No sertão das águas, 40 anos depois
Caatinga e pastos verdes, rios e açudes transbordando, aguadas dos dois lados da estrada que nos leva de Fortaleza para Quixadá, no semi-árido cearense.
É uma paisagem bem diferente daquela que o cineasta José Padilha encontrou ao passar 45 dias na região, em 2005, para filmar “Garapa”, o documentário sobre o Brasil que ainda passa fome, que estréia em circuito nacional no dia 29 de maio.
O fotógrafo Manoel Marques e eu acompanhamos a viagem de Padilha, agora levando a mulher, Jô, e o filho, Guilherme, de cinco anos, até Choró, antigo distrito emancipado de Quixadá, onde vivem três das quatro famílias protagonistas do filme.
A reportagem sobre Padilha e o que mudou na vida delas nestes quatro anos será publicada na edição de junho da revista Brasileiros (também aqui no iG)
É tanta água inundando este sertão das secas sem fim que não conseguimos chegar até a casa de duas famílias.
A estrada de Choró para Canindé simplesmente rachou ao meio, com a enxurrada levando o asfalto e deixando uma cratera de uns 20 metros de fundura separando as duas partes.
Já perdi a conta de quantas vezes vim ao nordeste para fazer reportagens sobre a seca e a fome, desde o final dos anos 60 do século passado, quando trabalhava no Estadão. Podiam mudar os cenários e os personagens, mas a história era sempre a mesma.
Na seca de 2001/2002, trabalhando na Folha, descobri algumas ilhas verdes em meio à paisagem esturricada na divisa do Ceará com Pernambuco. Combinei com o fotógrafo Jorge Araújo mudar o foco da reportagem.
Procuramos mostrar que, se o clima e o solo eram os mesmos para todos, em algumas regiões o povo conseguia conviver melhor com a seca, plantando e comendo, graças à ação de entidades reunidas em torno da Articulação do Semi-Árido (ASA), uma ONG do sertão.
Com o fornecimento de sementes, o auxílio de máquinas e insumos para preparar a terra e a construção de cisternas, milhares de sertanejos haviam melhorado de vida. As fotos do Jorge Araújo retratando esta outra realidade surpreenderam não só os leitores, mas também os editores do jornal.
Desta vez, minha surpresa foi encontrar luz elétrica e água encanada na casa de pau-a-pique de uma das famílias do filme de Padilha, que agora não passa mais fome, mas ainda não conseguiu sair da miséria.
Francisca Robertina André Jerônimo, bisneta de índios, não sabe a idade, o nome do pai, nem o número exato de filhos. Eram 11 na época das filmagens, são 13 agora, todos morando nesta casa escura de quatro comodos, coalhada de moscas, que só tem uma pequena janela. O banheiro é o mato mais próximo.
Quatro são do atual companheiro, Severino de Souza Feitas nos documentos, mas que todos só chamam de Luiz. Robertina parece estar grávida de novo, mas ela nega.
Com a ajuda de R$150 mensais, que a produtora de Padilha e seu sócio Marcos Prado envia todos os meses para as famílias, mais os R$ 138 do Bolsa Família, os filhos já não se alimentam só à base de “garapa”, como chamam a mistura de água com açucar, que acabou batizando o filme.
Não faltou mais comida para a família, que dorme dividida em três redes ou pelo chão. Com as enchentes, Luiz consegue até pegar uns peixes para a mistura, sem muito esforço, no corrego que se formou nos fundos da sua casa.
Os dois não trabalham. Robertina, que é lavadeira, porque precisa cuidar do monte de filhos. Luiz alega que os fazendeiros estão sem dinheiro para pagar as diárias de R$ 15 e está faltando serviço na roça.
A vida mudou muito nestes sertões, 40 anos depois que eu vim parar aqui a primeira vez e, quatro, após a filmagem de Garapa. Agora tem água encanada, luz e comida na maioria das casas, e as crianças vão para a escola.
Mas a tristeza da falta de perspectiva na rotina miserável ainda é a mesma, afogada na cachaça que une as vidas de gente como Robertina e Luiz, dois brasileiros que apenas sobrevivem graças à ajuda do governo e de voluntários que lhes prestam assistência.
A realidade da vida aqui, podem crer, que chocou tantos críticos e convidados nas pré-estréias de Garapa em Berlim, Nova York, São Paulo e Rio, é ainda mais dramática do que as cenas em preto e branco deste documentário em forma de reportagem ao vivo.
