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Arquivo de outubro, 2009

08/10/2009 - 09:47

Fim de linha para o MST: vandalismo, furto e destruição

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O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, que surgiu no início dos anos 1980, em Encruzilhada Natalino, no Rio Grande do Sul, e transformou a sigla MST no símbolo da luta pela reforma agrária no país, acabou para mim esta semana, em Iaras, no interior de São Paulo.

Acompanhei este movimento desde o começo, fiz dezenas de reportagens com seus líderes e sobre suas conquistas em jornais, revistas e redes de televisão, corri riscos junto com eles nas desocupações violentas promovidas pelas forças policiais, mas venho notando nos últimos anos que o MST perdeu completamente o sentido, o rumo e a razão de ser.

As cenas de vandalismo, furto e destruição, pichações e lixo espalhado pelo chão, que marcaram esta semana a invasão da fazenda da Cutrale por 250 famílias, em Iaras, tornaram-se o símbolo do triste fim de linha a que seus líderes conduziram um movimento que em boa parte da sua história contou com o apoio de amplas parcelas da sociedade. Agora, acabou da forma mais melancólica possível.

Por mais que me doa escrever isso, lembrando das tantas famílias de sem terra que acreditaram neste sonho, acampadas nas beiras das estradas por este país afora, o que era justa luta pela sobrevivência virou banditismo puro e simples.

Não é de agora que isso acontece, mas o que vimos na fazenda da Cutrale após a reintegração de posse determinada pela Justiça, com a destruição de máquinas e equipamentos, além de parte das plantações de laranja, é coisa de vândalos, simplesmente _ nada a ver com quem busca um pedaço de terra para plantar.

Mais grave do que a violência praticada contra funcionários e os prejuízos econômicos causados á empresa, porém, foi o que os sem terra fizeram na casa de uma faxineira, como relata o repórter Maurício Simionato, na Folha desta quinta-feira:

“Levaram DVD, TV, rádio, roupas, calçados, inalador, ferro de passar roupa, o chuveiro e até lâmpadas e torneiras”, declarou Silvana Fontes, 37, cozinheira e faxineira da sede da fazenda. Oito das nove casas de empregados foram arrombadas.

Para quem começou lutando contra latifundiários, invadir e furtar a casa de uma faxineira, levando até seus presentes de casamento ainda dentro das caixas, chega a ser uma afronta a justificativa dada por um dos líderes do movimento, Paulo Albuquerque, para a ação dos sem terra em Iaras: segundo o MST, a terrra ocupada pela Cutrale é propriedade da União.

E daí? Mesmo que fosse, o que a empresa desmente, caberia à Justiça decidir a quem pertence a terra e não a um grupo de fora da lei que passou com tratores por cima de milhares de pés de laranja (entre 7 e 10 mil, segundo a empresa, ou “só” 3 mil, de acordo com os líderes do MST).

Para Paulo Albuquerque, diretor estadual do MST, tudo não passaria de armação da Cutrale, que resolveu destruir seus próprios bens, numa tentativa “não só de criminalizar o movimento, mas também de punir lideranças. Daqui a pouco vão querer prender algum integrante do MST por causa dessa invasão”.

Pois, se ficar provado pelas investigações da polícia quem foram os autores destas ações de vandalismo, tem mais é que prender mesmo. “É a palavra deles (Cutrale e policiais) contra a nossa. Nós temos condições de rebater todas estas falsas afirmações que estão fazendo contra nós”, defendeu-se Albuquerque.

Por tudo que já vimos acontecer nos últimos meses, em invasões de prédios públicos e propriedades privadas produtivas durante ações do MST, não acho que a faxineira Silvana Fontes tenha mentido sobre o que aconteceu na fazenda. Como jornalista que acompanhou toda esta trajetória do MST nos últimos trinta anos, do sonho ao pesadelo, prefiro acreditar nela e no relato do repórter Maurício Simionato.

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
07/10/2009 - 11:30

“Toda Mídia”: a imagem do Brasil lá fora é mais bonita

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Aos leitores que me criticaram no post anterior pelo meu exagerado otimismo em relação ao Brasil e ao nosso governo, recomendo a leitura da coluna “Toda Mídia”, do jornalista Nelson de Sá, na Folha desta quarta-feira.

Já faz algum tempo que venho notando um brutal contraste entre os resumos que ele faz todos os dias do que é publicado sobre o Brasil lá fora nos principais jornais da imprensa mundial e o noticiário da mídia nativa.

