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Arquivo de agosto, 2009

31/08/2009 - 09:48

Sem crise, balaieiros promovem encontro nacional em SP

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Depois de muito tempo, abro o jornal e o computador na manhã desta segunda-feira e nem posso acreditar no que vejo: no papel e na internet, me deparo com um noticiário que não tem a palavra crise. Só se fala em eleições no Japão, futebol, pré-sal…

Em compensação, chegou uma bela mensagem da leitora Aliz Castro Lambiazzi. Então vamos aproveitar para falar de coisa boa. Aliz me lembra que hoje é o último dia para as inscrições de quem quer participar do encontro nacional dos balaieiros marcado para o próximo dia 11 de setembro, em São Paulo, quando este blog completa seu primeiro ano no ar. Para se inscrever, basta enviar um e-mail para a Aliz (o endereço abaixo é jornalizta com “z” mesmo por causa do nome dela):

jornalizta@gmail.com

Não sei se isto já aconteceu antes na blogosfera, mas o que me deixa mais contente é que a iniciativa foi dos próprios leitores que agora querem sair do mundo virtual e se conhecer pessoalmente. Eles que organizaram tudo. Apenas sugeri um bar aqui no centro de São Paulo para o nosso encontro (ver endereço no texto da Aliz).

No começo do ano, quando comecei a fazer a moderação dos comentários para excluir os ofensivos e evitar que este espaço se transformasse numa sala de bate papo inconsequente, como acontece em outros blogs, um grupo de leitores resolveu criar o Boteco do Balaio, uma filial deste blog abrigada no Google, onde surgiu a idéia do encontro nacional dos balaieiros. Para se inscrever, basta clicar Boteco do Balaio no Google ou na coluna da direita do blog, abaixo do perfil, onde estão meus sites preferidos.

Vamos deixar que a própria Aliz Castro Lambiazzi, que também é jornalista, conte esta história. Abaixo, a mensagem que ela me enviou:  

O encontro do encontro do encontro = Encontrão

Um encontro para celebrar tantos outros encontros. É assim que eu vejo a comemoração de um ano do Balaio, Kotscho.

O seu blog já chegou surpreendendo desde o começo. Claro, não poderia ser diferente _ afinal, seu trabalho sempre se destacou durante todos esses anos de carreira. Entre tantos motivos, há um muito especial: as características pessoais suas sempre implícitas em tudo o que faz. Ainda bem! Você é uma pessoa de caráter, ética e muito humana, e isso transcende em tudo o que realiza.

Certas coisas contagiam, e como escrever se torna mágica quando é feito com sinceridade e talento, transmite muito mais do que informação para quem está do outro lado, lendo. Sendo assim, o Balaio só poderia se tornar um “canal” tão diferente nesse mar infinito que é a internet. Temos muitos jornalistas famosos blogueiros, mas nenhum com a disposição que você tem ao receber e atender a todos igualmente, como faz com seus leitores.

E nesse papo todo de encontro, falemos sobre o primeiro, que ocorreu no dia 11 de setembro de 2008. Quando você postou o assunto que deu início a essa ferramenta de comunicação tão nova até então na sua trajetória, promoveu um encontro entre leitores da web, blogueiros, jornalistas, estudantes e tantos outros interessados no que você tinha pra dizer.

Para nós, jornalistas, significou muito, pois um blog do Ricardo Kotscho nos aproximaria muito mais do colega de profissão e ídolo. Mas o Balaio superou qualquer expectativa. Depois desse, surgiram encontros de blogueiros: um foi encontrando o blog do outro na sua área de comentários

E com esse jeito único de conduzir as coisas, foram acontecendo outros encontros dentro do Balaio, que mais parecia a sala da casa da gente. O encontro entre Simei com Enio com Everaldo com Robson com Aliz com Andrea com Cacá com Norma com Enrique com Thiago com Maurício com tio Maneco com Sampaio com Ivonete com Neide com Ademário com Rodrigo com Fábio com Vovó Vera com Giuliano com Zatonio com Ana Luíza e tantos e tantos outros que hoje formam o que chamamos de uma humilde filial do seu blog, o Boteco do Balaio – louco, livre, informal e eternamente grato por todos esses encontros que só aconteceram graças a você. Lá dentro daquela folia nós encontramos, todos os dias, razões para agradecer pelas amizades, pelos aprendizados, pela alegria e pelo apoio que surgem de tantas formas diferentes.

E como grandes encontros tornaram-se especialidade do seu espaço, eles vão muito além. O Balaio do Kotscho promove, todos os dias, a mistura, o debate e a interação entre São Paulo de tantos de nós – e tão sua – com Minas Gerais, Goiás,  Acre, Campinas, Rio Grande do Sul, São Roque, Estados Unidos, Japão e por aí vai. E isso só pra citar alguns dos paradeiros de seus mais fiéis balaieiros. Gente que, de outra forma, não conseguiria se encontrar.

Encontros e reencontros que não acabam mais. Nesse “balaio” todo, nós é que encontramos novas possibilidades com a Internet – um ambiente virtual que geralmente não rende muito no real, transformado pela proximidade que o seu blog promove instintivamente.

Foi como quando o Robson saiu lá de Campinas pra achar o Enio, que tinha sumido da rede há mais de um mês, causando grande preocupação. Eles passaram um domingo se conhecendo ainda mais, cara a cara, e tomando muita salineira.

Isso nos rendeu inesquecíveis histórias e sentimentos. E também quando a Ivonete enviou daqui de São Paulo ao Simei, lá no Acre, um livro que ele muito queria ler, comentado lá no Boteco. Ou quando o Enrique me fez tão terno convite para participar da comemoração de seu aniversário em uma pizzaria lá no Brás. Lembro que o reconheci de longe, mesmo sem nunca tê-lo visto, e passei horas deliciosas com esse amigo tão querido, antes apenas virtual e agora real, e toda a sua família.

E sensações indescritíveis assim também foram “descobertas” de outras formas. Por exemplo, quando os nossos queridos Vevé e Sampaio (Vevé, que já virou tema no Balaio, assim como Enriqueto e Simei) me fizeram uma grande surpresa: ligaram, lá de Goiás, pra falar comigo pela primeira vez e, ainda, de quebra, me puseram pra ouvir o Lula falando do palanque, numa visita que fez na cidade deles há pouco tempo.

Nunca vou me esquecer do alvoroço que esses dois causaram ao meu coração. Da mesma forma que Simei, quando me ligou do Acre, e Andrea, dos EUA, de repente, só pra dizer uns carinhos. E essa família que nasceu no Balaio e está se criando no Boteco é assim mesmo: um cuida do outro, nos buscamos, nos envolvemos. Esse meu “relacionamento” virtual com eles também já pulou para o real do telefone com o Robson, o Enio, a Ivonete… tudo farinha do seu balaio.

Então, Kotscho, diante disso tudo que eu detalhei aqui, e mais o que falta contar, digo que foi muito bem-vinda a idéia do Enio para esse Grande Encontro, o nosso Encontrão, em comemoração ao primeiro aniversário do blog que uniu a todos nós.

Veja só: em apenas um ano quanta coisa aconteceu! Isso merece comemoração mesmo, e de um jeito que quebre todos os paradigmas da virtualidade, como só o Balaio sabe fazer.

