iG
iBest BrTurbo

Publicidade

Publicidade

Arquivo de novembro, 2009

22/11/2009 - 10:10

Filme sobre Lula desperta amor e ódio até em quem não viu

Os assuntos mais comentados da semana

Balaio

Humildade e humor: 82

Foz do Iguaçu, 39 graus: 35

Futebol: 35

Folha

Cesare Battisti: 98

Apagão: 69

Lula: 65

Veja

Caso Geisy arruda: 27

Apagão do governo Lula: 22

Enade com propaganda do governo: 15

***

O filme brasileiro mais badalado do ano só estréia nos cinemas no começo do ano que vem. Muito poucos o viram até agora. Mas “Lula, o Filho do Brasil”  já deve ser o filme mais lido do cinema brasileiro.

Há meses, jornais, revistas e portais de internet escrevem todo dia quilômetros de textos para falar do filme _ falando bem ou mal, não importa. Todo mundo acha que tem a obrigação de escrever sobre o filme. Nas cartas e comentários de leitores que ainda não viram o filme de Fábio Barreto, também não tem meio termo: Lula sempre desperta amor e ódio na mesma medida, qualquer que seja o enredo.

Já que é assim, também resolvi hoje escrever sobre o assunto, embora só vá assistí-lo no próximo sábado, em São Bernardo do Campo, graças a um convite que recebi dos produtores _ entre eles, meu velho e bom amigo Roberto d´Ávila.

“Lula, o mito, a fita e os fatos” é a capa da Veja desta semana. Mostra Lula com cara de bravo e o ator que o interpreta no filme fazendo um inflamado discurso do tempo em que o hoje presidente era líder metalúrgico.

A chamada de capa já resume o que a revista julga a respeito: “Pago por empresas privadas com interesses no governo, o filme sobre a vida do presidente é um melodrama que depura a sua biografia, endeusa o político e servirá de propaganda em 2010″.

Será mesmo? A esta altura, o que menos interessa é a obra cinematográfica _ a direção, o roteiro, a fotografia, os atores _, mas o uso que se fará dele no ano da eleição presidencial, embora o filme termine antes de Lula iniciar sua carreira política.

Tenho para mim, e até adversários severos de Lula concordam, que o mito já está criado faz tempo, e o filme dificilmente terá o poder de mudar o que os brasileiros pensam a respeito deste personagem improvável na cena política brasileira.

Como tudo virou um Fla-Flu no Brasil quando se trata de governo e oposição, acho difícil alguém mudar sua opinião sobre Lula _ e mais ainda sobre a sua candidata Dilma Roussef_ só porque uma ou outra cena não corresponde exatamente à vida real, assim como ninguém vai mudar de time por causa de um artigo de revista ou jornal.

E os leitores do Balaio, o que pensam sobre o filme que ainda não viram?

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
19/11/2009 - 18:26

Foz do Iguaçu, 39 graus: a pajelança das águas

FOZ DO IGUAÇU (PR) _ Final de tarde de quinta-feira. Cheguei agora ao hotel, depois de passar o dia todo viajando pelo lado brasileiro da Tríplice Fronteira com Argentina e Paraguai, às margens do marzão de Itaipu. No rádio do carro, o locutor da Rádio Mundial, que transmite em portunhol e mistura música sertaneja, com guarânias e vanerões, informa que os termometros marcam 39 graus.

Parece muito mais. Há tempos não sentia tanto calor em nenhum lugar do Brasil. Apesar de cercado de água e matas por todos os lados, com as Cataratas do Iguaçu no meio, não bate uma brisa,  as árvores parecem estátuas. Por uma dessas ironias do destino, vim parar aqui exatamente para acompanhar o 6º Encontro Cultivando Água Boa, uma pajelança que reúne 4.300 participantes em torno das discussões sobre as práticas ambientais que podem impedir o tal aquecimento do planeta.

Vocês podem imaginar o que é esta multidão reunida no auditório fechado de um hotel na entrada da cidade, com faixas e bandeiras, dançando e cantando na festa de abertura do evento promovido pela Itaipu Binacional e por outras 30 empresas e instituições. Veio gente de todo canto, em sua maioria agricultores, pescadores e índios dos 29 municípios da região beneficiados pelo Programa Cultivando Água Boa, mas também especialistas e pesquisadores de outras partes do país e do exterior.

Logo cedo saí a campo para fazer uma reportagem para a revista Brasileiros de dezembro sobre como anda a vida das pessoas que vivem às margens do marzão represado do rio Paraná, e ver o que mudou com a criação de 70 microbacias e o reflorestamento das nascentes dos rios e das sangas, como por aqui chamam os corregos, que desaguam no reservatório.

Tive a sorte de ser acompanhado por um guia que conhece a história toda desde o começo da obra. O técnico gaúcho Romualdo Barth, 54 anos, começou em Itaipu como segurança e passou pelas mais diferentes funções até se tornar um dos nove gestores de microbacias do Programa Cultivando Água Boa, criado em 2003.

Barth conhece a vida de cada um dos 508 proprietários da área de Itaipulândia, um bem cuidado, calmo e limpo município de oito mil habitantes, que não existia quando a hidrelétrica começou a ser construída. Levou-me à casa de dois deles, o Arruda e o Silvestre, dois personagens fantásticos que deixam qualquer um feliz ao ouvir as suas histórias.

São pessoas que passaram por muitas dificuldades na vida, mas aproveitaram a oportunidade que apareceu quando começaram a receber assistência técnica para implantar a agricultura orgânica, caso de Arruda, ou de se tornar pioneiros na criação da microbacia da sanga do Buriti, como aconteceu com Silvestre, que cedeu parte da sua terra para a criação de uma mata ciliar e da abertura de uma estrada para evitar a erosão, antiga praga por estas bandas que até recentemente ameaçava assorear o reservatório.

“Eu perdi uma parte da propriedade, ou melhor, ganhei, porque amanhã, de repente, tem alguém que vai me agradecer. Nunca vou morrer de fome e agora vivo melhor. Até os passarinhos e os peixes voltaram…”, contou-me  Wilson Francisco Silvestre, 54 anos, três filhos e dois netos, que ainda mora numa daquelas antigas casas de madeira do interior paraneanse, mas tem dois aviários com mais de 30 mil frangos, plantações de fumo, soja e milho, um carro e uma moto na garagem, e vê os netos quase todo dia pela webcam da internet.

