Arquivo de junho, 2009
30/06/2009 - 20:16
Navegávamos pelo São Francisco quando a nova moeda foi lançada na praça. Fui apresentado a ela ao comprar cigarros em Bom Jesus da Lapa (…).
Os fregueses do bar estavam entusiasmados:”Quando eu poderia pensar que iria tomar uma pinga por vinte centavos sabendo que amanhã o preço não vai aumentar?”, ouvi de um deles.
Ao voltarmos para o barco, mostrei a cédula a Lula. “Isto aqui pode mudar a história da eleição”, alertei, mas ele não deu muita importância à opinião do assessor.
A história contando como a campanha do então candidato Lula, em 1994, foi atropelada pelo lançamento do Real, quando a Caravana da Cidadania cruzava o rio São Francisco, está contada no meu livro “Do Golpe ao Planalto – Uma vida de repórter” (páginas 201 e 202).
Nada como ter o próprio livro de memórias à mão para lembrar detalhes de fatos passados 15 anos atrás. Faz bastante tempo, mas é possível que ainda tenha gente tomando pinga por vinte centavos em Bom Jesus da Lapa _ maior prova de que o Plano Real veio para ficar e deu certo.
Nos parágrafos seguintes, mais uma vez recorro ao livro para contar como o lançamento do Real virou de cabeça para baixo, em poucos dias, a campanha presidencial de 1994, quando eu trabalhava como assessor de imprensa do candidato do PT.
O cenário da campanha, a qual até esse ponto da história se assemelhara a um passeio, sofreria uma transformação radical antes de partirmos, no dia 4 de julho, para a sétima e última caravana.
Feliz com o resultado das caravanas anteriores, o candidato teve a idéia de fazer uma viagem de barco da nascente até a foz do rio São Francisco, parando nas cidades ribeirinhas.
O ministro das Relações Exteriores de Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso, que havia sido transferido para a Fazenda _ muito a contragosto, segundo ele próprio _ acabara de implantar a URV (Unidade Real de Valor).
Era o primeiro passo para o lançamento de uma nova moeda, o real, que tinha por objetivo principal controlar a inflação, sem tabelamento de preços, e estabilizar a economia.
Recebido com descrédito pelos economistas do PT, o Plano Real revelou-se um sucesso fulminante, a ponto de, em poucas semanas, levar Fernando Henrique a subir nas pesquisas, ao mesmo tempo que Lula descia.
Alguns meses antes, com dúvidas sobre suas chances de se eleger para um novo mandato no Senado, o tucano pensara em se candidatar a deputado federal.
A disputa pela Presidência se limitava aos dois, que tinham uma boa relação pessoal desde os tempos das lutas no ABC. Para Lula, parecia incômodo enfrentar um oponente para quem até havia feito campanha _ nas eleições para o Senado, em 1978.
Quando retornamos da viagem de apenas nove dias pelo São Francisco, o quadro eleitoral já havia virado.
Num encontro de economistas com o candidato, promovido no hotel Danúbio, em São Paulo, todos criticaram o Plano Real, taxado de “recessivo e eleitoreiro” pela professora Maria da Conceição Tavares.
Acho que só eu discordei dessa análise, e comentei com Lula ao final da reunião: “Olha, eu não entendo nada de economia, mas o plano não pode ser eleitoreiro e recessivo ao mesmo tempo. Ou é uma coisa ou é outra, que ninguém vai ser louco de implantar um plano econômico para provocar a recessão na economia se pretende ganhar a eleição”.
Para Aloizio Mercadante, o Plano Real não duraria nem três meses. “Tudo bem, mas, se durar três meses, nós perdemos as eleições em outubro”, ainda tentei argumentar. Nossos discursos, porém, continuaram na mesma linha de ataques ao plano que o povo estava adorando.
Oito anos depois, Lula seria eleito presidente da República, disputando a eleição contra José Serra, ex-ministro de FHC, que também era crítico da política econômica do governo.
A estabilidade da moeda sobrevive até hoje. Ainda dá para comprar um quilo de frango por dois reais e planejar as nossas contas sem levar um susto atrás do outro como era antigamente. De lá para cá, o país só fez melhorar.
Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog
Tags:
29/06/2009 - 11:08
O governador José Serra saiu dos seus cuidados neste final de semana e compareceu ao 16º Congresso Estadual do PPS (antigo Partido Comunista Brasileiro, hoje linha auxiliar da aliança PSDB-DEM), em Jaguariúna, no interior de São Paulo, a 134 quilômetros da capital.
Foi e voltou de helicóptero e ficou lá apenas 45 minutos, o suficiente para atacar o governo federal e o PT:
“O PT usa o governo como se fosse propriedade privada. Quando o PT foi para o governo, incorporou esse patrimonialismo do partido. Em São Paulo, não existe esse loteamento governamental, ao contrário do federal”.
Não existe? Serra esqueceu-se que estava ao lado do presidente do PPS, Roberto Freire, suplente do senador Jarbas Vasconcelos (PMDB), atualmente ganhando a vida como membro de dois conselhos municipais em São Paulo, embora seja do Recife e more em Brasília.
