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24/05/2009 - 10:46

No sertão das águas, 40 anos depois

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Padilha de volta ao cenário de \"Garapa\"Caatinga e pastos verdes, rios e açudes transbordando, aguadas dos dois lados da estrada que nos leva de Fortaleza para Quixadá, no semi-árido cearense.

É uma paisagem bem diferente daquela que o cineasta José Padilha encontrou ao passar 45 dias na região, em 2005, para filmar “Garapa”, o  documentário sobre o Brasil que ainda passa fome, que estréia em circuito nacional no dia 29 de maio.

O fotógrafo Manoel Marques e eu acompanhamos a viagem de Padilha, agora levando a mulher, Jô, e o filho, Guilherme, de cinco anos, até Choró, antigo distrito emancipado de Quixadá, onde vivem três das quatro famílias protagonistas do filme.

A reportagem sobre Padilha e o que mudou na vida delas nestes quatro anos será publicada na edição de junho da revista  Brasileiros (também aqui no iG)

É tanta água inundando este sertão das secas sem fim que não conseguimos chegar até a casa de duas famílias.

A estrada de Choró para Canindé simplesmente rachou ao meio, com a enxurrada levando o asfalto e deixando uma cratera de uns 20 metros de fundura separando as duas partes.

Já perdi a conta de quantas vezes vim ao nordeste para fazer reportagens sobre a seca e a fome, desde o final dos anos 60 do século passado, quando trabalhava no Estadão. Podiam mudar os cenários e os personagens, mas a história era sempre a mesma.

Na seca de 2001/2002, trabalhando na Folha, descobri algumas ilhas verdes em meio à paisagem esturricada na divisa do Ceará com Pernambuco. Combinei com o fotógrafo Jorge Araújo mudar o foco da reportagem.

Procuramos mostrar que, se o clima e o solo eram os mesmos para todos, em algumas regiões o povo conseguia conviver melhor com a seca, plantando e comendo, graças à ação de entidades reunidas em torno da Articulação do Semi-Árido (ASA), uma ONG do sertão.   

Com o fornecimento de sementes, o auxílio de máquinas e insumos para preparar a terra e a construção de cisternas, milhares de sertanejos haviam melhorado de vida. As fotos do Jorge Araújo retratando esta outra realidade surpreenderam não só os leitores, mas também os editores do jornal.

Desta vez, minha surpresa foi encontrar luz elétrica e água encanada na casa de pau-a-pique de uma das famílias do filme de Padilha, que agora não passa mais fome, mas ainda não conseguiu sair da miséria.

Francisca Robertina André Jerônimo, bisneta de índios, não sabe a idade, o nome do pai, nem o número exato de filhos. Eram 11 na época das filmagens, são 13 agora, todos morando nesta casa escura de quatro comodos, coalhada de moscas, que só tem uma pequena janela. O banheiro é o mato mais próximo. 

Quatro são do atual companheiro, Severino de Souza Feitas nos documentos, mas que todos só chamam de Luiz. Robertina parece estar grávida de novo, mas ela nega.

Com a ajuda de R$150 mensais, que a produtora de Padilha e seu sócio Marcos Prado envia todos os meses para as famílias, mais os R$ 138 do Bolsa Família, os filhos já não se alimentam só à base de “garapa”, como chamam a mistura de água com açucar, que acabou batizando o filme.

Não faltou mais comida para a família, que dorme dividida em três redes ou pelo chão. Com as enchentes, Luiz consegue até pegar uns peixes para a mistura, sem muito esforço, no corrego que se formou nos fundos da sua casa.

O repórter e RobertinaOs dois não trabalham. Robertina, que é lavadeira, porque precisa cuidar do monte de filhos. Luiz alega que os fazendeiros estão sem dinheiro para pagar as diárias de R$ 15 e está faltando serviço na roça.

A vida mudou muito nestes sertões, 40 anos depois que eu vim parar aqui a primeira vez e, quatro, após a filmagem de Garapa. Agora tem água encanada, luz e comida na maioria das casas, e as crianças vão para a escola.

Mas a tristeza da falta de perspectiva na rotina miserável ainda é a mesma, afogada na cachaça que une as vidas de gente como Robertina e Luiz, dois brasileiros que apenas sobrevivem graças à ajuda do governo e de voluntários que lhes prestam assistência.

