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Arquivo de abril, 2009

21/04/2009 - 15:17

Sonho e pesadelo, ciclos da vida

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Aos leitores que me cobraram a atualização do Balaio e a liberação de comentários, explico que só cheguei agora de viagem e tive, novamente, problemas de conexão com o notebook, meu genioso computador ambulante, que só funciona quando quer, onde quer.

Vocês sabem que não deixo de escrever nos feriados, nem no dia de Natal. Nem é por obrigação. Gosto disso. Mas não tem coisa pior do que escrever e não conseguir publicar.

Já aconteceu muito isso comigo nos tempos do telégrafo, do telex, das antigas marmitas que antecederam os laptops, mas minha incompatibilidade com as máquinas supera todas as conquistas tecnológicas. Nunca a gente consegue escrever de novo, do mesmo jeito, aquilo que se perdeu no espaço.

O bom do Balaio é que quando eu não publico texto novo, os próprios leitores fazem isto por mim, como aconteceu hoje com o Samuel, um dos nossos melhores comentaristas, às 12:45.

Ele me sugeriu escrever sobre o 21 de abril e as semelhanças entre a luta de Tiradentes contra a derrama dos impostos imperiais e o sacrifício dos brasileiros que estão enfrentando o Leão neste momento.

Mas o Samuel se empolgou com a sugestão e acabou escrevendo ele mesmo a matéria completa, melhor do que eu faria, cuja leitura recomendo (está nos comentários do post “Por que tanta gente quer ser jornalista?”.

Queria ter publicado ontem e o faço hoje, aproveitando este feriadão sem grandes novidades, uma breve reflexão sobre a vida para justificar o título acima.

Quantas vezes a gente não vai deitar, sonhando ainda meio acordado um sonho bom, na certeza de que tudo vai dar certo e, sem que nada tivesse acontecido de novo nas horas mortas da noite, amanhecemos cheios de pesadelos, pensando em compromissos, cobranças, maus presságios?

À medida em que as horas do dia caminham, as coisas vão acontecendo, boas ou ruins, independentemente dos nossos sonhos e pesadelos, das nossas pré-ocupações e desejos.

Será que em algum lugar já está tudo escrito e cabe a nós apenas seguir o roteiro que nunca nos foi mostrado? Alguns chamam a isso de destino, algo que nos seria dado ao nascer, um prato feito, como se nada pudéssemos fazer para mudá-lo.

Mas tivemos neste final de semana um caso que me fez pensar sobre o destino de cada um e estes sonhos e pesadelos que povoam nossas horas de repouso _ por vezes, mais cansativas do que o próprio trabalho, tão doidos e suados acordamos.

Com a vida louca que levou nos últimos anos e as graves e recorrentes contusões e cirurgias sofridas, parecia que o destino de Ronaldo estava selado, nunca mais voltaria a ser o que era.

Pois ao ver a arrancada que ele deu em cima do pobre do Rodrigo, deixado na poeira, para fazer o segundo gol do Corinthians e matar o São Paulo no jogo de domingo, dando um tapinha por cima do Bosco, fez a gente lembrar porque ele é chamado de Fenômeno. Pelo menos, agora, tata-se de um fenômeno de sobrevivência.

Quem mandou cutucar a fera com aquela besteira de chamar o Fenômeno de “ex-jogador”, como fez um diretor do São Paulo que não merece nem ter o nome dele publicado aqui? Talvez, depois dessa, já seja um ex-diretor…

Fenômeno é um cara que faz tudo o que um atleta não deve fazer e ressuscita para o futebol a cada nova curva de um destino que, para qualquer outro, poderia significar o fim da linha.

Nem em seus melhores sonhos, imagino que Ronaldo outra vez Fenômeno (e eu que já o chamei aqui de Ronalducho…) pudesse sonhar com um gol como este que levou o Corinthians às finais do Paulistão.

Muito menos dá para saber quantos pesadelos ele teve nestes últimos tempos, com tantas coisas ruins acontecendo em sua vida, apanhando de tudo que é lado, pisando feio na bola da vida.

Vendo hoje de manhã, na praia deserta, a maré subir na hora de sempre, pensei mais uma vez como não adiante ir contra a natureza das coisas, mas também não podemos perder as oportunidades que surgem à nossa frente, nem devemos correr riscos desnecessários.

Uma semana atrás, a ressaca brava, com ondas de três metros de altura, recomendava a pescadores e surfistas que não desafiassem o mar, mas muitos deles arriscaram. Alguns morreram.  

Ronaldo, por sua vez, não desperdiçou a chance que o Corinthians lhe deu, talvez a última, para ser feliz jogando bola.

Se bem que, no caso dele, deve-se tomar muito cuidado, e nunca falar em última chance.

Ele já teve várias _ e aproveitou todas. Apesar de são-paulino, fiquei feliz pelo Ronaldo, por ter dado a volta por cima, e sorrido de novo para a torcida, como um menino que se reencontrou com seu destino, ao mesmo tempo tão doce e tão amargo, a exemplo do que acontece com cada um de nós, filhos de Deus, célebres ou anônimos, não importa.

A cada noite precisamos transformar os pesadelos da manhã num novo sonho bom de ser sonhado _ e, de preferência, vivido. Faz parte dos ciclos da vida, dos altos e baixos que vão nos empurrando para um novo dia, apesar de tudo.

 

  

  

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
19/04/2009 - 12:14

Congresso: povo bravo perde a paciência

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Como faço todos os domingos, no balanço da semana, publico abaixo o levantamento das matérias mais comentadas no Balaio, na Folha e na Veja:

Balaio

Congresso: 498

Lei Antifumo: 133

Profissão: jornalista: 86

Folha

Congresso: 95

Artigo de Ferreria Gullar: 84

Educação: 43

Veja

Vestibular: 35

J.R.Guzzo: 17

Cigarro: 16

No Balaio, os posts sobre o deboche e a farra do Congresso Nacional, consumada ao legalizar todas as acintosas práticas de mau uso do nosso dinheiro reveladas esta semana, provocaram comentários cada vez mais irados dos leitores/eleitores, que estão perdendo a paciência. Seria bom que deputados e senadores pedissem a algum dos seus milhares de assessores para darem uma olhada no Balaio _ não necessariamente no que escrevo, comentários bastante singelos diante da situação, mas no sentimento de revolta crescente dos seus eleitores.

Cresce o número daqueles que pregam o voto nulo ou voto facultativo, defendem o boicote às eleições, querem sair às ruas e até pegar em armas, fuzilar, queimar e degolar parlamentares.

Os comentários foram publicos nos posts sobre a proposta de plebiscito do senador Cristovam Buarque (PDT-DF) para o povo decidir se quer ou não o fechamento do Congresso, publicado na terça-feira, e a farra das viagens de parentes e amigos de parlamentares ao exterior, por nossa conta, na quinta.

Cristovam mexeu numa ferida aberta. Um assunto acabou cruzando com o outro, na medida em que grande parte dos leitores defende, desde a semana passada, o fechamento do atual Congresso e a convocação de novas eleições, o que não quer dizer que queiram a volta da ditadura, embora alguns mais furiosos até sintam saudade dela.

É assustador o grau de indignação dos leitores que me escrevem de todas as partes do país. Ressalte-se que no Balaio não se trata de sala de bate papo entre tietes, mas de comentários bem fundamentados com argumentos, lidos e moderados um a um, publicados desde que não contenham ofensas e abobrinhas e contribuam para o debate de idéias e não de egos ou preconceitos.

Selecionei trechos de algumas destas manifestações que dão uma pequena amostra do que estou falando, como os leitores poderão ver abaixo.

B. Assis (15:34): “Ou mudamos no voto ou mudamos no cacete. Eu ainda estou preparado para pegar em armas, mesmo com 61 anos”.

Rita (16:29): “Até quando? Está na hora de irmos pra rua, derrubar o Congresso”.

José C. Barostti (16:19) ainda mostra alguma esperança: “Mas isso há de acabar um dia…”.

