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Arquivo de outubro, 2009

30/10/2009 - 16:17

Para onde vai o MST? Com a palavra, o eterno líder Stédile

“O MST não é capacho de ninguém”, proclamou Joâo Pedro Stédile, o eterno líder do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), ao final de uma hora de entrevista ao programa “3 a 1″, gravado na manhã desta sexta-feira, nos estúdios da TV Brasil, em São Paulo. E emendou: “Não é porque o Lula mandou votar na Dilma que nós temos que votar na Dilma”.

Stédile cobrou dos candidatos um projeto para o país porque, segundo ele, os movimentos sociais querem discutir propostas e não nomes antes de se posicionar em relação às eleições presidenciais de 2010.

No programa, que irá ao ar às 23 horas da próxima quarta-feira, Stédile falou dos pontos positivos e negativos do governo Lula, dos rumos do MST e dos últimos acontecimentos envolvendo o movimento. Reconheceu erros e pediu desculpas, mas atribuiu a “agentes infiltrados” os atos de depredação e violência na fazenda da Cutrale, chamou a burguesia nacional de idiota, defendeu a agricultura familiar e atacou o agronegócio, a direita ruralista e a CPI.

Quase trinta anos depois de fazer a primeira entrevista com ele na Encruzilhada Natalino, o berço do MST no interior do Rio Grande do Sul, reencontrei o mesmo Stédile indignado de sempre, defendendo as mesmas idéias com a mesma convicção, sem dar espaço para dúvidas ou incertezas.

Mais magro, ele deu boas risadas com as histórias contadas por Luis Carlos Azedo, o apresentador do programa, antes da gravação começar. Já no estúdio, fechou a cara, aumentou o tom de voz e emendou um discurso no outro. Mas negou que o MST tenha se transformado num movimento político e, olhando diretamente para a câmera, disparou: “O MST não é um partido!”.

Além de Azedo, participaram como entrevistadores a repórter Cátia Seabra, da Folha, e eu. Várias vezes, o líder do MST negou que o movimento tenha optado nos últimos tempos por uma estratégia de confronto, atribuindo os excessos ao desespero das famílias acampadas à espera de terra.

Stédile reconheceu que os movimentos sociais envelheceram e passam por um processo de esvaziamento, “não só no Brasil, mas no mundo inteiro”, por conta de uma transição entre o neoliberalismo e algo novo que ele ainda não sabe definir claramente o que é. “Em breve, penso que surgirão novos lideres, novos movimentos, novos partidos.”

Mas ele mesmo, única liderança do MST nacionalmente reconhecida desde a criação do movimento, embora se apresente apenas como “membro da coordenação”, não deu nenhum sinal de que pretenda se aposentar e passar o bastão tão cedo.

Perguntei-lhe em que momento se deu a guinada do MST, com a invasão de prédios públicos, ataques a laboratórios e destruição de lavouras, como aconteceu em Iaras. Para mim, este marco seria março de 2002, com a invasão da fazenda da família do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Stédile garante que foram agentes P-2 (serviço secreto da Polícia Militar) infiltrados no movimento que provocaram a invasão da fazenda de FHC e culpa a cobertura da imprensa pela repercussão negativa das ações que envolvem o MST.

O apresentador Azedo perguntou-lhe então por que o movimento não fazia uma denúncia formal ao Ministério da Justiça, cobrando investigações sobre a suposta ação de agentes infiltrados em diferentes episódios. Stédile ficou de pensar na idéia.

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
29/10/2009 - 13:52

É bom ser líder do Brasileirão por pelo menos uma noite

Na eletrizante reta final do Brasileirão, faltando apenas seis rodadas, ainda temos seis times na luta direta pelo título, algo inédito na fase de pontos corridos: São Paulo, Palmeiras, Atlético, Internacional, Cruzeiro e Flamengo estão na parada. Dois paulistas, dois mineiros, um carioca e um gaúcho, donos de imensas torcidas, vão decidir quem fica com o caneco.

Com a magra e sofrida, mas merecida vitória do São Paulo por 1 a 0 contra o Internacional, na noite desta quarta-feira, no Morumbi, chegou a nossa vez de ocupar o topo da tabela, onde o Palmeiras se aboletou desde o primeiro turno e parecia nunca mais querer sair.

Toda a imprensa destacou que o São Paulo pode ser líder por apenas uma noite, pois seus concorrentes diretos, Palmeiras e Atlético, só jogam hoje e, se vencerem, o que é mais provável, já que seus adversários são mais fracos, vão nos passar na tabela.

Não tem problema. Pode ser por uma noite somente, mas já está bom demais ir dormir como líder para quem esteve à beira da zona do rebaixamento na metade do primeiro turno, quando o São Paulo mandou Muricy embora e contratou Ricardo Gomes, em quem quase ninguém, nem eu, botava muita fé.

Com praticamente o mesmo elenco, sem fazer nenhuma grande contratação, ao contrário dos seus concorrentes diretos, o São Paulo do discreto Ricardo Gomes, o anti-Muricy, foi comendo pelas beiradas, andou marcando bobeira nas últimas rodadas, mas finalmente chegou lá.

Aconteça o que acontecer, estamos no jogo. Só não vale fazer como meu amigo Milton Neves, que pisou na bola em seu comentário de hoje. Já está ficando chato esse negócio de dizer que o São Paulo só ganha com a ajuda do juiz. Ontem, por exemplo, acho que Sandro Meira Ricci não teve nenhuma influência no resultado, e nem os jogadores do Inter reclamaram da sua atuação.

O time do São Paulo não é nenhuma maravilha, eu sei, seus jogadores parecem apenas funcionários aplicados, mas também qual é o grande time brasileiro do momento? Como não tem nenhum, qualquer um pode ser campeão. Até o meu São Paulo…

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
27/10/2009 - 12:09

CUBA ESPECIAL-2: fumo livre e Guerra Fria no Balaio

Assim que entrei no salão de desembarque do aeroporto José Marti em Havana, depois de umas doze horas de viagem entre aviões e conexões, logo senti que havia algo diferente no ar. Sim, era o cheiro de tabaco queimado, algo cada vez mais raro em São Paulo. Enquanto esperava a mala, vi várias pessoas fumando ali mesmo e me senti livre para acender um cigarro também. Ninguém me olhou feio.

No táxi, em qualquer área do hotel, nos restaurantes, em qualquer lugar o fumo é livre em Cuba. Pode parecer uma bobagem, algo politicamente incorreto, eu sei, mas me deu uma boa sensação de liberdade, depois de tanto tempo, não ser reprimido nem tratado como um pária, um ser nocivo à sociedade.