A realidade da vida aqui, podem crer, que chocou tantos críticos e convidados nas pré-estréias de Garapa em Berlim, Nova York, São Paulo e Rio, é ainda mais dramática do que as cenas em preto e branco deste documentário em forma de reportagem ao vivo.     

Mais comentados

Como todos os domingos, desde a estréia do blog, publico abaixo a relação dos três assuntos mais comentados pelos leitores durante a última semana no Balaio, na Folha e na Veja, as duas publicações que também divulgam este levantamento.

Balaio

Dilma Roussef: 355

Jornalismo “isento”: 86

Crianças depredam creche: 72

Folha

CPI da Petrobras: 101

Educação: 63

Governo Lula: 56

Veja

Reverendo Aldo Quintão: 77

Crimes na internet: 28

Eduardo Paes: 27

 

 

  

 

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:

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30 comentários para “No sertão das águas, 40 anos depois”

  1. José Melquíades Ursi disse:

    Kotscho, quero lhe pedir desculpas por ter me dirigido a Azenha na mensagem enviada sobre a ministra Dilma. É que postei a mesma também no “Vi o Mundo”. Poderia lhe explicar a razão, mas me parceria pernóstico. Posso o entanto lhe dizer que um padre paraplégico me pediu há muito tempo que continuasse a escrever, pois lia textos meus. Sonego apenas as razões que me alegou. Acho que compreenderá. Por isso, desculpe-me de novo.

  2. elmo j c silva disse:

    Muita boa a reportagem sobre o sertão das àguas, pois mostra q alguma coisa esta mudando mesmo q seja muito lento mais já e um comeso, no dia em q os nossos politicos deixar de ser ladrão e fazer alguma coisa para ajudar esses nossos imãos viver uma vida mais digna as coisas vai melhorar para eles.

  3. je disse:

    Será que deram o peixe e esqueceram de ensinar a pescar?

  4. jose xiri de souza disse:

    Bom dia Kotscho, Acho que não se pode pegar uma estupidez deste tamanho e levar para as telas principalmente num país de pessoas tão despreparadas como o nosso, o resultado disto é reforçar a imagem preconceituosa que foi sendo construída a décadas a respeito dos Nordestinos. Eu como Nordestino tendo migrado para SP aos dezoito anos e hoje 27 anos após como um brasileiro de classe média, economista, contador, sei que existe dificuldades mas o estado de miséria também é uma escolha. Se levassemos estas pessoas para o “ceu” elas o transformaria o pedacinho onde iriam viver em um inferno. Sinto muito, é por isto que muitos sulistas e não sulistas veem os nordestinos e aí sem o devido cuidado, como um bando de miseráveis, desculpe Kotscho, é preciso ter cuidado com estas coisas, a vida é uma questão de escolha e mesmo quando morei no Nordeste, nunca passei fome.

  5. só quero lembra que essa não é primeira enchente que ocorre no sertão nordestino a cerca de 4 anos ocorreu uma semelhante se em vez de terem gastado com uma transposição que so tem fim eleitoreiro e tivesse feito barragens e açude o problema da seca ja teria sido resolvido vcs do sudeste desconhece a realidade nordestina nós sempre temos epocas de enchente o que falta e vontade politica para fazerem reservatorios de agua para abastecer a população chega de mostras só miséria no nordeste pois a realidade e outra

  6. andré souto disse:

    Diziam nos anos 60 , que quando o governo não queria resolver um problema, criava um órgão “especializado”. Hoje, é o que não falta .Existe o DNOCS (Departamento Nacional de Obras Contra as Secas) , criado na época do Epitácio Pessoa e que ainda está aí. Foi muito citado pelo Antonio Callado, num livro chamado ” A indústria da Seca e os Galileus do Nordeste” (se não me falha um dos meus dois neurônios) e continua sua tradição de inoperância , ao lado dos inúmeros projetos de “erradicação “da seca, formando um caldo de cultura para todo o tipo de jogo político que se queira fazer, inclusive o eleitoral ,dando esmol.as que como dizia o Luiz Gonzaga “ou mata de vergonha ou vicia o cidadão”. Hoje quantos dnocs existem ? Os infames caminhões -pipas continuam fazendo em 2009 o mesmo que faziam em 1920: dando voto ás custas da miséria e da imbecilidade por ela gerada.

