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Arquivo de novembro, 2009

11/11/2009 - 09:47

“Alô, Samek, o que aconteceu?” Porque ficamos no escuro

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A exemplo do que deve ter acontecido em milhões de casas de brasileiros de 12 Estados e do Distrito Federal, quando tudo apagou e o mundo escureceu, às 22:15 desta terça-feira, começamos a ligar para os parentes mais próximos querendo saber onde cada um estava, com a inevitável pergunta: o que será que aconteceu?

Eu também queria saber. Nestas horas, todo mundo corre para a internet, mas demorou para que aparecessem as primeiras informações, ainda truncadas. Choveram palpites de todo lado. Lembrei-me então de um velho amigo, o Jorge Samek, que poderia ter a resposta mais correta. Tenho seu celular, mas achei que seria impossível falar com ele nesta hora.

Tentei a primeira vez, não consegui. Na segunda tentativa, pouco antes das 11 da noite, o próprio atendeu. “Alô, Samek, o que aconteceu?”, fui logo perguntando, sem mesmo dar-lhe boa noite. Solícito como sempre, ele me deu as informações mais importantes que eu precisava, que imeditamente repassei à redação do iG.

Jorge Samek, como agora todos sabem, vem a ser o presidente da Itaipu Binacional, cargo que ocupa desde o início do governo Lula. No olho do furacão, à frente da maior empresa de geração de energia do continente, o amigo parecia mais tranquilo do que eu poderia imaginar.

Em resumo, ele me contou que as cinco linhas de transmissão de Furnas foram saindo do ar num efeito dominó, o que desligou automaticamente as 20 turbinas de Itaipu, que geram 14 mil megawatts. Sem ter a quem entregar a energia gerada, as turbinas simplesmente pararam de produzir.

Já naquele momento, ele me disse que ventos ou raios devem ter provocado danos em alguma linha de transmissão e, como o sistema é interligado, uma após outra elas deixaram de levar a energia de Itaipu para boa parte do país. Mais não lhe perguntei para não atrapalhar seu trabalho.

Enquanto eu falava com ele, minha mulher foi repassando as informações para as filhas. Em seguida, liguei para a chefia da redação. Como a bateria do celular já estava acabando, nada mais me restava fazer a não ser ir dormir com a boa sensação do dever cumprido, sabendo o que aconteceu. Foi mais um dia ganho honestamente, como costumo dizer à minha mulher ao final de cada jornada.

De manhã, ao acordar, a luz já tinha voltado,  tudo funcionava normalmente aqui em casa e, penso, no resto do país. O susto foi grande, mas as soluções seriam logo encontradas, antes que a urubuzada saísse da toca para festejar mais uma crise do fim do mundo.

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
10/11/2009 - 14:44

Na homenagem a José Alencar, estilos opostos de Lula e Serra

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Foi mais ou menos como se uma orquestra sinfônica e uma escola de samba se apresentassem na mesma noite, no mesmo palco, para a mesma platéia. Deu-me esta impressão ao ouvir os discursos do presidente Lula e do governador Serra durante a homenagem prestada pela Fiesp, na noite desta segunda-feira, ao vice-presidente José Alencar, concedendo-lhe o título de presidente emérito da entidade.

Formal, respeitoso e correto, Serra, que falou primeiro _ logo após a homenagem feita a José Alencar pelo presidente da Fiesp, Paulo Skaf, e da exibição de um belo filme sobre a sua vida _, arriscou raros improvisos em seu breve discurso, destacando o caráter empreendedor de José Alencar e suas ligações com São Paulo. Lembrou dos poucos encontros que os dois tiveram ao longo da carreira e do fato de que a cidade onde o homenageado nasceu chamava-se no começo São Paulo de Muriaé. O santo ainda é o padroeiro da cidade.

Ao final, recebeu os aplausos protocolares de quem acabou de ouvir uma afinada orquestra alemã. O contraste com Lula ficou claro logo nas primeiras palavras do presidente, na hora de ler a chamada nominata, lista de autoridades presentes que os oradores recebem da assessoria. Ao contrário de Serra, improvisou uma saudação a alguns dos presentes e fez a primeira das muitas brincadeiras da noite, contrapondo-se ao governador, que leu a lista completa: 

“Como não sou mais candidato, nem preciso cumprimentar muita gente…”

A platéia riu, mas Serra não achou muita graça, e assim permaneceu, impassível, durante o resto da fala toda improvisada de Lula, que arrancou lágrimas, risos e aplausos em cena aberta, várias vezes, num dos discursos mais inspirados e emotivos da sua já longa carreira de palanqueiro.

Ao final, foi longamente aplaudido de pé pela platéia de empresários e políticos, como se fosse um Noca da Portela saindo do Sambódromo, enquanto dava um interminável e apertado abraço em José Alencar, que chamou de sua “cara-metade” na política.

Lula abraça Alencar durante homenagem/ Foto: AE

Lula abraça Alencar durante homenagem/ Foto: AE

 

Desde a hora em que chegou, com o habitual atraso, ao 14º andar da Fiesp, onde as autoridades se encontraram na sala da diretoria da entidade, antes de descerem juntas para o auditório no subsolo, Lula parecia mesmo inspirado naquela noite. Falando mais do que de costume, estava de muito bom humor depois de ter passado o dia todo em São Paulo.