Márcio (14:45): “Será que os bons que lá estão, e que são exceções, também perderam a vergonha na cara? Reajam para o bem da democracia.

Maria Dojas (12:37): “Tenho uma sugestão. Fechar as portas do Congresso e meter fogo com todos dentro”.

Lúcio Ricardo (21:55): “Como eu fico? Cara de palhaço, nariz de palhaço, isto é, um palhaço completo. De agora em diante defenderei o voto nulo, pois não confio em nenhum desses políticos que nos representam tão bem. VOTO NULO NELES!!!!!!!!”

Lucas (9:27): “E que seja derramado sal sobre o solo maldito do Congresso Nacional. Brasil acima de tudo!”

Raphael Garcia (4:55): “Eu tenho 23 anos mas já me sinto um velho em termos de esperança”.

N. Zwiebel (1:51): “Será que esta corja lê a Bíblia, tem filhos, tem netos? Será que não tem vergonha na cara? E o governo não tem dinheiro para acertar a aposentadoria? Vão para o inferno!”

Roberto Prado (0:11): Cuidado, senhores, a paciência dos pacatos brasileiros pode acabar-se muito em breve”.

Em tempo: como sei que vou ficar muito nervoso com o jogo do meu São Paulo desta tarde contra o Corinthians, qualquer que seja o resultado, hoje não me arrisco a escrever o comentário de futebol de todos os domingos.

Bom final de domingo para todos os caros leitores do Balaio. 

 

 

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
18/04/2009 - 11:34

Paulo Francis não morreu, são muitos

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Ao terminar minha leitura de jornais e revistas neste sábado, lembrei-me de um velho amigo que era muito engraçado. Ele criou um personagem chamado Paulo Francis, que representou com muito talento e graça até o final da vida.

Mas engana-se quem pensa que Paulo Francis morreu. O personagem que ele criou está mais vivo do que nunca. Nem nos seus melhores momentos ele teve tanto espaço na imprensa brasileira. Cada publicação tem hoje em seus quadros de colunistas pelo menos uma contrafação, quer dizer, alguém que pretende ser como ele foi, criador de um estilo desbocado, debochado e sempre polêmico.

“Eu sei que você esteve em Nova York e não me ligou!”, cobrou-me certa vez na redação da Folha, falando alto para todo mundo ouvir. Francis parecia estar sempre num palco, mas estes rompantes só tinham graça com ele. Qualquer outro fazendo aquele papel ficava ridículo.

No final dos anos 70 do século passado, nos encontramos em Bonn, a antiga capital da então Alemanha Ocidental, para fazer a cobertura de uma reunião de cúpula, que naquele tempo acho que era só G-8.

William Waack, na época correspondente do Estadão, e eu, do Jornal do Brasil, ficamos assustados quando vimos o Francis entregar para a senhora do telex uma enorme matéria sobre a reunião que  só começaria no dia seguinte.

Ele tinha acabado de chegar à cidade, não havia ainda ninguém importante para entrevistar e ficamos preocupados em levar um furo de alguém que veio de Nova York para a cidade em nós éramos correspondentes. Com aquela cara de quem nos diz “como vocês são bobinhos…”, deu uma gargalhada e nos ensinou:

“Vocês acham que eu preciso entrevistar alguém aqui para saber o que vai acontecer? Já trouxe minha matéria pronta de Nova York… ha, ha, ha…”

Bastou apenas colocar a procedência Bonn na abertura da matéria e todo mundo iria pensar que escreveu a matéria na Alemanha. Francis transitava entre os fatos e a ficção com facilidade, como passou do teatro para o jornalismo, sem escalas.  

Uma noite, na minha casa, ele e o William resolveram discutir Marx, aquele mesmo, o Karl. Cada vez mais empolgados, um mais cheio de razão do que o outro, a certa altura o hoje apresentador do Jornal da Globo perguntou a Francis:

_ Você leu “O Capital” em qual tradução?

Não me lembro o que Francis respondeu, mas William deu-lhe um xeque mate no queixo:

_ Pois é, o problema é este… Eu li no original…

Foi a única vez que vi Francis recolher os flaps durante uma discussão. Hermano Henning, que era correspondente da TV Globo e eu demos boas risadas, mesmo sem entender nada do que eles estavam falando.

Com o tempo, Paulo Francis foi ficando cada vez mais Paulo Francis, esculhambando com tudo o que hoje chamam de politicamente correto _ um franco atirador que criou seu próprio nicho de mercado.

A diferença entre ele e seus muitos clones na imprensa atual é que Francis foi caminhando para a direita com o tempo e seu desencanto cada vez maior com o mundo, enquanto este pessoal de hoje já começou onde ele terminou.

Lei Antifumo

Um dos melhores repórteres que conheço é o mineiro Ricardo Amaral, que já rodou por quase todas as redações e hoje está na sucursal da revista Época, em Brasília. Ele me enviou a mensagem que transcrevo abaixo, com seu artigo sobre a Lei Antifumo que a revista publica esta semana. Vale a pena ler. É mais uma boa contribuição ao debate sobre este assunto bastante polêmico.  

Xará,
   
Cheguei atrasado ao debate sobre a lei antifumante do Serra, mas acho que tem aí uns argumentos novos, que interessam a fumantes e não fumantes.
O que me preocupa é o ovo do facismo por trás dessa cortina de fumaça. Vai aí o link da coluna na Época, se você quiser passar para os leitores do Blog, e também o texto em letras grandes pra gente que já fuma há muito tempo.
  Um abraço do
  Ricardo Amaral
 
Por que não proíbem

logo fabricar cigarros?
 
A lei antifumo de Serra não combate o cigarro:
ela estigmatiza o fumante e envenena a sociedade
 
 
Ricardo Amaral
 
 
 
É difícil apontar o pior defeito da lei antifumo que o governador José Serra fez aprovar na Assembleia Legislativa de São Paulo. Ela consegue ser iníqua, demagógica e ineficaz ao mesmo tempo. Serve pouco ou nada para reduzir os males ou combater o vício do tabagismo, mas contribui, e muito, para fomentar uma histeria discriminatória que anda envenenando as relações sociais. Não é uma lei contra o cigarro. É só mais um instrumento, com o peso do Estado, para estigmatizar o fumante.
 
Vou logo avisando: fumo, desde os 15 anos de idade, uma quantidade razoável de cigarros por dia. Não menos do que 15, às vezes até 30 ou mais, depende. Ao longo dos anos, prejudiquei a saúde e o bem-estar de quem conviveu comigo em salas, gabinetes, redações – e, pasmem as novas gerações, também em cinemas, teatros, ônibus e aviões (em elevadores, só na Europa). O tempo do tabagismo selvagem e estúpido passou. Meu passivo hoje é com minha própria saúde e com a estabilidade emocional dos meus filhos, minha mulher e de todos que gostam de mim, apesar do cigarro. Não são poucos motivos para parar de fumar. Posso dispensar o concurso do governador e dos senhores deputados.
 
Se o leitor continuar disposto a considerar os argumentos de um fumante, mesmo suspeito de parcialidade, vamos a eles. Basta um teste simples para saber se uma iniciativa é realmente eficaz para reduzir o consumo de cigarros: conferir a reação dos fabricantes. A Lei Serra nem sequer fez cócegas na indústria do fumo. Os sindicatos dos hoteleiros e dos donos de bares e restaurantes é que anunciam ações judiciais contra a nova lei. Devem ganhar, mas vão pagar o desgaste de uma ação considerada politicamente incorreta. A indústria do cigarro só se mexe quando é atingida no cofre, pela elevação de impostos, ou no balcão, pelo controle dos pontos de venda.
 
Há um detalhado estudo sobre a relação entre impostos, preços e consumo de cigarros feito pelo economista Roberto Iglesias para a Aliança de Controle do Tabagismo no endereço http://actbr.org.br/uploads/conteudo/200_Precos-impostos-ACTBR.pdf. Ele demonstra como a indústria brasileira viveu os últimos dez anos num paraíso fiscal de tabacaria, sob o pretexto de combater o contrabando, e como essa política aumentou o consumo interno. Entre 1998 e 2007, o peso relativo do IPI sobre os cigarros caiu de 36,3% para 20,5%, enquanto o número de maços vendidos no país passou de 4,8 bilhões para 5,5 bilhões. Aumentar imposto e preço é também a forma mais eficiente de reduzir a adesão de jovens ao vício.
 