Até hoje, não há nenhuma indicação científica de que os cubanos estejam vivendo menos do que nós porque a maioria continua fumando em qualquer lugar. Ao contrário, a expectativa de vida lá é de 75 anos, maior do que a dos brasileiros.

Nem falei disso ontem na minha cronica de viagem sobre as 72 horas que passei em Havana na semana passada, para não despertar ainda mais a ira dos que parecem viver até hoje na Guerra Fria, vinte anos após a queda do Muro de Berlim. Pelos comentários enviados ao Balaio, percebi que basta falar em Cuba para que recomece o mesmo tiroteio verbal feito de velhos chavões, de um lado e de outro, que já dura meio século.

Só toco neste assunto hoje por causa de uma brincadeira que fizeram comigo na cerimonia de entrega do 31º Premio Vladimir Herzog, na noite de segunda-feira, no Tuca. Ao ser chamado parta falar na homenagem prestada ao Audálio Dantas, valente presidente do Sindicato dos Jornalistas na época do assassinato de Herzog, outro amigo, Sergio Gomes, demorou-se para subir ao palco.

Ao se desculpar pela mancada, explicou que estava fora do teatro fumando um cigarro comigo e me dedou em público ao governador José Serra, o líder da cruzada antitabagista, presente à cerimônia. Todo mundo achou graça, contaram-me os amigos, mas depois me vinguei do Serjão, brincando que, depois de velho, ele tinha virado dedo-duro _ justo ele, que foi preso junto com Herzog, porque alguém o dedou…

Brincadeiras à parte, esta questão da proibição radical do fumo em São Paulo é apenas um sinal do crescente sentimento de intolerância que tenho notado nas pessoas nos útimos tempos _ em todas as áreas da vida nacional, da política à religião, do futebol aos movimentos sociais. Aqui mesmo no Balaio uns agridem os outros simplesmente por pensarem de forma diferente, argumentos são logo trocados por ofensas.

Vários leitores me mandaram ir morar em Cuba e bateram pesado só porque contei as minhas impressões de viagem, como costumo fazer sempre que vou a outros lugares e relato aos leitores o que vi e ouvi. Não tem nada uma coisa a ver com outra.

Gostar do povo cubano e do seu país não quer dizer que eu defenda o regime político em que vivem, mas não sou eu quem vai dizer para eles o que está certo ou errado, quais são os caminhos que devem seguir. Problema deles. Como jornalista, jamais poderia viver em Cuba porque lá só existe uma indigente imprensa oficial e eu prezo muito a minha liberdade.

Para mim, o melhor lugar do mundo para se viver é o Brasil, mas muitos leitores não pensam assim. Também é problema deles. Só peço que neste espaço todos procurem respeitar mais a opinião alheia, não só a minha, mas as dos demais leitores. Ao contrário de outros blogs, vocês sabem, aqui não excluo quem pensa diferente, mas apenas os que confudem liberdade de expressão com baixaria e preconceito.

Para que ninguém me entenda mal, quero dizer também que, apesar de fumante, aprovo as restrições ao cigarro em determinados locais, respeito o direito de quem não fuma, e acharia ótimo se pudesse largar esta porcaria, mas não concordo com os exageros. Minhas filhas e netos, graças a Deus, não fumam. Por isso, respeito a proibição da família para não fumar dentro de casa.

Só acho uma violência, um caso típico de intolerância e autoritarismo, proibir que se fume até em charutarias e tabacarias, e em varandas de bares e restaurantes onde há lugares reservados para não fumantes.

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
26/10/2009 - 14:39

CUBA/ESPECIAL: 72 horas em Havana, 50 anos depois

LA HABANA, CUBA _ Elas vão e voltam em seu passeio noturno, caminhando devagar e proseando pela rua. Com suas roupas coloridas, chamam a atenção dos turistas, mas parecem flanar em outro mundo, um mundo só delas. São duas senhoras mais ou menos sexagenárias, negras robustas como os enormes charutos de quase meio metro que fumam com prazer. Parecem felizes.

Quase nove da noite de sexta-feira, nossa última em Havana antes da viagem de volta, ainda se sente um calor gostoso, a brisa morna soprando do mar do Caribe. Cada um do nosso grupo de amigos foi para um lado diferente e agora caminho só com minha mulher, a Mara, pelas ruas estreitas e precariamente iluminadas do velho centro de Havana (o país vive mais um racionamento de energia), que foi declarado Patrimonio da Humanidade pela Unesco, e está sendo totalmente restaurado. Mal comparando, aqui é uma espécie de Pelourinho ou Ouro Preto deles.

Boa hora para entrar num bar e tomar um mojito, a bebida típica feita de rum, suco de limão, açucar, água gasosa e ramos de hortelã (pelo tanto que consomem, devem ser grandes as plantações da “hierba buena”, como a chamam por aqui), ouvindo ao vivo um conjunto de música caribenha, claro.

Passamos a tarde percorrendo cada viela, beco e praça, entrando nos prédios históricos _ tudo por aqui tem muita história _ em companhia de Eusebio Leal, 64 anos, historiador, arqueólogo e arquiteto “honoris causa” pela Universidade de Urbanismo de Ferrara, na Itália, a mais antiga do mundo.

Não poderíamos ter arrumado um guia melhor _ para não apenas ver, mas também conhecer e entender o que se passou por aqui, desde as longas e variadas lutas do povo cubano pela independência. Eusebio é uma espécie de “prefeito” desta parte de Havana, apaixonado pelo seu trabalho.

Quando lhe perguntei desde que idade se dedica a este ofício, responde com um sorriso: “Desde a vida toda…”. Mais exatamente, desde 1967, quando iniciou a restauração do antigo Palácio do Governo. A partir de 1993, com a criação da Oficina Del Historiador de La Ciudad, um orgão autônomo não estatal que ele comanda à frente de 10 mil colaboradores, entre eles 200 arquitetos, Eusebio Leal é uma espécie de prefeito plenipotenciário da La Habana Vieja.

Além das antigas moradias, ele já restaurou e administra 16 hotéis e mais de 70 comércios, entre lojas, bares e restaurantes, preocupado não só em resgatar o passado, mas em cuidar da rede de proteção social criada para os 74 mil habitantes espalhados por seus 4,9 quilômetros quadrados.

