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Arquivo de maio, 2009

31/05/2009 - 09:22

Metade do eleitorado já apóia 3º mandato

Aos leitores:

passei o dia fora no aniversário do meu neto caçula e, por isso, só fiz a moderação de uma parte dos comentários agora no começo da noite. Continuarei este trabalho mais tarde, publicando os demais comentários.

Dei o título acima a este post apenas para demonstrar como é possível, a partir das mesmas informações, dar manchetes completamente diferentes, com o sinal trocado.

Os editores da Folha de S. Paulo preferiram destacar que “3º mandato de Lula divide o país _ Proposta tem o apoio de 47% e é rejeitada por 49%, revela Datafolha; popularidade do presidente sobe”.

Leitores desavisados sobre os critérios editoriais da nossa grande imprensa poderiam inferir, a partir da manchete da Folha, que a luta de Lula por um terceiro mandato estaria dividindo o país, como se esta proposta estivesse para ser votada no Congresso Nacional e dominasse as conversas nas ruas.

Como sabemos, não se trata de uma coisa nem de outra. Quase toda semana, como na última, faz anos que Lula descarta a possibilidade de um terceiro mandato.

E a tentativa feita quinta-feira por um deputado inexpressivo (Jackson Barreto, do PMDB-SE) para colocar o asssunto em discussão na Câmara não conseguiu o número mínimo exigido de assinaturas.

Pela enésima vez repito aqui no Balaio que esta história de terceiro mandato é uma bobagem levantada por áulicos e adversários do presidente Lula, nunca foi cogitada por ele. Ele é contra por uma questão de princípios, em respeito à democracia e ao que está escrito na lei, como eu também sou.

Em entrevista que fiz com ele para a revista Brasileiros, no final de 2007, reproduzida outro dia aqui no Balaio, perguntei-lhe se não aceitaria disputar a re-eleição nem se o povo pedisse e ele me respondeu categoricamente que não, não havia esta possibilidade.

Então, qual a razão da pesquisa, por que afirmar que o país está dividido em torno desta questão? Por acaso, pensou-se em fazer a mesma pesquisa na segunda metade do segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso?

A resposta pode estar em outras questões levantadas pela pesquisa, mostrando que, apesar da crise econômica mundial e das suas consequências para a vida do brasileiro, da gripe suína, das enchentes e das secas, a popularidade do presidente não só não foi abalada como continua subindo, assim como as intenções de voto em sua candidata à reeleição, a ministra Dilma Roussef:

O que mostra o Datafolha:

* A avaliação do presidente Lula, na metade do seu sétimo ano de governo, chegou a 69%, no mesmo patamar de antes da crise financeira.

* Se pudesse ser candidato à re-reeleição, ganharia com folga de José Serra já no primeiro turno.

* A intenção de voto para presidente em Dilma Roussef subiu de 3%, em março de 2008, para 16% agora, passando Ciro Gomes e Heloísa Helena, enquanto o líder das pesquisas, José Serra, caiu de 41%, em março de 2009, para 38%, diminuindo em oito pontos a distância de um para outro.

Qualquer um destes resultados da pesquisa também poderia ter sido manchete da Folha, assim como o fato de que mais brasileiros agora apóiam um terceiro mandato para o presidente:

* Em 2007, 31% eram a favor e 65 contrários à mudança na lei para que Lula pudesse concorrer a um terceiro mandato; agora, há empate técnico: 47% são a favor e 49% contrários.

Por isso, acho que a minha manchete _ “Metade do eleitorado já apóia 3º mandato” _, modéstia à parte, seria jornalísticamente mais correta.

Somando tudo e passando-se a régua, a pouco mais de um ano do início oficial da campanha presidencial de 2010, entende-se porque a oposição resolveu jogar tudo na criação de uma CPI da Petrobras, enquanto continua agitando o fantasma do terceiro mandato.

Ou alguém honestamente pode imaginar que a oposição está mesmo interessada em investigar a administração da Petrobras para melhorar o desempenho da empresa e que ainda haveria tempo útil para alterar a lei permitindo a re-eleição do presidente Lula?

Parece ser tudo só uma disputa por manchetes _ e, neste campo, como vimos, cada um pode escolher a sua.

Os números da semana

Como faço todos os domingos, publico abaixo o levantamento dos três assuntos mais comentados na última semana no Balaio, na Folha e na Veja, as duas publicações impressas de maior circulação do país:

Balaio

Caça aos fumantes: 277

Almanaque do Elifas: 30

Nizan Guanaes: 28

Folha

Educação: 61

CPI da Petrobras: 37

Violência/segurança: 34

Veja

Comer sem culpa: 42

Silvio Santos e Maisa: 20

Sucessão presidencial: 16

  

 

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
30/05/2009 - 09:56

Entrevista exclusiva/Rodrigo Cavalheiro: Um repórter brasileiro descobre a África

O que qualquer repórter faria se ganhasse um prêmio importante e uma boa grana em euros? Daria entrada num imóvel, compraria um carro novo ou faria um belo passeio com a mulher pela Europa?

Pois o jovem repórter gaúcho Rodrigo Cavalheiro, de Zero Hora, que estava trabalhando no portal do jornal El País, em Madri, pegou a grana que ganhou com o Prêmio Rey de España 2008, largou o emprego e a namorada, comprou uma mochila e um laptop e foi descobrir a África.

Desde o dia 7 de maio, como informou esta semana o Jornalistas & Cia., quando pegou uma carona em Madri em direção a Gana, passando por Marrocos, Mauritânia, Senegal, Mali e Burkina, Rodrigo está cruzando a África por terra, viajando de ônibus e de táxi, para fazer reportagens por conta própria ao longo de 14 mil quilômetros.

Achei a história fantástica e resolvi mandar um e-mail para o Rodrigo (bage10@hotmail.com), curioso por saber mais sobre esta grande aventura. Como esse negócio de internet deixou o mundo pequeno e muito rápido, poucas horas depois ele me respondeu:

“Oi Ricardo, tudo beleza?
Muito legal que você tenha se interessado pela história.