Mais comentados
Como todos os domingos, desde a estréia do blog, publico abaixo a relação dos três assuntos mais comentados pelos leitores durante a última semana no Balaio, na Folha e na Veja, as duas publicações que também divulgam este levantamento.
Balaio
Dilma Roussef: 355
Jornalismo “isento”: 86
Crianças depredam creche: 72
Folha
CPI da Petrobras: 101
Educação: 63
Governo Lula: 56
Veja
Reverendo Aldo Quintão: 77
Crimes na internet: 28
Eduardo Paes: 27
Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:


Diálogo informal com um colega agora cedo:
Colega: Adriano, o fulano, caseiro lá do sítio, falou que vai embora, pois um salário que lhe pago está pouco e não dá pra viver. Segundo ele, voltando pra sua terra ele recebe, sem trabalhar, praticamente o memo valor.
Adriano: Não entendi, colega. Trabalhando, um salário não dá pra viver. Mas sem trabalhar, um salário dá pra viver? Como funciona isso?
Será esse colega, dono do sítio, um vagabundo?
Bom Dia Kotscho!
Adoramos que vc colocou FOTOS!!!
Um blogueiro renomado como o sr tem que ter fotos/imagens no blogue! Dá todo um glamour moderno conscistente. Bom fica aqui a observação/ sugestão de você colocar sempre que possível, pois uma imagem fala mais que mil palavras; e isto somado a sua escrita única, fica simplesmente sensacional!
Boa semana para você e sua família!
Os comentários a este assunto são poucos, 22, ate´agora.
Simples: contra fatos não há argumentos.
Só quem conhece o nordeste, principalmente o interior, sabe de sua realidade.
É preciso por o pé no chão, ter conhecimento de causa e, depois poder falar.
É fácil meter o pau há 2, 3 mil km de distância, sem nunca ter conhecimento do que é miséria, de barriga cheia.
Aqui, no sul, com perdão aos nossos irmãos do norte/nordeste, até no lixo se vive, com quanto em muitos daqueles confins, nem lixo tem.
Corrigindo: até do lixo se vive
O Senhor vai ser transferido seo Manoel?
Houve uma conversa Cida, mas ainda não fui comunicado!
É que hoje pela manhã, ouvi o Dr. Rogério, dizendo ao Dr. Arthur que o senhor vai para Recife!
Então você está sabendo mais que eu Cidinha!
O senhor vai aceitar?
Sei lá, o trabalho é o mesmo, mas pra dizer a verdade, eu não conheço nada de lá, nem o povo ou os costumes, só estive de passagem, dois ou três dias e isso não conta!
Meus filhos já tão criados e cada um tocando a sua vida acham que não tenho nada a perder, e a cada trinta dias eu tenho direito de ficar dois aqui!
É vai fazer bem pro senhor, tirando o calor o resto é bom! “A família da Cida era uma retirante do sertão do Cariri!”
E Foi assim que fui embora pro sertão da macaxeira!
Depois de algumas semanas, resolvi morar em Moreno, terra boa de gente de bem, umas muié bacana, e uns cabras bão de bacamarte!
Arresolvi adepois de uns dias de nada que eu devia me afunda pros cafundó do sertão, daquele sertão pobre de estrada sufrida de poeira de meu Deus!
Enchi o tanque e vazei pra dentro riscando pra longe du mar e fui deixando pra trás Jaboatão, Moreno, Vitória de Santo Antão, Bonanza, a Bunita e fria Gravatá, e adepois veio intonsi o pó, e de tanto vê carcaça de gado morrido de morte sem explicação, e uns pé de Mandacaru qui insistia em mi acumpanhá aos montão, serra abaixo inté avista de longe, já sacudindo o coração,aquela festança qui é Caruaru, onde tudo é muito bom!
Mais nu caminhu di ida pra lá, uma coisa me dispertô a atenção.
Aquelas carcaça de boi morrido de sede i di fomi tava certo não.
Qui fizeru os bichino morre sem ao menos satisfaze a família du patrão.