Os sinos da catedral anunciam que é a hora da Ave Maria e me lembram que daqui a pouco vai sair o passeio de catamarã no grande lago de Itaipu, que eu vi ser formado em apenas duas semanas de 1982, quando vim fazer uma reportagem para o Estadão. Nada melhor para encarar a noite também quente nestes fundões do oeste brasileiro. 

Stress? Mau humor? Desânimo? Recomendo aos leitores dar uma chegada por aqui qualquer dia desses para conhecer outras paisagens e brasileiros do tipo de Arruda e Silvestre, e descobrir como a gente perde tempo com tanta bobagem, sem desconfiar que outra vida é possível.

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
16/11/2009 - 17:13

Humildade e humor: dois caminhos para a felicidade

Atualizado às 9:15 de quinta-feira

Pessoal,

embarco daqui a pouco para Foz do Iguaçu, no Paraná, onde vou fazer uma reportagem para a revista Brasileiros. De lá de Foz, onde fico até sábado, vou atualizar o Balaio e fazer a moderação de comentários na medida do possível.

Abraços,

Ricardo Kotscho

***

De vez em quando, faz bem sair de circulação, nem que seja por pouco tempo. Nas 48 horas que passei em retiro espiritual, sem notebook nem celular, com meus colegas de Grupo de Oração, durante o último fim de semana, numa pousada em Tremembé, no interior de São Paulo, o tema que discutimos foi a alegria de viver.

Nosso grupo, que já completou 30 anos, tem gente de variadas idades, religiões, profissões e experiências, sobrevive sem regras, estatutos ou compromissos. O que nos une é apenas a vontade comum de refletir sobre os rumos da nossa caminhada pela vida.

Como em todos os retiros, cada um de nós leva textos para ajudar nesta reflexão. Trouxe para compartilhar com vocês um destes textos: “Humildade e humor como características da existência cristã”, quarto capítulo do livro “Espiritualidade a partir de si mesmo” (Editora Vozes, 2004), de Anselm Grün e Meinrad Dufner, dois beneditinos que vivem na Alemanha.

Pessoas muito alegres não são necessariamente felizes _ e vice-versa. Grün e Dufner nos ajudam a entender a diferença entre estes dois sentimentos _ a alegria, voltada para fora, e a felicidade, para o consumo interno. Uma passagem, que está na página 113 do livro, nos indica os caminhos:

Uma espiritualidade que se deixa orientar pela humildade não faz de nós pessoas que se diminuem artificialmente, que pedem desculpas pelo fato de estar no mundo. Pelo contrário, a humildade leva à verdade interior, à despreocupação e ao bom humor. No humor está presente a antevisão de que tudo pode existir em nós, de que somos feitos de barro e que, por isso, não podemos nos espantar com nada que é terreno.

O humor é estarmos reconciliados com nossa condição humana, com nossa condição terrena, com nossa fragilidade. No humor está presente a aceitação de mim assim como eu sou.

Outro autor, Henrich Lützeler, citado pelos beneditinos alemães, acha que o humor tem a ver com o desmascarar a realidade:

As figuras mais importantes do humorismo _ por exemplo, Aristófanes, Shakespeare, Cervantes, Molière _ eram pessoas realistas, e nada do que faz parte do homem lhes era estranho. Por trás de mil disfarces, por trás de resplendentes bastidores e de palavras altissonantes, eles infalivelmente apanhavam o que existe de mais humano.

No humor, reencontramos a reta medida de nós mesmos e nos libertamos por inteiro do emocionalismo em que tanto gostamos de nos sentir os tais.

De todas as formas de humor, a mais simples para alcançarmos a felicidade que, ao final das contas, é o objetivo primeiro e último de todos nós nesta terra do bom Deus é, a meu ver, a autoironia ou autogozação, como queiram. É a capacidade que temos de rir de nós mesmos, brincar com nossos defeitos, em vez de sofrer com eles.

Penso que existe a boa humildade, que é altiva na alegria, por conhecermos nossos limites e não querermos ser mais do que somos, satisfeitos com o que temos. E tem a humildade ruim, que é servil e triste. A este respeito escrevem Grün e Meinrad:

Nós entendemos a humildade antes de tudo como uma atitude religiosa, não haveremos então de associar-lhe idéias negativas, como “dobrar o espinhaço”, rastejar, fugir às exigências da vida, um secreto egoísmo disfarçado de falsa modéstia.

Claro que a alegria e a felicidade jamais serão sentimentos permanentes e imutáveis, por mais que procuremos cultivá-los para o nosso próprio bem e o de quem conosco convive _ exatamente porque dependemos também do humor dos outros e das circunstâncias que nos cercam a cada momento.

Entre a vida idealizada dos retiros e a vida real do nosso dia a dia, a felicidade é uma busca permanente, que depende de um conjunto de fatos concretos e não se subordina apenas a nossos desejos.

Por exemplo: fui informado agora há pouco dos resultados de exames que faço todo ano desde que os médicos me extirparam a tireoide (havia suspeita de câncer, felizmente não confirmada). Trata-se de uma pequena glândula localizada ao pé do pescoço, que controla o metabolismo do corpo e regula orgãos como o coração, o cérebro, o fígado e os rins.

Por isso, tenho que tomar pelo resto da vida um comprimido de remédio todo dia logo ao acordar. Nas raríssimas vezes em que me esqueço de fazê-lo, com o passar das horas do dia vou perdendo as forças e o humor, como uma lâmpada que vai ficando mais fraca com a queda de voltagem.

Desta vez, os exames mostraram alterações graves em relação aos exames anteriores. Minha médica imediatamente aumentou a dosagem do remédio que tomarei a partir de amanhã, mas o simples fato de saber do problema já alterou meu humor, é claro.  

Entre as belas reflexões do nosso retiro e a dura verdade científica, a alma e o corpo balançam. Nosso grande desafio é encontrar o ponto de equilíbrio entre os exames médicos e a prática da espiritualidade.

