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19/07/2009 - 11:51

Chegada à Lua, Dr. Julinho e a minha namorada

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Nesta segunda-feira faz 40 anos que o homem chegou à Lua. Foi no mesmo dia em que peguei pela primeira vez na mão da Mara, até hoje minha mulher. Não dá para esquecer. O amor desta vez subiu a serra, ao contrário do que se dizia, e casamos três anos depois.

Trabalhava nesta época no Estadão, ainda na rua Major Quedinho, e estava passando férias em Caraguatatuba, na praia Martim de Sá. Lá a descobri andando de bicicleta em frente à casa do amigo Risada, onde estava hospedado, e nunca mais nos largamos.

Na semana anterior, tive que voltar a São Paulo para o enterro de Júlio de Mesquita Filho, o Dr. Julinho, que comandou o Estadão por 42 anos. Deixei um bilhete explicando motivo da minha viagem repentina e aproveitei para declarar meu amor a ela, já que não tinha coragem de fazê-lo pessoalmente.

Na volta, assisti à chegada do homem à Lua na casa dos pais dela, e começamos a namorar.

Eram tempos de guerra do Vietnã, do movimento hippie, do auge da repressão do regime militar no Brasil e o Estadão era o principal jornal brasileiro da época na resistência à censura e à ditadura que ajudara a implantar cinco anos antes. 

Dr. Julinho, um liberal clássico apaixonado pelo Brasil à sua moda, era um homem com a formalidade dos tempos antigos, tratado na intimidade da redação por “Deus”, tão acima se situava dos comuns dos mortais.

Em qualquer discussão política, tinha lado, tomava partido, e não escondia de ninguém. Em seu artigo publicado no Estadão do último dia 12, o repórter Roldão Arruda escreveu com precisão que “qualquer tentativa de traçar seu perfil tendo como foco principal o jornalismo tende a ser rasa, incompleta”.

Roldão constata que em tudo o que se escreveu sobre ele e nos textos autobiográficos, “o que chama a atenção é o fato de jamais ter dissociado jornalismo e militância política”.

Talvez inspirado por este clima que dividia o mundo nos tempos da Guerra Fria, também tomei o meu lado na política, mas em sentido contrário ao do jornal, escrevendo e defendendo a ala progressista da Igreja e os movimentos sociais, que o jornal combatia. Nem por isso fui um dia repreendido pelo Dr. Julinho, um liberal de verdade. Respeitava a opinião alheia.

É algo inimaginável na grande imprensa brasileira dos tempos atuais, em que predomina o pensamento único, mas se vende o marketing de apartidarismo, objetividade, isenção e todas aquelas coisas que a gente sabe não serem reais na prática.

Em 1969, era aluno da primeira turma da Escola de Comunicação e Artes da USP, criada dois anos antes, na mesma época em que comecei a trabalhar no Estadão.

Enfrentava duas guerras distintas: no campus da USP, onde os estudantes, genericamente taxados de comunistas, montavam barricadas e ocupavam prédios para protestar contra a ditadura e, no jornal conservador, em que a muitos dos editores ainda apoiavam o regime militar. 

Minha namorada era normalista num colégio de freiras, vivia num mundo bem diferente do meu, que se limitava ao trajeto entre sua casa e as aulas. De tradicional família paulistana, recebera uma educação muito rígida dos pais, não podia nem sair comigo à noite, e eu era o oposto.

Filho de imigrantes europeus, perdi o pai aos 12 anos e comecei a trabalhar bem cedo. Minha família eram os colegas mais velhos da redação, alguns dos quais são meus amigos até hoje. Éramos todos jornalistas boemios, como se dizia naquele tempo, gente que fazia a ronda dos bares toda noite.

Quer dizer, formávamos um casal improvável num mundo em ebulição que acabara de invadir a Lua e se matava aqui na terra na defesa de ideais e ideologias absolutamente conflitantes.

Hoje, quando vejo a Mara brincando com dois dos três netos no salão de brinquedos do nosso prédio, enquanto escrevo em plena manhã de domingo, vejo que nada mudou nas nossas vidas, embora o mundo tenha virado de cabeça para baixo, ou para cima, sei lá.

Eu continuo tão apaixonado pelo jornalismo como quando a conheci, a ponto dela sempre dizer que antes de casar sonhou que eu tinha uma amante _ a minha profissão. E a Marinha continua, além de trabalhar muito também na sua profissão, cuidando da família toda.

A Lua continua desabitada até hoje depois daquele primeiro passeio e nunca mais pisamos em outros planetas, mas foram muito bons esses 40 anos, apesar de tudo. Não dá para reclamar da vida. Para quem nem chegou a terminar a faculdade, está bom demais.   

Em tempo:

Aos leitores que enviaram comentários insinuando qualquer favorecimento pelo fato de minha filha Mariana Kotscho estrear um programa novo, o “Papo de Mãe, em setembro, na TV Brasil (abertura do post de ontem), informo que ela é jornalista há 17 anos, 12 deles como repórter especial da Rede Globo, de onde saiu no ano passado por iniciativa dela para poder cuidar melhor dos filhos.

Foram e serão todos sumariamente deletados. São pessoas que julgam os outros segundo os seus próprios podres parâmetros morais. Não cabem no Balaio. Dispenso a participação deste tipo de gente no meu blog.