No Boteco já nutrimos esse sonho de nos conhecermos pessoalmente, e mais ainda em conhecer o “culpado” de todas essas alegrias: você. O aniversário do Balaio é a desculpa perfeita, a oportunidade ideal para mais esse encontro, que pra nós, leitores, balaieiros, botequeiros e admiradores uns dos outros, será grandioso. Nosso tão esperado Encontrão será uma pauta e tanto, você não acha? Material para uma reportagem recheada de sensações e satisfações, como você sabe fazer tão bem.

Então eu aproveito para estender esse convite aos seus leitores fiéis de uma vez por todas. Da turma do Boteco, Vevé e Sampaio já confirmaram presença, eles vêm de Goiás só para esse super evento; de Minas virá o nosso erudito Cacá; de Campinas, o Robson, seu grande fã e defensor; eu, claro (não perderia isso por nada), diretamente da terra do leiteee quennnnnnteee, São Roque. Ou seja, vem gente de longe para saborear desse momento único e tão desejado, portanto, não vejo motivos para que outros leitores seus não se animem.

Dia 11 de setembro, depois do expediente, no Espetinho, Cerveja & Cia (Rua. Canuto do Val, 41 – Santa Cecília, São Paulo), poderemos bebericar essa grande notícia que é o virtual invadindo o real em forma de amizade, de admiração e de espontaneidade – a la Balaio.

Pra nós, botequeiros e interessados que já enviaram e-mail, será a chance de um brinde merecido e muito desejado. O Encontrão é o reflexo de que, independentemente das diferenças partidárias e de opinião expostas nos comentários, somos gente de verdade que não tem medo de mostrar a cara e abrigar nos braços mais um amigo.

Um beijo

Aliz de Castro Lambiazzi


Aliz de Castro Lambiazzi
Jornalista / Mtb.: 47788

www.jornalizta.blogspot.com
www.texto-sentido.blogspot.com
www.nosolhosdequemve.blogspot.com
www.imortalizando.blogspot.com
www.poressesvagoes.blogspot.com

 


 
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Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
30/08/2009 - 10:33

As agruras de um cliente falando com o “sistema” da Net

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Assuntos mais comentados da semana

Antes de tratar do tema deste domingo, publico abaixo a relação dos três assuntos mais comentados na última semana neste Balaio, na Folha e na Veja, as duas publicações impressas de maior circulação no país.

 

Balaio

Trinta anos de PT: 391

A internet e o futuro dos jornais: 335

Hora de mudar de casa: 166

Folha

Senado/Sarney/Mercadante: 207

Palocci: 71

Dilma: 54

Veja

Roger Abdelmassih: 59

PT empalhado por Lula: 32

Lia Luft: 24

***

Deu tudo certo: água, luz, gás de rua, telefone, instalações diversas, todas as ligações e transferências feitas dentro do prazo combinado, na hora marcada. Ao mudar de casa esta semana, só um serviço deu mancada. O leitor ganha uma assinatura grátis do Balaio se me responder qual foi.

Fiz esta pergunta sobre o serviço que não funcionou a todos os amigos e parentes que encontrei pela frente neste sábado e, sem exceção, eles mataram a pau: “A Net, claro! Acertei?”. Ouvi histórias do arco da velha sobre este serviço de televisão a cabo, gente que passou semanas, meses para resolver um problema, foi ao Procon e apelou até à Justiça.

Liguei na segunda-feira para pedir a transferência do velho para o novo apartamento e fui muito bem atendido por uma funcionária. Até estranhei, e lhe dei a nota máxima quando fizeram comigo uma pesquisa sobre satisfação do cliente logo em seguida. Além da transferência de endereço, pedi apenas um ponto novo e ela me informou que nem precisaria pagar mais por isso. “Pois não, sim senhor, seu pedido já foi registrado no sistema”.

Foi a primeira de uma sem conta de vezes em que ouvi da Net a maldita palavra “sistema”, sem imaginar o que me esperava. A moça me informou que o técnico faria a instalação na sexta-feira, entre 12 e 18 horas, e ganhei um número de protocolo que mais adiante teria que repetir mil vezes, até já decorei: 00309013347438121.

Simplesmente não apareceu ninguém na sexta-feira, nem me deram uma satisfação. Liguei novamente para saber o que tinha acontecido e desta vez fui atendido por um rapaz que parecia meio nervoso: “O sistema está me informando que o seu pedido foi cancelado”.

Cancelado por quem, por que, como, perguntei-lhe. Mas isto o “sistema” não soube responder. O cara me alugou mais de uma hora no telefone para pedir todas as informações de novo e, ao final, quando eu já estava perdendo a paciência, informou-me que viria um técnico no dia seguinte entre 12 e 18 horas e outro entre 18 e 23.

Como assim? Por que já não fazem de uma vez tudo o que tem que ser feito para que eu não tenha que passar 11 horas em casa plantado à espera da Net? Segundo o “sistema”, só pode ser assim, e pronto e acabou.

Ao meio dia em ponto do sábado, apareceram dois solícitos técnicos que trabalham para firmas terceirizadas pela Net. Um deles, na verdade, me explicou que era quarteirizado. Com tantos intermediários entre a empresa, o cliente e o executor do serviço, começo a entender porque o “sistema” não funciona e deixa todo mundo furioso.

Eles também não souberam me explicar porque já não faziam tudo o que pedi de uma vez, mas resolvi não estragar meu fim de semana. Pelo menos a televisão da sala estava funcionando e eu poderia assistir ao jogo deste domingo entre o meu São Paulo e o Palmeiras dos genros.

Claro que não apareceu mais ninguém entre 18 e 23 horas. No sábado??? Nem pensar. Também não deram nenhuma satisfação e amanhã vou começar tudo de novo na minha batalha com o “sistema”. Não importa o nome do funcionário que te atende. Eles também não têm culpa de nada. Quem manda é o “sistema”.

Semana atípica

Às voltas com a mudança de apartamento,  tema de dois posts esta semana, fiquei sem assunto e sem tempo para o Balaio, mas mesmo assim não posso me queixar. Mais do que a quantidade de comentários, que se mantevce dentro da média, apesar das poucas atualizações, o que me deixou mais contente foi a qualidade das mensagens enviadas, com depoimentos fantásticos sobre mudanças de casa e de vida.

No começo do Balaio, eu pedi para não fazer moderação _ não apenas porque não pretendia censurar ninguém e queria deixar a área de comentários livre para cada um escrever o que bem entendesse, mas também porque não queria passar o dia inteiro escravo do computador;. Quando me pediram, no início deste ano, para fazer moderação e eliminar os comentários ofensivos de meia dúzia de cachorros loucos, pensei apenas no trabalho que iria me dar, mas não tinha outro jeito.

Pois posso garantir a vocês hoje que ler o que vocês escrevem me dá tanto prazer como publicar um post novo. Não são poucas as vezes em que os leitores não apenas complementam o que escrevi, como enviam textos priomorosos, melhores do que o original do blogueiro.

Foi o que aconteceu esta semana dezenas de vezes, mas recomendo especialmente a leitura de dois deles: a crônica “Minha derradeira mudança”, de José Ribeiro Júnior, enviada às 2:09 de sexta-feira, e os vários textos sobre o tema enviados por Salete Cesconeto de Arruda, o primeiro deles às 23:53 da quinta.