Entonse foi quando lembrei de Lua, um Matuto dos bom, sim ele mesmo o cantado do sertão e tentei forma as palavras di Asa Branca. Em meu coração e lembrei assim:
-Quando oiei a terra ardendo
com a fogueira de São João
Eu perguntei, a Deus do céu, ai
Por que tamanha judiação(2x)
2-Que braseiro, que fornaia
Nem um pé de prantação
Por falta d’água perdi meu gado
morreu de sede meu alazão(2x)
3-Inté mesmo a asa branca
Bateu asas do sertão
Entonce eu disse adeus Rosinha
Guarda contigo meu coração(2x)
4-Hoje longe muitas légua
Numa triste solidão
Espero a chuva cair de novo
Para mim vorta pro meu sertão(2x)
5-Quando o verde dos teus olhos
Se espalhar na prantação
Eu te asseguro não chore não, viu
Que eu voltarei, viu
Meu coração(2x)
Ricardo, já faz algum tempo que eu não passo mais por lá, quero ver se neste final de ano consigo, mas eu duvido que tenha mudado uma só letrinha da poesia do Gonzagão!
Abraços Fraternos
Manoel Ferreira
Caro Ricardo:
Sou fumante inveterado e estou tirando de letra todas essas regras impiedosas a que estão nos submetendo, pobres e indefesos fumantes. São regras piores do que aquelas aplicadas aos infiéis e feiticeiras da inquisição. Assim, sem poder espernear, fumo onde nos deixam fumar – por enquanto – e fim de papo!
Essa sua matéria, como a maioria das que li no seu blog, é muito boa, de tal forma que considero que deva ser difundida o máximo possível, inclusive aqui na minha horta. Assim, com a sua devida licença, vou reproduzi-la no meu blog. Lógico que vou citar a fonte e colocar um link pro seu blog na cor cinza fumaça na postagem dela.
Linhás, virei seu freguês!
Grande abraço.
Ok, mas ninguém fala sobre os desabrigados das enchentes no nordeste… Cadê a ajuda humanitária do governo federal???
Nelson Jobin
A irresistível atração do polivalente Ministro Nelson Jobin pelos holofotes e câmaras de televisão – que já o levou a fantasiar-se de general camuflado – vem envergonhando o Brasil e o mundo !
Rotulado pelo jornal Le Monde de (bavard), “linguarudo”, “falastrão” ou “bisbilhoteiro”, em razão da entrevista coletiva que concedeu a jornalistas de todo o mundo, sobre o acidente aéreo com o Airbus 330 da Air France, sem sombra de dúvidas, a adjetivação de sua performance pelo jornal francês lhe ficou barato…
Arrogante, despreparado, sem conhecimentos técnicos, as vezes, até mesmo com ar debochado ao responder às perguntas dos jornalistas, sem o menor respeito pelos mortos no acidente e suas famílias – descendo a detalhes mórbidos, e abusando do “chutômetro”, desta vez o Ministro Jobin se superou…
Vendo a sobriedade, a cautela, a competência, e o respeito das autoridades francesas para com as famílias dos mortos no acidente, a nós brasileiros só resta pedir desculpas ao mundo pelo ministro de defesa que temos…
Como afirma elegantemente a TV France 2, “a França é mais prudente antes de falar”.
Renan Maciel Brasil
Mais uma vez a justiça brasileira foge do que é o correto!!! Como neste caso do menino Sean,muitas crianças aquí no Brasil sofrem com as “indecisões judiciais” .Alem de levarem quase 4 anos analisando ,indo para assistentes sociais e psicologos ,mais ministerio publico , as crianças são as unicas ralmente prejudicadas ,alem do genitor (a)que está sendo afastado do filho(a). È claro que lugar de filho é com os pais e não com avós e padrastos e madrastas.
O menino S. tem ficar com seu pai biológico sim! ele não foi abandonado, na verdade foi raptado, a mãe o trouxe para visitar os avós , chegou ao Rio envolve-se, num caso claro de infidelidade, engravida e falece, os avós maternos deviam ser os primeiros, a providenciar o regresso do menino, sem desculpas imbecis, o padrasto”Ricardo”( não quero baixar o nível), também devia por a mão na conciência e obviamente reconhecer , que já causou estrago demais, em pessoas inocentes, reconheço que envolvimento sentimental é coisa séria, mas uma vêz que a Mãe do menino faleceu , ele devia sair de cena e procurar reconstruir sua vida sentimental, quanto ao ministro M.Melo ele nunca fêz nada que eu poudesse admirar, quanto ao PP só podia ser o partido do Maluf. S. para os E.U.A já! e seja feliz , e tomara que ele possa superar esse drama terrivel.