Outras 102 obras de restauração estão em curso e 40 delas devem ser entregues até o final do ano. O mais impressionante de tudo é uma monumental maquete montada com todas as edificações e vias da antiga cidade, que levou seis anos para ser concluída e onde cada um pode localizar o local onde morou.

É uma figura, este Eusebio, que parece conhecer pessoalmente cada morador da sua jurisdição como os velhos párocos do nosso interior. Ao passar pelas ruas _ algumas ainda calçadas com tacos de madeira _, é parado a todo momento por moradores que querem lhe contar alguma coisa, tirar uma foto, agradecer algum benefício recebido.

As duas senhoras charuteiras e o historiador Eusebio, além da sensação de segurança e tranquilidade que me deu andar por suas ruas, foram as imagens que mais me marcaram nesta viagem, a sexta ou sétima que faço à ilha, nem me lembro mais quantas foram.

Mas acho melhor contar como foi desde a chegada esta viagem de apenas 72 horas, no ano em que a Revolução Cubana comemorou 50 anos. Bastou contar aqui na semana passada que eu iria fazer esta viagem, justificando minha ausência por alguns dias no Balaio, para que os leitores já se dividessem entre os que defendem e os que condenam radicalmente o regime cubano, dando início ao Fla-Flu ideológico que até hoje provoca reações de amor e ódio em todo o mundo.

A uns e outros já deixo claro que não fui lá para trabalhar, mas apenas passear a convite de amigos. De qualquer forma, seria leviano fazer qualquer julgamento ou previsão sobre um país em tão curto espaço de tempo. Vou relatar apenas o que vi e ouvi. Cada um que tire suas próprias conclusões. Na verdade, para entender melhor Cuba, nada melhor do que ir lá e ver com seus próprios olhos para tirar suas próprias conclusões.

Hotel Nacional e La Floridita

Para chegar a Havana, não há mais vôos diretos do Brasil. Pela Copa Airlanes, uma empresa panamenha controlada pela americana Continental, dá um total de nove horas de vôo, com uma conexão em Panamá City. Em 1981, quando viajei para lá pela primeira vez, era bem mais complicado. O Brasil ainda não mantinha relações diplomáticas com Cuba. Viagens para a ilha eram oficialmente proibidas, como estava expresso no nosso passaporte.

Por isso, daquela tivemos que ir primeiro a Lima, no Peru, para pegar um visto avulso na embaixada cubana e só chegamos a Havana dois dias depois. Mudou o Brasil, mudaram Cuba e o mundo e, desta vez, encontrei muitos turistas brasileiros por lá, misturados a outros milhares do mundo todo, um cenário bem diferente de quase três décadas atrás.

Meio século após a revolução liderada por Fidel Castro, o turismo voltou a ser a maior fonte de receita de Cuba, depois que o preço do níquel, seu principal produto de exportação, caiu no mercado mundial. Percebe-se isso logo na chegada ao novo aeroporto Jose Marti, enfeitado com as bandeiras de quase todos os países do mundo, agora com um movimento muito maior de aviões e passageiros.

Na meia hora de viagem até o Hotel Nacional, trafegando numa moderna van por avenidas largas, limpas e bem arborizadas, sem congestionamentos ou motoristas estressados, nota-se que o antigo e o moderno agora convivem lado a lado como em qualquer cidade turística que tem na sua história o principal chamariz.

Os velhos “guaguas” caindo aos pedaços, foram substituídos por ônibus novos. Há cada vez menos carrões americanos pré-revolucionários e os soviéticos Ladas, dando espaço para carros contemporâneos de todas as marcas e procedências. Tem até táxi Mercedes.

A grande diferença em relação às paisagens que conhecemos está nos cartazes de propaganda, que se mantém imutáveis: em lugar de produtos de consumo, apenas anúncios de apelos patrióticos, denúncias contra o bloqueio americano e homenagens aos revolucionários. Além destas palavras de ordem, monumentos, palácios e estátuas espalhados por toda parte lembram a todo momento que estamos em Cuba e revivem os acontecimentos históricos de 50 anos atrás.

Fora isso, a vida segue normalmente, sem sobressaltos, veículos militares nas ruas, homens armados, nada que lembre um país em revolução permanente por tanto tempo. Também não se vê menores abandonados, famílias debaixo de pontes, sinais de pobreza extrema.

Uma boa surpresa foi encontrar completamente restaurado o Hotel Nacional, que recentemente completou 80 anos. Me fez lembrar o nosso Copacabana Palace, por sua imponência e amplitude das instalações à beira mar, o luxo antigo na decoração e a quantidade de bares e restaurantes para os hóspedes.

Em relação às viagens anteriores, o serviço e a oferta de produtos melhoraram consideravelmente, outro sinal da importância que se voltou a dar ao turismo. Em lugar de burocratas estatais formados na rigidez soviética, agora o atendimento na área de serviços é mais gentil, às vezes até bem humorado, sem ser subserviente.

Tem certos programas que não são nada originais, mas quase obrigatórios, onde dá vontade de voltar sempre que se vai a uma cidade. É o caso do La Floridita, mais conhecido como o “bar do do Hemingway”, o grande escritor americano que viveu seis anos em Cuba e lá escreveu parte de sua obra, além de ter inspirado o daiquiri, um aperitivo também preparado com rum, limão, açucar e gelo picado.

Fomos lá logo na primeira noite. Continua tudo igual, mas melhor servido, embora sempre lotado, com conjuntos musicais se revezando a noite toda para a festa dos turistas. Caminha-se pelas ruas até tarde da noite como em Buenos Aires. Grandes grupos de jovens e de turistas na mesma hora lotam o calçadão junto à amurada do Malecon, onde o mar bate com força e às vezes molha todo mundo.

Vale a pena também visitar a feira de artesanato, com roupas e objetos típicos, os antiquários, os muitos sebos espalhados pela cidade e a fábrica dos famosos charutos Cohiba, onde se pode acompanhar todo o processo de produção artesanal. Como ninguém é de ferro, sempre é bom reservar uma parte do dia para ir à praia. Se o tempo disponível é pouco, melhor ir a Santa Maria, que fica a apenas 27 quilômetros de Havana, tem quiosques de comes e bebes na areia e um maravilhoso mar de águas limpas e tépidas, mescladas de azul e verde.

Alarcon,Acosta,Morais

Tão importante quanto voltar aos lugares que conhecemos e gostamos é reencontrar os amigos para saber como andam as coisas.