   

 

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
15/11/2009 - 20:20

Flamengo agora é a ameaça rumo ao tetra/hepta

Os assuntos mais comentados da semana

Como faço todos os domingos, publico abaixo a relação dos três temas que receberam na última semana o maior número de comentários dos leitores, aqui no Balaio, na Folha e na Veja:

Balaio

Porque ficamos no escuro: 276

Palmeiras ladeira abaixo: 221

Estilos de Lula e Serra: 117

Folha

Caso Geisy/Uniban: 302

Apagão: 195

Lula: 55

Veja

Vocações: 39

Especial Brasília 50 anos: 26

Políticos transgressores: 20

***

Aos leitores: alguns de voces estranharam minha ausência nos últimos dias, imaginando coisas, como aconteceu na noite do apagão. Deixei de atualizar o post e moderar comentários porque na sexta-feira preparei almoço para uma ilustre amiga aqui em casa e, em seguida, viajei para o retiro espiritual que faço duas vezes por ano. Apenas esqueci de avisar vocês, como costumo fazer.

***

E vamos falar de futebol, que hoje é domingo, e o meu São Paulo terminou a rodada como líder absoluto, dois pontos à frente do Flamengo e três do Palmeiras.

Como escrevi aqui dias atrás, o São Paulo demorou a pegar o osso, chegou à liderança apenas na reta final do campeonato, mas agora vai ser difícil arrancá-lo dele, a exemplo do que aconteceu nos três anos anteriores  em que chegou ao título.

Assim como o São Paulo, que cresceu quando já ninguém mais esperava, também o Flamengo embalou na hora da onça beber água, e agora é o que mais ameaça a conquista do tetra consecutivo e do heptacampeonato brasileiro.

Os São Paulo e Flamengo ganharam pelo mesmo placar _ 2 a 0, contra o Vitória e o Náutico respectivamente _, lotando estádios e empolgando suas torcidas.

Enquanto isso, o Palmeiras que esteve na frente durante quase todo o campeonato, cai agora para o terceiro lugar, depois de empatar no meio da semana com o já rebaixado Sport, jogando em casa, e o Atético Mineiro, outro concorrente direto ao título, caía diante do Coritiba.

Ricardo Gomes, no São Paulo, e o eterno interino Andrade, no Flamengo, assumiram seus times sem muita confiança das suas torcidas. Mas, com os mesmos elencos que receberam, sem fazer mágicas, tiraram seus times lá do fundo da tabela e foram subindo aos poucos, até chegar ao topo.

Vi o jogo do São Paulo contra o Vitória, sábado à noite, no Morumbi. Depois de muito tempo, deu para vibrar com as belas jogadas do time, que dominou o jogo de ponta a ponta, sem ter que sofrer os 90 minutos como aconteceu antes nas magras vitórias que nos levaram à liderança.

Agora, só dependemos de nós. Os três adversários que faltam para botarmos a mão em mais uma taça, são bem fraquinhos _ Botafogo, Goiás e Sport _ e, se o São Paulo conseguir controlar os nervos, jogando só para o gasto, já dá para pensar em mais uma conquista inédita, quatro vezes seguidas campeão brasileiro.

Já andaram até botando à venda camisas com o 7-4-4, e tem gente propondo que em 2010 o São Paulo tire um ano sabático para dar chance aos outros, o que pode dar azar. Do jeito que as coisas andam, porém, o mais provável hoje é que o time do pé quente Juvenal Juvêncio conquiste o Brasileirão de 2009.

Este ano, o São Paulo mais uma vez começou mal, demitiu o técnico, contratou outro sem perfil de ganhador, esteve perto da zona de rebaixamento. Como não apareceu nenhum outro grande time, de repente, olha lá o Tricolor, chegando outra vez. Este ano, como a maioria dos torcedores que conheço, nem eu esperava por isso. Foi uma bela surpresa. Falta pouco.

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
12/11/2009 - 10:39

Pobre Palmeiras, ladeira abaixo, sem culpa do juiz

Nada como um dia após o outro, com uma noite no meio. Ladeira abaixo, o Palmeiras colocou toda a culpa da sua derrota de domingo contra o Fluminense, por 1 a 0,  no juiz Carlos Eugenio Simon, que anulou um gol legítimo de Obina logo no começo do jogo. Massacrou o pobre do juiz, ameaçou processá-lo, só faltou pedir à torcida seu linchamento em praça pública. Vão pedir desculpas agora?

Pois apenas três dias e três noites depois, por muito pouco o Palmeiras não foi derrotado pelo lanterna Sport em pleno Parque Antártica, graças ao juiz goiano Elmo Alves Resende Costa, que anulou e depois confirmou um gol de Danilo, já no final da partida, quando o time perdia por 2 a 1 e era vaiado pela torcida.

Que me perdoe o amigo Muricy, mas o Palmeiras desta reta final está lembrando muito o São Paulo mambembe do início do Campeonato Brasileiro, quando o time estava jogando pedrinhas e caindo na tabela, já à beira da zona de rebaixamento, quando Muricy foi demitido.

Sorte nossa que o Muricy foi para o Palmeiras, que era o líder do campeonato. Agora que chegou a hora da onça beber água, o São Paulo chegou pela primeira vez à liderança, mesmo sem jogar o fino da bola, mas mostrando um time aguerrido e coeso, montado por Ricardo Gomes, com o mesmo elenco que herdou de Muricy.

A verdade é que o Palmeiras perdeu o rumo na hora decisiva, depois de liderar o campeonato por 17 rodadas. No primeiro tempo do jogo desta quarta-feira à noite, os dois times pareciam de camisas trocadas. Bem postado em campo, trocando passes raídos, fulminante nos contra-ataques, era o lanterna Sport quem dava um passeio em campo e parecia disputar o título, enquanto o líder Palmeiras parecia lutar bravamente para não cair.

Até estava evitando falar de futebol aqui no Balaio para não tripudiar sobre Muricy e meus amigos e parentes palmeirenses. Mas agora não tem jeito de não reconhecer que eu estava errado ao jogar a toalha já na metade do primeiro turno, desdenhar de Ricardo Gomes e escrever que este ano o São Paulo não seria tetra consecutivo (ou hepta, como queiram). Quem, pelo jeito, não vai mais conquistar este título inédito é Muricy Ramalho, tricampeão pelo São Paulo.

