tristeza esse fim do JB. Aproveitando, gostaria de sugerir a todos assistir ao programa Comitê de Imprensa, produzido pela TV Câmara, sobre o caso do Jornal do Brasil. Participo do debate, como ex-Repórter Especial do Jornal do Brasil que fui somando mais de 30 anos no antigo grupo e a professora Zélia Leal, da UNB, especialista em jornalismo online. Ele vai ao ar hoje Segunda, 26, às 9h30m, Terça, 27, às 9;30, quinta, 29, às 8h30, e sexta 30, às 6h30.

  14. [...] O depoimento de um repórter [...]

  15. [...] Ricardo Kotscho, who worked for JB from the 70's to the 90's, says that the newspaper was slowly dying out [...]

  16. [...] Kotscho, who worked for JB from the 70’s to the 90’s, says that the newspaper was slowly dying out [...]

  17. [...] O jornalista Ricardo Kotscho, que trabalhou no JB dos anos 70 aos 90, diz que o jornal estava morrendo lentamente: [...]

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