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Arquivo de março, 2010

31/03/2010 - 12:52

Como Meirelles foi parar no BC

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Com o dólar, a inflação e o risco Brasil subindo assustadoramente no período entre a eleição e a posse de Lula, no final de 2002, tornava-se cada vez mais urgente, para acalmar os mercados, que o novo presidente indicasse logo o ministro da Fazenda e o presidente do Banco Central. Foi preciso dar logo nomes aos bois para provar que a Carta aos Brasileiros, lançada em meio à campanha, era para valer.

O problema é que ninguém queria aceitar o cargo de presidente do Banco Central de um governo do PT. Após alguns convites recusados, Lula chegou ao nome de Henrique Meirelles, ex-presidente mundial do Banco de Boston e recém-eleito deputado federal pelo PSDB de Goiás, por indicação de Aloizio Mercadante, seu antigo assessor econômico, que acabara de se eleger senador pelo PT de São Paulo.

Já naquele momento não era fácil para Meirelles tomar uma decisão, como acontece agora com o suspense em torno da sua permanência ou não no Banco Central: para aceitar o convite de Lula, ele teria que renunciar ao seu mandato de deputado federal. Como sabemos, o poder de convencimento de Lula funcionou naquela ocasião.

Meirelles e Mercadante se conheceram em 1995, após a derrotada campanha presidencial de Lula no ano anterior, durante a implantação do Projeto Travessia, um programa social para menores de rua do centro da cidade, criado por iniciativa do Sindicato dos Bancários de São Paulo, no qual eu também trabalhei.

Então presidente do Banco de Boston no Brasil, Meirelles aceitou logo de cara o convite que lhe foi feito pelo presidente do sindicato na época, o hoje deputado federal Ricardo Berzoini (PT-SP), e vestiu com gosto a camisa do Projeto Travessia, que existe até hoje, e é considerado um modelo no atendimento a menores carentes.

Participamos juntos de várias reuniões para viabilizar o projeto e surgiu daí a admiração mútua entre Meirelles e Mercadante. Nem o homem do Boston estava nos planos iniciais do presidente eleito, muito menos Meirelles poderia esperar este convite, tendo sido eleito pelo PSDB, o partido derrotado pelo PT em 2002.

Da mesma forma como ninguém esperava que o médico sanitarista Antonio Palocci, então prefeito de Ribeirão Preto, fosse convidado por Lula para assumir o Ministério da Fazenda, a indicação de Meirelles só surpreendeu quem ainda não conhecia os critérios do novo presidente para montar seu governo.

Lula tinha deixado claro para sua equipe, antes mesmo antes da eleição, que pretendia chamar para o governo os que considerava  melhores em cada área, independentemente do partido a que pertenciam ou do candidato que tenham apoiado.

Foi assim que ele convidou o agrônomo Roberto Rodrigues, que havia se engajado na campanha presidencial do tucano José Serra, para o Ministério da Agricultura, ao descobrir que ele se encontrava hospedado no mesmo hotel em Araxá, onde Lula participava de uma reunião convocada por Aécio Neves com os governadores eleitos pelo PSDB.

Pelo mesmo motivo, convidou também outro apoiador de Serra, o empresário Luiz Furlan, então presidente da Sadia, para o Ministério do Desenvolvimento, encarregando-o de exercer o papel de grande mascate dos produtos brasileiros no exterior com a missão de abrir novos mercados.

No governo, Antonio Palocci (depois substituído por Guido Mantega) e Henrique Meirelles seriam os principais responsáveis, primeiro, pela estabilidade e, depois, pelo crescimento econômico registrado pelo país nos dois mandatos de Lula.

Por isso, a insistência do presidente Lula para que Meirelles permaneça à frente do Banco Central até o final do governo. Meirelles ainda não anunciou oficialmente o que pretende fazer da vida, mas tem tempo até esta quinta-feira para dizer se fica ou se sai do BC. Se depender do presidente Lula, que é muito grato a ele, e reconhece a sua importância para o bom momento econômico vivido pelo país, tenho certeza que Meirelles fica.

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
30/03/2010 - 08:26

Papa, Lula, Serra e o poder da imprensa

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Primeiro ministro das Comunicações do governo Lula, o jornalista e deputado federal Miro Teixeira (PDT-RJ) nem terminava de ouvir as queixas que o presidente e seus colegas de gabinete lhe faziam contra a imprensa. Com bom humor, apontava para mim, e encerrava a discussão:

“A culpa é do Kotscho!”. Na época, eu era o responsável pela área de imprensa do governo.

Toda vez que nos encontrávamos, era esta a saudação que ele me fazia, e faz até hoje. Lembrei-me destas brincadeiras do Miro ao  ler as queixas do papa Bento 16, do presidente Lula e do governador José Serra contra a cobertura que a imprensa lhes dedica. Os motivos são diferentes, mas a bronca é a mesma. 

Criticado por acobertar a prática da pedofilia envolvendo padres da sua igreja, Bento 16 aproveitou a missa do Domingo de Ramos no Vaticano para desabafar e garantiu que não se deixará intimidar por “fofocas de opiniões dominantes”.  

O presidente Lula, que vive às turras com a chamada grande imprensa desde o início do seu governo, subiu o tom nos últimos dias e acusou de “má-fé” orgãos de imprensa que dão mais destaque a problemas do que às grandes obras do seu governo.