Se continuar assim, daqui a pouco posso só dar o tema e voces mesmos desenvolvem, escrevem o resto…

Encontro do dia 11

Os leitores deste Balaio são tão especiais que já criaram um espaço só deles no Google, o Boteco do Balaio, onde batem papo à vontade sem a interferência do blogueiro. Por iniciativa deles, foi marcado para o próximo dia 11 de setembro, uma sexta-feira, quando o Balaio completa um ano no ar, um encontro dos leitores de todo o país. Vai ser aqui em São Paulo, depois do expediente. Quem estiver interessado em obter mais informações é só clicar no Boteco do Balaio entre os preferidos aqui ao lado no blog ou direto no Google.  

Em tempo: já está no ar o blog do programa “Papo de Mãe”, uma produção independente que estréia dia 22 de setembro na TV Brasil: www.papodemae.com.br

O programa será apresentado às terças-feiras, no horário das 18h30, com reprises ao longo da semana. Apresentação e direção de Mariana Kotscho e Roberta Manreza.

  

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
29/08/2009 - 11:39

Maria Maluca, passarinhos, obras na rua, a nova vida boa

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Fui dormir tarde e acordei com os alucinados gritos dela neste sábado de muito sol em São Paulo, meu primeiro dia na nova casa. Quem será esta figura de cabelos desgrenhados, trapos cobrindo o corpo, idade indefinível, que caminha pelas ruas do Jardim Paulista, o dia todo todo dia blasfemando numa língua estranha que ninguém entende _ e ela, por sua vez, também não entende ninguém, apenas grita?

Logo de manhãzinha, ao ir até o bar da esquina para tomar café com pão e manteiga na chapa, fui atrás da sua história. Cada um conta sua versão, como acontece com estas pessoas sem biografia conhecida. Ninguém sabe ao certo seu nome, chamam-na de Medusa ou Toninha, mas todos já descobriram que se a tratarem por Maria Maluca, sai gritando mais alto ainda e ameaça bater em todo mundo.

Nunca bateu em ninguém, apenas faz barulho. Contaram-me vários novos vizinhos que a cena se repete há mais de dez anos _ a patética figura subindo as ladeiras até a avenida Paulista pela manhã e voltando à tarde para a alameda Lorena, onde agora estou morando.

Dorme em qualquer canto quando se cansa de berrar, sozinha no mundo, senhora do seu destino cruel. Até alguns anos atrás, tinha um companheiro, o Gouveia, um mulambo que a acompanhava sempre de capacete amarelo, empurrando um carrinho de feira com todo seu patrimônio, mas ele um dia desapareceu da paisagem.

Não demorei a descobrir que mudei para um lugar mais barulhento, embora tão próximo do endereço antigo. Quando a mulher indignada finalmente silenciou, no meio da madrugada fui acordado pelos passarinhos e me imaginei no sítio de Porangaba. Só que estes pássaros urbanos pareciam ensandecidos como se estivessem sendo perseguidos por um disco voador.

Assim que eles se acalmaram, chegaram os bravos homens da Comgas empunhando suas britadeiras, e não teve outro jeito: fui bem cedo tomar o primeiro café no meu novo bar da esquina. Já a mil por hora, um taxista não parava de contar piadas sobre gaúchos, fregueses antigos passam perguntando pela feijoada e todo mundo só fala do jogo de domingo entre São Paulo e Palmeiras. Ninguém presta atenção no noticiário que continua rolando na televisão.

Minha mulher, que ficou até as quatro da manhã tentando dar uma ordem na bagunça da mudança, não ouviu nada, continuou dormindo como um anjo. Mal teve tempo de descobrir onde estava ao acordar. No meio da manhã, logo chegaram os netos _ e a rotina novamente se instalou na casa como se tivéssemos morado aqui a vida toda. Vida que segue.

       

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
26/08/2009 - 10:10

Hora de fazer a mudança, tempo de lembrar da vida

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Pessoal,

só agora, mais de dez da noite de quinta-feira, arrumei um tempinho pra moderar os comentários. Como conto no texto abaixo, estou de mudança, com a vida de pernas pro ar. Mas logo tudo volta ao normal. Até sábado, espero encontrar um canto arrumado na casa nova para atualizar este blog. Enquanto isso, voces poderiam contar como foram as mudanças de casa na vida de cada um, a exemplo do que vários leitores já fizeram com belos depoimentos.

Abraços,

Ricardo Kotscho

Tem gente que não gosta de mudar de casa porque dá muito trabalho tirar tudo das estantes, das paredes e dos armários, coisas que a gente fica guardando e nem lembra, separando o que fica e o que vai para o lixo, mas estou gostando muito destes dias de arrumação geral.

Até que fiz poucas mudanças de casa na minha vida adulta. Quando casei, fui morar literalmente no Paraíso (é o nome de um bairro aqui de São Paulo). De lá a família mudou para Bonn, na então Alemanha Ocidental (havia ainda duas Alemanhas), onde fui correspondente do Jornal do Brasil e assim conheci a Europa dos meus pais fazendo reportagens.

Voltamos para morar no Butantã, e lá passamos trinta belos anos no casarão que construímos (tinha até horta, pomar e galinheiro no tempo em que as filhas eram pequenas).

Esta semana chegou a hora de mudar de novo. Em 2005, um ciclo da vida tinha se encerrado. Com a morte de minha mãe, colocamos a casa à venda e fomos morar provisoriamente num apartamento alugado no Jardim Paulista, onde tinha passado parte da infância e agora viviam minhas duas filhas, a poucas quadras de distância.   

A idéia era ficar por aqui mesmo, um pedaço de São Paulo em que ainda dá para fazer quase tudo a pé, como numa cidade do interior, mas demorou bem mais do que a gente esperava para conseguirmos vender a casa e mais ainda comprarmos um apartamento do nosso gosto.    

Achamos no final do ano passado um bem pertinho de onde moramos. Estava meio detonado, pedindo uma reforma geral, coisa que me apavora, mas minha mulher gosta. Por coincidência, o jovem que cuidou da obra, logo descobrimos, era filho do engenheiro que tinha construído a nossa casa.

Ficou tudo uma beleza, do jeito que a gente queria. Como o novo fica a uma apenas quadra do apartamento velho, pela primeira vez pude acompanhar o dia a dia de uma obra e até dar uns palpites. Dizem que reforma dá até separação de casal, mas no nosso caso foi um belo trabalho de parceria, nos entendemos bem até nos mínimos detalhes.

Agora, que já está tudo encaixotado, só esperando o caminhão da mudança, marcado para sexta-feira, fico olhando para as paredes e estantes vazias do escritório.