Na rodinha dos que aguardavam a chegada do presidente junto ao vice José Alencar e sua mulher, dona Mariza, o prefeito são-paulino Gilberto Kassab tirava uma onda com o governador palmeirense José Serra, que estava inconformado com o gol anulado de Obina, na derrota contra o Fluminense, em que seu time perdeu a liderança do campeonato no domingo.

O assunto quente da hora era a decisão da CBF de tirar o juiz Carlos Eugênio Simon do restante do Campeonato Brasileiro, reconhecendo que ele errou feio. “Então tem que cancelar a partida!”, protestou Serra, diante de um feliz Kassab, que só ria e balançava a cabeça como quem diz: ninguém mais tira este título do nosso São Paulo. O governador me contou que, para seu desgosto, tem um neto são-paulino, que estuda na mesma classe da minha neta, que é palmeirense.

Para se vingar da minha alegria de são-paulino, Serra não perdeu a chance de tirar uma casquinha: “Nossa, como você está ficando gordo!” Acho que é de tanto comemorar títulos, pensei comigo… Mas, desse jeito, ele não vai conquistar o voto dos gordos…

Feliz da vida estava Josué, o único filho homem de José Alencar, que assumiu o comando do império da Coteminas quando o pai resolveu entrar na política, no final dos anos 1990, para pouco tempo depois se tornar o companheiro de chapa de Lula, em 2002, mas ele não se empolgou nem um pouco com a idéia do pai de se candidatar de novo no ano que vem.

Contei-lhe como foi a conversa de Alencar com Lula no aniversário do presidente, sábado retrasado, na Granja do Torto, em que seu pai revelou os planos de se candidatar a senador por Minas. Josué parecia não acreditar muito nesta história. Preferiu falar da fantástica recuperação de Alencar, desde a última vez em que nos encontramos no Hospital Sírio-Libanês. “Você viu? Nem os médicos acreditavam nisso…”.

Quando Lula chegou, logo as autoridades continuariam a conversa a portas fechadas na sala de Skaf. Desci para o auditório, mas foi difícil chegar lá e conseguir um lugar na platéia apinhada de excelências vindas de todas as latitudes, muita gente em pé. Depois de tudo o que Alencar passou em suas 15 cirurgias, só o fato de encontrá-lo novamente firme e forte, sorrindo o tempo todo, justificava o clima de alto astral que contagiou toda a cerimonia.

Sem pressa, Lula e Alencar ainda foram ver as fotos do homenageado no saguão da Fiesp e, para cada uma, claro, o vice tinha uma história para contar, parando naquela que o mostrava fazendo pose como jogador do Nacional, o time da sua cidade.

Último a falar, por iniciativa do presidente Lula que, pelo protocolo, sempre deve encerrar as cerimonias em que está presente, José Alencar passou quase meia hora lendo a nominata inteira (quem foi esse assessor?) para não esquecer de nenhum dos presentes, e eram mais de 500.

Começou lendo um discurso, prometeu ser breve, mas lá pela metade fez como Lula e passou a falar de improviso, também alternando momentos engraçados com outros mais dramáticos da sua vida. Fez uma veemente defesa da liberdade de mercado, mas com responsabilidade social e igualdade de oportunidades, e não deixou barato, repetindo seu refrão na hora de falar do bom momento da economia brasileira: “Não é graças aos juros altos, não. É apesar deles…”.

Tanto Lula como Alencar devem ter repetido um milhão de vezes como se conheceram, depois de já veteranos em suas respectivas carreiras, na festa de 50 anos de vida empresarial do vice, em Belo Horizonte, no final de 2001, mas até hoje os dois se emocionam ao contar como foi.

“Encontrei meu vice naquela noite”, disse Lula, lamentando que isso não tivesse acontecido antes. “Foi uma dádiva de Deus ter te encontrado. Quem sabe se a gente tivesse se encontrado antes, eu não teria perdido tantas eleições…”.

Como se tivessem combinado, Alencar também gastou boa parte do seu discurso contando como surgiu a parceria política dos dois, que logo se transformaria numa grande amizade. Lula atribuiu a Alencar metade da responsabilidade pelos êxitos do governo. Com sua habitual humildade, Alencar deixou por menos:

“Ninguém vota no vice-presidente. Vota no titular. Eu não procurei atrapalhar nas campanhas e acho que não atrapalhei porque ganhamos duas vezes…”

Para mostrar que estavam bem de saúde e com pique, Lula garantiu, de brincadeira, que os dois tinham fôlego para mais cinco anos de governo, mas  logo acrescentou que não era o caso, chegou a vez de outros candidatos. Além de Serra, estavam presentes à homenagem os prováveis presidenciáveis Dilma Roussef e Ciro Gomes. O governador Aécio foi anunciado na nominata de Alencar, mas eu não o vi por lá.

Aconteça o que acontecer, ganhe quem ganhar em 2010, a verdade é que um estilo de fazer política e uma dobradinha improvável como a do metalúrgico Lula com o grande empresário Zé Alencar estão fechando um ciclo que, muito provavelmente, não irá se repetir tão cedo.