Na mesma linha, o governador Serra, que já bateu de frente com repórteres da TV Record e da TV Brasil, cobrou publicamente, na semana passada, mais destaque na cobertura jornalística das suas obras na área de saúde e qualificou de levianas algumas informações publicadas. 

Que se passa para juntar no mesmo balaio figuras públicas tão diversas?

Não há nas reações de Bento 16, Lula e Serra nenhuma grande novidade. Sempre foi assim, desde que comecei a trabalhar em jornal, já faz quase meio século. Tanto nas igrejas como nos governos, ninguém gosta de ser criticado, e confunde-se habitualmente jornalismo com propaganda.

A partir do momento em que a imprensa começou a ser chamada de quarto poder, alguns coleguinhas, de fato, se empolgaram com seu papel, e passaram a agir como se fossem, ao mesmo tempo, policiais, promotores e juízes, dando-se o direito supremo e único de denunciar, julgar e condenar qualquer pessoa, entidade ou instituição.

Sem entrar no mérito das queixas dos três personagens citados neste texto, o fato é que há algo de muito estranho acontecendo no nosso país quando a presidenta da Associação Nacional dos Jornais (ANJ), Judith Brito, se sente no direito de afirmar, como fez em recente encontro promovido em São Paulo, segundo o jornal O Globo:

“A liberdade de imprensa é um bem maior que não deve ser limitado. A esse direito geral, o contraponto é sempre a responsabilidade dos meios de comunicação. E, obviamente, esses meios de comunicação estão fazendo de fato a posição oposicionista deste país, já que a oposição está profundamente fragilizada. E esse papel de oposição, de investigação, sem dúvida nenhuma incomoda sobremaneira o governo”.

Como assim? Quer dizer que, se os partidos de oposição estão fragilizados, cabe aos orgãos de imprensa representados pela ANJ assumirem a tarefa de enfrentar o governo?

Está aí uma coisa que muita gente já vinha desconfiando, mas ninguém ainda da alta cúpula da mídia havia admitido assim, publicamente, com tanta franqueza: em lugar do PSDB, DEM e PPS, a oposição oficial, agora era a mídia, que deveria assumir esta responsabilidade.

Em seus encontros anteriores, como a do Instituto Millenium, os donos da mídia e seus homens de confiança, ao contrário de Brito, acusavam o governo exatamente de ameaçar a liberdade de uma imprensa que sempre fez questão de se dizer independente, apartidária, plural, neutra, objetiva, isenta e tal, que se limita a apurar e publicar fatos.

De outro lado, não acredito que seja tarefa de governantes criticar coberturas jornalísticas e dizer como o trabalho da imprensa deveria ser feito. Não ganham nada com este papel de ombudsman e só pioram a relação com a mídia. Já tive a oportunidade de dizer isso várias vezes ao meu amigo presidente Lula, quando trabalhei com ele, e até agora. Cabe, sim, à imprensa fiscalizar e criticar os governos de qualquer latitude.

A confusão começa, porém, quando esta mesma imprensa deixa de lado os cuidados com seus deveres de bem informar a  sociedade para agir como partido político. Se cada um cuidasse apenas da parte que lhe cabe na grande orquestra da democracia, todos sairiam ganhando.

Sobre este mesmo tema, meu colega Luciano Martins Costa, escreveu no Observatório da Imprensa: “O risco maior para a imprensa vem da própria imprensa, quando os jornais se associam para agir como um partido político (…) Quando a imprensa abandona seu eixo, todos saem perdendo. Principalmente a imprensa”.

Se até o Papa, que é o Papa, já anda reclamando das “fofocas” da imprensa, posso imaginar como se sente diante deste poder o cidadão comum, que hoje não tem nem direito a resposta em nosso país.

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
29/03/2010 - 09:39

Querem tirar bichos da Água Branca

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A vida não é feita só de manchetes _ sucessão presidencial, julgamentos, futebol, denúncias, guerras, terremotos e desgraças em geral. Tem muita gente que se preocupa também com assuntos mais próximos da gente. Podem parecer preocupações menores, menos importantes para a grande mídia, mas são elas que fazem o dia a dia de cada um dos simples mortais.

É este o caso da mensagem que recebi neste final de semana da assistente social Malu Genevois,  filha da minha grande amiga Margarida Genevois, minha eterna presidenta da Comissão de Justiça e Paz, com quem tive a honra de trabalhar nos tempos de d. Paulo Evaristo Arns.

Moradora do bairro de Perdizes, e há mais de vinte anos frequentadora fiel do Parque da Água Branca, aonde vai caminhar todos os dias, Malu está preocupada com o destino dos bichos que andam soltos por lá. Descobriu que a administração está pensando em deixar apenas alguns deles confinados num galinheiro porque pretende implantar uma praça de alimentação neste bucólico espaço rural plantado no meio da metrópole.

Seu relato, que reproduzo abaixo, é um sinal de alerta para que a cidade não perca um dos poucos refúgios naturais que fazem bem aos olhos, aos ouvidos e à alma, um lugar onde as crianças ainda podem ser apresentadas a animais ao vivo, que muitas só conhecem da televisão. Faz bem ler o que Malu Genevois me escreveu. É uma forma agradável de começar bem a semana:

O PARQUE DA ÁGUA BRANCA

Como um “oásis” em meio a tanto asfalto, o Parque da Água Branca é uma delícia! Cocoricó de galos, cacarejos das galinhas d’angola, corridas de pintinhos atrás de milho, pavões sobre os telhados chamando seus pares com grito forte, patos e gansos nos lagos, peixes vermelhos e brancos no tanque… Sabiás que caminham tranqüilos, sem medo dos passantes. Além dos gatos malhados, que se aconchegam ao sol e que bebem água diretamente da torneira. Tudo isso em meio a uma vegetação exuberante!