Ex-candidato a presidente da República, hoje Freire não se elege nem síndico em sua cidade, mas fatura R$ 12 mil por mes para participar de uma reunião mensal e assinar as atas da Emurb (Empresa Municipal de Urbanismo) e da SP-Turismo.
Quem lhe arrumou esta boquinha foi o próprio governador José Serra, em 2005, quando era prefeito de São Paulo. Mantida pelo seu sucessor Gilberto Kassab, a sinecura abriga hoje 58 conselheiros, que custam R$ 4 milhões por ano à Prefeitura.
Quem fez a denúncia, em janeiro deste ano, foi o repórter Fabio Leite, do Jornal da Tarde. Mas, ao contrário do que acontece no plano federal, não mereceu nenhuma repercussão na chamada grande imprensa. Em seu texto, Leite escreveu que esta “bondade administrativa visa acolher aliados e engordar os salários dos secretários municipais”.
Até hoje esta informação não foi desmentida nem se tem notícia de que Roberto Freire, fiel à sua cruzada de paladino da moralidade alheia, tenha aberto mão da bem remunerada boquinha.
Em Jaguariúna, como anfitrião do governador, ele aproveitou para atacar o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) do governo federal, que “não anda no país, o que anda é a corrupção”, segundo noticiário da Folha.
Antes de pegar o helicóptero de volta para São Paulo, Serra, que não foi perguntado sobre a aparente contradição entre o que falou sobre “loteamento” e a condição do conselheiro Freire, ainda garantiu aos ex-comunistas que fará “o possível para atender aos pedidos dos prefeitos do PPS”.
Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog
Tags:
28/06/2009 - 14:39
Consegui passar a semana sem tocar no assunto Sarney e os escândalos em série produzidos pelo Senado, um novo susto a cada dia. Mas, os leitores, não.
Qualquer que fosse o tema tratado no Balaio, foi sobre as histórias que brotam desta casa de horrores, onde senadores e seus funcionários privatizaram o dinheiro público, que os leitores enviaram a maioria dos comentários.
Com o passar dos dias, a indignação e a revolta dos cidadãos comuns começou a ceder espaço ao desencanto e a um sentimento generalizado de impotência, resultando num clima de mal estar generalizado que se alastra pelo país à medida em que as denúncias se multiplicam e a impunidade impera.
Não é para menos. O colega Fernando Rodrigues, da Folha, já contabilizou 60 denúncias (fora as de hoje) de casos de nepotismo, abusos, falcatruas e maracutaias variadas nos últimos cinco meses, desde a reabertura do Congresso Nacional em 2009.
Outro colega, Kennedy Alencar, em seu artigo “Senado é bagunça organizada”, na Folhaonline, dá alguns números deste império subterrâneo montado na praça dos Três Poderes:
* O orçamento do Senado é de 2,8 bilhões por ano. Para manter cada senador, isso dá mais de R$ 34 milhões por ano, cerca de R$ 2,8 milhões por mes, R$ 94 mil por dia. É uma montanha de dinheiro jogada fora que daria para construir 200 mil casas populares por ano.
* Até hoje, ninguém sabe dizer ao certo quantos são estes funcionários, mas o número mais recente divulgado pelo senador Heráclito Fortes (DEM-PI) dá conta de pelo menos 11 mil, com salários de até R$ 12 mil para motoristas _ ou seja, 123 funcionários para cada senador.
Desta vez, ao contrário do que disseram Lula e Sarney esta semana, não se pode atribuir a prolongada crise ao “denuncismo” da imprensa, já que as revelações brotam das entranhas do próprio submundo do Senado, ganham vida própria, ninguém precisa correr atrás delas.
Se os abusos e desmandos só agora revelados são antigos e sobreviveram a vários governos, sejam quais forem os interesses políticos subjacentes, isso não refresca a gravidade da situação.
Como bem constatou a revista Veja desta semana, na Carta ao Leitor ( “Um país melhor que seus políticos”), vivemos um claro conflito entre o noticiário político gerado por Brasília e o mundo real.
Na mesma semana em que se anunciou novo aumento expressivo do emprego formal, em que a indústria automobílistica bate seu recorde histórico de produção e a Bolsa já recuperou as perdas provocadas pela crise mundial, as manchetes e o noticiário baixo astral continuaram sendo dominados por suas excelências, os 81 senadores.
O sentimento dos leitores/eleitores foi muito bem resumido no comentário de Mara Barreto, às 17:45 de sexta-feira:
“Chegamos a um ponto de descrédito e desesperança tal que parece que nada, absolutamente nada fará este país ir para os trilhos da seriedade, da justiça e do respeito.
O que podemos fazer quando reclamar não adianta? Quando votar não adianta? Quando lutar também parece que não adianta nada?”
Eu não tenho as respostas. Mas, se algum outro leitor tiver, por favor, pode escrever aqui mesmo na área de comentários ou enviar diretamente ao presidente do Senado, José Sarney.
Os números da semana
Como faço todos os domingos, publico abaixo o levantamento dos três assuntos mais comentados da semana no Balaio, na Folha e na Veja, os dois veículos impressos de maior circulação no país.