O São Paulo voltou a ser o grande favorito para ganhar mais um título brasileiro, como já previu na segunda-feira o amigo Milton Neves, aqui mesmo no iG. A principal ameaça no nosso caminho para que isso aconteça é, a meu ver, o Flamengo de Andrade e Petkovic, um time que embalou na reta final, ao contrário do que está acontecendo com o Palmeiras.

Nada está decidindo ainda. Mas, daqui para a frente, o Palmeiras vai ter que rebolar e  suar mais a camisa para ficar ao menos no G-4, de onde poderá sair já neste final de semana. Sábado, o São Paulo pega o Vitória no Morumbi e, com o mesmo número de jogos (tem um a menos hoje) , poderá abrir três pontos de vantagem sobre o segundo colocado. Quando isso acontece, o São Paulo não costuma mais largar o osso.

Na Casa do Saber

Estarei nesta noite de quinta-feira, a partir das 20 horas, na Casa do Saber, participando do ciclo denominado “Grandes Jornalistas” (agradeço a parte que me toca, mas acho um exagero…).

O encontro faz parte de um curso que já apresentou Otavio Frias Filho e Joyce Pascovitch. Ainda estão programados  Alberto Dines (19/11) e Juca Kfouri (24/11).

Na apresentação do encontro, a Casa do Saber explica a iniciativa:

“Neste curso, alguns dos maiores expoentes do jornalismo brasileiro dão depoimentos sobre suas trajetórias pessoais e profissionais. Os jornalistas convidados se tornaram referências para a história da atividade e continuam exercendo influência em suas áreas de atuação até hoje, para além dos limites de um ou outro veículo. Entrevistados por Mario Vitor Santos, jornalista e diretor da Casa do Saber, serão questionados sobre hábitos, formas de trabalho, grandes reportagens, furos e sobre projetos jornalísticos que realizaram e realizam ainda. Os depoimentos do curso formarão um painel de aspectos da comunicação jornalística atual. Tratarão também dos impasses e desafios impostos ao jornalismo pelas mudanças sócio-econômicas, o advento da comunicação virtual e o polêmico fim da exigência do diploma para exercer a profissão”.

Endereço da Casa do Saber: rua Mario Ferraz, 414, no Itaim, em São Paulo.

Fone: 3707 8900

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
11/11/2009 - 09:47

“Alô, Samek, o que aconteceu?” Porque ficamos no escuro

A exemplo do que deve ter acontecido em milhões de casas de brasileiros de 12 Estados e do Distrito Federal, quando tudo apagou e o mundo escureceu, às 22:15 desta terça-feira, começamos a ligar para os parentes mais próximos querendo saber onde cada um estava, com a inevitável pergunta: o que será que aconteceu?

Eu também queria saber. Nestas horas, todo mundo corre para a internet, mas demorou para que aparecessem as primeiras informações, ainda truncadas. Choveram palpites de todo lado. Lembrei-me então de um velho amigo, o Jorge Samek, que poderia ter a resposta mais correta. Tenho seu celular, mas achei que seria impossível falar com ele nesta hora.

Tentei a primeira vez, não consegui. Na segunda tentativa, pouco antes das 11 da noite, o próprio atendeu. “Alô, Samek, o que aconteceu?”, fui logo perguntando, sem mesmo dar-lhe boa noite. Solícito como sempre, ele me deu as informações mais importantes que eu precisava, que imeditamente repassei à redação do iG.

Jorge Samek, como agora todos sabem, vem a ser o presidente da Itaipu Binacional, cargo que ocupa desde o início do governo Lula. No olho do furacão, à frente da maior empresa de geração de energia do continente, o amigo parecia mais tranquilo do que eu poderia imaginar.

Em resumo, ele me contou que as cinco linhas de transmissão de Furnas foram saindo do ar num efeito dominó, o que desligou automaticamente as 20 turbinas de Itaipu, que geram 14 mil megawatts. Sem ter a quem entregar a energia gerada, as turbinas simplesmente pararam de produzir.

Já naquele momento, ele me disse que ventos ou raios devem ter provocado danos em alguma linha de transmissão e, como o sistema é interligado, uma após outra elas deixaram de levar a energia de Itaipu para boa parte do país. Mais não lhe perguntei para não atrapalhar seu trabalho.

Enquanto eu falava com ele, minha mulher foi repassando as informações para as filhas. Em seguida, liguei para a chefia da redação. Como a bateria do celular já estava acabando, nada mais me restava fazer a não ser ir dormir com a boa sensação do dever cumprido, sabendo o que aconteceu. Foi mais um dia ganho honestamente, como costumo dizer à minha mulher ao final de cada jornada.

De manhã, ao acordar, a luz já tinha voltado,  tudo funcionava normalmente aqui em casa e, penso, no resto do país. O susto foi grande, mas as soluções seriam logo encontradas, antes que a urubuzada saísse da toca para festejar mais uma crise do fim do mundo.

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
10/11/2009 - 14:44

Na homenagem a José Alencar, estilos opostos de Lula e Serra

Foi mais ou menos como se uma orquestra sinfônica e uma escola de samba se apresentassem na mesma noite, no mesmo palco, para a mesma platéia. Deu-me esta impressão ao ouvir os discursos do presidente Lula e do governador Serra durante a homenagem prestada pela Fiesp, na noite desta segunda-feira, ao vice-presidente José Alencar, concedendo-lhe o título de presidente emérito da entidade.

Formal, respeitoso e correto, Serra, que falou primeiro _ logo após a homenagem feita a José Alencar pelo presidente da Fiesp, Paulo Skaf, e da exibição de um belo filme sobre a sua vida _, arriscou raros improvisos em seu breve discurso, destacando o caráter empreendedor de José Alencar e suas ligações com São Paulo. Lembrou dos poucos encontros que os dois tiveram ao longo da carreira e do fato de que a cidade onde o homenageado nasceu chamava-se no começo São Paulo de Muriaé. O santo ainda é o padroeiro da cidade.