Os freqüentadores do Parque, de todas as idades, usufruem do privilégio de participar do espetáculo diário feito de sons dos bichos e cheiros das plantas, dentro de um cenário de luz e sombras formado por enormes árvores, por arbustos e bambus.

Para quem não conhece, há muitos prédios espalhados pelo Parque, onde funcionam vários tipos de instituições. Três vezes por semana acontece a feira orgânica, com a venda direta de produtores aos consumidores. As construções seguem o estilo antigo da época em que foram iniciadas (primeira metade do século 20), com as cores amarela e marrom em torno das janelas e portas.

Nas alamedas entre esses prédios, pode-se ver os muitos freqüentadores a caminhar, correr, bater papo, tomar sol. Muitas crianças conheceram, ali, animais que nunca tinham visto “ao vivo”. E os gritinhos com que manifestam a sua alegria frente a um pato, a um galo ou a vários pintinhos, confirmam o que já se sabe: a convivência com os bichos, no Parque, enriquece a todos, crianças e adultos!

Eis que, ultimamente, surgiu um boato preocupante, segundo o qual a administração do Parque pretende retirar todos os animais que passeiam dentro dele. E o motivo seria a previsão de abrir uma praça de alimentação perto da arena, plano que não inclui a presença de bichos soltos…

Como usuária do Parque há mais de vinte anos, posso garantir o quanto esse espaço faz bem, a mim e a muitas outras pessoas! Retirar os bichos e alocar serviços para vender refeições vai destruir, em grande medida, esse “oásis” tão valioso para quem o conhece.

Para obter mais informações sobre os projetos dos responsáveis, procurei o administrador do Parque, Sr. José Antonio Teixeira. Ele me disse que de fato existe o plano de, a médio prazo, não haver mais bichos soltos pelas alamedas, com a construção de um galinheiro onde alguns animais ficarão confinados e supervisionados de perto.

A justificativa para tal medida é de que é preciso garantir proteção contra uma eventual epidemia de gripe suína que, se surgir, atingirá os bichos soltos em primeiro lugar. Ao perguntar se não seria conveniente divulgar essas medidas para os freqüentadores do Parque, ele me disse que ainda não chegou o momento de prestar informações.

Tentei conversar com representante da Associação de Ambientalistas e Amigos do Parque da Água Branca, deixei meu telefone, mas não me retornaram para agendar uma conversa (perguntaram qual era o assunto e eu falei que era sobre os bichos que estão sumindo).

Entre os freqüentadores do Parque que se dedicam, diariamente, a cuidar dos animais, distribuindo alimentos e lavando os locais em que os bichos se juntam, atentos para dar os cuidados necessários a algum mais fraquinho, vários já relataram ter visto pessoas levando filhotinhos (sobretudo de galinha d’angola, além de pintinhos), e é possível constatar que sumiram pavões e galinhas d’angola.

Essa forma de agir, fazendo de conta que ninguém vê aqueles que levam os bichos para fora, só aumenta a tristeza que dá que provocam os sinais de que aquele oásis pode se transformar em mais um espaço do estilo Shopping Center, muito limpo e bem arrumado, com vários serviços e objetos a venda, mas sem a riqueza que temos hoje, em um local onde se começa o dia ouvindo o cocoricó de galos e vendo a corrida dos pintinhos nas alamedas…

Será que não existe uma forma de manter os bichos soltos, para alegria deles e dos usuários do Parque da água Branca?

Será que o argumento da administração (de que, para a segurança dos cidadãos, precisam controlar apenas alguns bichos em galinheiros) não pode ser rebatido com um planejamento de técnicos experientes, que dêem as diretrizes para o funcionamento seguro do Parque, onde haja o indispensável acompanhamento dos animais, com a participação dos usuários que só pedem por isso?

É óbvio que ninguém quer ver uma epidemia acontecer. Mas será que a única alternativa é retirar os bichos das alamedas, onde passeiam há tantos anos sem qualquer problema?

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
28/03/2010 - 18:39

Corinthians mata a pau. E agora, Juvenal?

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Durante toda a semana, os presidentes dos dois clubes tomaram conta da cena, um querendo ser mais esperto do que o outro, mas dentro do campo quem matou a pau neste domingo foi o Corinthians de André Sanchez, que tomou a iniciativa do jogo no Pacaembu, desde o começo, contra os burocratas do São Paulo de  Juvenal Juvêncio, que só acordaram depois de tomar duas bolas na trave.

Resultado justo: vitória do Corinthians por 4 a 3, diante de um São Paulo que ainda não ganhou nenhum clássico este ano e agora corre o risco de ficar de fora do quadrangular final.  

E agora, Juvenal? Empaturrado de títulos, dinheiro e soberba, o presidente que levou o São Paulo ao inédito tricampeonato brasileiro parece que perdeu a mão. Antes, quando as coisas iam mal, ele dava um pega geral no elenco e as coisas começavam a melhorar. Este ano, depois de fazer 11 contratações e não acertar nenhuma, nem ele aguenta mais o futebolzinho meia boca que o time de Ricardo Gomes vem jogando.