Vamos pegar, por exemplo, alguns tópicos publicados na coluna do Nelson de Sá de hoje:

“ULTRA, ULTRA HOT”
Jim Cramer, folclórico âncora da CNBC, principal canal financeiro dos EUA, fez festa para o Brasil e o IPO do banco Santander. “O Brasil está ultra, ultra quente. O PIB deve crescer 5%, 6%. Os serviços financeiros vivem boom. os Jogos de 2016 eles acabam de vencer.

“WORLD S BEST”
No alto da Folha Online, a Petrobras entrou para as 40 melhores empresas do mundo, na lista da “Business Week” (…). A revista descreve a Petrobras como “a maior empresa do hemisfério Sul” e sublinha seu crescimento.

CONFIANÇA
Em extenso material sobre os emergentes, o “Financial Time” publicou que “Ásia e Brasil lideram a alta na confiança dos consumidores”, segundo pesquisa Nielsen.

EUA, ÍNDIA VÊM AÍ
No ‘Chicago Tribune”, “empresas americanas focam consumidores no exterior”, ressaltando o Brasil _ e a vitória do Rio sobre Chicago, na disputa dos Jogos.
No “Business Standard” e outros indianos, a montadora Bajaj Auto anunciou uma fábrica “num lugar chamado Manaus, no Brasil”.

ROCKY?
Abrindo a seção internacional do “Los Angeles Times”, o filme ” “Lula, Son of Brazil”, que sai no fim deste ano, sobre a juventude de Lula, comparada à “história de Rocky Balboa”.

O BRASIL DEPOIS DE LULA
Em meio ao louvor global na mídia, nos dias seguintes à escolha do Rio para sediar os Jogos, o colunista de política externa do “FT”, Gideon Rachman, escreveu que “o Brasil nunca esteve tão na moda”, com Jogos, Copa, Brics, G20, pré-sal: “Em Lula, o Brasil finalmente tem um líder que é uma figura reconhecida globalmente”.

Pois é amigos, isto tudo foi só hoje _ um breve resumo do que se fala do Brasil lá fora, onde a nossa imagem refletida no espelho da imprensa é mais bonita do que aqui dentro. Está bom assim ou querem mais?

Podem me xingar à vontade, mas acho que estou em boa companhia, quer dizer, do que há de melhor na imprensa mundial.

Costumo dizer que o humor das pessoas depende muito do jornal que elas lêem. Meu vizinho Maurício, por exemplo, que só lê um centenário jornal de São Paulo, está sempre de cara amarrada, desanimado da vida. Quando ele me pergunta “como vão as coisas?” e eu respondo “vão bem, melhorando”, invariavelmente ele discorda:

“Melhorando como? Onde? Você não leu o Estadão de hoje? A inflação já, já vai estourar! Você não está vendo o absurdo dos gastos públicos?”.

Outro vizinho que encontrei na minha caminhada matinal, o Guatelli, um engenheiro de quase 60 anos, que não tinha lido jornal algum, estava animadíssimo. Numa idade em que outros só pensam na aposentadoria, ele está cursando mestrado na FAU, a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, fazendo planos, feliz da vida com as novas perspectivas que se abriram para ele.

Ao longe, ainda se ouvem alguns ganidos tristes, cada vez mais fracos, mas isso é da vida.

Para quem sofre de depressão, acha que o Brasil não tem jeito e a vida não vale a pena, recomendo a leitura diária da coluna “Toda Mídia”:

www.todamidia.folha.blog.uol.com.br

Em tempo
O debate de terça-feira neste Balaio (ver post anterior) sobre o desencanto da urubuzada com as recentes vitórias do Brasil, em diferentes campos, rendeu mais de 370 comentários _ fora os mais de 300 publicados no Blog do Noblat, que reproduziu o meu post. Para um dia de semana tranquilo como o de ontem, está bom demais…

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
06/10/2009 - 10:20

Olimpíada, Honduras… Urubuzada perde o rumo. Cadê a oposição?

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O Lula vai quebrar a cara em Honduras! Vai correr sangue nas ruas de Tegucigalpa e ele será o culpado! O Lula vai tomar uma surra do Obama em Copenhague! Vai dar Chicago! Agora a popularidade do Lula vai despencar!

Pois é, amigos, foi uma atrás da outra. A urubuzada (nada a ver com a grande torcida do Flamengo, por favor!) jogou contra e perdeu todas, perdeu o rumo. Vocês já repararam? A oposição simplesmente sumiu de cena.