São 23h03 e estou em um hotel barato para missioneiros na rua Franceville, em Douala, Camarões. Abri meu computadorzinho aqui para escrever ontem e, surpresa, pesquei alguma conexão wifi cuja fonte é um mistério. Juro que não sei de onde é, mas chegou na hora. Tô fazendo uma versão do blog em espanhol e tinha muita coisa atrasada para transmitir. Além disso, só assim posso te responder tão rápido. Às vezes, fico dois ou três dias sem internet”.

A seguir, a entrevista com Rodrigo Cavalheiro:

Balaio _ O que tua namorada te disse quando você comunicou a ela que iria partir pra África de carona e deu-lhe o adeus no dia 7 de maio?

Rodrigo _ Bah, esta história é complicada… Eu tava trabalhando no El País.com, mas andava meio de saco cheio. Ela sabia disso, que eu estava lá mais por causa dela do que pela questão profissional. Quando apareceu a carona e ela teve que cancelar (com razão) uma viagem que faríamos naquela mesma semana… achei que era hora de chutar o balde e apostar nesta reportagem. A bola tava picando.

Na verdade, quando nos despedimos naquele dia, ela entendeu. Terminamos na boa, porque era meio questão de tempo eu sair da Espanha. Mas pra ser sincero ela não gostou muito quando contei a história da despedida repentina na entrevista ao Jornalistas & Cia. E provavelmente não goste se descobrir que eu estou repetindo a história no teu blog, hehehe. Mas ela está em Madri, espero que tu não tenhas leitores por lá.

Balaio _ Quais foram as passagens mais dramáticas e as mais engraçadas que viveu desde o dia 8 de abril?

Rodrigo _ Cara, vou colocar por partes:

A mais tensa: chegar e sair de Lagos de noite, quando nem os próprios nigerianos se atrevem a pegar um táxi lá a esta hora. A cidade tem apagões durante todo o dia e lá o bicho pega mesmo. Passei duas noites em um hotel sem luz e que se chama Ritz (não é da cadeia, claro). Tive que fazer a mochila com a luz do computador e sair do hotel sem ver um metro adiante. Sair no breu de uma cidade com 13 milhões de habitantes, com a fama de ser a mais violenta e corrupta da África, de madrugada, em um táxi qualquer para ir uma rodoviária… Mete medo.

A melhor noite: há dois dias vi a final da Liga dos Campeões na favela
onde vivia o Etoo, aqui em Douala. Fiquei amigo de um cara que me levou em todos os lugares, ao fã clube do Barcelona aqui e até ao night club que
o Etoo frequenta com os amigos dele. O dia seguinte não foi divertido,
uma baita dor de cabeça…

A mais engraçada: tem várias. Uma rápida de contar. Tava fazendo uma matéria num cabaré em Acra, Gana. No banheiro, um turista me pára e diz: vejo que você é novo aqui. Cuidado, aqui vêm muitas prostitutas.

Ah, também em Gana, um dos caras com quem eu estava viajando teve um problema intestinal em um parque nacional onde se caminha por umas passarelas móveis, a 40 metros de altura sobre as árvores. Descemos correndo, mas o cara não aguentou. Disse que os cipós tinham agarrado ele pelos pés e, enfim… Tivemos que comprar umas calças pra ele na lojinha do parque.

Ver o Real Madrid levar de 6 em casa do Barcelona, na única televisão que encontrei, em uma loja de informática de Cape Coast, também foi muito engraçado.

O momento mais emocionante: em uma vila sobre palafitas na fronteira de Benin com a Nigéria. Um menino perguntou meu nome e começou a repetir. Em seguida, outro. Em minutos, havia umas 15 crianças me seguindo e gritando Ro-dli-go. Tenho o vídeo e é impagável. 

Balaio _ O que a realidade vista de perto mudou na tua forma de ver o povo africano _ ou melhor, os muitos povos africanos?

Rodrigo _ Primeiro, isso mesmo, que são muitas Áfricas. Sou fã do Kapuscinski e tinha uma idéia das diferenças entre as regiões, mas estando aqui é outra coisa. Me surpreenderam as semelhanças com o Brasil. Os povoadinhos nas margens do rio Senegal são o Nordeste, só que em vez de igrejas há mesquitas. Aliás, enfrenta-se o mesmo risco de atropelar um burro viajando de noite.

A convivência com os muçulmanos é uma coisa que não me surpreendeu, mas apenas confirmou algo que era uma impressão. Às vezes, o noticiário nos faz pensar que o choque religioso e ideológico entre ocidente e oriente é inevitável, e não é. Há exemplos de convivência amistosa aos montes e de gente tolerante dos dois lados.
 
Mas o que segue me chamando a atenção é a mistura maluca de coisas que para nós estão em diferentes lugares no tempo e no espaço. Coisas que eu via na casa sem luz dos meus avós, lá em São Gabriel, no interior do Rio Grande do Sul, como a bolsa de plástico com água pendurada no teto para espantar as moscas. Só que em um hotel com wifi. Estes anacronismos fazem o cara repensar se o seu mundo é o normal, quando o seu mundo real é visto por um estrangeiro. Para quem tem uma casa sem latrina e com antena parabólica no Marrocos, aquilo é o normal e deve ser supercurioso um cara que tem casa com latrina. Muitos riem quando me vêem de bermudas e havaianas, mas não estranham uma mulher equilibrando um tonel na cabeça.

Também uma coisa que falei lá no Jornalista & Cia, que eu sou meio desconfiado, por natureza e por profissão. Mas que quando se conhece gente que te ajuda sem nenhum interesse, ou que fica genuinamente feliz com um aceno ou por tocar o teu cabelo… São coisas que não tinha visto no Brasil e que me deixaram mais otimista. É um risco.

Balaio _ Como é um dia na vida de um repórter itinerante em terras africanas? Sobra tempo pra se divertir um pouco? Como?