Do outro lado, um Corinthians com fome de bola marcou dois belos gols, de Elias e Danilo, logo no começo da partida, e ameaçou partir para a goleada. Sem manter o pique, tomou um gol no final do primeiro tempo, de Jean, mas depois ampliaria para 3 a 1, com um gol de falta de Roberto Carlos, em mais um frangaço de Rogério Ceni, que parece estar com o prazo de validade vencido. O São Paulo ainda empatou com dois gols de Rodrigo Souto, mas Alex Silva marcou contra já nos descontos.  

Como o Rogério Ceni sonha em ser presidente do clube e Juvenal Juvêncio também já deu o que tinha para dar, talvez seja o caso de se começar a pensar na sucessão no Morumbi, tanto no gol como na presidência. O São Paulo está precisando de uma urgente chacoalhada para ver se alguem tem a coragem de fazer o óbvio: trocar este time de seniors pela brilhante molecada das equipes de base, como fez o Santos, e se deu bem.

Com os 4 a 3 no São Paulo, o Corinthians de Mano Menezes, que também vinha caindo pelas tabelas, ganhou novo ânimo para cavar uma vaga nas finais e ir para a próxima fase da Libertadores, enquanto o meu Tricolor, para falar bem a verdade, deu mais uma prova de que este ano não tem time nem disposição para ir longe em campeonato nenhum. Tomara que mais uma vez eu esteja errado.

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
28/03/2010 - 10:14

Dois anos no iG esta semana

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Os assuntos mais comentados pelos leitores na última semana:

Balaio

Caso Nardoni: 572

A guerra suja na web: 316

 Santos, a alegria do futebol: 116

Folha

Caso Isabella: 57

Educação: 52

Lula: 48

Veja ( a revista não publica mais os números)

Morte de Glauco e o daime

Delúbio Soares palestra sobre ética

Lula mensageiro da paz

***

Nesta próxima quinta-feira, 1º de abril, completo dois anos de trabalho aqui no iG. O tempo correu, é verdade, mas não é mentira…

Estava em Fernando de Noronha, comemorando meus primeiros 60 anos de vida, quando fui convidado pelo então presidente do portal, Caio Túlio Costa, um pioneiro do jornalismo na internet, antigo colega da Folha, que hoje trabalha na campanha da minha amiga Marina Silva.

Como até hoje, eu era na época repórter da revista Brasileiros e meus planos naquela altura do campeonato se limitavam a trabalhar para viver e não mais viver para trabalhar. Queria ter mais tempo para ficar com a família e os amigos. Acabou acontecendo o contrário.

A idéia inicial do Caio era que eu entrasse logo no mundo maravilhoso nos blogs, mas fiquei com receio de virar mais um escravo da web, aquela gente estranha que passa o dia inteiro na frente do computador. Achei melhor apenas fazer uma coluna, duas ou três vezes por semana. Publicava entrevistas e reportagens iguais às que escrevia em jornais e revistas.

Alguns meses depois, porém, ele me convenceu a abrir um blog para tratar de qualquer assunto, com toda liberdade e um texto mais pessoal, mais opinativo, e assim entrou no ar este Balaio, em setembro de 2008 _ independente, informativo e democrático, desde o primeiro dia.  

Na verdade, entrei para a internet, e já estou aqui no iG, desde o começo de 2005. No final do ano anterior, tinha deixado o governo, onde era secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República. O primeiro convite de trabalho que recebi, feito pelo Roberto Benevides, foi para escrever uma coluna semanal no site “No Mínimo”, criado por antigos colegas do Jornal do Brasil, hospedado aqui mesmo neste portal, enquanto durou.

Já são, portanto, cinco anos de convívio com os internautas de todo o Brasil, depois de ter trabalhando por 40 anos nos principais veículos da mídia impressa e de televisão do país. Estou gostando muito desta experiência, apesar do trabalho que dá _ quase todo dia, incluindo fins de semana e feriados, o dia todo batucando neste teclado para escrever novas matérias ou moderar comentários.

“Isto está virando escravidão!”, queixou-se minha mulher ainda ontem, enquanto me esperava para irmos à festa aniversário das netas, e eu teimava em liberar apenas mais alguns comentários. Em compensação, posso trabalhar em casa, tenho toda liberdade para escolher os assuntos e não preciso dar satisfações a ninguém sobre o que escrevo, a não ser aos meus leitores.

É o sonho de todo jornalista: ter seu próprio jornal para dizer o que pensa da vida, contar o que está acontecendo, publicar uma novidade antes dos outros. Por isso, sou muito grato aos colegas do iG, pela paciência com que sempre me ajudaram nas minhas dificuldades internéticas, e aos leitores, razão de ser de qualquer espaço jornalístico como este.

Por uma feliz coincidência, fui informado neste sábado pelo meu amigo Luiz Fernando Vieira, da África, que a Vale, a quem agradeço a confiança e o apoio, vai renovar o contrato de patrocínio deste Balaio. Que venham outros… Vida que segue.

***

O recorde de Lula

A popularidade dos governos, de qualquer governo, em qualquer país, costuma declinar quando está entrando na reta final do mandato. Com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no entanto, está acontecendo exatamente o contrário.

A nove meses do final dos seus oito anos de governo, a manchete da Folha de hoje nos informa que “Popularidade de Lula bate recorde _ 76% da população acha governo ótimo ou bom, maior índice desde que Datafolha iniciou pesquisa, em 90″. Apenas 4%, o menor índice até agora, desaprovam o governo, considerando-o péssimo ou ruim.