Nada disso é novidade para o governador José Serra. Ele enfrentou a indústria do fumo e lhe impôs grandes derrotas quando foi ministro da Saúde. Proibiu a propaganda de cigarros na televisão e nos carros de Fórmula 1, obrigou os fabricantes a estampar aquelas fotografias repugnantes nas embalagens, colocou o Brasil na vanguarda da prevenção contra os males do fumo. Trabalhei na equipe do Ministério da Saúde em 1999 e sou testemunha do antitabagismo sincero de Serra. E me recordo de ter convivido com um ministro tolerante. Serra tinha até cinzeiros em casa.
 
A lei pode estar inspirada em boas intenções, mas o resultado é uma violência – não só contra o fumante. Ela começa pela abolição do livre-arbítrio. A pretexto de garantir o direito da maioria, ela proíbe o exercício da racionalidade. O cidadão é considerado incapaz de decidir sobre o que pode ou não pode fazer em espaços privados. Provavelmente é essa lógica autoritária que define o erro seguinte da lei: o desobediente não sofre sanção alguma, no máximo será removido por força policial. O fumante torna-se inimputável, como os índios e os loucos. Por fim, a aberração mais perigosa de todas: as multas previstas na lei recaem sobre o proprietário, responsável ou preposto que tolerar o fumo em locais de uso coletivo. É a terceirização da pena pelo crime que outra pessoa cometeu.
 
A lei é perniciosa na forma e perversa nas consequências porque estimula a delação. Ela envenena a convivência, a pretexto de limpar o ambiente. Se o Estado quer mesmo combater o vício, por que não proíbe logo a produção de cigarros e dispensa uma arrecadação anual de R$ 6 bilhões em impostos?
 
Não sei aonde o governador José Serra quer chegar apagando cigarros pelas ruas de São Paulo. Se ele olhar em volta, verá que o ex-presidente Fernando Henrique corre o mundo defendendo a legalização da maconha.

 

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
17/04/2009 - 09:38

Por que tanta gente quer ser jornalista?

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Faz muitos anos que os cursos de comunicação social que formam jornalistas são os mais cobiçados nos exames vestibulares. Faculdades de jornalismo pipocam por todo país, são centenas por toda parte.

Por isso, eu me pergunto: por que tanta gente quer ser jornalista, exatamente neste momento em que se anuncia a morte dos jornais e a nossa profissão é tão criticada pelo conjunto da sociedade?

Além disso, estamos prestes a ter uma decisão do Supremo Tribunal Federal, provavelmente acabando com a obrigatoriedade do diploma, o que, na prática, significa que qualquer um poderá ser jornalista, como já vem acontecendo.

Claro, eu sei que com o crescimento das novas mídias eletrônicas ninguém mais precisa ter diploma nem emprego para ser jornalista, pois cada um pode fazer seu próprio jornal na internet.

Mesmo assim, uns 50 mil jovens, ninguém sabe ao certo quantos, estão hoje cursando faculdades de comunicação para ter um diploma. Daqui a pouco vamos ter um contingente maior de estudantes do que o conjunto de profissionais em atividade.

Cada vez que faço uma palestra ou participo de debates em faculdades, vejo aquele mundão de gente no auditório e me preocupo com o futuro profissional daqueles jovens. Haverá emprego e trabalho para todos?

Emprego bom, não sei, mas trabalho certamente quase todos terão se quiserem mesmo ser jornalistas. Mudaram tanto as relações de trabalho que você hoje já não sabe quem é patrão e quem é empregado de quem diante dos milhares de títulos de impressos e de assessorias de imprensa, sites e blogs na internet.  

O mais difícil é saber por que e para que eles querem ser jornalistas. Fiz esta pergunta aos meus alunos quando dei aulas por um período na USP e na PUC/SP no século passado e poucos souberam responder.

Cheguei à conclusão de que a maioria estava ali porque jornalismo era a profissão da moda, sem a menor idéia do que gostaria de fazer na profissão, além de aparecer na tela da TV Globo, é claro, ou ter uma coluna na Folha ou na Veja.

Aquela velha história de idealismo, compromisso social, mudar o mundo, e todos os sonhos dos meus tempos de estudante, acabou. A grande maioria quer mesmo é se dar bem, fazer sucesso e ganhar uma boa grana, sem saber como.

Fico impressionado com a quantidade de estudantes que me procuram para dar entrevistas, fazer palestras, dar depoimentos para seus TCC (Trabalho de Conclusão de Curso, uma praga que inventaram para atazanar a vida de velhos jornalistas) ou simplesmente conversar sobre a profissão.

Muitos deles buscam apenas uma palavra de estímulo, um alento, já que em suas escolas os professores os desanimam tanto diante das dificuldades que encontrarão no mercado de trabalho que muitos desistem antes mesmo de tentar alguma coisa.

E, no entanto, a cada encontro com estudantes de jornalismo me surpreendo não só com a quantidade, mas também com o entusiasmo e a qualidade de alguns deles, dispostos a encontrar nesta profissão não apenas uma opção profissional, mas uma opção de vida.

Foi o que aconteceu na última segunda-feira, na Universidade São Judas, na Moóca, em que tive dificuldades até para sair do auditório. Estava com pressa porque tinha um outro compromisso naquela noite, mas eles queriam fazer mais perguntas até no caminho do banheiro.

Eu até agora não sei responder à pergunta que fiz no título deste post. Se algum leitor tiver a resposta, por favor me diga.

Abaixo, transcrevo a palestra, na esperança de que os estudantes interessados em saber o que penso encontrem as respostas que procuram e me deixem um tempo para poder fazer minhas matérias. 

   

1964-2009: 45 ANOS DE REPORTAGEM

 

 

         Boa noite, obrigado por terem vindo…

 

         Antes de mais nada, queria agradecer e dar os parabéns aos alunos que me convidaram e organizaram este encontro _ o Maurício Hermann, o Roberto Favaro, o João Luis e Lindemberg Rocha e a Patrícia Santos. 

 

         Já tinha decidido não fazer mais palestras gratuitas em faculdades este ano por dois motivos:

 

·       Preciso de mais tempo para me dedicar à reportagem e ao meu blog. Estava dando mais palestras e entrevistas do que fazendo matérias. Não está certo isso.

 

·       Como vivo do meu trabalho, apesar de aposentado, também não acho certo trabalhar de graça.  Todo trabalho deve ser remunerado.

 

Mas os colegas de vocês me convenceram a abrir uma última exceção e por isso estou aqui hoje para falar por amor à arte sobre o nosso ofício de repórter.

 

 

         Sei que ler um texto é chato, mas, apesar de ter trabalhado durante tantos anos com o presidente Lula, até hoje tenho dificuldades para falar de improviso.

 

Por isso, peço licença a vocês, para ler um texto que preparei sobre o tema proposto como introdução para o debate que teremos a seguir.

                           

Quero me dirigir principalmente aos jovens que ainda acreditam nos compromissos dos jornalistas de servir à sociedade com ética, fiéis ao seu tempo e à sua gente. 

 

Este ano, estou completando 45 anos de profissão, e continuo acreditando nestes princípios. 

 

Fui repórter na maior parte deste tempo, e ainda sou, mas já fiz de tudo um muito na carreira de jornalista _ menos trabalhar em circo, por enquanto…

 

 

De repórter estagiário a diretor de redação,

passando por editor, chefe de reportagem, correspondente na Europa, repórter, comentarista e diretor de televisão,

assessor de imprensa de candidato a presidente, Secretário de Imprensa da Presidência da República, e atualmente blogueiro profissional, já fiz um muito de tudo. 