  7. tarcisio antonio do nascimento disse:

    ” O tempo é o senhor da razão’. Há muito esse ditado é falado, principalmente no interior da majestosa Minas Gerais, portanto já enxergamos e percebemos obras benéficas e não eleitoreiras deste grande Presidente, que governando principalmente para os mais pobres, não esqueceu a sua região começando sanar a triste indústria da seca, e muitos que durante séculos foram beneficiados, ficam tecendo críticas infundadas, invejam a competência e a inteligência do atual PRESIDENTE. Viva aaaaaaaaaaaaaaaaaaaa,

  8. everaldo disse:

    Em janeiro, vindo de Porto Seguro, após Vitória da conquista, na Bahia, parei em um posto para abastecer, um senhor, o seu José Galdino me pediu uma carona até Brumado onde estava uma irmã sua, com oitenta anos internada ha dois dias. No percurso, falou-me êle que morava em um sítio perto de uma cidadezinha por ali, e que a sua irmã havia começado a passar mal “na boca da noite”, lá pelas 22 horas já estavam dois carros, o do dono do supermercado, e o do dono da farmácia, para levá-la até um hospital em Brumado, pois ambos dependem da aposentadoria e da bolsa família que ela e sua família recebem, para manutenção de seus estabelecimentos. Garanto que ambos geram empregos, garanto.
    È isto aí, antes de LULA, o dinheiro só chegava para aqueles que já o tinham, com ele o dinheiro chega ao nordestino pobre, fazendo surgir este novo estilo de assistência social.
    E tem vagabundo , que fala dos programas de transferência de renda deste governo. Só sendo vagabundo mesmo.

    Ah! Sim!!! O seu José Galdino, também já tem luz elétrica em sua casinha de taipa. Disse também que o seu candidato seria o “candidato de LULA, fosse quem fosse”
    -E se for uma candidata, seu Galdino ?
    -Eu voto nela com todo prazer, meu sinhô.

    …e vamu qui vamu.

  9. everaldo disse:

    …iaí meu fi ! ? Tu anda demais rapaiz !!! Comeu feijoada de pé de cachorro ? Tá doido rapaiz. Tu num apanha da mulé não ? È ?

  10. Klaus disse:

    Eu acho lindo o Lula ter essa popularidade toda nessas horas, aqueles velhos que o criticam cheios de inveja como arnaldo jabour, varios aí do ig e ele só rindo kkkkkkkkk dave estar falando assim um dia voces chegam aqui. e a velha classe média paulista que se acha a dona do Brasil nao tem pra mim nada de bonito , cultural so um monte de doido que nao conseguem se explicar e morrem de medo da violencia. O nordeste tem as melhores praias do mundo e muita cultura e beleza nada comparado ao caos ridículo de SP

  11. nandao disse:

    quero saber sobre o estacionamento para deficiente fisico ir em um automovel qualquer e ter direito ao estacionamemto sem ter a obrigação de ter um veiculo em seu nome e em dia
    nem todo mundo tem seu carro em dia pois precisa do carro para soa locomoção e as vezes para seu trabalho.

  12. Adriano disse:

    Seria interessante o Lula explicar – já que ele, quando sindicalista, dizia que salário não era renda e, portanto, não devia ser tributado – o porquê de a SRF (SOB SEU COMANDO) dificultar tanto a vida daqueles trabalhadores que têm direito à devolução do IR pago com a venda de férias de 2003 a 2007. Estão exigindo a retificação obrigatória, para os trabalhadores, e facultativa, para as empresas. Ou seja, se a segunda não retificar, os dados não irão bater e, consequência imediata, malha fina. Lula, mudou de idéia? Afinal de contas, devolver esses DOIS BILHÔES DE REAIS para os trabalhadores que pagaram sem dever não seria uma “transferência” de renda mais do que justa?