Balaio
Caso Sophie: 106
Burocracia: 68
Audálio Dantas: 66
Folha
Congresso: 167
Sarney: 160
Lula: 49
Veja
Recado dos cidadãos: 342
Diploma de jornalismo: 25
Meio ambiente: 18
Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog
Tags:
26/06/2009 - 12:24
A história que vou contar a seguir é baseada em fatos reais, embora pareça mais um enredo inverossível produzido pela burocracia brasileira, envolvendo o INSS e a Receita Federal. Ninguém me contou. Aconteceu comigo.
No buraco negro das repartições, é difícil devolver ao Tesouro Nacional dinheiro recebido indevidamente, mas é muito mais complicado, praticamente impossível receber aquilo a que você tem direito.
Primeiro vamos falar do INSS. Minha mãe morreu no final de 2004, mas sua aposentadoria continuou sendo depositada todo mês pelo INSS em sua conta bancária, embora a gente tenha enviado o atestado de óbito e todos os documentos necessários para efetuar o cancelamento deste direito.
Após várias tentativas infrutíferas para resolver o problema na respectiva repartição, minha mulher pediu que eu a ajudasse. Como nesta época trabalhava no governo federal, em Brasília, apelei ao meu amigo Amir Lando, então Ministro da Previdência Social e lhe expliquei o que estava acontecendo.
Não queria nenhum favor, apenas suspender os pagamentos da aposentadoria e devolver o dinheiro recebido indevidamente após a morte de minha mãe. Passei-lhe todos os documentos e ele ficou de resolver a questão.
Passou-se o tempo, Amir Lando e eu saímos do governo, o dinheiro continuou sendo depositado. No começo de 2005, como não conhecia o novo ministro, Romero Jucá, liguei para o assessor de imprensa dele contando a mesma história e pedindo providências.
Semanas depois, o assessor me deu o seguinte retorno:
“O ministro mandou te falar que é mais fácil tua mãe ressuscitar do que o INSS resolver este problema”.
Minha mãe não ressuscitou, mas antes do final daquele ano consegui finalmente receber um comunicado sobre como deveria proceder para fazer a devolução do dinheiro.
Vocês não podem imaginar a dificuldade que foi. Perdi um dia inteiro entre carimbos, firmas reconhecidas, filas, guichês e documentos em várias vias para pagar o que devia ao Tesouro Nacional.
No mesmo ano, fui comunicado pela Receita Federal que eu tinha um dinheiro a receber como devolução do imposto de renda. Como os valores eram mais ou menos os mesmos, pensei até que seria mais simples e sairia mais barato para todos deixar elas por elas, quer dizer, zerar minhas contas de dever e haver com o Tesouro Nacional.
Se para devolver o dinheiro tive que recorrer a dois ministros, fiquei pensando quantas famílias pelos fundões do Brasil continuam recebendo as aposentadorias dos falecidos anos afora, o que pode explicar em parte porque a nossa Previdência Social está sempre quebrada.
Pior do que pagar é receber. Sem apelar à ajuda de nenhum ministro ou amigo do governo, o que neste caso seria anti-ético, configuraria tráfico de influência, privilégio, estas coisas, como qualquer cidadão fui atrás dos meus direitos, com a ajuda do velho contador que há séculos cuida do meu imposto de renda.
Mas, o tempo foi correndo, até me esqueci daquele dinheiro, e nada de receber a devolução a que tinha direito. A cada ano, me mandavam uma nova notificação pedindo mais algum documento ou um esclarecimento sobre despesas médicas, o contador levava tudo lá, diziam que agora estava tudo em ordem, mas até hoje o dinheiro não saiu.
Pelo andar da carruagem, assim como minha mãe continuou recebendo aposentadoria depois de morrer, espero que agora não resolvam me pagar somente depois que eu já não estiver mais entre os contribuintes vivos.
Acredite quem quiser, mas estas coisas acontecem. Quem quiser que conte outra história. Tenho certeza de que milhares de brasileiros neste momento enfrentam as mesmas dificuldades e não têm sequer um blog para desabafar.
Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog
Tags:
25/06/2009 - 11:29
Algumas pessoas cruzam a vida a passeio, outras deixam marcas por seu trabalho, mas há aqueles cuja história de vida sobrevive à própria morte pelo simbolismo e servem de exemplo e estímulo para os que ficam.
No terceiro caso está Vladimir Herzog, o jornalista assassinado pela ditadura militar, nos cárceres do DOI-CODI, em 1975, cuja morte acabou se transformando num divisor de águas da nossa história recente, um marco da luta pelo fim da ditadura.
Por isto, esta noite, a família e os amigos abrem oficialmente o Instituto Vladimir Herzog, com a missão de “contribuir para a reflexão e produção de informação voltada ao Direito à Justiça e ao Direito à vida”.
Foram justamente os direitos negados a Vlado, como era chamado pelos colegas este jornalista que dedicou a carreira a fazer do seu ofício não mero meio de ganhar a vida, mas instrumento de transformação para que todos pudessem ter uma vida melhor, mais digna, mais justa, mais livre.