 

Trabalhei, em diferentes cargos e funções, nos principais veículos da imprensa brasileira, com exceção da revista “Veja” e da TV Record. Fica mais fácil dizer aonde não trabalhei.

 

Para quem começou a trabalhar como ajudante de jornaleiro e depois foi “foca” de jornal de bairro, em 1964, até que não posso reclamar da vida…

 

 

Aprendi, logo no início da minha carreira, que uma das principais tarefas da imprensa é fiscalizar o poder público e denunciar o que tem de errado, sem deixar de contar o que está acontecendo de bom, sair dos gabinetes, contar histórias da vida real.

 

A imprensa era então chamada de quarto poder. Mas, nos últimos tempos, alguns jornalistas e alguns veículos parecem ter-se promovido por conta própria ao primeiro poder _ primeiro e único. 

 

Quer dizer, a mesma imprensa que investiga e denuncia, também julga e condena. A um só tempo, faz o papel de promotor e juiz, dona da ética e do destino.

 

Hoje, é fácil. As denúncias muitas vezes chegam prontas para os jornalistas _ em forma de dossiês, fitas, listas, como um serviço de delivery.

 

Vivemos, afinal, o mais amplo e duradouro período de liberdades públicas desde que me conheço por gente. 

 

Em geral, primeiro denunciam para só depois checar a veracidade do que foi publicado _ mais ou menos como o policial que primeiro atira para depois pedir documentos.

Mas nem sempre foi assim.

 

Em meados dos anos 70 do século passado, fui autor da primeira reportagem de denúncia publicada pela imprensa brasileira, depois da retirada da censura prévia no “Estadão”, instalada com o famigerado Ato Institucional nº 5. 

 

Com a colaboração de toda a rede de sucursais e correspondentes do jornal, coordenei uma série de reportagens sobre as “mordomias” do regime militar, relatando os abusos e privilégios de ministros e altos funcionários do governo federal.

 

O presidente da República era o general Ernesto Geisel e os jornalistas naquele tempo corriam risco de morte no exercício do seu trabalho. 

 

Mais ou menos nessa mesma época, meu colega Vladimir Herzog foi suicidado na prisão e vários outros jornalistas foram presos e torturados. 

 

Tive mais sorte e acabei indo trabalhar como correspondente do “Jornal do Brasil” na Europa.

                          

Sobrevivi para contar estas e muitas outras histórias no meu livro de memórias “Do Golpe ao Planalto _ Uma vida de repórter”, lançado pela Companhia das Letras, em 2006. 

 

Nele conto como se deu a passagem da ditadura à democracia, sob o ângulo de um repórter que viu e viveu de perto as mudanças no país e na imprensa na segunda metade do século passado.

 

         Como comecei em jornal no inesquecível ano de 1964, a partir daí relato o que aconteceu na imprensa e no país até 2004, quando trabalhei como Secretário de Imprensa, no Palácio do Planalto, com o presidente Lula.

 

O livro apresenta um registro destas quatro décadas, divididas exatamente em dois períodos de 20 anos: 20 anos de ditadura e 20 anos da nossa jovem democracia. 

 

No meio, como um divisor de águas, localizo a Campanha das Diretas, o grande marco no processo de redemocratização do país.

 

         A mesma grande imprensa que apoiara com entusiasmo o golpe militar de 1964 e, depois, foi colocada sob censura prévia em 1968, a partir do golpe dentro do golpe, demorou a se dar conta das mudanças, vinte anos depois.

 

No final dos anos 1980, um grande movimento popular estava ganhando as ruas para dar um basta à ditadura.

 

Trabalhava nesta época no jornal “Folha de S. Paulo” que, desde o primeiro momento, ainda nos últimos meses de 1983, abriu suas páginas e mobilizou toda sua equipe para fazer a cobertura da Campanha das Diretas.

 

Pela primeira vez, notei esta mudança de direção entre os chamados formadores de opinião, abrigados na grande imprensa, e a vontade popular expressa pela sociedade civil organizada.

 

Em vez de a imprensa fazer a cabeça do povo para ir às ruas, como aconteceu em 1964, agora era o povo nas ruas que obrigava a imprensa a ir atrás para descobrir o que estava acontecendo.

 

Com a liberdade reconquistada, a imprensa viveria um período de prosperidade, com investimentos em profissionais e máquinas modernas que produziam veículos graficamente cada vez mais bonitos.

 

Isso durou mais ou menos até meados dos anos 90, quando se instalou uma crise econômico-financeira na mídia. Algumas empresas até hoje lutam para sair dela. 

 

Redações foram progressivamente sendo reduzidas, ao mesmo tempo em que, para cortar custos, o espaço das reportagens na mídia impressa foi sendo ocupado por colunas e pelo noticiário burocrático cevado nos gabinetes e apurado por telefone. 

 

Em conseqüência, houve uma inversão de prioridades na pauta dos veículos. Em lugar das histórias sobre a vida no Brasil real, a mídia impressa passou a dedicar cada vez mais espaço ao Brasil oficial, aos bastidores e às futricas da disputa política, assim como à vida das celebridades.

 

Com a imprensa regional cada vez mais dependente do noticiário das três grandes agências nacionais _ Folha, Estadão e Globo _ , o resultado é que passamos a ter Brasília demais e Brasil de menos nos jornais e revistas.

 

É o caso de se perguntar hoje o que é causa e o que é conseqüência.

A mídia impressa deixou de produzir reportagens por causa da crise econômica dos veículos?

Ou a crise é justamente conseqüência desta mesmice, com os veículos cada vez mais parecidos uns com os outros e distantes do seu público?

 

 Nos anos mais recentes, essa situação se agravou com a concorrência das novas mídias eletrônicas. Agora, já não basta encontrar novas fórmulas para diferenciar um veículo do outro, mas também acrescentar algo a mais ao noticiário das agências on-line,  para diferenciar uma mídia da outra. 

 

Além disso, enquanto a grande imprensa de papel encolhia, emissoras de rádio e televisão passaram a investir cada vez mais em jornalismo. E se multiplicaram por toda parte os sites e os blogs.

 

Bem abastecido de informações durante todo o dia, o leitor dos jornais de prestígio passou a sentir um gosto de pão amanhecido no noticiário impresso que acompanha seu café da manhã.

Esta modorra só costuma ser quebrada quando surge um novo dossiê, uma nova fita ou entrevista explosiva capaz de balançar os alicerces da praça dos Três Poderes.

                                    

Em compensação, os jornais populares não pararam de crescer no mesmo período, incorporando um leitorado novo. Quase todas as grandes empresas investiram nesse filão, atraindo gente que nunca antes teve dinheiro para comprar jornal. 

 

O casamento do preço de capa bem mais barato com a melhoria de renda dos trabalhadores criou um novo e promissor mercado. Além disso, temos agora também os jornais distribuídos gratuitamente nas esquinas.

 

Por isso, entre outras razões, não faço coro aos profetas do apocalipse que anunciam há tempos o fim da imprensa de papel.

Assim como o cinema não acabou com o teatro, e a televisão não acabou com nenhum dos dois que vieram antes, acredito que todas as formas de divulgação de informações sobreviverão.

 

O que cada mídia precisa fazer será definir qual é o seu papel nesta história e ser capaz de atender às demandas da sua freguesia.

 

 

Para que isso seja possível, penso que se torna cada vez mais necessário estabelecer marcos regulatórios na comunicação social. De preferência, com a auto-regulamentação da atividade, tanto para empresas como para os profissionais, a exemplo do que já acontece com o CONAR, que zela pela ética na publicidade. 

 

Num mundo cada vez mais conectado à grande rede, em que seremos todos um dia, ao mesmo tempo, emissores e receptores de informação, há que se estabelecer regras do jogo claras para todos.

 

Só assim a liberdade de expressão e informação será realmente um direito da sociedade democrática e não um privilégio de interesses particulares de grupos políticos ou econômicos.

 

Assim como aconteceu lá atrás na Campanha das Diretas, assistimos hoje a um processo semelhante, em que a população já não se submete mais passivamente aos velhos donos da verdade, mas forma sua própria opinião a partir das mais diversas fontes e, principalmente, dos fatos concretos da sua própria realidade. 

