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30/03/2010 - 08:26

Papa, Lula, Serra e o poder da imprensa

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Primeiro ministro das Comunicações do governo Lula, o jornalista e deputado federal Miro Teixeira (PDT-RJ) nem terminava de ouvir as queixas que o presidente e seus colegas de gabinete lhe faziam contra a imprensa. Com bom humor, apontava para mim, e encerrava a discussão:

“A culpa é do Kotscho!”. Na época, eu era o responsável pela área de imprensa do governo.

Toda vez que nos encontrávamos, era esta a saudação que ele me fazia, e faz até hoje. Lembrei-me destas brincadeiras do Miro ao  ler as queixas do papa Bento 16, do presidente Lula e do governador José Serra contra a cobertura que a imprensa lhes dedica. Os motivos são diferentes, mas a bronca é a mesma. 

Criticado por acobertar a prática da pedofilia envolvendo padres da sua igreja, Bento 16 aproveitou a missa do Domingo de Ramos no Vaticano para desabafar e garantiu que não se deixará intimidar por “fofocas de opiniões dominantes”.  

O presidente Lula, que vive às turras com a chamada grande imprensa desde o início do seu governo, subiu o tom nos últimos dias e acusou de “má-fé” orgãos de imprensa que dão mais destaque a problemas do que às grandes obras do seu governo.

Na mesma linha, o governador Serra, que já bateu de frente com repórteres da TV Record e da TV Brasil, cobrou publicamente, na semana passada, mais destaque na cobertura jornalística das suas obras na área de saúde e qualificou de levianas algumas informações publicadas. 

Que se passa para juntar no mesmo balaio figuras públicas tão diversas?

Não há nas reações de Bento 16, Lula e Serra nenhuma grande novidade. Sempre foi assim, desde que comecei a trabalhar em jornal, já faz quase meio século. Tanto nas igrejas como nos governos, ninguém gosta de ser criticado, e confunde-se habitualmente jornalismo com propaganda.

A partir do momento em que a imprensa começou a ser chamada de quarto poder, alguns coleguinhas, de fato, se empolgaram com seu papel, e passaram a agir como se fossem, ao mesmo tempo, policiais, promotores e juízes, dando-se o direito supremo e único de denunciar, julgar e condenar qualquer pessoa, entidade ou instituição.

Sem entrar no mérito das queixas dos três personagens citados neste texto, o fato é que há algo de muito estranho acontecendo no nosso país quando a presidenta da Associação Nacional dos Jornais (ANJ), Judith Brito, se sente no direito de afirmar, como fez em recente encontro promovido em São Paulo, segundo o jornal O Globo:

“A liberdade de imprensa é um bem maior que não deve ser limitado. A esse direito geral, o contraponto é sempre a responsabilidade dos meios de comunicação. E, obviamente, esses meios de comunicação estão fazendo de fato a posição oposicionista deste país, já que a oposição está profundamente fragilizada. E esse papel de oposição, de investigação, sem dúvida nenhuma incomoda sobremaneira o governo”.

Como assim? Quer dizer que, se os partidos de oposição estão fragilizados, cabe aos orgãos de imprensa representados pela ANJ assumirem a tarefa de enfrentar o governo?

Está aí uma coisa que muita gente já vinha desconfiando, mas ninguém ainda da alta cúpula da mídia havia admitido assim, publicamente, com tanta franqueza: em lugar do PSDB, DEM e PPS, a oposição oficial, agora era a mídia, que deveria assumir esta responsabilidade.

Em seus encontros anteriores, como a do Instituto Millenium, os donos da mídia e seus homens de confiança, ao contrário de Brito, acusavam o governo exatamente de ameaçar a liberdade de uma imprensa que sempre fez questão de se dizer independente, apartidária, plural, neutra, objetiva, isenta e tal, que se limita a apurar e publicar fatos.

De outro lado, não acredito que seja tarefa de governantes criticar coberturas jornalísticas e dizer como o trabalho da imprensa deveria ser feito. Não ganham nada com este papel de ombudsman e só pioram a relação com a mídia. Já tive a oportunidade de dizer isso várias vezes ao meu amigo presidente Lula, quando trabalhei com ele, e até agora. Cabe, sim, à imprensa fiscalizar e criticar os governos de qualquer latitude.