O estilo de Dilma, Aécio e Ciro, pelo menos até aqui, com seus discursos recheados de números e de razão, está mais para o de Serra do que para Lula. E ainda não surgiu um novo Alencar no horizonte da cena eleitoral de 2010, a primeira sem Lula candidato desde a redemocratização do país.

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
09/11/2009 - 11:31

Show-concerto junta Chitão e Xororó com Bach e Beethoven

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Numa Sala São Paulo lotada e animada como há muito tempo não se via, o grande pianista João Carlos Martins, que virou maestro depois de velho, aprontou mais uma das suas maluquices musicais: juntou no mesmo palco sua Orquestra Bachiana Filarmônica com a dupla Chitãozinho e Xororó para intepretar obras de Beethoven, Bach, Schubert, Charles Chaplin e Villa-Lobos, além de alguns clássicos sertanejos.

“Como diz o nosso maestro, finalmente a música venceu!”, berrou Chitãozinho ao final do memorável espetáculo, com os três abraçados no palco, e o público, em pé, pedindo mais. Foi mesmo uma noite memorável para uma platéia formada em sua maioria por pessoas mais idosas, vestidas de forma singela, que entrou pela primeira vez numa sala de concertos.

João Carlos Martins, que trocou o piano pela regência faz cinco anos, depois de enfrentar uma série de cirurgias nas mãos, que o impediram de continuar tocando, abriu (Sinfonia nº 1 em Do maior Op21) e encerrou (Sinfonia nº 9 em Do menor Op125) com Ludwig van Beethoven e acompanhou os dois irmãos em 11 músicas, algumas delas cantadas por eles pela primeira vez.

Foram muitas horas de ensaio para uma única apresentação, mas valeu a pena. José de Lima Sobrinho, o Chitão, e Durval de Lima, o Xororó, que já venderam 35 milhões de discos, e João Carlos Martins e sua badalada orquestra, que já se apresentaram nas maiores salas de concertos do mundo, estavam tão afinados que quebraram as fronteiras entre o clássico e o popular.

Aproximar o clássico do popular, apresentando-se para platéias das periferias e dos grotões do Brasil, que nunca tiveram acesso à cultura é, afinal,  a grande obsessão desta segunda vida musical de Martins. Há três anos, sob o patrocínio da Telefônica, ele já levou a música erudita  para mais de 500 mil pessoas por todas as partes do Brasil, além de criar a Orquestra Bachiana Jovem Sesi São Paulo, que já revelou vários talentos.

No início do show-concerto, Xororó lembrou que foi naquela estação de trem da Santos-Jundiaí, transformada na mais bela casa de espetáculos de São Paulo pelo governador Mario Covas, que eles chegaram a São Paulo, faz quase 40 anos, “ainda de calças curtas”. Quando começou a cantar, a dupla de meninos era chamada de “Irmãos Lima”, antes de ganhar nomes de passarinhos ao se apresentar na Rádio Capital, nos programas sertanejos dos irmãos Bettio.

Conheci Chitãozinho e Xororó em meados dos anos 1980, quando trabalhava no Jornal do Brasil, e fui acompanhar uma excursão da dupla por cidades do sul do país, no tempo em que eles ainda viajavam com uma pequena banda num modesto ônibus branco, sem muitos confortos. Já lotavam teatros, cinemas e ginásios esportivos de pequenas cidades, na esteira do seu grande sucesso “Fio de Cabelo”,  mas ainda eram pouco conhecidos na grande mídia e nas grandes cidades.

Nascidos em Astorga, pequena cidade do interior do Paraná, me contaram que o pai deles era “toreiro”, quer dizer, puxava toras de madeira com um caminhão, antes da família se mudar para São Paulo, onde foi trabalhar como motorista de ônibus.  

No segundo dia de viagem, Chitãozinho, o mais falante deles, me perguntou quanto eu ganhava no jornal e, diante da resposta, deu um sorriso: “Só isso? Você não quer ser nosso assessor de imprensa”. Também sorri, achando aquilo uma petulância do então jovem sertanejo, mas hoje me arrependo de não ter nem discutido a proposta…

Meu editor no velho JB,  mestre Zuenir Ventura, torceu o nariz quando lhe ofereci a matéria, que acabou sendo publicada no caderno B. Seis meses depois, eles estavam se apresentando no Canecão, no Rio, o grande templo da música popular brasileira. E de lá para cá, lançaram 31 albuns inéditos (está para sair um novo) e três DVDs, ganharam dois prêmios Grammy, e centenas de discos de ouro, platina e diamante.

De ternos pretos muito elegantes, como os músicos da orquestra, Chitãozinho com um estiloso chapéu de vaqueiro também preto, a dupla abriu sua parte no show-concerto com a Ave Maria, de Bach e Gounod, grande hit de casamentos, e depois mandaram ver: No Rancho Fundo (Lamartine Babo e Ary Barroso), Evidências (José Augusto e Paulo Sérgio Valle), Serenata (de Shubert, com letra de Edgard Poças, escrita exclusivamente para este concerto).