Tive o privilégio de ser seu contemporâneo numa época em que os jornalistas exerceram um importante papel na resistência à ditadura militar e na denúncia das suas mazelas, mas, por um feliz acaso para mim, nunca trabalhamos juntos.
Pouco antes da sua prisão e morte, Vlado tinha me convidado para trabalhar com ele na TV Cultura, onde estava fazendo um belo trabalho. Como tinha viagem marcada para fazer uma reportagem pelo Estadão, onde eu trabalhava, ficamos de conversar na volta.
Neste meio tempo, a repressão começou a prender um grupo de jornalistas ligados a Vlado, e acabou não danto tempo de conversarmos novamente sobre o convite que me fez.
Sua morte e as circunstâncias trágicas em que aconteceu acabaram deflagrando um grande movimento do que mais tarde se viria a chamar de sociedade civil, provocando a abertura e, por fim, a derrocada do antigo regime, uma década depois.
Vlado faria 72 anos no próximo sábado. A melhor forma de homenageá-lo é resgatar sua obra, o que vem sendo feito com muita dedicação pela viúva Clarice e seu filho Ivo, que estão organizando todas as informações sobre o trabalho e a vida do jornalista, que o IVH vai abrir para estudantes e pequisadores.
Além disso, a sede do instituto, na rua Bela Cintra, 409 (fone: 2894 6650), vai abrigar debates sobre o papel do jornalista diante das mudanças ocorridas na profissão com o advento das novas mídias.
No evento de abertura do instituto hoje à noite, a partir das 19h30, na Cinemateca Brasileira (rua Senador Cardoso, 207, Vila Clementino), serão homenageados o cardeal d. Paulo Evaristo Arns, o rabino Henry Sobel e o reverendo James Whrigt (in memoriam), responsáveis pelo culto ecumênico celebrado na Catebral da Sé logo após a morte de Vlado.
Para maiores informações sobre o Instituto Vladimir Herzog:
www.vladimirherzog.org
e-mail: contato@vladimirherzog.org
Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog
Tags:
24/06/2009 - 10:17
Nos últimos dias, comecei a receber e-mails de amigos comuns me perguntando se não iria escrever nada sobre os 80 anos do Audálio Dantas. Como sabem, aqui no Balaio o leitor é também pauteiro.
Nem eu, que sou amigo e parceiro deste grande jornalista e cidadão desde os anos 60 do século passado, sabia da iminência de tão importante efeméride.
Sabia que Audálio há tempos tinha passado dos 70, ainda em plena e produtiva atividade, mas não que estivesse próximo de se tornar um octogenário.
Para quem não sabe ou não se lembra, ele foi o líder dos jornalistas paulistas na resistência à ditadura militar e teve papel fundamental na resistência à ditadura militar naqueles trágicos dias do assassinato de Vlado Herzog. Foi dirigente sindical e deputado federal, mas nunca deixou de ser um repórter eternamente com ânimo de principiante.
Atualmente editor da revista Negócios da Comunicação, poderia escrever milhares de caracteres sobre a sua brilhante carreira, com passagens marcantes nos bons tempos das revistas O Cruzeiro e Realidade, ou como autor de um monte de livros, mas fiquei com aquela dúvida na cabeça: ele já vai mesmo fazer 80 anos?
Achei melhor consultar primeiro sua mulher, a onipresente e dedicada Vanira, mas ela também não me ajudou muito com sua enigmática resposta:
“Você me perguntou se ele vai fazer 80 anos (no dia 8 de julho). A resposta é não e sim. E aí é melhor que ele lhe explique ou lhe confunda mais”.
No dia seguinte, Audálio resolveu desfazer o mistério escrevendo-me de próprio punho a verdadeira história sobre a sua idade.
“Pois então, resolvo a questão. Confusão desse tipo é coisa lá de cima, tá aí o Lula que não me deixa mentir.
Seguinte: lá no Tanque d´Arca, onde nasci, tinha cartório, escrivão e tudo mais, porém meu pai, homem de muito capricho, achou que para o menino ficaria melhor um registro em Maceió, portentosa capital do Estado de Alagoas.
Foi deixando, foi deixando, e quando resolveu eu já estava taludinho e, segundo várias testemunhas, muito inteligente. Merecia até estudar.
Andava pelos 7 anos e, garantiam, poderia ter um brilhante futuro na Marinha Brasileira, onde poderia estudar de graça. E foi para apressar a possibilidade de ingresso na Escola de Aprendizes Marinheiros que me botaram mais três anos nas costas.
Assim, meu caro, tenho duas idades: a oficial, no papel, e a verdadeira, mas só consta da tradição oral, familiar.
Escolha aí a que você prefere festejar. Aceito presentes em duplicidade. A conclusão desta história é: a Marinha perdeu a oportunidade de contar com a minha contribuição.
Lá eu seria, no mínimo, capitão-de-mar-e-paz. Quem sabe, até um almirante daqueles cobertos de galões e medalhas. O mais provável, porém, seria pegar uma cana por considerar legítima a Revolta da Chibata…
Taí, escolha as armas.
Do seu amigo e ex-quase marujo
Audálio”
Seja como for, meus parabéns antecipados, velho amigo Audálio, homem bom de briga e de festa, grande contador de histórias.