Foi o que aonteceu num longo jantar no El Templete, bem em frente ao porto de Havana, encimado por uma grande imagem do Sagrado Coração de Jesus, onde encontramos os amigos Ricardo Alarcón de Quesada, presidente da Assembléia Nacional do Poder Popular (o Congresso Nacional deles), 67 anos, hoje o segundo homem na hierarquia do poder, e Homero Acosta, 45 anos, Secretário do Conselho de Estado, espécie de Gilberto Carvalho de Raul Castro, um advogado apaixonado por música popular brasileira.

No meio do jantar, ainda apareceu nosso velho amigo Fernando Morais, autor de “A Ilha”, que está em Havana fazendo pesquisas para um livro sobre os cinco cubanos presos nos Estados Unidos desde 1998, acusados de espionagem pela Justiça americana, dois deles condenados a duas prisões perpétuas (teriam que nascer de novo para cumprí-las).

Cada vez que vou a Cuba, encontro situações diferentes, sempre carregadas de dificuldades mais ou menos permanentes e muitas esperanças no futuro. As maiores dificuldades continuam localizadas nas áreas de energia (80% do petróleo vem da Venezuela), habitação e abastecimento (80% dos alimentos são importados), agravadas pelos três furacões que varreram a ilha em setembro do ano passado, causaram prejuízos de 10 bilhões de dólares e destruíram dezenas de milhares de moradias.

E o futuro? Quando pergunto a Alarcon, um advogado de 67 anos, de fala mansa e didática, fisicamente parecido com dom Pedro Casaldáliga, como imagina a vida dele e a de Cuba daqui a dez anos, ele abre os braços e um sorriso, como quem diz: “Se eu soubesse…”.

Apesar da abertura muito lenta, gradual e segura que se opera hoje em Cuba, como foi no Brasil de Geisel no período final do regime militar, dá para notar que os controles internos já não são tão rígidos, mas ninguém pode imaginar como será a vida em Cuba no período pós-Castro (Fidel, com 83, está doente e fora de combate há dois anos, e seu irmão e sucessor Raul já completou 78) e, principalmente, após o fim do bloqueio americano.

Em Cuba, todos sentem que estão vivendo o final de uma era, sabem que algo está para mudar, mas ninguém arrisca prever o que virá depois, nem quando isso acontecerá. Uma coisa é certa: os cubanos, quem diria, botam muita fé no presidente americano Barack Obama e sabem que até o final do seu governo o bloqueio deverá ser levantado. É apenas uma questão de tempo, de paciência.

Obama tem muitos problemas para resolver ao mesmo tempo no mundo inteiro, sem falar nos seus embates internos. “Para nós, os Estados Unidos sempre tiveram uma grande importância, mas para os Estados Unidos sei que nós representamos hoje uma questão menor, menos urgente”, conforma-se Alarcon, que sempre procura situar as mudanças em seu país no contexto das profundas modificações que podem acontecer no mundo nos próximos anos.

Por tudo isso, os cubanos temem pela segurança de Obama _ na visão deles, hoje mais ameaçada do que já foi a do próprio Fidel Castro. Ao mesmo tempo, sabem que o levantamento do embargo/bloqueio não representará
o fim de um dia para outro todos os problemas sociais e econômicos enfrentados pelos cubanos hoje.

Ao contrário, pode ser apenas o começo de outros problemas. No dia em que os norte-americanos puderem todos viajar livremente para Cuba _ hoje é proibido por lei nos Estados Unidos, a não ser em casos excepcionais _ como a pequena ilha suportará a invasão de turistas?

Por quanto tempo resistirão a restaurada Habana Vieja de Eusebio Leal, a limpeza das águas do Caribe, a convivência serena entre nativos e forasteiros tomando a fresca no Malecon? E, na direção inversa, quantos jovens cubanos poderão optar por viver nos Estados Unidos ou em qualquer outro país e não mais voltar?

Em tempo:

No sábado, dia 24, Frei Betto foi recebido para almoço por Raul Castro. Falaram dos impasses da Revolução Cubana, como a existência de duas moedas e os subsídios estatais à alimentação.
Raul Castro revelou que o governo pensa em aumentar os salários e reduzir tais subsídios, pois muitas famílias recebem cesta básica mensal sem dela necessitarem.

No final da tarde do mesmo dia, Fidel Castro recebeu Frei Betto em sua residência, uma casa de dois andares, em estilo californiano dos anos 50. Segundo Betto, conversaram sobre “os governos democrático-populares da América Latina, a importância dos meios de comunicação na formação cidadã das novas gerações e a questão da ética do poder”, tema do seu livro “A Mosca Azul”.

As mais comentadas da semana

Em razão da minha viagem, deixei de publicar ontem a relação das matérias mais comentadas da semana no Balaio, na Folha e na Veja, como faço desde a estréia do blog. Pelo mesmo motivo, o Balaio só destaca hoje duas matérias esta semana. Ver abaixo:

Balaio

O Caso Rubinho: 320
O Rio e o inglês do COI: 313

Folha

Lula: 122
Violência no Rio: 108
Educação/professores: 31

Veja

Albert Einstein: 17
Pressão do governo contra a Vale: 16
Lya Luft: 15

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
20/10/2009 - 13:47

Para inglês do COI, a “Guerra do Rio” é “insignificante”

Os trágicos acontecimentos da chamada “Guerra do Rio” no último fim de semana, em que um helicóptero da polícia foi abatido por traficantes, deixando um rastro de mortos e feridos, fez a festa da urubuzada que estava só esperando a primeira chance para sair da toca gritando: “Tá vendo? Não avisei? Olha aí o Rio que vai sediar a Olimpíada! É o fim do mundo!”

Como se fosse possível, de uma hora para outra, só porque o Rio foi eleito faz duas semanas para receber as Olimpíadas de 2016, restabelecer a paz e acabar com o poder bélico da bandidagem na eterna luta da polícia contra o crime organizado movido a tráfico de drogas e de armas nas mais de mil favelas cariocas.

Para a turma do quanto pior, pior mesmo, tanto melhor, deve ter sido uma tristeza ler a manchete da página 15 de O Globo desta terça-feira: “Membro do COI diz que episódio é insignificante”. Se eu escrevesse uma coisa dessas, seria logo chamado de nacionalista imbecil, daí para cima.

Logo abaixo do título, o dirigente inglês Craig Reedie, membro do Comitê Olímpico Internacional (COI) explica sua afirmação: ele lembrou que em Londres, um dia após a escolha para os Jogos de 2012, atentados terroristas mataram 52 pessoas.