Entre uma música e outra, um gaiato gritava “Paraná!” do fundo da platéia, certamente orgulhoso com a origem dos irmãos. Quando eles interpretaram Fio de Cabelo (Marciano e Darci Rossi) pela primeira vez (no final, tiveram que dar um bis), com um arranjo especial de Martins ao piano, a platéia foi ao delírio e cantou junto.

“Isso aqui virou público de Chitãozinho e Xororó”‘, comentou alguém na platéia. De fato, daí para a frente ninguém mais lembrava estar na nobre e circunspecta Sala São Paulo.

O repertório ainda teve Majestade, o Sabiá (Roberta Miranda), Céu de Santo Amaro (música de Bach, com letra de Caetano Veloso e Flávio Venturine), Se for Pra Ser Feliz ( de Álvaro Socci, música inédita do seu novo disco), Sorri (de Charles Chaplin, com letra de Djavan), Melodia Sentimental (Heitor Villa-Lobos) e Se Deus me Ouvisse (Almir Rogério).

O momento mais emocionante da noite para mim foi o encerramento com a apresentação de um coral de 50 jovens do Projeto Ponte, da Vila Helena, em Carapicuiba, dirigidos pela professora Silvia Schuster. Eles cantaram _ em alemão _ a Sinfonia nº 9 de Beethoven. No palco e na platéia, ninguém tinha pressa em ir embora.

Já no saguão do teatro, o maestro pop star ainda passou um bocado de tempo recebendo abraços e perguntas de gente que queria saber: qual é a próxima que ele vai aprontar?  Mas ninguém parecia mais feliz do que Chitãozinho e Xororó.

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
08/11/2009 - 10:57

Os dois lados do Muro de Berlim, trinta anos atrás

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Os assuntos mais comentados da semana

Balaio

José Alencar (exclusivo): 171

Trânsito paulistano: 102

Clara Charf: 90

Folha

Marcha para Jesus: 73

Minissaia na faculdade: 52

Aposentados: 44

Veja

Apocalipse: 67

Manual da civilidade: 35

Michael Jackson: 31

***

Nesta segunda-feira, dia 9, o mundo comemora os vinte anos da queda do Muro de Berlim, símbolo da Guerra Fria. Quando estive lá pela primeira vez, em 1978, parecia que aquela pavorosa divisória de cimento entre Berlim Ocidental e Berlim Oriental, erguida em 1961, seria para sempre. Já fazia parte da triste paisagem do mundo dividido.

Era correspondente do Jornal do Brasil na então Alemanha Ocidental e morava em Bonn, a bucólica cidade universitária e administrativa que se tornara a capital do país quando o país foi dividido no pós-guerra. Na minha ignorância, só quando fui a Berlim fazer uma reportagem descobri que a cidade não ficava na fronteira entre os dois países, mas bem no meio da República Federal da Alemanha.

Fui de trem, umas seis ou mais horas de viagem, para entrevistar o exilado Luiz Travassos, um dos líderes do movimento estudantil no Brasil e último presidente da UNE antes de a entidade ser posta fora de combate pelos militares.

A entrevista com Travassos, que morreria em acidente de automóvel pouco tempo depois de voltar ao Brasil com a Anistia, fazia parte de uma série de reportagens com os líderes do movimento estudantil de 1968, dez anos depois da célebre rebelião dos jovens que começou em Paris e varreu o mundo, marcando a minha geração.

Era Semana Santa e aproveitei a viagem de trem para escrever outra reportagem que não estava na pauta (era comum naquele tempo a gente  viajar para ir atrás de um determinado assunto e voltar com duas ou três matérias). “O trem da Semana Santa” foi uma das reportagens que mais gostei de escrever, porque me permitiu mostrar os dois  mundos em que se dividia a Alemanha, baseando-me em histórias da vida real, como conto no meu livro de memórias “Do Golpe ao Planalto _ Uma Vida de Repórter” (Companhia das Letras, 2006).

Um trecho da reportagem em que narro minha conversa na cabine do trem com algumas velhinhas muito espirituosas:

Onze da manhã de Quinta-feira Santa em Berlim. A primavera começou oficialmente ontem, como anunciaram as rádios e televisões, mas ainda há neve nas ruas. Chove, e faz um frio de outono na antiga Capital do Reich, onde o sol há muito não aparece. Não fosse por isso, a plataforma 12 da principal estação ferroviária de Berlim Ocidental _ a do Jardim Zoológico _ faria lembrar qualquer desses entrepostos de retirantes do Nordeste brasileiro.