Em 2009, a turma do contra, representada por aqueles célebres 6% que reprovam o governo Lula, começou jogando tudo na crise econômica mundial, que quebraria o Brasil. O Brasil não só não quebrou como saiu da crise mais forte do que entrou.

Já nem me lembro de todas as crises do fim do mundo anunciadas durante o ano, mas tivemos depois a dengue, a crise do Senado, a gripe suína, a história da Lina, a CPI da Petrobrás, o diabo a quatro. E nada do Lula cair nas pesquisas.

A palavra crise não saía das manchetes, e nada. Quando a crise não era aqui, era em Honduras _ por culpa da política externa do governo brasileiro, claro. Agora que as coisas estão se acalmando por lá e tudo indica uma saída negociada com os golpistas devolvendo a Presidência a Manuel Zelaya, a urubuzada já está recolhendo os flaps.

Com a vitória do Rio para sediar a Olimpíada 2016 transmitida ao vivo de Copenhague, não teve jeito de esconder o importante papel do presidente Lula nesta conquista. Os 6% de inconformados e seus bravos representantes na imprensa e no parlamento devem ter entrado em profunda depressão. Por isso, sumiram _ pelo menos, por algum tempo.

Restam apenas alguns blogueiros histéricos e seus comentaristas amestrados blasfemando na janela, vendo as ruas em festa, os bares lotados em dia de semana, a indústria, a bolsa, o emprego e a renda crescendo novamente, a autoestima do brasileiro lá em cima, a vida seguindo alegre seu rumo.

Claro que sempre será possível fazer escândalo com qualquer coisa, como esta crise do Enem, uma história até agora muito mal contada, que vai atrasar a data dos vestibulares. E daí? Fora os candidatos e professores que irão perder alguns dias de férias, qual o drama para o restante dos brasileiros?

Em tempo

Depois de publicar o texto acima, fui dar uma olhada nas novidades do Observatório da Imprensa e encontrei um belíssimo texto assinado por Washington Araújo, sob o título “Indiferença em vez de otimismo”, cuja leitura recomendo vivamente.

Araújo trata do mesmo tema do meu post, mostrando as muitas vitórias do Brasil nestes últimos tempos, mas com muito mais qualidade, profundidade e argumentos. Um trecho do seu texto resume bem o espírito da urubuzada que perdeu:

“Repassando as manchetes dos sete jornais principais brasileiros de sexta-feira (2/10), observamos com certo desalento que seis se ocupam do vazamento de provas do Enem e apenas um, o de menor circulação _ e carioca ainda por cima _, resolve dar um refresco e dá um voto de confiança ao evento de maior potencial midiático possível de ocorrer em nosso país”.

Para ler:
www.observatoriodaimprensa.com.br

Grande Realinho

No meio de tanta notícia boa, a melhor de todas quem me deu foi a Amelinha, bela e brava mulher do Realinho, o grande repórter Elpídio Reali Júnior, que se recupera no Hospital Oswaldo Cruz de uma delicada cirurgia para transplante do fígado, e está cada dia melhor. Em breve, se Deus quiser, para alegria dos seus milhões de ouvintes e amigos, Realinho estará de volta aos microfones da rádio Jovem Pan, diretamente de Paris, às margens do rio Sena.

Poemas do Povo da Noite

Trinta anos após a primeira edição brasileira, a Fundação Editora Perseu Abramo, em coedição com a Publisher Brasil, está relançando o livro “Poemas do povo da noite”, os versos da resistência de Pedro Tierra, nome artístico do meu velho amigo Hamilton Pereira da Silva, um ex-preso político que fez dos tempos de cadeia bela e pungente poesia.
Mais informações nos sites da editora
www.efpa.com.br
ou da Fundação Perseu Abramo
www.fpabramo.org.br

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
05/10/2009 - 10:02

Muricy contra Muricy: quem vai ser primeiro tetracampeão?

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Afunilou. Faltando 11 rodadas, do jeito que as coisas caminham na reta final do Brasileirão, tudo indica que um dos dois pode ser o primeiro tetracampeão consecutivo: o Muricy do Verdão ou o Tricolor montado pelo Muricy nos últimos quatro anos.

Sem tirar os méritos do Ricardo Gomes, que chegou desacreditado, pegou um time caindo pelas tabelas e hoje ostenta o melhor índice de aproveitamento, quase 70%, entre todos os técnicos do campeonato, o fato é que a disputa pelo título gira em torno do meu amigo Muricy Ramalho _ o marrento treinador demitido pelo São Paulo ainda no primeiro turno do Brasileirão 2009 e agora na bica para ser campeão pelo Palmeiras.