A mesma pesquisa Datafolha que mostrou no sábado o tucano José Serra nove pontos à frente da petista Dilma Roussef (36 a 27) revela hoje que o recorde de Lula “se fragmenta na eleição de seu sucessor”. Aos números: entre os que aprovam o governo Lula, 33% dos pesquisados declararam que vão votar em Dilma e 32%, em Serra _ ou seja, temos aí um empate técnico.

Este dado da pesquisa pode ser explicado por outros números: embora o nome de Dilma já seja conhecido por 87% dos eleitores, apenas 58% sabem que ela é a candidata do presidente Lula.

A grande questão colocada pelo Datafolha neste momento da campanha eleitoral é exatamente até onde ainda poderá chegar a transferência de votos de Lula para Dilma. Dos 73% que não votam nela, segundo esta pesquisa, 19% votariam com certeza num candidato apoiado pelo presidente Lula e 23%, talvez.

A maior dificuldade de Serra, por sua vez, reside exatamente aí: em 2002, ele era o candidato do governo FHC, com popularidade declinante, e agora é o candidato de oposição a um governo que bate recordes de aprovação. 

O quadro só deverá ficar consolidado a partir de agosto, após a Copa do Mundo, quando começar o horário político no rádio e na televisão, e ficará mais claro quem está apoiando quem nesta campanha. Até lá, quem tiver juízo não deve mais arriscar previsões nem colocar em dúvida os resultados oscilantes das pesquisas, que agora mais parecem uma gangorra, como escrevi no meu texto de sábado.

Bom domingo a todos. Agora preciso ir ao supermercado. Vai demorar um pouco a moderação de comentários.

 

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
27/03/2010 - 09:27

Caso Nardoni devolve confiança na Justiça

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Caros leitores,

só vou poder voltar a fazer a moderação de comentários mais no final da tarde porque hoje é aniversário da minha netinha mais velha.

Grato pela compreensão,

Ricardo Kotscho

***

Após uma semana em que o país, querendo ou não, ficou ligado no julgamento do casal Nardoni, espero que o resultado anunciado no início desta madrugada de sábado, com a condenação dos dois acusados pela morte da menina Isabella, de 5 anos, tenha servido para devolver à população a confiança na Justiça.

Chega de impunidade! Aqui se faz, aqui se paga, dizia-se antigamente, antes que em tempos mais recentes se alastrasse na população o sentimento de que basta ter dinheiro para pagar bons advogados que ninguém vai para a cadeia.

Neste julgamento, até onde consegui acompanhar, cada um cumpriu seu papel como deve: o juiz Maurício Fossen, o promotor Francisco Cembranelli, o advogado da defesa Roberto Podval e os sete anônimos jurados. Deu a lógica, fez-se Justiça: o pai, Alexandre Nardoni, foi condenado a 31 anos de prisão e, a madrasta Ana Carolina Jatobá, a 26 anos  _ exatamente o mesmo tempo de vida de cada um. Era simplesmente inverossímel a versão da defesa de que uma terceira pessoa no apartamento pudesse ter cometido o bárbaro crime.

Como lembraram vários leitores durante a semana, falta agora que se faça Justiça também em muitos outros crimes que continuam impunes, como o do meu colega jornalista Antonio Pimenta Neves, réu confesso da namorada Sandra Gomide, assassinada a tiros dez anos atrás. Condenado a 19 anos de prisão, em 2006, até hoje ele continua livre, leve e solto, esperando a prescrição da pena.

Datafolha mostra nova

inversão da curva

Virou uma gangorra a campanha eleitoral: segundo os resultados da nova pesquisa Datafolha publicada hoje, o governador José Serra voltou a crescer quatro pontos (foi de 32 para 36) e abriu nove de vantagem sobre a ministra Dilma Roussef, que oscilou um ponto para baixo (de 28 para 27).

Na pesquisa anterior, do final de fevereiro, a curva mostrava exatamente o contrário, com Serra em queda de cinco pontos (de 37 para 32) e Dilma subindo os mesmos cinco pontos (de 23 para 28), caminhando para um empate técnico.

Este resultado inverte o astral de tucanos e petistas, exatamente na semana em que a campanha começa oficialmente, com o governador Serra e a ministra Dilma deixando seus cargos para concorrer à sucessão presidencial. A disputa, segundo este novo Datafolha, está cada vez mais polarizada entre os dois.

O que aconteceu? Não tenho a menor idéia. Por isso, prefiro ficar com o parágrafo final da análise de Mauro Paulino, diretor geral do Datafolha, publicada no jornal de hoje:

“Cabe às pesquisas acompanhar cada momento e aos analistas adotar prudência nas projeções. Não é uma eleição que permite prognósticos”.

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
24/03/2010 - 09:59

Os Nardoni e nós: o show midiático

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Caros leitores,

viajo daqui a pouco para Brasília, onde vou fazer uma palestra, a convite da Federação Nacional dos Jornalistas. Por isso, só poderei voltar à moderação de comentários no final da tarde.

Abraços,

Ricardo Kotscho

***

Nem o Papa e a Madonna chegando juntos a um evento talvez não conseguissem atrair tantos jornalistas à sua volta. A fotografia publicada hoje pelos jornais mostrando o advogado de defesa do casal Nardoni, Roberto Podval, cercado por um mar de câmaras e microfones por todos os lados, ao chegar para mais uma etapa do julgamento, resume bem o show midiático montado no tribunal do Fórum de Santana.