Crianças chorando, a agonia das pessoas em busca de um lugar nos dezesseis vagões do trem lotado, malas perdidas, sacolas em todas as mãos, aleijados tentando abrir portas com as muletas _ o D-345 mais parece um pau-de-arara eletrificado, em que não faltam cachorros e passarinhos. Mas sai exatamente dentro do horário previsto(…)

Ah, a televisão. As mulheres lembram da época em que a polícia da Alemanha Oriental quebrava todas as antenas que estavam voltadas para o lado ocidental. Depois, para impedir que se sintonizasse a televisão colorida da Alemanha Ocidental, implantaram o sistema francês, que exigia um transformador, cuja importação era proibida. Proliferaram então as “vovós contrabandistas”. Elas contam:

_ As vovós (do lado oriental) nunca viajaram tanto como agora. É que com elas o controle da alfândega é menos rigoroso. Minha sogra era uma artista. Ficava tremendo o tempo todo, tinha ataques, a polícia só faltava carregar as malas para ela, não revistavam nada…

Uma das poucas vantagens de ficar velho na profissão é esta: a cada evento que lembra fatos de 20, 30, 40 anos atrás, tenho uma história para contar porque estive lá e vi de perto. Neste caso das “vovós contrabandistas”, que ajudavam a sintonizar o lado oriental com o ocidental, não poderia existir nada mais emblemático do que esta preocupação do governo comunista em impedir que as pessoas vissem as imagens vindas do outro lado do muro, com a oferta de produtos e serviços que não podiam encontrar em seu país.

Ainda esta semana, contei a vocês os fatos de 9 de novembro de 1979, um ano depois de eu ter voltado ao Brasil, quando Carlos Mariguella, o líder da Ação Libertadora Nacional, foi morto numa emboscada pelo delegado Sergio Paranhos Fleury, na alameda Casa Branca, perto de onde moro hoje. Eu também estava lá nesta noite, há 40 anos, como repórter do Estadão, e voltei lá na quarta-feira, durante uma homenagem a ele prestada, para escrever um texto sobre sua viúva, Clara Charf, publicada aqui no blog.

Como me acusam alguns leitores, acho que estou mesmo ficando velho. Tudo está fazendo muito tempo… 

Minha opinião

De Caetano Veloso falando sobre Lula ao dar seu apoio à candidata Marina Silva:

“Marina Silva é inteligente como o Obama, não é analfabeta como o Lula, que não sabe falar, é cafona falando, grosseiro. Ela fala bem”.

Minha opinião sobre Caetano Veloso:

Já foi um bom compositor, é um cantor mediano e nunca deixou de ser um analfabeto político _ uma mistura de Rui Barbosa em compota com ACM em conserva, que se acha o gênio da raça. Prefiro Maria Bethania.

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
06/11/2009 - 18:14

Jornalistas denunciam grupo ligado a Sarney por baderna em São Luís

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Recebi na tarde desta sexta-feira dos meus amigos jornalistas Palmerio Dória e Mylton Severiano a denúncia, que reproduzo abaixo, sobre os lamentáveis incidentes registrados durante o lançamento do seu livro “Honoráveis Bandidos”, quarta-feira, em São Luís, no Maranhão.

Conheço há décadas a seriedade e a competência do seu trabalho na imprensa. Mylton Severiano, o mago do texto, foi quem me abriu as portas da grande imprensa, em 1967. O repórter Palmerio Dória conheci pouco mais tarde na redação do Estadão, vindo de Belém, jovem de talento, sempre inconformado com as injustiças de todas as latitudes. Encontramo-nos várias vezes mais tarde por variadas redações da vida. 

Abaixo, a mensagem que eles me mandaram:

Amigo, eis o que enviamos a ABI e Fenaj

Os jornalistas abaixo-assinados, Palmerio Dória e Mylton Severiano, denunciam aqui a ação fascistoide de um grupo de jovens, a mando do grupo ligado a José Sarney, em São Luís do Maranhão.
 
1.    Antecedentes. Palmerio, autor do livro Honoráveis Bandidos, da Geração Editorial, e Mylton, co-autor, a convite de jornalistas de São Luís, aceitaram lançar o livro na capital maranhense, ontem, dia 4 de novembro de 2009, às 19 horas. Para começar, nenhuma grande livraria local, ou entidade, aceitou promover o evento, além do que nem sequer aceitam o livro em suas prateleiras. Até que, lembrado o Sindicato dos Bancários, suas portas se nos abriram e para ali ficou marcado o lançamento. Na antevéspera, mais um ato que lembra métodos fascistas: a empresa responsável pelos outdoors que anunciavam o evento devolveu o dinheiro aos promotores e mandou “raspar” as peças.

2.    O clima à nossa chegada, na terça, véspera do ato, começou a ficar “esquisito”, quando na coletiva à imprensa, numa sala do Sindicato, alguns colegas nos perguntaram se a gente não tinha “medo”. Falou-se em “corte de energia” durante o evento, brincou-se com a possibilidade de cada um levar uma vela, e alguns dos colegas não descartaram até atos de violência. À noite, em programa ao vivo na rádio Capital, vários ouvintes nos alertaram para aquelas possibilidades – “ele são capazes de tudo”, “cuidado”.

3.    Ontem, quarta, no fim da manhã, uma colega, Jane Lobo, mais realista, aconselhou – e acatamos – a pedir proteção.

4.    Veio a noite. O auditório do Sindicato dos Bancários, na Rua do Sol, estava superlotado, havia muita gente em pé. Um ambiente familiar – gestantes, gente idosa, crianças pequenas e grandes, estudantes. Por ali passaram mil pessoas.