A novela do cigarro
Numa terra onde tudo vira novela sem data para a acabar, informo aos leitores interessados que já mudou tudo de novo na cruzada da lei antifumo.
Nesta terça-feira, o juiz Valter Alexandre Mena, da 3ª Vara da Fazenda Pública, anulou a proibição de fumódromos em São Paulo, como determinava a lei antifumo do governador José Serra, que deveria entrar em vigor no começo de agosto.
“Além de permitir os fumódromos, a sentença de Mena desobriga donos de bares e restaurantes de chamar a polícia quando alguém estiver fumando e também suspende a aplicação de multas”, informa a Folha.
Ou seja, volta tudo a ser como antes e os fiscais da lei antifumo ficam temporariamente desobrigados de caçar os infratores com o cigarro na boca.
Luiz Antonio Guimarães Marrey, secretário de Estado da Justiça, já anunciou que o governo vai recorrer da sentença e que a lei será mantida.
“Já temos decisão do Supremo Tribunal Federal no sentido de que o Estado pode legislar sobre o fumo”.
Ah, bom. Então, podemos ficar tranquilos. Outra vez, o STF vai decidir o final de mais esta novela.
Balaio número 300
Nem me tinha dado conta, mas hoje descobri que chegamos a 300 textos publicados no Balaio desde setembro do ano passado, sem recorrer ao copia-e-cola, nem a abobrinhas e ajudantes.
Nunca escrevi tanto e com tanta frequência em nenhum outro lugar onde já trabalhei, mas o mais importante foi constatar que também nunca tantos leitores comentaram meus textos.
Melhor ainda: a cada semana, fico mais orgulhoso não só com a quantidade, mas com a qualidade destes comentários, que transformaram o Balaio num belo fórum de debates, quase sempre de alto nível, em que os leitores discutem todo tipo de assunto. Discutem tanto que até criaram uma filial no Google, o Boteco do Balaio.
A cada dia fica mais prazeroso meu papel de moderador de comentários.
Meu muito obrigado a todos os balaieiros.
Vida que segue.
Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog
Tags:
22/06/2009 - 15:42
Atualizado às 11:45:
O menino austríaco R., de 12 anos, irmão de Sophie, de 4, que morreu na sexta-feira, no Rio, foi finalmente entregue pelo Conselho Tutelar ao pai, o austríaco Sascha Zanger, segundo relato do repórter Pedro Dantas, da sucursal carioca do Estadão, publicado na edição do jornal desta terça-feira:
As crianças haviam sido retiradas da casa da tia Geovana dos Santos Vianna, em março, e entregues ao conselho, por força de decisão da Justiça Federal. Mas, ao conversar com os conselheiros, R. contou que havia sofrido abuso sexual por parte de Zanger. Os conselheiros, então, recomendaram que as crianças voltassem para a casa da tia, agora supeita de ter matado a menina por espancamento.
Os irmãos austríacos foram trazidos para o Brasil pela mãe, à revelia do pai, em janeiro de 2008. “É difícil dizer se o menino havia sido orientado antes de ser entregue ao conselho ou se realmente sofreu abuso. Pedi à Justiça que designasse uma perícia psicológica, mas a tragédia aconteceu antes da avaliação”, afirmou o advogado Ricardo Zamariola, que defende Zanger e havia pedido a repatriação das crianças com base na Convenção de Haia.
Zanger lutava há um ano e meio na Justiça para conseguir a guarda de Sophie e do seu irmão de 12 anos, os dois filhos que teve com a brasileira Maristela dos Santos. No começo do ano passado, assim como aconteceu no caso do menino S., de 9 anos, filho do norte-americano Davi Goldman, a mãe viajou com as crianças da Áustria para o Brasil sem a permissão do pai.
Inconformado com a morte da filha, que a Justiça deixou nos últimos dois meses sob a guarda de uma irmã de Maristela, Giovana dos Santos Viana, Zanger conta que já veio quatro vezes ao Brasil e gastou mais de 100 mil euros com advogados, mas não conseguiu levar a filha com vida de volta à Áustria. Agora, quem vai pagar pela morte de Sophie?
Como o pai suspeita que a menina tenha sido espancada pela tia, na semana passada a Justiça transferiu a guarda do irmão para a madrasta de Maristela dos Santos. Segundo Zanger, Maristela sofre de doença mental, razão da separação em 2006, e está desaparecida desde abril.
O leitor deverá me perguntar como é possível? Se o pai biológico está vivo e quer os filhos de volta, como é que a Justiça brasileira os coloca sob a guarda de uma tia e, agora, entrega o menino para a madrasta da mãe?
No Brasil, os enredos inverossímeis envolvendo a nossa Justiça não só acontecem, como se repetem. A exemplo de Goldman, que há quatro anos luta para reaver a guarda do filho S., levado de sua casa nos Estados Unidos pela mãe brasileira, falecida no ano passado, Zanger evoca a Convenção de Haia, um tratado internacional assinado pelo Brasil.