Mariana nunca precisou de mim para nada em sua sólida e respeitada carreira de jornalista, que muito me orgulha.

Na disputa política que hoje domina os debates sobre qualquer assunto, cada um pode ter seu lado, mas é preciso aprender a pelo menos respeitar a família dos outros.

Os mais comentados

Os três assuntos mais comentados da semana no Balaio, na Folha e na Veja:

Balaio

Senado em crise: 296

Vexame do São Paulo: 141

Prosa com José Alencar: 123

Folha

Sarney: 172

Foto de Lula com Collor: 123

Artigo de Saulo Ramos: 52

Veja

Longevidade: 43

Senado em crise: 42

José Roberto Arruda: 41 

 

    

 

 

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:

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87 comentários para “Chegada à Lua, Dr. Julinho e a minha namorada”

  1. WAGNER disse:

    RICARDO! TEMOS QUE -ACABAR – COM O SUPLENTE DE SENADOR – ISSO É MA ´FE , ISSO E´SACANAGEM – ONDE JÁ SE VIU REPRESENTAR O ELEITOR SEM TER RECEBIDO NEM UM VOTO. ISSO É PIOR QUE O EXTINTO SENADOR BIONICO.

  2. Olá!
    bom novamente escrevo para te agradeçer por esse amor que vc passa para sua profissão e transmite para seus leitores…. o jornalismo fica muito mais apaixonante com suas palavras…. e claro, que linda história de amor que sempre que há uma oportunidade é contada…..
    Felicidades sempre…. também quero que meu casamento dure bastante…. quem sabe até a morte.

    Em relação a lua, acredito pois as placas transmissoras estão lá! E se for mentira é apenas mais uma, não vai mudar nossa rotina diária este fato…… em todo caso é bobagem esta discussão!

    Abraços.

  3. Luiz Carlos (O velho) disse:

    21/07/2009 – 08:19
    Enviado por: Manoel Ferreira
    Luiz Carlos (O Véi!)
    ”Oiá! caboclo você é o cabra mais realista que já li neste balaio.”

    Olá Sr.Manoel Ferreira.
    Não, meu caro, não é sapiência não, é velhice mesmo. A gente vai envelhecendo e vendo coisas que já foram vistas antes e que não funcionaram. Parece que o povo esquece de certas ‘quebradas de cara’.
    A religião e a moral mostram o mundo ideal, como deveria ser. A ciência mostra o mundo do jeito que ele é.
    Um abração.

  4. Vicente de Paula Chicoli disse:

    Sr. Ricardo, admiro o seu profissionalismo, seu caráter, por ser ético e verdadeiro como um bom jornalista deve ser!
    Pessoas infelizes, invejosas, preconceituosas, não deveriam duvidar do seu trabalho sério e honesto.
    Maldades com respeito a sua filha Mariana, só podem brotar de cabeças vazias.
    Parabéns pelo seu balaio do Kotscho, um blog de qualidade dinâmico e sincero.
    Seu único defeito eh ser São Paulino, mas nem tudo eh perfeito.

    Um abraço

    Vicente de Paula Chicoli

  5. Juan disse:

    Ricardo:

    Seus relatos movem nossas lembranças que nos emocionam. Meu pai, jornalista é minha mãe professora de escola pública, orfã desde os 12 anos (hoje tem 93) e criada interna em um colegio das irmãs Vicentinas; a missa dos 50 anos de casados faz 13 anos; os 17 netos, alguns 1/2 católicos, outros ateos, outros atoa, outros militando no Partido Socialista, os yenros e noras formando um coro e cantando musicas “sacras” e não tão “sacras” entre elas uma de Mario Benedetti que seu compadre Clovis Rossi conhece bem e creio que cantou nas ruas de Mexico que tinha versos muito bonitos, ai vai um: ” si te quiero es porque sosmi amor mi comlice y todo y en la calle codo a codo somos mucho más que dos, somos mucho más que dos…”, e ainda meu pai no final da missa, o velho e bom escritor (que já não esta entre nós), perdendo o discurso preparado e improvisando a mais bonita declaração de amor que deu envidia as noras e as netasnoras e que foi aplaudida durante 3′ contados por todos os amigos que repletavam a igreja.

    Ricardo você viu como alguns detalhes de você e Mara despertaram uma quantidade de lembranças…, quando você publica o proximo livro…

    Um abraço e muito obrigado

    Juan

  6. É MUITO FÁCIL ACABAR COM TODA ESSA PORCARIA.

    A.I. 5 ( MELHORADO… PASSAR BALAS EM TODOS

  7. Esse apoio, irrestrito, de LULA a Sarney dá-se pelo fato de ter sido criada a CPI da PETROBRAS e LULA precisa do apoio dos PMDEBISTAS na referida CPI além, do apoio para a eleição da DILMA para presidência da República em 2010. LULA teme, a perca de apoio do PMDB e, provavelmente, o partido passe a apoiar o candidato dos tucanos e demos. LULA está numa encruzilhada. Porém, já é ora de ficar do lado da verdade, da transparência e do povo. 2010 é um ano importante para LULA e para os brasileiros. Avançamos muito, para entregar de mão beijada para essa direitona privatista capitaneada pela mídia burguesa, tendo à frente a Folha de São Paulo e a Rede Globo de Televisão. Saudações, jb

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