Lá se vão para a casa nova, que espero seja a última, milhares de fotografias e filmes, o convite de casamento dos meus pais (em 1945, bem quando a guerra tinha acabado de acabar, oferecendo um café da manhã após a cerimônia), os originais dos meus 19 livros, recortes das mais de três mil reportagens que já escrevi, crachás de empresas e das coberturas que fiz pelo mundo inteiro (entre elas, as da morte de dois Papas e duas Copas do Mundo, passando pela Campanha das Diretas, corridas de Fórmula-1, eleições aqui e lá fora), diplomas de premios, troféus e medalhas, faixas e camisas do São Paulo campeão, uma vasta coleção de bonés, desenhos das filhas e um esboço de Oscar Niemeyer, gravuras do Zélio, um manuscrito da Elis Regina votando em Dom Paulo, Dom Hélder e em mim no Premio Carlito Maia, em 1982, um poster da campanha presidencial de 1989, na ilha de Alcântara, e uma velhíssima máquina de escrever Remington, que ganhei de presente naquele ano quando completei 25 anos de jornalismo (em outubro agora, já vou fazer 45, o tempo passa…) _ todas estas pequenas coisas, enfim, que resumem a vida de qualquer um de nós.

Esta Remington é especial, como todas as outras inutilidades que a gente vai carregando de um lado para outro. Já na reta final da campanha para presidente de 1989, a primeira eleição direta desde o golpe de 1964, fomos almoçar num restaurante no interior de Minas que também vendia velharias. 

Entre elas, estava esta máquina de escrever, já meio enferrujada, que eu logo cobicei, mas meus colegas não me deixaram levar porque ainda tínhamos muitos comícios pela frente. Como carregá-la?

Já tinha até me esquecido da dita cuja, quando no final da festa no Bar Avenida, poucos dias antes da eleição, o então candidato Lula e a turma da campanha subiu ao palco para me entregar o presente. Eles tinham comprado a máquina sem eu saber.

A relíquia parece que pesa uma tonelada e não tem indicação de modelo _ deveria ser o único fabricado nesta época imemorial. Foi comprada na Casa Pratt e nela se lê: “Made at Ilion, N.Y., U.S.A”.

Fico pensando como e quando chegou ao Brasil, quem a comprou primeiro, por quantas mãos já passou, o que nela foi escrito. Quando chegou para mim, já não escrevia mais, mas foi a única máquina que guardei comigo. Minha mulher deu um trato nela e agora vai ficar na sala da casa nova ao lado dos retratos da família.

Bons tempos, aqueles… Bons tempos, esses… Os tempos da vida dependem de cada um de nós, não das circunstâncias do momento. Tudo passa, eu sei, mas o caminho percorrido fica na nossa alma, lembrança revivida cada vez que se vai mudar de casa. Ontem só não foi melhor do que poderá ser amanhã para quem nunca perde a fé na profissão de jornalista, nos brasileiros e na vida.  

         

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
25/08/2009 - 10:53

Trinta anos de história do PT contra cinco minutos na TV

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Quem vai ficar com o apoio do PMDB, quer dizer, seus cinco minutos na televisão e seus palanques na campanha de 2010? A resposta a esta questão está na raiz de toda a crise política que se arrasta desde o início do ano e culminou na semana passada com a salvação de José Sarney pelo PT. Vai valer a pena?

No mesmo dia, dois senadores, Marina Silva e Flávio Arns _ por razões bem diferentes, diga-se _ anunciaram que deixariam o partido. No dia seguinte, Aloizio Mercadante foi convencido por Lula a revogar sua renúncia irrevogável à liderança no Senado para não aumentar ainda mais a crise nas relações entre o partido e o governo.

Diante de mais uma guerra interna desencadeada a partir deste episódio, os analistas de sempre repetiram a previsão feita outras vezes ao longo das últimas três décadas: é o fim do PT. Tantas vezes anunciada nestas últimas três décadas, a morte do PT é desmentida eleição após eleição e nas pesquisas, inclusive as mais recentes, que colocam o partido em primeiro lugar na preferência dos eleitores brasileiros.

É como diz o leitor Simei de Almeida, em comentário enviado na tarde de segunda-feira: “Antes não prestava pelo que era, agora não presta pelo que não é mais”.

Às vésperas de comemorar 30 anos, no começo do ano eleitoral de 2010, parlamentares, dirigentes e militantes petistas vivem o eterno dilema de ser ou não ser governo quando chegam ao poder, do pequeno munícipio à Presidência da República. Tem sido assim desde que o primeiro petista foi eleito. Muitos foram ficando pelo caminho, abrindo dissidências e até novos partidos, que nunca emplacaram.

No centro das discussões, desde o primeiro Encontro Nacional do PT, está sempre a política de alianças, depois que o partido descobriu que ninguém consegue se eleger nem governar sozinho.

Qual o preço e os limites destas alianças? Foi mais uma vez em torno desta questão que a jornalista Marilda Varejão, minha velha amiga e petista histórica, desencadeou um grande debate entre militantes, a partir do momento em que comunicou a mais de cem pessoas das suas relações que estava deixando o partido.

“Com imensa dor, mas com igual convicção, anexo a carta que estou levando hoje ao PT local. Sem mais, abraços, Marilda Varejão”, escreveu ela, e anexou a carta que reproduzo abaixo.

“Petrópolis, 23 de setembro de 2009

Ao Partido dos Trabalhadores

Há muito – mais precisamente desde quando, no “mensalão”, vi rolarem por terra ídolos como José Dirceu e Genoíno – venho pensando em fazer o que agora faço. Entretanto, movida pelo desejo de separar o joio do trigo e, de alguma forma, ajudar a reconstruir o PT local, mantive-me fiel ao partido, tendo exultado quando a cidade elegeu Paulo Mustrangi como prefeito.

Entretanto, apesar de Lula declarar que petista é como flamenguista, que permanece fiel ao time independentemente das derrotas, creio que para tudo nesse mundo há um limite. E não suporto mais ver esse homem – que acompanhei com ardor e paixão desde a greve dos metalúrgicos de São Bernardo do Campo, SP, em maio de 1978 –, em nome da “governabilidade”, jogar por terra a própria biografia e os ideais de tantos quantos depositaram nele a responsabilidade de construir um Brasil mais justo e mais digno.

O mais lamentável em tudo isso é que, apesar da decepção, não nego sua capacidade e louvo seus feitos: é mérito seu mais de 35 milhões de brasileiros terem saído da linha de pobreza e nosso país hoje ser conhecido e respeitado em todo o mundo. Mas nem por isso Lula pode ser maior que o próprio PT nem fazer com que petistas históricos, como o senador Aloizio Mercadante se tornem alvo do achincalhe nacional.

Por tudo isso, em caráter irrevogável (irrevogável mesmo!), venho solicitar minha desfiliação partidária. Solitária em minha dor, saberei sempre a hora de estar ao lado das pessoas de bem que insistem na luta, como por exemplo o ministro Patrus Ananias. Mas me resguardo e estou a salvo dessa indigesta pizza que tentam jogar goela abaixo dos menos incautos.

Atenciosamente,

Marilda Varejão (título de eleitor 228802690159, zona 0085 seção 0018 cadastro 2407706)

Os amigos da Marilda se dividiram ao meio, apoiando ou discordando da sua decisão, e o debate continua nesta terça-feira pela internet.

Zélio Alves Pinto, o grande cartunista e artista plástico, escreveu: “Tá certo, Marilinha: concordo, mas discordo, porque contra fogo só fogaréo, senão acabam queimando a gente e, cansado de ser gato escaldado, eu fico. Não tenho carteirinha, apenas fé. E é nessa que eu vou. Apoio Marilda, você, e digo-lhe mais, até a Marina, mas não dá pra votar nela (vão fazer picadinho da santa), mas fico. Me desculpa, viu? Todo carinho, Zélio”.