Ao final, recebeu os aplausos protocolares de quem acabou de ouvir uma afinada orquestra alemã. O contraste com Lula ficou claro logo nas primeiras palavras do presidente, na hora de ler a chamada nominata, lista de autoridades presentes que os oradores recebem da assessoria. Ao contrário de Serra, improvisou uma saudação a alguns dos presentes e fez a primeira das muitas brincadeiras da noite, contrapondo-se ao governador, que leu a lista completa: 

“Como não sou mais candidato, nem preciso cumprimentar muita gente…”

A platéia riu, mas Serra não achou muita graça, e assim permaneceu, impassível, durante o resto da fala toda improvisada de Lula, que arrancou lágrimas, risos e aplausos em cena aberta, várias vezes, num dos discursos mais inspirados e emotivos da sua já longa carreira de palanqueiro.

Ao final, foi longamente aplaudido de pé pela platéia de empresários e políticos, como se fosse um Noca da Portela saindo do Sambódromo, enquanto dava um interminável e apertado abraço em José Alencar, que chamou de sua “cara-metade” na política.

Lula abraça Alencar durante homenagem/ Foto: AE

Lula abraça Alencar durante homenagem/ Foto: AE

 

Desde a hora em que chegou, com o habitual atraso, ao 14º andar da Fiesp, onde as autoridades se encontraram na sala da diretoria da entidade, antes de descerem juntas para o auditório no subsolo, Lula parecia mesmo inspirado naquela noite. Falando mais do que de costume, estava de muito bom humor depois de ter passado o dia todo em São Paulo.

Na rodinha dos que aguardavam a chegada do presidente junto ao vice José Alencar e sua mulher, dona Mariza, o prefeito são-paulino Gilberto Kassab tirava uma onda com o governador palmeirense José Serra, que estava inconformado com o gol anulado de Obina, na derrota contra o Fluminense, em que seu time perdeu a liderança do campeonato no domingo.

O assunto quente da hora era a decisão da CBF de tirar o juiz Carlos Eugênio Simon do restante do Campeonato Brasileiro, reconhecendo que ele errou feio. “Então tem que cancelar a partida!”, protestou Serra, diante de um feliz Kassab, que só ria e balançava a cabeça como quem diz: ninguém mais tira este título do nosso São Paulo. O governador me contou que, para seu desgosto, tem um neto são-paulino, que estuda na mesma classe da minha neta, que é palmeirense.

Para se vingar da minha alegria de são-paulino, Serra não perdeu a chance de tirar uma casquinha: “Nossa, como você está ficando gordo!” Acho que é de tanto comemorar títulos, pensei comigo… Mas, desse jeito, ele não vai conquistar o voto dos gordos…

Feliz da vida estava Josué, o único filho homem de José Alencar, que assumiu o comando do império da Coteminas quando o pai resolveu entrar na política, no final dos anos 1990, para pouco tempo depois se tornar o companheiro de chapa de Lula, em 2002, mas ele não se empolgou nem um pouco com a idéia do pai de se candidatar de novo no ano que vem.

Contei-lhe como foi a conversa de Alencar com Lula no aniversário do presidente, sábado retrasado, na Granja do Torto, em que seu pai revelou os planos de se candidatar a senador por Minas. Josué parecia não acreditar muito nesta história. Preferiu falar da fantástica recuperação de Alencar, desde a última vez em que nos encontramos no Hospital Sírio-Libanês. “Você viu? Nem os médicos acreditavam nisso…”.

Quando Lula chegou, logo as autoridades continuariam a conversa a portas fechadas na sala de Skaf. Desci para o auditório, mas foi difícil chegar lá e conseguir um lugar na platéia apinhada de excelências vindas de todas as latitudes, muita gente em pé. Depois de tudo o que Alencar passou em suas 15 cirurgias, só o fato de encontrá-lo novamente firme e forte, sorrindo o tempo todo, justificava o clima de alto astral que contagiou toda a cerimonia.

Sem pressa, Lula e Alencar ainda foram ver as fotos do homenageado no saguão da Fiesp e, para cada uma, claro, o vice tinha uma história para contar, parando naquela que o mostrava fazendo pose como jogador do Nacional, o time da sua cidade.

Último a falar, por iniciativa do presidente Lula que, pelo protocolo, sempre deve encerrar as cerimonias em que está presente, José Alencar passou quase meia hora lendo a nominata inteira (quem foi esse assessor?) para não esquecer de nenhum dos presentes, e eram mais de 500.

Começou lendo um discurso, prometeu ser breve, mas lá pela metade fez como Lula e passou a falar de improviso, também alternando momentos engraçados com outros mais dramáticos da sua vida. Fez uma veemente defesa da liberdade de mercado, mas com responsabilidade social e igualdade de oportunidades, e não deixou barato, repetindo seu refrão na hora de falar do bom momento da economia brasileira: “Não é graças aos juros altos, não. É apesar deles…”.

Tanto Lula como Alencar devem ter repetido um milhão de vezes como se conheceram, depois de já veteranos em suas respectivas carreiras, na festa de 50 anos de vida empresarial do vice, em Belo Horizonte, no final de 2001, mas até hoje os dois se emocionam ao contar como foi.

“Encontrei meu vice naquela noite”, disse Lula, lamentando que isso não tivesse acontecido antes. “Foi uma dádiva de Deus ter te encontrado. Quem sabe se a gente tivesse se encontrado antes, eu não teria perdido tantas eleições…”.

Como se tivessem combinado, Alencar também gastou boa parte do seu discurso contando como surgiu a parceria política dos dois, que logo se transformaria numa grande amizade. Lula atribuiu a Alencar metade da responsabilidade pelos êxitos do governo. Com sua habitual humildade, Alencar deixou por menos:

“Ninguém vota no vice-presidente. Vota no titular. Eu não procurei atrapalhar nas campanhas e acho que não atrapalhei porque ganhamos duas vezes…”

Para mostrar que estavam bem de saúde e com pique, Lula garantiu, de brincadeira, que os dois tinham fôlego para mais cinco anos de governo, mas  logo acrescentou que não era o caso, chegou a vez de outros candidatos. Além de Serra, estavam presentes à homenagem os prováveis presidenciáveis Dilma Roussef e Ciro Gomes. O governador Aécio foi anunciado na nominata de Alencar, mas eu não o vi por lá.