Basta ver como os dois times jogam parecido, preocupando-se mais em não levar gols do que em marcar, arrancando vitórias quase sempre no sufoco.

Não por acaso, Palmeiras e São Paulo contam com as defesas menos vazadas do campeonato _ 26 gols em 27 jogos _ e seus ataques marcaram menos do que outros cinco times (Atlético Mineiro, Goiás, Internacional, Grêmio e até o Barueri).

A cinco pontos do Palmeiras (44 gols marcados), mas ainda o que tem mais chances de tirar o título do Verdão de Muricy, o São Paulo fez apenas 37 gols, dez a menos do que o Barueri, 12º colocado. Mas, também, com Washington e Borges, os bons caneleiros que jogam sem bola porque não sabem o que fazer com ela, vocês queriam o que?

O Palmeiras, que já tinha Diego Souza e Cleiton Xavier, dois craques de bola, trouxe de volta Wagner Love e descobriu esquecido no México este Robert, que é bom jogador e artilheiro com estrela, de quem eu nunca havia ouvido falar.

E o São Paulo? Comprou alguns jogadores de baciada daquele Fluminense que já está praticamente rebaixado.

Aí está a grande diferença entre Palmeiras e São Paulo em 2009. Pelo andar da carruagem, é mais fácil Muricy se tornar o primeiro tetracampeão brasileiro consecutivo do que o São Paulo.

Lamento muito, caros amigos tricolores, mas são os fatos, não posso brigar com eles.

Mas é bom a porcada não cantar vitória antes da hora. Melhor do que ninguém, Muricy sabe que o São Paulo é um time de chegada, que não desiste nunca. Que o diga o Grêmio que, no ano passado, chegou a colocar 11 pontos na frente do São Paulo no começo do segundo turno e viu o Tricolor botar mais uma faixa de campeão no final.

Pelo que vi nas últimas rodadas, fora o meu São Paulo, só o Atlético Mineiro, que vem correndo por fora e jogando um belo futebol, ainda pode tirar o título inédito de Muricy e deixar o Palmeiras mais um ano na fila. Goiás e Internacional perderam o pique e o rumo.

No fim, vai dar mesmo Muricy contra Muricy. Façam suas apostas.

Em tempo
Alguns leitores argumentam, com razão, que, se Muricy pode reivindicar uma parte do bicho, caso o São Paulo conquiste o tetracampeonato, da mesma forma Luxemburgo pode pedir uma parte do premio pago a Muricy, caso o Palmeiras seja o vencedor. Afinal, os dois participaram das campanhas dos dois times que estão liderando o Brasileirão antes de serem demitidos.
Só não aceito que me critiquem por ter sido injusto com o Ricardo Gomes, que levou o São Paulo para o alto da tabela. Reconheço os méritos dele logo no segundo parágrafo do comentário.
Quando se trata de futebol, caros leitores, não vamos levar as coisas tão a ferro e fogo. Um pouco de humor faz bem. Futebol é pra gente se divertir.

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
04/10/2009 - 09:54

Olimpíada no Rio muda até o astral do noticiário na mídia

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Assuntos mais comentados da semana

A crise em Honduras foi disparado o assunto mais comentado da semana em toda a mídia brasileira. Só aqui neste Balaio foram publicados quase 700 comentários sobre o impasse hondurenho, fora um monte que me vi obrigado a deletar por conter ofensas graves.
Para se ter uma idéia do que isso representa em repercussão, esse número corresponde praticamente ao total de mensagens recebidas pela Folha de S. Paulo (698) a respeito de todos os assuntos publicados pelo jornal durante a última semana.
Publico abaixo a relação dos temas que provocaram maior participação dos leitores no Balaio, na Folha e na Veja, as duas publicações impressas de maior circulação no país, como faço todos os domingos.