Rodrigo _ Olha, tenho acordado cedo e comido pouco. Quando não estou investindo numa história, estou escrevendo. Mas pra ser sincero me divirto fazendo as duas coisas. Primeiro, porque sou tímido e o lance de ser repórter dá o que é um superpoder para um tímido: falar com qualquer um, fazer qualquer pergunta e entrar em lugares que não se entraria em outra circunstância, como na favela do Etoo. Neste dia, por exemplo, bebi e me diverti como faço normalmente. Mas isso depende muito de quem você conhece e tenho tido sorte e alguma competência para confiar nas pessoas certas.

Um exemplo: em Benin, desci do quarto do hotel para pedir uma caneta emprestada na recepção, conheci dois jornalistas suecos e, 10 minutos depois, já estava dançando uma espécie de funk no casamento de uns nigerianos, em que os convidados jogavam dinheiro sobre os noivos, mas muito dinheiro. Isso é antológico, tenho o vídeo…

Também me divirto porque posso escrever o que quero, não sou pautado e não tenho dead line. Não ganho nada, tô gastando mais do que pensava gastar, mas neste minuto trabalho como qualquer jornalista sonharia, hehehe. Não tenho nem sou chefe. Estou livre de incomodações.

Balaio _ Quando e onde você planeja terminar esta viagem?

Rodrigo _ Pretendo e tenho que terminar na África do Sul, em julho. Quero voltar pro Brasil em agosto. A Patrícia, minha irmã, se casa em setembro e sou padrinho. Este é meu primeiro argumento se passar algum aperto no Congo: não me matem, pois minha irmã me mata se eu não apareço no casamento.

Balaio _ O que pretende fazer na volta ao Brasil? Que notícias você tem recebido daqui?

Rodrigo _ Tchê, pretendo arranjar um emprego que me permita estar tão feliz como tenho estado aqui. E que me pague o suficiente, hehehe. Dificilmente alguém vai me dar a liberdade pra fazer os textos, os vídeos e as fotos que estou fazendo, mas esse é o meu sonho. A verdade é que se o cara tá contente isso aparece no texto, o que te deixa mais feliz e te faz escrever melhor, e por aí vai. É como fase em time de futebol.

Um objetivo secundário é recuperar parte da grana que investi. E minha razão não é material. Se eu sair no prejuízo desta viagem a dona Gleida (minha mãe, que é ótima e até tá tentando um patrocínio pro blog) vai voltar a encher o saco para que eu faça um concurso. Para que tenha uma vida estável, para que só viaje nas férias, bla bla bla bla. Então, eu TENHO que sair dessa pelo menos como entrei.

Muita gente me pergunta se vou escrever um livro. Vontade e algum talento eu tenho, mas preciso batalhar editora. A merda é que esta história de crise deu um argumento fácil para que quem não quer se arriscar te diga não. Mas por que não? Porque sim. As redações mesmo estão aproveitando “a crise” para demitir gente e cortar investimentos em reportagem etc. Se a crise chegar mesmo vai ser preciso contratar gente para ter quem mandar embora.

Espero ter te ajudado. Quando falo que ando muito feliz ultimamente é porque de alguma maneira pessoas que eu nem conheço, e não só a minha mãe, estão reconhecendo meu esforço. E quando abro o meu humilde correio bage10 (que nenhum editor-chefe abre quando ofereço matérias, provavelmente porque acham que é spam ou venda de viagra) e tem um e-mail do Ricardo Kotscho, honestamente penso que fiz o que tinha que fazer lá no dia 7 de maio. Ela que fique braba.

Um abraço,
Rodrigo

Em tempo:

Para quem quiser acompanhar as andanças de Rodrigo Cavalheiro em terras d´África, ele mantém um blog:
www.zerohora.com.br/africa

Links para os vídeos:

Estes são da vila de palafitas Ganvié, em Benin:

http://www.youtube.com/watch?v=U2EZZJsw1eo
http://www.youtube.com/watch?v=zlFHfiNBGxQ

Este é o do casamento nigeriano:

http://www.youtube.com/watch?v=gGqK8zcZsgE

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
29/05/2009 - 11:39

Uma tarde com Nizan na sala trancada

Meu depoimento como testemunha de defesa do Duda Mendonça no chamado “caso mensalão” não durou mais do que dez minutos, mas os rituais morosos da nossa Justiça, que devem ser os mesmos desde D. Pedro 2º, me deixaram por mais de cinco horas trancado numa sala no subsolo da 1ª Subseção Judiciária de São Paulo.

“Sob pena de desobediência e condução coercitiva”, o mandado de notificação convocou todas as testemunhas para o mesmo horário _ no nosso caso, às 14 horas. Enquanto é chamado um de cada vez para depor, as outras testemunhas ficam trancadas numa sala gelada só com água, café e um banheiro ao lado.

Por isso, como fui o penúltimo a ser chamado, apesar de ter chegado antes das 14, saí de lá depois das 19 horas, morrendo de frio, sem poder fumar, com sono e muita fome porque ainda não tinha almoçado.

Sorte minha que fiquei em boa companhia. As outras testemunhas de Duda eram os publicitários Nizan Guanaes e Armando Ferrentini, o boa praça que há 44 anos criou e até hoje dirige a publicação especializada Propaganda & Marketing.

Além deles, ficaram no confinamento também duas testemunhas de José Dirceu _ a ex-mulher, Angela Saragoça, e o ex-deputado petista Ricardo Zarattini. A conversa estava bem animada quando chamaram Zarattini, o primeiro a depor, às três da tarde.

Magro como um bailarino espanhol, Nizan foi ficando cada vez mais inquieto com a demora, ligado ao mundo apenas pelo seu blackberry, que consultava a todo momento.

Mesmo tendo se desligado das operações do dia a dia do conglomerado de empresas do Grupo ABC, que faturou U$ 280 milhões em 2008 e acaba de ser incluído entre as 20 maiores agências da publicidade mundial no Ranking Agency Report publicado pela Advertising Age, ele parece que está sempre com pilha nova, a mil por hora.

“Você já viu alguém deixar de ser publicitário aos 51 anos?”, pergunta para o incrédulo Ferrentini, que acompanha sua carreira desde a vinda de Nizan a São Paulo, como jovem menino prodígio revelado na DM9 de Duda Mendonça em Salvador.