Em entrevista ao jornal “The Independent”, Reedie lamenta o ocorrido no Rio, mas afirma que o fato era “insignificante, comparado ao que aconteceu em Londres, em 2005″.

O texto de O Globo lembra: “Em 7 de julho daquele ano, logo depois da escolha da cidade para sediar as Olimpíadas de 2012, quatro homens-bomba causaram explosões em trens, metrô e ônibus, deixando 52 pessoas mortas e cerca de 700 feridas”.

Nem por isso, que me lembre, jornalistas ingleses sairam por aí afirmando que Londres não tinha condições de segurança para abrigar uma Olimpíada.

Nós ainda temos seis anos pela frente para que os poderes públicos reassumam o controle das áreas hoje controladas por traficantes e milícias.

Sempre podemos olhar as coisas por dois lados.

A visão otimista é acreditar que o Rio tem nas responsabilidades assumidas diante do COI pelos governos federal, estadual e municipal a grande chance de ganhar esta guerra e criar as condições para viver melhor e em paz após a Olimpíada.

A dos pessimistas, é ficar repetindo daqui até 2016, a cada novo episódio de violência, que é o fim do mundo, que vai ser um vexame, que nós brasileiros não temos condições de garantir a segurança de quem vier ao Rio para competir ou assistir aos Jogos Olímpicos.

Cada um que escolha a sua. A minha é a primeira.

Em tempo:
Viajo na madrugada desta quarta-feira para Havana e só volto no domingo. Vou a passeio, a convite de um velho amigo que vai comemorar lá seu aniversário de 75 anos (não, não é o Frei Betto…).

Nos mares do Caribe, onde costuma fazer sol e calor o ano inteiro, espero me curar de uma gripe cavalar que não me larga faz mais de uma semana. Não vou levar celular nem laptop porque estava precisando mesmo de uns dias de folga. Por isso, atualização do blog e moderação de comentários vão ficar para quando eu voltar para casa.

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
19/10/2009 - 10:40

O caso Rubinho: o que leva ao sucesso ou ao fracasso?

Os assuntos mais comentados da semana

Como no domingo não teve Balaio novo, publico a seguir a relação dos três assuntos mais comentados pelos leitores durante a última semana neste blog, na Folha e na Veja, as duas publicações impressas de maior circulação no país.

Balaio

45 anos de jornalismo: 169
“Everybody loves Brazil”: 123
Obama para exportação: 104

Folha

Devolução do IR: 46
Olimpíada: 34
MST: 33

Veja

Ben-Hur Ferraz Neto: 35
Barbárie do MST : 34
J.R.Guzzo: 32

***

Estava tudo preparado para a grande festa de Rubinho Barrichello, que finalmente poderia ganhar no autódromo lotado de Interlagos, no último domingo, seu primeiro Grande Premio Brasil, 17 anos depois de tentar pela primeira vez.

Aos 37 anos, com a torcida toda a favor, rodeado pela família e pelos amigos, largando na pole-position, Rubinho era a grande estrela da corrida. Ainda tinha uma remota chance de disputar o título, mas ganhar o GP Brasil e garantir o vice-campeonato já estaria de bom tamanho para o piloto que jamais conquistou o título mundial em sua já longa carreira.

Mas ainda não foi desta vez. Um prosaico pneu furado o tirou mais uma vez da disputa e bastou um quinto lugar para levar o improvável inglês Jenson Button, seu parceiro na Brawn, à conquista do título de 2009.

Que acontece com Rubinho, o mais antigo piloto de Fórmula-1 em atividade? Nunca chegou a ser um ídolo da torcida num país que já teve Emerson, Pace, Piquet, Senna e agora joga suas esperanças no jovem Felipe Massa. De uns tempos para cá, até virou folclore, motivo de deboche em programas humorísticos.

Quem não gosta dele diz que é um ótimo motorista e cidadão exemplar. Não tem pontos na carteira, não força ultrapassagens, jamais transgride o limite de velocidade, é cuidadoso nas curvas. Fora das pistas, é bom pai, bom marido, bom filho, o genro que toda sogra gostaria de ter.

Juntou uma bela fortuna em suas duas décadas de piloto profissional, arriscando a vida (não muito) nos autódromos do mundo, tem até avião particular, mas no imaginário popular não passa de um perdedor inveterado, um bom menino que fez tudo direito e não deu certo na vida.

No começo do ano, estava desempregado, nenhuma escuderia o queria mais. Logo arrumou uma boquinha na Brawn e foi subindo na tabela. Ainda pode ser o vice este ano, mas não parece muito animado com isso, como comentou domingo, depois de mais uma corrida frustrada:

“”O vice, como já dizia um grande amigo meu, que é o Nelson Piquet, é o primeiro dos perdedores. Então, não é um prazer enorme”.

Rubinho Barrichello é personagem emblemático do grande dilema humano constantemente desafiado pela linha tênue que separa o sucesso do fracasso. Isso vale para pessoas, empresas, países. Não existe uma receita para dar certo. Quem a descobrir certamente vai ganhar muito dinheiro.

É comum encontrarmos colegas de escola que nunca foram bons estudantes, pareciam não ter vocação para nada e, um belo dia, os encontramos felizes e realizados na vida por algum motivo insondável. O contrário também é verdadeiro: os melhores alunos da classe que acabam fracassando em suas vidas pessoais e profissionais.

Aqui perto de onde moro, no Jardim Paulista, tem uma enorme pizzaria, a Margherita, que vive constantemente lotada, há anos com filas de espera quase todas as noites. A pizza não tem nada de especial, há outras bem melhores no bairro, que vivem meio vazias, o serviço é o habitual, não tem atrativos extras, e o preço é alto. Como explicar o sucesso dela ou o fracasso das casas que abrem e fecham na cidade?

Como não gosto de fazer e deixar perguntas sem respostas, só me ocorre arriscar um palpite: é ter ou não ter estrela na vida. Tem gente que tem e tem gente que não tem, simplesmente. Rubinho não tem estrela.

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
16/10/2009 - 13:13

Obama para exportação: temos tudo, menos o Obama

Passei a quinta-feira participando do seminário “O Efeito Obama”, organizado pela Graduate School of Political Management da The George Washington University, com patrocínio do Grupo Santander Brasil, que termina hoje, no Hotel Renaissance, em São Paulo.

Entre outros, fizeram palestras e participaram dos debates Ben Self, criador da rede na internet para arrecadar fundos e atrair voluntários, e o estrategista Jason Ralston, responsável pela publicidade da campanha de Obama.