Balaio

Honduras: 682
Guerrilha do Araguaia: 227
O vento e os tucanos: 75

Folha

Honduras: 148
Olimpíada 2016: 81
Enem: 50

Veja

Honduras: 87
“The United State of Sobral”: 47
Ana Beatriz B. Silva: 33

***

Bastaram aparecer as três letras mágicas do RIO na placa erguida pelo presidente do COI em Copenhague, na sexta-feira, como vencedor da disputa para sediar a Olimpíada de 2016, para mudar de uma hora para outra o astral do noticiário na imprensa brasileira. De uma hora para outra, a mídia voltou a sorrir.
Desta vez, ao contrário do que costuma acontecer quando se trata de algum fato positivo para o país, o registro se deu sem ressalvas _ nada dos mas, poréns e, no entantos, que costumam acompanhar as manchetes nestes raros momentos de felicidade em meio a uma crise e outra.
Claro que aqui e ali alguns veículos e colunistas lembraram o grande desafio para providenciar em sete anos toda a infra-estrutura e as instalações esportivas necessárias para o evento _ até o presidente Lula falou disso em seu discurso _ e os perigos do superfaturamento nas obras, mas o ufanismo desta vez superou largamente o mau humor do noticiário.
Não era para menos. Era só ver a quantidade de anúncios relativos ao tema que abarrotaram páginas e intervalos comerciais em todas as mídias no dia seguinte à conquista do Rio.
Os maiores anunciantes do país aproveitaram o gancho da Olimpíada para inundar todos os espaços com mensagens de otimismo e fé no Brasil, e não só porque sediará a Copa do Mundo de 2014 e a Olimpíada de 2016, mas destacando também o bom momento vivido pelo país na economia e em todas as outras áreas da vida nacional.
Falou-se muito no resgate da autoestima do carioca e do brasileiro, imagens da vitória em Copenhague foram repetidas à exaustão, até os mais críticos, que nunca conseguem enxergar nada de bom acontecendo no Brasil, acabaram se rendendo.
O clima contagiou âncoras e colunistas, repórteres e comentaristas esportivos, tudo virou uma grande festa. Em outras circunstâncias, eles podem até brigar com os fatos, mas ninguém é valente o bastante para jogar contra o departamento comercial das empresas.
Afinal, de todos os setores da nossa economia, o primeiro beneficiado a ganhar muito dinheiro com a vitória do Rio foi exatamente o da indústria da comunicação.
Bom domingo, boa semana a todos. E viva nós! Nós também podemos!

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
03/10/2009 - 12:55

Especial/Araguaia: Em busca dos desaparecidos, uma floresta que sumiu

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Caros leitores olímpicos
Antes de começar a escrever a reportagem sobre a minha viagem ao Araguaia, como prometi na quinta-feira, não posso deixar de partilhar com vocês a imensa alegria que senti ao ficar sabendo na volta da fantástica vitória do Rio em Copenhague. Sediar a Olimpíada de 2016 não foi uma conquista só da mais bela cidade do mundo, mas de toda uma geração de brasileiros que continua acreditando neste país.