Nizan revela que não cria mais campanhas e procura nem ir  às suas agências, entre elas a própria DM9 e a África, “para não atrapalhar o serviço dos outros”. Dedica-se agora apenas a pensar no futuro, criar novos negócios nas mais diferentes áreas, da música à moda, do esporte a projetos de defesa do meio ambiente.   

Virou um empreendedor, como ele mesmo diz, ainda entusiasmado com o último show de Roberto Carlos ao lado de vinte cantoras, terça-feira passada, no Teatro Municipal, um belo espetáculo que ajudou a criar e produzir.

Dono da conta do Itaú, um dos patrocinadores desta temporada em que Roberto Carlos comemora 50 anos de carreira, ele nos contou que um dos próximos shows do Rei vai ser com cantores sertanejos.

Na hora, falei-lhe do drama do Tinoco, 88 anos, da antiga dupla com Tonico, que luta para voltar aos palcos, como já foi relatado aqui no Balaio, para poder pagar o tratamento médico de sua mulher.

Nizan nem esperou que terminasse de contar a história. Já ligou logo no celular para um diretor da DM9, pedindo que cuidasse do caso Tinoco. “Estas coisas ou a gente faz na hora ou nunca mais, depois esquece”, ensina.

Usina viva de idéias e projetos, Nizan varou a tarde naquela sala trancada falando de novos planos de vida e de trabalho, agora que passa parte do dia em casa, só pensando.

Ri dele mesmo quando lembra da sua recente e breve separação  de Donata Meirelles, com quem está casado faz 10 anos. Cada um continua morando em sua casa, mas estão juntos de novo. “Minha separação foi um fracasso…”

Já estávamos até pensando em pedir uma pizza, quando Nizan foi chamado para depor sobre seu velho amigo Duda Mendonça. Levantou-se rápido da cadeira como se fosse receber mais um prêmio, deixando a conversa e os amigos na sala que foi novamente trancada.

No meu depoimento contei como conheci Duda (em 1989, durante a primeira campanha presidencial) e o apresentei a Lula, em 1993, e respondi a perguntas sobre o nosso trabalho na campanha vitoriosa de 2002, depois de três derrotas seguidas.

Saí do prédio da Justiça Federal já de noite, com a certeza de ter ganho mais um dia honestamente. Quando se está em boa companhia, nenhum tempo é perdido.

Além disso, boto fé que agora vão se lembrar do Tinoco e lhe prestar as homenagens que ele merece, voltando a cantar depois de mais de 70 anos de carreira.

Em tempo: atualização às 18 horas

Neste negócio de sempre escrever com pressa online e full-time, ainda mais quando não faço anotações, acabo esquecendo de falar da parte mais importante da história.

Durante a maior parte do tempo, Nizan falou do projeto que desenvolve já faz três no qual suas empresas adotam algumas escolas públicas e, em vez de ficar discutindo o nível do ensino no Brasil, ajudam a melhorar concretamente a vida de alunos e professores.

Como costuma acontecer com a maioria das empresas de comunicação do país, que se comunicam mal ao falar (ou deixar de falar) do que fazem, este trabalho nunca foi divulgado.

Disse a ele que, neste caso, não se trata de autopromoção, mas apenas de divulgar a experiência para que sirva de exemplo e estímulo a outras empresas do país que poderiam fazer o mesmo e adotar mais escolas públicas.  

Aos leitores

Alguns fiéis parceiros aqui do Balaio ficaram preocupados porque não atualizei o blog ontem, pensando que eu já estava doente de novo.

Explico a eles e aos demais leitores que, nesta minha vida de repórter viajante, e com problemas de saúde ainda não superados (tenho cirurgia marcada para o dia 9 de junho), tendo que fazer um milhão de exames, não consigo dedicar todo meu tempo ao Balaio, como gostaria, embora ligue o computador todo dia às 9 da manhã e só o feche as 11 da noite.

Ficar velho tem seus problemas, mas a opção é pior, como disse certa vez a Tônia Carrero a uma jovem repórter. Vida que segue.    

  

 

 

 

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
27/05/2009 - 11:10

Almanaque do Elifas na noite do Rei

Tinha recebido dois convites para eventos marcados no mesmo horário na noite de terça-feira. Como não dá para estar em dois lugares ao mesmo tempo, tinha que escolher.

Um convite era para participar da festa dos 10 anos da revista Almanaque Brasil, do grande Elifas Andreato, no Museu de Arte Moderna (MAM), e o outro para ver o show de Roberto Carlos com 20 cantoras, quase todas belas e formosas, no Teatro Municipal, em comemoração aos seus 50 anos de carreira.

Entre um velho amigo e um ídolo de muito tempo, meu coração balançou, mas acabei indo ao MAM para dar um abraço em Elifas, enquanto minha mulher, claro, ia ver o Rei no Municipal, o que é muito justo. Não me arrependi, garanto.

Voltamos os dois felizes para casa e um contou para o outro a bela festa que acabou de ver. No meu caso, não poderia ter sido melhor. Além de partilhar da felicidade do Elifas, um dos maiores artistas gráficos brasileiros de todos os tempos, ainda encontrei um monte de amigos e assisti a um belo concerto no auditório do MAM.

Rolando Boldrim, Antonio Nóbrega, Moacir Luz, Vicente Barreto e Celso Viáfora revezaram-se no pequeno palco para mostrar um pouco do que a música brasileira tem de melhor.

Imperdível, mas quem não viu não vai ver mais, ao contrário do show do rei Roberto Carlos, que poderemos assistir no domingo depois do “Fantástico”, na TV Globo.

Menino de família muito pobre criado no interior do Paraná, elifas começou a trabalhar cedo. Analfabeto até a adolescência, torneiro mecânico que gostava de desenhar, militante político perseguido pela ditadura, autodidata que acabou dando aulas de Artes na USP sem nunca ter frequentado um banco de escola, estava feliz de orelha a orelha no papel de mestre de cerimônias.