A confusão começa, porém, quando esta mesma imprensa deixa de lado os cuidados com seus deveres de bem informar a  sociedade para agir como partido político. Se cada um cuidasse apenas da parte que lhe cabe na grande orquestra da democracia, todos sairiam ganhando.

Sobre este mesmo tema, meu colega Luciano Martins Costa, escreveu no Observatório da Imprensa: “O risco maior para a imprensa vem da própria imprensa, quando os jornais se associam para agir como um partido político (…) Quando a imprensa abandona seu eixo, todos saem perdendo. Principalmente a imprensa”.

Se até o Papa, que é o Papa, já anda reclamando das “fofocas” da imprensa, posso imaginar como se sente diante deste poder o cidadão comum, que hoje não tem nem direito a resposta em nosso país.

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:

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210 comentários para “Papa, Lula, Serra e o poder da imprensa”

  1. Joares Calado disse:

    O que eu acho muito especial na política do Lula é o efeito que ela gera nos eleitores do Serra, pois nunca na história deste país se entendeu tanto de política externa. Eu conheço um que até disse: “O Lula não tem competência nem se quer de governar um condomínio, como pode se meter em problemas de Israel e Palestina?”. Mas dei-lhe esta resposta: Amigo o povo e o mundo sabem o que você sabe da competência do Lula. Só alguns paulistas sabem e não assumem e sabem também que já foi prometido pelo Serra e pelo Alkcmim há vinte anos para São Paulo, e nada foi resolvido, segurança falha, saúde precária e os mistérios da corrupção. É preciso alguém fazer algo diferente, e Dilma e Mecadante, como o Lula são diferentes. Aí está a diferença com ação! Ou então, a coligação PSDB-DEM do Kassab.

    • Fred Oliva disse:

      Prezado Joares, não perca tempo com essa gente. Como já disse aqui mesmo várias vezes “os paulistanos tornaram-se reféns da própria estupidez”.

      Acham que qualquer tipo de crítica aos tucanos pode significar um elogio aos petistas. E aceitam calados e até com aprovações, todo tipo de argumento contra o PT e Lula. Veja, Folha, Estadão e Rede Globo sabem disso e deitam e rolam em cima desses otários.

      Antes que os idiotas de plantão comecem a jogar pedra, esclareço que sou paulistano do Cambuci e, às vezes, me sinto envergonhado de dizer que nasci em São Paulo.

      Mas, alguém também já disse aqui, que o que revolta não é o espírito crítico do PIG em relação ao governo Lula, isso só não é bom mas recomendável. Mas a ausência completa do mesmo espírito crítico em relação aos últimos governos tucanos em São Paulo.

      Depois de Mário Covas, praticamente não se lê nada, que não sejam notinhas básicas, como as das enchentes recentes e, assim mesmo, sempre acompanhadas de estatísticas quase culpando São Pedro pelo caos.

      Abraços.

  2. Edna,2 disse:

    Para Senhor Jorge -postado no dia 30/3/2010 – ás 21:37.
    Caro Senhor Jorge,eu em momento algum generalizei a minha crítica a respeito da Igreja,o Senhor deve ter interpretado-me mal.
    Concordo com o Senhor,quando diz:a Igreja é Santa por ser Divina,como em todo segmento existem pessoas más,cruéis,e na “nossa Igreja,existem pessoas(se é que se podem chamá-las de pessoas)que cometeram,e provavelmente continuam a cometer,atos que não são dignos de pessoas que tem Deus no coração,e que dizem que são representantes de Deus,aqui na terra.
    Posso estar errada,pois não sou dona da verdade,e nem pretendo ser,mas eu não consigo perdoar,e aceitar o comportamento dessas pessoas,volto a dizer:posso estar errada,mas fazer o quê?

  3. jg disse:

    Será que a imprensa, que mais ataca do que critica ou informa, não está caindo numa “burrice cavalar” digamos assim?
    Capaz! Para os partidos oposicionistas é melhor, muito mais confortável, que alguém faça o trabalho sujo, ou o trabalho duro melhor dizendo, por eles (os partidos).
    Além disso, a oposição há muito já entendeu que é perda de tempo atacar o Governo Lula, sem contar os perigos de se queimarem cada vez mais diante do povão.
    E mais, a Presidenta da ANJ, falou besteira por pau mandado e por pura raiva incontida, sentindo a força incontrolável das simples mas sábias palavras do nosso Presidente da República.
    O Povão, em primeiro lugar, ouve Lula.