Aconteça o que acontecer, ganhe quem ganhar em 2010, a verdade é que um estilo de fazer política e uma dobradinha improvável como a do metalúrgico Lula com o grande empresário Zé Alencar estão fechando um ciclo que, muito provavelmente, não irá se repetir tão cedo.

O estilo de Dilma, Aécio e Ciro, pelo menos até aqui, com seus discursos recheados de números e de razão, está mais para o de Serra do que para Lula. E ainda não surgiu um novo Alencar no horizonte da cena eleitoral de 2010, a primeira sem Lula candidato desde a redemocratização do país.

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
09/11/2009 - 11:31

Show-concerto junta Chitão e Xororó com Bach e Beethoven

Numa Sala São Paulo lotada e animada como há muito tempo não se via, o grande pianista João Carlos Martins, que virou maestro depois de velho, aprontou mais uma das suas maluquices musicais: juntou no mesmo palco sua Orquestra Bachiana Filarmônica com a dupla Chitãozinho e Xororó para intepretar obras de Beethoven, Bach, Schubert, Charles Chaplin e Villa-Lobos, além de alguns clássicos sertanejos.

“Como diz o nosso maestro, finalmente a música venceu!”, berrou Chitãozinho ao final do memorável espetáculo, com os três abraçados no palco, e o público, em pé, pedindo mais. Foi mesmo uma noite memorável para uma platéia formada em sua maioria por pessoas mais idosas, vestidas de forma singela, que entrou pela primeira vez numa sala de concertos.

João Carlos Martins, que trocou o piano pela regência faz cinco anos, depois de enfrentar uma série de cirurgias nas mãos, que o impediram de continuar tocando, abriu (Sinfonia nº 1 em Do maior Op21) e encerrou (Sinfonia nº 9 em Do menor Op125) com Ludwig van Beethoven e acompanhou os dois irmãos em 11 músicas, algumas delas cantadas por eles pela primeira vez.

Foram muitas horas de ensaio para uma única apresentação, mas valeu a pena. José de Lima Sobrinho, o Chitão, e Durval de Lima, o Xororó, que já venderam 35 milhões de discos, e João Carlos Martins e sua badalada orquestra, que já se apresentaram nas maiores salas de concertos do mundo, estavam tão afinados que quebraram as fronteiras entre o clássico e o popular.

Aproximar o clássico do popular, apresentando-se para platéias das periferias e dos grotões do Brasil, que nunca tiveram acesso à cultura é, afinal,  a grande obsessão desta segunda vida musical de Martins. Há três anos, sob o patrocínio da Telefônica, ele já levou a música erudita  para mais de 500 mil pessoas por todas as partes do Brasil, além de criar a Orquestra Bachiana Jovem Sesi São Paulo, que já revelou vários talentos.

No início do show-concerto, Xororó lembrou que foi naquela estação de trem da Santos-Jundiaí, transformada na mais bela casa de espetáculos de São Paulo pelo governador Mario Covas, que eles chegaram a São Paulo, faz quase 40 anos, “ainda de calças curtas”. Quando começou a cantar, a dupla de meninos era chamada de “Irmãos Lima”, antes de ganhar nomes de passarinhos ao se apresentar na Rádio Capital, nos programas sertanejos dos irmãos Bettio.

Conheci Chitãozinho e Xororó em meados dos anos 1980, quando trabalhava no Jornal do Brasil, e fui acompanhar uma excursão da dupla por cidades do sul do país, no tempo em que eles ainda viajavam com uma pequena banda num modesto ônibus branco, sem muitos confortos. Já lotavam teatros, cinemas e ginásios esportivos de pequenas cidades, na esteira do seu grande sucesso “Fio de Cabelo”,  mas ainda eram pouco conhecidos na grande mídia e nas grandes cidades.

Nascidos em Astorga, pequena cidade do interior do Paraná, me contaram que o pai deles era “toreiro”, quer dizer, puxava toras de madeira com um caminhão, antes da família se mudar para São Paulo, onde foi trabalhar como motorista de ônibus.  

No segundo dia de viagem, Chitãozinho, o mais falante deles, me perguntou quanto eu ganhava no jornal e, diante da resposta, deu um sorriso: “Só isso? Você não quer ser nosso assessor de imprensa”. Também sorri, achando aquilo uma petulância do então jovem sertanejo, mas hoje me arrependo de não ter nem discutido a proposta…

Meu editor no velho JB,  mestre Zuenir Ventura, torceu o nariz quando lhe ofereci a matéria, que acabou sendo publicada no caderno B. Seis meses depois, eles estavam se apresentando no Canecão, no Rio, o grande templo da música popular brasileira. E de lá para cá, lançaram 31 albuns inéditos (está para sair um novo) e três DVDs, ganharam dois prêmios Grammy, e centenas de discos de ouro, platina e diamante.

De ternos pretos muito elegantes, como os músicos da orquestra, Chitãozinho com um estiloso chapéu de vaqueiro também preto, a dupla abriu sua parte no show-concerto com a Ave Maria, de Bach e Gounod, grande hit de casamentos, e depois mandaram ver: No Rancho Fundo (Lamartine Babo e Ary Barroso), Evidências (José Augusto e Paulo Sérgio Valle), Serenata (de Shubert, com letra de Edgard Poças, escrita exclusivamente para este concerto).

Entre uma música e outra, um gaiato gritava “Paraná!” do fundo da platéia, certamente orgulhoso com a origem dos irmãos. Quando eles interpretaram Fio de Cabelo (Marciano e Darci Rossi) pela primeira vez (no final, tiveram que dar um bis), com um arranjo especial de Martins ao piano, a platéia foi ao delírio e cantou junto.

“Isso aqui virou público de Chitãozinho e Xororó”‘, comentou alguém na platéia. De fato, daí para a frente ninguém mais lembrava estar na nobre e circunspecta Sala São Paulo.

O repertório ainda teve Majestade, o Sabiá (Roberta Miranda), Céu de Santo Amaro (música de Bach, com letra de Caetano Veloso e Flávio Venturine), Se for Pra Ser Feliz ( de Álvaro Socci, música inédita do seu novo disco), Sorri (de Charles Chaplin, com letra de Djavan), Melodia Sentimental (Heitor Villa-Lobos) e Se Deus me Ouvisse (Almir Rogério).