“Trata-se de um caso de sequestro internacional de criança, previsto na convenção. Se o juiz tivesse me autorizado a levar as crianças, isso não teria ocorrido. Tudo o que eu quero agora é levar meu filho, que é o que me resta, e logo”.
E o que é que a Justiça brasileira ainda está esperando para devolver logo o menino à guarda do pai? Está esperando acontecer outra tragédia?
Não é preciso ter diploma, como diz o doutor Gilmar Mendes, nem ser advogado para constatar que se trata de uma aberração jurídica e, mais do que isso, uma desumanidade que se faz com o pai de Sophie.
Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog
Tags:
22/06/2009 - 10:07
Está dando gosto de ver a seleção brasileira jogar. No passeio de domingo contra a Itália, 3 a 0 foi pouco diante da superioridade do Brasil, em que o time chegou a lembrar em alguns momentos, 39 anos depois da conquista no México, aquela seleção que empolgou o mundo no tricampeonato de Pelé e cia.
A começar pelo excelente goleiro Júlio Cesar, o capitão Lúcio no melhor momento da sua carreira, comandando uma zaga que dá segurança ao time e à torcida, um meio de campo que ficou mais rápido e criativo nos pés do mineirinho Ramires, e com Kaká, Robinho e Luis Fabiano, os três tenores matadores no ataque, o Brasil montou um belo time. Como antigamente, não só ganha como joga bonito.
Quem é o principal responsável? Pois é, quase não falam mais nele agora que a seleção se reencontrou com seu melhor futebol, mas temos que fazer justiça ao técnico Dunga, tão malhado por todo mundo quando assumiu a seleção brasileira três anos atrás.
Podem reparar: quando a seleção vai mal, Dunga vai para a manchete. Mas, se tudo dá certo, como na Copa das Confederações da África do Sul, quase ninguém se lembra do técnico que devolveu a alegria e a confiança à torcida brasileira.
Ele continua ranzinza, não dá bola para jornalistas estrelados, usa aquelas roupas esquisitas, mas está sendo uma bela surpresa como maestro deste Brasil praticamente classificado para a Copa de 2010, com uma antecedência que há muito tempo não acontecia.
Sem nunca ter sido técnico de nenhum outro time antes de assumir o comando da seleção brasileira, Dunga não quer posar de grande estrategista, é econômico e rude nas palavras, não dá espetáculo na beira do campo.
Aos poucos, foi renovando o time, sem fazer muito alarde nem promover rupturas, trazendo um ou outro novo jogador para atuar ao lado dos remanescentes do fracasso de 2006 na Alemanha.
Trouxe de volta Luis Fabiano, agora o artilheiro do time, descobriu este Felipe Melo jogando não sei aonde e teve coragem de efetivar Ramires, rara e bela revelação deste ano nos campos nacionais.
A impressão que me dá é que Dunga conseguiu o mais importante para qualquer treinador: tem o grupo na mão e é respeitado pelos jogadores, manda sem querer aparecer, vai ajustando melhor o time a cada jogo.
Agora só falta achar um lateral esquerdo porque o resto do time está montado, com mais de 11 titulares podendo dar conta do recado, sem que as substituições mudem o jeito do time jogar _ um jeito fácil, de toques rápidos até o ataque, a bola correndo de pé em pé como na pintura do segundo gol de Luis Fabiano numa troca de passes em alta velocidade com Kaká.
Quem diria, quem esperava? Está na hora de batermos palmas para Dunga, que o gaúcho merece.
Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog
Tags:
21/06/2009 - 10:22
Os dois dominaram a área de comentários dos leitores do Balaio esta semana (ver números dos assuntos mais comentados no final deste post).
Um é José Sarney, ex-presidente da República, ex-quase tudo na vida política e, atualmente, pela terceira vez, presidente do Senado Federal, posição que o deixa no centro do tiroteio de denúncias contra o Congresso Nacional.
O outro é Muricy Ramalho, tricampeão brasileiro pelo São Paulo, eleito quatro vezes seguidas o melhor técnico do país, demitido do clube esta semana, após a derrota contra o Cruzeiro, que eliminou o tricolor da Libertadores.
Os dois terminam em situações bem diferentes esta semana difícil em suas vidas. Sarney continua no cargo, mas foi duramente condenado pela quase unanimidade dos leitores do Balaio. Muricy caiu, depois do seu time dar vexame no Morumbi e, mesmo assim, recebeu o apoio da maioria dos comentaristas do blog.
Fora a origem, a idade, o ofício e a história de vida, enfim, de cada um destes brasileiros, o que faz a diferença entre o maranhense José Sarney, com 60 anos de vida pública e prestes a completar 80 de idade, e o paulistano Muricy Ramalho, que não tinha nascido quando o presidente do Senado entrou na política, é a forma de encarar as críticas que recebem e as dificuldades que enfrentam.
Sarney se sentiu ofendido com a saraivada de denúncias contra ele nas ultimas semanas, chegando a afirmar em discurso na tribuna do Senado que não merecia este julgamento do povo por tudo que já fez em sua carreira política. Negou tudo, não assumiu responsabilidade nenhuma e disse que a crise não é dele, mas do Senado. Em razão disso, escrevi-lhe uma carta aberta aqui no Balaio.