Os craques americanos não só falaram das suas vitoriosas experiências que ajudaram a levar o improvável Barack Obama à Presidência dos Estados Unidos, mas também se interessaram em saber o que vem sendo feito por seus colegas no Brasil na área do marketing político.

Durante o almoço, Rogério Schmitt, coordenador de pesquisas e estudos da CLP (Centro de Liderança Pública) fez um breve e sábio resumo de tudo o que ouviu. Nós já dispomos das mesmas ferramentas dos americanos em tecnologia, internet e infra-estrutura de campanha, somos muito criativos, temos tudo para fazer igual a eles. Só falta um detalhe: não temos um Obama concorrendo nas eleições de 2010.

Em outras palavras, não temos uma grande novidade para ser trabalhada, um produto original que cativou o eleitorado pela sua simpatia, entre outras virtudes e características de Obama.

Pelos nomes até aqui apresentados ao distinto público para concorrer em 2010, não há nenhum exemplo de grande simpatia, nem de originalidade na campanha presidencial brasileira. Ao contrário: as pessoas até brincam que as eleições do ano que vem podem virar um concurso de Miss Simpatia às avessas.

Sem desmerecer os méritos dos profissionais americanos e suas estratégias que ajudaram Obama a chegar lá, a verdade que é aqui falta o contraponto, um personagem que foi também muito importante para a vitória do primeiro presidente negro dos Estados Unidos: George Bush, o repúblicano que estava saindo, e foi um grande cabo eleitoral do candidato democrata.

Aqui, temos exatamente o contrário: o único nome novo no elenco é o da ministra Dilma Roussef, que nunca disputou uma eleição, mas é a candidata da continuidade do governo Lula, um presidente que chega ao final do mandato no auge da popularidade, o oposto de Bush. De outro lado, o candidato da oposição, José Serra, é um velho conhecido dos eleitores brasileiros de outros carnavais.

Num encontro promovido para exaltar a importância dos marqueteiros nas campanhas eleitorais, com a maciça presença de assessores de possíveis candidatos em 2010, a grande estrela do debate foi a crescente importância da internet, mas estranhamente ficou de fora um fator que costuma ser decisivo em campanhas eleitorais: a situação econômica do país no momento em que a população vai às urnas.

Discutiu-se muito também até onde Lula consegue transformar sua popularidade em votos para Dilma _ Jason Ralston, por exemplo, não acredita nisso _ mas só no final da mesa de que participei _ “A Comunicação e as Eleições no Brasil em 2010″ _, ao lado dos marqueteiros políticos Antônio Lavareda, Luiz Gonzales e Marcelo Simões, levantei esta questão da economia.

Nos tempos de Bill Clinton, vocês devem se lembrar da frase “é a economia, estúpido”, celebrizada exatamente para falar da importância do bolso e do estômago dos eleitores na hora de votar.

Com o quadro de candidatos da eleição presidencial de 2010 a meu ver ainda indefinido, tanto do lado do governo como da oposição, a menos de um ano da abertura das urnas eletrônicas, quaisquer que sejam os nomes nelas incluídos, mais do que ferramentas de marketing político ou maravilhosas estratégias, acho que a eleição será decidida quando o eleitor responder a uma pergunta bem simples: minha vida melhorou ou piorou nos últimos oito anos em relação ao período anterior?

Nós já tivemos um personagem com as características de Obama nas eleições de 2002, com repeteco em 2006. Mas, agora, pela primeira vez nas eleições presidenciais diretas pós-ditadura, o nome de Lula não estará nas urnas eletrônicas. Vinte anos e cinco eleições depois, porém, as discussões em seminários como este de que participei ontem ainda se dão em torno de Lula e qual será o seu papel em 2010.

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
14/10/2009 - 16:07

“Everybody loves Brazil”: o editorial da revista “Brasileiros”

Viram que chique? Agora tem até título em inglês no Balaio… Pena que não é meu. É o título dado ao editorial da edição número 27 da revista mensal de reportagens que tem o sugestivo nome de “Brasileiros” (ver o site aqui no iG), escrito pelo meu velho colega e parceiro Hélio Campos Mello, que acumula as funções de fotógrafo, diretor de redação e publisher desta bela experiência editoral independente.

Acabei de pegar nas mãos a edição de outubro da revista, que já está nas bancas, com o Antonio Fagundes na capa _ de terno, colete e descalço _ e uma bela matéria com o grande artista gráfico brasileiro Elifas Andreato _ modéstia à parte, feita por mim mesmo.

Participo desta aventura desde o processo de criação da revista e, ao longo destes mais de dois anos nas bancas, sou testemunha da garra e da valentia do casal Campos Mello, que toca a empreitada _ ao lado de Hélio, está sempre a incansável Patrícia Rousseaux, sua mulher _ junto com uma pequena equipe de jornalistas e designers, formada em sua maioria por jovens.

Sem ser ligado a qualquer empresa de porte, sem mecenas nem sócio capitalista, o milagre da sobrevivência da “Brasileiros”, lutando na selva do mercado publicitário e editorial dominado por poucos grandes grupos, é emblemático de uma boa parcela do povo do nosso país que parou de chorar as pitangas, ficou de pé e foi à luta.

Cada edição é como se fosse um parto difícil em que, ao final, acaba dando tudo certo, e a gente não sabe se ri ou se chora. A revista é bonita e bem feita, tem reportagens sobre um Brasil que raramente sai na mídia, conta a história dos anônimos e o lado desconhecido dos famosos. É uma revista que tem alma, tem vida, tem muitas histórias para contar.

Gostaria de participar mais destes partos, mas, embora juntos desde o começo, ele como publisher e eu como repórter, só nos vemos quando saímos para fazer uma reportagem ou no fechamento da revista. Raramente nos encontramos ou conversamos fora do trabalho, cada um com seus compromissos.

Por isso, achei fantástico quando vi o editorial “Everybody loves Brazil” que ele escreveu sem falar comigo. É o que dizem as principais publicações lá fora, mas escrito por um brasileiro me deixou ainda mais feliz.

Apesar da distância, continuamos pensando as mesmas coisas e defendendo os mesmos ideais que nos levaram a fazer a nossa própria revista. Na mesma semana, escrevi algo muito parecido num post publicado aqui no Balaio sobre as Olimpíadas, o bom momento vivido pelo Brasil e a urubuzada agourenta que não se conforma.