O momento mais emocionante da noite para mim foi o encerramento com a apresentação de um coral de 50 jovens do Projeto Ponte, da Vila Helena, em Carapicuiba, dirigidos pela professora Silvia Schuster. Eles cantaram _ em alemão _ a Sinfonia nº 9 de Beethoven. No palco e na platéia, ninguém tinha pressa em ir embora.

Já no saguão do teatro, o maestro pop star ainda passou um bocado de tempo recebendo abraços e perguntas de gente que queria saber: qual é a próxima que ele vai aprontar?  Mas ninguém parecia mais feliz do que Chitãozinho e Xororó.

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
08/11/2009 - 10:57

Os dois lados do Muro de Berlim, trinta anos atrás

Os assuntos mais comentados da semana

Balaio

José Alencar (exclusivo): 171

Trânsito paulistano: 102

Clara Charf: 90

Folha

Marcha para Jesus: 73

Minissaia na faculdade: 52

Aposentados: 44

Veja

Apocalipse: 67

Manual da civilidade: 35

Michael Jackson: 31

***

Nesta segunda-feira, dia 9, o mundo comemora os vinte anos da queda do Muro de Berlim, símbolo da Guerra Fria. Quando estive lá pela primeira vez, em 1978, parecia que aquela pavorosa divisória de cimento entre Berlim Ocidental e Berlim Oriental, erguida em 1961, seria para sempre. Já fazia parte da triste paisagem do mundo dividido.

Era correspondente do Jornal do Brasil na então Alemanha Ocidental e morava em Bonn, a bucólica cidade universitária e administrativa que se tornara a capital do país quando o país foi dividido no pós-guerra. Na minha ignorância, só quando fui a Berlim fazer uma reportagem descobri que a cidade não ficava na fronteira entre os dois países, mas bem no meio da República Federal da Alemanha.

Fui de trem, umas seis ou mais horas de viagem, para entrevistar o exilado Luiz Travassos, um dos líderes do movimento estudantil no Brasil e último presidente da UNE antes de a entidade ser posta fora de combate pelos militares.

A entrevista com Travassos, que morreria em acidente de automóvel pouco tempo depois de voltar ao Brasil com a Anistia, fazia parte de uma série de reportagens com os líderes do movimento estudantil de 1968, dez anos depois da célebre rebelião dos jovens que começou em Paris e varreu o mundo, marcando a minha geração.

Era Semana Santa e aproveitei a viagem de trem para escrever outra reportagem que não estava na pauta (era comum naquele tempo a gente  viajar para ir atrás de um determinado assunto e voltar com duas ou três matérias). “O trem da Semana Santa” foi uma das reportagens que mais gostei de escrever, porque me permitiu mostrar os dois  mundos em que se dividia a Alemanha, baseando-me em histórias da vida real, como conto no meu livro de memórias “Do Golpe ao Planalto _ Uma Vida de Repórter” (Companhia das Letras, 2006).

Um trecho da reportagem em que narro minha conversa na cabine do trem com algumas velhinhas muito espirituosas:

Onze da manhã de Quinta-feira Santa em Berlim. A primavera começou oficialmente ontem, como anunciaram as rádios e televisões, mas ainda há neve nas ruas. Chove, e faz um frio de outono na antiga Capital do Reich, onde o sol há muito não aparece. Não fosse por isso, a plataforma 12 da principal estação ferroviária de Berlim Ocidental _ a do Jardim Zoológico _ faria lembrar qualquer desses entrepostos de retirantes do Nordeste brasileiro.

Crianças chorando, a agonia das pessoas em busca de um lugar nos dezesseis vagões do trem lotado, malas perdidas, sacolas em todas as mãos, aleijados tentando abrir portas com as muletas _ o D-345 mais parece um pau-de-arara eletrificado, em que não faltam cachorros e passarinhos. Mas sai exatamente dentro do horário previsto(…)

Ah, a televisão. As mulheres lembram da época em que a polícia da Alemanha Oriental quebrava todas as antenas que estavam voltadas para o lado ocidental. Depois, para impedir que se sintonizasse a televisão colorida da Alemanha Ocidental, implantaram o sistema francês, que exigia um transformador, cuja importação era proibida. Proliferaram então as “vovós contrabandistas”. Elas contam:

_ As vovós (do lado oriental) nunca viajaram tanto como agora. É que com elas o controle da alfândega é menos rigoroso. Minha sogra era uma artista. Ficava tremendo o tempo todo, tinha ataques, a polícia só faltava carregar as malas para ela, não revistavam nada…

Uma das poucas vantagens de ficar velho na profissão é esta: a cada evento que lembra fatos de 20, 30, 40 anos atrás, tenho uma história para contar porque estive lá e vi de perto. Neste caso das “vovós contrabandistas”, que ajudavam a sintonizar o lado oriental com o ocidental, não poderia existir nada mais emblemático do que esta preocupação do governo comunista em impedir que as pessoas vissem as imagens vindas do outro lado do muro, com a oferta de produtos e serviços que não podiam encontrar em seu país.

Ainda esta semana, contei a vocês os fatos de 9 de novembro de 1979, um ano depois de eu ter voltado ao Brasil, quando Carlos Mariguella, o líder da Ação Libertadora Nacional, foi morto numa emboscada pelo delegado Sergio Paranhos Fleury, na alameda Casa Branca, perto de onde moro hoje. Eu também estava lá nesta noite, há 40 anos, como repórter do Estadão, e voltei lá na quarta-feira, durante uma homenagem a ele prestada, para escrever um texto sobre sua viúva, Clara Charf, publicada aqui no blog.

Como me acusam alguns leitores, acho que estou mesmo ficando velho. Tudo está fazendo muito tempo… 

Minha opinião

De Caetano Veloso falando sobre Lula ao dar seu apoio à candidata Marina Silva:

“Marina Silva é inteligente como o Obama, não é analfabeta como o Lula, que não sabe falar, é cafona falando, grosseiro. Ela fala bem”.