    • Fred Oliva disse:

      Interessante o raciocínio desta senhora, a tal de Judith Brito.

      Ela acha que a imprensa tem que fazer oposição porque a oposição (PSDB/DEM) é incompetente para fazer oposição.

      Como até as pedras sabem que foram incompetentes também nos oito anos que tiveram o poder (FHC), a dedução é cristalina:

      “Vamos fazer oposição ao governo Lula para que, quem foi incompetente como governo e oposição volte ao poder”

      Durma-se com um barulho desses…

  4. Mauricio Wanderley disse:

    Quando se trata de política a memória falha e, para compensar, inventa histórias e as repete à exaustão. É o caso da apregoada “incompetência” dos governos do PSDB em S.Paulo. Como o eleitor paulista persiste mantendo os tucanos no governo, porque entende ao contrário, só resta a generalização do “governo incompetente”, não é “tchurma”?
    Aliás, a “tchurma” é especialmente competente na arte de desinformar. Repetir, repetir, repetir até que alguem, diga:
    “Deve ser verdade. Eles não param de repetir”
    A campanha eleitoral está chegandoi. Lembrem-se: Mentir
    sôbre o adversário é sinal de fragilidade. Sou mais o povo de S.Paulo. Como toda generalização, esta tem os mesmos defeitos. Nem todos da “tchurma” mentem. Agem de bôa fé. Devemos respeitá-los. Não estão na direção do
    partido. Mas vão votar nêles achando que estão defendendo a democracia.Não estão.
    Democracia sem adjetivos é democracia.
    Democracia do Comitê Central do Partido não é democracia. Não é “companheira” Dilma?

  5. Pedro disse:

    Agora é Mercadante em São Paulo. Nosso futuro governador será do PT. Vamos mudar São Paulo, é hora de renovar. Vamos de Mercadante para governador.

  6. Zé Aniba disse:

    Sr Kotscho, és indiscutivelmente um grande jornalista e teus textos são de inestimavel valor. Mas este blog nao está à tua altura, pois nao deixas claro quais critérios adotas para a moderaçao dos comentarios. Os eleitores/politicos do PT foram tratados de “petralhas” num texto, salvo engano, do Sr Reginaldo Gadelha, e quando perguntei ao autor que apelido criativo daria aos eleitores/politicos do PSDB e DEMO o texto sumiu, privando seus leitores do prazer de saborear a criatividade do criador do engraçadissimo termo “petralhas”, não acha ?

    Em tempo: Peço perdao ao Gadelha, se tiver cometido erro de autoria.

  7. Mauricio Wanderley disse:

    O problema de segurança pública é principalmente da legislação que, defasada, não atende mais às necessidades atuais A sensação e a realidade da impunidade generalizada incentiva o crime. O Tratamento da criminalidade de menores é o que se vê. Etc, etc. O resultado é que a repressão torna-se insuficiente em face da falta de recursos, de preparo, de tecnologia, de logística, de pessoal habilitado e demais condições.Isto em todas as áreas. Conclusão – a solução está no congresso, onde não há ninguem interessado em resolver e atualizar e adequar a legislação Os governos federal e estaduais
    nunca conseguirão vencer esta guerra sem as armas suficientes. Estamos perdendo batalha atrás de batalha. É assunto para se exigir dos candidatos uma promessa de solução. Não adianta jogar nas costa do governador que é candidato da oposição. Pega em todos os governadores
    adeptos da situação tambem. È isso aí Pedro. Menos radicalismo é bom e ajudará a ser ouvido..