***

SÃO GERALDO DO ARAGUAIA (PA) – Nossa viagem no helicóptero do Exército que partiu de Marabá na manhã de sexta-feira era em direção aos fundões da selva amazônica, no sul do Pará, cenário da Guerrilha do Araguaia, quase 40 anos passados.
Mas selva mesmo, aquela da mata imensa e fechada que a gente conhecia, não há mais.
Em meia hora de vôo, dava para ver ao longo dos 120 quilômetros, até São Geraldo do Araguaia, os trágicos resultados da destruição da mata que mudou completamente a paisagem neste período. Neste pedaço sempre conflagrado do sul do Pará, desde os anos 1970, após a abertura da Transamazônica, a maior floresta do mundo foi derrubada e queimada sem dó, virou pasto.
Com a terra árida pisoteada pelo gado e após um longo período de estiagem, mais parece que estamos chegando ao sertão nordestino. Sim, aqui neste pedaço sempre conflagrado do sul do pará, a selva já virou sertão.
O solo típico do semi-árido nordestino só é salpicado aqui e ali por algumas nesgas de mata separando os latifúndios às margens das grotas, o outro nome dos igarapés da região. A única faixa de mata contínua ainda visível neste trecho é o da Reserva Indígena Sororó, dos índios sururi.
A primeira constatação que faço, antes mesmo da nossa primeira parada, na Grota do Mutuma, onde os membros do Comitê Interinstitucional do Ministério da Defesa acompanharão escavações que estão sendo feitas em busca dos corpos de 57 combatentes do PCdoB desaparecidos no Araguaia, é que neste lugar hoje seria impossível montar uma guerrilha.
Ficou inviável alguém montar nestas terras desmatadas uma operação militar clandestina, tão difícil como localizar os restos mortais dos desaparecidos, tantos anos passados, com a paisagem completamente alterada.
“Eles vieram para cá porque contavam com a defesa da mata para garantir o equilíbrio estratégico”, lembra Diva Santana, irmã da guerrilheira desaparecida Mariadiná, uma baiana decidida que integra o comitê de 11 membros formado por decreto presidencial para supervisionar os trabalhos do Grupo de Trabalho do Tocantins, criado em abril deste ano pelo governo federal.
Desde a anistia concedida pelo regime militar em 1979, Diva acompanha todas as incursões na região do Araguaia-Tocantins, até agora frustradas, em busca dos corpos na esperança de encontrar os restos mortais de sua irmã.
Agora, ao lado dos ministros da Defesa, Nelson Jobim, e de Paulo Vanucchi, dos Direitos Humanos, que chefiam esta missão do governo, ela acompanha os trabalhos de escavação na Grota do Mutuma, onde ficava o “Destacamento C”, um dos três montados pelos guerrilheiros.
Após uma rápida explanação feita por Edmundo Müller Neto, do Ministério da Defesa, que é o coordenador de campo do GTT, Diva fica mais animada. “Esse é um ponto muito interessante, temos esperança de encontrar Mundico hoje. Várias testemunhas, ex-mateiros que foram guias do Exército e moradores antigos, indicaram este mesmo local em momentos diferentes do trabalho da ouvidoria”, informou Müller.
Mundico era o nome de guerra de Rosalindo de Souza, também baiano, um dos primeiros mortos nos combates, ainda em 1972, quando o Exército entrou na área pela primeira vez. As circunstâncias da sua morte até hoje estão envoltas em mistério: suicídio, acidente ou justiçamento feito pela própria guerrilha por estar namorando uma companheira.
Diva acredita mais que tenha sido um acidente causado pela própria arma e afasta a possibilidade de justiçamento. “Isto é até uma ofensa, não fazia parte do código moral da guerrilha”.
Uma equipe formada por dois antropólogos forenses, quatro geólogos e seis ajudantes abre dois buracos de 80 por 120 centímetros indicados pelo rastreamento do GPR (Ground Penetration Radar), um equipamento capaz de localizar anomalias no solo a até três metros de profundidade.
Para tristeza de Nayara Souza Alves, de 40 anos, sobrinha de Rosalindo, nada foi encontrado, mais uma vez (desde agosto, já foram investigados 36 alvos em 14 diferentes áreas do sul do Pará num total de 24.300 metros quadrados, tendo o GPR percorrido uma distância de 51 quilômetros em linha reta).
Nayara, que é de Itapetinga, na Bahia, assim como seu tio, veio de Araguaina, no Tocantins, onde vive atualmente, para acompanhar as escavações.
“Eu era muito pequena quando ele veio para lutar aqui, mas me lembro do sofrimento do meu avô Rosalvo, que morreu sem poder enterrar o corpo do neto. Para nós da família, ficou só esse vazio, este silêncio. Só temos algumas cartas dele guardadas. O tio falava sempre do seu ideal de fazer um país melhor para todos nós”.
Militares da Diretoria do Serviço Geográfico do Exército (DSG) deixam o marco geodésico 1026 na terra para informar a quem passar por ali no futuro que aquele local já foi investigado.
De volta ao helicóptero, nossa próxima parada é a Fazenda Bacaba, na cidade de São Domingos do Araguaia ( antiga São Domingos das Latas), a 70 quilômetros de Marabá, uma das três bases do Exército durante o combate à guerrilha (as outras ficavam em Marabá e Xambioá).
Em mais meia hora de viagem de helicóptero, que sobrevoou a Serra das Andorinhas, da qual falarei mais adiante, os raros sinais de vida na floresta que virou pasto, vistos do alto, eram os rebanhos de gado branco correndo assustados com o barulho dos rotores do helicóptero.