5.    Iniciada a sessão pelo coordenador Marcos Nogueira, quando Palmerio passa a falar sobre o conteúdo do livro, eis que do nosso lado direito uma vintena de jovens, na maioria rapazes e umas poucas moças, prorrompem em berros, aos poucos distinguimos “Jackson ladrão, envergonha o Maranhão”, “mentira”, “viva Sarney”. As pessoas mais próximas se levantam e se afastam, abrindo um claro. Os baderneiros abriram suas camisas, pondo à mostra uma camiseta em que se lia Navalhada de Bandidos e atrás de grades Jackson Lago, o governador que a família Sarney derrubou num golpe do judiciário. Dentre os baderneiros, um rapaz, possesso, ergueu uma das pesadas cadeiras e a arremessou na direção do palco onde estávamos. Imediatamente uma chuva de objetos voou sobre a mesa – bolas de papel molhado, ovos e até pedras – junto com xingamentos e outros impropérios.

6.    Seguiu-se um quebra-quebra, pancadaria, promovida pelos baderneiros.

7.    Passada a estupefação, os presentes mais os seguranças providenciados pelo Sindicato passaram a expulsar os baderneiros do local aos tapas e empurrões. Boa parte do público se retirou, preocupada, “eles vão voltar”.

8.    Reiniciado o ato, os presentes cantaram Oração Latina, puxada ao violão pelo cantor e compositor Cesar Teixeira. A platéia e políticos, das mais diversas extrações, se deram as mãos durante o canto.

9.    Felizmente nenhuma criança se feriu. Uma pessoa das relações de Jackson Lago foi buscar seu carro na rua de trás do Sindicato, Rua dos Afogados, e testemunha: ali havia cinco viaturas da PM, esperando o quê, não se sabe. E, praticamente no mesmo instante, menos de cinco minutos depois, Décio Sá, jornalista “guerrilheiro” dos Sarney, que se encontrava em Fortaleza, já postava em seu blog notícia em que os baderneiros viraram estudantes que protestavam contra o lançamento do livro e “foram atingidos por cadeiras, pedras, socos e pontapés e revidavam como podiam”.

10. Enquanto os autores retomavam a sessão, um grupo foi à delegacia de polícia mais próxima registrar B.O., Boletim de Ocorrência. Dissemos que os baderneiros vieram a mando do grupo ligado a José Sarney e eles próprios, desastrados, se encarregaram de deixar prova cabal: uma moça, Ana Paula Ribeiro, tida nos meios estudantis como “estudante profissional”, ao sair correndo deixou cair a bolsa, com sua identidade dentro. A moça trabalha simples mente com Roberto Costa, secretário de Esporte e Juventude da governadora Roseana Sarney.

11. Toda a confusão armada pelos baderneiros foi fotografada e filmada por profissionais contratados pelo evento.

12. Mesmo com este ataque fascistoide, Palmerio e Mylton assinaram mais de 500 livros, o que demonstra a sede de informação sobre a família que há meio século governa o Maranhão.

 
Palmerio Dória e Mylton Severiano
São Luís, 5 de novembro de 2009

 

 

 


Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
05/11/2009 - 15:07

Aos 84, Clara Charf preserva memória e amor por Marighella

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Sob o sol forte de 11 horas da manhã de quarta-feira, com um cravo vermelho numa das mãos e o microfone na outra, a voz sai mais fraca, mas a firmeza das idéias é a mesma de sempre. Aos 84 anos, aquela mulher miúda de cabelos bem branquinhos posta-se diante do carro de som e dá início, como faz há 40 anos, a mais uma homenagem póstuma a seu marido, assassinado numa emboscada exatamente naquele local, no dia 4 de novembro de 1969. 

Raras vezes na vida, mesmo no cinema ou na literatura de ficção, conheci uma história de amor tão forte como a da ex-aeromoça pernambucana Clara Charf pelo guerrilheiro baiano Carlos Marighella, fundador e líder da Ação Libertadora Nacional, uma das dissidências do Partido Comunista Brasileiro criadas durante o período de resistência à ditadura militar.

Cerca de 40 pessoas, entre amigos, parentes e velhos comunistas, que se referem a ele ainda como
“Mariga”, aglomeram-se na calçada da alameda Casa Branca, no Jardim Paulista. Na noite da sua morte, havia muito mais gente, é verdade _ policiais, curiosos e jornalistas, entre os quais, o autor deste texto, um dos repórteres escalados pelo Estadão para fazer a cobertura.

Quem passa de carro não faz idéia do motivo que reúne aquelas pessoas diante de uma pedra em forma de lápide colocada ali para lembrar a morte de Marighella, entre a alameda Lorena e a José Maria Lisboa.

Por isso, Clara pergunta e ela mesma responde:

“Por que ele foi morto? Porque a sociedade não era justa, não tinha terra e trabalho para todos. Ele lutou desde jovem contra isso, foi preso várias vezes(… ) Naquela noite veio se encontrar com dois companheiros para estudar caminhos que permitissem aos perseguidos sair do Brasil em segurança. Muitos que estão aqui devem sua vida a ele. (…) Graças a pessoas como Marighella chegamos ao Brasil que temos hoje, que está longe de ser perfeito, mas melhorou muito em relação ao que era naquela época”.

Desde quando teve seu registro de trabalho de comissária de bordo cassado em 1946, Clara Charf dedica-se a muitas lutas, tendo passado boa parte da vida na clandestinidade, outra como exilada, participando de protestos contra a bomba atômica à campanha contra o envio de soldados  brasileiros para a Guerra da Coréia.