 

 Na medida em que, pelas mais diferentes razões, a chamada grande imprensa deixou de acompanhar o cotidiano da vida real em largas regiões do país, ao invés de surpreender seus leitores, muitas vezes ela é que está sendo surpreendida pelos fatos.

 

De outro lado cresce a importância dos veículos regionais, das publicações independentes, das rádios e televisões comunitárias, um passo importante para a democratização das informações. 

 

Deixei para o final a parte mais importante da história: a grande revolução que a internet está provocando hoje nas relações humanas _ a maior desde que Guttemberg inventou a imprensa, faz uns 500 anos.

 

Quase 60 milhões de brasileiros já estão ligados à grande rede, tornando-se ao mesmo tempo emissores e receptores de informação, acabando com esta história de formadores de opinião.

 

Hoje, cada um quer formar a sua própria opinião e, se possível, influir na opinião dos outros…

Eu, se fosse vocês, querendo mesmo ser jornalista, começaria desde já a trabalhar na internet, nem que seja de graça… Só comecei neste mundo muito recentemente, já chegando aos 60 anos, e confesso que estou gostando muito…

 

Voltando à mídia tradicional. Para aproximar novamente um mundo do outro, quer dizer, a fábrica de papel impresso da realidade vivida por sua clientela, só tem um jeito.

É colocar novamente os dois em contato, falar a mesma língua, reaprender a contar histórias da vida real, não só contar mas também explicar o que está acontecendo.

 

É sair da redação, largar o telefone e as teses dos analistas políticos, botar outra vez o pé nas ruas e nas estradas, olhos e ouvidos bem abertos.

Para isso, sigo sempre a lição do velho mestre Cláudio Abramo. Ele dizia a ética do jornalista deveria ser igual à ética do carpinteiro _ ofício que ele também exercia nas horas vagas. 

 

Quer dizer, precisamos apenas ser honestos naquilo que fazemos, e fazer bem feito o nosso trabalho, qualquer que seja nosso cargo ou função.

Não é a função ou o cargo que faz o profissional, é o contrário: em qualquer cargo ou função, seja numa redação ou numa assessoria de imprensa, a nossa ética tem que ser a mesma.

 

Era assim que pensava e agia quando trabalhei como Secretário de Imprensa no governo.

 

Nós, afinal, prestamos um serviço ao público, para o conjunto da sociedade, e não para quem eventualmente nos paga o salário, seja uma empresa privada ou o governo.

 

O caminho que escolhi e segui quase a vida toda foi o da reportagem _ a melhor maneira de contar o que está acontecendo, de denunciar o que está errado, mas também de louvar as iniciativas de brasileiros que estão mudando a sua própria história e a do país.

 

É o que procuro fazer agora na “Brasileiros”, revista mensal de reportagens, uma iniciativa de alguns jornalistas da minha geração, que ainda não perderam a fé na nossa profissão, apesar de tudo.

Se alguém ainda tiver dúvidas de que vale a pena ser jornalista, basta dar uma olhada na revista, que já está completando dois anos.

 

Desde abril do ano passado, escrevo também no portal “IG”, onde mantenho um blog chamado “Balaio do Kotscho”. Não percam! 

Para mim, não faz a menor diferença se escrevo um texto para a internet, uma revista ou para um novo livro.

Nós, repórteres, somos contadores de histórias da vida real _ o meio usado para isso, a tal da plataforma, pouco importa.

 

Se antes, quando eu comecei, era arriscado e difícil denunciar a corrupção dos podres poderes de sempre, hoje o desafio que se coloca para nós profissionais é outro.

É não servir de instrumento a interesses político-partidários, sejam eles do governo ou da oposição, preocupando-nos unicamente em contar o que a sociedade tem o direito de saber sobre o que está acontecendo.

 

  Sei que pode parecer romântico ou utópico o que estou dizendo, especialmente se falo para jovens que muitas vezes já perderam a capacidade de sonhar e de ousar.

 

Mas sempre foi assim que entendi o nosso papel de repórteres _ esses historiadores do cotidiano que escrevem sobre o dia de hoje, sempre na esperança de contribuir para um amanhã melhor. 

 

Posso garantir a vocês que vale a pena tentar, mesmo remando contra a maré, mesmo dando murro em ponta de faca: é muito bom poder trabalhar como jornalista num país como o Brasil _ onde tanta coisa ainda está por ser construída e tanta história para ser contada.

 

Muito obrigado.

 

Ricardo Kotscho

 

 

 

 

 

 

  

 

 

 

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
16/04/2009 - 10:52

A farra da Câmara que nós pagamos

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Virou deboche. Gostaria muito de mudar de assunto, mas não dá. Cada dia de manhã em que abro o computador para ver as novidades, procuro alguma notícia boa, mas vem sempre mais uma denúncia escabrosa, outro escândalo, novo esculacho na nossa cara. Até quando?

“Deputados e parentes vão ao exterior e Câmara paga”, informa a manchete aqui do iG. Vou ler a reportagem dos colegas Lúcio Lambranho, Edson Sardinha e Eduardo Militão, do excelente site Congresso em Foco (www.congressoemfoco.com.br), e simplesmente não consigo acreditar no que eles contam.

É um soco no estomago de quem trabalha para pagar suas contas e seus impostos.  Em resumo: nossos deputados estão levando a família e os amigos para dar a volta ao mundo com suas cotas de passagens, que chegam a ultrapassar R$ 28 mil por mês _ sim, por mês. Isto dá para fazer nove viagens à Europa.

Como eles não conseguem gastar tudo sozinhos, resolveram socializar a farra _ só entre parentes e amigos, claro. Nos últimos dois anos, revela a matéria, cinco dos 11 integrantes da Mesa Diretora utilizaram suas cotas para bancar 49 viagens internacionais pela Europa, Estados Unidos e América Latina. 

Na  verdade, quando se diz que a Câmara paga, quem paga somos todos nós, que sustentamos esta esbórnia.

O pior é que ninguém mais tenta negar as denúncias, mas justificá-las, achando tudo muito normal.

“Cada parlamentar faz o que quiser com sua cota”, diz na nossa cara, o inacreditável Inocêncio de Oliveira (DEM-PE), um dos campeões do turismo parlamentar internacional, que está sempre na Mesa Diretora, de onde não sai nem amarrado.

Vamos pegar só o caso dele para ilustrar:

* A mulher de Inocêncio, Ana Elisa Oliveira, e a filha Shely ganharam passagens para quatro trechos cada uma: São Paulo-Nova York, Nova York – São Paulo, São Paulo-Frankfurt e Milão-São Paulo.

* Outras duas filhas viajaram três trechos: São Paulo-Nova York; Nova York- São Paulo e São Paulo Franfurt.

* Exemplar pai de família, ele também não esqueceu da neta Amanda, contemplada com os trechos São Paulo – Miami e Miami- Salvador.

É ou não é uma festa? Lendo estas coisas dá para entender os comentários cada vez mais raivosos enviados pelos leitores reagindo aos posts publicados neste Balaio sobre a proposta do senador Cristovam Buarque (PDT-DF) para se fazer um plebiscito sobre o fechamento ou não do Congresso Nacional.

Critiquei a proposta de Cristovam e fui criticado pelos leitores. Em sua absoluta maioria, eles não só apoiaram a idéia do plebiscito como atacaram com ira cada vez maior a atuação dos parlamentares.

“Que gente mais sem vergonha na cara”, resumiu, à 1:50 de hoje, a leitora Adailza. Há um abismo crescente entre o que dizem placidamente os deputados e senadores cada vez que são pegos em flagrante _ “o regimento permite, não fiz nada de ilegal”, reagiu o Inocêncio _ e o que pensam os leitores/eleitores.

Para João Band, das 23:32 de ontem, a culpa é deles: “Sabe quem colocou esta corja lá? E vai continuar colocando? Nós, todos nós.”

Está chegando um ponto em que não tenho mais nem o que dizer. Dá nojo.