Minha opinião sobre Caetano Veloso:

Já foi um bom compositor, é um cantor mediano e nunca deixou de ser um analfabeto político _ uma mistura de Rui Barbosa em compota com ACM em conserva, que se acha o gênio da raça. Prefiro Maria Bethania.

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
06/11/2009 - 18:14

Jornalistas denunciam grupo ligado a Sarney por baderna em São Luís

Recebi na tarde desta sexta-feira dos meus amigos jornalistas Palmerio Dória e Mylton Severiano a denúncia, que reproduzo abaixo, sobre os lamentáveis incidentes registrados durante o lançamento do seu livro “Honoráveis Bandidos”, quarta-feira, em São Luís, no Maranhão.

Conheço há décadas a seriedade e a competência do seu trabalho na imprensa. Mylton Severiano, o mago do texto, foi quem me abriu as portas da grande imprensa, em 1967. O repórter Palmerio Dória conheci pouco mais tarde na redação do Estadão, vindo de Belém, jovem de talento, sempre inconformado com as injustiças de todas as latitudes. Encontramo-nos várias vezes mais tarde por variadas redações da vida. 

Abaixo, a mensagem que eles me mandaram:

Amigo, eis o que enviamos a ABI e Fenaj

Os jornalistas abaixo-assinados, Palmerio Dória e Mylton Severiano, denunciam aqui a ação fascistoide de um grupo de jovens, a mando do grupo ligado a José Sarney, em São Luís do Maranhão.
 
1.    Antecedentes. Palmerio, autor do livro Honoráveis Bandidos, da Geração Editorial, e Mylton, co-autor, a convite de jornalistas de São Luís, aceitaram lançar o livro na capital maranhense, ontem, dia 4 de novembro de 2009, às 19 horas. Para começar, nenhuma grande livraria local, ou entidade, aceitou promover o evento, além do que nem sequer aceitam o livro em suas prateleiras. Até que, lembrado o Sindicato dos Bancários, suas portas se nos abriram e para ali ficou marcado o lançamento. Na antevéspera, mais um ato que lembra métodos fascistas: a empresa responsável pelos outdoors que anunciavam o evento devolveu o dinheiro aos promotores e mandou “raspar” as peças.

2.    O clima à nossa chegada, na terça, véspera do ato, começou a ficar “esquisito”, quando na coletiva à imprensa, numa sala do Sindicato, alguns colegas nos perguntaram se a gente não tinha “medo”. Falou-se em “corte de energia” durante o evento, brincou-se com a possibilidade de cada um levar uma vela, e alguns dos colegas não descartaram até atos de violência. À noite, em programa ao vivo na rádio Capital, vários ouvintes nos alertaram para aquelas possibilidades – “ele são capazes de tudo”, “cuidado”.

3.    Ontem, quarta, no fim da manhã, uma colega, Jane Lobo, mais realista, aconselhou – e acatamos – a pedir proteção.

4.    Veio a noite. O auditório do Sindicato dos Bancários, na Rua do Sol, estava superlotado, havia muita gente em pé. Um ambiente familiar – gestantes, gente idosa, crianças pequenas e grandes, estudantes. Por ali passaram mil pessoas.

5.    Iniciada a sessão pelo coordenador Marcos Nogueira, quando Palmerio passa a falar sobre o conteúdo do livro, eis que do nosso lado direito uma vintena de jovens, na maioria rapazes e umas poucas moças, prorrompem em berros, aos poucos distinguimos “Jackson ladrão, envergonha o Maranhão”, “mentira”, “viva Sarney”. As pessoas mais próximas se levantam e se afastam, abrindo um claro. Os baderneiros abriram suas camisas, pondo à mostra uma camiseta em que se lia Navalhada de Bandidos e atrás de grades Jackson Lago, o governador que a família Sarney derrubou num golpe do judiciário. Dentre os baderneiros, um rapaz, possesso, ergueu uma das pesadas cadeiras e a arremessou na direção do palco onde estávamos. Imediatamente uma chuva de objetos voou sobre a mesa – bolas de papel molhado, ovos e até pedras – junto com xingamentos e outros impropérios.

6.    Seguiu-se um quebra-quebra, pancadaria, promovida pelos baderneiros.

7.    Passada a estupefação, os presentes mais os seguranças providenciados pelo Sindicato passaram a expulsar os baderneiros do local aos tapas e empurrões. Boa parte do público se retirou, preocupada, “eles vão voltar”.

8.    Reiniciado o ato, os presentes cantaram Oração Latina, puxada ao violão pelo cantor e compositor Cesar Teixeira. A platéia e políticos, das mais diversas extrações, se deram as mãos durante o canto.

9.    Felizmente nenhuma criança se feriu. Uma pessoa das relações de Jackson Lago foi buscar seu carro na rua de trás do Sindicato, Rua dos Afogados, e testemunha: ali havia cinco viaturas da PM, esperando o quê, não se sabe. E, praticamente no mesmo instante, menos de cinco minutos depois, Décio Sá, jornalista “guerrilheiro” dos Sarney, que se encontrava em Fortaleza, já postava em seu blog notícia em que os baderneiros viraram estudantes que protestavam contra o lançamento do livro e “foram atingidos por cadeiras, pedras, socos e pontapés e revidavam como podiam”.

10. Enquanto os autores retomavam a sessão, um grupo foi à delegacia de polícia mais próxima registrar B.O., Boletim de Ocorrência. Dissemos que os baderneiros vieram a mando do grupo ligado a José Sarney e eles próprios, desastrados, se encarregaram de deixar prova cabal: uma moça, Ana Paula Ribeiro, tida nos meios estudantis como “estudante profissional”, ao sair correndo deixou cair a bolsa, com sua identidade dentro. A moça trabalha simples mente com Roberto Costa, secretário de Esporte e Juventude da governadora Roseana Sarney.

11. Toda a confusão armada pelos baderneiros foi fotografada e filmada por profissionais contratados pelo evento.

12. Mesmo com este ataque fascistoide, Palmerio e Mylton assinaram mais de 500 livros, o que demonstra a sede de informação sobre a família que há meio século governa o Maranhão.

 
Palmerio Dória e Mylton Severiano
São Luís, 5 de novembro de 2009

 

 

 


Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
Voltar ao topo