Desde que trocou o chão de fábrica por um estágio na Editora Abril, onde foi responsável pelo projeto gráfico da coleção de História da Música Popular Brasileira, nos anos 1970, ele já fez mais de 500 capas de discos, algumas delas antológicas, de Pixinguinha a Zeca Pagodinho.

Este é um cara mais velho do que eu que poderia viver só do que já fez no jornalismo, na música, no teatro, na literatura, nas artes plásticas, sempre deixando sua marca de talento e muita garra, mas ele sempre quer mais.

Agora mesmo, está acertando com Paulo Markun, da TV Cultura, e Tereza Cruvinel, da TV Brasil, que estavam no evento, um projeto para levar o Almanaque Brasil à televisão pública ainda este ano.

De tudo que Elifas já fez e faz, o Almanaque, que circula faz uma década a bordo dos vôos da TAM, com uma tiragem de 100 mil exemplares por mês, é seu filho dileto, que sobrevive com muitas dificuldades, com a ajuda dos seus outros filhos, mas também lhe dá muitas alegrias. 

Na contra-capa do livrão “Todo Dia é Dia”, que ele lançou pela Ediouro este ano, com os melhores momentos do Almanaque Brasil de Cultura Popular, ele resume o espírito da coisa:

“Como em todo bom almanaque, além de fatos curiosos e divertidos, aqui você também vai encontrar o que se comemora em cada dia do ano; o que se colhe no Brasil a cada mês; os signos; o significado das expressões mais tradicionais; os santos de cada dia do mês; as festas e os costumes populares”.

Entre tanta gente amiga, bonita e talentosa que lotou o auditório e o saguão do MAM, abastecida pelos petiscos e chopes do Pirajá, desfilava com sua camisa de renda vermelha comprada em Havana o miúdo Myltainho Severiano da Silva, dono do melhor texto jornalístico do país, ancorado no Almanaque deste a sua criação.

Quando vi os dois juntos, não resisti à brincadeira, e fui lá falar para eles: “Se o Elifas é o pai do Almanaque, o Myltainho só pode ser a mãe…”.

 

 

 

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
25/05/2009 - 10:07

Caça aos fumantes convoca dedo-duros

Que maravilha! Está oficialmente aberta a temporada de caça aos fumantes. A lei antifumo do governo Serra só entrará em vigor no próximo dia 7 de agosto, mas quem não tiver mais nada para fazer pode desde já pegar em armas e se alistar na grande cruzada contra o cigarro.

“Governo Serra vai estimular `dedo-duro´na lei antifumo”, diz o título do caderno Cotidiano da Folha de domingo, acrescentando logo abaixo: “Clientes poderão enviar até fotos para denunciar desrespeito à legislação”.

Comandante-em-chefe das forças da lei, o secretário da Justiça, Luiz Antonio Marrey, dá a senha _ ”serão admitidos todos os meios de prova lícitos em direito” _  e convoca suas tropas:

“É importante que as pessoas defendam os seus direitos e exijam que ninguém fume em locais fechados”.

Como se fosse necessária uma convocação oficial… Assim que começou o debate sobre a lei antifumo, vários leitores do Balaio e de outros blogs e publicações já se ofereceram como voluntários para esta guerra sem quartel.

Posso imaginar a cena: milhares de cruzados antifumo percorrendo os bares e restaurantes da cidade, celulares em punho, prontos para flagrar os contraventores, dedar os estabelecimentos e chamar a polícia.

Já que todos os nossos problemas de segurança pública estão resolvidos, deixando os policiais à disposição para defender a lei antifumo, e o ar que respiramos em São Paulo está que é uma pureza só, o inimigo público número um a ser atacado passa a ser o cigarro.

Quer dizer, começa com o cigarro, mas em pouco tempo as tropas do dr. Marrey poderão ser empregadas também em outros combates. Hoje mesmo, no Painel do Leitor da mesma Folha já temos uma pista sobre o que nos aguarda.

O leitor Ricardo Marques (São Paulo, SP) indaga: “Será que a próxima medida será podermos fotografar os motoqueiros que trafegam na calçada para `fugir´dos automóveis parados no farol?”

Por que não? Uma vez nas ruas, as tropas de dedo-duros poderão também fotografar carros furando o farol vermelho, os buracos nas ruas, o lixo não recolhido nas calçadas, maridos traindo suas mulheres e vice-versa, tipos suspeitos em frente às lojas, táxis clandestinos, ambulantes sem licença com produtos paraguaios, estudantes matando aula, colegas de trabalho indo ao cinema na sessão da tarde, funcionários públicos usando o carro oficial para passear, desafetos em geral mijando fora do penico, falhas na iluminação pública, porteiros dormindo na guarita dos prédios, cachorros vadios cagando onde não devem _ não faltará serviço, com certeza.

Convido os leitores a completarem a lista dando novas tarefas aos dedo-duros. Em breve, quem sabe, poderão se esquecer até dos fumantes. E São Paulo se transformará num imenso arraial da delação, com todo mundo dedando todo mundo até que o último santo possa assumir o poder.       

 

 

 

  

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
24/05/2009 - 10:46

No sertão das águas, 40 anos depois

Padilha de volta ao cenário de \"Garapa\"Caatinga e pastos verdes, rios e açudes transbordando, aguadas dos dois lados da estrada que nos leva de Fortaleza para Quixadá, no semi-árido cearense.

É uma paisagem bem diferente daquela que o cineasta José Padilha encontrou ao passar 45 dias na região, em 2005, para filmar “Garapa”, o  documentário sobre o Brasil que ainda passa fome, que estréia em circuito nacional no dia 29 de maio.

O fotógrafo Manoel Marques e eu acompanhamos a viagem de Padilha, agora levando a mulher, Jô, e o filho, Guilherme, de cinco anos, até Choró, antigo distrito emancipado de Quixadá, onde vivem três das quatro famílias protagonistas do filme.

A reportagem sobre Padilha e o que mudou na vida delas nestes quatro anos será publicada na edição de junho da revista  Brasileiros (também aqui no iG)

É tanta água inundando este sertão das secas sem fim que não conseguimos chegar até a casa de duas famílias.