E ainda tem gente que diz que sempre foi assim. Não é verdade. Li outro dia um artigo do ex-deputado federal Davi Lerer, sobrevivente da primeira turma de parlamentares em Brasília, quando a nova capital foi inaugurada, em 1960.

Conta ele que os deputados naquela época só tinham direito a quatro passagens por mês de ida e volta a seus Estados de origem, mais nada _ e só eles poderiam utilizá-las. 

Não tinham direito a carro (uma kombi ia buscá-los no hotel), nem a assessores e secretárias de gabinete. Aliás, nem gabinetes individuais tinham, muito menos este acinte das verbas indenizatórias e todas as mordomias que foram se empilhando com o tempo.

Bons tempos, aqueles. Depois, veio a ditadura militar, implantada, entre outros motivos, para acabar com a corrupção. Pois, sim. Temos aí o resultado do tempo em que a imprensa era censurada e não podia denunciar tudo o que agora vem a público sobre os podres poderes da nossa República.  

Eles estão rindo de nós.

 

 

   

 

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
14/04/2009 - 15:43

Cristovam explica idéia de plebiscito

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Uma semana depois de todo barulho causado pela proposta em que lançou a idéia de um plebiscito, para o povo decidir se deseja ou não o fechamento do Congresso Nacional, recebi do senador Cristovam Buarque o texto, que reproduzo abaixo, no qual ele explica a origem da polêmica.   

Tudo começou numa despretenciosa entrevista do senador ao blog do colega Magno Martins, de Pernambuco, e correu célere até chegar à tribuna do Senado, mostrando como a internet mudou as relações entre os políticos e a opinião pública.

Cristovam revela que aprendeu quatro lições com este episódio, a principal delas, a meu ver, mostrando que, se o plebiscito fosse mesmo realizado, a maioria absoluta da população votaria pelo fechamento do Congresso Nacional.

Entre a entrevista e o artigo, mais uma enxurrada de denúncias contra os parlamentares nos últimos dias alagou os salões acarpetados da ilha da fanstasia onde eles vivem.

A mais recente, revelada hoje, dá conta de que um deputado do Rio Grande do Norte, Fábio Faria, do PMN usou sua cota para pagar com dinheiro público passagens para a ex-namorada Adriane Galisteu, a mãe dela, e outros artistas.

Ao se explicar, Faria lançou mais uma novidade: Adriane era como se fosse sua parente. Se esse critério vingar, e tivermos que pagar as passagens de todas as namoradas dos senhores deputados e senadores como se fossem parentes, estamos fritos.

Vale a pena ler o artigo em que o senador Cristovam Buarque faz uma serena e, ao mesmo tempo, dramática análise do atual momento vivido pelo Congresso Nacional:

 

 Lições de uma Frase

Cristovam Buarque

 

Na semana passada, em Recife, em entrevista por telefone para o blog do Magno Martins, respondi que diante da crise de credibilidade do Congresso, em breve surgiria uma proposta de plebiscito para o povo decidir se deseja ou não um Parlamento aberto. A dimensão tomada pela divulgação desta frase, no blog, permite algumas lições.

A primeira, de como uma frase por telefone, de dentro de um carro no meio do engarrafamento, em poucas horas se espalha por todo o Brasil. Quando cheguei aonde ia, já havia jornalista me ligando para saber sobre o assunto.

Anos atrás, a frase ficaria restrita a poucas pessoas, porque demoraria tanto a se espalhar, que se espalharia morta. Esta lição nos permite descobrir que os políticos, como eu, não estamos preparados para os novos tempos das comunicações universalizadas e instantâneas. O Parlamento também não.

Apesar desta instantaneidade universal das informações e, portanto, das imediatas manifestações de vontade da população, nós parlamentares continuamos agindo no mesmo ritmo de décadas ou mesmo séculos atrás.

Nossos projetos de lei demoram anos, ou décadas, para esgotarem todo o processo até aprovação ou rejeição. Ficamos um poder atrasado em relação ao Executivo, daí as Medidas Provisórias como uma necessidade, mas que terminam paralisando o Congresso. Mas, além do oportunismo do Executivo, as MP são fruto da baixa velocidade como o Congresso desempenha suas funções. Esta é outra lição.

Outra, mais grave é a prova de que o Congresso está tão desmoralizado, que nenhum dos críticos à frase levantou a hipótese de que o plebiscito poderia receber o voto favorável do eleitor para manter o Congresso funcionando.

A crítica considerando a frase golpista demonstrou que todos tomaram a idéia do Plebiscito como se a resposta fosse um claro e rotundo apoio ao fechamento, não à manutenção. Esta é a mais importante das lições.

Os formadores de opinião estão convictos de que o povo deseja fechar o Congresso. Caso contrário, teriam tomado a idéia de um plebiscito como o momento da reafirmação do Congresso, que receberia o apoio popular.

Uma quarta lição é como as frases adquirem vôo próprio, transformam-se e passam a definir o que não estava na sua origem. Eu quero abrir o Congresso, não fechá-lo, como ele de certa forma está neste momento.

As pessoas já esqueceram que durante os 21 anos do regime militar, o Congresso só esteve fechado por poucas semanas. Estava aberto todo o tempo, mas era irrelevante e inoperante, e não respeitado pela opinião pública. Até 1978, quando novos parlamentares começaram a falar contra o regime e articularem o fim da ditadura. Imediatamente recebeu o respeito e o reconhecimento do povo porque essa era a pauta do povo: a anistia, as eleições diretas para presidente, o fim do exílio, da tortura e das prisões políticas.

Alguns congressistas estavam sintonizados com o povo. Mas nem todos. A emenda das diretas foi recusada pelos congressistas, muitos deles até hoje com mandatos. Naquela época, um plebiscito teria aprovado as eleições diretas, o Congresso, com sua elite bem formada, derrubou-a.

A crise do Congresso é imensa e não adianta imaginar que vai ser resolvida sem um choque de idéias levando em conta o que o povo deseja. Até recentemente, o povo ficava silencioso entre as eleições, agora, a mídia, por todos seus meios modernos, colocou o povo na “rua virtual” que leva uma frase de dentro de um carro para o País inteiro.

Não vai demorar que esta rua se manifeste. Pode ser de forma eleitoral, substituindo todos os atuais parlamentares, nas eleições de 2010, pode ser de formas não eleitorais, que ainda não conhecemos, porque ainda não sabemos como vai agir, no futuro, no Brasil, a “rua virtual”. Nos EUA ela encontrou seu caminho e elegeu um negro para presidente, contra a vontade da elite que teve esta oportunidade por mais de dois séculos.

Não há forma de manter um Congresso aberto, durante a democracia, sem que esteja respeitado e sintonizado com a opinião pública. Há golpes barulhentos e golpes silenciosos, uns que fecham o Congresso e outros que o mantém aberto, mas irrelevante, sem sintonia com o povo, desmoralizado.

Esse golpe silencioso está em marcha, por culpa de nós próprios parlamentares, todos nós, não coloquemos a culpa em apenas alguns. E uma das culpas é o silêncio. Melhor passar a aparência de golpista por mostrar o risco de o golpe acontecer, do que ficar no silêncio omisso diante do golpe que já está acontecendo.

Outra lição é de que o político hábil é aquele que não corre risco dizendo frases polêmicas. A polêmica pode levar a desgastes de dimensões fatais eleitoralmente. O bom político é o silencioso, que trabalha sem polêmica, que concentra sua ação nas articulações internas ao Congresso e no convívio dos seus eleitores. Esta lição eu não vou seguir. Não vale a pena ver os problemas sem fazer deles o alarde que a história precisa um dia saber que foi feito.

 

Cristovam Buarque é professor da Universidade de Brasília e senador pelo PDT/DF

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
13/04/2009 - 10:29

Leitores debatem a Lei Antifumo

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Como era de se esperar, apanhei feito cachorro magro de muitos leitores ao criticar os exageros da Lei Antifumo do governador José Serra, que praticamente prevê o banimento do cigarro, aprovada na semana passada pela Assembléia Legislativa de São Paulo.