Até hoje, ela está na luta. Participa ativamente do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, da Associação Mulheres pela Paz ao Redor do Mundo e da Comissão de Mortos e Desaparecidos. Mas a maior de todas as lutas de Clara Charf nos últimos anos foi pela preservação da memória do grande amor da sua vida, hoje abrigada no Espaço Cultural Carlos Marighella, por ela criado.

Quatro décadas após a execução de Marighella comandada pelo delegado Sergio Fleury, o chefe da repressão em São Paulo, Clara fala com carinho do temido combatente, para ela “um poeta dedicado à solidariedade”, o homem mais procurado do país do seu tempo. A seu lado, estão o filho, Carlos Augusto, e a neta Maria, de 31 anos, artista de teatro, encarregada de ler um manifesto.

Diante deles, um cartaz do Espaço Cultural Carlos Marighella reproduz alguns versos de “Rondó da Liberdade”, o poema dele mais conhecido:

O homem deve ser livre (…)

É preciso não ter medo

É preciso ter a coragem de dizer.

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
03/11/2009 - 10:07

Bela notícia: choque de bem-estar no trânsito paulistano

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Atualização às 11:45

Caros leitores,

cheguei agora de um ato em homenagem a Carlos Mariguella pelos 40 anos de sua morte e viajo daqui a pouco para Porto Alegre, onde farei, à noite, a convite da Souza Cruz, uma palestra sobre “Liberdade de Escolha e de Expressão” para um grupo de jornalistas gaúchos. Volto na manhã de quinta. Por esta razão, não farei hoje a atualização do Balaio e a moderação de comentários. Até a volta.

Abraços,

Ricardo Kotscho

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Para quem só anda de táxi em São Paulo, como eu faço, todo dia ouço dos motoristas sempre a mesma triste ladainha: “Esse trânsito não tem mais jeito. Um dia vai parar tudo, vai dar um nó geral, ninguém mais vai conseguir nem sair de casa. Nem Jesus Cristo dá mais jeito nisto. Eu não vejo a hora de largar esta vida e ir embora de São Paulo”. E por aí vai.

Com mil novos carros entrando a cada dia no já caótico trânsito de São Paulo, mais as obras que interditam ruas e viadutos, parece que as previsões apocalípticas dos nossos taxistas estão para se confirmar a qualquer momento.

De repente, quando tudo parecia perdido, somos surpreendidos por uma bela notícia dada pela Folha desta terça-feira na manchete do caderno “Cotidiano”: ” Após 12 anos, SP vai ter respiro´ no trânsito _ Pacote de obras a ser entregue em março, num gasto total de R$ 9,8 bi, deve melhorar circulação pela 1ª vez desde o início do rodízio”.

Chamado de “pacote de março”, mes em que o governador José Serra terá que deixar o cargo caso venha a ser candidato a presidente da República, o conjunto de intervenções urbanas promovido pelo governo do Estado e pela Prefeitura paulistana, foi bem definido por Bernardo Alvim, consultor em transportes, como “um choque de bem-estar”.

Já não era sem tempo. A última vez que o poder público fez alguma coisa parar melhorar de fato a vida de quem é obrigado a enfrentar o trânsito de São Paulo todos os dias foi a implantação do sistema de rodízio de carros conforme o final da placa, que retirou de circulação de 10 a 20% dos veículos nos horários de maior movimento.

Agora, como informa a Folha, São Paulo vai inaugurar de uma só vez o trecho sul do Rodoanel, novas pistas da marginal Tietê, a extensão da avenida Jacu-Pêssego, ligando a Dutra e a Ayrton Senna por fora da cidade, a primeira fase da linha-4 do metrô e a extensão da linha 2 até Vila Prudente, tudo isso permitindo o aumento das restrições à circulação de caminhões.

Segundo cálculos do secretário dos Transportes, Mauro Arce, estas obras vão permitir a retirada de metade dos cerca do um milhão de caminhões que passam por São Paulo mensalmente em direção ao porto de Santos, que agora poderão utilizar o Rodoanel.

Nunca entendi porque São Paulo, entre todas as grandes cidades do mundo que conheço, é a única onde os caminhões ainda circulam livremente por quase toda a área urbana, cruzando suas principais vias, principal razão para os constantes congestionamentos e a lentidão do trânsito a qualquer hora do dia, qualquer hora da semana.

Ainda de acordo com a Folha, ”as obras têm uma década de atraso” , mas isso agora não importa. Pelo menos por algum tempo, teremos um refresco. “Essas obras vão estancar a piora do trânsito. A coisa vai continuar ruim, mas não vai piorar mais”, prevê Jaime Waisman, professor da USP. Por enquanto, já serão um alívio para meus estressados amigos taxistas e seus passageiros idem. Basta ter um pouco de paciência até as obras ficarem prontas, depois do Carnaval.