No final da noite de ontem, ao ler a mensagem de Zélio, resolvi participar também do debate em que escrevi para os amigos o que penso a respeito deste assunto:

“Pessoal,

Não queria entrar nesta conversa, mas faço minhas as palavras do mestre Zélio, sem tirar nem por. É por isso que gosto sempre de ouvir os mais velhos…

Estou que nem ele: nunca entrei em partido nenhum, mas não perco a fé. Se não entrei, não tenho nem como sair…  Como dizia outro velho amigo, o Carlito Maia: não sou do PT, mas o PT é meu partido. É e será. O resto é muito pior.

Qual PV vocês preferem: o PV do DEM e do Sirkys, no Rio, ou o PV do PSDB e do Penna em São Paulo? Coitada da minha amiga Marina…

Entre o Gabeira e o Roberto Freire, linhas auxiliares dos demo-tucanos, gente sem projeto e sem compromisso com o país, fico com o Lula, o melhor presidente (para a maioria da população) que este país já teve, desde Getúlio Vargas.

Daqui a 100 anos, quando falarem do Brasil, só vão lembrar destes dois.

Abração a todos,

Ricardo Kotscho”.

Com a palavra agora, os leitores do Balaio.

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
23/08/2009 - 10:11

O marido de Lina Vieira na internet e o futuro dos jornais

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Caros leitores,

Antes de tratar do assunto deste domingo, como sempre faço desde a estréia deste blog, publico abaixo a relação dos três assuntos mais comentados da semana no Balaio e nas duas publicações impressas de maior circulação no país (Folha e Veja):

Balaio

Lula e o anjo da guarda: 547
A próxima crise: 209
Aposentadoria instantânea: 109

Folha

Sarney: 135
Dilma: 114
Senado: 83

Veja

Igreja Universal: 148
Dilma e a sucessão presidencial: 27
Sistema de saúde dos Estados Unidos: 10

***

“Você não vai comentar o fato de que o marido da Lina (ex-Receita) foi ministro da Integração Nacional durante um ano no governo FHC? Aguardo o seu comentário!”, escreveu a leitora Suely Gomes, em mensagem enviada ao Balaio na sexta-feira, 21, às 14:04.

Dezenas de outros leitores fizeram-me a mesma cobrança ou simplesmente resolveram contar eles próprios o que sabiam sobre Alexandre Firmino de Melo Filho, o marido de Lina Vieira, que teve papel de destaque no longo depoimento prestado esta semana pela ex-secretária da Receita Federal, no Senado, sobre um presumível encontro que teria mantido com a ministra Dilma Roussef no final do ano passado.

Na internet é assim: o leitor cobra e pauta o blogueiro, com ponto de exclamação e tudo. Quando não é atendido, trata de contar a história que não encontrou na grande imprensa.

O leitor que se identifica como CB (por que não dar o nome completo? Não entendo isso …) escreveu às 16:01: “A sra. Lina Vieira, que acusa a ministra Dilma, é casada com Alexandre Firmino de Melo Filho, que foi ministro interino do Ministério da Integração Nacional de 20/08/1999 a 17/07/2000 no governo de FHC. Precisa dizer mais… Essa oposição não vale é nada. Querem o poder de qualquer jeito. Não é oposição séria. Seus políticos são bandalhos. Se entrarem no poder, nada vai mudar”.

“Ireneth Maria Dias Weiler, a chefe de gabinete de Lina Vieira, aparece no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) como doadora da campanha de Fernando Henrique Cardoso para presidente da República em 1998″, acrescenta o leitor Carlos, às 19:17.

Só fui ler algo sobre o assunto na edição de sábado da Folha (o depoimento foi dado na terça-feira), uma nota de apenas sete linhas sob o título: “Passado: Marido de Lina foi ministro da Integração de Fernando Henrique”.

Muito mais informações sobre este personagem o leitor poderá encontrar aqui no Balaio nos comentários enviados neste domingo pelo leitor Simas Mayer e ao longo da semana por vários outros.

O papel do marido de Lina Vieira nesta história pode nos ajudar a entender melhor por que só agora, nove meses depois, ela deu entrevista à Folha para falar do tal encontro que teria havido, e que a ministra Dilma Roussef nega, para tratar das investigações da Receita sobre a família Sarney.

Se não fossem as informações sobre as relações de Alexandre Firmino de Melo Filho com o consórcio PSDB-DEM, que começaram a pipocar na internet em diferentes sites e blogs (ver mais abaixo), ninguém ficaria sabendo da sua existência.

Além das suas implicações políticas na disputa sucessória de 2010, o episódio Lina-Dilma revela a diferença de tratamento dado ao assunto na internet e na velha mídia.

A este respeito, vale a pena ler o interessante artigo publicado esta semana no Observatório da Imprensa pelo jornalista Sandro Vaia, que foi meu colega no Estadão, onde chegou depois a diretor de redação, quando começamos a trabalhar juntos na empresa como repórteres nos distantes anos 1960.
Sob o título “Os jornais e a cacofonia da internet”, depois de afirmar logo na abertura que “é dado como certo que os jornais impressos vão morrer”, com o que nós dois não concordamos, Sandro Vaia escreve:

“Um certo clima de euforia inconsequente toma conta de setores da blogosfera que imaginam que está em andamento o processo de tomada do poder pelos “democratizadores” da informação em razão da constante perda de audiência por parte dos grandes jornais”.

Desconheço este clima de euforia, assim como o processo de tomada de poder pelas novas mídias, mas é certo que os grandes jornais estão perdendo circulação, não só no Brasil, mas no mundo inteiro.

Já escrevi aqui mesmo no Balaio que não acho a internet culpada pela “perda de audiência dos grandes jornais”, como disse Vaia. Para mim, o que está tirando público dos jornalões de papel não é a concorrência dos monitores, mas o conteúdo de baixa qualidade, a indiferenciação dos produtos do pensamento único, que não sabem mais como para atender a freguesia cada vez mais exigente e participativa.

No ponto central do seu artigo, Sandro Vaia faz uma série de perguntas que já embutem as respostas _ do seu ponto de vista, claro, mas que não são as minhas:

“A pergunta instigante é esta: que fariam os blogueiros comentadores sem ter o que comentar? Que condições tem a maioria _ senão a totalidade _ deles de apurar e publicar informações acabadas, completas, críveis, influentes? Qual é o nome de um site ou um blog que não esteja ligado a uma corporação jornalística estabelecida e que tenha originado uma só informação exclusiva e importante que tenha mexido com a ordem das coisas?”

Já que ele perguntou, respondo: tem, sim. Este Balaio aqui, por exemplo, um blog que não é ligado a nenhuma corporação jornalística estabelecida e tem publicado entrevistas, reportagens e informações exclusivas nestes 11 meses em que está no ar.

Mexer com a ordem das coisas não é meu objetivo, mas vou dar dois exemplos recentes de matérias publicadas aqui primeiro. Na semana passada, em entrevista exclusiva com Marina Silva, o Balaio antecipou sua decisão de trocar o PT pelo PV e as linhas centrais do discurso da sua provável candidatura à presidência da República.