Não se fala de outra coisa desde segunda-feira. A pergunta que me faço diante deste espetáculo: a imprensa mobilizou seus batalhões para atender a um interesse do público ou o público não fala de outra coisa diante da overdose da cobertura do julgamento em todas as mídias?

Na capa do jornal, no rádio do táxi, nos noticiários da televisão e da internet, o dia inteiro somos bombardeados com a trágica história da menina Isabella, de 5 anos, que morreu ao ser jogada pela janela do prédio onde morava, depois de ser espancada, segundo os peritos. Os acusados pelo crime, que chocou o país há dois anos, são o pai e a madrasta da menina.

A esta altura do campeonato, com todos os depoimentos que já foram feitos e as provas apresentadas pela polícia, não conheço ninguém, a não ser os advogados da defesa e a família dos acusados, que ainda tenha alguma dúvida sobre a responsabilidade de Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá pela morte de Isabella.

Mais do que todas as perícias e testemunhos, foi a entrevista que os dois deram ao “Fantástico”, dias após o crime, e repetida esta semana no “Jornal Nacional”, que me deu a certeza de que não havia nenhuma outra pessoa no apartamento na hora do crime, como eles alegaram.

Em vez de se revoltarem e mostrarem indignação ao serem acusados pelo assassinato da menina, como qualquer pai faria, eles pareciam acuados, sempre na defensiva, tentando explicar o inexplicável.  

Cabe agora à defesa apenas procurar atenuantes para o bárbaro crime, se é que isso ainda é possível, pois tudo caminha para a condenação dos dois à pena máxima, sem surpresas no julgamento. Mesmo assim, o interesse da imprensa e da população não arrefece, atraindo a cada dia novos personagens para a sala de julgamento e as imediações do tribunal, onde os jurados ora se emocionam, ora fazem força para não cair no sono.

Se o trabalho do promotor Francisco Cembranelli parece fácil neste caso, a tarefa da da defesa é um desafio quase impossível: provar a inocência dos réus por falta de provas. Isto ficou claro na terça-feira quando o juiz Maurício Fossem advertiu a defesa por chamar Alexandre Nardoni de vítima durante uma pergunta.

“A única vítima deste caso está morta”,  cortou o juiz.

Roberto Podval, o advogado da defesa, ainda tentou argumentar, de forma patética, mas não convenceu ninguém:

“Todos são vítimas deste fatídico episódio”.

Todos quem? Como aqui ninguém é dono da verdade, deixo o veredicto para os senhores jurados, o que pode levar ainda alguns dias, e os leitores deste Balaio. Quem matou Isabella?

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
22/03/2010 - 12:00

Futebol com alegria: Santos, que beleza!

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Caros leitores,

o nível dos comentários já deu uma bela melhorada de ontem para hoje, mas reitero o apelo que fiz no texto de domingo sobre a guerra suja das campanhas na web.

Ainda tem muito leitor confundindo área de comentários na internet com porta de banheiro público. Sei que não estamos no Parlamento Britânico, mas também não precisamos usar a mesma linguagem e os métodos das torcidas organizadas nas arquibancadas dos jogos de futebol.

Grato pela compreensão.

Abraços,

Ricardo Kotscho

*** 

 

Para quem gosta de futebol, independentemente do time para o qual torcemos, o que o Santos vem mostrando neste Paulistão é um espetáculo que a gente não via em nossos campos desde os áureos tempos de Pelé & Cia.

Nem é só pela chuva de gols, como nos 9 a 1 contra o Ituano na noite deste domingo, mas pela alegria que eles demonstram com a bola correndo rápida de pé em pé até chegar às redes, naturalmente, sem fazer muita força.

Mais do que tudo, é nas comemorações dos gols, nas coreografias, nos gestos e nos sorrisos dos seus jogadores,  que os brasileiros se reencontram com a molecagem dos campos de várzea da nossa infância, quando o futebol ainda não era uma guerra, mas uma festa. Que beleza!, como diria o Milton Leite, brilhante narrador da Sportv.

Mesmo sem contar no domingo com as suas grandes estrelas, Robinho e Neymar, que Dunga devaria levar amarrados para a Copa da África do Sul, junto com este craque chamado Paulo Henrique Ganso, os moleques da Vila passaram brincando por cima do Ituano, que não é um time fraco, ao contrário, como se estivessem jogando futebol nas areias das praias de Santos.

Jogadores medianos nos times por onde passaram, até Arouca,Marquinhos e Madson estão virando craques nas mãos de Dorival Júnior, o técnico arroz com feijão, que não inventa, mas deixa jogar, como fazia o bonachão Luís Alonso Peres, o velho Lula do Santos bicampeão do mundo, que jogava as camisas para cima e quem pegasse dava conta do recado.

Que diferença para o futebol burocrático, medroso, sonolento dos outros grandes times paulistas! Meu São Paulo, que mais parece uma repartição pública em final de expediente,  e o Corinthians, de tantas estrelas milionárias boas de marketing, (o Palmeiras já desistiu) podem até ainda ser campeões, mas quem perderia com isso seria o futebol brasileiro.

Pelo que já mostrou até agora, o Santos é o favorito disparado na fase final, e só a zebra do Santo André pode ainda fazer sombra ao futebol encantado destes meninos. Só espero que a Justiça Esportiva não seja madrasta do futebol e dê uma pena leve à besteira que o menino Neymar fez no jogo contra o Palmeiras no domingo anterior.