Na base de Bacaba, o Exército construiu uma pista de pouso para apoiar as operações na área. A partir da análise de documentos recebidos pelo Ministério da Defesa e de diversos orgãos e entidades, incluindo as Forças Armadas, havia referências a inumações clandestinas de guerrilheiros nos entornos da pista.
Antes do início das escavações neste local, onde também nada foi localizado, o Comitê Interinstitucional, do qual faço parte, reuniu-se com as equipes do GTT, que fizeram uma longa explanação dos trabalhos até aqui cumpridos.
Todos falaram das dificuldades para obter resultados positivos nas investigações de campo em razão da mudança radical na geografia da região. O fato positivo é que a presença conjunta de militares e civis, incluindo representantes das famílias dos desaparecidos, tirou o medo de falar dos moradores da região, que passaram a colaborar com os pesquisadores.
Em nome das famílias, Diva Santa agradeceu o empenho das equipes técnicas e dos militares chefiados pelo general de brigada Mario Lúcio de Araújo, que garante os recursos financeiros e humanos e organiza toda a infra-estrutura. “A vontade do povo brasileiro é que a questão seja resolvida e esclarecida de uma vez por todas para que possamos virar esta página da nossa história”.
Diva fez um apelo aos militares que participaram da fase final das operações, em 1974, ainda na ativa ou já reformados, para que prestem informações capazes de auxiliar nas buscas.
Este é o grande desafio daqui para a frente. Os trabalhos de campo, que serão interrompidos no final de outubro, em razão do início do período de chuvas, e só poderão avançar no próximo ano com a colaboração destes militares.
Tanto os ministros Jobim e Vanucchi, como os membros das equipes técnicas e o ex-deputado Aldo Arantes, observador independente que representa o PCdoB no GTT, insistiram em suas falas na necessidade do convencimento dos militares que participaram do combate à guerrilha para contar o que aconteceu na reta final da campanha, ainda que dificilmente os corpos possam ser localizados.
“O nosso trabalho é a favor da verdade histórica, não é contra ninguém”, resumiu o ministro Nelson Jobim, que viajou acompanhado do comandante do Exército, Enzo Martins Peri, simbolizando o distencionamento que está havendo entre militares e civis na questão do Araguaia.
Um dos militares que participaram da terceira fase de operações militares no Araguaia, o coronel aviador reformado Pedro Correa Cabral, de 67 anos, estava presente à reunião, mas não falou.
A ser verdade tudo o que o coronel me contou em entrevista ao Balaio, depois da reunião, sobre o destino dado aos corpos dos guerrilheiros durante a chamada “Operação Limpeza”, no início de 1975, será impossível localizá-los. Trechos do seu depoimento:
“No último mes de combate, em dezembro de 1974, segundo os nossos controles, só restava um guerrilheiro vivo que não foi localizado e conseguiu fugir da área. Era o Angelo Arroyo (ele seria morto pouco tempo depois pelo DOI-CODI durante invasão feita na casa onde a direção do PCdoB estava reunida na Lapa, em São Paulo)”.
“Nós da FAB fomos chamados no início de janeiro para fazer a “Operação Limpeza” com a finalidade de não permitir, depois que os militares saíssem que a área fosse escarafunchada por jornalistas e familiares dos mortos, causando problemas ao governo e às Forças Armadas. A ordem eram sumir com os corpos dos guerrilheiros”.
“Um colega meu da FAB, o coronel Sergio Camargo, localizou um paredão de pedra ao norte da Serra das Andorinhas para fazermos este trabalho. Ele falou para o comando que já sabia para onde levar e queimar os corpos, mas foi transferido para Belém, e o serviço ficou para mim e outros pilotos. Só eu transportei uns 15 fardos com os corpos que foram cercados de pneus e queimados com gasolina. Cheguei a pousar lá quando os fardos levados por outro helicóptero ainda estavam queimando”.
“Isto foi feito entre 20 de janeiro e 20 de fevereiro de 1975. Fui o último piloto a deixar a área. Conto tudo isso no meu livro “Xambioá _ A guerrilha do Araguaia”, lançado em 1993. Já voltei três vezes á Serra das Andorinhas, mas não consegui encontrar o local exato onde os corpos foram queimados. Na primeira vez, fui com o pessoal da revista Veja, logo que o livro foi lançado. Em 2001, acompanhei uma missão do então deputado Luis Eduardo Greenhalg, com o apoio da FAB, e voltei em 2004 com um grupo interministerial”.
“Espero que o grupo que agora está aqui convoque o coronel Sergio Camargo para vir para cá e colabore com as buscas porque foi ele que descobriu o paredão das Andorinhas e sabe voltar lá. É possível que a gente encontre lá pelo menos restos do aço que é empregado na fabricação de pneus para provar que os corpos foram mesmo queimados ali”.
Ao nos despedirmos, o coronel Cabral estava bastante emocionado com o que acabara de assistir e ouvir na reunião. “Não esperava viver para ver isso que vi hoje, ver o comandante do Exército participando de uma reunião ao lado do Aldo Arantes, do PCdoB, com o mesmo objetivo de encontrar a verdade. É um outro Exército, um outro país, muito melhor, mais próximo da democracia”.
Ao final da missão, de volta a Brasília na noite de sexta-feira, depois de passar o dia todo subindo e descendo de avião e de helicóptero militares, os joelhos moídos, mais quebrado que arroz de terceira, também tive esta sensação de que o Brasil muidou muito, e para melhor, desde que fui fazer minhas primeiras reportagens na Amazonia no começo dos anos 70. A notícia triste, é que a floresta está sumindo.