Neste final de semana, a revista Veja publica entrevista com Carlos Augusto Montenegro, o homem do Ibope, falando sobre as dificuldades que Lula terá de eleger o sucessor, que, segundo ele, será José Serra, repetindo os mesmos argumentos da conversa que tivemos dois meses atrás contada aqui no Balaio.

Em menos de um ano, o único funcionário deste blog já rodou mais pelo país para fazer reportagens do que qualquer outro dos grandes jornais. Já foram publicadas entrevistas exclusivas com quatro presidenciáveis _ Aécio, Ciro, Dilma e Marina. Neste blog os leitores também encontraram informações exclusivas sobre o dia a dia da luta do vice-presidente José Aelncar contra o câncer.

Falo por mim, mas sei que tem muitos outros colegas na blogosfera fazendo o mesmo trabalho. De acordo com os números do Google, só o Balaio registra 43.500 links de blogs de todo o país. Se cada um deles tiver apenas cinco leitores, já dá a circulação diária do Estadão, por exemplo.

O mundo da informação mudou, caro Sandro Vaia, só os jornalões ainda não perceberam. Mas concordamos num ponto do que você escreveu ao final do artigo: “(…) para as sociedades abertas, pluralistas e democráticas, eles (os jornais) ainda são indispensáveis”. Cabe a quem os dirige descobrir o que fazer para que isso se torne realidade.

***

Além dos leitores do Balaio, vários blogs trataram do papel do marido de Lina Vieira no bate-boca que a envolve com a ministra Dilma Roussef. O amigo Washington Araújo, do Rio, me chamou a atenção para o que escreveu José Sergio Rocha no blog “Quem é vivo sempre aparece” (ver link e reprodução abaixo). Este tipo de comentário, que reproduzo abaixo, você não vai ver em nenhum dos jornais ou agências citados pelo Sandro Vaia em seu artigo como fornecedores únicos de matéria prima para a blogosfera.

http://quemevivo.blogspot.com/2009/08/tem-gato-na-tuba-do-depoimento-de-lina.html

“Jabuti não sobe em árvore. Se subiu, só se alguém botou.

Quem assistiu pelo menos parte do depoimento da ex-secretária da Receita Federal, Lina Vieira, na Comissão de Constituição e Justiça, com transmissão pela TV Senado e Globonews, vai lembrar que um cidadão constantemente sussurrava uns bizus no ouvido da moça. Isso é normal, coisa de assessor. Só que o cara não parava quieto.

Essa vontade de aparecer a qualquer custo tem seu preço. No meio de uma pergunta do Mercadante, o assessor lá estava cochichando nas orelhas da Lina. O bigodudo petista, que já estava meio enfurecido, deu-lhe um esporro, pois estava atrapalhando o trabalho da comissão.

Pois é, o cara chamou tanta atenção que foram descobrir quem era. Não era assessor coisa alguma. Era o marido da Lina.

Até aí, tudo bem. É que nem um velho anúncio do Gelol: não basta ser marido, tem que participar.

Ontem, lendo o blog Conversa Afiada, de Paulo Henrique Amorim, deparei-me com a seguinte informação: o marido da Lina, publicitário e marqueteiro no Rio Grande do Norte, chama-se Alexandre Firmino de Melo Filho e foi (pasmem) ministro interino da Integração Nacional durante quase um ano (entre agosto de 1999 e julho de 2000), no governo de Fernando Henrique Cardoso.

Ou seja, mais um episódio da novela “Como é sujo o jogo da política”. Foi, portanto, encenação pura aquele depoimento sobre um encontro que a depoente teria tido com Dilma Rousseff numa data que não soube precisar – nem hora, nem dia, nem semana e nem mesmo o mês em que aconteceu.

A ex-secretária da Receita parecia firme, sincera e convincente, apesar desses “detalhes”. Mas o maridão foi arroz de festa e estragou tudo.

Alguém leu essa notícia em qualquer grande jornal?

Agora, imagine o oposto. Vamos que outra senhora, dona Maria das Couves, ocupasse o mesmo cargo num futuro governo tucano.

Foi demitida por esse governo, tomou ódio de alguém desse mesmo governo e, quando surgiu a oportunidade, resolveu abrir a boca, sendo assessorada pelo marido que, antes daquele governo, foi ministro do PT.

Não seria desmascarado logo que entrasse na sala da comissão?

Tem gato na tuba desse depoimento. Na caixinha de música, o coral Garganta Profunda canta essa pérola do Braguinha”.

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
20/08/2009 - 10:31

Técnico Ricardo Gomes é a grande revelação do 1º turno

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Aos leitores,

o post abaixo foi publicado no blog na quinta-feira, 20.8, mas só hoje entrou na home do portal. Havia um problema de instabilidade no sistema do iG, que deixou o Balaio fora do ar durante a maior parte do tempo esta semana. Fui informado neste sábado que o sistema voltou ao normal. Escrevo post novo amanhã, domingo.

Atualizado às 21:05 de 22.8  

Atualizado às 18:05 de 20.8

***

Nesta passagem do primeiro para o segundo turno do Brasileirão, um nome que ninguém poderia imaginar até poucas semanas atrás se destaca como a grande revelação do campeonato.

Não é nenhum jogador: é o técnico Ricardo Gomes. Numa sensacional arrancada, ele pegou um São Paulo decadente e desfigurado, e o levou a vice-líder, apenas um ponto atrás do Palmeiras.

Após a derrota para o Atlético Mineiro, que deixou o tricampeão brasileiro em 15º lugar, a um ponto da zona de rebaixamento, são agora nove jogos invictos, sete vitórias seguidas, com o 1 a 0 contra o Fluminense, golaço de Richarlyson, na noite desta quarta-feira, no Morumbi.

Sem ninguém acreditar nele, nem eu, a não ser o presidente Juvenal Juvêncio e seu fiel guardião Marco Aurélio Cunha, sem carisma, falando baixo e pouco, Ricardo Gomes chegou de mansinho e, em pouco tempo no comando, voltou a fazer do São Paulo um time de futebol.

Com a difícil missão de substituir Muricy Ramalho, o técnico tricampeão que virou ídolo da torcida como Telê Santana, o ex-zagueiro da seleção brasileira dos anos 90, que veio da França sem nenhum título importante na carreira de treinador, rapidamente ganhou e devolveu a confiança aos jogadores.

Este foi, a meu ver, o seu maior mérito. Além de ganhar, o São Paulo voltou a jogar um futebol vistoso, rápido, criativo, que dá gosto de assistir.

Ricardo Gomes pode agora comemorar a rápida inversão de papéis. Enquanto o Palmeiras do meu amigo Muricy vem caindo, há quatro jogos sem ganhar, o nosso time é a grande sensação deste início de segundo turno _ outra vez, um dos favoritos ao título, que seria o hepta ou o tetra consecutivo, como preferirem os adversários.   

Futebol, todos sabemos, é acima de tudo paixão. Mas o que vale mesmo é bola na rede, são os resultados.

Não sei de onde o presidente Juvenal Juvêncio tirou esta idéia de contratar Ricardo Gomes, surpreendendo a todos, mas agora ele tem todo o direito de cobrar os méritos pela sensacional virada do São Paulo no Brasileirão.