A estrada de Choró para Canindé simplesmente rachou ao meio, com a enxurrada levando o asfalto e deixando uma cratera de uns 20 metros de fundura separando as duas partes.

Já perdi a conta de quantas vezes vim ao nordeste para fazer reportagens sobre a seca e a fome, desde o final dos anos 60 do século passado, quando trabalhava no Estadão. Podiam mudar os cenários e os personagens, mas a história era sempre a mesma.

Na seca de 2001/2002, trabalhando na Folha, descobri algumas ilhas verdes em meio à paisagem esturricada na divisa do Ceará com Pernambuco. Combinei com o fotógrafo Jorge Araújo mudar o foco da reportagem.

Procuramos mostrar que, se o clima e o solo eram os mesmos para todos, em algumas regiões o povo conseguia conviver melhor com a seca, plantando e comendo, graças à ação de entidades reunidas em torno da Articulação do Semi-Árido (ASA), uma ONG do sertão.   

Com o fornecimento de sementes, o auxílio de máquinas e insumos para preparar a terra e a construção de cisternas, milhares de sertanejos haviam melhorado de vida. As fotos do Jorge Araújo retratando esta outra realidade surpreenderam não só os leitores, mas também os editores do jornal.

Desta vez, minha surpresa foi encontrar luz elétrica e água encanada na casa de pau-a-pique de uma das famílias do filme de Padilha, que agora não passa mais fome, mas ainda não conseguiu sair da miséria.

Francisca Robertina André Jerônimo, bisneta de índios, não sabe a idade, o nome do pai, nem o número exato de filhos. Eram 11 na época das filmagens, são 13 agora, todos morando nesta casa escura de quatro comodos, coalhada de moscas, que só tem uma pequena janela. O banheiro é o mato mais próximo. 

Quatro são do atual companheiro, Severino de Souza Feitas nos documentos, mas que todos só chamam de Luiz. Robertina parece estar grávida de novo, mas ela nega.

Com a ajuda de R$150 mensais, que a produtora de Padilha e seu sócio Marcos Prado envia todos os meses para as famílias, mais os R$ 138 do Bolsa Família, os filhos já não se alimentam só à base de “garapa”, como chamam a mistura de água com açucar, que acabou batizando o filme.

Não faltou mais comida para a família, que dorme dividida em três redes ou pelo chão. Com as enchentes, Luiz consegue até pegar uns peixes para a mistura, sem muito esforço, no corrego que se formou nos fundos da sua casa.

O repórter e RobertinaOs dois não trabalham. Robertina, que é lavadeira, porque precisa cuidar do monte de filhos. Luiz alega que os fazendeiros estão sem dinheiro para pagar as diárias de R$ 15 e está faltando serviço na roça.

A vida mudou muito nestes sertões, 40 anos depois que eu vim parar aqui a primeira vez e, quatro, após a filmagem de Garapa. Agora tem água encanada, luz e comida na maioria das casas, e as crianças vão para a escola.

Mas a tristeza da falta de perspectiva na rotina miserável ainda é a mesma, afogada na cachaça que une as vidas de gente como Robertina e Luiz, dois brasileiros que apenas sobrevivem graças à ajuda do governo e de voluntários que lhes prestam assistência.

A realidade da vida aqui, podem crer, que chocou tantos críticos e convidados nas pré-estréias de Garapa em Berlim, Nova York, São Paulo e Rio, é ainda mais dramática do que as cenas em preto e branco deste documentário em forma de reportagem ao vivo.     

Mais comentados

Como todos os domingos, desde a estréia do blog, publico abaixo a relação dos três assuntos mais comentados pelos leitores durante a última semana no Balaio, na Folha e na Veja, as duas publicações que também divulgam este levantamento.

Balaio

Dilma Roussef: 355

Jornalismo “isento”: 86

Crianças depredam creche: 72

Folha

CPI da Petrobras: 101

Educação: 63

Governo Lula: 56

Veja

Reverendo Aldo Quintão: 77

Crimes na internet: 28

Eduardo Paes: 27

 

 

  

 

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
20/05/2009 - 15:52

O que muda na rotina de Dilma

Falei agora há pouco com um dos médicos da equipe que está cuidando da ministra Dilma Roussef no Hospital Sírio-Libanês.

Daqui para a frente, Dilma não poderá mais, até o final do tratamento de quimioterapia, previsto para agosto, continuar levando a vida que levava antes, no governo e na pré-campanha da sua candidatura presidencial.

Vai ter que se cuidar mais, viajar e trabalhar menos. Vai ter que, principalmente, evitar aglomerações e eventos com muitos participantes.

Para começar, não irá mais este final de semana a uma reunião com dois mil sindicalistas, nem ao almoço marcado para domingo, com artistas e intelectuais, na casa da ex-prefeita Marta Suplicy.

Uma semana após cada sessão de quimioterapia, é quando sua imunidade está mais baixa. Como a última foi quinta-feira passada, isso quer dizer que é este dia é amanhã. Por isso, os médicos recomendaram que ela ficasse mais um dia descansando em São Paulo antes de voltar a Brasília.

Dilma não tem parentes em São Paulo e está hospedada num hotel.  

 

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
20/05/2009 - 13:38

Crianças depredam creche. Meu Deus!…

Aos caros leitores:

Viajo amanhã cedo para Fortaleza e só volto no domingo. Vou ao sertão do Ceará fazer uma reportagem com o José Padilha para a edição de junho da revista Brasileiros.

Voltaremos à região onde ele filmou “Garapa”, o documentário sobre o povo que ainda passa fome, que estréia em circuito nacional no dia 29 de maio.

Até a volta.

                                           *

Ao terminar de ler a inacreditável notícia escrita pelo José Maria Tomazela no cada dia melhor caderno Metrópole do velho Estadão, que voltou a investir em boas reportagens, custei a acreditar como era possível acontecer uma coisa dessas.