Claro que este fantástico time do Santos não é imbatível, como nem o Santos de Pelé era, mas joga bonito até quando perde, como aconteceu nesta partida (4 a 3 para o Palmeiras), jogando sempre no ataque, mesmo depois de abrir uma vantagem de 2 a 0. 

Agora só está faltando o nosso Dunga dar uma olhada no que está acontecendo na Vila Belmiro. Não custa nada.

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
21/03/2010 - 10:17

A guerra suja das campanhas na web: aqui, não!

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Os assuntos mais comentados pelos leitores durante a última semana

Balaio

Alckmin e Mercadante em SP: 257

Eleições/ Mídia e pesquisas: 202

Andar a pé é mais rápido: 128

Folha

Glauco: 91

Lula: 80

Royalties do petróleo: 62

Veja (a revista não publica mais o número de comentários recebidos)

Caso Bancoop

Lula e a ditadura cubana

Lya Luft

***

O levantamento acima sobre os assuntos mais comentados pelos leitores do Balaio, da Folha e da Veja, as duas publicações impressas de maior circulação do país, que também divulgam este ranking, é publicado aqui desde setembro de 2008.

Semana após semana, os temas políticos dominam as manifestações dos leitores, que deixaram de ser meros agentes passivos para participar ativamente do debate provocado pelo noticiário, tanto na velha mídia, como nos novos meios eletrônicos. Nossa freguesia já não aceita o prato feito. Quer ter voz ativa no cardápio que lhe é oferecido. Somos agora todos, ao mesmo tempo, emissores e receptores das informações que circulam no país.

Por isso mesmo, acabou o monopólio dos chamados “formadores de opinião”, aqueles donos da verdade dos tempos em que um pequeno grupo decidia o que devemos pensar, comprar, assistir, achando que estavam elegendo e derrubando governos, decidindo os destinos do país e do mundo.

Este foi um dos temas tratados na longa entrevista que dei na sexta-feira à colega Andréa Zilio, da rádio Aldeia FM, de Rio Branco, no Acre. Ela queria saber qual seria o papel e a importância da internet nas eleições gerais deste ano, se o fenômeno da eleição de Obama nos Estados Unidos poderia se repetir no Brasil.

Sim, respondi à Andréa, a grande rede, à qual já estão ligados mais de 60 milhões de brasileiros, terá pela primeira vez uma grande influência nos rumos de uma eleição presidencial no nosso país. É só ver o que já está acontecendo nos sites e blogs jornalísticos, e nas estruturas profissionais montadas na web pelos principais partidos, antes mesmo da campanha começar oficialmente.

Assustado com a quantidade de comentários relacionados à campanha eleitoral e, em especial, com a agressividade, a radicalização e a baixaria que está tomando conta do debate aqui no Balaio, resolvi dar uma olhada nos outros grandes portais noticiosos. Fiquei mais assustado ainda, confesso.

Em lugar de defender as propostas e ações de seus candidatos, a maioria se limita a acusar e ofender os adversários de uma forma muitas vezes criminosa, um verdadeiro passeio pelo Código Penal. Se isto já está acontecendo em março, época de definição de chapas e alianças, como será nos meses seguintes quando a campanha começar para valer?

A democratização do debate, a interação entre quem escreve e quem lê, que se apresenta como o grande trunfo da internet, corre o risco sério de manipulação por esquemas de caluniadores profissionais, que agem com os mesmos métodos das torcidas organizadas no futebol, menos interessadas em ajudar seu time do que em detonar o adversário. 

Em lugar de argumentos para defender o candidato de cada um, o que domina o debate é a baixaria, um festival de preconceitos e de intolerância, acusações sem provas, ofensas, injúrias e difamações, que em nada ajudam o eleitor a tomar a decisão mais correta na hora de votar, agora que está livre da ação dos “formadores de opinião”.

Alguns deles migraram para a internet, achando que, com seus blogs ou colunas, vão influenciar o voto dos eleitores, escrevendo no mesmo nível rasteiro dos comentaristas e seguidores que frequentam seus espaços. Criaram algumas seitas internéticas e se acham impunes, acima do bem e do mal, não admitem opiniões contrárias e não respeitam ninguém.

Esquecem-se que, assim como nos jornais e nas revistas, também na internet quem se interessa em participar do debate já definiu seu voto há muito tempo, e quer apenas, no grito, em letras maiúsculas, conquistar novos adeptos para o seu lado.

Acaba dando um empate de soma zero, em que todos perdem, em especial o processo democrático. O resultado é o mesmo dos gritos de dona Toninha, uma pobre indigente que passa os dias blasfemando coisas sem nexo pelas ruas do bairro onde moro.

Para quem, como eu, passa a maior parte do dia no computador, escrevendo ou moderando comentários dos leitores, muitas vezes o trabalho não só é cansativo como frustrante. Como vocês sabem, apenas levanto temas para o debate, sem tomar partido e sem brigar com os fatos, deixando democraticamente aberto o espaço de comentários para as opiniões de leitores de qualquer tendência política, até dos que defendem a volta da ditadura.

Mesmo assim, alguns me acusam de censura e até de “macartismo”, como se publicassse apenas os comentários de quem concorda comigo, o que não é verdade _ muito provavelmente, afirmam isso sem saber o que é nem uma coisa nem outra. Tenho o direito de manifestar a minha opinião sobre os fatos sem esconder o que penso, fiel à minha trajetória, e não quero dar uma de “isento” porque isso simplesmente não existe nem na vida nem no jornalismo.     