Até hoje tem gente me xingando por conta disso. Parece que virou ofensa pessoal falar bem do Brasil. Desconfio que agora quem vai apanhar é o Hélio, um cara que tem a mesma idade que eu (apenas um dia a menos), torce para o mesmo time e, como todo fotógrafo, diverte-se aporrinhando a vida dos repórteres.

O editorial de Hélio Campos Mello:

“Everybody loves Brazil”

Não é por acaso que esta revista se chama Brasileiros. Escolhemos esse nome, em fevereiro de 2007, porque defendíamos – e defendemos – o direito de olhar para o País com mais carinho. Defendemos o direito de torcer a favor dele, e não contra ele. Defendemos a dispensa da obrigação elitista de sermos “inteligentemente” irônicos, autodepreciativos e carregados de soberba ao criticar o País. Podem nos dispensar dessa obrigação. Trocamos tudo isso por torcer e, principalmente, por trabalhar para que o Brasil cresça sob todos os aspectos. Os econômicos, os sociais e os éticos.

Defendemos que o Brasil precisa gostar mais do Brasil. E isso, é óbvio, não significa ignorar o que há de errado nele. E a realidade do dia a dia nos mostra que muito há de errado. Muito há por fazer. Muito há por melhorar. Mas isso não significa que não se possa comemorar o que há de bom. O que foi feito e o que está em andamento. Nós não nos furtamos da crítica. É da nossa essência. É da nossa função. Mas fugimos da prática do linchamento oportunista, calhorda e metido a besta. Assim como fugimos da pieguice. Ou pelo menos do excesso dela.

Desde nossa primeira edição, em julho de 2007, defendemos o direito de demonstrar paixão e emoção no que fazemos e na maneira como olhamos para o Brasil. E, como já estava registrado no nosso número 1, isso passa bem longe de qualquer tipo de ufanismo.

Por tudo isso, trazer as Olimpíadas para o Rio nos encheu de emoção. A vitória conseguida na Dinamarca provocou alegria e entusiasmo. O discurso do presidente da República foi de encher os olhos. Tanto a redação quanto sua interpretação. Pura emoção. Os vídeos feitos por Fernando Meirelles e seus parceiros foram de absoluta e notória competência. Todo o trabalho foi de emocionar.

Agora, a hora, mais do que nunca, é de mãos à obra. Há muito que planejar, muito que trabalhar. A nossa imagem lá fora nunca foi tão positiva. Precisamos melhorá-la aqui dentro e, para isso, é preciso, de um lado, trabalho e, de outro, boa vontade. O Brasil precisa gostar mais do Brasil.

Entre as várias entrevistas que foram feitas nos momentos em que antecederam o anúncio da escolha do Rio como sede das Olimpíadas de 2016, uma chamou a atenção. Um jornalista de língua inglesa, perguntado pela repórter brasileira sobre qual seria a cidade escolhida, respondeu de imediato: Rio de Janeiro. Por quê? “Well… everybody loves Brazil!”

Em tempo: para não pensarem que nós dois estamos ficando loucos por vermos as coisas de uma forma um pouco diferente da maioria dos nossos colegas da mídia, reproduzo abaixo trecho da coluna do professor Antonio Delfim Netto publicado na “Folha” desta quarta-feira. Sob o título “Virando a página”, escreve este respeitado economista, que foi ministro no regime militar e pode ser chamado de tudo, menos de perigoso vermelho e petista xiita:

“Creio que podemos deixar para trás o diário da crise e voltar as atenções para uma nova agenda de desenvolvimento que se abre à nossa frente.

Há uma conjunção de fatores, internos e externos, oferecendo ao Brasil a oportunidade de recuperar o desenvolvimento e manter um ritmo de crescimento de 6% ou 7% do PIB ao ano nas próximas duas décadas.

Ao contrário da maioria dos países, estamos chegando ao final do ano sem queda do PIB e já entramos em 2010 crescendo a uma taxa anual de 4,5% (…).

Está bom assim ou, como costumam dizer, ainda é cedo para comemorar?

Para Barros e Silva

Como bem sabem os leitores mais assíduos deste Balaio, jamais respondo aos ataques que recebo neste festival de destruição de reputações em que se transformaram alguns espaços da blogosfera em guerra permanente uns contra os outros. Não é minha praia, não gosto disso. Cada um que escreva o que quiser e seja responsável por suas palavras.

Mas vou abrir uma exceção para contestar Fernando de Barros e Silva, um colega que respeito, foi meu editor, mas cometeu um pequeno engano ao me citar em sua coluna de terça-feira na “Folha”, que só li hoje ao voltar de viagem.

“Palocci, Gushiken, Duda Mendonça, Silvinho Pereira, Frei Betto, Ricardo Kotscho _ todos os que aparecem ao redor de Lula de alguma forma fizeram água”, escreve ele a certa altura, ao comentar o filme “Entreatos”, documentário de João Moreira Salles que mostra personagens da campanha presidencial do segundo turno de 2002.

Como assim fizeram água? Cada um dos citados deixou o governo por motivos diferentes. No meu caso, pelo menos, posso garantir que aconteceu exatamente o contrário: minha vida pessoal, pessoal e profissional só melhorou muito de lá para cá. É verdade que a comunicação do governo também… Por isso, costumo dizer a meus velhos amigos que continuam lá: minha saída foi boa para os dois lados.

Foi exatamente por razões pessoais e familiares que deixei o cargo de secretário de Imprensa do governo Lula, no final de 2004, como sabem todos os jornalistas que conviveram comigo em Brasília, inclusive os da “Folha”.

Nos últimos cinco anos, não só não tive motivos para fazer água como não posso me queixar da vida: como profissional autônomo, além do meu Balaio aqui no iG, onde tenho contrato até 2011, escrevo reportagens para a revista “Brasileiros” e faço palestras pelo Brasil inteiro para todo tipo de empresas e instituições.

Escrevi mais dois livros (lançados pelas editoras Companhia das Letras e Ediouro, muito respeitadas no mercado). Ganhei mais dois premios (fui um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados, em eleição direta, com o Troféu Especial da ONU de Direitos Humanos, em 2008, e recebi o TopBlog 2009, na categoria política).

Fiz também trabalhos jornalísticos para diversas grandes empresas (entre outras, O Globo, TV Globo, Bradesco, revista Globo Rural, DM9DDB, Itaú Cultural), além de ser conselheiro (não remunerado, como todos os outros) da Associação Brasileira de Imprensa.