Vejam se dá para acreditar:

“Cinco crianças e adolescentes, com idade entre 8 e 13 anos, invadiram e depredaram a Creche Escola Caminho Feliz, no domingo, em Botucatu, a 226 quilômetros de São Paulo”.

Botucatu, uma progressista porém pacata cidade universitária e agroindustrial,  na região da Grande Porangaba, que eu conheço bem, em nada faz lembrar os violentos subúrbios das nossas metrópoles.

O que está acontecendo com a nossa sociedade? Como chegamos a este ponto? Quem são e o que pensam da vida os pais destas crianças?

A mãe de um dos meninos disse que a invasão foi liderada por um garoto de 12 anos e que o bando mirim queria usar a internet da escola que funciona junto com a creche.

Só espero que não culpem a internet por esta barbaridade. O que tem uma coisa a ver com a outra? As crianças eram proibidas de usar a internet?

Na descrição de Tomazela, as crianças arrombaram as janelas e destruíram carteiras, armários, televisores, computadores e máquinas fotográficas. Material didático foi jogado no chão. O grupo também invadiu a cozinha e espalhou os alimentos. Em seguida, foram à creche, depredaram o berçário e atearam fogo em brinquedos.

Fossem mais velhos, eu logo pensaria que agiram sob efeito de drogas, só podia ser. Ou será que o tal do crack, que está invadindo as cidades do interior, já chegou nesta faixa de idade? 

Até algum tempo atrás, mesmo com todos os nossos crônicos problemas sociais, misérias em geral, desmandos políticos e crises econômicas, era inimaginável ler algo assim no jornal, envolvendo crianças do interior em atos de vandalismo.

Gostaria muito que os leitores me ajudassem a entender este episódio, tão trágico para o nosso futuro, que eu não tenho mais o que dizer.

Só me ocorre repetir o colega Ancelmo Góis, colunista de O Globo. Quando escreve sobre algum fato absurdo desses, o amigo conclui suas notas assim:

“Meu Deus!…”

 

 

   

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
19/05/2009 - 17:58

Fla-Flu dos leitores e jornalismo “isento”

É batata: basta publicar um texto com tema político que logo os leitores se dividem ao meio, num interminável Fla-Flu da disputa política, como se estivessem nas arquibancadas do Maracanã vestindo as camisas do PT ou do PSDB.

Este clima não agrada ao leitor Manoel Ferreira, que mandou hoje um comentário contra a crescente beligerância entre tucanos e petistas, a mais de um ano do início oficial da campanha de 2010.

Por isso, ele sugere que o Balaio trate de outros assuntos, como as enchentes no norte ou a seca no sul, as filas nos hospitais e outras mazelas da vida real dos brasileiros.

Até concordo com ele, e procuro evitar ao máximo falar de política, mas a verdade é que a maioria dos leitores, a julgar pelo número de comentários enviados, parece só se interessar por temas polêmicos que estão nas manchetes da chamada grande imprensa.

Mesmo quando trato aqui de assuntos mais amenos do cotidiano ou de futebol, não tem jeito: petistas aproveitam para falar mal dos tucanos e vice-versa.

A disputa eleitoral de 2010 parece que dividiu o  Brasil ao meio entre os pró-Lula e os que têm ódio do atual presidente e do seu governo. Não tem meio termo. O que varia é o tom dos comentários.

Os leitores que se identificam com seus nomes, sem pseudônimos ou codinomes, geralmente usam argumentos e fatos para defender suas posições, enquanto os valentes anônimos partem logo para o xingamento, a desqualificação de quem pensa diferente.

Na semana passada caí na besteira de defender algum tipo de regulamentação para colocar um pouco de civilidade nesta terra de ninguém, mas já vi que fui voto vencido _  a maioria não quer nem saber de nenhuma regra na internet.

É curioso isso porque, enquanto alguns leitores defendem a liberddade absoluta para defender suas opiniões, outros partem para o ataque com ofensas pesadas ao blogueiro porque cometi o crime imprescritível de ter trabalhado no governo com o presidente Lula.

Publico sem problemas estas críticas que me fazem, desde que não coloquem em dúvida minha honestidade pessoal e profissional, insinuando que o governo me paga para escrever o que escrevo _ certamente, pessoas que julgam os outros de acordo com seus próprios metros morais.

Como trabalhei lá, posso garantir que o governo nem tem dinheiro para isso. O governo paga muito mal.

Tem gente que vem com a história de que não sou um jornalista “isento”, estas bobagens. Vamos falar a verdade aqui, sem frescuras.

Em 45 anos de carreira, só conheci dois tipos de jornalistas.

Os que abrem o jogo e deixam bem claras para os leitores suas preferências ideológicas, partidárias, futebolísticas, religiosas e seja o que mais for.

E os que se escondem atrás de um suposto “apartidarismo”, ”neutralidade”, “isenção”, “objetividade científica”, como se fosse possível. Isso não existe.

Jornalista, como qualquer cidadão, tem lado. Uns escondem, outros não, mas todos têm suas preferências e seus antagonismos. O mesmo vale para as empresas e para os donos de colunas da velha mídia.

Eu nunca procurei enganar ninguém. Vejo e escrevo as coisas do meu jeito, da mesma forma como colegas meus, que pensam exatamente o contrário, analisam o mesmo assunto com o sinal invertido.

Se não há picaretagem no meio, o que é outra coisa, é do jogo. O leitor, que não é burro, sabe com quem está falando, ou melhor, de que lado está aquele que escreve.

O que o jornalista não pode fazer é mentir, ser desonesto com os fatos, querer manipular a notícia. O resto é opinião _ e cada um tem a sua.

Com a fartura de sites e blogs que temos hoje na internet, com a diversidade de opiniões expostas no mercado, cada um pode procurar o seu quadrado, escolher entre seus favoritos aqueles com quem mais se identifica.

Não pretendo convencer ninguém de que sou o dono da verdade, não quero levar leitores a pensarem da mesma forma que penso, não uso meu espaço para agredir nem agradar ninguém.

Quero apenas ter o direito de dar a minha visão sobre os fatos, contar as minhas histórias. Jornalismo “isento” pode ser muito bonito como tese acadêmica ou peça de marketing empresarial, mas não faz parte da natureza humana da qual fazem parte os profissionais de imprensa.