Já publiquei um aviso no pé do texto anterior e repito aqui: o Balaio não é espaço para bate-boca neste Fla-Flu entre lulistas, serristas e dilmistas, petistas e tucanos, muito menos acolherá comentários claramente produzidos por profissionais de campanhas dedicados a fazer a guerra suja na web.

A cada dia, qualquer que seja o assunto tratado no post,  sou obrigado a excluir um número cada vez maior de comentários grosseiros, chulos, impublicáveis, com acusações levianas até a familiares de homens públicos e jornalistas, como se campanha eleitoral fosse mesmo uma disputa entre torcidas organizadas, um vale-tudo em que apenas a vitória interessa, a qualquer preço.

O pior de tudo são os comentários escritos por anônimos, com seus pseudônimos, alcunhas, nicks, seja lá o que for, o supra sumo da covardia de quem não é capaz de assumir o que escreve. Tem até blogueiro que escreve sem se identificar, homiziado na moita dos pusilânimes.

Aqui, não! Mesmo que diminua o número de leitores e comentários publicados no Balaio, não vou me submeter a este jogo. Vivo até hoje do que escrevo, dependo, como todos os outros, da audiência deste blog, mas ninguém me obrigará a escrever o que não quero nem publicar comentários que vão contra os meus princípios.  

Nem sei o que prevê a Justiça Eleitoral, tantas mudanças já foram feitas nas regras do jogo. Mas nem é preciso ter leis para a gente saber o que pode e o que não pode. Basta ter bom senso e um pouco de educação. Ganhe quem ganhar as eleições, a vida continua, e é preciso que cada um se dê ao respeito e respeite os outros para termos uma convivência minimamente civilizada.

Espero contar com a compreensão de vocês e gostaria também de saber a opinião dos leitores sobre esta questão que considero vital no momento em que a campanha começa a esquentar: qual é o papel e quais são os limites de cada um de nós neste debate eleitoral pela internet.

Bom domingo a todos.

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
19/03/2010 - 11:02

Andar a pé é mais rápido e não polui

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Os paulistanos estão começando a descobrir que andar a pé pela cidade é mais rápido do que enfrentar o trânsito cada dia mais congestionado, que inferniza a vida de todos nós, tanto de quem tem carro como dos que utilizam o nosso precário transporte público. Além de ganhar tempo trocando as rodas pelas pernas, ajudamos a combater outra chaga da metrópole: a poluição do ar cada vez mais irrespirável.

Basta sair bem cedo de casa para ver multidões de paulistanos indo a pé para o trabalho ou a escola. Reportagem do jornal Agora (a versão popular da Folha) nos mostra com números o que se pode constatar na prática a olho nu:

“Trajeto de apenas dois quilômetros na avenida M´Boi Mirim é feito por ônibus em 35 minutos. Caminho a pé é feito em 29 minutos”.

Desde que mudei de bairro e passei a trabalhar mais em casa, faz cinco anos, minha vida de paulistano melhorou da água para o vinho e passei a conviver melhor com as mazelas da metrópole. Troquei a paz das ruas calmas e arborizadas do Butantã, onde morei por quase trinta anos, e passava boa parte do dia no trânsito, pelo movimentado e barulhento Jardim Paulista, mas uma coisa compensou a outra: agora, posso fazer quase tudo que preciso a pé, no raio de uns poucos quarteirões. Só pego o carro para sair da cidade nos finais de semana.

Claro que nem todo mundo pode ter o privilégio de trabalhar em casa, de preferência perto de tudo que precisa, embora cada vez mais gente esteja fazendo ou pensando em fazer isso. Mas, procurar um trabalho o mais próximo possível de onde se mora, passa a ser o grande desafio do paulistano obrigado a cruzar a cidade entre a moradia e o trabalho.

Por mais que o poder público invista em viadutos, avenidas e rodoanéis, a conta não fecha porque a cada dia entram mil carros novos em circulação na cidade, agora com quase todo mundo podendo comprar seu possante em prestações a perder de vista. E o metrô paulistano, apontado por todo mundo como a grande solução, ainda beneficia pequena parte dos paulistanos, vive superlotado e avança a passos de tartaruga.

Também não adianta colocar novos ônibus em circulação porque, simplesmente, não terão por onde trafegar e irão deixar o trânsito ainda mais congestionado nos horários de pico que, na verdade, hoje se espalham pelo dia inteiro. Está próximo de se concretizar a profecia de um velho motorista de táxi do ponto aqui ao lado de casa, que vive repetindo: “Está chegando o dia em que o trânsito da cidade vai dar um nó e ninguém mais sairá do lugar”.

Algum leitor do balaio teria a solução mágica para desatar o nó e evitar que este dia chegue?

Em tempo: fui alertado agora para uma outra grande vantagem de se andar a pé: é muito bom para a nossa saúde. Faz bem para o coração e, principalmente, para os gordos, como eu, que precisam perder a barriga. Além de tudo, sai mais barato: não é preciso gastar com prestação, gasolina, estacionamento, pedágio, seguros, inspeção veicular e todas as taxas e impostos cobrados de quem anda de carro. Pelo menos, por enquanto…

Em tempo 2: mais uma vez, me vejo obrigado a deletar comentários de leitores que não respeitam as normas do Balaio. Quem quiser utilizar este espaço para fazer luta política que abra seu próprio blog e se responsabilize por suas opiniões.

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
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