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
01/11/2009 - 11:30

Exclusivo: José Alencar já admite se candidatar em 2010

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Alencar posa para foto ao lado de Noca da Portela / Foto: Marlene Araújo

Alencar posa para foto ao lado de Noca da Portela / Foto: Marlene Araújo

 

BRASÍLIA _ “Lula, estou com um problema sério. Eu já tinha planejado tudo para morrer, até o cemitério, e agora, de uma semana para cá, vi que vou ter que replanejar tudo”, confidenciou o vice José Alencar durante a feijoada em que só a familia e alguns amigos da família Silva comemoraram, neste sábado, os 64 anos do presidente, na Granja do Torto, em Brasília.

Feliz da vida com os resultados dos últimos exames, que mostraram uma regressão dos tumores no intestino, José Alencar chegou animado à festa acompanhado da mulher, dona Mariza. A presença dele foi uma surpresa que a outra Marisa, mulher de Lula, preparou para o presidente, porque a festa oficial de aniversário, com os membros do governo, já tinha acontecido na terça-feira, no Alvorada.

Maior foi a surpresa do presidente Lula quando, já no final do almoço, meio brincando, meio falando sério, o vice-presidente revelou a ele seus planos para 2010:

“Diante dos últimos exames, meu nome está de novo à disposição. Só não posso ser candidato a vereador nem a prefeito porque no ano que vem não tem eleição municipal. Fora isso, posso ser candidato a qualquer cargo em 2010″.

Virando-se para as outras pessoas na mesa principal _ as respectivas mulheres, os médicos Roberto Kalil, Nana Miura e Cláudia Cozer, e o cantor e compositor Noca da Portela _ José Alencar falou dos seus novos planos:

“O Lula está me devendo… Eu tinha mais quatro anos no senado e saí para ser vice dele… agora ele tem que me apoiar para devolver estes quatro anos…”

Em outras palavras: o vice José Alencar está “colocando à disposição” o seu nome para disputar uma das duas vagas para o Senado por Minas Gerais. Comentário meu: do jeito que anda seu prestígio em todo o país, Alencar seria um dos poucos candidatos majoritários que não precisaria nem do apoio do presidente Lula para se eleger em 2010.

Na festa de Lula, a
estrela é Noca da Portela

Outra surpresa preparada para o presidente Lula por dona Marisa, que cuidou da feijoada, e pela nora Marlene Araújo, encarregada da “produção”, foi um show do velho sambista Noca da Portela, autor, entre outros grandes sucessos, nos seus 55 anos de carreira, do jingle “Estrela da Esperança”, que fez em parceria com Riko Dirolêo, para a campanha de 2002.

Aos 76 anos, mesma idade de José Alencar, ele contou que veio prestar uma homenagem ao presidente, “com cachê zero”, e já chegou entoando os versos iniciais da música:

Está em festa o meu país
Nossa gente está contente
O Brasil está feliz
Lula é o nosso presidente

Acompanhado de apenas quatro ritmistas (dois deles alunos do Pró-Uni) e do parceiro Toninho Nascimento, Noca da Portela cantou a tarde toda e, nos intervalos, contou passagens da sua vida desde que deixou a sua pequena Leopoldina, em Minas gerais, e foi para o Rio de Janeiro, com cinco anos.

Nascido Osvaldo Alves Pereira, Noca fez seu primeiro samba enredo, o “Grito do Ipiranga”, com apenas 14 anos, para a escola Irmãos Unidos do Catete. Em 1966, seria levado para a Portela por Paulinho da Viola e de lá nunca mais saiu.

A família era da roça em Minas, mas o pai, Ernesto Domingos Araújo, seu mestre, foi um importante violonista no Rio de Janeiro, embora nunca tenha gravado um disco. Sua casa era frequentada por Cartola, Noel Rosa, Chico Alves, entre outros grandes nomes da nossa música popular.

Antes de se tornar famoso e ganhar a vida como músico, Noca foi feirante de frutas e legumes, dos 18 aos 28 anos. Como o pai, também foi militante do Partido Comunista Brasileiro, o antigo Partidão. “Desde jovem, a política e a música sempre se misturaram na minha vida. Meu ídolo era o Luiz Carlos Prestes. Viajei o Brasil inteiro junto com o taiguara fazendo shows para o Partidão”.

Depois de participar de toda a Campanha das Diretas ao lado de Ulysses Guimarães, Tancredo, Brizola e Lula, no final dos anos 1980, ele ainda faria o jingle da campanha de Roberto Freire, o candidato do PCB a presidente da república. Logo em seguida, aproximou-se do PT.

“Eu quero ajudar o meu país. Quando o Partidão acabou, a maioria foi para o PT e, em 2002, fiz o jingle da primeira vitória do Lula. Esse Brasil do nosso Lula deu oportunidade para mostrarmos o nosso rosto, um rosto bonito. Antes a gente escondia o rosto de vergonha”.

Músicos e convidados tomaram chope e caipirinha, menos Lula, que está fazendo a dieta da proteína e só comeu as carnes da feijoada. Foi uma festa bem caseira. Milhares de outros Silva devem ter comemorado deste jeito, com samba, cachaça e feijão, os seus aniversários por todo o Brasil neste sábado. Quando a música parou, a lua cheia começou a aparecer no horizonte da Granja do Torto. Foi o penúltimo aniversário que Lula comemorou aqui.

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
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