Mas o que eu não esperava, já que as pesquisas nos indicam que 80% da população aprova medidas restritivas ao fumo, é que a lei dividisse tanto os leitores, a ponto de uma grande parte, incluindo não fumantes, considerar exageradas as proibições.

Segundo assunto mais comentado na semana passada no Balaio e na Folha, a Lei Antifumo do governador mobilizou leitores de todo o país e o que mais me chamou a atenção foi o alto nível das mensagens enviadas.

A favor ou contra a lei, a maioria argumentou com educação e respeito aos que pensam diferente no post “Cigarro adverte: governo faz mal à saúde”, alguns até com bom humor. Trata-se, como sabemos, de um assunto que envolve temas delicados como a saúde pública e a liberdade individual.

Marcus Corrêa (14:22) pegou pesado e mandou ver: “Você tem a capacidade de se superar a cada dia. Cada dia pior. O paladino das causas imbecis e seus seguidores”.  

Reinaldo (14:21) ficou preocupado com outra coisa: “Só falta proibirem sexo no motel… Eu não sou fumante, mas se vou a um bar que tenha fumante, o problema é meu, não preciso do Serra zelando pela minha saúde”.

Dos mais de 220 comentários enviados _ li todos _, tive que excluir apenas dois por conterem ofensas graves, sem acrescentar nada à discussão. Este é um ponto positivo: desde que comecei a fazer moderação de comentários, os cachorros loucos se afastaram e o debate ganhou qualidade, como se poderá observar por algumas mensagens que reproduzo abaixo.

Outra novidade que me deixou bastante contente foi que a maioria dos leitores passou a escrever aqui com sua verdadeira identidade.

Muitos estão colocando seus nomes completos, endereços de e-mail e até fotos, algo que é raro nesta rede infestada de anônimos, codinomes, pseudônimos, niks, comentaristas fixos, que passam o dia batendo papo nos blogs naquele velho esquema do me-chupa-que-eu te-chupo.

Como os argumentos de quem é a favor da lei já são mais do que conhecidos _ e ninguém ignora os males causados pelo cigarro a fumantes e não fumantes _, selecionei alguns comentários por tratarem exatamente do que destaquei no meu texto: os direitos individuais e os exageros da lei. Alguns exemplos:

Bradock (17:07): “Não é matando o cavalo que se acaba com o carrapato”.

Rodney (16:57): “Enquanto isso, a liberdade de todo mundo vai sendo arrancada a forceps e todo mundo fica quieto e ainda aplaude”.

Fábio José de Mello (15:36): “Se o governo quiser ajudar as pessoas a largarem o cigarro, que faça como foi feito com a Aids: tratamento gratuito, universal, com o que há de mais moderno na Medicina. Fora disso é factóide; peça publicitária para ser criada durante a propaganda eleitoral”.

Robson de Oliveira (15:32),  lembrando de uma frase do livro “O Gênio do Crime”, que leu nos seus tempos de ginário: “Senhor, os chatos são bichos muito esquisitos e estão sempre com a razão. Mas, o mais importante na vida, não é ter ou não ter razão… O mais importante na vida é não ser chato”. 

Harry (15:29): “Quando o governo te proibe de fazer algo, quando ele não te dá opções, ele está privando a sua liberdade de escolha. Se você tiver a opção de ir a um bar que proibe fumar e a um outro que permite fumar, você iria ao de não fumantes, correto?”.

Mauro D´Fant (15:26): “E eu pergunto: o que será que um não fumante iria fazer em um fumódromo?”

Por razões óbvias, já que tenho três netos, o comentário que mais me tocou foi o de Gabriela, de 11 anos (12:36), filha de um leitor do blog, que reclamou do avô fumante e, claro, gostou da lei.

O mais radical foi Felipe (23:20), que pediu para eu ser demitido e me recomendou continuar fumando para morrer logo.

Daniel (15:21) resumiu o pensamento de outros leitores ao avisar que irá fiscalizar a aplicação da lei e chamar a polícia se ela não for cumprida. “Espero que existam mais pessoas assim…”.

Pelo jeito, vão surgir logo, logo os “fiscais do Serra”, assim como já tivemos os “fiscais do Sarney”, na época do boi gordo no Plano Cruzado, lembram-se? Essas coisas acabam gerando mais intolerância, uma guerra fumantes vs. não fumantes, e costumam não acabar bem.

De tudo o que li sobre o assunto nos últimos dias foi exatamente a decisão do governo estadual de deslocar 250 fiscais de outras áreas para garantir o cumprimento da Lei Antifumo que me chamou a atenção. Só na cidade temos mais de 27 mil bares e restaurantes para eles fiscalizarem. Eles não farão falta nos seus serviços de origem ou eram supérfluos? 

Ao mesmo tempo, li no Estadão, durante o feriado, que São Paulo tem fila antiga para tratamento antifumo.

“O problema é que 550 pessoas já aguardam nos dois principais centros de tratamento da capital e faltam remédios, fornecidos pelo governo federal”. Mais adiante, o jornal revela que, dos 88 serviços capacitados pelo sistema Único de Saúde (SUS) para oferecer tratamento completo a quem deseja parar de fumar, apenas 53 ofereceram algum tratamento.

O próprio secretário da Saúde, Luiz Roberto Barradas Barata, reconhece que “a entrada em vigor da lei não vai, necessariamente, fazer a pessoas deixarem de fumar”.

Se é assim, não seria o caso de, antes de chamar os fiscais e a polícia, o governo botar os postos do SUS para funcionar, providenciar a contratação de mais profissionais de saúde especializados e comprar mais remédios?

A lei só deve entrar em vigor daqui a 90 dias. Até lá, o debate sobre a Lei Antifumo certamente ainda causará muita polêmica e batalhas judiciais. Com a palavra, sua excelência, o leitor.

 

     

 

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
12/04/2009 - 19:35

Valeu, Olivetto, o Timão mereceu

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Antes que o Washington Olivetto me ligue para cantar o hino corintiano (não vou chamá-lo de corintiano doente porque seria redundância), e os leitores me cobrem para falar do jogo que o meu Tricolor perdeu esta tarde, já vou logo reconhecendo que a vitória do Timão, por 2 a 1, na tarde deste domingo, no Pacaembu, foi mais do que merecida.

Mais merecido ainda do que o Corinthians ganhar, foi o São Paulo perder. Tanto se retrancou, jogou para o lado e fez cera que o time de Muricy estava pedindo para tomar o gol que acabou dando a vantagem ao Corinthians no jogo do próximo domingo no Morumbi.

E que belo gol! O lance todo foi a síntese do jogo. Aos 48 minutos do segundo tempo, em vez de dar um bicão pra frente, Jorge Wagner ficou fazendo firula na lateral do campo. O volante Cristian foi lá, tomou-lhe a bola na raça e correu em diagonal até a entrada da área, como se não tivesse adversários, de onde acertou uma bomba no canto do goleiro Rogério.

Parecia que o Corinthians já havia ganho o campeonato, tamanha a festa da torcida e dos jogadores. Na hora da onça beber água, não adianta só ter estrutura, elenco, comissão técnica. O que vale é a garra de cada jogador em campo _ e isto, que o alvi-negro teve de sobra, faltou ao meu São Paulo.

Quem leu meu comentário da semana passada sabe que não fiquei surpreso com este resultado. Escrevi que este ano não havia favorito para o título e, se tivesse que arriscar um palpite, colocaria Palmeiras e Corinthians disputando a final, pelas campanhas dos dois times no primeiro turno.

No sábado, o Santos, último dos quatro a se classificar, reverteu a vantagem do Palmeiras, ganhando de virada por 2 a 1. Hoje, o Corinthians repetiu a dose contra o São Paulo, e eu não arrisco mais palpite nenhum.

Só de uma coisa tenho certeza: se continuar jogando burocraticamente para os lados como tem feito até agora, correndo só para o gasto, com o regulamento na mão, o São Paulo desta vez vai ficar de fora da final.