Assim como acontece com os leitores, também no campo dos jornalistas assistimos hoje a um Fla-Flu, com a diferença de que uns vestem a camisa e outros a escondem no armário.    

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
18/05/2009 - 09:51

Dilma, 3º mandato e a CPI da Petrobrás

Aos leitores:

tive problemas de conexão com o Speedy no meu computador durante todo o dia.

Por isso, a demora na liberação de comentários.

Por sugestão da minha mulher, que não desiste nunca, só agora, quase 11 da noite, abri meu laptop, que é conectado com a Tim. Parece que deu certo…  

Brasileiros _ O senhor já afirmou várias vezes que é contra um terceiro mandato consecutivo em 2010, mas muita gente da oposição e da imprensa ainda duvida disso. O que ainda falta o senhor dizer para tirar este assunto da pauta?

Presidente Lula _ Esse assunto, Ricardo, não sai da pauta porque virou uma bandeira da oposição. Todo mundo sabe que eu já era contra o segundo mandato, contra a reeleição, porque eu sou favorável à alternância do poder. E acho que somente o tempo vai calar aqueles que continuam teimando em dizer que eu quero um terceiro mandato.

Brasileiros _ Nem se o povo pedir?

Presidente Lula _ Não, definitivamente não, nem se o povo pedir. É preciso lembrar que, em 1978, quando fui eleito com 92% dos votos para presidente do Sindicato dos Metalúrgicos, convoquei uma assembléia exatamente para proibir mais de uma reeleição. A iniciativa foi minha.

                                                        *

O diálogo acima, entre o repórter do Balaio e o presidente Lula, faz parte de uma entrevista que fiz com ele para a revista Brasileiros, em dezembro de 2007 _  um balanço dos seus primeiros cinco anos de governo.

Íntegra da entrevista: http://www.revistabrasileiros/com.br/edicoes/6/textos/217

Um ano e meio e dezenas de conversas que tivemos depois, em nenhum momento o presidente deu qualquer sinal de que tenha mudado de idéia sobre o terceiro mandato.

Neste meio tempo, ao contrário, Lula lançou a candidatura da ministra Dilma Roussef e tem se empenhado com muita garra para fazer dela a sua sucessora, como bem sabem a imprensa e a oposição.

Mas não adianta. Sem bandeiras, sem discurso e sem unidade para se apresentar ao eleitorado em 2010, vira e mexe a oposição ressuscita o fantasma do terceiro mandato, já que a crise econômica mundial e a gripe suína não causaram o estrago esperado na popularidade do presidente e na aprovação do seu governo.

Um mes atrás, logo que o país foi informado sobre a doença da ministra Dilma, o fantasma voltou ao noticiário _ primeiro, nas colunas de futricas políticas e, em seguida, em declarações de dois líderes da oposição, os senadores Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) e Demóstenes Torres (DEM-GO).

Não demorou muito, e a tese foi abraçada por alguns bobos alegres do baixo clero do petismo, que sempre aparecem nestas horas para cavar uma brecha no noticiário .

Estes gaiatos certamente nunca ousaram falar com Lula sobre o assunto, mas conseguiram açular colunistas e porta-vozes da oposição, cada vez mais alarmados com o “perigo do terceiro mandato”.

Agora apareceu até uma PEC (Proposta de Emenda Constitucional) propondo um plebiscito sobre o terceiro mandato, que estaria na gaveta do deputado Jackson Barreto (PMDB-SE), uma figura folclórica, que nunca ninguém levou a sério, nem na base aliada, nem no Congresso Nacional.

Os adversários políticos de Lula, nos partidos e na mídia, e os puxa-sacos sem noção, podem falar tudo do presidente, menos achar que ele é burro.

Por mais que a oposição não queira, Lula entrega o cargo a seu sucessor ou sucessora na data prevista pela lei _ e fim de papo. 

E já que esta bobagem de terceiro mandato não assusta mais ninguém, a não ser alguns colunistas e a Velhinha de Taubaté, grandes estadistas tucanos, como Álvaro Dias, do Paraná, e Arthur Virgílio Neto, do Amazonas, resolveram tirar da manga um outro factóide: a CPI da Petrobrás.

No melhor momento da vida da maior empresa brasileira, quando o mundo todo está de olho nas recém-descobertas reservas do pré-sal, os nobres senadores da oposição juntam meia dúzia de recortes de jornal para montar o circo da CPI, que eles imaginam capaz de abalar o governo e alavancar para 2010 a candidatura presidencial do consórcio PSDB-DEM-PPS, estes baluartes da ética e do progresso.

Como não têm nenhuma proposta para melhorar a vida dos brasileiros, resolveram jogar ”no erro do adversário”, como se diz no futebol. O governo bobeou, acreditou mais uma vez na fidelidade do seu aliado PMDB, e lá estão nas manchetes, em lugar do mar de lama que inundou o Congresso Nacional, os valentes criadores da CPI da Petrobrás. 

A exemplo do que tem acontecido em todas as últimas “crises do fim do mundo”, quando um tema caro (nada é feito de graça) à oposição monopoliza todo o noticiário, é dos leitores e não de jornalistas que surgem as melhores análises sobre o que está acontecendo.

Quem melhor resume esta história nos jornais de hoje é a leitora Mara Chagas (São Paulo, SP) em carta publicada no Painel do Leitor da Folha:

“Mais uma CPI aberta por força do `patriotismo´do PSDB. O senador Arthur Vinrgílio se diz `preocupado´com o nosso patrimônio nacional. Desde quando? Quem vendeu empresas brasileiras a preços de banana, no limite da irresponsabilidade? O pior é que tudo começa com muito estardalhaço e termina com um belo acordo por baixo do pano. Já vimos este filme. Gastam-se tempo, saliva e dinheiro, enquanto Lula viaja embalado na sua enorme popularidade”.

Eles ainda não se deram conta de que não enganam mais ninguém.  

 

 

      

  

 

 

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
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