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
13/10/2009 - 15:11

Chuva no feriadão: pescador afogado e jeepeiros atolados

Tarde de terça-feira em São Sebastião, no belo litoral de norte de São Paulo. O feriadão acabou, mas a chuva continua sem dar trégua, o mar muito agitado, as ruas ficando desertas. Como ainda tenho algumas coisas para consertar na minha casa, vou ficando.

Nem os jornais de São Paulo encontrei na banca. Na manchete do jornal da cidade, o Imprensa Livre, um resumo da situação: “Mau tempo tumultua retorno dos turistas e assusta moradores do Litoral Norte”.

Para quem gosta de notícia ruim, o jornal tem para todo gosto. As de maior impacto, para mim pelo menos, nunca serão manchete da mídia grande, mas por aqui causam bochicho. Dão conta de um pescador que morreu afogado e um grupo de jeepeiros de Jacareí que ficou atolado na Estrada dos Castelhanos, em Ilhabela.

Sou do tempo em que o mar não tinha segredos para os pescadores, que sabiam se ele estava bom para peixe ou perigoso para nadar, e jeepeiros costumavam ajudar a desatolar os carros dos outros.

Os tempos mudaram. Em Ubatuba, depois de alguns dias em alto mar, Josemar de Oliveira descarregou o pescado no mercado e foi com o irmão, que ficou na cabine comandando a embarcação, ancorar o barco na Baía de Itaguá, na noite de domingo.

No meio do trajeto, de apenas dez minutos, Josemar sumiu. Não chegou à outra margem. Seu corpo só seria encontrado por parentes na segunda-feira, nas areias da praia de Itaguá, no centro da cidade. Ninguém sabe o que aconteceu.

Segundo relatos de colegas e parentes ouvidos pelo jornal, “o pai e o irmão da vítima, ambos pescadores, estavam muito abalados com o acontecimento e ainda não conseguiram encontrar uma explicação para o afogamento de Josimar”.

Na Ilhabela, um comboio formado por mais de vinte jeeps vindos de Jacareí, que atolaram no meio do caminho, praticamente destruiu a Estrada dos Castelhanos, também no domingo.

Depois de cinco horas de trabalho duro, já de madrugada, funcionários da Defesa Civil conseguiram resgatar 23 pessoas, entre mulheres e crianças. Os jeepeiros ficaram no meio da neblina tomando conta dos seus carros e só sairam de lá na manhã de segunda-feira, quando foram desencalhados pela Associação dos Jeepeiros de Ilhabela.

A notícia boa estava no caderno de esportes: “Palmeiras é goleado e perde chance de ampliar vantagem na liderança”.

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
11/10/2009 - 11:55

45 anos de vida de repórter em semana agitada

Os assuntos mais comentados

Numa semana bastante agitada, em que passei mais tempo lendo e liberando comentários do que escrevendo textos novos, senti na pele a importância da internet para o debate político e a crescente radicalização de posições, de um lado e de outro.

Olimpíada, MST, imagem do Brasil no exterior, qualquer tema serve para extravazar um crescente sentimento de intolerância com quem pensa diferente. Fico pensando como será em 2010 quando começar para valer a campanha eleitoral.

Mesmo sendo xingado de chapa-branca e amigo do Lula, por uns, e de neoliberal e demotucano, por outros, não tenho o direito de me queixar da vida: é crescente o número de participantes no Balaio, e o número de comentários recebidos e publicados é a prova disso.

Apenas um post, o que trata da invasão do MST numa fazenda da Cutrale em Iaras, no interior paulista, recebeu quase o mesmo número de comentários (845), fora os muitos que fui obrigado a excluir, do que o total (912) de mensagens recebidas pelo conjunto de matérias publicadas pela Folha, o jornal de maior circulação do país, durante a última semana. Só os três assuntos mais comentados neste blog receberam mais de 1.600 comentários. Os números:

Balaio

MST: 845
Olimpíada e urubuzada: 436
Imagem do Brasil lá fora: 340

Folha

Olimpíada: 193
MST: 73
Enem: 42

Veja

Tensão em Honduras: 200
Olimpíada de 2016: 101
Yoani Sánchez: 30

***

O tempo corre. Ainda outro dia, ao me despedir de Brasília, após dois anos trabalhando no governo, o bom e velho amigo Jorge Bastos Moreno, chefão de O Globo em Brasília, montou uma bela festa em sua casa para comemorar meus 40 anos de carreira no jornalismo. Os jornalistas e políticos mais importantes de Brasília, Rio e São Paulo, estavam quase todos lá. Fiquei muito feliz.

Esta semana, em que completei 45 anos de vida de repórter, não teve festa nenhuma, e só fui me lembrar da data num almoço com outro amigo, o veterano jornalista Fausto Eduardo Camunha, meu primeiro chefe de reportagem na Gazeta de Santo Amaro, onde comecei, em outubro de 1964.

Num caso bastante raro na imprensa brasileira, este jornal semanal distribuído na zona sul de São Paulo continua sendo tocado pelo mesmo dono, o incansável Armando da Silva Prado Neto, de quem até hoje me orgulho de ser amigo.

Ao arrumar meu velho painel com credenciais de coberturas e crachás das empresas onde trabalhei, ou seja, quase todos os principais veículos da imprensa brasileira, impressos e eletrônicos, olhei para aquela cara de moleque da minha primeira carteira funcional da Gazeta de Santo Amaro, e me dei conta de quanto tempo passou.

Daqui para a frente, acho até melhor nem lembrar mais destas datas para não dar razão aos que para me ofender me chamam de velho jornalista. Sou mesmo, fazer o que?

Só fica velho quem está vivo, e assim pude testemunhar, neste breve período de 45 anos, saindo da ditadura para uma das maiores democracias do mundo, como o Brasil, queiram ou não os mais céticos, melhorou em todas as áreas, ficou de pé, devolveu a todos nós o orgulho de termos nascido aqui.

A propósito, alguns leitores lembraram esta semana de um velho provérbio árabe, aquele que fala “os cães ladram e a caravana passa”, muito oportuno para o momento que estamos vivendo.

Para o bem ou para o mal, nunca meus textos repercutiram tanto como na última semana, mostrando que o mais importante não é a vida de repórter que já ficou para trás, mas a que virá.

Enquanto vocês continuarem me lendo, continuarei escrevendo. Vivo disso. E agradeço a todos vocês por poder ganhar a vida até hoje só fazendo o que gosto, sem pedir licença a ninguém.

Um forte abraço e bom domingo a todos.

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
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