Muricy ficou calado no canto dele, assistindo à conspiração de cartolas e jogadores contra a a sua permanência no cargo e, embora demitido, saiu de cabeça erguida, aplaudido e apoiado pelos mesmos torcedores/eleitores/comentaristas que condenaram Sarney e querem vê-lo fora da cena política brasileira.
No sobe e desce da vida de cada um de nós, Sarney continua no alto da gangorra presidindo o Senado, mas cada vez mais fragilizado, enquanto Muricy, que caiu, sai de férias com a certeza do dever cumprido e o julgamento favorável da sua torcida, que espera a sua volta.
Política e futebol, mais uma vez, dominaram a semana no Balaio, com os leitores alternando comentários sobre um e outro tema ao longo dos últimos dias. O futebol ganhou por pouco.
Futebol: críticas dos leitores
Leitores mineiros, torcedores do Cruzeiro, reclamaram, com toda razão, que só falei das razões da derrota do São Paulo e nada sobre a vitória do seu time em pleno Morumbi.
A maioria criticou “a arrogância de vocês paulistas”. João Sergio Pereira, em comentário das 13:11 de sexta-feira, ficou bravo comigo: “Reconheça os méritos dos adversários, seu cronista torcedor, bairrista e incompetente…”.
A leitora Angela, das 13:36, também não gostou do que leu: “Costumo ler seu blog como se fosse sério, mas com suas análises sobre futebol agora já estou em dúvida”.
Política é política, futebol é futebol, precisamos separar as coisas. Em futebol, sou mesmo apenas um torcedor, declaradamente são-paulino, como os leitores poderão ver logo no começo do meu perfil publicado aí ao lado. Nunca esperem, portanto, isenção, neutralidade, objetividade, essas coisas que muita gente usa para enganar o leitor.
“Lamento que o RK, sempre tão amável, sensato e da paz, mostre neste artigo seu lado hulligan”, comentou Emanuel Cunha Lima, às 23:33 de sábado, sobre o post em que critico a demissão de Muricy Ramalho e a contratação de Ricardo Gomes.
Pois é, meu caro Emanuel, para mim futebol é paixão e é desta forma que falo do meu time.
Neste caso do jogo são Paulo e Cruzeiro, sou reincidente, confesso. Muitos e muitos anos atrás, ao escrever sobre um jogo em que o São Paulo perdeu da Portuguesa, meu então chefe no Estadão, o palmeirense Clóvis Rossi, me esculhambou pelo mesmo motivo: só falei do meu time e nada sobre o time que ganhou o jogo.
Se eu já era assim quando trabalhava na chamada grande imprensa, onde precisava respeitar normas, regras e um manuual de redação, não seria agora neste Balaio, em que sou dono do espaço e posso escrever o que quiser, que iria deixar de ser o que sou, quer dizer, um torcedor do São Paulo.
Estamos entendidos?
Leituras de domingo
Outros leitores me cobraram ao longo da semana um texto sobre o fim da obrigatoridade do diploma de jornalista decidida pelo STF.
Já discuti tanto este assunto em congressos, seminários e debates ao longo das últimas décadas, que não encontrei um ângulo novo para escrever sobre esta decisão, que já era mais do que esperada.
Depois de ler tudo o que os outros escreveram, encontrei neste domingo na Folha um texto que resume tudo o que penso sobre o assunto. Foi escrito pelo mestre Janio de Freitas, em sua coluna publicada à página A9, sob o título “A liberdade das más razões”, cuja leitura recomendo aos leitores.
Termina assim: “O julgamento do STF dispensou a desejável associação entre direito à liberdade de expressão e, de outra parte, recusa a argumentos inverazes. A boas razões preferiu a demagogia”.
Os assuntos mais comentados
Como faço todos os domingos, publico abaixo o levantamento dos três assuntos mais comentados esta semana no Balaio, na Folha e na Veja, as duas publicações impressas de maior circulação do país.
Balaio
Muricy Ramalho/São Paulo F.C.: 276
José Sarney/Carta aberta: 238
Crise na USP: 139
Folha
Sarney: 239
Congresso: 95
Lula: 86
Veja
Violência nas escolas: 38
Tragédia do voo 447: 35
Escândalos no Senado: 19
Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog
Tags:
20/06/2009 - 09:56
Atualização às 15:45:
Mr. Mané, o anti-Muricy
Como a cova já estava pronta, não esperaram nem Muricy Ramalho se despedir dos jogadores e já anunciaram o novo treinador. Quem? Ricardo Gomes. Quem? Pois é, chamaram para o lugar do treinador demitido um que é o oposto dele, um anti-Muricy. Podem chamá-lo também de Mr. Mané.
Por que? Perguntem aos dirigentes do São Paulo. Quantos títulos este rapaz já ganhou na vida como treinador? O que fez de bom nos clubes por onde passou no Brasil e na França, incluindo a seleção brasileira pré-olímpica?
Ao contrário de Muricy, um vencedor, o novo técnico do São Paulo é muito educado, muito elegante, fala muito bonito, um finório do futebol, que combina muito mais com os dirigentes do tricolor.