  13. Arimatéa disse:

    Quando você falou em ilha verde entre Ceará e Pernambuco certamente acho que estava falando da minha terra: o cariri. Cariri de Padre Cícero, terra de grandes manifestações culturais como a Festa do Pau da Bandeira de Santo Antônio em Barbalha, além de um povo acolhedor. A chapada do Araripe é uma mata linda que embeleza mais ainda o sul do meu Ceará. Kotsho, estenda a sua viagem ao crajubar(Crato, Juazeiro e Barbalha)!

  14. Adriano disse:

    bati numa tecla errada….. continuando: essa exigência de retificação é, com certeza, uma ferramenta imposta para simplesmente dificultar a vida daqueles que têm direito à devolução. Resumindo: A SRF errou e persiste no erro, pois sua intenção, clara, é não devolver.

  15. Fredy Cardoso disse:

    Oi, Klaus. Porquê cuspir no prato em que voce come? A maior parte do dinheiro que sustenta essa festa sai daquí, de São Paulo, através dos inpostos federais pagos por nós, Paulistas, que acolhemos, nos anos idos, a malta de esfomeados que aqui aportaram em busca de melhores dias, de amparo e qualificação. Muitos dos que aquí ficaram, hoje já na segunda para a terceira geração, estão com suas familias estruturadas e emancipadas, a maioria com filhos e netos formados no 3º grau. Se não fosse pela riqueza gerada por São Paulo, a miséria seria mais triste aínda e você, talves, também estaria por aqui estendendo a mão para nós Paulistanos, e a teria, de bom coração, pode acreditar.

  16. lucifer disse:

    Miséria de de duzentos anos ,não acaba em oito.Desculpe, em seis e meio…

  17. Adriano disse:

    Que falta de educação….falei da “transferência” barrada pela SRF e não comentei o artigo. Minha opinião é meio que, digamos, paradoxal. Tenho um pé atrás com políticas assistencialistas (alguém acima já citou a velha história do peixe. Velha, porém válida). Ao mesmo tempo, acho que a ajuda a quem tem fome deve ser incondicional. Assim como um bombeiro, ao apagar um incêndio, não quer saber quem colocou fogo ou de quem será o prejuízo. Está lá para apagá-lo, “só” isso. Parabéns a ele, pois sai do universo do achismo e da diagnose e, como dito, incondicionalmente, parte para a ação.

    Creio que deve haver, paralelamente, políticas SÉRIAS para o desenvolvimento dessas regiões e suas comunidades, pois a assistência entendo não deve ser o fim, mas apenas um dos meios e, como tal, deve ser temporária, do contrário as políticas para desenvolvimento dessas comunidades não estaria dando resultado. Ficando somente no assistencialismo, corre-se o risco da miséria transformar-se numa escolha. Que o diga, pelo visto com conhecimento de causa, o José Xiri de Souza (13:03).

  18. Adriano disse:

    FLA X FLU….. PT X PSDB…… Fredy Cardoso (19:55) X Klaus (17:34). É , tá difícil….

    em tempo: êta linguinha…. “não estariam”….

  19. Cristina disse:

    Há um tipo de brasileira que tem um chip a menos no cérebro. Como é que consegue fazer tanto filho? O problema do Nordeste não é nem a seca e nem a chuva, o problema é a mulher. Outro dia passou na TV uma cena de uma reintegração de posse com força policial, uma das mulheres, com forte sotaque nordestino, reclamava que não tinha para onde ir com os filhos, parecia não ter mais de 25 anos e já tinha 5 filhos, todos empilhados num barraco miserável construído nas margens de um rio fétido de São Paulo. Eu tenho vergonha de ser mulher brasileira, para o Nordeste só a solução chinesa resolve, não precisa ser tão exagerado, dá até para permitir que a nordestina tenha mais de um filho, desde que ele tenha quarto para dormir.

  20. Só quem não sabe quanto vale qualquer trocado $ para quem nada tem diz que o Bolsa Familia é uma esmola.
    A miséria não acabou mas diminui e muito. Quanto a seca pode vir aqui no Ceará em outubro que ela estará mostrando sua cara. Porém com muito menos sofrimento das familias mais pobres. Isso por causa dos programas sociais do governo Lula.
    É por isso que em 2010 Dilma vai vencer muito mais facil que alguns pensam, contra qualquer candidato do pig.

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