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
01/10/2009 - 16:09

No Araguaia, 40 anos depois, ainda em busca dos corpos

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BRASÍLIA _ A esperança de encontrar os corpos dos desaparecidos, sabemos todos, é remota. Mas os parentes dos guerrilheiros mortos em operações do Exército na região do rio Araguaia, no começo dos anos 1970, nunca a perdem.
São 78 os desaparecidos conhecidos _ 57 guerrilheiros, 20 camponeses e um soldado. Seus parentes lutam até hoje para poder enterrar os mortos de acordo com suas convicções religiosas e em respeito à sua memória.
Quase 40 anos após a Guerrilha do Araguaia, desencadeada pelo PCdoB, uma dissidência armada do antigo Partido Comunista Brasileiro, contra a ditadura militar, o governo brasileiro continua empenhado em resgatar a verdade sobre este período amargo da nossa história.
É por este motivo que estou novamente em Brasília nesta tarde calorenta de quinta-feira. Amanhã cedinho, embarco num avião da FAB para Marabá, no sul do Pará, junto com meus colegas do Comitê Interinstitucional de Supervisão das Atividades do Grupo de Trabalho, constituído pelo governo federal em abril deste ano, com a participação de militares e representantes da sociedade civil, para retomar as buscas dos desaparecidos.
Liderado pelos ministros Nelson Jobim, da Defesa, e Paulo Vanucchi, dos Direitos Humanos, o grupo acompanhará os trabalhos de escavação em Mutuma, município de São Geraldo, e na Fazenda Bacaba, onde fará sua primeira reunião de trabalho na região.
Os trabalhos estão agora entrando na terceira fase e deverão se estender até o final de outubro, quando começa o período de chuvas. Duas expedições já foram realizadas desde o começo de agosto, sem resultados até agora.
É como procurar agulha em palheiro, pois nestas quatro décadas as terras onde os corpos poderiam ter sido enterrados foram totalmente reviradas e a topografia mudada. Mas os trabalhos prosseguem.
Na última reunião do grupo, em Brasília, no dia 10 de setembro, Antonio Herman de Vasconcelos e Benjamim, ministro do Superior Tribunal de Justiça, um dos 11 integrantes do comitê de supervisão criado pelo presidente Lula, resumiu o pensamento que move todos os envolvidos nesta operação:
“Dar uma satisfação aos familiares, dar uma satisfação à sociedade brasileira e demonstrar o envolvimento do Estado Brasileiro no resgate histórico perante as gerações futuras”.
Dos cerca de 80 guerrilheiros enviados para a selva pelo PCdoB no início dos anos 1970, apenas 20 sobreviveram. Os demais foram mortos em combate durante as três operações desencadeadas pelo Exército a partir de 1972, até o final de 1974.
Estive pela primeira vez nesta região conhecida por Bico do Papagaio, em 1980, para fazer uma série de reportagens para a Folha de S. Paulo, mais tarde publicadas no livro “Massacre dos Posseiros – Conflito de Terras no Araguaia-Tocantins”, da Editora Brasiliense.
Depois do final da guerrilha, a guerra pela terra ali continuou por outros meios e personagens, envolvendo grileiros, posseiros, garimpeiros, índios, policiais militares, religiosos, juízes e promotres, numa luta sem fim, que prossegue até hoje.
Ali, às margens dos belos rios Araguaia e Tocantins, na encruzilhada de três Estados, pegando o sul do Pará, o oeste do Maranhão e o antigo norte de Goiás (hoje Tocantins), vigorava a lei do mais forte numa terra de todos e de ninguém, onde nem o Exército e muito menos a Justiça conseguiam colocar um pouco de ordem.
Vou ver amanhã como anda a vida por lá tantos anos depois e conto para vocês no sábado (devo voltar no final da noite de sexta-feira).
Em tempo: antes que algum desavisado tire conclusões apressadas a respeito da minha participação neste Comitê Interinstitucional, informo que se trata, segundo decreto presidencial que o criou, de “serviço público relevante, não remunerado”.

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
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