Não se salvou ninguém. De Rogério Ceni, que quase tomou outro frango, a Washington, que não pegou na bola, e Borges, que conseguiu perder um gol feito, sozinho diante do goleiro, passando por um Hernanes irreconhecível e o Jorge Wagner, que passou o jogo entregando o ouro, nada fez lembrar o tricampeão brasileiro do ano passado. 

Jogando contra o campeão da Segunda Divisão, parecia que os times tinham invertido os papéis, com o Corinthians o tempo todo no ataque e o São Paulo tentando se defender de qualquer jeito, olhando mais para o relógio do que para a bola.  

Ganhou quem ousou mais e suou mais a camisa. Ronaldo desta vez não fez gol, mas foi um batalhador, como todos os seus companheiros, com destaque para o jovem Elias, um craque na defesa e no ataque. Foi justo, meu caro Olivetto. Nada mais tenho a declarar.

As mais comentadas

Como faço todos os domingos, publico abaixo o levantamento dos três assuntos da semana mais comentados no Balaio, na Folha e na Veja:

Balaio

O plebiscito de Cristovam: 484

Lei Antifumo: 225

O deputado ético e a empregada: 86

Folha

Congresso: 69

Lei antifumo: 53

Lula: 47

Veja

Transplantes: 28

Lya Luft: 26

Caso Daslu: 25 

   

 

 

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
11/04/2009 - 14:59

Ondas de 3 metros, canoas paradas

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SÃO SEBASTIÃO _ Daqui de onde escrevo, na varanda da minha casa, a meio caminho entre o mar e a montanha, dá para ouvir o barulho das ondas estourando na praia. O sábado amanheceu muito bonito, sem nenhuma nuvem no céu, as barracas todas montadas, ambulância, guarda municipal, as canoas esperando pelos competidores.

O povo foi chegando a pé, de ônibus e de carro, vindo de várias partes, estava tudo montado para  o 18º Torneio Aleluia de Canoagem (ver o post de ontem).

Mas quem sabe do mar, como os pescadores concorrentes, que chegaram de muitas praias e cidades vizinhas, percebeu logo que não havia a menor condição para a corrida de canoas _ a grande atração da festa anual no Toque Toque Pequeno, antiga aldeia de pescadores neste pedaço encantado do litoral norte paulista.

Uma ressaca brava, com ondas de três metros de altura, fizeram a Defesa Civil hastear a bandeira vermelha, quer dizer, ninguém poderia entrar no mar. As velhas canoas ficaram paradas na praia, mas a festa foi bonita assim mesmo.  

Sem se abalar, a incansável organizadora do evento, minha amiga Cristiane Lara de Oliveira, filha do Dico e da Lara, antigos moradores desta aldeia, encontrou logo uma solução para que ninguém ficasse triste: as cestas básicas e os 100 reais que os vencedores receberiam como premio foram sorteados entre todos os inscritos.

E as pessoas que vieram de longe para assistir à corrida também não perderam a viagem. Às nove da manhã, como previsto, Dico e sua equipe acenderam o fogo da churrasqueira em que seriam assados os 300 quilos de peixe doados para a festa, distribuidos de graça para todo mundo que apareceu, assim como os 1.000 cachorros quentes e os refrigerantes. Só a cerveja foi cobrada, a um real a lata.

A ressaca foi tão forte que tomou a faixa de areia e invadiu o local da festa em que foram montadas as barracas de comes, bebes e artesanato, e levou mesas e cadeiras do Barracuda, o meu bar-escritório na praia, de onde assisti a este belo, mas assustador espetáculo do mar mais bravo que já tinha visto.

Com crise ou sem crise, com ressaca ou sem ressaca, com corrida ou sem corrida de canoas, o povo aprendeu que o mais importante é não perder a alegria para fazer festa, seja como for.

Ainda aproveitei para comprar um belo caderno destes para fazer reportagem sem gravador, com capa de folha de bananeira, feita pela artesã Carmem, uma gentil senhora que me escreveu esta dedicatória:

“Ao senhor Ricardo, feito com carinho para uso carinhoso, Carmem L. Prado”.

Antes de ir embora, encontrei o velho amigo Dinho Leme, o antigo e novo baterista dos Mutantes, uma das melhores figuras que conheci na vida. Tomamos uma cerveja juntos e assim ganhei mais um dia honestamente. Não posso reclamar da vida…  


Foto: Priscila Cestari

 

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
10/04/2009 - 11:10

Corrida de canoas, tradição ameaçada

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Filha, neta e bisneta de caiçaras do Toque Toque Pequeno, em São Sebastião, Cristiane Lara de Oliveira, 34 anos, nasceu aqui nesta antiga aldeia de pescadores no litoral norte paulista, formou-se em Relações Públicas pela Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo, e voltou para se dedicar a uma difícil missão: resgatar a cultura da sua gente e suas tradições.

Neste sábado de aleluia vai ser seu grande dia. Na bela praia em frente à sua casa, pescadores de várias praias do município disputam mais uma corrida de canoas, a principal atração de uma festa que vai durar o dia inteiro, com barracas de artesanato, comidas e bebidas, campeonato de volei e corrida para crianças.

Foi Cristiane quem organizou tudo. Desde que assumiu, há um ano, a presidência da Sociedade de Amigos do Toque Toque Pequeno (SAPEQUE), sua principal preocupação foi resgatar o Torneio Aleluia de Canoagem, criado em 1992 por sua mãe, Lala, junto com três amigos, Ana, Messias e Hiram, e que nos últimos anos vinha definhando.

Assessora da Câmara Municipal de São Sebastião, nos últimos 40 dias ela providenciou tudo com a ajuda da Prefeitura e doações de empresas e moradores do bairro: guarda muniicipal, ambulância, defesa civil para acompanhar a regata de canoas, banheiros químicos.

Mas o mais difícil foi arrebanhar os competidores para a corrida de canoas porque já não se fazem pescadores artesanais como antigamente. Não bastaram os cartazes espalhados pela cidade. Ela teve que ir na casa de cada um para convidá-los pessoalmente.

“Nestas visitas aprendi coisas interessantes, situações emocionantes e uma triste realidade: esta tradição está com os dias contados. Descobri que os caiçaras, principalmente os das antigas, não vão a uma festa apenas vendo cartazes e faixas de divulgação. Gostam de ser prestigiados com a nossa visita”.

Cristiane teve que insistir muito com “Pilico”, um dos pescadores mais antigos do município, morador da praia da Juréia.

“Ao ver o convite que lhe levei, “Pilico” ficou com os olhos cheios de lágrimas. De escorrer muito! Ele se lamentou, como a maioria dos caiçaras com quem falei, explicando que já estava um pouco velho e não tinha mais canoa. Ele me disse: “Isto está acabando…” Então eu disse para ele: “Me ajude a manter esta tradição”.

Cristiane ficou de arrumar uma canoa para ele e “Pilico” vai concorrer na categoria terceira idade. São quatro provas para canoas com um, dois, três ou quatro remos, mas nem ela sabe quantos competidores vão aparecer neste sábado.

“A triste realidade é que a maioria dos caiçaras está deixando a canoa de lado para trabalhar como marinheiro nas marinas ou caseiro nas casas de veraneio. Como nosso evento sempre acontece no sábado de aleluia, eles têm que ficar à disposição dos patrões. É uma situação triste pelo lado cultural, mas pelo menos eles agora têm um empego fixo…”.

Com o patrocínio que conseguiu no Bradesco, pelo menos uma tradição está garantida, mesmo que se confirmem as previsões de ressaca brava no mar para este sábado, o que ameaça o sucesso da corrida: comida e bebida de graça para todos não vai falar.

São 300 quilos de peixe, 600 litros de refrigerante e 1.000 cachorros quentes. Ao contrário dos outros anos, apenas a cerveja será cobrada, a um real a lata, para evitar o desperdício e ajudar a pagar as despesas. Tomara que o tempo ajude e a ressaca passe longe.

Boa páscoa para todos! 

 

 

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
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