  8. Mauricio Wanderley disse:

    Oh gente. Qual é a alternativa. Emissoras do governo? Dos sindicatos? Dos partidos? A única é manter viva a democracia. Se v. não gosta ou não concorda com o que ouve na Globo, na Record, no SBT ou qualquer outra estação, mude de canal ou desligue a tv. Se preferir ler jornal, não faltarão jornais de todas as tendências. Pode escolher à vontade. Ou ouça rádio. Tem até igreja prometendo o paraíso em troca de um dízimo. Basta aderir. O que é importante é o seu direito de ter opinião. Defenda-o com todas as suas forças ou nos tornaremos uma Cuba, Venezuela, etc, onde nunca encontrarão solução para suas demandas pois os Comitês é que decidem.

  9. Mauricio Wanderley disse:

    A todo o pessoal que está apoiando Dilma face à escolha do presidente de fazê-la candidata.
    Como toda a argumentação é baseada nos feitos do presidente atual, há a presunção de que a Sra Dilma vai continuar no mesmo caminho. Será? Não sabemos. Como a origem dos dois (Lula e Dilma) é muito diferente, sabemos que o presidente manteve os radicais do partido sob controle, impedindo-os de participar da solução dos principais problemas do país.Com algumas excessões na área internacional. E a candidata? Da mesma origem dos radicais que o presidente manteve sob controle, conseguirá ou vai querer controlá-los? É um risco que ninguem que preze a democracia, tem o direito de correr, até porque o que está em jogo é o futuro dos nossos filhos e netos. Como viverão num país com suas liberdades castradas por radicais de um partido só? Deus permita que o povo brasileiro entenda que está em uma encruzilhada.

    • josimar disse:

      Mauricio, nosso país tem um regime presidencialista e por força disso, governa com uma coalizão. No primeiro mandato de Lula, não havia uma coalizão forte e por isso houve vários problemas, como o mensalão por exemplo, mas no segundo, com o PMDB em peso na coalizão, quase não teve problemas. Esse “radicalismo” que você aprogoa não tem a mínima chance de vigorar, por não ser viável dentro da próxima coalizão.

  10. Marcio disse:

    Chega de trololó, agora é hora do PT em São Paulo também. MERCADANTE GOVERNADOR. Paulistas chega de PSDB em São Paulo, vamos abrir os olhos. Querem ver São Paulo crescer e vencer então mudem e elejam MERCADANTE para governador!!

  11. marcos disse:

    É isso mesmo. Votar no ALKMIN não dá mesmo! Esse cara perdeu até a prefeitura de São Paulo. Ficou atrás do Kassab e da Marta. Não foi nem para o segundo turno para prefeitura de São Paulo.

  12. Pedro disse:

    MERCADANTE VAI DAR TRABALHO EM SÃO PAULO. PESQUISAS DO DATAFOLHA INDICAM QUE ALKMIN ESTÁ MUITO A FRENTE AO GOVERNO PAULISTA (HÁ QUEM CONTESTE) O ALKMIN NÃO GANHOU NEM PARA PREFEITO DA CAPITAL PAULISTA, NEM SE QUER CHEGOU AO 2º. TURNO PARA PREFEITURA. E É ISSO QUE INTRIGA.

  13. Mauricio Wanderley disse:

    Josimar: A meu ver a nossa coalisão existe porque a legislação permite a existencia de mais de vinte partidos, o que impede a formação de maiorias e incentiva a corrupção. Eu não apregoo radicalismo, eu os constato. Infelizmente posições e decisões de fundo radical foram tomadas por nosso governo, principalmente na área externa. Lamento que o colega balaieiro não concorde. Eu vejo perigo. nas tentativas de controlar a imprensa, entre outras por exemplo. Afinal o preço da liberdade é a eterna vigilancia,disse alguem cujo nome me escapa neste momento. Haverá nesta eleição enorme dificuldade de diálogo pela quantidade de pessoas que tenta compensar a falta de argumentos com grosserias e agressões como pode ser visto em várias outras manifestações aqui no Balaio, não acha?

  14. rinaldo disse:

    Quanta compra e votos e conscienciais, o Brasil e um grande morro do bumba. Bolsa gás, bolsa geladeira, bolsa escola, bolsa celular, bolsa presídio. Que tal se se criasse a bolsa trabalho? Ah, não incrementa a comercio não é? A industria não venderia mais. Agora as casas do Rio, amanhã as de onde? Já começaram os carros bombas, os assassinatos lavram as ruas, enquanto isto, cuidamos das tartarugas. Que cinismo.

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