Como diria o nosso ex-presidente FHC, esqueçam tudo o que escrevi sobre a contratação de Ricardo Gomes e as críticas que fiz à diretoria do São Paulo. Eles estavam certos e eu, mais uma vez, errado.

Em tempo:

1. O calendário informa: ainda faltam 11 dias para agosto acabar.

2. Antes que me cobrem, explico: hoje escrevi sobre futebol e não sobre política porque já publiquei diversas matérias sobre as variadas crises desde a semana passada, dizendo tudo o que penso a respeito do conturbado ciclo que o país está vivendo. Nada tenho nada a acrescentar. Olhando pela janela, a paisagem política não é nada bonita. E viva o tricolor!

3. Fiquei triste com a saída dela do PT, mas desejo toda a sorte do mundo à minha velha amiga Marina Silva nos novos caminhos que escolheu. Sejam quais forem estes caminhos, Marina é uma brasileira de valor, com muita garra e coragem na defesa dos seus princípios e utopias. Sou grato a ela pela entrevista exclusiva que me concedeu na semana passada, em Brasília, antecipando o desfecho ontem anunciado.

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
19/08/2009 - 11:05

Gripe, Senado, CPI, Lina: qual será a próxima crise?

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Em tempo: atualização às 12:00

Leitores reclamam, com razão, que esqueci de publicar os novos números da pesquisa Vox Populi-TV Bandeirantes, divulgados ontem à noite, que são bem diferentes daqueles do Datafolha publicado no último final de semana.

Os números:

Serra: 30

Dilma: 21

Ciro: 17

Heloísa Helena: 12

Sem Ciro na lista, ficaria assim, segundo o Vox Populi:

Serra: 36

Dilma: 24

Heloísa Helena: 10

***

Com o fiasco do depoimento no Senado de Lina Vieira, a ex-secretária da Receita Federal de um dia para outro alçada à condição de manchete de jornal, qual será a próxima crise do fim do mundo que a oposição vai criar para abalar a popularidade do presidente Lula e a candidatura da ministra Dilma?

Já tentaram de tudo este ano, mas nada deu certo para a aliança PSDB-DEM-Mídia, que continua sem rumo para as eleições de 2010 e se limita a jogar no desgaste do governo. 

Primeiro, jogaram suas fichas na crise econômica mundial, anunciando a quebradeira, a recessão, o apocalipse. Nada disso aconteceu: o Brasil foi mesmo, como disse o presidente Lula, o último país a entrar na crise e o primeiro a sair.

Envergonhados, procuram esconder os fatos positivos. Nesta terça-feira, no pé de uma chamada de capa sobre prejuízos na Eletrobrás, a Folha, o maior jornal do país, publica em duas linhas com letras minúsculas, as menores da imprensa brasileira:

“Mercado de trabalho formal teve em julho o melhor desempenho do ano”.

Depois, vieram com a epidemia de gripe suína, que ganhou as manchetes semanas seguidas, consumiu quilômetros de páginas de jornal e oceanos de tempo nos telejornais.

Hoje, noticia-se, discretamente: “Dados do Ministério da Saúde indicam redução do número de casos de gripe suína _ na semana de 9 a 15 de agosto, foram registrados 111 novos casos graves, conta 794 na semana anterior”. 

E a pauta foi mudando, mas a palavra crise continuou nas manchetes com as denúncias sobre os desmandos e maracutaias seculares do Senado Federal, a partir de determinado momento centralizadas em José Sarney e na base aliada do governo.

Quando o assunto começou a cansar, criaram a grande crise da CPI da Petrobrás, que já está sumindo do noticiário.

Qual será a próxima crise anunciada?

O texto acima sintetiza o pensamento de grande contingente dos leitores do Balaio que comentaram o post que escrevi ontem sobre o anjo da guarda do presidente Lula.

“Esse episódio canhestro ( o depoimento de Lina) deixa claro para a população o tamanho do destempero, a ânsia aloprada na agonia da grande mídia. Quando o povo se pergunta: “Uai, por que tanto falatório? Tá demais da conta, não acha?” Tá claro, né. O povo já sacou. Esse é o anjo da guarda de Lula, Kotscho”, escreveu o leitor José Melquíades Ursi, às 9:18 desta quarta-feira.

Sem discurso, sem bandeiras, sem candidato definido, sem propostas para o país, resta à oposição fazer barulho e atirar farofa nos ventiladores dos plenários do Congresso Nacional, que está paralisado desde o começo do ano, só jogando para a imprensa.

Sai Lina, entra quem? Façam suas apostas.

 

  

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
18/08/2009 - 14:10

Lula abusa do seu anjo da guarda e da popularidade?

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Caros leitores,

antes de mais nada, devo fazer um agradecimento a todos vocês pela audiência que dão a este Balaio e à crescente qualidade dos comentários nos debates aqui travados.

Só posso atribuir a isso a mensagem que recebi no final da noite desta segunda-feira do Rodrigo Azevedo, presidente do site Comunique-se:

“Caro Ricardo Kotscho,

Parabéns! Você está entre os indicados do Prêmio Comunique-se 2009 e já pode se sentir um vencedor.

Como você sabe, o Prêmio Comunique-se é o único em que os jornalistas são indicados pelo voto dos próprios colegas, ou seja, aqueles que mais entendem de jornalismo”.

Fiquei ao mesmo tempo surpreso e feliz com esta notícia porque, entre os 10 indicados na categoria, acho que sou o mais velho em atividade e o Balaio é o blog mais jovem (só vai completar um ano no ar no próximo mês).

Valeu, pessoal.

***

Vamos aos fatos do dia.  Ao ler esta manhã o noticiário em destaque nos jornais e na internet sobre o depoimento de Lina Vieira, ex-secretária da Receita Federal na CCJ do Senado, voltei a me fazer a pergunta que está no título deste post.

Na véspera, durante solenidade ao lado do presidente mexicano Felipe Calderón, no Itamaraty, ao ser interpelado por jornalistas sobre a questão Dilma-Lina, o presidente Lula não se fez de rogado e lançou um desafio à ex-funcionária:

“Qual a razão que essa secretária tinha para dizer que conversou com a Dilma e não mostrar a agenda? Só tem um jeito: abrir a mala em que ela levou a agenda e mostrar a agenda para todo mundo”.

É mais um caso de bola dividida em que Lula entrou sem precisar, dando de bandeja munição aos adversários, como já havia acontecido ao longo da novela Sarney, quando exagerou na defesa do aliado e depois teve que recuar.

Não faz sentido o presidente da República bater boca com uma funcionária de segundo escalão, ainda mais num episódio tão nebuloso, que vem sendo alimentado pela mídia com a ajuda do próprio governo dia após dia.

Bastaria responder que não iria tratar de questões de política interna ao lado de um visitante estrangeiro, como já fez em tantas outras ocasiões aqui dentro e no exterior.

Fica difícil imaginar, convenhamos, que toda esta história tenha sido simplesmente inventada por Lina Vieira em entrevista à Folha, ela que até outro dia ocupava um cargo de confiança no governo, responsável pela arrecadação dos impostos federais.

A nova crise política em que o governo se desgasta nem teria começado, se a ministra Dilma Roussef simplesmente houvesse desmentido o teor da conversa que teria mantido com Lina Vieira sobre a investigação feita pela Receita nos negócios da família Sarney.