Como bem definiu em sua coluna meu colega de iG Alberto Helena, “muita pose e pouca substância”. Em lugar do técnico quatro vezes seguidas eleito o melhor do futebol brasileiro, os cartolas do São Paulo contrataram um mané para chamar de mister.
Agora, sim, eles poderão dar palpites à vontade, escalar o time, acertar o esquema de jogo _ tudo aquilo, enfim, que nunca conseguiram com o Muricy.
Faz sentido. Alguma coisa tinha mesmo que mudar no São Paulo depois daquele vexame de quinta-feira contra o Cruzeiro. Como não dava para mandar embora o time inteiro, demitiram o técnico, que custa mais barato, e trouxeram para o lugar dele um bom menino para obedecer às suas ordens.
Se for assim, Ricardo Gomes não dura seis meses e a diretoria que se cuide. A paciência da torcida está por um fio. Os mesmos torcedores que gritaram o nome de Muricy ao final do jogo no Morumbi, e vaiaram e xingaram o time, vão ficar agora no pé dos cartolas. Basta ver o que os comentários deles ao final do post abaixo que escrevi hoje de manhã.
Desta vez, não deu para o presidente Juvenal Juvêncio segurar Muricy. O São Paulo jogou tão mal _ ou melhor, nem mostrou vontade de jogar _ na eliminação contra o Cruzeiro, na noite de quinta-feira, no Morumbi, que os cartolas são-paulinos finalmente conseguiram o que estavam querendo desde o mau início do time na temporada no ano passado: derrubaram o técnico.
Desde que acompanho futebol, faz mais de 50 anos, uma coisa não mudou: quando as coisas vão mal, a primeira providência é trocar o técnico. Sempre foi assim. E quando parte do elenco está insatisfeita com o treinador, nada melhor do que fazer corpo mole em campo, entregar o jogo, como o São Paulo fez contra o Cruzeiro.
Aí juntou a fome com a vontade de comer. Depois do vexame de quinta-feira, estava na cara que os diretores descontentes havia tempo com Muricy não iriam perder esta oportunidade de encostar Juvêncio na parede e pedir a cabeça do treinador.
Não deu outra. Mal o jogo acabou, e a torcida ainda xingava o time no Morumbi, na madrugadade sexta-feira, dez dirigentes do São Paulo se reuniram para discutir a saída do treinador.
Muricy sabia que só contava com dois apoios para permenecer no São Paulo até acabar o contrato no final de 2010: o presidente Juvenal Juvêncio e a torcida, que sempre ficou do seu lado, gritando seu nome mesmo nos piores momentos do time. Foi assim que, contra a vontade da maioria dos diretores, ele se segurou no cargo e levou o time ao tricampeonato brasileiro no ano passado.
Sem saber de nada, imaginando que a história se repetiria, Mucircy foi ao CT da Barra Funda e treinou o time na tarde de sexta-feira, mas seu destino já estava selado. À noite, pressionado por seus colegas de diretoria, Juvêncio foi obrigado a comunicar a Muricy que ele estava demitido.
A relação do treinador com os cartolas são-paulinos sempre foi tensa e Muricy não fazia nenhuma questão de esconder seu descontentamento com alguns diretores, como ele deixou bem claro na longa entrevista que concedeu à revista Brasileiros na edição de fevereiro deste ano. Para ler:
http://www.revistabrasileiros.com.br/edicoes/19/textos/499/
Filho de feirante do Mercado de Pinheiros, teimoso e marrento, de estilo centralizador, sem aceitar palpites no seu trabalho, Muricy não combinava muito com a grã-finagem da diretoria do São Paulo que se imaginava a única responsável pelos títulos do clube em razão da estrutura profissional montada pelo clube nos últimos anos.
Era só uma questão de tempo _ e até que Muricy resistiu muito tempo. Nestes três anos e meio à frente do São Paulo, além dos três títulos brasileiros, o técnico baseava a confiança no seu taco na relação custo-benefício.
Embora não ganhasse um dos maiores salários do mercado de treinadores (300 mil reais por mes), revelou jogadores, como Breno, que, ao serem vendidos renderam muito dinheiro ao clube.
Foram 252 jogos nesta sua segunda passagem como técnico pelo Morumbi, com 139 vitórias, 67 empates e 46 derrotas, marcando 64% de aproveitamento _ o segundo maior da história do clube, só perdendo para Joreca, que dirigiu o time em meados do século passado.
No clássico contra o Corinthians, neste domingo, quem vai dirigir o time é o auxiliar técnico de Muricy, Milton Cruz. E ninguém se surpreenda se o São Paulo voltar a jogar um bom futebol e ganhar o jogo porque é impossível repetir o que tem mostrado nos últimos jogos.
Para provar que o culpado era Muricy e não eles, os jogores vão dar o sangue que não deram contra o Cruzeiro, para alegria dos cartolas são-paulinos, que queriam ver Muricy pelas costas há muito tempo.
O problema é exatamente este: os jogadores e os dirigentes que contrataram Washington e cia. vão continuar no Morumbi. Muricy vai sair de férias. Sorte dele, azar nosso.
Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog
Tags:
Voltar ao topo