Ficaria uma versão contra a outra numa conversa de que apenas duas pessoas teriam participado.

A própria Lina afirmou agora há pouco no começo do seu depoimento na CCJ: “Não me senti pressionada. Interpretei como um pedido para resolver o caso”.

Ora, qual o problema? Interpretar por interpretar, cada um pode interpretar o que quiser do que o outro falou numa conversa reservada. Ao negar o encontro, a ministra Dilma corre agora o risco de que mais dia, menos dia apareça alguma prova e a desminta, colocando em xeque a palavra do presidente.

“Não preciso de agenda para falar a verdade”, respondeu Lina ao desafio do presidente. Lula poderia ter passado sem essa.

Da mesma forma, poderia ter costurado internamente o apoio a José Sarney e à sua base aliada comandada pelo PMDB, sem se expor em tantas entrevistas e discursos, quando chegou a afirmar que o presidente do Senado não poderia ser tratado como um homem comum.

O fato de ligar sua imagem a figuras como Sarney, Collor e Renan para manter unida a base aliada e o apoio a Dilma em 2010, ao contrário do que todo mundo previa, inclusive eu, não abalou a popularidade do presidente, que permanece próxima dos 70%, algo inédito na reta final de um governo.

Ao mesmo tempo, seria recomendável ao presidente levar em conta os 74% da população que condenaram Sarney e defenderam a sua saída da presidência do Senado, segundo a mesma pesquisa Datafolha publicada no último domingo.   

Em texto publicado hoje no seu blog “Observações Políticas”, Alon Feuerwerker, que foi meu colega no governo Lula e agora é vizinho aqui no iG , faz uma análise a meu ver bastante correta sobre o quadro político revelado pelo Datafolha diante destes números aparentemente contraditórios.

“Constata-se novamente que a consciência do cidadão não tem outro dono a não ser o próprio. Se o brasileiro comum não vai ficar contra Lula só porque há pessoas bem nascidas e bem postas falando mal do presidente, tampouco vai ficar a favor de Sarney só porque isso convém aos propósitos políticos de Lula e do PT. O cidadão-eleitor é cada vez mais dono do nariz. Até porque tem cada vez mais acesso a informação. Alguns só se lembram disso quando é a seu favor. Acabam quebrando a cara”.

Como não quero que o presidente quebre a cara, penso que está na hora dele se preservar mais e entrar em menos bolas divididas, algumas delas absolutamente desnecessárias.

Por enquanto, os números das pesquisas mostram que a população separa a crise política da realidade econômica em que vive, com a retomada do crescimento, dos investimentos e dos empregos, e é nisto que o presidente bota fé, como me disse durante uma breve conversa que tivemos no último domingo.

Tranquilo e confiante como sempre, Lula acredita que os próximos números dos indicadores econômicos vão melhorar ainda mais e teremos boas notícias até o final do ano, o que o leva a não dar maior importância à interminável crise política que se arrasta desde o começo de 2009.

Certa vez, em entrevista que fiz com ele no final de 2007 para a revista Brasileiros, perguntei-lhe quem era seu anjo da guarda, que deve ser bem poderoso, já que sua popularidade só fazia aumentar, apesar de todas as crises enfrentadas pelo seu governo desde o primeiro mandato.  

Não me lembro mais da resposta, mas certamente Lula continua confiando muito neste anjo da guarda. As pesquisas mostram que até aqui ele tem tido boas razões para não se preocupar com o que a imprensa fala dele.

Claro que contribui para isso, e deve ser até determinante, o fato de que a maioria da população vive hoje melhor do que em 2003.

Temos menos gente passando fome e mais brasileiros comprando carros, mais classe média e menos miseráveis, mas acho muito arriscado jogar todo este patrimônio de aprovação popular para manter a base aliada a qualquer custo e fazer o sucessor em 2010.

Até porque, a esta altura do campeonato, com o descrédito generalizado que atinge partidos e políticos, fica difícil saber quais aliados vão dar ou tirar votos na próxima eleição. 

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
17/08/2009 - 10:48

No mesmo dia, dona Edite pede e ganha a aposentadoria

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Chegou logo cedo, como faz todos os dias, e veio toda contente me mostrar a carta que recebeu do INSS.

Ali se lê:

“Requerido em 14/7/2009. Benefício concedido com vigência a partir de 14/7/2009″.

Dona Edite Dias dos Santos, baiana de Planalto, que fica entre Vitória da Conquista e Poções, nem podia acreditar no que estava escrito no papel: ganhou sua aposentadoria no mesmo dia em que dera “entrada nos papéis”, como se costuma dizer.

Informa ainda o documento: “A partir de 11/08/2009 compareça diretamente à agência bancária indicada neste documento, munido de sua identificação, para receber seu benefício. Os pagamentos serão efetuados no 5º dia útil de cada mês. Renda mensal: 465,00″.

Dona Edite começou a trabalhar aos oito anos, ajudando na roça dos pais, Getulino e Luiza.  Teve nove irmãos, cinco ainda vivos. Trinta anos atrás, veio para São Paulo, e foi trabalhar como doméstica. Há mais de vinte, está com a gente, cuidando da nossa casa, com esmero e sempre de bom humor. 

No último dia 10 de julho, completou 60 anos, e ficou sabendo por uma vizinha que já teria direito à aposentadoria. Mas não tinha a menor idéia de como fazer, por onde começar. 

Lembrou-se da batalha do marido, o pedreiro Antonio, já falecido, que levou mais de dois anos para conseguir a aposentadoria, gastando dinheiro com advogado e tudo _ o mesmo tempo que eu também penei nas filas do INSS.

Como tenho vários amigos se aposentando, sabia que as coisas agora ficaram mais simples, e apenas a orientei a ir até o posto do INSS mais próximo para se informar sobre o que deveria fazer.

Dona Edite, que mal frequentou a escola e tem dificuldades com letras e números, foi lá sozinha, levando apenas a carteira de trabalho e sua identidade. Só havia três pessoas na fila. Uma hora depois, saiu de lá oficialmente aposentada.

Qual aposentado de outros tempos poderia imaginar uma cena destas?

Dos quatro filhos que teve, apenas uma, Marlene, está viva e mora com ela numa casa própria, no Jardim João XXIII, no quilômetro 18 da rodovia Raposo Tavares. As duas cuidam da sua pequena neta Isabela, que ficou orfã (dois anos atrás, o genro matou a filha de dona Edite e fugiu).

Tem ainda uma filha adotiva, Valdeci, que ficou em Planalto e cuida da terrinha da família, onde Edite tem dez cabeças de gado, que foi comprando com suas economias de uns tempos para cá.

Dona Edite é uma cidadã brasileira que não se queixa da vida. Para ela, apesar dos infortúnios da vida familiar, não tem crise nem tempo ruim. Agora, com a aposentadoria, ficou melhor _ vai pode aumentar seu pequeno rebanho. Pelas estatísticas do IBGE, já faz parte da chamada nova classe média. 

Em tempo: Antes que algum engraçadinho comente que a aposentadoria dela saiu com tanta presteza porque tenho amigos no governo _ “assim até eu…” _ já vou logo respondendo que minha única participação na história foi lhe informar o endereço do posto do INSS.

  

 

 

 

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
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